sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

GIBITECA DE SANTOS FAZ HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

A Gibiteca Municipal Marcel Rodrigues Paes, Posto 5, faz neste dia 05, uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher com um bate-papo sobre as mulheres e o mercado de HQs. Participam a jornalista Gabriela Franco, a desenhista Germana Viana, a professora Natania Nogueira, a quadrinista Camila Torrano, a pesquisadora Dani Marino e a professora Sonia Luyten, que irá participar à distância.

Gabriela Franco é jornalista especializada em Cultura Pop e cineasta. Colaboradora das revistas: Mundo dos Super-Heróis, Mundo Nerd e dos sites Judão e Popground. Fundadora do coletivo MinasNerds e editora do site MinasNerds.com.br

Germana Viana nasceu em Recife, mas mora em São Paulo. Desenhista e roteirista, é autora de “Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço” e integrante do coletivo de quadrinhos CBGiBi. Entre suas publicações estão também a coletânea "SPAM" (Zarabatana Books, 2015). Trabalha ainda como ilustradora, letrista e designer para editoras como a Panini e a Jambô.

Natania Nogueira formou-se em História pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Cataguases (1992), fez especialização (lato sensu) em História do Brasil pela UFJF (1997) pesquisando História Regional, tendo como foco o papel das escolas na formação de elites mineiras. Uniu a paixão pelos quadrinhos com a história com o mestrado “As representações femininas nas histórias em quadrinhos norte-americanas: June Tarpé Mills e sua Miss Fury (1941 – 1952).”

A quadrinista Camila Torrano é uma ilustradora apaixonada por terror/horror e graduada em Artes Visuais na USP. Trabalhou para diversas publicações impressas, ilustrou livros, lançou alguns quadrinhos em revistas de publicação independente (Quadreca, Garagem Hermética, Cão). Em 2012 lançou seu primeiro trabalho solo, a história em quadrinhos A Travessia (Escrita Fina Edições). Atualmente trabalha em uma empresa de games para mobiles, faz freelance eventualmente e continua sua produção de quadrinhos e ilustrações autorais. É integrante da Organização Fictícia, onde trabalha com quadrinhos e ilustrações.

Dani Marino possui graduação em Letras - Inglês pela Universidade Metropolitana de Santos (2012). Integrante da Associação de Pesquisadores de Arte Sequencial (ASPAS) desde setembro/2014 e colaboradora do blog Quadro-a-Quadro desde 2013, também participa dos Colóquios científicos do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA – USP. Recentemente aprovada para o Mestrado da Escola de Comunicação e Artes da USP, Dani fará sua dissertação sobre a Gibiteca de Santos.

A professora doutora Sonia Luyten é uma das pioneiras no estudo dos quadrinhos no Brasil e uma das primeiras a quantificar e qualificar o trabalho das mulheres nas HQs. Autora de várias obras sobre o estudo científico dos quadrinhos, Sonia foi professora convidada em universidades do Japão, Holanda e França. Especializada no estudo dos mangás, foi uma das fundadoras da ABRADEMI, Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações.

A Gibiteca fica na avenida da praia, no Posto 5, bem em frente à rua Oswaldo Cruz, no bairro do Boqueirão em Santos. Mais informações pelo telefone 32881300.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Mary Del Priore - Um Rio de Histórias

Mary del Priore​ agora participa de um programa na CBN toda segunda,  às 10h45. O primeiro programa fala sobre o transporte público no Rio e da Revolta do Vintém.

Vale a pena conferir! 


sábado, 9 de janeiro de 2016

ENTREVISTA COM CHANTAL MONTELLIER

Entrevista a seguir foi realizada no dia 26 de janeiro de 2015. Na verdade é uma parte dela, que eu traduzi (então peço desculpas antecipadas caso o texto não fique totalmente claro) que acredito seja de relevância geral. 

Chantal é muito direta nas suas respostas, é pragmática e não “papas na língua”. Deixa bem claro o que pensa sobre a situação atual dos quadrinhos na França, seja sua utilização pedagógica, sua tendência editorial e a participação das mulheres. Ela não tem uma visão “cor de rosa” sobre o futuro da indústria do quadrinhos, no que tange ao engajamento político e social dos autores e autoras, privilégio de quem tem uma larga experiência construindo uma carreira onde não faltaram obstáculos.

*****
Natania Nogueira - Dentro da sua experiência profissional, como a senhora avalia o potencial político e pedagógico das Histórias em Quadrinhos?

Chantal Montellier - Se eu me recordo dos números, ao longo de 2014 mais de 5000 álbuns de quadrinhos foram lançados na França. Portanto o gênero parece prolífico e bem sucedido.  Se olharmos o conteúdo desses álbuns, eles possuem bastante diversidade dentro da qual a política e a pedagogia são ainda minoritárias. 

Os quadrinhos são um artesanato, uma arte, que associa texto e imagem, multiplicando desta forma suas potencialidades. A força de uma obra deste gênero, por menor que seja, deve-se – além da sua atratividade - à sua distribuição e difusão. Ao contrário de uma pintura ou uma escultura, um álbum de HQ pode ser transportado consigo, ele pode ser visto e lido em toda parte, das prateleiras das livrarias às bibliotecas, mediatecas e gibitecas públicas ou privadas, mesmo em um consultório médico ou no transporte público. Uma HQ pode também ser distribuída na forma de um panfleto na saída de uma empresa ou de uma fabrica, e isso foi muito praticado durante certa época (nos anos 1970)... Daí uma sutil reação para recolocá-los no seu lugar.  Atualmente as HQs têm servido para fins comerciais, distrair crianças e adolescentes pré e pós-púberes e “renarcisar” alguns “bobos”[1] com problemas de ego, daí a onda recente de autobiografias dos últimos anos (vide uma estrutura editorial como Egocomix).

Dito isso, este potencial político e pedagógico é próprio – em diferentes proporções – a toda forma de expressão e não apenas aos quadrinhos.

Uma coisa que me parece evidente, hoje em dia, é que a HQ comercial e de entretenimento domina claramente o mercado, enquanto quadrinhos como "ferramentas" de emancipação, de tomada de consciência, de liberação e de educação popular estão, eu acredito, muito mal representados. O potencial pedagógico e político desta mídia é considerável, mas relativamente pouco e mal explorado.  Também deve ser dito que um engajamento (político, sindical, feminista) que automaticamente reduza o público (sobretudo o jovem) não é em geral bem visto pelos editores.

Pouquíssimas são as pessoas que, como José-Louis Bocquet da Dupuis, se atreveram a consagrar uma coleção à redescoberta de grandes personagens históricas, muitas delas do sexo feminino, como Marie Curie ou Rose Valland. Sem mencionar editoras como Actes Sud ou Denoël, que me permitiram redescobrir Christine Brisset (L’Insoumise) ou reinvestigar o caso Rey-Maupin (Les Damnés de Nanterre) e falar sobre o que realmente aconteceu em Chernobyl (Tchernobyl mon amour), muito distante do que foi apresentado ao público. Além disso, estamos numa época em que o consensual e o “pensamento único” (forma inédita de totalitarismo soft) reinam supremos e a produção sofre com isso.

N.N. - Como a senhora vê na atual geração de mulheres cartunistas francesas o engajamento político e social? Algum nome se destaca em especial?

C. M. - Há mais mulheres aparecendo hoje em dia do que nos anos anteriores, mas muitas destas autoras, na maioria trintonas, falam acima de tudo de coisas do foro íntimo (relacionamentos entre casais ou entre mãe e filha). A despolitização me parece bastante evidente assim como o desengajamento feminista, enquanto que os problemas entre homens e mulheres estão longe de serem resolvidos. As HQs chamadas de “girly” (femininas) são um exemplo claro do que eu estou descrevendo aqui.

A única quadrinista que mostra algum engajamento feminista (e social) na sua obra é  Catel Muller, com sua série de álbuns sobre mulheres excepcionais, de Olympe de Gouges à Benoite Groult. Ela recebeu o prêmio Artemísia do quadrinho feminino por essa obra. Mas Catel, nascida em 1964, tem atualmente mais de 50 anos…

Eu acredito que podemos dizer sem medo de errar que a sociedade patriarcal francesa não nos permitiu ter “herdeiras”. E é o mesmo na Itália onde Cécilia Capuana também se vê afastada das novas gerações que, ainda mais do que na França, têm muita dificuldade em se estabelecer no mercado.

N.N. - O engajamento das quadrinistas está ligado às ideias feministas ou simplesmente a outras propostas políticas?
C. M. - As “ideias feministas” não se deram bem e atualmente são mal vistas, particularmente pelos editores de HQs. Os leitores são predominantemente homens e a sociedade regrediu em relação a estas questões devido ao aumento do desemprego, da precariedade, da despolitização, do individualismo e do triunfo incontestável do liberalismo, que impõe a lei de todos contra todos, estes mesmas editores procuram surfar na onda de um imaginário igualmente retrógrado (do meu ponto de vista). Magia (negra), fantasmas, onirismo… histórias medievais e/ou pós-apocalípticas… Trolls, dragões, sereias, demônios, monstros e mutantes de todos os tipos vão de vento em popa. Tudo isso em termos de HQs de massa.

Para a classe média alta as HQs “bobo” (da burguesia boêmia) e seu narcisismo estão por todo lado. A sociedade e o que a constitui, suas classes, suas instituições, suas evoluções ou involuções, são pouco exploradas, mas, bem, não somos sociólogos, somos apenas testemunhas…

Restam os aventureiros que encontramos nas grandes editoras com divisões dedicadas às HQs (geralmente muito pouco desenvolvidas). No meu caso, são a Actes Sud e a Denoël Graphique. Os responsáveis por estes setores são muitas vezes as pessoas que conheceram o período dos anos 70/80 e que têm uma abordagem menos estritamente comercial do que os editores mais jovens. Eles também são menos tendenciosos e mais conscientes do jogo político.

N.N. - Dos trabalhadores da indústria dos quadrinhos na França, apenas 10% são mulheres. A senhora acha que a indústria dos quadrinhos ainda limita propositalmente a participação feminina ou não existe interesse das meninas em investir na carreira?

C. M. - Eu acho que sim. Os editores de HQs, com uma exceção, Marie Moinard da “Des ronds dans l’eau”, são homens. Eles não se reconhecem nas imagens de mulheres. Elas os desestabilizam. Sem mencionar o medo da castração... Um dos meus editores, o falecido John Paul Mougin (Ed Casterman) afirmava categoricamente que "quadrinhos para mulheres, não vendem. É uma coisa para meninos, para que eles possam masturbar debaixo do edredom!”.

N.N. - Iniciativas como o prêmio Artemísia vêm tirando jovens cartunistas das sombras e dando visibilidade à sua obra. Até que ponto prêmios como a Artemísia têm seu valor reconhecido pelas editoras francesas? Elas têm contratado mais mulheres nos últimos anos?

Nem sempre elas estão na sombra. A nossa última vencedora (2015), uma alemã chamada Barbara Yeling já é conhecida na França, com os dois álbuns anteriores publicados pela Actes Sud.

Sim, estão contratando um pouco mais, até onde eu sei. As editoras gostam de prêmios, de modo geral. Mas fazemos isso acima de tudo para honrar e encorajar o trabalho criativo das mulheres.

Obs: Agradecimento especial ao amigo Pedro Bouça, que deu um revisada na minha tradução e a deixou mais inteligível.







[1] Bobo é uma expressão usada para designar a chamada “Burguesia Boêmia” (bourgeois bohème) , o que seria o equivalente, a grosso modo, ao nosso “mauricinho”,

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

CHANTAL MONTELLIER, QUADRINHOS E PESQUISA

Chantal Montellier é uma pioneira nos quadrinhos franco-belgas tendo sido a primeira mulher a participar da imprensa política. Em defesa de uma maior participação e visibilidade das mulheres cartunistas, Chantal foi co-fundadora do Prêmio Artemisia, e atualmente é presidente da Associação Artemisia, que tem por objetivo valorizar o trabalho de jovens cartunistas. 

Uma das características marcantes do seu trabalho é o uso da ficção social: pega uma sociedade em um dado momento e, levando em conta que ela contém em si os germes da desigualdade, do autoritarismo, da violência econômica, sexismo, etc., imagina seu futuro, duas, três ou cinco décadas mais tarde.

Para quem quiser conhecer melhor o trabalho da quadrinista, mas não tem acesso à produção europeia, no Brasil foi publicada a HQ "O Processo", pela editora Veneta, adaptação do famoso de Franz Kafka, que conta a história de Joseph K, preso sem explicação e forçado a enfrentar um processo jurídico caracterizado por uma burocracia autoritária. É deste romance que nasce a expressão “kafkaniano” (expressão atrelada à ideia do surreal, do absurdo; confusão entre o real e a ficção, estados hipotético de penumbra, de danação absoluta e de submissão ao imaginário; crise de identidade entre o mundo e o indivíduo). 

Há aproximadamente um ano atrás eu comecei a ter contato com Chantal Montellier e a conhecer seu trabalho em defesa das mulheres cartunistas. Chantal Montellier. Foi um pouco antes do atentado ao Charlie Hebdo, que completa hoje um ano. Por sinal, trocamos nos dias que se seguiram à tragédia e eu pude sentir um pouco mais de perto o impacto que o atentado teve sobre os quadrinistas franceses. Independentemente de concordaram ou ao não com o conteúdo das charges e caricaturas do Charlie Hebdo, para eles o atentado foi um ataque à liberdade de expressão, tão cara ao meio artístico, em seu todo.

O motivo do meu contato com Chantal Montellier foi profissional. Eu estava buscando por fontes para uma pesquisa que precisava fazer sobre mulheres e religião nos quadrinhos franco-belgas (publicada ano passado em um livro sobre como título "Religiões nas Histórias em Quadrinhos", organizado pelos pesquisadores Iuri Reblin e Amaro Braga). Confesso que até então eu não tinha quase conhecimento algum sobre a participação feminina no mercado europeu. Meu trabalho era mais focado na produção estadunidense, até por influencia da minha pesquisa de mestrado.

Quando ela respondeu minha primeira mensagem e comecei a trocar ideias e impressões eu, que tinha algumas pequenas questões passei a ter a mente inundada por uma curiosidade sobre a realidade francesa que só podia ser saciada de uma forma: pela pesquisa. Foi através da biografia de Chantal que eu conheci a “Ah! Nana”, que passou a ser meu novo objeto de trabalho. Transformei a revista no tema da minha apresentação do Encontro Nacional da ANPUH, de 2015. Não satisfeita, consegui comprar toda a coleção, que deve chegar na minhas mãos ainda este ano.

Pois bem, conhecer Chantal abriu não apenas um leque de possibilidades de pesquisa como, também, ampliou minha visão acerca da presença feminina neste amplo universo que é a indústria dos quadrinhos. Isso incluiu, também, a produção feminina no Brasil, para a qual eu já tinha despertado interesse após participar do encontro Lady’s Comics, em 2014. Mas após conhecer Chantal esse interesse não apenas cresceu como também surgiram novas perspectivas, novas formas de abordar o tema a partir da experiência das mulheres na França.

Acho importante que as nossas quadrinistas possam conhecer um pouco mais sobre a realidade feminina em outros países, que não apenas os Estados Unidos.  Mesmo com todo o avanço que temos tido dos últimos anos ainda precisamos romper muitas barreiras. Chantal, em sua experiência, pode não apenas nos inspirar como até fortalecer nossa determinação em buscar por mais visibilidade não apenas na produção de quadrinhos mas nas muitas áreas profissionais onde o talento da mulher ainda não é reconhecido.

Dito isso, devo esclarecer que esta postagem será dividida em duas partes. Eu pretendo compartilhando na segunda parte algumas partes da entrevista que ela me concedeu, no primeiro semestre de 2015.  É claro, não é uma postagem exclusivamente para mulheres. As opiniões e considerações da autora são de interesse de todos que atuam ou pesquisam na área de quadrinhos. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

QUADRINHOS, MULHERES E SEXISMO

Imagem disponível em: http://zip.net/bssFR1,  acesso em 06 de jan. 2016.
Hoje recebi mensagens por e-mail e notificações na rede social onde, lamentavelmente, acusa-se o Prêmio do Festival Internacional de Angoulême (Grand Prix), um dos mais famosos e importantes do mundo, de sexismo: dos 30 nomes indicados, todos são homens. Entre os próprios contemplados o fato causou indignação. Muitos autores indicados pediram para terem seu nome retirado da lista. Alguns fizeram declarações públicas repudiando a ausência de mulheres na premiação. Miro Manara, um autor conhecido do público brasileiro, foi um dos que retirou seu nome da premiação. 

Pra quem não conhece, o Festival de Quadrinhos de Angoulême  foi criado em 25 de janeiro de 1974, com o objetivo de promover o reconhecimento artístico dos autores da Nona arte (Histórias em Quadrinhos). De lá para cá ele vem promovendo a indústria dos quadrinhos e premiando anualmente autores e editores.

Em quarenta e dois anos do festival, uma mulher conseguiu incorporar-se no ranking dos principais prêmios: Florence Cestac, em 2000. Claire Bretécher foi por muito tempo a única a receber um prêmio, em 1983. Os organizadores se defenderam dizendo que há poucas mulheres na indústria de quadrinhos franco-belga, cerca de 12,4%. 

Eu me pergunto se nenhuma delas conseguiu produzir, em 2015, um álbum sequer que tivesse qualidade suficiente para concorrer ao prêmio.  Chantal Montellier responde por mim, citando alguns dos ótimos trabalhos produzidos ano passado e que poderiam estar na lista dos indicados:
Le Piano oriental (Casterman), de Zeina Abirached
California Dreamin’ (Gallimard), de Pénélope Bagieu
Glenn Gould, une vie à contretemps (Dargaud), de Sandrine Revel

Fatherland (Ici Même), de Nina Bunjevac

A organização do festival também justifica-se dizendo que não podem "refazer a história". Oras, o sentido da História está justamente na constante possibilidade da mudança. O historiador Jacques Le Goff afirma que a história é a ciência da mudança, que ajuda a explica a mudança. Então, a sociedade é historicamente machista e/ou injusta, vamos nos conformar, aceitar que isso não pode ser mudado? Por favor, poderiam ter me poupado de ter lido isso.

A Associação Artemísia, que promove um prêmio anual com objetivo de dar visibilidade ao trabalho feminino, declarou por meio da sua presidente Chantal Montellier, haver claras evidencia de sexismo. Como vimos, muita gente concorda com ela, e não apenas mulheres. Fico imaginando se, quando o juri do prêmio apresentou o resultado final, alguém o impacto negativo que ele teria sobre a comunidade quadrinista de todo o mundo.

Não consigo deixar de pensar se isso talvez não seja uma forma de reação ao aumento, mesmo que lento, da presença feminina na indústria dos quadrinhos. Uma forma de Backlash? O número de leitoras de quadrinhos é a cada ano mais relevante e chega a representar em alguns países mais de 50% do público consumidor. Mulheres servem para consumir, mas não servem para produzir?

Não estou defendendo cotas. Não acho que seja solução estabelecer uma porcentagem de cadeiras para mulheres em prêmio algum. Acho que o talento deve ser reconhecido, independentemente do sexo. Da mesma forma acredito que prêmios como o de Angoulême devem levar em conta que não se trata apenas de escolher o melhor: trata-se de incentivar o desenvolvimento e crescimento dos quadrinhos enquanto indústria, arte e forma de expressão. Não vejo de que maneira excluir as mulheres das premiações esteja contribuindo para isso.

O que eu li para escrever este texto:


Le festival de BD d’Angoulême accusé de sexisme après une sélection 100 % masculine. Disponível em: http://zip.net/bssFR1,  acesso em 06 de jan. 2016.

Le Festival D’Angoulême aime les femmes…. mais ne peut pas refaire l’histoire (de la bande dessinée). Disponível em: http://zip.net/bgsFhk, acesso em 06 de jan. 2016.

43e Festival d'Angoulême : une "sélection" qui fait des vagues. Disponível em: http://zip.net/bksFtF,  acesso em 06 de jan. 2016.

Atualização: No dia 07 de janeiro a organização do Festival de Angoulême, mediante às repercussões geradas pela exclusão das mulheres do Grand Prix, mudou as regras: não haverá lista. Os autores irão votar livremente e escolher o autor(a) que acharem merecedor do prêmio.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

BALANÇO DE 2015: MAIS UM ANO CHEGANDO AO FIM!

Pois é, mais um ano terminando, uma nova jornada prestes a começar, porque 2016 está batendo na porta e, com certeza vai nos trazer muitas surpresas. Se vamos gosta, bem daí já é outro assunto. O ano de 2015 foi um ano difícil de definir. Veja bem, profissionalmente foi um ano bom para mim. Publiquei muito, recebi ótimos convites, terminei meu mestrado e participei de vários eventos importantes. Estou apostando em novas oportunidades profissionais, e tenho até algumas em vista.  

Na escola as coisas foram meio que equilibradas. Peguei turmas com um bom nível de aprendizagem, onde pude fazer um trabalho razoável, mas a carga horária apertada deste ano não me deixou tempo para desenvolver projetos com os alunos e isso me deixou um pouco frustrada. 

Por outro lado, também peguei turmas muitos fracas, com casos berrantes de analfabetismo funcional. Fiquei um pouco perdida porque confesso a vocês que nunca chegaram tantos alunos assim para mim. Já estou revendo minha estratégia de ensino para 2016. Penso em fazer um material à parte, menos denso, que permita uma aprendizagem significativa porque o livro didático que o governo oferece está muito além do que os alunos que estão chegando ao fundamental II conseguem acompanhar.

No geral, 2015 foi um ano tenso, creio que para todos os brasileiros. Confesso que assistir os telejornais já estava me deixando deprimida. Local ou nacional, a situação política do país foi uma das coisas que mais me aborreceu em 2015 e não tenho boas perspectiva para 2016. Também foi um ano de intolerância. Nunca vi tanto ódio direcionado a gays, mulheres e religiões. Foi assustador. Isso me preocupa muito. As pessoas estão mais violentas em suas palavras e, também, nas suas ações.

Voltando às coisas boas, agora para o lado pessoal, foram muitas novas amizades e reencontros com amigos muito queridos. Conheci pessoalmente Trina Robbins e, por intermédio dela, muitas outras cartunistas maravilhosas, com quem tenho mantido contato. Pude passar alguns dias com amigos queridos em Florianópolis, Rio de Janeiro e em São Paulo. Neste ponto, 2015 foi muito bom e espero repetir a dose em 2016.

Mas foi também o ano em que eu perdi minha avó Carmelinda. Acho que é a primeira vez que menciono isso. Ela está fazendo falta. Às vezes até esqueço que ela não está mais entre nós. Mas só temos duas certezas na vida: que nascemos e que vamos morrer, então, lamentar não adianta. Mas ficam as boas lembranças e estas são imensamente reconfortantes.

FELIZ ANO NOVO para todos! Quem 2016 venha com tudo e que a gente possa passar em cima dos obstáculos e fazer do ano novo um ano de grandes alegrias.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

HISTÓRIA: O PRAZER EM ENSINO E PESQUISA

Acabei de ler um livro que ganhei da estimada professora Marly Viana. O título, o mesmo da postagem, é "História: o prazer em ensino e pesquisa". O autor é o professor Marcos Antônio da Silva, Titular em Metodologia da História, Doutor e Mestre em História Social pela FFLCH/USP, São Paulo, SP, com Pós-Doutorado na Université de Paris III. O livro em questão foi originalmente publicado em 1995, e reeditado em 2003, pela Brasiliense. Tenho a 2º edição.

De imediato posso dizer que é um dos melhores e mais prazerosos livros que eu já li sobre o assunto. Ele trata não apenas da questão da pesquisa em história mas, também, da questão do patrimônio e da memória. Tudo didaticamente explicado em 102 páginas. Leitura fácil, rápida e muito frutífera. 

Gostei muito do capítulo que fala sobre patrimônio histórico e a forma como o autor aborda o papel da escola na produção dos saberes históricos. Um livro que me fez refletir sobre várias práticas e que, certamente, será uma das bases para futuros textos que pretendo escrever sobre patrimônio, memória e história local.

Recomendo a leitura, principalmente para alunos da graduação e para professores de História, que muitas vezes acabam ficando ilhados da produção acadêmica (longas jornadas, pouco tempo para ler, menos tempo ainda para se aperfeiçoar).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PROJETOS DE LEITURA FAZEM A DIFERENÇA

A formação de leitores deve ser encarada como uma prioridade nas escolas. Não sou professora de língua portuguesa, como os leitores do blog sabem, mas tenho meus projetos de leitura e reverencio os projetos de outros colegas. Acho, no entanto, que a escola, de uma forma geral, ainda não está priorizando a formação do leitor. 

Desde pequenas as crianças devem ser estimuladas na escola e em casa. Muitas vezes, ocorrida a alfabetização básica, tanto professores quando pais relaxam neste sentido. Se o aluno aprende a ler e escrever já é suficiente. Mas não é. A formação do leitor é um processo que envolve praticamente toda a vida escolar, da educação infantil à universidade.

As habilidades de leitura não são tão fáceis assim de serem dominadas. É preciso que se leia bem e que se escreva bem. Para isso é necessário um bom vocabulário, que vai se formando ao passar dos anos. Ler é entender não apenas o significado das palavras, mas a articulação entre elas. Palavras são usadas para traduzir a realidade e precisam ser decifradas. E é justamente aí que que está o problema: ler ajuda a pensar, se crianças e jovens leem pouco acabam não desenvolvendo sua capacidade de raciocínio.

Não raramente eu ouço jovens dizendo que quando começaram a gostar de ler passaram a ter mais facilidade no aprendizado escolar. Isto acontece porque eles começaram a ter um maior domínio da linguagem e a pensar sobre aquilo que leem.

E falando em projetos de leitura, gostaria de destacar um que eu gosto muito. O projeto é desenvolvido pela professora Ana Cristina Miranda Fajardo, que leciona Língua Portuguesa, na Escola Estadual Justiniano Fonseca, localizada em Tebas, pequeno distrito do município de Leopoldina (MG).

Incomodada com o  clichê “jovem não lê”, a professora deu início a um projeto de "Leitura na Biblioteca", que não demorou a dar frutos.  A cada quinzena as aulas de língua portuguesa acontecem na biblioteca. Durante duas horas os alunos tomam contato com os diversos livros que fazem parte do acervo. São apresentados a eles romances, livros de contos, crônicas, poemas, além de HQ’s e revistas diversas. Também recebem informações sobre onde fica cada livro ou revista. Podem manusear o que desejarem. Podem começar a ler e, caso não agradem da leitura, podem substituir. Nada é imposto; tudo é sugerido.

No final do período, escolhem um livro para levar para casa e permanecem com ele por duas semanas. As revistas não são levadas para casa, já que a leitura de seus textos é mais rápida, podendo acontecer na própria biblioteca. Também há inúmeros dicionários no ambiente de leitura, para que sejam consultados sempre que se fizer necessário.

Também é apresentado aos alunos o Diário de Leitura, que consiste na anotação, em casa, daquilo que leram. Nesse diário, eles anotam o título do livro, seu autor e a editora que publicou o livro. Quando se trata de livros de contos, crônicas ou poemas, além do título do livro, eles anotam o título do texto escolhido para análise; já quando escolhem uma coletânea, em vez de autor, eles usam a expressão “vários autores” e colocam o nome do autor junto ao título escolhido. É sugerido que leiam as coletâneas na íntegra e escolham aquele texto que mais chamou a atenção para que façam a análise.

Na análise, eles fazem um pequeno resumo sobre obra lida e, em seguida, dão a opinião sobre a leitura realizada. A entrega do Diário de Leitura é realizada ao final de cada bimestre, mas o aluno tem a liberdade de apresentá-lo ao professor sempre que sentir necessidade.

Como o objetivo do projeto é formar leitores autônomos, o professor também lê durante o período em que permanece na biblioteca, só interrompendo para auxiliar algum aluno ou esclarecer alguma dúvida.

Os resultados desta experiência não demoram a surgir e vieram não apenas no aumento do rendimento dos alunos na escola como, também, nas avaliações externas, como o  PROEB.  Resultado de um bom trabalho, da motivação dos alunos e do interesse da professora e do apoio da escola. Segundo relato da professora Ana Cristina, a biblioteca escolar oferece aos alunos os mais diversos título, inclusive obras lançadas recentemente. A escola adquire as obras a partir das sugestões dos próprios alunos e dos professores. 

Professora Ana Cristina Fajardo

* Alguns trechos do texto foram copilados do projeto original da autora, com sua devida autorização.

AS 10 POSTAGENS MAIS LIDAS DE 2015


Como tenho feito nos últimos anos, segue um balanço das publicações mais acessadas do blog BRASIL: HISTÓRIA e ensino. Em parte, uma brincadeira, em parte uma forma de saber o que as pessoas mais procuram no meu blog. Segue a relação, com alguns comentários:
  1. A postagem que teve o maior registro de acessos (409), foi sobre a abertura das inscrições par ao II Entre ASPAS (clique aqui para visitar a postagem), encontro de pesquisadores de arte sequencial que acontece em Leopoldina a cada dois anos. Ao que parece, o encontro chamou a atenção de um número relativamente grande de pessoas que se interessam pela pesquisa, principalmente sobre Histórias em Quadrinhos.
  2. Em segundo lugar veio a chamada para o encontro com a cartunista Trina Robbins, em São Paulo, que reuniu várias quadrinistas brasileiras, ávidas por conhecer esta pioneira na produção e pesquisa sobre quadrinhos nos Estados Unidos. Foram 305 visualizações (clique aqui para conferir a postagem).
  3. Em terceiro lugar, está a postagem que disponibiliza o texto da minha pesquisa inicial sobre a revista Ah Nana! (clique aqui para conferir), publicada na França, na década de 1970. Na postagem eu disponibilizo o texto que apresentei no encontro Nacional da ANPUH, ocorrido em Florianópolis (SC), com exatas 200 visualizações.
  4. Em quanto lugar está o balanço do encontro realizado na Gibiteca Henfil, com Trina Robbins (clique aqui para conferir a postagem), com um total de 172 visualizações.
  5. A quinta postagem mais visitada (167 visualizações) também é sobre Trina Robbins, uma entrevista que eu fiz com a autora, parte da minha dissertação de mestrado (confira aqui).
  6. Em sexto ficaram minhas impressões do XXVIII Simpósio Nacional de História, realizado na UFSC, em Florianópolis. A ANPUH, pra quem não conhece é a Associação de História, Sou associada desde 1994, se não me engano, mas frequento os encontros dede 1990. Foram 141 visualizações (clique aqui).
  7. Em sétimo lugar esta a chamada para o V Colóquio Nacional História Cultural e Sensibilidades, com 129 visualizações (confira aqui).
  8. Em oitavo lugar está minha nota sobre o falecimento da professora Maria Carolina Galzerani Bovério. Acho que foi a primeira vez que publiquei algo do tipo, como foi a primeira vez que tive que lamentar pela perda de uma professora e pesquisadora com quem infelizmente convivi pouco, mas  que teve uma grande importância em alguns momentos da minha vida (clique aqui para ler a postagem). Foram 117 visualizações.
  9. Em nono lugar ficou o balanço final do II Entre ASPAS, com 115 visualizações (clique aqui para conferir).
  10. Por fim, está o relato com as minhas impressões sobre a3ª Jornadas Internacionais de Quadrinhos da USP/ECA, que aconteceram em agosto. Foi minha primeira participação (clique aqui para conferir). Foram 104 visualizações.
2015 não foi um ano em que eu em tenha feito muitas postagens. Na verdade, até escrevi bastante, mas dividi minha produção com mais dois blogs, o que acadou diminuindo a frequência das minha publicações. Elas, também, foram mais direcionadas para meu trabalho com quadrinhos. Publiquei relativamente pouco sobre educação e História de Leopoldina.

domingo, 29 de novembro de 2015

O MACHISMO E OPRESSÃO

Propaganda das calças "Dragon", veiculada nos anos de 1960.

Eu fui convidada por um colega a participar de um programa de rádio sobre "Igualdade de Gêneros e a não Violencia contra as Mulheres". Havia outros convidados, como advogado e professor de Direito João Fernando (Doctum/ Leopoldina). Aprendi muito, por sinal, com ele. Já eu não acho que contribuí com muita coisa, mas me disseram que é normal a gente pensar que não foi bem. 

De toda forma, a experiência foi muito boa no sentido de me fazer refletir sobre alguns assuntos.  Num determinado momento eu, não sei de onde, desenterrei e comentei rapidamente uma memória. Um episódio que aconteceu na sala de aula já algum tempo. De tudo que eu falei durante o programa, este episódio ficou se repetindo na minha mente. E com ele vieram muitas outras lembranças. Abri minha "caixa de Pandora" particular.

Era como se eu estive agora, depois de tanto tempo, finalmente conseguindo entender o real significado daquele episódio. O ocorrido foi o seguinte: um certo dia estava na sala de aula, com alunos do fundamental, contando a história de Anita Garibaldi, de como ela rompeu com o controle que a sociedade tinha sobre as mulheres, abandonou o marido e foi viver uma vida de aventuras ao lado de Garibaldi. Um aluno prontamente deu sua opinião sobre a heroína: ela chamou de "vagabunda" (ou um termo semelhante, minha memória não é tão boa assim). 

Eu fiquei chocada, a turma ficou chocada e ele levou um tempo para perceber o que tinha feito. O fato é que o menino não era um menino mau, nem vinha de uma família preconceituosa. 

Mas, então, por que ele reagiu daquela forma?

Refletindo sobre isso eu cheguei à conclusão de que ele foi uma vítima do machismo que se impõe sobre homens e mulheres. Ele reproduziu um discurso que ele achava que era senso comum, mas não era. Durante meus mais de 20 anos de magistério eu vi isso acontecendo inúmeras vezes. Bons meninos e meninas apresentando um comportamento machista.

E não se apressem para culpar a família. Nem sempre ela tem controle sobre este tipo de comportamento. Quando as crianças são inseridas no convívio social passam a ter outras influências e, também, a assumirem outro tipo de comportamento para se sentirem aceitas em determinados grupos. Já tive experiência com famílias que se assustaram com o comportamento que seus filhos tinham fora de casa. Some-se a isso a influência e os exemplos nem sempre edificantes que temos nas mídias, que reforçam o machismo, o sexismo e ainda a discriminação contra gays e negros, por exemplo.

O machismo imposto há séculos pela sociedade é uma violência tanto ao homem quanto à mulher. Ele cria homens inseguros, que precisam se sentir superiores ao agredirem com gestos ou palavras as mulheres. Ele cria homens presos a modelos que não lhes permitem viver e agir de acordo com sua natureza. O homem oprimido acaba oprimindo a mulher e o ciclo de violência se perpetua.

Acho que episódios como o que eu descrevi têm algo positivo. Quando ocorre na escola o comportamento machista sinaliza para a necessidade de se esquecer todo o resto e se abrir para o debate. Dizer que algo é certo ou errado não basta. É preciso aproveitar a oportunidade para trabalhar o conceito de preconceito junto aos alunos e, a partir daí, argumentar, trocar opiniões e construir um conhecimento conjunto. 

No contexto atual, vejo jovens bombardeados de informações, mas presos a antigos preconceitos. Eu vejo muito potencial na nossa juventude, mas vejo também muita carência, dúvida e incerteza. Não que isso não estivesse presente na minha adolescência, assim como na de tantas outras pessoas. Vejo uma juventude conservadora que precisa aprender a falar e a ouvir.  

Debater o machismo não é apenas falar sobre mulheres que têm dificuldade em se sobressair no mercado de trabalho, ou falar sobre violência física e moral que elas sofrem. É, sobretudo, falar dos homens que precisam provar sua masculinidade reproduzindo um discurso que, na realidade, nada mais é do que uma construção social que vai contra a natureza humana. 

É buscar uma sociedade conciliadora, que saiba lidar com a diversidade e com a diferença. Pois, por mais que muita gente não queira aceitar, as diferenças estão por toda a parte. Temos diferenças de gênero, diferenças étnicas e religiosas. Aceitar o outro, seja ele homem, mulher ou transgênero, pertença ele à religião X ou Y, é possivelmente o único caminho para se extirpar uma boa dose de ódio e violência que vêm perpassando o mundo já há um bom tempo. 

domingo, 22 de novembro de 2015

Lendo uma nova autora de ficção: Jennifer L. Armentrout

Existe aquela velha história de que o professor influencia os alunos, o professor ensina, o professor guia etc. Comigo, curiosamente, acontece o inverso, pelo menos no que diz respeito à minha leitura de lazer. Há uns três anos atrás uma aluna (Barbara Pontes) me indicou um livro para ler. Eu acabei comprando o livro e lendo. Não é que gostei? 

Era um romance da autora Cassandra Clare. Comecei com um livro e hoje acho que já li e comprei todos que ela publicou no Brasil, cheguei até a resenhá-los aqui no blog. Eu já lia livros de fantasia. Comecei com Richelle Mead e depois li Rick Riordan. Este último também foi indicação de um aluno. 

Desde então, eu  passei a prestar mais atenção aos títulos que iam aparecendo nas livrarias. São romances para adolescentes, mas são escritos por adultos e, em geral, eles possuem uma linguagem fluída, um vocabulário legal e, por exemplo, no caso da Cassandra Clare, principalmente na série Peças Infernais, certa dose de erudição.

Já recebi algumas alfinetadas por conta disso. 

- Natania! Você tem dar exemplo, lendo os clássicos.

Mas aí que tá: eu já li os clássicos. Sou leitora ávida desde a infância. Era uma rata de biblioteca. Muito antes de termos acesso a lançamentos de livros pela internet eu lia o que era indicado nos livros de literatura. Já li Machado de Assis, José de Alencar, Aluísio de Azevedo, e muitos outros autores, nacionais e estrangeiros. Agora, estou lendo o que meus alunos leem, trocando informações com eles e até lendo outros clássicos por conta de citações em livros. Por exemplo, para minha lista de leituras de férias (e vão ser muitas) está "Um Conto de Duas Cidades”, de  Charles Dickens.

Esta semana eu comecei a ler, acidentalmente, uma nova série. Estou viciada em séries.  Quando gosto de um personagem quero vê-lo em outras aventuras, em outras situações. Séries satisfazem esta necessidade, embora eu deva reconhecer que, depois de um tempo, as histórias ficam um tanto previsíveis.

Mas enfim, vamos ao ponto. Minha autora do momento é Jennifer L. Armentrout, autora da "Saga Lux", cujo primeiro livro foi lançado no Brasil este ano "Obsidiana".

É o primeiro de cinco livros, mas há outro, um prelúdio, chamado Shadown. Minhas impressões do livro foram boas ,de forma geral. Final de ano uma leitura leve e divertida sempre é bem-vinda. O roteiro tem uns furos, verdade, mas nada que atrapalhe e, de repente, pode ha ver explicação para algumas dúvidas que eu tive no próximo livro. 

Não é um romance sobrenatural, mas com aliens. Lembra um pouco Os legados de Lorien, por causa da temática, mas as semelhanças não são tantas assim. O primeiro livro me agradou. Imagino que a editora vá publicar mais uns dois anos que vem. É uma boa leitura para as férias. Livro para se ler no final do dia, depois de pegar uma praia ou uma piscina.

Depois que li o primeiro livro, procurei resenhas e comentários sobre os demais. Não achei nada negativo, o que me deixou mais incentivada a ler os outros cinco. A autora tem outras séries, mas não verifiquei ainda se foram publicados no Brasil. A editora Valentina eu não conhecia, mas estou interessada em outros livros do catálogo. Fica a dica para as férias.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

COLEÇÃO DE MEMÓRIAS

Coleção de Memórias foi a primeira HQ que eu li, das muitas que comprei no FIQ. Li ali mesmo, sentada no chão, com as bolsas cheias de revistas ao meu lado. Simples mas muito bem acabada, de autoria de Theodore Guilherme (arte/roteiro) e publicada pelo Velociraptor Pirata, coletivo de ilustradores e quadrinista de Ponta Grossa/PR. 

Comecei gostando da revista pela contracapa, onde uma resenha começa com a seguinte frase "Poucas coisas possuem o valor de uma boa memória". Só esta frase já meu deixou empolgada e comecei a ter um monte de ideias. Pra quem não sabe, eu gosto de trabalhar com educação patrimonial e memória. 

A HQ é uma autobiografia, que reúne lembranças do autor na sua infância. Seus medos, sua inocência, seu apego à família. Ele conta estas memórias de forma quase poética. Elas têm forma e se apoiam na imagem saudosa da sua avó.

Simples e bonito. Um quadrinho que eu pretendo usar em breve nas minhas aulas de História e que, espero, possa resultar em outros quadrinhos, em outras "Coleções de Memórias".


PARTICIPANDO DO 9º FESTIVAL INTERNACIONAL DE QUADRINHOS DE BELO HORIZONTE


Finalmente eu consegui participar do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que aconteceu em Belo Horizonte, semana passada. Vejam bem, é a nona edição! Uma vergonha ter demorado tanto para ir, eu sei. Mas sempre tinha algo que me impedia: trabalho falta dinheiro ou compromisso familiar. 

E teve gente que reclamou que estava vazio!
Vamos começar com as impressões sobre o local.

De cara eu já me vi dentro da exposição da Turma do Xaxado, organizada por Lucas Pimenta, em homenagem ao saudoso Antônio Cedraz, criador da Turma do Xaxado. Muito linda e de muito bom gosto. O curador está de parabéns. Gosto muito da Turma do Xaxado. São quadrinhos divertidos e com um grande potencial pedagógico. Ao lado, havia uma exposição de super-heróis e outra com croquis e roupas de personagens de quadrinhos.

Trechinho da exposição em homenagem a Antônio Cedraz com ilustrações feitas por vários artistas.
Achei tudo muito bem organizado e as pessoas muito receptivas. Lá estavam desde quadrinistas conhecidos, consolidados na profissão, até iniciantes, jovens que estavam ali para mostrar seus fanzines ou suas primeiras publicações independentes. Havia desde livrarias e editoras conhecidas até aquelas mais simples, com material alternativo.

Trechinho da exposição de Super-heróis.
Eu me lembrei de uma passagem na biografia de Will Eisner, quando ele visita um festival de quadrinhos e conhece a produção underground nos Estados Unidos. Eu me senti quase que como ele, estando no meio de novos talentos. Ao lado deles autores como André Diniz, quadrinista consagrado, vendia seus quadrinhos, na maior descontração. Ali eram todos iguais e todos queriam mostrar o que haviam produzido.

Com Sabrina Paixão e o sempre simpático André Diniz.
Eu fui com o objetivo de comprar apenas material para meu uso profissional, mas, claro, não resisti em adquirir obras de autores desconhecidos. E havia muitas meninas lá! Não vou dizer que foi uma surpresa. Eu sei que o mercado tem acolhido as jovens quadrinistas e elas têm se destacado tanto pela qualidade da sua produção quanto pela quantidade. A cada ano temos mais mulheres perdendo a timidez e se aventurando no mercado de quadrinhos. Algumas estão recebendo ofertas de editoras e crescendo na profissão. Outras estão usando quadrinhos como uma forma de expressão e até de militância.
Com Ana Luíza e Germana
Quadrinhos já são há algum tempo vêm sendo um espaço para as mais diversas manifestações, afinal é ao mesmo tempo uma forma de arte e um meio de comunicação. Nada mais natural que se tornassem um espaço para expressão. Quadrinhos, para muitas pessoas são quase que uma forma de terapia, de autoconhecimento. E eu vi muito disso por ali, tanto por parte das meninas, quanto por parte dos rapazes. Havia de tudo e para todos os gostos.

Com Marguerite e meu exemplar autografado de Aya.
O ponto alto foi poder conhecer e falar (engasgar com meu pobre francês, que um dia já foi bom, hoje é uma vergonha), com a autora Marguerite Abouet, natural da Costa do Marfim. Ela é autora de Aya de Youpogon, que teve dois volumes publicados no Brasil. Ela estava lá, sozinha, dando sopa na mesa de autógrafos. Eu imediatamente usei minha famosa "cara de pau", me apresentei, peguei autógrafo, tirei foto e até dei a ela meu cartão (nem eu acredito que fiz isso, que vergonha).

Achei que não ia conseguir, mas passei o sábado inteiro lá, com uma pausa de cerca de uma hora para ir tomar banho no hotel, que ficava a 5 minutos de caminhada do local do evento. Na volta, encontrei com a colega aspiana (como chamamos carinhosamente os membros da ASPAS - Associação de Arte Sequencial) Ana Luíza Koeher, que me apresentou para a galera super simpática dos "Renegados". Fui até entrevistada, olha que legal! 

Com os amigos aspianos, prestigiando o sessão de autógrafos de Edgar Franco.
É claro, não posso deixar de registrar a satisfação de reencontrar com amigos e conhecidos e de fazer novas amizades. Saí de lá eram quase 22 horas, e tudo já estava sendo guardado. Enfim, tudo muito bom, eu não tenho reclamações (fora o calor, claro). Em outra postagem quero comentar sobre as revistas que comprei. Para agora, seria muito cansativo tanto para mim quanto para quem arriscar ler esta postagem.