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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

COMO ENCONTRAR FONTES NA INTERNET PARA AULAS DE HISTÓRIA

Com o advento da internet as aulas e história começaram a mudar, também. Até o final do século XX o professor contava apenas com recursos como livro didático e alguns paradidáticos para poder trabalhar. Em escolas menores e de periferia acesso a livros e a uma bilbioteca era limitado, isso quando não era inviável (e até hoje permanecesse assim em muitas cidades). Havia a possibilidade do uso de jornais e revistas quando se tratava de conteúdo mais recente ou quando se publicavam especiais sobre eventos históricos. O/a professor/a recortava as notícias e as utilizava em sala de aula. No entanto, as fontes mais antigas ficavam em bibliotecas e arquivos muitas vezes longe do acesso de professores/as, principalmente daqueles/as que trabalhavam em cidades do interior.

Mas o século XXI trouxe novas possibilidades. Atualmente, no campo digital temos espaços destinados a ser repositórios de estudos (artigos, dissertações, teses) e de fontes diversas, de periódicos a fontes imagéticas, além de canais destinados a produzir conteúdo sobre história (sobre estes canais, presentes no Youtube, por exemplo, vou falar em outra postagem). As bibliotecas estão digitalizando seus acervos e criando hemerotecas digitais[1].

Atualmente é possível acessar informações, bancos de imagens e documentos de diversas partes do mundo e usá-los para montar aulas e atividades. O livro didático, na minha opinião, está se tornando um objeto de apoio secundário para professores e professoras que começaram a investir em produzir conteúdo a partir de fontes.

Nas hemerotecas e nos sites criados para abrigar documentos dos mais diversos é possível conseguir um rico material que pode ajudar a compor uma aula, complementar informações ou mesmo ser vir de base para projeto, inclusive projetos interdisciplinares. Recentemente eu li alguns artigos com relatos de experiências em sala de aula utilizando documentos como cartões postais e cartazes, retirados de repositórios de documentos.

Eu, por exemplo, frequentemente visito repositórios e hemerotecas. Encontro muito material interessante sem sites de bibliotecas universitárias, de bibliotecas nacionais e internacionais. Já tirei material para compro slides que preparei para minhas aulas com alunos do fundamental e médio e, inclusive, já usei a hemeroteca da Biblioteca Nacional para um projeto de pesquisa com alunos do oitavo ano do ensino fundamental, que resultou numa pequena publicação impressa, sobre a história local. E isso foi em 2014, há 10 anos atrás. De lá pra cá não apenas aumentaram as fontes como, também, a possibilidade de trabalhar diversos temas.

É trabalhoso, mas prazeroso, principalmente quando se domina as ferramentas de busca e gente aprende a localizar o material que precisamos. Até mesmo o idioma deixou de ser um problema, pois os navegadores têm ferramentas de tradução automática que permite o professor/a visitar e colher material em sites com idiomas estrangeiros. Eu já usei documentos retirados da Gallica, a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional da França, do site da Biblioteca da Sorbone, da Hemeroteca de Lisboa e de sites de bibliotecas universitárias de outros países. É uma experiência de aprendizagem tanto para os estudantes quando para os/as docentes, pois permite que se saia do lugar comum.

Trabalhar povos indígenas a partir de documentos históricos colhidos de uma hemeroteca ou uma bilbioteca, analisar o imperialismo e as guerras mundiais por meio de imagens, acessar revistas e jornais publicados há mais de 100 anos e retirar deles documentos para serem analisados durante uma atividade em sala de aula ou mesmo uma avaliação. Há muitas possibilidades de incluir ao material didático já utilizado conteúdo inédito.

Eu particularmente acredito que o professor é o melhor material que a escola pode oferecer. Infelizmente ele/a precisa ser lembrado/a disso constantemente. Por isso muitas vezes ele acaba se acomodando e limitando sua aula ao livro didático. Assim como os estudantes, professores também precisam ser estimulados a tirar o melhor de si. Isso, inclusive é algo importante para a saúde mental dos docentes, prejudicada pela pressão sofrida diariamente nas escolas, pelo assédio de pais e de alunos, que parecem não entender os limites para o trabalho docente e nem sempre reconhecem seu valor. O sentimento de realização e descoberta pode ajudar a superar estes obstáculos, cada vez mais presentes no nosso dia a dia.

Vou deixar aqui algumas indicações de sites de bibliotecas e hemerotecas que podem ser úteis para quem quiser se aventurar e buscar novos materiais para trabalhar em sala de aula. Você professor que já está na docência há muitos anos e ainda não se arriscou a trabalhar com outros materiais, não é tão complicado assim. Aos professores mais jovens, creio que a experiência pode ser enriquecedora e estimular outras atividades e até projeto de iniciação científica. Vamos tentar?

Alemanha

- Biblioteca Nacional Alemã

Brasil

- Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

- Hemeroteca Digital Santista

- Hemeroteca Digital do IHGG

- Hemeroteca Digital Catarinense

- Biblioteca Digital do Estado de Minas

Canadá

- Biblioteca Pública de Toronto

- Fundação Japão Toronto

- Biblioteca de Quebec

China

- Biblioteca Nacional da China

Coreia do Sul

- Biblioteca Nacional da Coreia

Espanha

- Biblioteca Digital Hispânica

Estados Unidos

- Biblioteca do Congresso

- Biblioteca Digital de Minnisota

França

- Gallica – hemeroteca digital da Biblioteca Nacional da França

- Biblioteca da Universidade de Sorbonne

Japão

- Fundação Japão

- Biblioteca Nacional

Portugal

- Hemeroteca digital de Lisboa



[1] Hemeroteca é um setor das bibliotecas onde se encontram coleções de periódicos como jornais, revistas e outras obras editadas em série

sábado, 12 de fevereiro de 2022

AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E OS LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA

Esse texto é um breve preâmbulo de um texto maior que desejo escrever em breve. Ele partiu da experiência de observar as mudanças ocorridas nos livros didáticos, como professora do ensino fundamental, mas últimas três décadas. Uma dessas mudanças está na forma como os livros estão trazendo e tratando as fontes históricas. Notadamente nos últimos dez anos, novos elementos vêm sendo acrescidos aos livros. As charges, primeiro, as tiras cômicas e as histórias em quadrinhos, em seguida. Como elemento imagético, essas mídias foram ganhando espaço nos livros de história, tanto para ilustrar e exemplificar conteúdos quando para embasar atividades. 

 

No entanto, na pressente década, elas foram incluídas e citadas como fontes didáticas. No livro didático adotado pelo Programa Nacional do Livro Didático - PNLD, do oitavo ano "Vontade e Saber", de autora de Adriana Machado Dias, Keila Grimberg e Marco Pellegrini, da editora quinteto, que será utilizado nas escolas públicas até 2013, no primeiro capítulo, de introdução à história, os quadrinhos estão citados como fonte histórica.

 

Com o título " A renovação das fontes históricas", o livro traz uma página no "Tico-Tico", considerada a primeira revista em quadrinhos brasileira, como exemplo de quadrinhos como documento histórico. Em um pequeno parágrafo, os autores apresentam as HQs como uma das fontes que passaram a serem reconhecidas a partir do processo de inovação (palavra usada pelos autores) dos estudos históricos iniciados na França, com a Escola de Annales. Aos quadrinhos acrescenta outras fontes como a música e os filmes.  Segundo o livro: "Com essa renovação, além dos documentos oficiais, passaram a ser considerados fontes válidas para o estudo da história objetos pessoais, pinturas, cartas, histórias em quadrinhos, esculturas, filmes, músicas, relatos, entre outras."

 


Uma página, dois pequenos parágrafos, mas muitos significados. Os quadrinhos são listados como “fonte válida”, ou seja, estão sendo reconhecidos oficialmente como uma fonte história. Mais do que isso, estão sendo citados em um livro didático, direcionado ao grande público e, também, aos professores.


Os quadrinhos já entraram na academia, e estão presentes em maior ou menor proporção nas salas das universidades e nos programas de pós-graduação, em maior ou menor proporção, dependendo do curso. No campo da história o reconhecimento e usa da fonte já vem ocorrendo há muitos anos. Cabe aqui citar os trabalhos do historiador francês Pierre Couperie, um historiador francês especializado em quadrinhos, pioneiro neste campo de trabalho. Couperie foi um dos primeiros historiadores a trabalhar este campo de pesquisa, ainda na década de 1960), não apenas na França. Ele diversificava seus trabalhos em história social e econômica. Em seu tempo, Couperie foi um militante tanto no estudo acadêmico dos quadrinhos quanto no seu uso como recurso para educação. 


Posteriormente tivemos outros renomados historiadores da escola francesa como Michel Vovelle que em sua obra “Imagens e Imaginário na História”, não apenas defende o uso de quadrinhos como fonte de pesquisa como eles tema de dois capítulos do livro. Podemos ainda citar a historiadora Michelle Perrot, cujas pesquisa no campo da história das mulheres são reconhecidas em todo mundo, que utiliza os quadrinhos da personagem Becassine, como fonte e referência em seu livro “Mulheres públicas”.


No entanto, nas escolas do ensino regular, a qualidade dos quadrinhos como fonte é normalmente desconhecida, quando não ignorada. Por essa razão, ao serem citados ao lado de outras mídias num capítulo de introdução à história, os quadrinhos tiveram seu status alavancado. Isso porque podemos acrescer aí o reconhecimento oficial do próprio estado, que já há algum tempo reconheceu os quadrinhos como um tipo de leitura indicada a crianças e jovens, enviando anualmente vários títulos para as bibliotecas escolares por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE).  No portal do MEC temos, inclusive, um breve texto justificando e indicando a leitura das HQs e sua presença nas bibliotecas escolares.


“A leitura de obras em quadrinhos demanda um processo bastante complexo por parte do leitor: texto, imagens, balões, ordem das tiras, onomatopeias, que contribuem significativamente para a independência do leitor na interpretação dos textos lidos. Além disso, o universo dos quadrinhos faz parte das experiências cotidianas dos alunos. É uma linguagem reconhecida bem antes de a criança passar pelo processo de alfabetização. ”


Agora para além da leitura, temos os quadrinhos como fonte e, portanto, objeto de reconhecido valor científico, não apenas por historiadores, mas um reconhecimento oficial que pode vir a ser importante tanto para a popularização do uso da fonte, mas, também para seu uso como recurso didático para professores nas salas de ala de todo o Brasil.


Fontes:
DIAS, Adriana Machado[et all]. Vontade de Saber: 8º ano: ensino fundamental: anos finais. - São Paulo: Quinteto Editorial, 2018.

PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 1998. 160 p.

Por que livros em quadrinhos foram incluídos no Programa Nacional Biblioteca da Escola?Portal do MEC. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/par/136-perguntas-frequentes-911936531/quadrinhos-do-pnbe-1574596564/282-por-que-livros-em-quadrinhos-foram-incluidos-no-programa-nacional-biblioteca-da-escola>. Acesso em 12 fev 2022.

VOVELLE, Michel. Imagens e Imaginário na História: fantasmas e certezas nas mentalidades desde a Idades Média até o século XX. São Paulo: Ed. Ática, 1997.


sábado, 12 de junho de 2021

EXPERIÊNCIA TRABALHANDO COM O CANVA NA SALA DE AULA

HQ produzida pela aluna Gabrielly, para o projeto interdisciplinar sobre Meio Ambiente.

Há cerca de duas semana eu participei de uma oficina ministrada por Vanuza Durães, mestre em Educação Matemática Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, durante o V Entre ASPAS: O Canva como aliado nos processos de ensino e aprendizado nas produções de HQs. A oficina ensinava a usar o Canva, uma plataforma de design gráfico que possibilita criar uma séria de mídias para serem utilizadas na internet e fora dela, também.

É um verdadeiro paraíso para professores, porque tem basicamente tudo que a gente precisa e coisas que nem sabemos que existe. Só para dar alguns exemplos, no Canva para professores, tem desde templates a modelos de cartazes, designers para tabelas de horário, sugestões de atividades em inglês, matemática, português, que podem ser modificadas e adaptadas, fora a possibilidade de criação de turmas com os alunos. Eu não daria conta de listar tudo até porque eu ainda não explorei todos os recursos, longe disso.

Para a versão do professor, é preciso fazer um registro, comprovando que você trabalha com educação. O registro permite que o professor tenha acesso a muitos recursos de forma gratuita. Exista a versão paga, para aqueles que querem usar o programa com tudo que ele tem para oferecer. A versão gratuita é mais simples e com muitas limitações, principalmente de edição.

Canva para professores
Antes de fazer a oficina eu usava o Canva para produzir alguns logos ou figuras para ilustrar alguma atividade. Mas depois da oficina eu me dei conta de que não cheguei nem perto de usar o programa em todos o seu potencial. Por exemplo, eu não sabia que poderia fazer histórias em quadrinhos utilizando o Canva.

De repente eu me vi diante de uma infinidade de modelos de quadrinhos, assim como de imagens disponíveis para uso, sem preocupação com direitos autorais, além de diversos elementos que podem ser utilizados para compor HQs, das mais curtas às mais longas. Há, também, ainda a possibilidade de upload de imagens.

Esta semana eu resolvi fazer uma experiência e montei algumas HQs com os alunos para um projeto interdisciplinar sobre meio ambiente que a escola está fazendo. Teve quem duvidasse que eu conseguiria. Isso porque os alunos da escola na qual leciono não possuem recursos além do celular e nem sempre podem baixar aplicativos (quase nunca) por conta do espaço da memória. Então, partimos para uma atividade coletiva.

Algumas opções de modelos de quadrinhos que o Canva oferece.
Como assim?

Usei o google meet para reunir 12 alunos de uma das minhas salas de 8º ano e apresentei o Canva para eles, junto com a proposta de criar tirinhas. Mostrei as opções que o programa possuía. Eles foram selecionados os modelos que acharam mais interessantes e pensando nos temas que poderiam usar. Em duas aulas, produzimos 8 tirinhas, sendo que o mais interessante foi a participação. 

Quando um aluno estava montando a sua, junto comigo (escolhendo personagens, elementos e ditando os diálogos), outros alunos davam sugestões e sugerindo como o quadrinho do (a) colega poderia ficar melhor. Eu simplesmente ia seguindo as orientações e minha interferência foi mínima. Nem precisei me preocupar com a disciplina, eles mesmo interrompiam algum(a) colega que por alguma razão desviasse a atenção de quem estava montando sua HQ.

O aluno pode mudar o cenário, acrescentar ou retirar elementos e escolher os personagens que vai querer usar na sua HQ.

Melhor que o produto foi a reação dos alunos. Segundo eles, se os professores estivessem com eles juntos para fazerem as atividades, seria bem melhor. Além disso, foi realmente uma atividade em equipe, na qual os colegas foram encorajando uns aos outros e ajudando quando havia alguma dificuldade. Algo do tipo é difícil de conseguir mesmo em sala de aula.

Por fim, achei que seria interessante colocar aqui a minha experiência e recomendo o uso do Canva para fins pedagógicos. Não apenas para o professor criar material como, também, para os alunos terem outras opções de trabalhar o conteúdo. Eu pretendo usar o Canva como alunos da rede particular, que possuem computador e recursos para poderem montar sozinhos suas HQs, mas essa experiência de produção, envolvendo a participação do grupo, é fundamental. Tanto que, antes de partir para a criação autoral eu quero montar junto com o grupo uma HQ coletiva justamente para poder experimentar esse momento de inteiração e participação.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

REAL LIFE: COMO OS COMICS REPRESENTAVAM O BRASIL DURANTE A II GUERRA

Durante o meu mestrado eu consultei muito o acervo do Comic Book Plus, um site com scaners de quadrinhos (comics), notadamente da "Era de Ouro" dos quadrinhos nos Estados Unidos. Se não engano, todos já em domínio público. Retirei muito material de lá para escrever artigos e minha dissertação de mestrado. Hoje o amigo Pedro Bouça indicou a leitura de um comic publicado em 1944, disponibilizado no Comic Book Plus. Um achado, por várias razões.

Primeiro, primeiro porque é um documento que registra o discurso oficial dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Segundo porque  por meio dele podemos ter acesso a representações do Brasil, a partir o olhar estadunidense. A revista, cujo título já renderia uma longa problematização, chama-se Real Life Comics (Quadrinhos da Vida Real) #19, de setembro de 1944. Uma revista que diz trazer "As verdadeiras aventuras dos maiores heróis do mundo". 

Ela está dividida em nove partes, cada uma com uma HQ que ou enaltece os feitos heroicos de um aliado dos Estados Unidos, ou fala dos esforços destes mesmos aliados em manterem a democracia. A publicação passa a ideia de ser baseada em fatos históricos.

Dentro do espírito da política da boa vizinhança, o título do editorial da revista é "Good Neighbors". Resumidamente, o editor detona Hitler e enaltece os valorosos vizinhos, latino-americanos, que estão lutando pela democracia. Discurso próprio da época e até certo ponto crível, se não fosse um detalhe: ele apresenta ditadores latino-americanos como sendo defensores da democracia. 

Vamos pegar o exemplo do Brasil, cuja história é contada desde a chegada de Cabral, na quarta HQ da revista, cujo título  é Brazil. No primeiro quadrinho nosso país é apresentado da seguinte forma: "O colosso das Américas promete a ajuda de 45 milhões de bons vizinhos e uma reserva infinita de matérias-primas... para a salvaguarda a democracia pan-americana." Destaque para a parte da "reserva infinita de matérias-primas". Como todo bom país imperialista, os Estados Unidos estavam de olho nas nossas reservas naturais.

Em seguida temos a um breve resumo da história da colonização Portuguesa, passando pela descoberta e até citando a invasão de Pernambuco pelos holandeses que, pasmem, segundo o quadrinho, que está mostrando a "Vida Real", tomaram a região com o objetivo de cultivar açúcar e...CAFÉ! 

Pois é, também fiquei assustada com o fato de que já no século XVII os holandeses produziam e exportavam café em larga escala. Pelo menos não omitiram a escravidão dos indígenas no início da colonização, no entanto, não citam os escravos africanos. Mas calma, a  cereja do bolo ainda vai chegar. Segundo a HQ, os bravos bandeirantes encontraram ouro na... AMAZÔNIA.

Seguindo um pouco mais, temos a chegada da família real portuguesa, Dom Pedro I proclamando a independência. Dom Pedro II aparece como a pessoa que semeou a democracia no Brasil, ao se colocar contra o trabalho escravo (agora citaram os escravos, mas não sua origem africana). Falar em democracia durante o século XIX, quando o Brasil é uma monarquia autoritária, e três poderes (legislativo, executivo e judiciário) são limitados pelo poder moderador que é de uso exclusivo do imperador, é pra lá de confuso.

Outra coisa, no quadrinho, nosso Imperador declara que ele deseja que todos os brasileiros possam usufruir dos mesmos direitos não importando a cor. Peraí? Mas cadê a Princesa Isabel? Pois é, ela não aparece quando o assunto é a abolição, dando a entender que Dom Pedro II é o libertador, aquele que aboliu a escravidão no Brasil. As mulheres raramente aparecem na HQ, e quanto o fazem é apenas para compor o cenário.  

A HQ apresenta Dom Pedro II como vítima de um golpe, acusado de ser um ditador após ter libertado os escravos. Deodoro é apresentado como um inimigo da democracia e é substituído por Floriano. Não que Deodoro da Fonseca não tenha tido uma tendência autoritária, mas Floriano estava longe de ser um democrata. Além disso há um contexto bem maior por detrás da sua renúncia, que não é citado em nenhum momento. Aliás, vale destacar que os uniformes dos militares brasileiros e do próprio Dom Pedro II parecem tirados de um filme/quadrinho da Guerra da Secessão.

Mas eles foram meticulosos e até citaram a participação da marinha brasileira e da força aérea na Primeira Guerra Mundial. Que não foi tão heroica como o quadrinho deixa a entender. Na verdade modesta e até teve episódios vergonhosos. 

Ficamos famosos pelo episódio da "Batalha das Toninhas", no qual o encouraçado Bahia confundiu um cardume de toninhas com um submarino alemão, mantando cerca de 46 delas e manchando o mar no Estreito de Gibraltar de vermelho. As toninhas são mamíferos dóceis parecidos com o golfinho. Um verdadeiro crime ambiental.


Mas nada supera o final da história, contada segundo a visão dos Estados Unidos. A emergência do Movimento Integralista no Brasil, durante o governo de Getúlio Vargas. E, acreditem, Vargas é apresentado como um defensor da democracia (estamos na ditadura do Estado Novo) e inimigo dos fascistas (os mesmo que o ajudaram a dar o golpe do Estado Novo). Ele até atira contra um integralista! Quase um Clint Eastwood gaúcho. 

Aliás, o quadrinho da "Vida real" fala de uma tentativa de invasão alemã ao Brasil que foi refutada pelo povo e pelo exército e que leva o povo Brasileiro a pedir que o país entre em guerra. Detalhe, a bandeira do Brasil é representada como sendo vermelha. 

Conteúdo ideológico a parte, Real Life Comics é uma obra de ficção os início ao fim. Ela faz uma paródia da história do Brasil, contada a partir do discurso que os Estados Unidos queriam propagar entre seus cidadãos. A palavra democracia é utilizada de forma anacrônica e abusiva e os autores da HQ não tiveram o trabalho de fazer uma pesquisa descente sobre o Brasil, reescrevendo a nossa história de forma grosseira. Nem mesmo a bandeira brasileira foi representada corretamente.

Mas é um documento riquíssimo e que pode ser utilizado em sala de aula justamente para incitar os alunos a apontarem os erros e a pesquisarem sobre a História do Brasil. Como professora eu me sinto estimulada a usar este documento em atividades em sala de aula e mesmo em avaliações. Como pesquisadora, me interessa as representações que estão presentes no quadrinhos e as apropriações que foram feitas dele.

O autor dessa HQ sobre a história do Brasil é Henry Carl  (1890 - 1957) Kiefer, quadrinista estadunidense que participou da produção da série Classics Illustrated. Sua formação em artes era francesa, estudou no Julian Atelier em Paris, França. Trabalhou em projetos de várias editoras e foi muito ativo até 1953.

Quem quiser conferir a história na íntegra, basta clicar aqui! Para quem se interessou pela HQ, há outros números dela, que podem resultar em um ótimo estudo de caso ou mesmo num projeto para mestrado ou doutorado.

sábado, 4 de maio de 2019

FAZER PESQUISA E VIRAR NOITES ESTUDANDO É FARRA?


Eu fiquei pensando se escreveria ou não escreveria algo sobre os cortes no orçamento das universidades públicas. Estou cansada e desanimada com tanta demonstração de ódio e ignorância. Mas uma das primeiras coisas que eu li hoje pela manhã foi uma mensagem justamente fazendo isso: disseminando ódio.  Aí não aguentei, tive que escrever.

Para começar, independente da sua orientação política, é inconcebível que uma pessoa defenda e comemore o fim da universidade pública. É essa universidade que forma há décadas os profissionais que fazem esse país funcionar. É dela que saem médicos, engenheiros, professores, cientistas que trabalham na descoberta da cura de doenças quem matam milhões em todo o mundo. E não acredite em tudo que lê nas redes sociais ou ouve em programas de rádio e televisão. Trabalha-se muito nas universidades e muitas vezes de forma precária. 

É completamente falsa a afirmação de que as faculdades públicas não produzem pesquisas, e sim as privadas. Das 100 universidades brasileiras que publicaram artigos científicos, entre 2014-2018, apenas 17 são particulares e a com melhor colocação é a PUC/Paraná. em 37º lugar (clique aqui para conferir). Em 2017 o Brasil era o 23º país no ranking global de qualidade científica. São falsas, também, muitas notícias de orgias em universidades que estão circulando nas redes sociais. Aliás, algo deplorável. Fico imaginando o que passa na cabeça de quem cria esse tipo de notícia e de quem acredita nela.

Muitos governos negligenciaram o ensino e a pesquisa, mas nenhum colocou ambos em risco. O Brasil hoje é um país no qual a pesquisa praticamente está sendo extinta. Com os cortes nas verbas das universidades públicas o que ainda resistia está com os dias contados. Milhões de estudantes em todo o país certamente serão prejudicados se a situação não se reverter. Então, não me peça para ser paciente com quem comemora tal coisa, sob a desculpa de que "é hora de acabar com a farras nas universidades". Que farra?

Eu me lembro, quando fiz especialização na UFJF, é das noites sem dormir, estudando. Dos fins de semana sem sair. Frequento o ambiente universitário há 30 anos, conheço vários universidades, tenho diversos amigos que são professores, em várias áreas. Alguns deles até com pesquisas citadas e premiadas no exterior. A carga horária dos professores não é pequena e eles não recebem reajuste salarial há cerca de dois anos. Queria que alguém me explicasse onde está a farra nisso tudo!

Ah, mas que o reitor X desviou verba da universidade. Ora, então isso justifica acabar com tudo? Punir quem age mal? Justo! Acabar com todo os sistema de educação pública superior por conta da má gestão de alguns? Tenha paciência!

domingo, 22 de maio de 2016

Hiroshima, O dia seguinte - Documentário

Como estamos estudando II Guerra Mundial, e meus alunos se interessam pelo tema, estou deixando aqui uma sugestão de documentário, uma vez que temos pouco tempo em sala de aula para trabalhar tudo sobre o tema. Achei este documentário interessante. Há outros no youtube, recomendo uma visita, quando tiverem um tempinho.


Curiosidades: 
Nagasaki foi fundada por navegadores portugueses na segunda metade do século XVI, no local onde havia uma pequena vila de pescadores, que era parte Distrito de Nishisonogi. A cidade tornou-se um centro de influência português e de outros povos europeus ao longo dos séculos XVI a XIX. 

A redição do Japão não acontece após imediatamente após as explosões atômicas em Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagasaki (9 de agosto). Na verdade, até a capitulação, no dia 14, houve ainda quase mil bombardeios americanos no país. Na madrugada daquele dia, um B-29B que explodiu uma refinaria de petróleo ao norte de Tóquio. Sem combustível não havia mais como permanecer na Guerra.

Fontes consultadas para esta postagem:
- Youtube
- Guia do Estudante da Abril
- Blog Sabia Que...


sexta-feira, 20 de maio de 2016

A HISTÓRIA E A FORMAÇÃO DA CIDADANIA

Depois de dois anos ausente, retornei com meus alunos para a Olimpíada Nacional de História do Brasil, promovida pela UNICAMP. Pois bem, achei necessário fazer alguns comentários sobre a prova da primeira fase.

Devo dizer que ela começou bem, como uma questão sobre a ocupação de escolas em São Paulo por estudantes. Em tempos sombrios como os que estamos vivendo, sob ameaça de cerceamento de temas e debates na sala de aula, onde tramitam, tanto em âmbito federal quando estadual projetos como o “Escola Sem Partido” e similares, a UNICAMP reafirma o papel das universidades em promover o debate e estimular a cidadania.

Além disso, as questões da ONHB estão sempre inovando não apenas pelos temas, mas pelo uso que se faz de documentos como fotos, pinturas, ilustrações, charges, cartuns, textos impressos e manuscritos.

Chamou-me atenção este ano o uso de páginas da História em Quadrinhos nacional Estórias Gerais, material, inclusive, presente nas bibliotecas de escolas públicas. Foi muito feliz quem elaborou a questão, tanto pela escolha do material/documento (a HQ Estórias Gerais) quanto pelo conteúdo a ela atrelado.


Eu particularmente gosto muito o exercício que é participar da ONHB. Não entro com expectativas de vitória. Claro, todos querem ganhar. Mas o que me motiva realmente é ver nascer e crescer o interesse dos alunos por temas relacionados com a História do Brasil. Acredito inclusive que eles aprendem muito mais, desenvolvem muito mais habilidades, fazendo as provas do que em sala de aula. E eu aprendo junto.

Fosse outro país ou outra época, quem sabe poderíamos optar por um estudo de História que não vise à promoção em concursos e o ingresso no curso superior. Trabalhar-se-ia com documentos e as avaliações seriam mais proveitosas e menos maçantes. Teríamos mais mentes pensantes e conscientes. Infelizmente, tais atributos não são bem vistos por uma parcela dos nossos dirigentes, então, temo possa ocorrer o contrário.

Mas enquanto ainda se respira um pouco de liberdade deixo aqui a recomendação tanto para professores quando para alunos: participem da OMHB. Você só tem a ganhar, mesmo que não fiquem entre os finalistas ou conquiste uma medalha. Na ONHB até quem perde ganha. E não tem nada ver com espírito esportivo, mas com aquisição real de conhecimento. 

domingo, 8 de maio de 2016

VÍDEO SOBRE ERA VARGAS - RECOMENDADO PARA O TERCEIRO ANO

Esta vídeo-aula é muto boa e foi reeditada, sendo assim a imagem está melhor e sem os problemas do vídeo anterior.

PATO DONALD NAZISTA

“Der Fuehrer’s Face” (Na cara do Fuehrer), esse é o nome do curta da Disney, lançado em 1943, que causou furor, pois trazia o personagem pato Donald como um nazista. Baseado na canção de mesmo nome de Oliver Wallace, o desenho polêmico apresenta o pato Donald trabalhando em uma fábrica de munição, lembrando muito o filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin, e, ainda assim, o curta traz uma mensagem de apelo anti-nazista" (Trecho extraído de La Parola)
Vídeo recomendado aos alunos do 3º ano do Ensino Médio e 9º ano do Ensino Fundamental.

domingo, 31 de maio de 2015

RELATO DE EXPERIÊNCIA: CRIANDO UMA GIBITECA NA ESCOLA

Os alunos da Escola Conhecer (Leopoldina/MG), tiveram a iniciativa de criar sua própria gibiteca. Eles forma convidados a compartilhar sua experiência com pesquisadores de arte sequencial de todo o Brasil, que se reuniram pra o II Entre Aspas (evento realizado de 28 da 30 de maio). Assista o vídeo e conheça o trabalho dessas crianças.



Faça doações para a gibiteca dos alunos da Escola Conhecer. Entre em contato com a coordenadora pedagógica, Claudia Duque, pelo e-mail: claudia_duque11@hotmail.com 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Minicurso: Histórias em Quadrinhos e Ensino de História

Minicurso: Histórias em Quadrinhos e Ensino de História: Questões socialmente vivas nas narrativas gráficas - no IX Perspectivas do Ensino de História.
Ministrantes:  
  • Márcio dos Santos Rodrigues (Mestre em História pela UFMG / Professor do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino da FaE/UFMG)
  • Natania Aparecida da Silva Nogueira (Mestranda em História pela Universidade Salgado de Oliveira/professora do Ensino Fundamental II no município de Leopoldina, na Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado e no Colégio Imaculada Conceição)
  • Lucas Lins Muniz Pimenta (Licenciado em História pela universidade Jorge Amado (BA)/Professor PST da rede estadual de Ensino da Bahia/ Fundador e editor-chefe do site e editora Quadro a Quadro)
Dia 18, das 17 às 19h; Dia 19, das 8 às 10h.;
http://www.cursoseeventos.ufmg.br/CAE/DetalharCae.aspx…
 
Período de realização: 18/04/2015 a 19/04/2015
 
Período de inscrição: 23/12/2014 a 10/04/2015
Horário: Dia 18, das 17 às 19h; Dia 19, das 8 às 10h.
Nº de vagas: 20

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

NÃO ADIANTA: TEM QUE SABER ESCREVER


Os alunos, de uma forma geral (mas nem todos, felizmente), acham que o professor ou a professora são bons ou ruins de acordo com a nota que tiram na prova e no grau de dificuldade da matéria. Eu sei que é uma generalização, mas nos meus vinte anos de magistério, é o que eu tenho visto. Outra coisa, eles também acham que só precisam se preocupar em escrever corretamente nas aulas de língua portuguesa e ainda acham um ABSURDO que professor de outra matéria cobre uma boa redação. E pasmem: alguns pais concordam com isso!

Eu até me acho bem maleável. Eu peço uma boa redação e até deixo passar algumas palavras erradas, afinal, todo mundo erra, inclusive professor. Palavras erradas a gente sempre pode corrigir, mas saber escrever é uma questão de prática e, é claro a tal da vontade de aprender. Mas o caso é que os jovens não estão sabendo escrever e não estão se importando com isso. Deixe-me esclarecer o que eu entendo por "saber escrever". Saber escrever é: 

  • saber deixar claras as ideia, criando um texto coerente;
  • saber usar bem as palavras;
  •  ter boa concordância;
  • ter um bom vocabulário (que vai melhorando e se ampliando à medida que se lê, que se ouve o que o outro está dizendo, etc.).

O que temos hoje são alunos, principalmente adolescentes, que estudam para o momento. Decoram matéria, querem que o professor dê resumos que dispensem um estudo mais aprofundado, e lhe garanta um nota boa no boletim. Pois é, nota boa para mostrar aos pais e nenhum conhecimento adquirido para enfrentar o mundo. Sim, porque a vida não é justa e na "selva de pedra" ninguém é coitadinho. Ou sabe ou não sabe. A realidade é que  pouca gente anda querendo aprender.

E não sou eu que estou dizendo isso. Os resultados estão aí. 

"Dos 6.193.565 candidatos que fizeram o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2014, 529.374 participantes tiveram nota zero na redação do Enem (8,5%), segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Apenas 250 obtiveram a nota máxima (1.000) na redação e 35.719 inscritos tiveram notas entre 901 e 999. Ao todo, 248.471 redações foram anuladas."[1]




Quase 10% de jovens tiraram zero em redação. Há quem vá dizer que é pouco. Mas vejam bem, APENAS 250 em mais de 6 milhões conseguiram nota máxima. Chega a ser indecoroso! Uma vergonha para o país e para o nosso sistema de ensino. E não venham me dizer que a culpa é do professor (sempre dizem isso) que não ensina o que o aluno precisa saber.

Infelizmente, vivemos no sistema dos "coitados". O coitado precisa ter sua nota garantida, senão a escola está falhando com ele. Ele não aprendeu, coitado, não pode ser reprovado. Acontece que os coitados são todos. Todos os alunos devem ser aprovados mesmo sem ter aprendido o necessário. São aprovados na escola e reprovados no ENEM e em tantos outros momentos em que a vida vai cobrar deles o que a escola foi impedida de oferecer: preparo.






[1] 529 mil candidatos tiraram zero na redação do Enem 2014. Disponível em: http://educacao.uol.com.br/noticias/2015/01/13/529-mil-candidatos-tiraram-zero-na-redacao-do-enem-2014.htm, acesso em 15 de jan. de 2015.