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segunda-feira, 6 de outubro de 2025

VIADUTO, HQ DE ANA LUISA KOEHLER

 

Pensem em um quadrinho que reúne uma história interessante e uma arte quase etérea. É assim que eu vejo as obras de Ana Luísa Koehler, desde que li pela primeira vez "Beco do Rosário". Viaduto é uma sequência dessa primeira obra, ambientada na cidade de Porto Alegre, na década de 1930, e que traz como protagonistas Vitória, uma jovem negra, idealista e jornalista, e Frederica, uma mulher branca de elite que, depois de um divórcio escandaloso, foi afastada pela família e agora se dedica à música e à boemia, trabalhando como pianista em um clube.

Imaginem uma mulher, negra e jornalista, no início do século XX, justamente em Porto Alegre, uma cidade com forte influência da imigração europeia, notadamente alemã. Imagine uma mulher branca de elite que quer viver uma vida sem regras e que coloca sua música e liberdade em primeiro lugar. Este contraste e a amizade que nasce da vontade dessas mulheres de quebrarem paradigmas, enfrentando o sexismo e o machismo da época, já é suficiente para tornar enredo atraente.

Em "Viaduto", temos como pano de fundo a obra de construção do viaduto Otávio Rocha, marcada por problema de cunho econômico, como a falta de recursos. O ano de 1930 é um momento de mudança política, com a acessão de Vargas, e econômica, com os primeiros efeitos da crise de 1929. Vitória está cobrindo matérias sobre a obra do viaduto. Ela agora já e uma jornalista estabelecida e com uma reputação construída. Ela leva para a comunidade, por meio da mídia, os problemas que são trazidos pela obra.

Outros personagens que marcaram "Beco do Rosário" vão sendo introduzidos, como Téo e Fabrício. O leitor vai adentrando em suas vidas, descobrindo o que eles se tornaram, já passados mais de 15 anos dos acontecimentos que marcaram “Beco do Rosário”.  Porto Alegre, como cidade, mudou. Agora vê-se ao horizonte arranha-céus e as avenidas largas tomaram conta dos antigos becos. A vida dos personagens também está diferente. Eles agora estão em caminhos distintos, embora venham a se cruzar em "Viaduto".

Tanto “Beco do Rosário” quanto “Viaduto” foram trabalhos que resultaram de uma exaustiva pesquisa de campo na qual a autora, a partir e um trabalho de memória urbana, pesquisou em jornais de época e outas fontes, como documentos oficiais, para poder reconstituir a cidade de Porto Alegre antes e durante a reforma urbana, iniciada em 1914, dentro do Plano Geral de Melhoramentos, elaborado pelo arquiteto João Moreira Maciel.

O Plano Geral de Melhoramentos foi uma versão da reforma urbanos do Rio de Janeiro, capitaneada por Pereira Passos, entre os ano de 1902 e 1906, também, marcada pelo higienismo social (doutrina do século XIX que ligava a saúde e o bem-estar de uma nação ao comportamento individual e às condições urbanas), por uma visão preconceituosa da população de baixa renda, que vivia nos becos da cidade. 

Koehler traz uma história que envolve tanto famílias afetadas pela reforma quando pessoas da elite, que exaltam a chagada do “progresso” e da “civilização”. Por isso, apensar dos personagens centrais da trama sejam ficcionais, há “participações especiais” de personagens que realmente existiram, e que estivem envolvidos nas mudanças urbanas da cidade. Uma história em quadrinhos com personagens forte e envolventes e que é resultado de um exaustivo trabalho de pesquisa e de execução.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

FREDRIC, WILLIAM E A AMAZONA. PERSEGUIÇÃO E CENSURA AOS QUADRINHOS

 


Fredric, Willian e a Amazona: perseguição aos quadrinhos, traz a biografia conjunta do psiquiatra Dr. Fredric Wertham e do psicólogo  William Moulton Marston. O primeiro, autor do livro Sedução do Inocente,  ficou conhecido por ser protagonista da famigerada companha de perseguição aos quadrinhos, que na década de 1950 representou um duro golpe à indústria dos quadrinhos nos Estados Unidos e que teve reflexos diversos países do ocidente. O segundo, ficou conhecido como criador da Mulher Maravilha, a primeira grande heroína surgida na égide da segunda onda do feminismo, durante a Segunda Guerra Mundial.

O quadrinhos nos traz uma história que busca reproduzir o contexto de criação da Mulher Maravilha e, ao mesmo tempo, o surgimento das teorias de Wertham, que condenava a leitura dos quadrinhos. Os autores buscam reconstituir os bastidores desse processo, colocando na mesa as influências que este dois homens tiveram para construírem seu legado. 

Wertham, mergulhado no mundo do crime, analisando perfis de psicopatas, imerso numa visão mais pessimista e traumatizante da realidade, perpassada  pela violência em seu estado mais perverso. Ao mesmo tempo, o psiquiatra tenta contrabalancear esta negatividade promovendo auxilio psiquiátrico a comunidades negras nos Estados Unidos. No entanto, de acordo com a narrativa da obra, ele não consegue se distanciar do fato de estar imerso na violência, e assume uma postura rígida com relação principalmente a quadrinhos de crime e de terror.

Marston, é sempre apresentado de forma otimista, um idealista que tem uma vida excêntrica com suas duas esposas (ele era adepto do poliamor). Ele encontra nos quadrinhos uma forma de popularizar suas ideias acerca das relações de gênero e do feminismo e de sua invenção, o polígrafo, comumente chamado de detector de mentiras. Suas relações familiares fazem parte do enredo, destacando sua relação com sua esposa e sua amante. 

Não acho que o termo “amante” seja correto para descrever a relação dele com Olive Byrne mas não me veio em mente outra palavra, visto que, levando em conta os paradigmas sociais da época, ela se encaixava dentro desta categoria, embora sua relação com Marston não fosse clandestina (inclusive, se alguém tiver um termo melhor que eu possa usar, aceito sugestões). Há de se destacar a forte presença de sua  esposa, Elizabeth Holloway Marston, e sua importância tanto no que tocante ao bom andamento das relações familiares quanto ao seu trabalho de Marston e à própria criação da Mulher Maravilha.

Esta HQ, de autoria dos franceses Jean-Marc Lainé (roteiro) e Thierry Olivier (arte). O roteirista, Lainé, criou a narrativa deste quadrinho a parte do seu conhecimento sobre a história dos quadrinhos estadunidenses, tendo experiências tanto como editor quanto como pesquisador de quadrinhos. A obra, apesar de possuir muitos elementos ficcionais, até porque não há como escapar deles quando se constrói uma narrativa biográfica em quadrinhos, é bem factualmente bem embasada, inclusive com  textos complementares, ao final da obra que valem a pena ser lidos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

ALGUMAS NOTAS SOBRE O LIVRO KIM JIYOUNG, NASCIDA EM 1982


Tenho lido poucas obras que não são relacionadas ao trabalho, principalmente ficção. Uma boa ficção ajuda muito no trabalho intelectual pois estimula a criatividade. Ficar presa apenas a textos acadêmicos pode fazer com que um(a) pesquisador(a) reduza consideravelmente seu repertório prejudicando, inclusive sua escrita. 

Sendo assim, eu resolvi separar algumas obras que estão se empilhando nas prateleiras das minhas estantes para ler, nem que fosse apenas algumas páginas diárias. Livros de poesia, romances de ficção e muitas histórias em quadrinhos, que eu comprei e ainda nem folhei. Decidi, também, colocar como meta toda semana tentar tirar um tempo para fazer um pequeno texto sobre das obras cuja leitura encerrei.

Vou começar com o livro “Kim Jiyoung, nascida em 1982”, que eu terminei de ler na semana passada. Este livro foi publicado originalmente na Coreia do Sul em 2016 e se tornou um fenômeno internacional. Foi recomendação da amiga Fabiana Rubira. A autora do livro é Cho Nam-Joo, uma ex-roteirista de televisão. Na época da publicação de seu livro, na Coreia do Sul, estava emergindo o movimento #MeToo no país. Foi uma coincidência feliz para a autora, que viu seu livro ganhando visibilidade graças ao amplo debate sobre o papel da mulher na sociedade sul-coreana, fortemente marcada pela desigualdade de gênero.

Neste livro ela narra a vida de Kim Jiyoung uma jovem sul-coreana que pode representar qualquer uma jovem comum, na faixa dos 30 anos de idade. Vinda de uma família simples, Kim Jiyoung encontrou-se sob uma grande pressão para atender as expectativas do mercado de trabalho e ao mesmo tempo da sociedade. Ela quer investir em uma carreira, conseguir um bom casamento e construir uma família.

Parece tudo muito engessado, e realmente é. Kim Jiyoung é uma das milhões de mulheres que andam na corda-bamba na Coreia do Sul. Ela tem ambições, mas vê pouco a pouco seus sonhos escapando entre seus dedos quando opta por ter o primeiro filho. Por detrás disso há uma forte pressão social. A moça o engravida e é obrigada a abrir mão da sua carreira e dos seus sonhos para viver como esposa e mãe.  

O livro vai e volta no tempo, trazendo a jovem Kim Jiyoung, suas experiências na infância e na juventude, assim como os obstáculos que teve que enfrentar em uma sociedade que ainda valoriza mais os homens, seja como filhos ou como trabalhares. Na Coreia do Sul, muito mais do que no Brasil, e aí podemos destacar a influência do confucionismo naquele país, os homens ainda são acima das mulheres, até na própria família. Era muito comum, por exemplo, as irmãs começarem a trabalhar cedo para pagar os estudos dos irmãos. Em tempos mais antigos, as mulheres nem mesmo podiam comer na mesma mesa que os homens e nem mesmo partilhar da mesma comida.

Uma coisa que me chamou atenção neste livro, é que a autora teve a preocupação de inserir dados retirados de artigos científicos, de matérias jornalistas e indicadores estatísticos. É uma forma de embasar a história de vida da protagonista e chamar atenção para os obstáculos que as mulheres têm que enfrentar, da infância à vida adulta.  Entre estes dados estão aqueles relacionados à questão de desigualdade de gênero e sobre o mercado de trabalho.

A saúde mental é outra questão que o livro aborda, resultado de todos esta pressão social que se coloca sobre as mulheres. Kim Jiyoung passa a  frequentar um psiquiatra após ter sua criança, sentindo-se perdida e sem perspectivas de futuro. A maternidade é apresentada como sendo o fim  da possibilidade de acessão profissional pois, apesar de existir licença maternidade, as mulheres são levada a desistir de seus empregos e voltar para sua posição original, após alguns anos, é muito raro. 

Muitas mulheres que têm filhos optam por empregos de meio período, descartando sua formação universitária e sua experiência profissional. Aí alguém pode dizer: "Ah, mas ela não precisa fazer isso!". Talvez para quem viva no Brasil e em outros países ocidentais isso possa ser uma possibilidade, e temos muitos exemplo no nosso dia a dia, mas lá na Coreia do Sul a coisa não é bem assim. Não são todas que conseguem permanecer em seus empregos após ter filhos e mesmo aquelas que retornam podem ainda abandonar o trabalho devido ao acumulo de responsabilidades profissionais e domésticas.

Um drama recente, "A cidade e lei" (2025), traz uma situação semelhante quando uma advogada, Bae Mun Jeong, interpretada pela atriz Ryu Hye Young,  engravida e procura se informar sobre sua licença maternidade (ou licença parental). Ela ouve do chefe que, nestes casos, o normal é se demitir. Ela não aceita a situação e busca manter seu direito adquirido por lei: de afastar, ter seu(ua) filho(a) e retomar às suas atividades profissionais ao fim da licença. Mesmo sendo advogada ela tem muita dificuldade para conseguir, reproduzindo uma situação que afeta ainda em 2025 muitas mulheres naquele país. Aliás, a roteirista do drama tem formação em advocacia, o que dá uma certa profundidade à experiência desta personagem em particular.

Tanto o livro quanto nesta série  podemos perceber que mulheres que se casam são vistas como um problema, pois eventualmente podem engravidar e interromper suas tarefas. O retorno é visto como inviável, e muito disso se deve à grande competitividade. Um dos dados que a autora apresenta é justamente sobre essa questão, em 2009 "quatro em cada dez mulheres trabalham sem a garantia de licença maternidade"(p. 93). 

A mesma sociedade, que atualmente vive uma crise séria de crescimento demográfico, quer que as mulheres casem e tenham filhos, mas acabam obrigando-as a escolher entre família e profissão, como se não houvesse um meio termo (aquele encontrado pela advogada da série que eu citei). Como a autora gosta de inserir dados estatísticos e informações retiradas de fontes científicas, vou finalizar o texto com alguns dados atuais com relação às mulheres na Coreia do Sul.

"A partir da década de 2010, mais mulheres optaram por permanecer solteiras ou casadas e sem filhos. Políticas familiares como creche e licença parental não foram suficientes para tornar o trabalho e a criação dos filhos compatíveis em geral e, portanto, não tiveram os efeitos desejados sobre a fertilidade e o emprego feminino. Os efeitos das intervenções políticas variam com base em fatores como a posição das mulheres no mercado de trabalho e o acesso a programas de apoio, como creches de qualidade. A análise indica que, até que o emprego e a maternidade possam ser combinados de forma razoável para a maioria das mulheres, o custo alternativo da maternidade permanecerá alto e a fecundidade permanecerá baixa ou cairá ainda mais" 

(Women’s employment and fertility in Korea. OECD. 18 October 2024. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/women-s-employment-and-fertility-in-korea_ac53879e-en.html Acesso em 25 set. 2025).

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

COMENTANDO PEDRO E O IMPERADOR

Tentando colocar as leituras em dia, ou pelo menos tentar diminuir a pilha de livros de quadrinhos que tenho para ler, eu hoje fiz a leitura de "Pedro e o Imperador", quadrinho de ficção criado pelo mineiro de Juiz de Fora, Batista e a impecável quadrinista portuguesa Joana Afonso.  A HQ faz parte das ações do Programa Brasil em Quadrinhos desenvolvido pelo Ministério das Relações Exteriores -  Itamaraty, desde 2019, e que tem por objetivo articular as indústrias criativas brasileiras com suas ações de difusão cultural no exterior. 

A HQ "Pedro e o Imperador" foi lançada graças a este programa, que envolveu a embaixada do Brasil em Portugal e a de Portugal no Brasil, dentro das comemorações do bicentenário da Independência, comemorado em 2022. Ela narra uma série de interações entre o espírito de Dom Pedro I e seu filho, O Imperador Pedro II, que começam por ocasião do falecimento da princesa Leopoldina, filha caçula de D. Pedro II, em 1871, na Áustria.

O fantasma do pai (embora ele não se classifique desta forma) passa a acampar o filho até sua morte no exílio,  em Paris, em 1892. O espirito de D. Pedro I estimula o filho a conhecer o mundo e o acompanha em suas viagens, Lisboa, Egito, Filadélfia e Alemanha. As viagem do Imperador que desejava ser um cidadão do mundo e que, na sua ausência do Brasil, queria tentar ser uma pessoa comum, um viajante. Aliás, para quem tiver curiosidade, é possível acessar a transcrição dos 43 volumes dos diários do imperador d. Pedro II, escritos entre 1840 e 1891, no site do Museu Imperial (clique aqui). 

Pai e filho falam sobre as dificuldades de governar, sobre a questão da escravidão, discutem sobre a possibilidade de uma República e até debatem sobre o prenso liberalismo de Pedro I, ironizado pelo filho. Falam de coisas triviais como o amor e sobre as frustações de cada um com a vida. Discordam de muitas coisas mas reafirmam seu sentimento de pertencimento com relação ao Brasil. Há, inclusive, alusão à frase de D. Pedro II, que quando perguntado o que faria quando não fosse Imperador teria afirmado que seria professor.

 A HQ é um ficção histórica que resgata alguns episódios da vida do Imperador D. Pedro II, afastado do pai ainda aos 5 anos de idade, e que também aborda temas que dizem respeito à vida destes dois personagens da História do Brasil, que conversam sobre suas frustações, falam de arrependimentos. Longe de ser uma obras historiográfica, trata-se de uma ficcionalização do passado cujo objetivo é a reflexão do que a exaltação do fato.

Um quadrinho agradável e que desperta a curiosidade, com passagens bem humoradas, apresentando um D. Pedro II menos rígido e mais bem humorado. Vale a leitura.

sábado, 2 de agosto de 2025

GATILHO - ARMAS E SAÚDE MENTAL


Na minha última semana de recesso eu comecei assistir a série dramática sul coreana 'Gatilho" (Trigger), que estreou na Netflix. Na abertura do primeiro episódio já podemos entender a base do enredo: a saúde mental. São apresentados dados que apontam para a questão da saúde mental dos sul-coreanos, inclusive sobre os índices elevados de suicídio.  Em psicologia, "gatilhos emocionais" podem causar ansiedade e outros desconfortos. E isso é explicado já no primeiro episódio. O título é sensacional, porque ele resume justamente as duas questões que são tratadas na série: o uso de armas e os problemas psicológicos que se tornaram comuns no país.

Pelo resumo da série eu já sabia que se tratava de um drama policial, mas, então, já no segundo episódio, caiu a ficha: é uma distopia. Para quem não sabe, a distopia é um tipo de ficção que retrata cenário caóticos ou apocalípticos, nos quais a comunidade vive um regime de violência ou opressão. As pessoas às vezes relacionam cenários distópicos a obras de fantasia ou ficção científica, mas não é necessariamente assim. Em "Gatilho" temos uma distopia que remete a um "SE". O que aconteceria se... a população da Coreia do Sul tivesse acesso às armas de fogo?

No drama, as armas de fogo são distribuídas gratuitamente por uma organização criminosa internacional, explorando principalmente pessoas com traumas, transtornos mentais e com tendências violentas. Nas mãos destas pessoas verdadeiros massacres acontecem, uma vez que elas passam a recorrer à violência quando levadas ao limite. É o gatilho, induzido por uma situação traumática ou vexatória que leva uma pessoa comum como uma dona de casa, um estudante ou uma enfermeira a matar outas pessoas.

Na Coreia do Sul existe uma política rígida sobre o porte de armas. Elas praticamente são de uso policial e militar e para prática de esportes (mas mesmo assim sob rígido controle da polícia).

“A Coreia do Sul tem políticas rigorosas de armas. Licenças de caça e esportivas são emitidas, mas qualquer arma de fogo usada nessas circunstâncias deve ser armazenada em uma delegacia de polícia local. Os rifles de ar também precisam ser armazenados nas delegacias de polícia; bestas e dispositivos de choque elétrico também são classificados como armas de fogo, mas sua retenção privada é permitida. Tasers são proibidos, e possuir uma arma de brinquedo sem uma ponta laranja é estritamente proibida. A violação da lei de armas de fogo pode resultar em multa de US$ 18.000 e até 10 anos de prisão”[1]

Por isso, quem já assistiu um drama sul coreano deve ter percebido que os bandidos usam facas, até espadas, mas não portam armas. Inclusive, a Coreia do Sul está implementando o uso de armas menos letais pela polícia, como taser e pistolas de baixo risco, para situações de menor potencial de violência. Inclusive o protagonista, um policial que foi x-sniper do exército coreano não usa armas de fogo, apenas armas não letais.

E este é uma das questões levantadas pelo k-drama: se é ou não necessário usar armas de fogo para combater o crime. O protagonista Yi-do (Kim Nam-gil) acha que não, embora, por força das circunstâncias, seja obrigada novamente a usar uma arma. No entanto, ao longo de toda a trama ele se coloca muito mais na posição de quem protege a vida do que a tira.  O uso de armas de fogo por civis também é outra questão. São usados argumentos clássicos em sua defesa, tal como “se eu tiver uma arma posso me defender”, ou “se eu tiver uma arma não serei uma vítima”, assim como tantos outros argumentos usados pelos defensores do porte livre de armas.

A série é realmente muito interessante. Não vou escrever mais sobre ela para não dar spoilers. Apesar de pensada dentro da realidade sul-coreana, acho que Trigger tem muito a ensinar e nos fazer refletir sobre a violência e o que nos torna violentos. É bom lembrar que nos últimos anos têm crescido o discurso de ódio em todo o mundo, em parte alimento justamente pela insatisfação, o medo e ansiedade crescente na sociedade contemporânea. Além da trama, muito bem montada, outro ponto forte da série é o elenco. Dos protagonistas ao elenco de apoio, todos dão um show de interpretação. Recomendo para quem gosta do gênero.


[1] Legislação sobre armas de fogo. Wikipedia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Legisla%C3%A7%C3%A3o_sobre_armas_de_fogo#:~:text=A%20Coreia%20do%20Sul%20tem,uma%20delegacia%20de%20pol%C3%ADcia%20local.>. Acesso em 2 ago. 2025.


domingo, 20 de julho de 2025

L’ ATELIER DES SORCIERS: A PENA ENCANTADA DE KAMOME SHIRAHAMA


Uma das exposições mais concorridas em todos os dias do 52º Festival International de Bande Dessinée de Angouleme foi “L’atelier des Sorciers : La Plume Enchantée de Kamome Shirahama”, no Hôtel Saint-Simon, uma construção que remonta ao ano de 1540, localizado no centro da cidade. Este mesmo espaço foi dedicado, em 2023, para uma exposição com a obra de a Julie Doucet, vencedera do Grand Prix de 2023. Duas mulheres com estilos diferentes mas que marcaram história em Angoulême.

Kamome Shirahama  pode não ter sido  premiada pelo festival, mas sua popularidade é inegável. A fila, todos os dias, enquanto a exposição estava acessível, parecia não ter fim. Muitos jovens, crianças e adultos, usando chapéus de cone, alguns, apesar do frio, fantasiados. Para quem não sabia o que estava acontecendo, aquela aglomeração de pessoas em uma rua estreita, esperando sua vez para entrar no Hôtel Saint-Simon poderia causar estranhamento. Comparadas as outras grandes exposições esta, possivelmente, foi uma das que teve o maior público do festival.

Kamome Shirahama se formou em Design na Universidade de Artes de Tóquio . Ela começou a fazer capas variantes e outras ilustrações e trabalhos conceituais para a Marvel Comics , DC Comics e Star Wars em 2015, depois que sua arte foi notada na New York Comic Con , trabalhando em títulos como Star Wars: Doctor Aphra , Deadpool e Batgirl and the Birds of Prey . Ela ganhou e foi indicada para vários prêmios, incluindo o Eisner Award , o Harvey Award , o Kodansha Manga Award , o Manga Taishō , o Daruma d'or manga no Japan Expo Awards , o Mangawa Award e o Prix Babeliom, sendo que em 2019 o mangá foi indicado para o prêmio de Melhor Quadrinho Jovem, no 46º FIBD de Angoulême.

Não levou o prêmio, em 2019, mas ganhou uma exposição fantásticas em 2025. O reconhecimento do público ao trabalho de Kamome Shirahama  e seu trabalho como mangaká é mais do que merecido. A exposição traz a magia da série em mangá , L’Atelier des Sorciers  (Witch Hat Atelier), iniciada pela autora em 2016 e publicada no Brasil pela Panini. O mangá de fantasia tem seu universo inspirado em Ghibli e na fantasia britânica (O Senhor dos Anéis, Harry Potter, Nárnia, etc.) revisitando seus arquétipos.


Hôtel Saint-Simon, Angoulême.

No cenário escolhido para a exposição, o hotel Saint-Simon, ajuda a mergulhar ainda mais no mundo fantástico criando por Kamome Shirahama. A entrada, as escadas de pedra em caracol e a própria disposição na qual as imagens selecionadas e as informações sobre a obra foram distribuídas, faz com que o visitante possa entrar dentro da própria história. Há rascunhos, desenhos inéditos e muito material tanto para quem é fã quanto para quem está conhecendo a obra de Shirahama.

É um mangá de muito sucesso entre os jovens, pois traz para o centro da narrativa questionamentos do papel que os jovens, em sua pluralidade, podem ter na sociedade e sobre a emancipação com relação aos adultos. Fala sobre o amadurecimento e tomada de responsabilidades sobre suas próprias ações. Por atrair um público plural, o mangá se tornou um sucesso tão grande que em julho de 2024 havia de cópias em circulação 5,5 milhões. Witch Hat Atelier é, também, um mangá apreciado pela comunidade LGBTQ+, com personagens usando roupas neutras e possuindo o casal queer. A diversidade de representações que a obra traz faz com que seus leitores sejam plurais.É um é um mangá seinen, para o público masculino jovem adulto, mas que acabou atingindo segmentos variados da sociedade.


Por fim, vale ressaltar o mangá lidera atualmente mais de 50% das vendas de quadrinhos em na França, segundo dados divulgados pelo FIBD, relativos a 2023/2024, com milhões de exemplares vendidos anualmente. Pelo menos duas grandes exposições, em espaços nobres, são reservadas para homenagear mangakás e é existe um enorme complexo dedicado ao gênero dentro do festival, a Mangá City, com 2000² dedicados ao mangá. No entanto, em 52 anos de festival, apenas dois mangakás forma receberam  o Grand Prix (prêmio máximo do festival): Katsuhiro Otomo, criador de Akira, em 2017 , e Rumiko Takahashi, conhecida pelo personagem Inuyasha, dentre outros, em 2019.

Fotos da exposição – 29 de janeiro de 2025

 
















 


POSY SIMMONS - HERSELF

 


Indo contra a corrente do individualismo contemporâneo, as histórias desenhadas por Posy Simmonds são fruto de um olhar meticuloso sobre o outro. Essa leitura refinada do período nos permite perceber melhor as nuances do nosso cotidiano” (Exposição Posy Simmons. Herself, Angoulême, 2025).

 

“Posy Simmons. Por ela mesma” foi uma das exposições mais concorridas durante o 52º FIBD de Angoulême, tanto pela obra e trajetória da autora, uma veterana entre as quadrinistas britânicas, quanto pelo fato de se tratar de laureada de 2024. Sim, estamos falando de um das (poucas) mulheres que recebeu o Grand Prix (o prémio máximo do festival) em duas 52 edições. E ela mereceu, certamente. Esta autora não é conhecida do público brasileiro, mas influenciou várias gerações de artistas britânicos e de outros países, nos quais sua obra foi traduzida, como a França.

Rosemary Elizabeth "Posy" Simmonds é uma cartunista de jornal britânica, escritora e ilustradora de livros infantis e graphic novels. Ela é mais conhecida por sua longa associação com o The Guardian, para o qual desenhou as séries Gemma Bovery (2000) e Tamara Drewe (2005–2006), ambas publicadas posteriormente como livros. Assim como Claire Bretecher usou da sátira e do humor para criar histórias que criticavam e expunham os vícios das classes médias francesas, Posy faz algo bem semelhante, mas com um estilo mais “gentil”.  

Ela cria retratos psicológicos precisos, zomba das deficiências da classe média e do cenário cultural, caricatura a seriedade e critica os desenvolvimentos sociais. Entre suas influencias literárias estão escritores como Gustave Flaubert e Charles Dickens. Suas personagens femininas têm como característica serem obstinadas. Elas não necessariamente terão um final feliz. Elas são "heroínas condenadas", como em romances góticos dos séculos XVIII e XIX, mas claro, dialogando com o presente, o moderno. Suas obras mais famosas são Tamara Drewe e Gemma Bovery (Denoël).

Nascida em 1945, a autora completa este ano 80 anos, sendo mais de 50 anos como cartunista. acrescentam mais camadas às histórias. Posy Simmonds ficou famosa nacionalmente por sua tira “The Silent Three of St. Botolph's”, que começou a aparecer no “The Guardian” em 1977 e era sobre três amigas de longa data. Mais tarde, ela publicou-o em livros e desenvolveu-o ainda mais para criar sua primeira história em quadrinhos, “True Love”. Suas outras publicações também começaram como tiras no “The Guardian”.

Simmons publicou ainda livros e quadrinhos infantis. Sua exposição traz essa longa trajetória, mostrando várias facetas da autora, sobretudo, sua preocupação com a memória. Em “Posy Simmons. Herself” temos uma imersão na história dos quadrinhos britânicos antes de chegarmos propriamente na produção da autora. Este detalhe, que pode até passar por despercebido por que está lá apenas pela autora, demonstra a importância dada por ela e pela curadoria do festival em trazer à tona a história dos quadrinhos da qual esta veterana, e porque não dizer, e pioneira faz parte.

Na exposição podemos conhecer mais sobre Posy Simmons. Seu engajamento em questões políticas, sua intimidade, sua visão de mundo e, suas mulheres, figuras tragicômicas que derrubam códigos sociais. Suas influencias também estão presentes, seja na arte ou na literatura. A exposição trouxe ainda desenhos inéditos da autora que, por sinal, abriu a exposição no dia 29 de janeiro, com uma visita guiada exclusivamente para profissionais.

Entre o material inédito da exposição estão os cadernos de Posy Simmons, nos quais podemos perceber como a autora faz sua leitura do cotidiano, sua sensibilidade ao representar em seus desenhos os destituídos e anônimos. Ao mesmo tempo ela denuncia as formas contemporâneas de alienação, dando voz aos anônimos. Pessoas comuns, pessoas que passam por privações e que muitas vezes ficam convenientemente invisíveis para a sociedade. Ela se posiciona conta o individualismo e lança um olhar meticuloso sobre o outro.

Cabe por fim acrescentar que Posy Simmons, além de profissional de grande estatura e que hoje represente uma das vozes mais fortes entre as autoras britânicas, é uma criatura dotada de grande gentiliza. Seu semblante suave e sua voz mansa deixam todos ao seu redor confortáveis. Mas não se deixem enganar por seu semblante sereno. Por detrás dele há uma mulher forte, capaz de colocar em suas obras representações da realidade política e social intensas que nos fazem questionar padrões normatizados de comportamento.

Imagens da exposição – 29 de janeiro de 2025













sábado, 19 de julho de 2025

MEUS CLIENTES FANTASMAS: DRAMA DENUNCIA A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO NA COREIA DO SUL

Desde que comecei a me interessar por produções do leste asiático eu tenho tido surpresas principalmente acerca de temas que são tratados nestas produções. Quando assisti W: Entre dois mundos, por exemplo, o tema do suicídio chamou minha atenção. Um tema, que por sinal, é recorrente nas produções sul-coreanas, dos dramas escolares aos históricos. Assim como livros e quadrinhos, estas produções trazem representações da sociedade que compõem o cenário e os roteiros. Humberto Eco já havia afirmado que a ficção se alimenta da realidade e isso é muito perceptível nos k-dramas. 

As questões sociais, tais como violência doméstica, o alcoolismo e o bullying são frequentes, assim como a assédio moral no ambiente de trabalho. Quem nunca assistiu em um k-drama o chefe ofendendo seus subordinados, obrigando-os a irem em jantares e se embebedarem ou mesmo fazendo-os se ajoelhar e mesmo agredindo-os fisicamente? Tais comportamento são adicionados aos enredos por representarem situações cotidianas. As cenas podem ser ficcionais, mas a ações são bem reais.

Mas a questão da exploração do trabalho e de como a legislação trata os direitos trabalhista é algo que nunca havia visto em um k-drama, pelo menos não como um tema central. Lembro-me de alguns episódios em dramas de advogados, mas nada muito aprofundados. Houve ainda o k-drama "Médicos em colapso" (2024), cuja protagonista desenvolveu depressão por conta de abusos que sofreu no ambiente de trabalho, mas sem enfoque na questão dos direitos do trabalhador.

E foi isso que me chamou atenção em "Meus clientes Fantasmas" (2025). Um drama no qual um advogado trabalhista resolve casos se clientes que já morreram e cujas mortes estavam ligadas a desrespeitos à lei e abusos de empregadores. Não é um romance, não espere por cenas clichês ou triângulos amorosos. 

O protagonista é Noh Mu-jin (Jung Kyung-ho), advogado que passa por dificuldades financeiras e é obrigado a se reinventar como advogado trabalhista. Fracassado de muitas formas ele acaba sendo contratado por uma divindade para ajudar fantasmas ressentidos, que morreram de forma injusto por conta do seu trabalho. É um drama trabalhista, que embora tenha uma certa pitada de humor, trata de forma séria casos de desrespeito aos trabalhadores, critica o neoliberalismo e a exploração das grandes empresas.

O drama possuí 10 episódios e trata de diferentes casos envolvendo violação de direitos trabalhistas. Nele temos exploração de jovens, que são obrigados a trabalhar em ambientes insalubres e perigosas, sem a devida proteção, o que os leva a morte; fundiários de uma empresa que morrem durante um incêndio, por falta de segurança e negligência dos empregadores; um enfermeira vitima de assédio moral no trabalho, que desenvolve depressão e tira a própria vida; trabalhadores idosos submetidos a assédio moral para desistiram do trabalho e pedirem demissão. Os casos são variados e, muitas vezes, chocantes.

E nem é preciso pesquisar muito para encontrar dados assustadores sobre o trabalho na Coreia do Sul. Uma das maiores potências do leste asiático, a Coreia do Sul deve muito do seu sucesso econômico ao sangue e suor de seus trabalhadores, literalmente. Pesquisas realizadas na Coreia do Sul indicam que o ambiente de trabalho pode ter influência na saúde metal[1], levando a desenvolvimento de casos graves de depressão e de Síndrome de Burnout[2].

Na Coreia do Sul é comum a jornada de trabalho alcançar 12, 14 horas por dia e os funcionários ainda trabalharem nos finais de semana, sem receber o devido pagamento aditivo por horas extras. Há casos de jovens trabalhadores que morrem por excesso de trabalho.[3]  Há até um nome para isso "gwarosa" (過勞死), um termo coreano que se refere à morte causada por excesso de trabalho, incluindo condições como ataques cardíacos, derrames e problemas de saúde mental. 

Umas categorias mais atingidas pela gwarosa e por acidentes e doenças relativas ao trabalho é a dos entregadores. Durante a pandemia Covid-19, eles foram os mais afetados. Além disso, eles não possuem não são cobertos por leis trabalhistas que garantem benefícios como o pagamento de horas extras, férias e seguro contra acidentes de trabalho, por serem classificados como trabalhadores autônomos.[4]

“De acordo com o Centro para Segurança e Saúde dos trabalhadores, grupo que defende os direitos trabalhistas, o entregador médio na Coreia do Sul trabalha 12 horas por dia, seis dias por semana. E de acordo com dados do governo, o número de ferimentos e acidentes de trabalho subiu 43% no primeiro semestre deste ano.”[5]

A jornada de trabalho extensa tem como uma das consequências o alcoolismo, que acaba engrossando dados relativos à violência doméstica e ao suicídio.

As mulheres estão entre as maiores vitimas de assédio moral e sexual no trabalho. São obrigadas a fazer tarefas que não dizem respeito à seu cargo (muitas vezes tarefas domésticas) por imposição de seus chefes. Por serem mulheres são muitas vezes ignoradas quando participam de reuniões e poucas delas conseguem conquistar cargos de direção. “As mulheres ocupam apenas 5,8% dos cargos executivos nas empresas de capital aberto da Coreia do Sul”. [6]

Um relatório do Human Rights Watch referente a 2023 denuncia o fato do governo da Coreia do Sul não ter retificado a Convenção nº 190, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que exige que os Estados ratificantes implementem medidas para pôr fim ao assédio e à violência no local de trabalho.[7] Ou seja, apenas se haver recursos para denúncias não há de fato ações eficazes para acabar com o assédio no local de trabalho e a violência, seja ela moral ou física, ainda se reproduz.

Outra questão importante é a exploração do trabalho análogo à escravidão na Coreia do Sul. Entre os trabalhadores mais explorados estão imigrantes, das Filipinas, do Nepal, Vietnã, Mongólia, Laos, Camboja, Uzbequistão e Tailândia.[8] Os trabalhadores são atraídos por ofertas de empregos e acabam sendo submetidos a todo tipo de exploração. Eles são o recuso que empresas encontram pra suprir a falta de mão de obra num país que envelhece rapidamente e cuja taxa de natalidade é superada pela de mortalidade.


[1] SILVA, Alanessa Nikole Carvalho da . Os abusos no ambiente de trabalho e suas representações em obras sul-coreanas (2024). Disponível em: https://sites.ufpe.br/cea/2024/06/27/artigo-de-opiniao-os-abusos-no-ambiente-de-trabalho-e-suas-representacoes-em-obras-sul-coreanas/. Acesso em 19 jul. 2025.

[2] Um distúrbio emocional caracterizado por exaustão extrema, estresse e esgotamento físico, resultante de situações de trabalho desgastantes e de alta pressão

[3] GOMES, Amanda. Violação de leis trabalhistas na Coreia do Sul (2017). Disponível em: https://www.brasileiraspelomundo.com/leis-trabalhistas-na-coreia-do-sul-361460307. Acesso em 19 jul. 2025.

[4] Entregadores na Coreia do Sul morrem por excesso de trabalho (2020). Disponível em: https://olhardigital.com.br/2020/12/15/noticias/entregadores-na-coreia-do-sul-estao-morrendo-por-excesso-de-trabalho/. Acesso em 19 jul. 2025.

[5] Entregadores na Coreia do Sul morrem por excesso de trabalho (2020). Disponível em: https://olhardigital.com.br/2020/12/15/noticias/entregadores-na-coreia-do-sul-estao-morrendo-por-excesso-de-trabalho/. Acesso em 19 jul. 2025.

[6] MACKENZIE, Jean. “MEU chefe me mandou lavar toalhas dos meus colegas homens”: o machismo na Coreia do Sul (2022). Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63994873. Acesso em 19 jul. 2025.

[7] HUMAN Rights Watch World Report 2023. Disponível em: hrw.org/world-report/2023/country-chapters/south-korea. Acesso em 19 jul. 2025.

[8] RAMOS, Mariejo. Coreia do Sul é acusada de escravidão moderna com esquema de trabalhadores sazonais (2024). Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/mundo/coreia-do-sul-e-acusada-de-escravidao-moderna-com-esquema-de-trabalhadores-sazonais,4d0484e1240837351d7ab258f7a61f60ht9cluvi.html?utm_source=clipboard. Acesso em 19 jul. 2025.


domingo, 27 de abril de 2025

CEMITÉRIO: REFLEXÕES SOBRE FEMINICÍDIO

 


Uma surpresa que a Netflix trouxe para mim este mês foi a série turca "Cemitério (Graveyard)". Minha primeira série turca por sinal.  A série tem duas temporadas e foi originalmente lançada em 2022. A primeira temporada tem 4 episódios, com uma média de uma hora e meia cada. A segunda em 8 episódios com uma média de 45 minutos cada. A série mostra o trabalho da Unidade de Crimes especiais liderada pela inspetora chefe Önem Özülkü, interpretada pela fantástica atriz Birce Akalay . A unidade da polícia turca foi criada como resposta ao aumento dos crimes de feminicídio. Já de início percebe-se que sua criação foi um ato político e que não se espera muito dela nem dos seus membros. Na verdade, há quem preveja seu fracasso.  Isso porque  os problemas que eles têm que enfrentar não se resumem apenas em investigar crimes de feminicídio e capturar os criminosos. Eles também lidam com o machismo estrutural da sociedade turca, que é constantemente denunciado em cada episódio da série.

Aliás, o próprio nome da séria conduz a várias questões. A Unidade de Crimes Especiais foi instalada no porão do prédio e obrigada a operar junto ao arquivo de crimes não solucionados. O local recebe o nome de “Cemitério” e, o que no início é visto como algo pejorativo, depois acaba ganhando um simbolismo maior, representando a luta da equipe para impedir que crimes contra as mulheres façam parte dos “casos não solucionados”. Eles passam, inclusive, a se autointitular equipe do “Cemitério”, para horror de seus superiores.

Eu, particularmente, sei muito pouco sobre a Turquia e nunca parei imaginar que em um país islamizado, e aí peço desculpas pelo meu preconceito, as mulheres tivessem espaço não apenas para denunciar na televisão, como é o caso da série, a violência e, menos ainda, que houvesse um movimento atuante que busca ações concretas contra o feminicídio no país. Neste ponto devo agradecer à Netflix que me vez pesquisar o tema. Uma das primeiras coisas que eu descobri é que a  Turquia é um estado secular, sem religião oficial, apesar da maioria se mulçumana, e lá vigora a liberdade religiosa.  No entanto, o partido atual no poder, é islâmico e vem sendo constantemente acusado por sua inércia e tolerância com relação à violência contra as mulheres. Além disso elas ainda possuem baixa representatividade política. O Parlamento Turco possui maioria de homens – nas últimas eleições, em 2023, 121 mulheres garantiram assento no parlamento com 600 membros

A série não aborda diretamente questões religiosas. Ela foca na violência contra a mulher de forma indistinta e que leva à sua morte. Namorados e maridos violentos, pais omissos. Casos de abusos de jovens por parentes próximos são denunciados também. Ao investigar um caso de feminicídio, os policiais trazem a toda uma séria de violências e gênero que perpassaram a vida da vítima e de pessoas próximas a ela. E material para isso não falta.

Só em 2024 foram registrados 394 casos de mulheres assassinadas por homens e mais 259 mulheres foram encontradas mortas de forma suspeita. Estes números foram considerados recordes e apontam para aumento progressivo da violência contra as mulheres na Turquia. Segundo os dados da  We Will Stop Femicide Platform (Vamos acabar com o feminicídio), entre as principais causas do aumento de crimes de morte contras as mulheres esta “a falta de implementação efetiva da Lei de Proteção nº 6284, a retórica misógina e anti-criança, a participação de grupos reacionários e intolerantes no poder e a inadequação das políticas para as mulheres”. [1] A impunidade também é apontada como uma das razões. 

“A Plataforma "Vamos Acabar com o Feminicídio", também conhecida ela sigla KCDP, relatou que 3.185 mulheres foram mortas por homens entre 2008 e 2019, e pelo menos 1.499 entre 2020 e setembro de 2024, com o número de feminicídios aumentando a cada ano. As mortes de cerca de 1.030 mulheres também foram consideradas suspeitas.

"Mais de 1,4 milhão de mulheres relataram ter sofrido violência doméstica entre janeiro de 2013 e julho de 2024, informou o site de notícias Turkish Minute , citando dados recebidos do Ministério da Família e Serviços Sociais pelo jornal diário Birgün. (Texto traduzido)”[2]

Vários protestos de mulheres exigindo uma reação mais forte do governo, organizadas pela We Will Stop Femicide Platform, ocorreram em 2024, que foi considerado o ano das Jovens Feministas na Turquia. A Federação de Jovens Feministas organizou seminários em muitas universidades e desenvolveram políticas para lidar com os problemas das mulheres jovens.


Protestos em outubro de 2024, na Turquia.

A questão da impunidade é um dos maiores ranços da protagonista da série, a inspetora chefe Önem Özülkü, que constantemente se revolta com as penas leves dadas a assassino de mulheres.  Outra razão é o discurso que aponta as mulheres como a causa dos feminicídios e dizem: “As mulheres que são mortas são tão culpadas quanto os homens que as matam”. Há ainda aquele pensamento de que as mulheres são também culpadas pela sua própria morte. Este discurso apareceu em um dos episódios da série e que foi duramente refutado com excelentes argumentos e uma boa dose de revolta por parte dos policiais. Uma realidade, por sinal, não muito diferente do Brasil onde a vítima na maioria das vezes é culpabilizada pela violência que sofre.

As mortes correm principalmente dentro dos lares e as vitima são esposas e filhas, “Em 2024, 280 mulheres foram mortas pelo homem com quem eram casadas, pelo pai, filho ou parente”. E o alvo não tem sido apenas mulheres adultas e adolescentes.  Em 2024, 19 meninas foram assassinadas pelos pais e 9 delas foram assassinadas junto com suas mães”.[3] Quanto ao governo, ele vê estes casos como problemas no âmbito familiar e promove ações para proteção a família, como um todo, e não de proteção para as mulheres, o que agrava muito mais a situação e acaba aumentando a impunidade. E assim como acontece aqui no Brasil, a legislação criada para proteger as mulheres encontra muitos obstáculos. Em 2024, 20 mulheres que estavam sob proteção policial foram assassinadas. Não é à toa que a Turquia está entre os piores países do mundo em violência contra as mulheres. 

Eu poderia escrever muito mais o assunto, mas vou retomar à serie pois não posso deixar de falar sobre a Birce Akalay, que encarna a protagonista.  A forma como ela desenvolve a personagem é perfeita. Fiz uma busca para saber mais sobre ela e o que descobri ratificou a primeira impressão que ela me passou. De aspirante a Miss Turquia a professora no departamento de teatro da Universidade Haliç, ela ainda se dedica a causas sociais, é meioambientalista e defensora  dos direitos das mulheres, sendo ainda Embaixadora da Bondade e Esperança da LÖSEV, instituição sem fins lucrativos dedicada a crianças com leucemia. Ninguém melhor para encarnar a inspetora chefe Önem Özülkü.[4]

Para finalizar gostaria de deixar aqui o trecho de um artigo sobre feminicídio na Turquia que trabalha este conceito.

“O conceito de feminicídio, usado já na década de 1800 para se referir ao assassinato de uma mulher, foi reintroduzido por Radford em 1976 no Tribunal de Crimes Contra as Mulheres como o assassinato misógino de mulheres por homens. Na década de 1970, o conceito de feminicídio se tornou popular e foi modificado pelo movimento feminista em um conceito político. O movimento feminista insistiu na dimensão sexista do homicídio feminino, em contraste com o termo neutro "homicídio". O discurso do feminicídio representa um "objetivo político de reconhecer e tornar visível a discriminação, a opressão, a desigualdade e a violência contra as mulheres sistemática que, em sua forma mais extrema, culmina na morte". As definições de feminicídio e violência contra as mulheres apresentam “características compartilhadas” . Ambas estão enraizadas em uma cultura de “violência e discriminação contra as mulheres”, bem como “em conceitos patriarcais de inferioridade e subordinação das mulheres. Essas características são construídas por meio da cultura, mentalidades e costumes e não são casos aleatórios de violência”. [5]



[1] We Will Stop Femicides Platform 2024 Annual Report. Disponível em> https://kadincinayetlerinidurduracagiz.net/veriler/3130/we-will-stop-femicides-platform-2024-annual-report. Acesso em 27 de mai. 2025.

[2] ECHOLS, William. Turkey's ruling party uses misinformation to downplay scope of femicide (2024). Disponível em: https://www.voanews.com/a/turkey-s-ruling-party-uses-misinformation-to-downplay-scope-of-femicide-/7826624.html. Acesso em 27 de mai. 2025.

[3] We Will Stop Femicides Platform 2024 Annual Report. Disponível em> https://kadincinayetlerinidurduracagiz.net/veriler/3130/we-will-stop-femicides-platform-2024-annual-report. Acesso em 27 de mai. 2025.

[4] Birce Akalay . Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Birce_Akalay. Acesso em 27 de mai. 2025.

[5] Traduzido e adaptado de Koç, G. (2022). A Study of Femicide in Turkey From 2010 to 2017. SAGE Open, 12(3). https://doi.org/10.1177/21582440221119831 (Original work published 2022)