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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

MINHA RETROSPECTIVA DE 2025

Ao final de todo ano, desde bem nova, eu listava em um caderninho  tudo que havia acontecido comigo ao longo do ano e o que eu gostaria que acontecesse no ano novo. Coisa boba de adolescente. Mas tarde, comecei postar no Blog algumas considerações e fazia até uma relação das postagens mais lidas durante ano que estava encerrando. Não sei quando, mas parei de escrever sobre isso. 

Na verdade, parei de fazer muitas coisas. Constatar isso me fez pensar sobre muitas coisas e escrever me ajuda a aprofundar essa autorreflexão. Por isso resolvi retomar o hábito de fazer um balanço do ano, na véspera do ano novo, e listar minhas memórias de 2025. Aliás, fiquei até surpresa com a quantidade de coisas que aconteceram, e muitas eu já tinha até esquecido.

Para recuperar essa memória, eu recorri às redes sociais, onde eu registrei ao longo do ano de 2025 uma série de atividades e fui rememorando pouco a pouco. Montei uma linha do tempo, que começa em janeiro de 2025 e vai até dezembro de 2025.

JANEIRO - Passei férias na Europa com um grupo de amigos. Organizei toda a viagem ao longo do ano de 2024. Éramos oito, saindo do Brasil, e encontramos um amigo em Lisboa, que se uniu ao grupo. Partimos de São Paulo dia 13 de janeiro e retornamos 3 de fevereiro. Fomos a Portugal e França, com uma programação intensa de 20 dias. Em Portugal, eu destacaria nossa ida a Beja, para participar de um encontro na Bedeteca, organizado por mim em parceria com Paulo Monteiro, no dia 18 de janeiro. Foi o primeiro evento da ASPAS, associação de pesquisadores da qual faço parte, fora do Brasil.

Beja - Portugal, 18 de janeiro de 2025.

Fomos para a França no dia 20 de janeiro, para fazer um tour pela Normandia. Alugamos três automóveis no aeroporto e começamos a aventura. O ponto final era Monte Saint-Michel, lugar que eu tinha vontade de visitar já há algum tempo. Retornamos a Paris no dia 24 de janeiro, onde passamos alguns dias e, de lá, em 28 de janeiro, fomos para Congnac, cidade do interior da França que foi nossa base para o Festival Internacional de Bande Dessinée de Angoulême. No dia 29 de janeiro participamos do dia dos profissionais, com acesso exclusivo a todas as principais exposições antes da abertura oficial. Em Angoulême tivemos mais uma atividade acadêmica, no dia 30 de janeiro. uma apresentação com a participação de pesquisadores e gestores dia EUA, Espanha, Suécia, Portugal e Brasil, na Cité de la BD.

Monte Sant-Michel, França, 23 de janeiro de 2025.

FEVEREIRO - Eu concluí o meu pós doutorado em Letras pela UEMS, que havia iniciado há um pouco mais e um ano, sob supervisão do professor Nataniel Gomes.

MARÇO - Em março, comecei meu pós doutorado em história, sob supervisão da professora Manuela Areias, na UEMS. Ainda em março tive uma aventura em família com a minha mãe, Cristiane Magalhães e sua mãe Regina, um passeio de fim de semana em Guapimirim e em Teresópolis, com direito a visitar minha ex-orientadora, Mary Del Priori.

ABRIL - Fui a um mega show de K-Pop no Morumbi a convite da amiga Fani, Show do Stray Kids, dia 7 de abril. Uma baita experiência, em um estádio com mais de 60.000 pessoas. De brinde, viajei na ida no avião da Gol do "Chico Bento". Ainda em abril, eu saiu minha primeira publicação do ano, um capítulo no livro História e Linguagens: pesquisas em quadrinhos e cinema. Fui também, à Feira Literária Internacional de Tiradentes, FLITI, dia 12 de abril e aproveitei para conhecer Bichinho, dia 13 de abril.

Morumbi, 6 de abril, Show do grupo Stray Kids.


MAIO - No dia 3 de maio eu parti para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, para participar de atividades do meu pós-doutorado durante uma semana. Lá encontrei com a amiga Valéria Bari, que estava começando seu pós-doutorado em Letras. Realizamos, inclusive, algumas atividades juntas. Depois participei da Semana dos Museus, no dia 16 de maio, em uma palestra sobre bibliotecas e arquivos digitais. No dia 25 de maio, recebi uma revistas suíça, em esperando, na qual eu publiquei um texto juntamente com o amigo Nataniel Gomes, em esperanto (minha segunda publicação do ano). No no dia 29 de maio, tomei posso como membro da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras (Afesmil). Fechei o mês com a festa de 80 anos da minha tia, Marly Nogueira.

JUNHO - Em 11 de junho teve início o VII Entre ASPAS, encontro da Associação de Pesquisadores em Arte sequencial, em Leopoldina (MG), cidade onde a associação foi fundada em 2012. Eu fui uma das organizadoras do encontro. Deste encontro participaram pessoas do MS, RJ, SP, PE, SE, AP, DF e até da Argentina. Um dos pontos altos foi um almoço organizado pela amiga Claudia Mendes, no CEM Maria Luiza Junqueira Ferraz, para os participantes do encontro. No dia 16 de junho lançamos o livro "Super-Heróis, política e identidades", do qual sou uma das organizadoras. Ao final do VII Entre ASPAS, eu entregue a Coordenação Geral da associação à Nataniel Gomes. Na semana seguinte, no dia 18 de junho eu participei como convidada em um dos painéis da Prefeitura do Rio de Janeiro, na Bienal Internacional do Rio de Janeiro, no dia 18 de junho, juntamente com Sidney Gusman e Jal. No dia 19 de junho aproveitei para passear antes de ir embora. Fui almoçar com a amiga Luisa Peres no Forte de Copacabana.

Com Sidney Gusman e Jal, no dia 18 de junho de 2025.

JULHO - Foi um mês menos intenso, participei do 33º Simpósio Nacional de Historia da ANPUH, em Belo Horizonte, na UFMG, levando a experiência de trabalhar com História Local e Educação Patrimonial na formação de professores em Leopoldina (MG). Minha apresentação no ST sobre educação patrimonial foi no dia 16 de julho. Reencontrei amigas queridas que não via há tempos, como Luciana e Martinha e fiz novas amizades, mas fiquei apenas dois dias, pois ainda não estava de férias. No dia 22 de julho, lançamento do meu segundo livro este ano Lançamento, "Quadrinhos, pesquisa e educação".

AGOSTO - No dia 9 de agosto eu participei de uma visita guiada ao Museu da Caricatura, no Rio de Janeiro, organizada pela professora Cláudia Mesquita, acompanhada das amigas Conceição Pires e Eva Aparecida e depois encontrei com o querido Caetano. Foi um bate-volta muito divertido. Dia 16 de agosto participei da Jornada do Patrimônio, em Leopoldina (MG). Dia 19 de agosto eu já estava participando das Jornadas Internacionais de quadrinhos da USP. Dia 20 de agosto fiz minha a apresentação e dia 21 de agosto participei do lançamento de livros da ASPAS. No dia 24 de agosto fui ao encontro sobre quadrinhos e mulheres organizado pela Conceição Pires, na UGRA, na Consolação, junto com o amigo Caetano. Ao longo da semana aproveitei o tempo livre pela manhã para ir a várias exposições, como do Ziraldo, no CCBB, do Raul Seixas, no MIS, e uma exposição maravilhosa de Hip Hop, Sesc 24 de Maio. No dia 28 e agosto Recebi semana passada a publicação da Antologia da Academia Lavrense de letras com 2 textos meus: "Moneypenny e a representação das mulheres no universo de James Bond" e "O rapto como estratégia amorosa nas Minas Gerais do século XIX".

Saindo da USP, a noite, com os amigos.

SETEMBRO - Dia 9 de setembro foi o lançamento do álbum "Curiosidade" de Cecília Capuana, em São Paulo. Fiz a introdução e participei do processo de produção. Infelizmente não pude ir, pois estava ainda me recuperando de uma infecção respiratória que contraí durante as Jornadas Internacionais de Quadrinhos. Participei juntamente com Amanda Almeida, 10 de setembro, de uma atividade 10ª Jornada do Patrimônio Cultural de Minas Gerais, realizada no Museu Espaço dos Anjos, em Leopoldina, com a presença dos estudantes que fazem parte do projeto Parlamento Jovem. O tema foi “Paisagem Cultural e Patrimônio Toponímico”, convidando a comunidade a refletir sobre como os nomes das ruas e lugares guardam memórias, fortalecem identidades e conectam patrimônio cultural e natural. Organizei e participei como apresentadora do Encontro Internacional "Patrimônio Documental e Cultura Visual", 15 a 19 de setembro, um evento realizado pela Pós-graduação em Letras e História da UEMS e da ASPAS, que fez parte da Jornada Estadual do Patrimônio Cultural do Mato Grosso do Sul (2025) - Caminhos De Memória: Territórios, Saberes e Resistências. O encontro teve a participação de pesquisadores do Brasil, da Espanha, de Portugal e da Suécia.

OUTUBRO - No dia 4 de outubro foi o lançamento do livro "Quadrinhos, conceitos e linguagens", do qual sou organizadora e autora e que conta com textos de colegas da Argentina e da Suécia. No dia 15 de outubro, foi publicado o meu trabalho sobre Educação Patrimonial, nos anais do 33º Simpósio Nacional de História da ANPUH. No dia 25 de outubro eu participei da FLILavras, com palestrante e aproveitei para dar uma esticada no dia 26 de outubro em São João Del Rei. Fui junto com as amigas Eva Aparecida, Cristiane Magalhães e Maiara Alvim.

Declamando poesias no encerramento da FLILavras, dia 25 de outubro

NOVEMBRO - Seis de novembro eu apresentei um trabalho durante o 2º Quatrital, evento online realizado pela UnB e organizado pela maravilhosa Alessandra Querido. No feriado de 15 de novembro fui ao espetáculo "Guibli in Concert", com a amiga Débora e ainda aproveitei as comemorações dos 200 anos do Parque da Luz. No fia 27 de novembro eu e Amanda Almeida participamos hoje da gravação de um programa da Rede Minas, em Providência, distrito de Leopoldina (MG), sobre ferrovias.

DEZEMBRO - No dia 2 de dezembro eu realizei a conferência a de abertura do X Fórum Discente e VI Fórum e Egressos do PPGH- UNIVERSO. Dia 19 de dezembro foi lançamento do livro "Pensamentos Poéticos" do ex-aluno Lucas Dierverson, que eu ajudei a produzir. E para fechar o ano, eu recebi uma Menção Honrosa do Projeto Boas Práticas 2025, projeto que que desenvolvi juntamente com a professora Eva Aparecida da Silva . Ficamos em primeiro lugar com um trabalho que realizado no primeiro semestre, com  alunos do 6º ano do Ensino Fundamental II, do CEM Maria Luiza Junqueira Ferraz, em Leopoldina (MG)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

PROJETO VARAL DE MEMÓRIAS


Este ano eu emplaquei vários projetos mas não consegui separar tempo para registrar, em palavras escritas, nenhum deles. Vou aproveitar o final do ano para fazer isso. Projetos, resenhas de livros e de quadrinhos, pretendo colocar tudo em dia em dezembro e janeiro. 

Vou começar com o projeto que eu desenvolvi recentemente na E. M. Judith Lintz Guedes Machado, Leopoldina (MG) e que recebeu o nome de "Varal de Memórias". Trata-se de um  projeto que começou a ganhar corpo em agosto de 2023, justamente na semana do estudante (semana em que comemoramos o dia do estudantes, 11 de agosto, com atividades extras na escola) . Eu resolvi, na inspiração, pedir para que cada aluno/a escrevesse pelo menos meia filha de caderno contanto uma lembrança/experiência relacionada à escola.  As experiências seriam transcritas e faríamos um varal no qual cada um colocaria seu texto. Daí o nome de "Varal de Memórias".

Era para ser uma atividade apenas para minhas turmas do oitavo ano, mas acabou se tornando um projeto maior, que envolveu 8 salas e alunos do 7º ao 9º ano. Os textos eram tão interessantes que acabei abandonando a ideia original e resolvi transcrever os 110 texto que recebi e transformar em um livro. Com isso eu manteria o registro daquelas memórias e os alunos/as que participaram do projeto poderiam ter consigo o fruto do seu trabalho e compartilhar suas memórias com outras pessoas.

Foi assim que nasceu o livro "Varal de Memórias" que foi lançado oficialmente no dia 02 de dezembro, numa cerimônia que teve a participação de alguns alunos que participaram da atividade, além de pais, professore e autoridades ligadas à educação e à cultura, de Leopoldina (MG) e até de outros municípios da Zona da Mata. Foi emocionante. 




O livro foi literalmente impresso na escola. A diretora imprimiu e encadernou pessoalmente exatos 110 unidades e também fizemos uma versão e-book. Estamos levantando a possibilidade de conseguirmos verba para imprimir em gráfica 100 unidades do livro, para serem distribuídas para escolas do munícipio, mas isso é projeto para 2024. 

Fazendo um apanhado geral, a experiência de organizar um livro de memórias foi um desafio e um prazer. Um desafio pois trabalhar com jovens requer certos cuidados e eu meio que pisei em ovos com relação aos relatos, porque eu estava trabalhando com menores. O primeiro passo foi pedir autorização dos pais/responsáveis e garantir o anonimato dos participantes. Sim, não nomeei os alunos/as, por questão de ética com pesquisa envolvendo seres humanos. Fui orientada a proceder desta forma.  Outro desafio foi de organizar o livro da forma devida.

Prometi aos alunos que eles teriam tratamento de autor. Não deveriam se preocupar com a escrita pois todo o material seria revisado antes de publicado. Para isso eu contei com a ajuda da equipe do professor Nataniel Gomes do curso de letras UEMS, que se voluntariaram para fazer a revisão. A diagramação foi realizada juntamente com o professor Amaro Braga, da UFAL, amigo de longa data. A capa foi criada por duas aluna da escola, Lívia e Vivian, e tratada digitalmente pelo designer e quadrinista Hamilton Kabuna. O prefácio foi realizado pela professora Fabiana Rubira, da FEUSP. Enfim, foi um trabalho coletivo, envolvendo pessoas de dentro de fora da escola.

O prazer veio na reação dos/as estudantes que participaram do projeto tanto durante o processo de produção do texto quanto no lançamento do livro. Aqueles que não puderam estar presentes no lançamento buscaram seus exemplares e foi muito recompensador ver como liam com interesse e comentavam entre si sobre os textos.

Para quem tiver interesse em conferir o trabalho basta clicar aqui e baixar gratuitamente o e-book. Se quiser deixar suas impressões, faça um comentário. Irei compartilhar com os alunos/as da escola.

domingo, 19 de março de 2023

O ESPAÇO URBANO COMO LUGAR DE MEMÓRIA

 

O Grand Palais, em Paris, está passando por uma reforma. Para justificar essa reforma foi feito um grande painel (acho que posso chamar assim) contando um pouco da história do edifício, além de outras informações destinados ao público.

Recentemente eu viajei ao exterior e uma das coisas que me chamou atenção, e que talvez passe despercebido para a maioria dos turistas, foi a formo como o espaço urbano é transformado em lugar de memória, a partir de ações simples. Por exemplo, na França, tanto na capital como em comunas do interior, quando se faz a reforma de um prédio, coloca-se banners ou murais explicando o "por que" daquele espaço ser preservado. Conta-se, por exemplo, a história de quem morou naquele lugar, ou a história do edifício e sua importância como patrimônio. 

Não se trata apenas de dizer o que vai ser feito, mas justificar valorizando o patrimônio. Essas ação são uma forma de educação patrimonial, na qual a comunidade tem acesso a informação histórica e, ao mesmo tempo, a criação de um espaço de memória. Uma forma didática de se educar, porque não é apenas na escola que temos acesso a conhecimento, as ruas das cidades também podem nos ensinar muito. 

Em Petrópolis há placas nas calçadas assinalando a história de casarões que fazem parte do centro histórico. No bairro de Benfica, em Lisboa, há também esse tipo de sinalização, que remete à memória do bairro a partir do seu conjunto arquitetônico. Em Mafra, Portugal, temos o projeto "Caminhos da poesia" ou "Caminho de Camões", que correspondem a 10 poemas de Camões distribuídos entre o Jardim do Cerco, o parque intermodal do Alto da Vela, a Variante Sul. Tal iniciativa une literatura, história e memória por meio da poesia.

Outro exemplo, são as placas com os nomes de ruas. Em algumas cidades, como Cognac, na França, os nomes das ruas vem seguidas de alguma informação sobre a pessoa nomeada, que deixar de ser um sujeito anônimo e passa a ter uma identidade. Algo simples e muito significativo. Na cidade do Rio de Janeiro e, acredito, em outras cidades brasileiras, esse tipo de ação, que ajuda a preservar a memória, já existe.

Eu fui surpreendida no meu retorno à minha cidade, Leopoldina (MG). com uma iniciativa semelhante e, diga-se de passagem, até melhor elaborada. A prefeitura está instalando novas placas de indicação nas quais esclarece quem é a pessoa à qual se homenageia nomeado praças, ruas, avenidas. Uma iniciativa fantástica que ajuda a valorar não apenas o espaço urbano, mas a construir uma identidade local.

Placa colocada na esquina da minha rua, não apenas trazendo uma pequena biografia do personagem que a nomeia mas, inclusive, o cep, que recentemente foi alterado.

Os pesquisadores Nilza Cantoni e José Luiz Machado já haviam feito, anos atrás, em 2004, um excelente trabalho identificando os nome das ruas de Leopoldina, "Nossas ruas, nossa gente: logradouros púbicos de Leopoldina" (clique aqui para acessar). Imagino que a iniciativa da prefeitura tenha partido desse trabalho que, agora, está dando mais frutos, transformando as ruas em lugares onde a história e a memória estão presentes.

Este exemplos que trazem iniciativas brasileiras e de outros países demonstra que ações com relação à memória e ao patrimônio, em contextos diferentes, trazem similaridades. Há a preocupação em usar o espaço público de forma pedagógica, de educar e criar um sentimento de orgulho pelo espaço urbano, reforçando assim a identidade coletiva, local e/ou nacional, assim como o sentimento de pertencimento.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

O LEVANTE DE BELA CRUZ - DOCUMENTÁRIO

Um das coisas das quais fui privada durante  mais de uma ano de meio de  pandemia foi de poder participar de eventos culturais. Este mês estou rompendo com esse jejum. Ontem pude participar de um evento extremamente gratificante, que foi o pré-lançamento do filme/documentário, 
“O levante de Bela Cruz” , exibido no Espaço Cultural Mauro Almeida, em parceria com o Polo Audio Visual, a Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho e a Secretaria de Cultura. Esporte, Lazer e Turismo de Leopoldina. 

O documentário narra de um episódio corrido em Minas Gerais, em 1833, durante o período regencial. Uma rebelião de escravizados, envolvendo disputas políticas entre fazendeiros, na região de Carrancas, nas fazendas Campo Alegre e Bella Cruz, pertencentes a família Junqueira. No evento de lançamento, estava presente a diretora e produtora do documentário,  Elza Cataldo, cineasta, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Após a exibição do documentário, a diretora e membros da equipe da produção abriram para debate, respondendo perguntas e compartilhando detalhes e impressões sobre a experiência de produzir o documentário.

Eu não vou fazer uma resenha do documentário, mas levantar apenas algunas pontos que me chamaram a atenção. O primeiro é o tema. Como professora, conhecer mais sobre partes da história de Minas é, por si só enriquecedor, mas poder ter acesso a um movimento envolvendo escravos, no período regencial, é ainda mais importante. É um material que, mesmo que não possa ser exibido na sua íntegra, durante uma aula, pode trazer elementos importantes para se discutir o período, indo além do lugar comum.

Trata-se de uma produção que valoriza a a memória coletiva, dando voz a pessoas comuns, que contam a história a partir daquilo que aprenderam por meio da tradição. Nesse sentido, temos um documentário que sabe equilibrar muito bem a pesquisa historiográfica com elementos da memória que ajudam, inclisive, a solidificar uma identidade étnica e mesmo regional.

Abrindo espaço para debates sobre violência, escravismo e política, no século XIX, “O levante de Bela Cruz” também permite um diálogo como presente. Por tudo isso eu recomendo o documentário para professores e para o público geral, como uma forma de conhecer mais nossa história e repensar certos preconceitos e tabus que reproduzimos ao longo dos séculos e que ainda precisam sem rompidos.

O documentária está disponível no site do Polo Áudio Visual e pode ser acessado clicando aqui!


domingo, 5 de setembro de 2021

QUADRINHOS E MEMÓRIA: OUVINDO A VOZ DAS MULHERES

Tornei-me admiradora dos quadrinhos de Keum Suk Gendry-Kim quando li “Grama”, primeira HQ da autora sul-coreana a ser publicado no Brasil Agora reafirmo minha admiração após ler "A Espera", HQ publicada recentemente no Brasil. Keum Suk Gendry-Kim trabalha com memórias, a partir das quais cria obras de ficção. Uma ficção que traz uma base sólida, pois é criada a partir de entrevistas e de pesquisas. Umberto Eco afirma que a ficção só se constrói a partir da realidade, nada mais certo e que pode ser comprovado em "A Espera". 

Nesta obra, Keum Suk Gendry-Kim escreve sobre a guerra da Coreia a partir dos relatos de pessoas que foram separadas de suas famílias, no início da década de 1950. A autora faz um levantamento histórico que permite a nós, leigos na história do leste asiático, contextualizarmos o período que vai da Segunda Guerra à guerra da Coreia. Ela faz essa contextualização ao introduzir o testemunho de quem vivenciou esses eventos, por meio de personagens ficcionais baseados em pessoas reais. Uma ficção se que se constrói a partir da memória individual e coletiva.

É uma obra que traz uma fluidez da narrativa que permite ao leitor uma leitura prazerosa, ao mesmo tempo que aborda com sensibilidade tema delicados, como o caso da separação das famílias. Outro ponto que me agrada muito, é o fato da autora se auto representar, na forma de Jina, filha caçula da protagonista, Gwija, uma senhora de 90 anos que foi separada do marido e do filho quando fugiam da guerra. Ao se colocar na narrativa a autora faz o papel de mediadora e cria uma dinâmica única na qual histórias são introduzidas e contadas. 

Ao contrário de “Grama”, quando ela não está apenas pesquisando e colhendo informações e memórias de sobreviventes. Em “A Espera” a autora está também contando a própria história, uma vez que sua mãe também passou pela mesma situação. A autora é parte de uma das famílias que foram separadas e coloca na HQ relatos que colheu no seio familiar. Sendo assim, “A Espera” traz também a escrita de si, uma vez que a autora também vivenciou a questão central, que a separação das famílias e a espera pelo reencontro.

Keum Suk Gendry-Kim dá oportunidade para mulheres contarem a história a partir de um ponto de vista diferente dos homens, assim como fez em Grama. Elas falam do casamento, da maternidade e das dificuldades de ser mulher numa sociedade na qual elas não possuíam espaço para expressão. A obra traz um raio-x do patriarcado coreano, nas décadas de 1940 e 1950, que em muitos pontos se assemelha à realidade das mulheres do Ocidente, que só veio a conhecer mudanças significativas a partir do movimento feminina.

Eu poderia escrever várias páginas sobre essa HQ, e pretendo fazê-lo em breve, mas vou finalizar recomendando fortemente a obra para quem gosta de um quadrinho de ficção que trata de temas sensíveis e que revisita e conta a história de forma clara e comprometida.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

OS 50 ANOS DO I CONGRESSO INTERNACIONAL DE QUADRINHOS


I Congresso Internacional de Quadrinhos - MASP - 1970. Imagem retirada do livro "50 anos: edição Comemorativa da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos (2001)", de Álvaro de Moya.

Novembro passado o I Congresso internacional de Quadrinhos, que ocorreu no Museu de Arte de São Paulo (MASP), entre os dias 23 e 29 de novembro, de 1970, completou 50 anos. O evento teve como instituição de fomento a Escola Panamericana de Arte, fundada em 1963 pelo artista plástico Enrique Lipszyc, um dos idealizadores do congresso.  O acontecimento representou um marco para a pesquisa acadêmica sobre quadrinhos e uma mostra da crescente valorização dessa mídia, que, ao longo dos anos de 1950, sofreu um forte preconceito por parte de setores conservadores da sociedade.

Se ainda havia aqueles que ainda consideravam a leitura de quadrinhos nociva, crescia e se fortalecia um grupo de intelectuais, artistas e educadores que percebiam os quadrinhos como algo além de uma forma de entretenimento barata. Isso pode ser observado tanto em âmbito local quanto nacional. Naquele ano de 1970, escolas da educação básica receberam cartilhas educativas na forma de quadrinhos e os correios, em benefício da Federação das Entidades na Luta Antituberculose do Estado de São Paulo (FELASP), promoveram uma campanha para venda de seloscom os personagens da Turma da Mônica.[1]

São Paulo se destacava não apenas como um polo produtor de quadrinhos mas, também, como irradiador de pesquisas. Nada mais natural que partisse de lá a iniciativa para se colocarem os quadrinhos em debate, a partir de um evento acadêmico, reunindo não apenas autores como pesquisadores. No âmbito local, o I Congresso Internacional de Quadrinhos recebeu atenção de jornais da capital e do interior do Estado de São Paulo, tanto pelo tema abordado quanto pelos convidados, brasileiros e estrangeiros.

A Tribuna, jornal de Santos, no litoral, dedicou quase meia página para noticiar o evento no MASP, destacando a presença estrangeira[2]. Nomes consagrados da indústria dos quadrinhos, representando gêneros e tendências diferentes.

Tabela

* Dados biográficos retirados da wikipedia e da Enciclopédia dos Quadrinhos.

Paralelamente, Pietro Bardi (criador do MASP) e Enrique Lipszy foram responsáveis pela curadoria de uma Exposição Internacional de Quadrinhos, narrando a história da mídia a partir de 1900. A exposição ficou aberta ao público até 15 de dezembro daquele ano. Um dos colaboradores da exposição foi escritor e ilustrador santista Diamantino Silva. 

No dia 23 de novembro, a Folha de S. Paulo colocou os quadrinhos ao lado de Cândido Portinari e de Mário Gruber em uma matéria sobre o início da Exposição Internacional de Quadrinhos, no dia 23 de novembro. [...] “No museu de arte a manifestação das histórias [sic] em quadrinhos com cerca de 400 trabalhos de autores nacionais e do exterior abre-se hoje, às 19 horas, o que poderá ser vista até janeiro: esta [sic]montada no primeiro pavilhão da instituição.”[3]

I Congresso Internacional de Quadrinhos - MASP - 1970. Imagem retirada do livro "50 anos: edição Comemorativa da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos (2001)", de Álvaro de Moya.

A imprensa fluminense também cedeu espaço para o I Congresso Internacional de Histórias em quadrinhos. O Jornal do Brasil e o Diario da Noite, por exemplo, publicaram matérias detalhadas sobre o evento e seus participantes, até mais completas do que os jornais paulistas. Numa delas, destacou-se um dos temas que foram debatidos durante o evento: a questão dos direitos autorais. 

O Jornal do Brasil ainda trouxe a toma uma questão relevante: as dificuldades que o evento encontrou, sendo a maior delas a falta de verba para trazer especialistas. Enrique Lipszyc de ao Jornal do Brasil o seguinte depoimento:  “Não tivemos apoio de ninguém [...] ficaremos sem a participação de grandes psicólogos, sociólogos, estudiosos dêsse [sic] meio de comunicação. A verba não deu. Apesar disso, conseguimos trazer grandes desenhistas do gênero, façanha que nem o Congresso de Lucca, na Itália, conseguiu até hoje.”[4]

A década de 1970 foi marcada por outras iniciativas de cunho acadêmico com o objetivo de valorar os quadrinhos, tanto como objeto de estudo quando arte. Livros de autores como Umberto Eco foram traduzidos para o português. Um exemplo é “Apocalípticos e Integrados", um clássico do semiótico italiano,  publicado em maio de 1970[5]. Ainda neste ano, Álvaro de Moya, um dos organizadores da I Exposição Internacional de Quadrinhos de 1951, publicou o libro teórico Shazam!  Aos olhos de muitos, os quadrinhos nas escolas e na academia apareciam como sendo uma tendência.

Por todo o país exposições sobre quadrinhos eram recebidas em espaços considerados nobres e/ou monopolizados pela elite cultural e intelectual brasileira.  Em 1970, antes do I Congresso Internacional de Quadrinhos e a Exposição Internacional de quadrinhos no MASP, em fevereiro, a Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal de Campinas promoveu uma exposição de quadrinhos no Museu de Arte Contemporânea daquele município. A exposição não só incentivava a leitura dos quadrinhos como, também, recomendava seu uso nas escolas. 

A Faculdade de Comunicação da UnB e a Fundação Cultural do DF realizaram uma Exposição de Histórias em Quadrinhos que, segundo o professor Francisco Araújo promovia uma [...] “ideia mais vasta de cultura [...]” porque “[...]os problemas contemporâneos estão colocados diariamente nas tiras das histórias em quadrinhos”.[6]

A ocorrência de um congresso de grande porte num espaço nobre como o MASP, fez-me entender mais profundamente o longo percurso que os quadrinhos trilharam desde o século XX até os dias atuais em busca de reconhecimento. Reconhecimento enquanto forma de leitura, como mídia, arte e também como instrumento de ensino e pesquisa. É importante pensar que, há cinquenta anos, estávamos conquistando a primeira grande vitória após uma longa caminhada. 

Cinquenta anos depois, o que temos são uma coleção de outras vitórias com a expansão do campo de estudos dos quadrinhos para além das ciências da comunicação. Atualmente são realizadas pesquisa multidisciplinares envolvendo essa mídia/arte, que é fruto da cultura material dos últimos dois séculos. Foram criados grupos de pesquisas tanto independentes como vinculados às universidades. 

Em 2012, surgiu a Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS, que reúne mais de 70 pesquisadores em constante intercâmbio e com uma considerável produção anual de conteúdo acadêmico.  Para 2021 a Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA/USP), em São Paulo, já este preparando sua 8ª Jornada Internacional de Quadrinhos, evento que reúne anualmente cerca 300 pesquisadores, das mais diversas disciplinas, numa busca constante pela valorização e reconhecimento dos quadrinhos como objeto de estudo.



[1] Campanha com selos. A Tribuna, Santos, 19 de set. de 1970, n. 162 p. 6.

[2] Tarzan, Mandrake e Fantasma em discussão neste Congresso. A Tribuna, Santos, 12 de novembro de 1970, n. 215, p. 06.

[3] Portinari, Quadrinhos, Gruber, Primitivas e de nova visão. Folha de s. Paulo 23 de novembro de 1970, p. 11, n.15135.

[4] Congresso Internacional de Quadrinhos debaterá direitos autorais. Jornal do Brasil, 17 de nov. 1970, Rio de Janeiro, nº 192, 1º Caderno, p. 15

[5] A Tribuna, Santos, 9 de maio de 1970, n. 37 p. 15.

[6] A história que os quadrinhos não contam. Fato Novo, São Paulo, editora verde Amarelo, p. 6, nº 20.

 

sábado, 14 de dezembro de 2019

O DEVER DE MEMÓRIA E O COMPROMISSO DA ESCOLA

Imagem capturada em: <https://jornalggn.com.br/opiniao/a-memoria-a-historia-e-o-esquecimento/>. Acesso em 14 dez. 2019.

Algumas das melhores reflexões que eu já fiz ocorreram em sala de aula, quando eu introduzia um tema ou respondia a um (a) aluno (a) sobre determinado assunto. Eis que durante a minha última aula do ano antes das provas finais, acabei debatendo com os alunos sobre o "dever de memória”.

O "dever de memória" é um fenômeno contemporâneo, que surgiu na França na década de 1980. Ele estava ligado originalmente aos debates relacionados à memória do holocausto judeu e tinha uma característica reivindicatória: era preciso punir aqueles que cometeram tais crimes contra a humanidade.

Simplificando, o "dever de memória", a busca pela justiça, mesmo que tardia. Foi incentivada a criação de arquivos, datas comemorativas, debates públicos, etc. Era preciso lembrar para não repetir o erro. Era preciso lembrar para que os algozes não ficassem impunes. Era preciso lembrar para que a justiça fosse feita, notadamente dentro da esfera do uso ético e político da memória e da própria história. 

O "dever de memória" bate de frente com o esquecimento. Memória e esquecimento caminham juntos, uma vez que toda comunidade escolhe aquilo que deseja recordar e, muitas vezes, trata-se de uma memória romantizada que nem sempre condiz com o fato ocorrido.

Muitos dos eventos que marcaram a vida de nações inteiras foram violentos e traumáticos. Por exemplo, o mito da fundação de Roma, contado de forma romantizada, nada mais é do que uma história marcada pelo fratricídio. Guerras, revoluções, golpes são eventos potencialmente violentos. Mas a memória coletiva festeja os vencedores, lamenta pelos seus mortos e busca esquecer o trauma. Para que pensar no que já passou, não é mesmo?

Esquecer é mais fácil do que reparar, até porque isso demandaria um esforço de reconhecimento do fato e, junto com isso, a tomada de consciência, normalmente dolorosa. Reconhecer o erro gera a necessidade de se responsabilizar por ele, e isso é assustador. Por isso se recorre ao esquecimento.

A negação do passado  no presente é uma forma de esquecimento. E foi sobre isso que nós discutimos em sala de aula. O Brasil nunca precisou tanto reivindicar o dever de memória. Vivemos um momento de negação, de ameaça revisionista da nossa memória e da nossa história. 

A escravidão, acreditem, há quem negue veementemente que ela tenha realmente existido no Brasil. O racismo, realidade no nosso país há séculos, é dado como inexistente. Os direitos dos povos indígenas, que passam por um novo genocídio, vêm sendo arrancados à força de armas e do sacrifício de muitos que se levantam para defendê-los. O Brasil se tornou o país da negação. Nega-se a pobreza, nega-se a violência, nega-se o bom senso.

É preciso apropriarmo-nos do dever de memória para tentar salvar a memória coletiva e a história de uma violação completa dos seus sentidos. É preciso exigir justiça aos que foram escravizados, mutilados, torturados, mortos ao longo da nossa história por simplesmente defenderem seu direito à liberdade, à felicidade e a uma vida digna, o que deveria ser dever do Estado.

Pouco mais de 20 minutos de uma aula, numa turma da educação básica, e eu aprendi tanto, refleti sobre tanta coisa que nem me sentia a professora, mas uma aluna que estava ali com meus mestres, ainda adolescentes. Isso talvez seja o que nos motiva, aos professores, em tempos tão sombrios: o potencial da juventude de poder enxergar com os próprios olhos e falar com sua própria boca. 

Acredito que seja um dos compromissos da escola garantir que os jovens questionem. Que eles possam debater com professores  e entre si. Que eles entendam que são cidadãos ativos e que o "dever de memória" é o que lhes pode garantir o direito de encarar o futuro com responsabilidade. Essa responsabilidade que tanto tem faltado aos adultos, parece florescer em jovens como Greta Thunberg e tantos outros, anônimos, que não têm medo de se expressar e que sonham com um futuro melhor não apenas para si mesmos, mas para todo o planeta.


segunda-feira, 13 de maio de 2019

A FICÇÃO, O ESQUECIMENTO E A REESCRITA DA HISTÓRIA

Imagem capturada em: https://www.aficionados.com.br/thanos-melhor-vilao-marvel/
Um dos grandes acontecimentos midiáticos do ano de 2019 foi o lançamento do filme "Vingadores, Ultimato", que arrastou multidões para os cinemas. Ao assisti-lo pela segunda vez, chamou-me a atenção uma parte bem no final na qual o vilão Thanos afirma que pretende refazer o universo e apagar a memória de todas as criaturas vivas, pois segundo ele, enquanto houver quem se lembre de como era, haverá aqueles que não aceitarão a perda e resistirão.

De todas as cenas apoteóticas mostradas durante a mega produção cinematográfica, esta ficou gravada na minha mente e arrisco dizer que ela vale por todo o filme. Thanos está certo, pois enquanto houver a memória, haverá a resistência. Por isso o tirano desejava apagá-la definitivamente.  

Mas não é isso que os tiranos fazem? 

Para um tirano a história e a memória são suas inimigas. A memória por dar suporte à experiência coletiva, ao vivido, já que memória é vida. A história por ser não apenas o registro dos fatos mas, acima de tudo, promover o debate e a reflexão acerca deles. Os tiranos vão sempre atacar a memória e a história e vão impor o esquecimento. Mas esquecer não é suficiente, é preciso reescrever a história, uma história baseada em "achismos" e não no conhecimento legítimo. 

A reescritura da história se baseia na negação do fato, no ocultamento do papel da coletividade, na marginalização de grupos inteiros e da minimização do papel de atores sociais importantes pelo seu engajamento em lutas. O apagamento das lutas e o sentido das conquistas realizadas ao longo dos anos pelo povo, pois o cidadão comum, é ele que os tiranos temem, pois é dele que tiram seu poder.

Neste processo, todos aqueles capazes de questionar, todos aqueles que são portadores de conhecimento, se tornam inimigos do Estado autoritário. Professores, filósofos e cientistas são comparados a terroristas. São acusados de doutrinação, de ensinar inverdades, de serem tendenciosos. A verdade é monopólio dos tiranos, que a tomam como sua e absoluta. Uma verdade que se impõe pela força, pela violência moral e física, pela vulgarização, banalização e abandono das ciências e de seus templos, escolas e universidades.

A ficção nos oferece uma representação do mundo que estamos vivendo, no qual grupos radicais têm  como um projeto global reescrever a história e apagar a memória. Essa reescritura se faz necessária para que não haja  a tão temida crítica, o questionamento da sociedade com relação aos rumos que estão tomados na direção da construção de uma sociedade que privilegia a poucos e segrega a muitos. Se não há memória e história não há resistência e os tiranos triunfam e deixamos de ser cidadãos para nos tornarmos súditos cuja própria existência é desejo (ou não) do Estado.  

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A MANIPULAÇÃO DA MEMÓRIA

Mnemosine era a deusa grega da memória, era filha de Gaia e Urano. Com Zeus teve nove filhas: as Musas. Era uma das deusas mais importantes pois para os gregos a preservação da memória iria eternizá-los. O esquecimento das tristezas ficavam por conta de Lethe ou Lesmosyne,  a deusa do esquecimento. Na pintura está uma representação de Mnemosine e as Musas.

No início da República ocorreu uma polêmica envolvendo o jurista Rui Barbosa que, quando Ministro da Fazenda durante o governo de Deodoro da Fonseca, teria ordenado a queima em praça pública dos arquivos da escravidão, em 1889. Arquivos estes que continham os nomes e informações de escravos e de quilombos.

Defensores de Rui Barbosa contestam o fato, e afirmam que o jurista não ordenou tal ação. Eles podem até estar certos e talvez Rui Barbosa tenha sido tão vitima quando os ditos arquivos, cujas cinzas foram carregadas pelo vento. Mas é fato que muitos arquivos sobre a escravidão se perderam após o a abolição e com eles muitos indivíduos também perderam sua identidade.  Os anos que se seguiram ao fim da escravidão foram de reconstrução desta identidade.

Muitos ex-escravos devem ter sentido o choque de estar em uma sociedade que não se definia mais pelo fato de ser ou não livre. Perdidos neste novo mundo muitos deles ficaram entrincheirados entre passado e futuro. Para o mais românticos um recomeço, a chance de uma nova vida longe das senzalas e das chibatas. Para os mais céticos trocava-se um passado de trabalho e sofrimento por um futuro marcada pelo preconceito e a exclusão.

Tal reflexão trouxe-se à mente um poema da escritora e poetiza Carolina Maria de Jesus, que sintetiza a situação do negro, mais de meio século após a abolição

MUITAS FUGIAM AO ME VER

Muitas fugiam ao me ver
Pensando que eu não percebia
Outras pediam pra ler
Os versos que eu escrevia

Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava livros para ler
Quantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida pelo preconceito
Se eu extinguir quero renascer
Num país que predomina o preto

Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz.

Carolina Maria de Jesus, em Antologia pessoal. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.

Mais do que isso, a ideia de apagar a escravidão da memória nacional, a queima de arquivos, aponta para uma tendência: a pouca ou quase nenhuma preocupação com a preservação, seja do patrimônio cultural, seja da informação produzida ao longo dos anos. O Brasil não tem uma tradição de preservação da memória. De fato, parece que estamos fadados a optar muitas vezes pelo esquecimento.

Paul Ricoeur chama a atenção para os abusos advindos da manipulação da memória e do esquecimento pelos detentores do poder. A memória manipulada leva à fragilização da identidade coletiva. No processo de colonização da memória são escolhidos os monumentos que devemos preservar, os heróis que devemos honrar e informação que devemos esquecer.

A escravidão, ditadura e movimentos populares são alguns dos temas que são constantemente ameaçados pelo esquecimento. Exalta-se a bravura de Palmares e se esconde a exclusão do negro da sociedade. Por várias décadas, por exemplo, foi tabu falar sobre a Revolta da Chibata, movimento ocorrido dentro da Marinha brasileira, liderada por negros e mulatos, como João Cândido. Aqueles que tentaram tirar das sombras a memória da revolta foram duramente reprimidos. Foi preciso quase um século para que a Marinha brasileira reconhecesse a importância do movimento.

Ao longo da nossa história centenas de milhares de brasileiros foram massacrados por forças oficiais por terem se levantando contra a exploração e a miséria. A memória manipulada construiu uma história, contatada e recontada ao longo do século XX, onde estes cidadãos foram tratados como párias, loucos ou fanáticos e seus algozes como heróis. O que não pode ser esquecido é manipulado.

Somos por vezes forçados ao esquecimento e quando isso não é possível cria-se uma memória manipulada que produz uma identidade fragilizada, onde os significados se perdem, assim como se perde a nossa capacidade de questionar, dialogar, de reconhecer o valor da nossa herança, seja ela intelectual ou cultural.

Agora, no tempo presente, a manipulação da memória nunca foi tão intensa. São constantemente relatados casos de professores hostilizados impedidos de debater sobre temas como tortura e o autoritarismo. Já foram flagrados descartes irregulares de arquivos da ditadura, com o objeto de se encobrir o passado, de apagar a memória e de se impedir a construção de uma história não manipulada. Até Paulo Freire tem sido vítima desse processo: querem lhe tirar o título de Patrono da Educação Brasileira, excluindo da história a memória do filósofo e educador que tano lutou por uma escola inclusiva e de qualidade.


O tempo se torna inimigo da memória e da história uma vez que nosso passado está constantemente ameaçado pelo esquecimento, nosso presente marcado pela manipulação e as projeções para o futuro cada vez mais incertas e voláteis.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

HISTÓRIA: O PRAZER EM ENSINO E PESQUISA

Acabei de ler um livro que ganhei da estimada professora Marly Viana. O título, o mesmo da postagem, é "História: o prazer em ensino e pesquisa". O autor é o professor Marcos Antônio da Silva, Titular em Metodologia da História, Doutor e Mestre em História Social pela FFLCH/USP, São Paulo, SP, com Pós-Doutorado na Université de Paris III. O livro em questão foi originalmente publicado em 1995, e reeditado em 2003, pela Brasiliense. Tenho a 2º edição.

De imediato posso dizer que é um dos melhores e mais prazerosos livros que eu já li sobre o assunto. Ele trata não apenas da questão da pesquisa em história mas, também, da questão do patrimônio e da memória. Tudo didaticamente explicado em 102 páginas. Leitura fácil, rápida e muito frutífera. 

Gostei muito do capítulo que fala sobre patrimônio histórico e a forma como o autor aborda o papel da escola na produção dos saberes históricos. Um livro que me fez refletir sobre várias práticas e que, certamente, será uma das bases para futuros textos que pretendo escrever sobre patrimônio, memória e história local.

Recomendo a leitura, principalmente para alunos da graduação e para professores de História, que muitas vezes acabam ficando ilhados da produção acadêmica (longas jornadas, pouco tempo para ler, menos tempo ainda para se aperfeiçoar).

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

COLEÇÃO DE MEMÓRIAS

Coleção de Memórias foi a primeira HQ que eu li, das muitas que comprei no FIQ. Li ali mesmo, sentada no chão, com as bolsas cheias de revistas ao meu lado. Simples mas muito bem acabada, de autoria de Theodore Guilherme (arte/roteiro) e publicada pelo Velociraptor Pirata, coletivo de ilustradores e quadrinista de Ponta Grossa/PR. 

Comecei gostando da revista pela contracapa, onde uma resenha começa com a seguinte frase "Poucas coisas possuem o valor de uma boa memória". Só esta frase já meu deixou empolgada e comecei a ter um monte de ideias. Pra quem não sabe, eu gosto de trabalhar com educação patrimonial e memória. 

A HQ é uma autobiografia, que reúne lembranças do autor na sua infância. Seus medos, sua inocência, seu apego à família. Ele conta estas memórias de forma quase poética. Elas têm forma e se apoiam na imagem saudosa da sua avó.

Simples e bonito. Um quadrinho que eu pretendo usar em breve nas minhas aulas de História e que, espero, possa resultar em outros quadrinhos, em outras "Coleções de Memórias".