sexta-feira, 29 de março de 2019

HQ: MULHERES & QUADRINHOS


A editora Skript está com um projeto muito legal, do qual eu estou fazendo parte. Trata-se do livro "HQ: MULHERES & QUADRINHOS", organizado pelas pesquisadores Dani Marino e Laluña Machado. Trata-se de uma obra inédita no Brasil, reunindo trabalhos de 100 mulheres, entre elas escritoras, desenhistas, editoras, revisoras, letristas, pesquisadoras, que vai contar com mais de de 500 páginas.

Uma obra que mistura quadrinhos, ensaios e entrevistas, feitas por mulheres mas, nas palavras das organizadoras, não apenas para elas. É uma obra importante tanto em termos de representatividade mas, também, como contributo para aqueles que leem e pesquisam quadrinhos no Brasil.

O projeto foi lançado no Catarse e estão sendo oferecidas recompensas exclusivas para os primeiros apoiadores (não perca tempo!). Para saber mais, é só clicar aqui  e visitar a página do projeto no Catarse.

quarta-feira, 13 de março de 2019

MULHERES NA LUTA: QUADRINHO NORUEGUÊS PUBLICADO NO BRASIL

Livro: Mulheres Na Luta -  150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade. De  Jenny Jordahl e Marta Breen
Páginas: 128 -  Editora: Seguinte.

A Seguinte, selo jovem da Companhia da Letras, tem sido uma agradável surpresa. Em 2018 publicou o prestigiado quadrinho "A origem do mundo: uma história da vagina ou a vulva vs. o patriarcado", da autora sueca Liv Strömquist. Agora, em 2019, lançou "Mulheres na Luta - 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade", das autoras norueguesas Marta Breen e Jebby Jordahl.
Fragmento da HQ que representa o
patriarcalismo de séculos anteriores
.
Marta Breen é jornalista e autora de não-ficção com várias publicações, dentre elas  os livros "Born Feminist" e o bestseller "60 Women You Should Know About", criado também em colaboração com a ilustradora Jenny Jordahl, designer formada pela Academia de Artes de Oslo, Noruega.

O álbum, que por sinal está com um excelente acabamento, faz uma apanhado sobre os 150 anos do movimento feminista, destacando mulheres que lutaram pelos direitos das mulheres em diversos lugares do mundo, do século XIX ao século XXI.
Fragmento da HQ que fala sobre
as reivindicações inciais do
movimento feminista.

Não consegue reunir, claro, toda a história do feminismo ou do movimento feminista, mas aborda temas como a luta pelo direito ao voto e questões ligadas à contracepção, aborto, religião e política que causaram e ainda causam grande polêmica. Um material muito rico, que pode inclusive ser usado, em sua totalidade ou em fragmentos, nas aulas de história.

Fragmento da HQ que conta a
história de Malala.
A autora fez uma minuciosa pesquisa e conseguiu colocar nos quadrinhos, de forma simples e didática, a história de mulheres, das mais variadas origens que lutaram e ainda lutam por igualdade, pelo direito sob seu corpo e pela liberdade de expressão.

Uma leitura indica da meninas e mulheres, em geral privadas do conhecimento acerca da história das mulheres, que tanto pode ajudar na formação de um pensamento mais claro sobre a sociedade que desejamos construir. O Livro ainda livro nos brinda com um posfácio escrito pela socióloga e professora Bárbara Castro, sobre a luta das mulheres brasileira por direitos civis e políticos ao longo da nossa história.

Assista uma entrevista feita com a autora Marta Breen, pela Seguinte, para divulgação da HQ.




domingo, 10 de março de 2019

A CAPITÃ MARVEL E O EMPODERAMENTO FEMININO


Capitã Marvel não é o primeiro filme de superaventura protagonizado por uma mulher, embora seja o primeiro do tipo realizado pela Marvel. Confesso que estava na expectativa para assisti-lo motivada pela  curiosidade em saber como a Marvel iria superar, ou pelo menos tentar repetir, o sucesso do filme da Mulher Maravilha.

Mas acabei concluindo que tratam-se de dois tipos diferentes de personagens e, portanto, é muito difícil estabelecer um parâmetro de comparação entre suas respectivas produções. Então, vou me abster no sentido de apontar qual foi o melhor, até porque não vem ao caso. Até porque, a Mulher Maravilha é um ícone dos quadrinhos. Minha mãe, por exemplo, nunca vai ao cinema. Ela não apenas foi assistir ao filme da Mulher Maravilha comigo e com as netas como saiu empolgadíssima.

Ontem eu a convidei novamente para ir comigo ao cinema, desta vez para assistir Capitã Marvel, e ela disse que não iria. Questionei  - “Por que não? Você gostou do filme da Mulher Maravilha!”. Ela simplesmente respondeu: - "Ah, mas era a Mulher Maravilha”.

A Capitã Marvel não é um ícone. Na verdade ela era até pouco tempo desconhecida do grande público, daquele que não lê quadrinhos de superaventura e, portanto, não conhece toda a legião de personagens da Marvel. Neste sentido, a personagem da Marvel está em desvantagem com relação à princesa das amazonas, que arrastou para os cinemas uma legião de admiradores. Multidões que se empolgaram com as cenas de luta e que torceram intensamente pela personagem.

No entanto, para muito além dos efeitos especiais e das cenas de luta características deste tipo de obra cinematográfica, o poder do discurso contido na narrativa é o que faz toda a diferença. E se muitos meninos vão assistir a filmes de superaventura em busca de adrenalina, para muitas meninas e mulheres eles têm outro significado. Tanto Mulher Maravilha e Capitã Marvel falam sobre empoderamento feminino e superação.

Mas, no caso da  Capitã Marvel, a meu ver, essa experiência foi muito mais intensa. Ela não foi a única personagem feminina de destaque. Havia pelo menos mais duas, que tiveram um papel determinante na trama. Personagens que desafiam o discurso alienante que afirma que a mulher, por ser mulher, é limitada e frágil.

No momento de retrocesso no qual vivemos, em que a igualdade de gênero é citada como uma das causas do aumento da violência contra as mulheres, a Capitã Marvel nos traz um exemplo de superação física e mental. Ela nos diz que a nossa fraqueza vem dos outros e não de nós mesmas. Que vamos cair, mas podemos nos levantar,  e que nunca devemos desistir só porque os outros dizem que não somos capazes de atingir nossos objetivos.

A Capitã Marvel é Carol Danvers, uma mulher que viveu para superar os limites que a ela foram impostos. Nem todo o poder universo teria feito dela a guerreira que se tornou se ela não tivesse sido a humana que tantas vezes caiu e se ergueu e que nunca desistiu.

A Capitã Marvel não é um ícone como a Mulher Maravilha, mas tem potencial para sê-lo, embora eu acredite que ela não o deseje, uma vez que, palavras dela, ela não precisa provar nada para ninguém.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

LANÇAMENTO DE DOCUMENTÁRIO DURANTE A FESTA DO IMIGRANTE ITALIANO EM LEOPOLDINA

Na última sexta foi lançado na Centro Cultural Mauro de Almeida  Pereira o Documentário "Imigrantes Italianos - a trajetória dos colonos que viveram em Leopoldina". A produção do documentário foi iniciativa do Jornal Leopoldinense. O evento fez parte das comemorações da festa do imigrante, que se encerrou hoje, com uma caminhada até Tebas, distrito de Leopoldina, saindo da Igreja da Onça, na antiga Colônia Constança.

Eu assisti ao documentário no dia da sua estreia e fiquei encantada tanto pela qualidade da produção quanto pelo conteúdo. É um material excelente para ser trabalhado em sala de aula, pois não apenas faz uma apanhado geral sobre a questão imigratória no Brasil como, também, narra uma parte importante da História de Leopoldina. O documentário, com a duração de 46 minutos está disponível no youtube. 


SINOPSE:
O historiador e genealogista José Luiz Machado Rodrigues (Luja), fala sobre os resultados dos estudos realizados em conjunto com Nilza Cantoni, explicando detalhes sobre a chegada dos imigrantes no Brasil e no município de Leopoldina, onde foi formada a Colônia Agrícola da Constança.
Nestes primeiros episódios, o entrevistado relata como ocorreu a imigração, demonstrando a trajetória que os colonos tiveram até chegar em Leopoldina. Também são esclarecidos detalhes de locais onde funcionaram instituições, fazendas, colônias, lotes, entre outros. FICHA TÉCNICA:
ACIL - Associação Comercial de Leopoldina
Produção: Jornal Leopoldinense Pesquisa: Nilza Cantoni e José Luiz Machado Rodrigues Diretor: Luiz Otávio Meneghite Filmagem e edição: João Gabriel Baía Meneghite Revisão: Luciano Baía Meneghite Publicidade: Sérgio Barbosa França PATROCÍNIO: Energisa Hotel Minas Tower Semar Assessoria Contábil Colégio Equipe
www.cantoni.pro.br
Fonte Supermercados APOIO CULTURAL:
Secretaria Municipal de Cultura de Leopoldina

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ARTIGO SOBRE MULHERES E QUADRINHOS NA FRANÇA


Já estão disponíveis os anais das 5ªs Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da USP, de 2018. Eu tenho um artigo lá, que é parte da minha pesquisa de doutorado. Quem quiser dar uma olhada nos anais é só clicar aqui!

Segue o título e o resumo do meu trabalho:

A PRESENÇA FEMININA NOS QUADRINHOS FRANCESES NOS ANOS 1970 - Natania Aparecida da Silva Nogueira
Esta comunicação busca analisar a participação feminina no mercado de quadrinhos francês na década 1970, concomitante à chamada “segunda onda” do feminismo, que tem início nos anos 1960 e se estende até a década de 1980. As mulheres protestavam contra sua invisibilização. Queriam maior acesso à universidade, que o valor do seu trabalho fosse reconhecido e equiparado ao dos homens. Não queriam mais permanecer confinadas ao ambiente doméstico nem ter como única missão a maternidade. Neste contexto, um grupo de mulheres colocou no papel a sua experiência vivida de forma independente discutindo a arte, a política e a sociedade de sua época. Estas mulheres, tais como Olivia Clavel e Chantal Montellier, passaram a integrar grupos criativos e a ser convidadas a contribuir com várias publicações, dentre elas as revistas em quadrinhos, conquistando alguma visibilidade em um campo dominado pelos homens. Estabelecido isso, entendemos que as histórias em quadrinhos devam ser estudadas como “tecnologias do gênero”, seguindo o conceito criado por Teresa de Lauretis para quem o gênero é um produto de várias tecnologias que formam discursos que se apoiam em instituições como o Estado, a família e a escola. Por possuírem e disseminarem discursos, os quadrinhos podem ser considerados uma tecnologia de gênero e uma fonte rica para se estudar a História das Mulheres.

Palavras-chave: História das Mulheres; Histórias em Quadrinhos; Gênero.

Quem quiser dar uma conferida no meu artigo, clique aqui.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

UMA HISTÓRIA DAS MULHERES E DA ARTE POR MEIO DOS QUADRINHOS

Capa da HQ de Aline Lemos "Artistas Brasileiras" (2018), pela editora Miguilim.
Lançada em 2018, a HQ "Artistas Brasileiras" de Aline Lemos apresenta ao público geral um seleção de 30 mulheres que se destacaram no campo artístico, de várias regiões do país. Um projeto que busca tirar das sombras mulheres talentosas cuja existência ou foi obscurecida pela história, ou mesmo esquecida ao longo dos anos. 

Já no início da HQ, numa introdução quadrinizada, a autora tem o cuidado de  esclarecer que existem outras mulheres, tão interessantes quanto as que ela selecionou para a HQ, e que objetivo da obra "não é apresentar todas ou as melhores artistas" mas mostrar diversidade de mulheres que produziram arte no nosso país.
Quadrinho sobre Tarsila do Amaral.
A obra coloca as mulheres dentro da história da arte e mostra que, mesmo com todas as dificuldades impostas pela sociedade, elas conseguiram deixar sua marca. Entretanto, suas marcas foram aos poucos desaparecendo e é necessário reavivá-las. Este é  um dos méritos da HQ de Alice Lemos, o de fazer um exercício de memória. 

A jovem autora nos lembra ainda que as mulheres são talentosas e não excepcionais. E qual seria a diferença?

Tirinha onde a autora usa
a artista plástica Zina Aída
para criticar o machismo
presente na sociedade.
Durante muito tempo a História nos apresentou as mulheres que se destacaram (e cuja presença não podia ser ocultada) em alguma área dominada pelo homens como excepcionais. Elas eram casos raros, únicos. O talento dessas mulheres era, portanto, uma anomalia, que não poderia servir de base para se julgar outras mulheres. 

Mas na HQ  "Artistas Brasileiras" a intenção da autora é demonstrar que havia, e há entre nós, mulheres talentosas cuja obra não é resultado apenas de uma excepcionalidade, mas de muito trabalho, dedicação, estudo e talento. 

A HQ não coloca as mulheres como sendo melhores que os homens, mas tão talentosas e capazes quanto eles, com as mesmas capacidades e habilidades criativas. O mesmo talento que se encontra em um homem e que pode ser encontrado, também, em uma mulher. 

Do ponto de vista didático, a narrativa é muito bem construída e a obra pode fornecer a professores de história e artes material para trabalhar História da Arte no Brasil de uma forma leve e divertida. As biografias das autoras curta, chegando ao máximo a 3 páginas e são acompanhadas de tiras irônicas e divertidas. A autora expõe e debocha de preconceitos machistas usando de ironia e  muito humor.


Nestes quadrinhos a autora reúne quatro personagens: Anital Malfatti, Fédora do Rego, Georgina de Albuquerque e Tarsila do Amaral.
Aline Lemos, em muitos momentos, lembra o estilo de narrativa da quadrinista sueca Liv Strömquist, que publicou no Brasil a HQ "A origem do mundo: uma história da vagina ou a vulva vs. o patriarcado" (clique aqui para conferir uma matéria sobre esta obra). 

Um quadrinho recomendado para pessoas de todas as idades e indicado para professores que procuram por um material rico e criativo sobre história da arte. Vale ainda acrescentar que a autora fez uma ampla pesquisa bibliográfica, cujas fontes estão disponíveis no livro.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

VOCÊ CONHECE O PALMITO DE BANANEIRA?

Imagem disponível em: Receita de Palmito da Bananeira. Disponível em: <https://jupagoblog.wordpress.com/2016/04/18/receita-de-palmito-da-bananeira/>. Acesso em 10 fev. 2019.

Passei o o domingo no sítio de amigos e aprendi uma coisa nova: como extrair o palmito de bananeira (que eu nem sabia que existia). Gravei um vídeo para quem tiver interesse em conhecer, que vai ficar no final da postagem. Fiz ainda uma pequena pesquisada sobre esse alimento. Vejam o que eu descobri.

O palmito da Bananeira é muito consumido na Ásia e é uma ótima fonte de fibras, potássio e B6. Com relação a tratamento de doenças, ele serve para prevenir o acumulo de oxalato que gera as pedras no rim e é usado como remédio para gastrites e úlceras e para reduzir açucares no sangue. No Brasil ele praticamente desconhecido. 
Para o preparo é preciso alguns cuidados, começando com a escolha do pé de banana. O palmito deve ser extraído após a retirada do cacho de banana, uma vez que ele só se forma depois do cacho, justamente quando o pé de banana precisa ser cortado.  

Depois de extraído (veja no vídeo como se faz) ele deve ser colocado em um vidro com água, limão e sal, picado pedaços menores ou rodelas. Ele deve ficar nessa solução por pelo menos 8 horas antes de ser consumido. Se for congelado ele adquiri outra textura, muito parecida com a carne de frango.
Outra receita aconselha a ferver o palmito por 3 vezes para tirar seu gosto amargo, usando duas colheres de vinagre a cada litro de água nas duas primeiras fervuras. A cada troca de água, ferver por 5 minutos. Após esse processo, o palmito dever ser conservado água com vinagre ou limão com sal, na geladeira. 
O palmito de bananeira pode ser preparado refogado, de forma simples, ou substituindo o palmito tradicional em receitas como moqueca de palmito com banana da terra ou de palmito com frango. Aí fica por conta da criatividade de quem vai preparar. 

Fica a dica para quem desperdiça essa iguaria, quando corta a bananeira e descarta seu tronco.

Fontes consultadas:

Receita de Palmito da Bananeira. Disponível em: <https://jupagoblog.wordpress.com/2016/04/18/receita-de-palmito-da-bananeira/>. Acesso em 10 fev. 2019.

Palmito de bananeira. Disponível em: http://milreceitas.blogspot.com/2016/10/palmito-de-bananeira.html. Acesso em 10 fev. 2019.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

JOSÉ DOS SANTOS GARCÊS E AS CABINES DE ARTE

Biblioteca e Bedeteca de Amadora
Uma vez por ano, desde 2016, vou à cidade de Amadora, em Portugal, para visitar a Bedeteca, equivalente à nossa Gibiteca, que fica localizada no segundo andar do prédio onde se encontra a Biblioteca de Amadora. A Bedeteca um espaço maravilhoso, com um acervo rico e diversificado, tanto de quadrinhos quanto de originais doados por artistas. 
Capa do guia da exposição.
Além de quadrinhos e obras de referência  sempre é possível encontrar uma bela exposição de quadrinhos, tanto de autores estrangeiros quanto de autores portugueses. Este ano, por exemplo, eu visitei a exposição "Parabéns Garcês", em homenagem aos noventa anos do quadrinista lusitano José dos Santos Garcês, a partir de originais doados pelo autor.  
A Lenda dos Montes Pálidos (1952),
por José dos Santos Garcês.
Nascido em 1928, José dos Santos Garcês frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde fez o curso de Artes Gráficas e começou sua carreira nos quadrinhos em  1946 no jornal infanto-juvenil O Mosquito. Para esse periódico o quadrinista produziu o "O Inferno Verde", a sua primeira HQ aos dezoito anos, tendo posteriormente colaborado com outras publicações, voltadas para o público infanto-juvenil. Produziu uma imensa obra durante sua carreira, com destaque a quadrinhos históricos e de aventura, numa de mais de carreira de 70 anos.
Inscrição feita no muro em frente à Bedeteca de Amadora chama atenção para a importância da Leitura.

O espaço da Bedeteca de Amadora permite que se realizem exposições durante o ano, o que fortalece tanto a instituição quanto a divulgação do trabalho de artistas, algo que pode e deve ser replicado aqui no Brasil. Sempre há algo novo e interessante a ser descoberto naquele amplo espaço para leitura, que valoriza não apenas os livros mas, também, os quadrinhos. Não é a toa  que Amadora se deu o título de "cidade dos quadrinhos.

Cabines de arte.
Em 2017 eu tive a oportunidade de conhecer o projeto das cabines de leitura. São cabines de telefone desativadas que foram transformadas em pequenas bibliotecas onde as pessoas pegam livros para ler e fazem doações.
Cabines de arte.

Este ano eu me deparei com as "cabines de arte", que são cabines telefônicas transformadas em expressão artística. Projeto encantador que me remeteu a duas coisas, à arte do grafite e do fanzine. Eu observava as cabines, por exemplo, e via um fazine nelas, com textos poéticos e imagens que se harmonizavam.
Cabines de arte.

Algo que também pode ser pensado para o Brasil, talvez não com cabines, que não fazem parte da nossa cultura, mas com armários, geladeiras e outro tipo objeto que por ventura tenha sido descartado mas que pode ser transformado em uma obra de arte ou num pequeno espaço de propagação da cultura.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

VISITANDO AS EXPOSIÇÕES DA THE INK LINK, NO 46º FIBD DE ANGOULÊME

Entrada da exposição.
Um dos momentos que mais me marcou durante o 46º Festival Internacional de Bande  Dessinée de Angoulême foi poder visitar o espaço reservado à The Ink Link, uma associação formada por cartunistas engajada em causas sociais. Eu tive conhecimento sobre a criação do The Ink Link durante o 44º FIBD, em 2017. Na época entrei em contato com uma das fundadoras, Laure Garancher, para tentar saber o que eu poderia fazer para ajudar e para conhecer mais sobre o trabalho do grupo.

Laure Garancher autografando
sua HQ "Ópium" para mim!
Virei fã da The Ink Link e da própria Laure Garancher, que é uma inspiração para mim. Eu não sou do tipo que congela perto de outras pessoas, mas este ano eu fiquei tão emocionada de poder conhecê-la pessoalmente que eu simplesmente não conseguia falar! Quem me conhece sabe que eu dou sempre um jeito de me comunicar. Mas bateu aquela vergonha de falar algo errado ou falar besteira. Mas tudo bem, faz parte! Afinal, eu estava no FIBD e todo mundo ali, até jornalistas experientes, tiveram seus momentos de tietagem.

Meu autógrafo!
Acho o máximo à forma como a The Ink Link usa os quadrinhos para instruir e educar, divulgando conhecimento, denunciando situações de risco para pessoas e para o próprio planeta. Eles assumem a função de combater a desinformação e defender a preservação da vida, da dignidade humana e do meio ambiente.

Em Angoulême as exposições da The Ink Link ficaram instaladas na Maison des Peuples e de La paix. Foram três, sendo que a principal delas foi baseada no belíssimo trabalho da quadrinista Aurélie Neyret, e recebeu o título de “Hila, naître en Afghanistan: le cotidien d’une martenité em bande dessineé”. A exposição retrata o cotidiano de uma grande maternidade no Afeganistão.  
Exposição “Hila, naître en 
Afghanistan: le cotidien d’une 
martenité em bande dessineé” 

A cartunista, que é membro da The Ink Link, acompanhou várias mulheres nos momentos finais de suas gestações numa das maternidades mais movimentadas do mundo, em Khost, onde nascem diariamente cerca de 60 crianças. Neyret registrou, durante 9 dias, o dia a dia de médicos e de mulheres que estavam nos seus momentos finais de gestação. Um trabalho belíssimo que nos aproxima de realidades tão distantes como a das mulheres muçulmanas. O trabalho foi feito em parceria com a organização Médicos Sem Fronteira. 
Exposição “Hila, naître en  Afghanistan: le cotidien d’une martenité em bande dessineé”
Não foi a exposição mais bonita ou mais sofisticada que visitei durante o FIBD, mas foi a mais carregada de significados. É tão bom ver pessoas fazendo coisas boas, sem interesse financeiro envolvido. Dá esperança para quem todo dia está sendo bombardeado de notícias ruins ou ouvindo pessoas falando coisas ruins e desprezando aqueles que estão dispostos a lutar por justiça e um mundo melhor para todos.

A HQ que deu origem à exposição pode ser acessada gratuitamente, em pdf,  clicando aqui. Quem tiver curiosidade de saber um pouco mais sobre o trabalho, pode assistir um vídeo criado para divulgar a HQ "Hila: Née en Afghanistan", com a participação da autora.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

PROFESSOR(A) TAMBÉM PODE VIAJAR PARA A EUROPA

Coimbra, Portugal 2019.

Desde 2016 eu passei a visitar anualmente a Europa. É um luxo que eu me dou depois de um ano inteiro de trabalho: minhas férias são na Europa. E a coisa que eu mais escuto das pessoas é elas relacionarem minhas férias ao meu poder aquisitivo. Você é rica!

Até ouvi certa vez uma pessoa dizer que eu era um “mal exemplo” para a minha categoria. Imagino que, para essa pessoa em particular, uma professora de educação básica não possa  fazer uma viagem ao exterior porque ganha um salário inferior ao de brasileiros de classe média alta.

Pois bem, posso não pertencer à classe média alta mas também não estou na classe C, o que me permite, uma vez ao ano me dar ao luxo de sair de férias no lugar que meu dinheiro permitir. Para isso eu poupo durante o ano, calculo as despesas que terei durante a viagem e busco me organizar da melhor forma possível. Foi assim que descobri que a Europa não é um destino tão caro quanto muitas pessoas pensam e que, se comparado a alguns lugares no Brasil, fica bem mais em conta. Pra dizer a verdade, a cada ano gasto menos dinheiro, sem me privar de nada.
 
Em Oslo, Noruega, 2019.
Busco, por exemplo, lugares com preço aprazível para fazer minhas refeições. Procuro restaurantes populares ou intermediários.  Em Coimbra, recentemente, paguei cerca de 7 euros para comer bacalhau ao Brás e incluso a este valor estava meia jarra de vinho, uma cesta de pães, sopa, o café e a sobremesa. Restaurantes sempre oferecem o prato do dia com um preço melhor e sem deixar de servir bem. Quando a programação é mais intensa eu me satisfaço com um bom sanduíche ou com uma salada pronta. Na Europa as pessoas comem seu lanche tranquilamente num banco de praça, sem nenhum constrangimento. 

No que diz respeito à hospedagem, nunca fiquei em hostels, geralmente fico em hotéis, pois eu viajo sozinha e gosto de ter privacidade no meu quarto nos momentos de descanso. Este ano tive minha primeira experiência hospedando-me no Albergue da Juventude, em Paris, com mais dois amigos. Fiquei encantada! O lugar é muito confortável, os quartos modernos e limpos, com banheiro privado e com café da manhã. Sem falar na localização privilegiada: mais ou menos uma quadra da Champs Elysses, no coração de Paris. Tudo isso por 36 euros a diária, uma pechincha! Clique aqui para conferir!

Em Örebro, na Suécia.
No geral, eu busco por promoções e estabeleço um teto de gastos por hospedagem. Já fiquei em hotéis 2 estrelas a 4 estrelas. Não faço muito questão de luxo, pois fico pouco tempo no quarto. Basta-me que seja limpo, aconchegante e tenha um banheiro. Na Europa há a opção dos banheiros compartilhados, não gosto. Outra coisa é o café da manhã. Há uma diferença muito grande de país para pais. Muitos hotéis oferecem o café da manhã a parte (não está incluso na reserva do quarto), e geralmente é o chamado café continental, no qual há um tipo de pão, manteiga, uma geleia, café, leite, chocolate ou suco. 

Dependendo de quanto o hotel cobra por este café básico vale mais a pena ir a uma padaria (e em Portugal e Paris, por exemplo, elas abundam) e tomar um café da manhã mais reforçado, que nem chega a 3 euros em muitos casos. Os melhores cafés da manhã que tomei na Europa foram em Roma e em Estocolmo, mas eram também hotéis de melhor qualidade.

Com relação ao transporte, eu costumo procurar os melhores preços. Minhas passagens ficaram entre 2.500 e 3.200 reais, eu começo a pagar cerca de seis meses antes. Eu normalmente fujo para o inverno europeu, pois não gosto do verão brasileiro. Mas se eu quisesse ir em uma estação mais quente também poderia encontrar preços bons. É apenas uma questão de paciência. Nas últimas viagens eu usei o Skyscanner para pesquisar os melhores preços. Também pesquiso as passagens de trem. Chego com tudo pago e não tenho basicamente despesas com transporte, exceto o transporte urbano, como metrô, ônibus e taxi.
Em Angoulême, na França, 2019.

Calculado o que vou gastar com transporte, hospedagem e alimentação eu começo a reservar o dinheiro para as compras e passeios. Não me considero consumista, mas gosto de fazer compras em janeiro na Europa e, diga-se de passagem, renovo meu guarda-roupa para o ano todo. Isso porque janeiro é o mês das liquidações. Roupas de verão, inverno e meia estação. Este ano, comprei blusas e camisetas por 2 euros cada! E não apenas isso sapatos, cremes, bolsas, perfumes e maquiagens de boa qualidade, quase tudo pode ser encontrado com excelentes preços.

Aconselho, inclusive, ir com o mínimo de bagagem, porque é quase impossível não cair na tentação de comprar alguma coisa. Além disso, alguns lugares oferecem descontos de acordo com a quantidade de produtos adquiridos. Já tive uma amiga que, aproveitando esses descontos,reduziu o preço de um produto de 70 para 5 euros, aproveitando essas promoções.

Em Paris, às margens do Sena
com o Louvre ao fundo.
E além das compras, temos os passeios. Adoro conhecer pontos turísticos, visitar museus e galerias, mas gosto, principalmente, de andar pelas ruas das cidades e tirar muitas fotografias. A Europa tem uma arquitetura que é muito distinta da nossa e eu gosto de apreciá-la, desde os palácios majestosos até as ruínas e os grafites nas paredes de edifícios. A forma como a cidade ou a aldeia se organiza urbanisticamente lhe confere identidade. Embora nem tudo possa ser preservado percebe-se um esforço do europeu em conjugar o moderno e o antigo, buscando uma harmonia entre ambos.

Enfim, para uma professora do interior viajar para a Europa é apenas é uma questão de planejamento. Os hotéis, as passagens e os gastos com alimentação, resolvido isso, o resto vem de bônus. E, acreditem, foi planejando viagens que eu antes achava que não conseguiria fazer que, depois dos 40 anos, aprendi a poupar e a me organizar financeiramente e a ter minha poupança.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

VISITANDO A CASA DA ESCRITA EM COIMBRA

Eu tenho a mania de andar despreocupadamente pelas ruas das cidades as quais visito a turismo. Pego um mapa, marco os lugares que desejo conhecer e tomo meu rumo. O problema é que nem sempre eu sigo o mapa. Costumo tomar atalhos, que normalmente me fazem andar mais do que o necessário. 

Mas é fazendo isso que eu conheço aqueles recantos que o mapa não mostra. Paisagens lindas que se transformam em belas fotografias, becos e ruas charmosas que a maioria dos turistas não veem. Acabo encontrado lugares que me são realmente atrativos.

Recentemente, enquanto tentava chegar à parte mais alta da cidade para conhecer a Universidade de Coimbra, eu achei um espaço cultural mantido pela municipalidade dedicado ao ato de escrever: A Casa da Escrita.

Sala  para cursos, palestras e oficinas.
O espaço é descrito como um "arquivo aberto, que permite aos frequentadores visitarem as rotas da criação da escrita através dos textos que se vão produzindo na própria Casa." Instalada em uma casa charmosa de três andares, com um lindo jardim interno, localizada na parte alta de Coimbra, a Casa da Escrita pertenceu a família do poeta e ensaísta João José Cochofel, um dos representantes do Neo-Realismo português.

João José de Mello Cochofel Aires de Campos, nasceu na cidade de Coimbra em 1920. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Universidade de Coimbra e foi um dos organizadores da coleção de poesia do Novo Cancioneiro em 1941. Participou da fundação de várias revistas e foi colaborador de outras, das quais podemos citar  AltitudeCadernos do Meio-DiaVérticePresençaSeara Nova, Gazeta Musical e de Todas as Artes. Atuou como poeta e  crítico literário e musical, tenho sido diretor da Academia dos Amadores de Música de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Escritores. Morreu em 1982, deixando incompleto o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, obra que começou a ser publicada em 1971. 
Sótão da Casa da Escrita, onde fica uma pequena biblioteca/arquivo
A Casa da Escrita e sua história têm tudo a ver com aquilo para o qual se propõe. Lá ocorrem regularmente lançamentos de livros, palestras, oficinas de escrita, exibição de filmes, etc, sendo um espaço de criação literária, produção cultural, livre pensamento e debate de ideias

Lugar simpático e aconchegante que me fez sentir vontade de ter algo parecido em Leopoldina. Quem sabe, talvez um dia, a Academia de Letras e Artes de Leopoldina não possa ter sua “Casa da Escrita”, como sede da organização. Já temos uma casa da leitura e uma biblioteca municipal, mas nos falta pensar na questão da escrita em si. Formar leitores e escritores. Pessoas que saibam se expressar bem não apenas pela palavra dita mas também pela palavra escrita.


Fontes de apoio:
Biografia de João José Cachofel. Disponível em: . Acesso em 13 jan. 2019.
Casa da Escrita.Disponível em: . Acesso em 13 jan. 2019.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

NO CINEMA, ASSISTINDO BUMBLEBEE

Na primeira semana de janeiro eu fui ao cinema e assisti ao filme Bumblebee, da franquia de Transformers. Normalmente não seria um filme que me levaria ao cinema. Mas a crítica havia sido muito generosa com a produção e com o desempenho dos atores, resolvi então arriscar. Bumblebee é um filme ambientado nos anos de 1980. A direção ficou a cargo de Travis Knight, que até então só havia se destacado por filmes de animação, tendo algumas indicações para o Oscar no currículo.

Bumblebee é um filme de ação mas é, também, um filme sobre relacionamentos afetivos e sobre família. O foco desta vez não está na luta entre bem e mal ou nos efeitos especiais que mostram robôs gigantescos lutando tão rápido que nem se consegue visualizar seus movimentos. O filme apresenta como protagonistas duas pessoas "quebradas": a jovem Charlie, que não consegue superar a morte do pai e que se isola da família, sempre mergulhada em uma grande tristeza, e Bumblebee, avariado quando chega a Terra, sem memória e sozinho. 

O roteiro é simples de entender: Charlie encontra Bumblebee e devolve a ele seu propósito; o robô, por sua vez, retira a menina do seu mundo triste e depressivo e a ajuda a se reconectar com a família. Acreditem, há momentos realmente dramáticos neste filme da franquia Transformers. 

Sem tirar o mérito do diretor, acredito que o sucesso do filme  deve ser creditado a duas mulheres: a protagonista Hailee Steinfeld, que interpreta Charlie, e a roteirista Christina Hodson, que usando uma narrativa simples, mas de grande sensibilidade, deu uma nova roupagem a um filme que poderia ser outro longa superficial de robôs lutando entre si. 

Aliás, a quantidade de Transformers no filme foi um elemento que fez diferença. Fora algumas passagens em que Optimus Prime apareceu, o longa só teve três Transformers em atuação constante: Bumblebee e dois Decepticons, o que foi mais do que suficiente.

Sem me estender muito, gostaria de finalizar dizendo que Bumblebee tem um ar de nostalgia, ao retratar os anos de 1980. Ele me fez lembrar os filmes daquela época, que ainda não abusavam dos efeitos especiais. Aliás, esse é outro mérito do filme: ele foca nos personagens e suas relações com sensibilidade e humor, e não nos efeitos especiais, que estão lá, são bons, mas que não são, desta vez, o suporte da produção.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A DEMONIZAÇÃO DO MAGISTÉRIO


Nós últimos dias eu tenho lido e escutado opiniões assustadoras sobre o magistério e os profissionais da educação, seja por membros do governo ou por apoiadores. Eu fico assustada porque não me encaixo no perfil que eles traçam dos professores brasileiros. Aliás, se o profissional do ensino que vem sendo descrito, esse monstro sem ética e sem caráter que impõe aos alunos sua forma de pensar, dominasse o cenário educacional eu seria a primeira a denunciar.

Mas justiça seja feita, se o clamor dos últimos meses e os ânimos ainda acirrados pelo pleito eleitoral estão fazendo com que as pessoas se exaltem nas suas opiniões, a verdade é que não é de hoje que a imagem do profissional do ensino vem sendo atacada no Brasil. Não foi o atual governo que começou a denigrir o magistério, nem acho que com ele virá a solução para isso.

Em novembro de 2018 o resultado de uma pesquisa  realizada em 35 países revelou que o  desempenho dos alunos está ligado à forma como a sociedade vê e remunera seus professores. O Brasil ficou em último lugar. Não chegamos a este ponto apenas de um dia para  outro. Ser professor no Brasil não é exatamente a profissão almejada pela maioria dos jovens e nem todos os professores querem realmente estar na sala de aula.

Em 28 anos trabalhando como professora eu conheci bons e maus profissionais. Dei meus tropeços e acho que aprendi com a maioria deles. Já me deparei com situações de todo o tipo, nas quais pude ter a experiência de contar com o apoio de bons profissionais e também de ser desestimulada por profissionais ruins. Deixe-me falar aqui um pouco sobre isso.

No ano de 2006 eu me exonerei do meu cargo de professora do Estado, em uma escola de referência. Na época eu tinha 15 anos de magistério. A razão que me levou a isso foi um episódio envolvendo um colega de trabalho. Durante uma reunião, eu dei  uma sugestão sobre um projeto (que implantei em outra escola no ano seguinte). Um professor socou mesa e gritou as seguintes palavras: - Se você quer mais serviço, arrume um marido e um tanque para lavar roupas!

Nunca esqueci essas palavras e o fato de que ninguém, nem a diretora me defendeu. Eu literalmente adoeci e, por conta disso, perdi a vontade de trabalhar para o Estado. O ambiente de trabalho daquela escola em particular também não ajudou. Daí, eu exonerei.

Mas não abandonei o magistério, continuei na minha outra escola, onde permaneço até hoje. De lá tenho um testemunho diferente. É uma escola de periferia, que atende a uma população mais carente do que as outras nas quais eu trabalhei. Muitos dos nossos alunos e alunas estão constantemente em risco, seja pela falta de recursos ou pelo próprio ambiente que vivem. Já tive alunos com todo o tipo de problemas e de lá eu tirei as maiores lições de toda a minha vida.

Aprendi a me doar e a ser sensível ao sofrimento alheio. Eu me tornei uma pessoa melhor e, acredito, uma profissional melhor. Trabalho muito, mas recebo e dou carinho na mesma medida. Eu testemunhei a mudança de alunos que não tinham perspectivas de futuro conseguirem vencer os desafios da vida. Vi professores, diretores e especialistas amparando famílias, tanto materialmente quando psicologicamente. Eu sei de alunos que hoje são pessoas com uma profissão e uma família que, se não fosse a escola e os professores, estariam ou mortos ou na sarjeta. Perdemos alguns, mas salvamos muitos.

E sempre tivemos uma boa relação com os órgãos de segurança pública. Ao fazermos nosso trabalho na escola estamos ajudando, por exemplo, a polícia militar a fazer o dela. Quem está na escola, está longe da vida do crime. Claro, não podemos ajudar a todos, mas cada um que segue em frente é uma pequena conquista.

Existem bons e maus profissionais, seja no magistério ou em outras funções. Mas a escola ainda é um suporte fundamental para a sociedade e o professor uma peça indispensável para a formação de nossos jovens. Toda essa demonização baseia-se num processo antigo de desqualificação do professor, a partir do exemplo de péssimos profissionais e da ausência de políticas realmente comprometidas com a valorização do magistério. 

Eu acredito que investir em formação, valorização e ética é o que precisamos. Perseguir toda uma classe profissional tendo em vista uma minoria ou uma visão limitada do que é o dia a dia de uma escola só faz justificar o atraso do Brasil em relação a outras nações. Acho que é necessário largar de lado todo o preconceito e as informações deturpadas que chegam todos os dias, e muitas delas nem são verdadeiras, e refletir seriamente sobre o futuro que queremos para nosso país e papel que a escola tem na sua construção.