sábado, 15 de fevereiro de 2020

IMPRESSÕES DA CATALUNHA: SABADELL

Parque de Sabadell - por do sol.
Em janeiro eu passei alguns dias na cidade de Sabadell, na província de Barcelona, Catalunha,  região autônoma da Espanha, a convite de um amigo que mudou recentemente para lá. Sabadell é uma cidade de porte médio, com cerca de 200 mil habitantes e foi uma das sedes das Olimpíadas de 1992[1]. Ela fica cerca de 40 minutos de trem de Barcelona, saindo da Praça da Catalunha.

Não é uma daquelas cidades antigas que guardam resquícios da Idade Média. Na verdade, é uma cidade bem moderna, cuja economia gira em torno do comércio e da indústria. Sabadell foi pioneira na Revolução Industrial Espanhola e, no século XIX, chegou a ser apelidada de "Manchester catalã” [2]. Bem próximo de onde fiquei hospedada há uma pracinha onde ainda de vê as chaminés de uma antiga fábrica, possivelmente uma tecelagem, em meio a prédios modernos.
 
Igreja de San Felix, originalmente uma capela construída no século XV e que foi passando por modificações até o século XX. Sua arquitetura é um misto de gótico e barroco - Centro de Sabadell.
A cidade é grande e eu fiquei no centro comercial, próxima ao Parque de Sabadell. Particularmente achei Sabadell muito acolhedora e charmosa. Não é uma cidade histórica como aqueles que eu gosto de visitar, mas é uma cidade muito agradável, com ruas arborizadas e ambiente acolhedor. O comércio da cidade é muito dinâmico, com lojas de franquias populares na Europa, cafés e restaurantes. 

O que me causou estranheza e, sinceramente, eu não consegui me adaptar, foram justamente os horários de funcionamento do comércio. À tarde quase tudo fecha durante duas horas (a famosa sesta - hora de descanso após o almoço), para reabrir mais tarde. É realmente muito estranho, principalmente porque não dá para saber exatamente o que vai estar aberto à tarde. Nisso, a Catalunha acompanha a Espanha.
Loja de presunto ibérico ou presunto pata negra.
Centro comercial de Sabadell


Aliás, eu estava na Espanha ou não estava? Eis a questão. Se eu fosse perguntar isso a um catalão certamente ele iria me dizer que não. Uma das primeiras experiências que eu tive em Sabadell foi assistir a uma sessão do Parlamento Catalão na televisão. Eu estava almoçando em um restaurante e, enquanto meu pedido não vinha eu assisti os deputados discutindo sobre a libertação de presos políticos.  Vou ser bem sincera, aquilo me deixou muito curiosa e intrigada e, ao longo da semana, eu fui colhendo informações e observando as manifestações, muitas delas silenciosas, dos habitantes de Sabadell.

Ao contrário de Barcelona, era possível ver os sinais do movimento catalão a todo canto. Nas janelas dos edifícios havia bandeiras da Catalunha. O símbolo da libertação catalã esta desenhado nas calçadas, nos postes, nas escadas e era usado como ornamento nos casados das mulheres e dos homens.
 
Símbolo separatista catalão.
Podia-se ver mensagens escritas em paredes, faixas pedindo a libertações de presos políticos e a libertação da Catalunha. O sentimento separatista ali é muito forte e, pelo visto, compartilhado pela maior parte da comunidade. Aliás, uma comunidade muito acolhedora.

Uma das coisas que me emocionou, em tempos tão obscuros quanto os que estamos vivendo, foi uma faixa colocada em um prédio público (acho que da prefeitura, não tenho certeza agora), em que o povo de Sabadell faz uma saudação aos refugiados. Sabadell se coloca de braços abertos a acolher aqueles que não têm para onde ir.

Se eu fizesse uma lista das cidades onde eu  gostaria de morar, certamente Sabadell estaria no topo dela, seja pela atitude positiva de seu povo, seja pelo sentimento de acolhimento que a cidade me passou. 

Falei muito do movimento Catalão, mas não expliquei o que ele é.  A região da Catalunha é uma província autônoma que pertence à Espanha. Ela fica bem ao Sul da França. O povo catalão é um grupo étnico que ocupa aquela região, que deseja se separar da Espanha e formar uma nação independente. Eles têm, inclusive, seu próprio idioma e seu parlamento[3]. 
Fiquei arrepiada com a legenda: "Se há pão, não há guerra."
O povo catalão teria ocupado a região por volta do século XII e o território passou a fazer parte da Espanha no século XVIII, após a guerra da Sucessão Espanhola (1702-1714). Uma região que se destacava do restante da Espanha desde o início. A Catalunha foi uma das primeiras regiões a se industrializar na Europa, seguindo o exemplo da Inglaterra, numa  época em que o restante da Espanha ainda era majoritariamente agrícola. 

A ocupação da região no século XVIII nunca foi aceita pelo seu povo e a Catalunha se considera uma nação oprimida pela Espanha, daí o desejo e independência. Os separatistas ainda alegam que região, economicamente próspera, é explorada pela Espanha, pagando elevados impostos e não recebendo de volta benefícios que correspondam às suas contribuições[4].

Assim, ir à província de Barcelona não é necessariamente estar na Espanha. Povo, cultura, ideais políticos são muito diferentes. Enquanto não conquista sua autonomia, a Catalunha trabalha para manter viva sua identidade, e o faz muito bem. Mas, apesar de não ser difícil se comunicar com o catalão, às vezes é um tanto confuso. Ao mesmo tempo, se fala o espanhol com os turistas e o catalão com os nativos. Um pedacinho da Torre de Babel da Europa, que reúne num território relativamente pequeno etnias tão diversas.






[1] Sabadell. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Sabadell>. Acesso em: 14 fev. 2020.
[2] Idem
[3] Movimentos Separatistas da Catalunha. Mundo Educação. Disponível em: <https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/movimentos-separatistas-na-catalunha.htm>. Acesso em: 14 fev. 2020.
[4] Nacionalismo Catalão. Disponível em<https://pt.wikipedia.org/wiki/Nacionalismo_catal%C3%A3o>. Acesso em: 14 fev. 2020.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

ARTIGO SOBRE ARTES E CIÊNCIAS EM LEOPOLDINA

Imagem capturada do Jornal Leopoldinense
Disponível em: <https://leopoldinense.com.br/noticia/4573/cine-theatro-alencar>
Uma novidade para quem estuda ou se  interessa pela História de Leopoldina. O pesquisador Alan Vilela Barroso, aluno do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC), da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), publicou um artigo  sobre as produções teatrais e circenses exibidas nas casas de espetáculos de Leopoldina (MG), como Theatro Alencar, no final do século XIX e início do século XX.

Um trabalho muito interessante e inédito sobre a nossa história e que deve ser lido e compartilhado. O artigo completo, com o título "HISTORIOGRAFIA DAS ARTES CÊNICAS EM LEOPOLDINA: anos finais do século XIX; anos iniciais do século XX", pode ser acessado clicando aqui! 

O autor registrou sua pesquisa também em um blog, inclusive com vídeos, que pode ser acessando clicando aqui!

domingo, 9 de fevereiro de 2020

VISITANDO MONTSERRAT, CATALUNHA


Uma das coisas que eu mais queria nestas férias era conhecer Montserrat. Foi indicação do amigo Ricardo, que está sempre indo para lugares novos e interessantes. Quando pesquisei sobre o local fiquei encantada e logo coloquei na minha programação.

Montserrat fica perto de Barcelona, na Catalunha, cerca de uma hora de trem. Para chegar a Montserrat basta pegar um trem Plaça Espanya. Lá se vende as passagem, entradas para museu e até, para quem quiser, o almoço no restaurante do Mosteiro. Vale a pena já ir com tudo comprado. O passeio todo, com a refeição já comprada, fica numa média de 50 euros. 
 
Estação de Monistrol de Montserrat - ao fundo a "Montanha Sagrada".
O trem vai até a estação Monistrol de Montserrat onde se pode optar por subir a montanha de trem cremalheira (um trem menor) ou de teleférico. Nós fomos de trem cremalheira. Foi rápido, cerca de uns 15 minutos, e dá para admirar a paisagem, que é fabulosa.

Mas foi suado, viu! Demos a falta de sorte de, justo no dia do nosso passeio, a viagem de ida ter sido de quase duas horas a mais do que o previsto. Um trecho da ferrovia estava em obras. O desvio que tivemos que fazer teve um preço. Por exemplo, eu não consegui visitar o Museu de Montserrat e completei apenas 80% do passeio que havia programado. Daí fica a dica: sempre saia para os passeios mais cedo, imprevistos pode e vão acontecer. 

Mas vamos falar um pouco do que torna este lugar tão especial, para atrair mais de dois milhões de turistas por ano, mesmo estando afastado 50 km de Barcelona.

Praça da Basílica de Montserrat
Montserrat é um maciço rochoso considerado a montanha mais importante da Catalunha. Ela também é conhecida como “Montanha Sagrada”.  Segundo a lenda, no ano de 880, a imagem de uma Nossa Senhora apareceu em uma gruta da região. Mais tarde esta imagem recebeu nome de Nossa Senhora de Montserrat — a Virgem Negra, também conhecida como La Moreneta, padroeira da Catalunha.  A crença local conta que a imagem foi esculpida por São Lucas e deixada na montanha por São Pedro, no ano 50 da era cristã[1].

Durante as invasões muçulmanas na península Ibérica, no século VIII, ela foi escondida por devotos numa caverna e encontrada no século IX por um grupo de crianças. Posteriormente, um bispo tentou remover a imagem da montanha, mas não conseguiu movê-la, interpretando o fato como sendo a vontade dos céus de que a imagem lá permanecesse.[2]
Um dos muitos espaços de devoção da Basílica de Montserrat.
Por conta disso, decidiu-se construir o mosteiro no alto da montanha, próximo do local no qual a imagem apareceu. A imagem está na Basílica de Montserrat e os turistas podem se ajoelhar e fazer uma rápida oração aos pés da Santa. Eu passei por este ritual. E olhe, foi de arrepiar. Quem me conhece sabe que não sou do tipo de pessoa que está sempre em igreja ou participando de grupos religiosos. Mas tenho minha religiosidade e quando vou a lugares de devoção sinto uma energia diferente. 

Foi de arrepiar poder estar em frente da imagem de Nossa Senhora de Montserrat. Tanto que, logo depois, da experiência, em um corredor, lateral, do lado de fora da basílica, acendi uma vela e a coloquei ao lado de muitas outras, deixadas pelos devotos. Uma curiosidade, todo ano, no dia 27 de abril, comemora-se a festa de Nossa Senhora de Montserrat. Dia 27 de abril é, também, o aniversário de Leopoldina (MG), município onde eu resido.
 
Vista do Mosteiro e da Basílica de Montserrat - foto tirada da estação do funicular.
Mas, as lendas em torno da montanha não param por aí. Montserrat também é considerado um dos locais onde o Santo Graal teria sido escondido. Pois é, o cálice sagrado, aquele do filme “Indiana Jones e a Última Cruzada” (1989), e do livro “O Código Da Vince” (2003), de Dan Brown. O Santo Graal é o cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia, e onde, José de Arimateia colheu o sangue de Jesus durante a crucificação.

Uma das coisas que eu achei descobri, enquanto escrevia este texto, é que  Heinrich Luitpold Himmler, comandante militar da SS e um dos homens mais poderosos dentro do Partido Nazista (inclusive um dos responsáveis diretos pelo holocausto), chegou a ir a Montserrat, em 1940, em busca do Santo Graal, afirmando que o cálice lá estava[3]. Himmler, assim como muitos alemães, acreditavam nas lendas medievais que diziam que o Santo Graal, estava escondido em Montserrat. Os nazista recolhiam relíquias sagrada e obras de arte a mando de Hitler, que deseja criar uma grande tesouro histórico como umas das estratégias para se legitimar no poder como líder mundial[4]

Se as lendas sobre o local já não são suficientes para aguçar a curiosidade dos turistas que visitam a região, Montserrat ainda conta com mais dois trunfos: a beleza da paisagem e a arquitetura monumental do complexo criado em torno da imagem e da religiosidade do povo catalão.

Vista panorâmica - foto tirada de um dos mirantes.
Vamos começar falando da paisagem. Mesmo antes de subir a montanha ela já enche os olhos. O maciço pode ser visto de longe e, a cada ângulo que se observa, é muito bonito. Parece que foi esculpido a mão. Fotos tendo como fundo esta natureza exuberante e exótica vão ser um dos ponto altos do passeio. 

A região também é ideal para caminhadas, escaladas e outras atividades ligada à natureza. Em Montserrat, ao lado do Mosteiro, há inclusive um hotel, para aqueles que querem desfrutar ao máximo tudo que a montanha pode oferecer. Ah, durante o passeio tivemos a visita de uma raposa, que estava bem próxima de um dos mirantes da montanha.

No que diz respeito à arquitetura, uma das atrações é o Mosteiro de Montserrat, beneditino, erguido na Idade Média, no século XI, e destruído pelas tropas francesas durante as invasões napoleônicas, em 1811. Napoleão Bonaparte vencido, em 1815, a Espanha restaurou a sua monarquia e, em 1844 o mosteiro foi reconstruído. Por esta razão é possível perceber certo ecletismos na construção, misturando elementos medievais com outros, de inspiração barroca, por exemplo.
 
Detalhe da praça da Basílica de Montserrat.
Há inda a Basílica de Montserrat, uma das igrejas mais bonitas que eu tive o prazer de visitar. Logo na entrada ela parece um cenário de filme. É difícil não se encantar com a grandiosidade da arquitetura, as esculturas, as pinturas e o próprio ambiente místico que envolve o local. De quebra ainda pude ouvir um ensaio com órgão, simplesmente divino.

Outra atração é o Museu de Montserrat, que estava oferecendo uma exposição de um dos meus pintores italianos preferidos, Caravaggio, considerado o primeiro grande mestre barroco. Além disso, é um dos museus mais respeitados do mundo, com obras e Picasso, Monet, Dalí e outras coleções, que vão da Antiguidade à Idade Contemporânea. Infelizmente o tempo que gastamos para chegar a Montserrat, por conta dos desvios, não permitiu que eu fosse à exposição.


Acabei priorizando o passeio ao alto da montanha, até a gruta na qual a santa foi encontrada, para aproveitar a luz sol, pois no inverso escurece mais cedo. Pegamos o funicular de Sant Joan, que nos deixou bem no alto da montanha, o que por si só já é uma aventura a parte. Mas apesar de parecer uma subida perigosa, quando visto de baixo, foi muito tranquilo. O funicular de Sant Joan foi construído em 1918 para transportar os peregrinos e visitantes até a ermida de São João e a Santa Gruta onde, segundo a tradição, foi encontrada a imagem da Virgem de Montserrat. A subida dura sete minutos, e o veículo chega a ter numa inclinação máxima de 65,5%[5]
 
Foto da capela construída pouco abaixo da gruta na qual a imagem de Nossa Senhora de Montserrat foi encontrada.
Lá em cima, temos como recompensa uma paisagem maravilhosa, uma trilha para caminhada que vai revelando locais ainda mais bonitos. Ao final, temos  o local onde ao imagem foi encontrada. Se eu não tivesse que voltar aquele dia, teria ficado mais tempo para pode explorar cada cantinho da montanha. Se tivesse ido sozinha, sabendo o que sei hoje, teria tentado uma reserva no hotel e passado pelo menos dois dias por lá.

Super recomento o passeio para quem tiver a oportunidade. Vale muito a pena. Se eu tiver outra oportunidade vou retornar, sozinha, para passar pelo menos dois dias, aproveitando a beleza do local e explorando os lugares que eu pude conhecer na minha primeira viagem.



[1] Montserrat (montanha) Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Montserrat_(montanha)>. Acesso e 07 fev. 2020.

[2] La Moreneta: conheça a história da Virgem Negra de Montserrat. Disponível em: < https://www.unitur.com.br/la-moreneta-conheca-historia-da-virgem-negra-de-montserrat/>. Acesso em 07 fev. 2020.

[3] Mosteiro de Montserrat. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_de_Montserrat>. Acesso em 07 fev. 2020.

[4] BADÔ, Fernando. Caça ao tesouro: as relíquias de Adolf Hitler (2019). disponpivel  em: < https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-conheca-principais-reliquias-adquiridas-por-hitler.phtml> acesso em 07 fev. 2020

[5] Funiculares. Disponível em: <https://www.montserratvisita.com/pt/natureza/funiculares>. Acesso em 07 fev. 2020.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

PASSANDO UM DIA EM COIMBRA (PORTUGAL)

No dia 04 de janeiro fui passar a Coimbra. Eu já a conhecia pois ano  passado, na mesma época, eu estive lá. Na ocasião eu fui a alguns dos pontos turísticos conhecidos e até visitei a Universidade de Coimbra. 

Mas desta vez eu estava acompanhada de um morador da cidade, João Miguel Lameiras,  o que, diga-se de passagem, torna a experiência muitos mais interessante. Por exemplo, descobri lugares que eu não teria encontrado se fizesse uma pesquisa simples na internet e ouvi histórias que só um ex-aluno da Universidade de Coimbra poderia me contar.

Vamos começar pelo básico, ou seja, apresentando Coimbra para quem nunca ouviu falar da cidade. Coimbra é uma cidade portuguesa que foi antiga capital do país, e é muito conhecida por ter sido palco da romance trágico de Inês de Castro e o D. Pedro I (não confundir com o nosso D. Pedro, que lá tinha o título de D, Pedro IV), imortalizado nos versos de Camões, em "Os Lusíadas". O local onde Inês morreu se tornou uma atração turística, a  Quinta das Lágrimas (clique aqui para conhecer a história). 

"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano."
Trecho de "Os Lusíadas", Luís de Camões, que faz referência ao amor trágico de Inês e Pedro.

Igreja/Mosteiro de Santa Cruz, onde está a sepultura de D, Afonso Henriques.
Lá também está o túmulo de D. Afonso Henriques, o primeiro rei e fundador de Portugal, na Igreja/Mosteiro de Santa Cruz. D. Afonso é lembrado na história por ter sido o primeiro rei a unificar feudos e a forma um Estado Nacional. Para quem gosta de história e literatura, como eu, Coimbra é um prato cheio.

A cidade fica no centro de Portugal, cortada pelo Rio Mondego, a uma distância de duas horas de comboio (trem), tanto saindo do Porto quanto de Lisboa. A viagem é confortável e a paisagem muito bonita.

Logo que cheguei fui conferir o mercado de pulgas, imenso, que estava instalado no entorno do Mosteiro de Santa Clara-A-Velha, um dos pontos turísticos famosos de Coimbra. Em estilo gótico, ele foi fundando no final do século XIII (13 de Abril de 1283), o mosteiro foi refundado no século XIV (10 de Abril de 1314), por Isabel de Aragão, que desejava ser enterrada naquele local, quando morresse. 

Pela sua proximidade com o rio o local estava constantemente sujeito a inundações o que acabou fazendo com que fosse abandonado em 1677. Mais acima foi construído outro convento, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. Em 18 de abril de 2009, o local foi aberto para visitação pública.

Mercado de pulgas de Coimbra, com o Mosteiro Santa Clara-A-Velha ao fundo. Ao alto, à direita, está o Mosteiro de Santa Clara-Nova.
Eu realmente nunca tinha ido a um mercado de pulgas. Já havia visitado os  loppis, na Suécia, que são locais onde se vendem objetos usados e/ou antigos. Mas um mercado de pulgas, foi a primeira vez. Sei que eles existem em todo o mundo, atualmente, mas origem destas feiras é a França do século XIX. Foi uma experiência muito boa, tanto pelo que eu vi quanto pelo  fato de ter sido em Coimbra. Futuramente, quero visitar o mercado de pulgas de Paris. 

Dos vários locais para se visitar o que mais me interessava era a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo (fundada em 1290, ou seja, ainda no século XII), e considerada, também uma das melhores. Atualmente ela possui quase 25.000 estudantes, de todo mundo. Muitos brasileiros, por sinal. Aliás, pode-se usar pontos do ENEM para entrar na Universidade de Coimbra. 
Vista de uma parte da Universidade de Coimbra.
Eu já havia visitado o campus central, que fica na parte alta da cidade, e até sua famosa biblioteca. Mas não tinha ainda me aventurado pelo becos e ruas, que também fazem parte do complexo, com seus bares e suas repúblicas. Achei fascinante. São aqueles detalhes que a gente deixa passar, como desenhos e frases deixadas nas paredes e muros que possuem significados que podem variar ou não, de acordo com a forma que o receptor as interpreta.

Quadrinhos desenhados nos muros de uma república de estudantes.
Acima dos quadrinhos, uma referência ao fim da ditadura fascista de Salazar.


Mais uma referência ao fim da ditadura e a conquista da democracia.
Possivelmente devido ao ambiente político quase apocalíptico no qual estamos vivendo, eu senti uma energia muito forte ali, que crescia quando eu lia frases antifascistas, que estavam a toda parte. Hoje eu estava lendo um artigo que afirmava que hoje Portugal é um país com uma democracia consolidada. 

Mas os portugueses sofreram muito nas mãos do fascismo para poder hoje comemorar a democracia. Do nosso lado, demoramos muito para tentar construir uma democracia, mas creio que usamos material de baixa qualidade, visto que tenho visto pessoas comemorando seu fim. A coitada, mal teve condições de se consolidar numa nação que ainda guarda e cultiva no seu cerne a herança da escravidão.

Andar pelas ruas de Coimbra e, principalmente, na área da universidade, foi como sentido o vento na liberdade, o coração aquecido, principalmente quando eu passava a frente das repúblicas, nas quais os estudantes, de forma bem divertida penduram objetos usados nas janelas como se estivessem me dizendo: olha aqui, somos livres! 
Fachada de uma república de estudantes.

Janela de uma república de estudantes - destaque para o gatinho que descansa entre as grades.
Por fim, para coroar o passeio, Lameiras nos levou ao Penedo da Saudade, um lugar mágico que não havia aparecido nas minha buscas  na internet quando pesquisei sobre a  cidade. O Penedo da Saudade é um parque miradouro do qual se pode ter uma vista belíssima da cidade. Ele foi construído em 1849 e está ligado à Universidade de Coimbra e seus estudantes.

Até o século XVI o local era conhecido como "Pedra dos Ventos" mas mudou de nome  para se tornar uma referência à trágica história de amor de Inês de Castro. Segundo lenda, foi na Pedra dos Ventos que D. Pedro se refugiu para chorar a morte da amada, por isso o local recebeu posteriormente o nome de Penedo da Saudade. Eu não poderia descrever o local, as placas, sua história como algo no mínimo fantástico e tocante. 





E, para encerrar o dia, eu consegui finalmente assistir a um lindo show de fado, tomando um taça de vinho em um lindo restaurante/pastelaria, O Café Santa Cruz, anexo à Igreja de Santa Cruz. É a segunda vez que fui a Coimbra, mas foram realmente duas experiências completamente diferentes. Desta vez havia algo mais, havia toda aquela energia que a Universidade e tudo que ela significa me envolvendo com mais força.  




Eu diria que meus Coimbra este ano serviram para refazer minhas energias e reforçar minhas convicções. Mais do que turismo foi uma viagem de esclarecimento, na qual eu pude ter a certeza de que a bolha de crueldade na qual vivemos no Brasil ainda não chegou ao refúgios sagrados do conhecimento, como a Universidade de Coimbra.

Meus agradecimentos especiais ao amigo João Miguel Lameiras, por um dos mais proveitosos dias que eu tive nestas curtas férias na Europa.

Fontes consultadas:
Mosteiro Santa Clara Velha. Disponível em: <https://www.culturacentro.gov.pt/mosteiro-santa-clara-a-velha/o-mosteiro/>. Acesso em 23 jan. 2020.

Universidade de Coimbra. Disponível em: <http://www.uc.pt/>. Acesso em 23 jan. 2020.

Penedo da Saudade. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Penedo_da_Saudade>.  Acesso em 23 jan. 2020.

Prefeitura Municipal de Coimbra. Disponível em: <https://www.coimbra.mg.gov.br/>. Acesso em 23 jan. 2020.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

ASSISTI AO FILME "PARASITA" (기생충)


Minha primeira resenha será de um filme, "Parasita", que eu havia desistido de assistir, pois não passou nos cinemas próximos da minha cidade mas, por trama destino, estava sendo oferecido durante meu voo para Lisboa, dia 30 de dezembro de 2019.

Por que eu queria tanto assistir a este filme? 

Quem acompanhou o blog nos últimos meses logo vai pensar: - Ah ela está seguindo a "onda coreana"! Mas não é bem isso. 

Eu tenho assistido muitas séries coreanas e chinesas, mas filme, este é o primeiro. Sou basicamente analfabeta, no que diz respeito ao cinema coreano. E já percebi que há muita diferença entre o material produzido para televisão daquele produzido para o cinema. É como comparar um filme com uma novela. São produções com conceitos, objetivos e até públicos diferentes.

O que me fez querer assistir ao filme foram justamente as críticas que ele recebeu. tenho lido críticas positivas desde que "Parasita" fez sua estreia no Brasil. Aliás, esse "boca-a-boca" é apontado como um dos fatores que levaram o filme a ser um sucesso de bilheteria.

Mas vamos que interessa. "Parasita" (기생충) é um filme de suspense e humor negro sul-coreano, do diretor Bong Joon-ho, lançado de 2019.  Ele estreou no Festival de Cannes, em maio de 2019 e ganhou a Palma de Ouro, por unanimidade. Um prêmio inédito para o cinema coreano. O filme foi selecionado para representar a Coreia do sul na 92º edição do Oscar, em 2020, com grandes chances de ganhar na categoria de melhor filme estrangeiro.

Parasita, resumidamente, é um filme inteligente, com um roteiro amarrado que mostra o contraste entre riqueza e pobreza de um forma que, até então, eu nunca tinha visto. Conta a história de duas famílias, uma rica, os Park, e outra paupérrima, o Kim. Usando de subterfúgios, esta família pobre vai se infiltrando na casa da família rica (daí o nome do filme) tentando usufruir ao máximo do que essa aproximação possa lhes favorecer. É um filme que mostra o limite da miséria humana, quando para sobreviver uma família inteira trapaceia. 

O que começa como quase uma comédia, evolui para uma narrativa de suspense que coloca cada um dos personagens no limite da própria sanidade. Existe uma linha bem definida entre riqueza e pobreza e a discriminação surgem em gestos e palavras às vezes aleatórios. Um contraste entre o gueto, no qual vive a parte empobrecida da população sul coreana, e o reduzido grupo formado pelos ricos.

O filme fala do sonho de ascensão social, de fugir da miséria a todo custo e o preço a ser pago por isso. Apesar de ser a quarta maior potencia da Ásia, a Coréia do Sul tem uma elevada taxa de pobreza, principalmente entre os idosos segundo dados da OCDE – Organização das Nações para Cooperação e Desenvolvimento Econômico

Eu gostei da atuação dos atores, de modo geral, e eu conhecia um dos protagonistas, Woo Sik Choi, de uma série que eu gosto muito, chamada "O Pacote". Ele interpreta o filho mais velho dos Kim, o primeiro a se infiltrar na casa dos Park. Também gostei muito da atuação de Chang Hyae Ji.


"Parasita" é uma boa pedida, principalmente para conhecer um pouco mais outras produções, que não as hollywoodianas. Eu assisti por curiosidade e, apesar de ter expectativas, sabia que seria uma experiência diferente daquela que tenho com os k-dramas.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

AS 10 POSTAGENS MAIS VISITADAS DE 2019

Desde que eu comecei ao blog, há mais de 10 anos, tenho o ritual de listar as postagens mais visitadas do ano se encerrou. É uma forma de avaliar o que eu ando escrevendo e o que as pessoas andam lendo aqui no blog.

A cada ano percebo que meus interesse vão mudando de acordo com a  minha rotina. Há anos e que eu escrevi muito, por exemplo, sobre a questão patrimonial, tanto que acabei criando um blog só para isso que, tadinho, anda meio abandonado. Noutros anos escrevi muito sobre história local, quadrinhos franceses, suecos, ensino de história, enfim, coisas que naquele momento foram meu foco.

No ano de 2019, no que eu mais foquei? Em séries e filmes. Os textos que publiquei e que mais foram visitados foram justamente sobre resenhas de séries e filmes que eu assisti. Mas, vejam bem, eu os resenhei pelo seu valor narrativo, pelas suas potencialidades pedagógicas e pela relevância dos temas. Não foi algo aleatório ou simplesmente automático.

Claro, eu escrevi sobre outros assuntos, também. No ano e 2019 escrevi 100 páginas da minha tese e alguns artigos. Pequei, no entanto, no que diz respeito a temas relacionados a ensino de história, educação patrimonial e história local. Mas como eu disse logo no início, meu foco sempre muda. Vamos ver como será em 2020

Foi a postagem mais visitada e comentada de 2019, com mais de 8700 visualizações e 40 comentários. É a resenha de um dorama chinês, lançado em 2019 no Netiflix

TOP 02 - ASHES OF LOVE
Foi a primeira resenha que eu fiz de um dorama chinês. Olhando para trás, ele não é mais meu preferido, mas meio que me introduziu nessa fase de resenhar senhas E algo que me chamou atenção ao escrever esta postagem é que apesar de eu ter desenvolvido uma predileção maior por doramas sul-coreanos, foram os chineses que mais  resenhei.

TOP  03- GO GO SQUID
Outra resenha de série,  também chinesa, que fala sobre campeonatos de jogos eletrônicos. Ela me marcou porque eu gostei tanto que assisti cerca de 30 episódios com legenda em inglês sem paciência para esperar as legendas em português.

text que escrevi sobre memória e política a partir das impressões que eu tive do filme "Vingadores - Ultimato". Considero um dos meus textos mais inspirados.

Texto feminista assumido. Minhas impressões sinceras sobre o filme da Capitã Marvel que, do ponto de vista do emponderamento das mulheres, considero o melhor filme de superaventura.

Este texto eu fiz como um pequeno ensaio para uma pesquisa maior. Quero produzir para 2020 um artigo acadêmico sobre quadrinhos e doramas. Está no topo da minha lista, depois dos dois capítulos finais da minha tese, claro.

Texto especialmente produzido para comemorar os 60 anos da Supergirl, uma das minhas super-heroínas preferida0s. É um texto que fala das origens da personagem, no final dos anos de 1960. 

TOP 08 - VOCÊ CONHECE O PALMITO DE BANANEIRA?
Pois é, eu não sabia o que era, até um amigo me apresentar a essa iguaria. Foi tão interessante que eu resolvi fazer uma postagem, com direito a vídeo ensinando como extrair o palmito de bananeira.

Este foi um dos poucos textos sobre história local que eu produzi em 2019, lamentavelmente. Mas ficou entre os mais visitados, o que mostra que o tema e relevante, pelo menos entre os leitores da minha região.

Este texto é a resenha de um dorama sul-coreano que fala sobre a questão da beleza e de como ela e a ausência dela, podem deixar marcas dolorosas e algumas pessoas. Baseado em uma webtoon esse dorama é um dos meus preferidos.