segunda-feira, 7 de setembro de 2020

TUDO BEM NÃO SER NORMAL: UM CONTO DE FADAS PARA ADULTOS

Na sua origem os contos de fadas eram sombrios e tenebrosos, utilizados como uma forma de disciplinar e conter impulsos, por meio de histórias nas quais muitas vezes os vilões não era tão piores do que os mocinhos. Eles traziam representações dos perigos da vida cotidiana, eles estabeleciam os limites entre o certo e o errado, reforçavam papeis de gênero que oprimiam as mulheres e traziam à tona o lado sombrio da sociedade. O recado era bem claro, o mundo do não é justo, aprenda a se defender se quiser sobreviver. Os contos de fadas, também,não distinguiam crianças de adultos.

Philippe Ariès, em seus estudos sobre a origem social da infância, explica que na Idade Média as crianças eram considerados seres sem autonomia ou estatuto social. Vai ser apenas na idade moderna que elas serão reconhecidas como tal. Mesmo assim, a infância seria desfrutada, por um longo tempo, apenas pelas crianças que pertenciam aos grupos privilegiados. Chapeuzinho Vermelho, o Gato de Botas, a Bela Adormecida ou a Branca de Neve e os Sete Anões, contos famosos a literatura infantil universal foram copilados, reescritos e adaptados para se tornarem apropriados para o público infantil, afinal, era preciso criar todos um aparato para educar a criança, que não mais é vista genericamente como uma adulto em miniatura.

Recheados de metáforas esses contos foram e ainda são utilizados de forma disciplinadora. Mas, como no passado, eles continuam sendo apropriados e seu discurso mudando de direção. Sobre folclore europeu e a forma como os contos populares eram utilizados de forma disciplinadora, a primeira leitura que tive e recomendo, é a obra de Robert Darnton, “O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa”, publicado originalmene em 1984, em particular o capítulo um “Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso”, que fala sobre os contos de fadas e os trata como documentos históricos uma vez que trazem representações sociais a partir das quais se pode perceber as mudanças na mentalidade humana. 

Atualmente temos presenciado essa apropriação ou mesmo um retorno à origem da literatura popular europeia por meio do cinema, dos quadrinhos, games e séries de televisão. Os contos de fadas estão sendo reescritos para os adultos e não trazem apenas metáforas com o objetivos pedagógicos, mas estão se tornando um espaço para que a própria psique humana possa ser representada, interpretada e reinterpretada.

Esta pelo menos é a análise que eu faço como consumidora de cultura, a partir do contato com artefatos culturais pop, dos quais eu quero destacar um aqui, em especial a séria dramática produzida pelo Estúdio Dragon e distribuída mundialmente pelo Netflix, “Tudo bem não ser normal” (사이코 지만 괜찮아).  Este K-drama utiliza contos de fadas modernos para falar sobre traumas e sentimentos. A cada episódio uma história é narrada de forma a associar a trajetória dos personagens principais à história que está sendo contada, utilizando diversas metáforas.

Os contos de fadas, de certa forma dividem o protagonismo com os personagens envolvidos na trama. Temos um enfermeiro/cuidador, Moon Gang-tae , interpretado pelo ator Kim Soo-hyun,  que trabalha e hospitais psiquiátricos e que cuida do irmão mais velho autista sozinho, desde que a mãe morreu tragicamente, quando ele tinha apenas 12 anos de idade.  Moon Sang-tae, o irmão autista que tem um talento enorme para a arte, mas que é extremamente dependente do irmão caçula, interpretado pelo ator Oh Jung-se, diga-se de passagem, com perfeição.  

O trio se completa com Ko Moon-young, interpretada pela atriz Seo Ye-ji, uma escritora de contos de fadas de sucesso, com uma história familiar trágica que fez com que ela se fechasse para qualquer tido de sentimentos. É claro, não falta a bruxa, causadora de toda a dor e tristeza que perseguiu os protagonistas até a vida adulta.

"A mão e o tamboril", "O cão feliz", "A criança Zumbi" e o "O Menino que alimentava pesadelos" são contos narrados ao longo da série e que, na verdade, refletem a carga emocional e psicológica que envolve os protagonistas. Na verdade, refletem o estado psicológico da própria escritora, incapaz de criar contos de fada que tenha um final feliz. Na verdade, ela retorna em seus escritos à origem desse tipo de literatura em sua fase mais sombria.

As metáforas contidas nesses contos fazem transbordar a dor reprimida pelos personagens. Assim, é tocante e ao mesmo tempo muito delicada a forma como a literatura interage com a realidade e vice-versa. No episódio no qual é narrado o conto da "Criança Zumbi", Moon Gang-tae, que tem por hábito reprimir suas emoções começa a chorar ao ler a história da mãe que ofereceu seu próprio corpo para alimentar o filho. Ele associa a história à sua infância e ao seu relacionamento com a mãe e o irmão.

A cura dos traumas é o que move a história. A descoberta e reconhecimento de sentimentos reprimidos, o desejo de romper com o passado, a conquista da autonomia e da coragem para encarar os desafios da vida. Um conto de fadas que mostra que os adultos também precisam de cuidados e que o abandono é, provavelmente, a pior doença que a sociedade impõem a aqueles que não se encaixam dentro daquilo que se considera “normal”. Mas o que é normal afinal? 

Tudo bem não se normal é um exemplo de apropriação da literatura pela televisão mas, também, de hibridismo cultural, uma vez que os contos de fada passam a ser parte essencial do da narrativa, criando algo novo, uma mistura de duas formas de arte. Cada conto de fadas que é um presente para o expectador que pode desfrutar de um pouco de literatura, além de uma bela arte ilustrativa, tanto pelas páginas dos livros, que de fato acabaram sendo publicados a partir do k-drama, e dos efeitos de animação usados eventualmente. E isso é o que torna a história sensível e diferente.

Referências:

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.

DARNTON, Robert. O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa. – São Paulo: Graal, 2011.


sábado, 5 de setembro de 2020

O SETEMBRO AMARELO NA HALLYU: AS REPRESENTAÇÕES DO SUICÍDIO NA CULTURA POP

Cena de suicído no K-drama "W: two worlds"

No último ano eu me aproximei da Hallyu (Onda Coreana)[1] por meio dos k-dramas e, depois pelos quadrinhos. O que é algo natural para mim, e quem acompanha o blog já percebeu. Gosto de conhecer outras culturas, especialmente pelas suas expressões artístico-narrativas, pois elas sempre me conduzem a questionamentos e indagações.

Foi assim quando comecei a estudar quadrinhos estadunidenses da primeira metade do século XX, para o mestrado, e está sendo assim com quadrinhos franceses no doutorado. Paralelamente, sou fascinada pelos estilo sueco de fazer quadrinhos, por exemplo e quero me aprofundar mais mais além dois artigos que já escrevi e penso neles potencialmente como um tema para pós-doutorado. Mas eu ainda não tinha tido interesse pela produção do leste asiático, mesmo tendo muitos amigos leitores e pesquisadores, que produzem um ótimos material sobre o assunto. Assumo que nunca fui leitora de mangá, por exemplo, apesar de apreciar o traço de muitos artistas, mas só na última semana eu comprei dois, por conta de temas que emergiram em k-dramas que assisti recentemente.

O contato com a produção sul-coreana mudou minha perspectiva e me fez querer saber mais sobre o oriente. Achei a história da Coreia muito interessante, e a forma como o país se construiu, sua cultura e as relações de gênero desafiaram minha curisosidade. E isso se deve essecialmente ao contato com a cultura de massa sul coreana. Primeiro, eu me surpreendi com a qualidade da produção para a televisão e, posteriormente, para o cinema. Em seguida eu percebi que a produção para a televisão, os chamados k-dramas, não apenas dialogava muito com a linguagem dos quadrinhos como, também, se apropriava deles de uma forma que não vejo acontecer no contexto ocidental.

Foi assim que cheguei aos manhwas (quadrinhos coreanos) e sua forma mais popular, os webtoons. Dando uma explicação rápida, os webtoons são um formato de quadrinhos digitais muito populares na Coreia do Sul, consumidos em grande quantidade por pessoas de todas as idades. Lá se desenvolveu o que se chama de snack culture, uma forma de cultura que pode ser consumida em poucos minutos, por meio dos smartphones. Há de tudo, k-dramas com episódios de 5 a 10 minutos, webtoons em capítulos, romances em fascículos. Todos são postados periodicamente e, aos poucos, o leitor vai conseguindo acompanhar sua série preferida enquanto toma um café, está no metrô ou no ônibus. Ideal para uma sociedade na qual quase não há tempo para o lazer.

Uma sociedade movida pela necessidade de trabalhar cada vez mais. O sucesso na carreira não e possível a todos e existe uma discriminação muito grande para com aqueles que não são bem sucedidos. Vem daí a cobrança enorme sobre os jovens, que quase não possuem tempo para se divertir, debruçados em cima dos bancos escolares, estudando nos fins de semana.  Até porque não basta apenas entrar em uma universidade, mas sim numa das três mais prestigiadas, Seoul, Korea e Yonsei, apelidadas de “Sky”.

Para o psicólogo Kim Tae-hyung, que trabalha em Seul, as crianças coreanas estão "crescendo sozinhas, estudando sozinhas". "Elas são forçadas a estudarem muito e competirem com seus amigos. Esse tipo de isolamento pode causar depressão e pode ser um grande fator para suicídio."

No mundo todo, suicídio é a segunda causa de morte entre pessoas jovens, mas na Coreia do Sul é a causa número um e morte de jovens entre 10 e 30 anos.

O país também tem os maiores níveis de estresse entre jovens entre 11 e 15, em comparação com qualquer outro país industrializado do mundo, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).[2]

Os adultos, por sua vez, são forçados a se dedicar quase que inteiramente ao trabalho, até idade avançada, uma vez que o sistema previdenciário do país é insuficiente para garantir seu sustendo durante a terceira idade. Por conta de tanta pressão social, o consumo de álcool na Coreia do Sul duas vezes maior do que o da Rússia e o índice de suicídios naquele país e um dos mais elevados do mundo, o maior entre os países em desenvolvimento. E isso aparece constantemente representado seja nos k-dramas, seja nos manhwa.  

Coreia do Sul, com 29,1 casos a cada 100 mil habitantes em 2012, é a nação desenvolvida com mais suicídios, segundo dados publicados este mês pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O país ocupa o 1º lugar pelo nono ano consecutivo, muito acima do segundo, a Hungria, com 19,4 casos a cada 100 mil habitantes. À margem do "clube oficial dos países ricos" só a Lituânia supera a Coreia do Sul. O país europeu tem 31 casos a cada 100 mil, conforme dados de 2012. Mais de 14 mil pessoas se suicidam anualmente na Coreia do Sul e a incidência dobra na terceira idade, revelando o lado mais cruel de um país entregue ao desenvolvimento, ao dinheiro e à honra.[3]

Nos k-dramas e nos manhwas há referências constantes ao suicídio. Personagens que tiram sua vida por não aguentarem a pressão social, personagens que pensam em se matar pelo menos uma vez durante a trama. O rapaz que não aguenta a pressão da família que cobra dele o ingresso em uma boa universidade ou que passe em um concurso público; a moça que sofre com excesso de trabalho e assédio no emprego; o rapaz que perdeu os movimento das pernas em um acidente e se sente um pária numa sociedade que exige que todos sejam produtivos; o idoso abandonado pelos filhos e que não possuí meios de se sustentar. A pobreza de uma parcela significativa da sociedade, que vive de subempregos.

"Chesse in the trap", k-drama adaptado de um webtoon.

Efeitos nocivos em uma sociedade que abraçou o neoliberalismo e é uma das mais globalizadas do mundo, e que podem ser percebidos nos produções midiáticas que, apesar dos clichês básicos e necessários para prender a audiência, trazem representações sociais que podem ajudar a refletir acerca de temas que nos são comuns.

Por ser a quarta maior causa de mortes nos país, a prática do suicídio encontrou o caminho da naturalização. O que se procura atualmente é buscar suas causas e tentar combate-las, o que não necessariamente é fácil, num país no qual ele se tornou uma questão de saúde pública, levando o Estado a tomar medidas preventivas e até restringir a venda de pesticidas, por exemplo, usados principalmente pelas mulheres que querem se suicidar. 

O debate sobre o tema ganhou ainda mais destaque quando ídolos da Hallyu começaram a morrer quase que seguidamente. Jovens atores e cantores que tiraram suas vidas em meio ao sucesso por não suportarem as pressões do trabalho e da sociedade. Pressões estas, aliás, que são constantemente abordadas em webtoons e k-dramas nos quais os protagonistas são ídolos da música ou da televisão.

“À medida que a imprensa internacional presta mais atenção ao que está por detrás deste género musical, mais se descobre: dietas rigorosas, cirurgias plásticas, contratos severos, subornos, assédio e muitas horas de trabalho são algumas das difíceis condições da indústria K-pop já antes relatadas.”[4]

Os webtoons e os k-dramas acabam e tornando espaços para denuncia e combate, por exemplo, do suicídio, quando questionam o “por que?” ou quando buscam passar uma mensagem de encorajamento.nA denúncia constante de abusos estão presentes nos manhwas e nos k-dramas. No Netflix, por exemplo, o k-drama adaptado de um webtoon, “Cheese in the trap”(2016), mostra as dificuldades de uma jovem de origem pobre em uma universidade, vítima da pressão social e bullying. Mystic Pop Up Bar (2020), também adaptado de um webtoon, tem como protagonista é uma mulher que cometeu suicídio e por determinação divina deveria voltar à terra e ajudar a curar as almas de 100 mil pessoas que acumulavam mágoas. 

Em uma outra produção, que leva os quadrinhos para o k-drama por meio de apropriação de linguabem, “W: Two Worlds”(2016), temos um cartunista mergulhando na depressão e no alcoolismo cujo pensamento está o tempo todo voltado para a morte, como única solução para seus problemas. Um dos grandes sucessos do cinema sul coreano, também adaptado de um webtoon, Along with the gods: two worlds (2017), por exemplo, apresenta um personagem que está sob vigilância por risco de suicídio, durante o período do serviço miltar obrigatório no país.

Mystic Pop Up Bar, webtoon adapta para k-drama que tem como tema a depressão gerada pelos problemas diários da população.

Assim como esses, há tantos outros exemplos que a cultura de massas nos oferece e que ajuda a levantar questões acerca de qual sociedade estamos criando e qual sociedade realmente precisamos ter. Mesmo que o caso sul coreano seja ímpar, e preciso lembrar que os problema é global e que, apensar das diferenças culturais, as causas muitas vezes são as mesmas. Tendo sido criada para ser um produto de consumo a cultura de massas extrapola seus objetivos originais uma vez que acaba assumindo o papel de atender às demandas sociais. Denunciar situações abusivas, corrupção política, misoginia, racismo e tantos outros injustiças passou a der o pano de fundo de muitas tramas, de músicas e da arte que, à sua maneira, se apresentam canais de conscientização e de reflexão.

Embora o modelo coreano não seja global, é a tendência do neoliberalismo priorizar o trabalho e produção. As pessoas passam a ser muito mais valorizadas pelo que são capazes de oferecer e termos produtivos do que necessariamente sociais, assim como cresce a falta de empatia e o distanciamento entre as pessoas. 

É preciso refletir a forma como esse modelo pode ser perverso e de como ele tem ganhado espaço e aumento ainda mais as diferenças entre as pessoas. Em tempos de pandemia, a falta e empatia parece ganhar novos contornos e maior destaque, uma vez que para uma significativa parcela da sociedade global, o dinheiro tem tido prioridade sobre a vida. Estamos encarando a morrte cada vez com mais naturidade. Não que ela não seja natural. Mas não é natural alguém pensar em tirar a vida com apena 11 anos de idade, ou um idoso achar que sua vida vale menos do que a de um jovem, ou um empresário e membros de um governo afirmar que a morte por covid-19 é invitave e, bem, vamos nos confomar. A falta de empatia com o sofrimento alheio não tem nada de normal.



[1] Hallyu é um termo que foi criado na China, no final da década de 1990, e apropriado pela Coreia do Sul que pode ser traduzido como a expansão da cultura sul coreana por meios da exportação de produtos e hábitos culturais.

[2] SHARIF, Hossein. O temido 'Enem' que sela o futuro dos jovens e paralisa a Coreia do Sul por um dia(2018). Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46221616>. Acesso em: 05 set. 2020.

[3] AMERISE, Atahualpa. Coreia do Sul: a república do suicídio (2015). Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/09/18/coreia-do-sul-a-republica-do-suicidio.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: 5 de set. 2020.

[4] MARTINS, Raquel. Sucesso, depressão e suicídios. O encanto e o lado negro da indústria K-Pop (2029). Disponível em: https://observador.pt/2019/11/30/sucesso-depressao-e-suicidios-o-encanto-e-o-lado-negro-da-industria-k-pop/. Acesso em: 05 de set. 2020


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O DIA DO HISTORIADOR E A REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO


Eu vou começar meu texto com uma confissão: eu tenho dificuldade em me assumir como historiadora. Isso acontece porque eu vejo na declaração "sou historiadora" um compromisso muito grande. Acho isso assustador porque é uma responsabilidade muito grande.

Agora com a lei que regulamenta e reconhece à profissão do Historiador, essa responsabilidade se torna ainda maior. Não é questão de eu me sentir confortável ou não. Mesmo que eu não me apresente como tal, eu sou.  Não é que eu tenha vergonha. Foi uma opção que eu fiz bem cedo na minha vida (depois que descobri que seria meio complicado ser astronauta) e algo que eu abracei com muita força.

Eu nunca me vi apenas como a professora que planeja suas aulas diárias e depois se desliga do trabalho e vai cumprir suas obrigações familiares e/ou sociais. Também nunca consegui separar a docência da pesquisa e, mesmo antes do mestrado, eu comecei a trilhar o caminho da pesquisa. Foram muitos fins de semana e feriados debruçada em livros e pesquisando arquivos. E ninguém nunca me mandou fazer isso, fiz porque quis, por vocação. Talvez por isso eu não me importe muito com títulos. Não me importo em ser chamada de mestra ou de doutora.

O que não significa que a conquista e o presente que tivemos esta semana, com a aprovação da lei que regulamenta a profissão não tenha aquecido meu coração. Quem não gosta lá no íntimo de ser reconhecido? Sempre me incomodou a forma como as pessoas usavam levianamente a palavra “historiador” para se autodesignar, porque ser historiador é uma coisa tão séria quanto ser um médico. Não vejo as pessoas que não estudaram medicina saírem por aí dizendo que são médicos (salvos golpistas, claro). Agora temos uma definição legal da profissão. Então, falando de forma vem chula “é cada um no seu quadrado”.

Quem afinal pode ser considerado historiador? Segunda lei nº 14.038, DE 17 de agosto de 2020, pode exercer a profissão aqueles que tiverem diploma de curso superior, mestrado ou doutorado em História obtido em programa de pós-graduação reconhecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) com linha de pesquisa dedicada à história; e profissionais diplomados em outras áreas que comprovarem ter exercido a profissão por mais de cinco anos (notório saber).

O que faz um Historiador?

Profissionalmente, o historiador pode dar aula, fazer pesquisas, assumir serviços de documentação e informação histórica, cuidar da preservação de documentos, elaboração de pareceres, relatórios, planos, projetos, laudos e trabalhos sobre temas históricos, entre outras atribuições. E o mais importante de tudo, ele deverá ter registro profissional para exercer a função lei. Ou seja, se você não em o registro, não pode, por exemplo, fazer concursos para historiador em áreas técnicas do serviço público, tais como Tribunais e Arquivos. Também para lecionar a disciplina nas escolas de educação básica será exigida a formação específica na área.

 

E aí vem a pergunta de ouro: vale a pena ser historiador?

Eu diria que vale tanto quanto outra profissão, desde que ela possa te fazer sentir útil e valorado. Em termos práticos, vai ser muito importante principalmente para quem atua em áreas profissionais fora da universidade, garantindo que vagas em concursos e empregos deem prioridade aos portadores do registro. Uma boa notícia para quem está saindo das faculdades e para quem tem como uma das opções para a graduação o curso de história.

Clique aqui para ler o texto da lei em sua íntegra e conferir as informações que foram divulgadas aqui.

E para encerar esta breve publicação, “Feliz dia do Historiador”.

FONTES CONSULTADAS

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Porque vale a pena regulamentar a profissão de historiador (2015). Disponível em: < https://anpuh.org.br/index.php/2015-01-20-00-01-55/noticias2/noticias-destaque/item/454-porque-vale-a-pena-regulamentar-a-profissao-de-historiador>. Acesso em 19 de ago. 2020.

Lei nº 14.038, de 17 de agosto de 2020. disponível em: < https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.038-de-17-de-agosto-de-2020-272747785>. Acesso em 19 ago. 2020.

JÚNIOR, Janary. Lei que regulamenta profissão de historiador é publicada após derrubada de veto. Disponível em: < https://www.camara.leg.br/noticias/685095-lei-que-regulamenta-profissao-de-historiador-e-publicada-apos-derrubada-de-veto/>. Acesso em 19 ago. 2020.

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

COMENTANDO O FILME "ALONG WITH THE GODS: THE TWO WORLDS" ( 신과 함께 - 인과 연)

 

Até ano passado eu não havia assisto a filmes sul coreanos, eu confeço.  Mas depois de "Parasita", eu passei a buscar novas opções dentro da Korean Wave (Onda Coreana), incluindo aí cinema e quadrinhos. Esta semana, eu me deparei com o filme  "Along with the Gods: The Two Worlds" (신과 함께 - 인과 연), uma ficção/fantasia lançada nos cimenas no final de 2017, baseada em um webtoon de grande sucesso. 

Webtoon, explicando aqui  rapidamente, é um manhwa (nome dado à shistórias em quadrinhos sul coreanas) que sai em capítulos periódicos na internet, e que é acessado principalmente por smartphones pelos usuários das plataformas  nas quais elas são publicadas.

De leitura rápida, os webtoons são uma febre na Coreia do Sul  e há de todos os tipos, para todos os púbicos. Muitos, devido ao sucesso, são impressos em papel e vendem horrores. O boom dos webtoons, na primeira década do século XXI, se deveu tanto ao uso e aumento do consumo de smartphones, quando à crescente procura por snack culture (formas rápidas de diversão, que podem ser consumidas em poucos minutos).

Nos últimos 10 anos esses manhwas vêm sendo adptados com cada vez maios frequência para a televisão, na forma de k-dramas e houve ainda adaptações pra cinema. É o caso de  "Along with the Gods: The Two Worlds".

Eu caí neste filme por puro acaso e de forma inusitada. Eu estava lendo um artigo ciêntifico sobre webtoons, "Snack Culture’s Dream of Big-Screen Culture: Korean Webtoons’ Transmedia Storytelling", de Dal Yong Jin, da Simon Fraser University (Canadá). O pesquisador usa, justamente, "Along with the Gods: The Two Worlds" como estudo. Aí não teve jeito eu tive que procurar e assistir.


A narrativa gira em torno da seguinte trama: um bombeiro morre salvando a vida de uma criança e é considerado uma alma modelo. Por isso, ele vai ter a oportunidade de reencarnar em 49 dias. No entanto, ele deve passar por sete infernos e ser julgado por sete deuses para conseguir ser premiado com a reencarnação rápida. Ele é acompanhado por  três guardiões (algo como anjos da morte), que devem fazer o papel de seus defensores durante os sete julgamentos. Só que a coisa não é tão simples quanto parece e aí o expectador se vê envolvido numa trama frenética e viciente, como tremendos efeitos especiais, cenas comoventes e um desfecho impressionante. É tudo o que eu posso dizer, sem spoilers.

Ah, claro, filme com ótimos atores, ótima cenografira, uma direção excelente e que, imagino, deva ter sido um expetáculo de assistir numa sala de cinema. Eu super recomendo. Aliás, vou até cruzar os dedos para que alguma alma iluminada publique os quadrinhos aqui no Brasil. Até porque quero conferir se o manhwa é tão bom sua adaptação.

Clique aqui para dar uma conferida na ficha técnica completa do filme. 


PS: Há uma sequência do filme, Along With the Gods, The Last 49 Days (2018), que também é muito boa. Recomendo.

sábado, 1 de agosto de 2020

LANÇAMENTO DO LIVRO "GÊNERO, SEXUALIDADE & FEMINISMO NOS QUADRINHOS"


Live do dia 02 de agosto, com o lançamento do livro "Gênero, Sexualidade & Feminismo nos Quadrinhos", organizado por Amaro Xavier Braga Jr e por mim, um projeto que já vem rolando há uns bons dois anos.  O lançamento foi realizado no canal do Rapha Pinheiro, pesquisador e quadrinista, responsável pela linda capa do livro. Para acessar o canal e assistir à  gravação da live, clique aqui!

Agradecemos a todos os autores/pesquisadores, brasileiros e estrangeiros que contribuíram para a obra, assim como os colegas que ajudaram na edição, especialmente Iuri Andreas Reblin e Attila Piovesan.

O link para o livro já está disponível, clicando aqui!

quarta-feira, 15 de julho de 2020

MULHERES E SUPERAVENTURA: UM RETORNO À ERA DE OURO?

Imagem capturada em: <https://www.metropoles.com/entretenimento/televisao/stargirl-trailer-final-da-nova-serie-de-live-action-da-dc-e-lancado>. Acesso em 15 jul. 2020.
Nos últimos anos temos assistido um aumento cada vez maior do protagonismo feminino na Superaventura. Nova e velha geração de super-heroínas vem ganhando  espaço tanto nos quadrinhos quanto na televisão e no cinema. Em 2013, o lançamento da nova Miss Marvel, uma adolescente muçulmana, chamada Kamala Khan, trouxe para a cena dos quadrinhos não apenas a questão do empoderamento feminino, mas da diversidade cultural. 

Imagem capturada em: <https://marvel.fandom.com/wiki/Kamala_Khan_(Earth-616)>. Acesso em 20 jul. 2020.
Uma personagem que deveria ser passageira e que conquistou o público global, passando a integrar os quadros permanentes da Marvel. Envolta em uma série de debates, abraçando um discurso de tolerância, Miss Marvel é um quadrinho bem humorado e que marca a tendência em se  levar ao público jovem temas atuais e polêmicos, que caracterizou a Marvel a partir da década de 1960, com personagens como Homem Aranha, um jovem adolescente cheio de problemas.

No cinema, o filme da Mulher Maravilha, de 2017, trouxe uma heroína clássica, que passou por diversas releituras desde o final dos anos de 1940, perdendo algumas de suas características originais mas retomando seu caráter feminista e atraindo para as salas de cinema um número astronômico de expectadores, de todas as idades. 

Em 2019, A Capitã Marvel repete o feito, trazendo para o cinema uma personagem menos conhecida mundialmente, mas que conquistou o público com seu discurso empoderado, trazendo a representação de uma mulher comum cuja vida foi marcada pela necessidade de romper com as barreiras impostas pelo gênero, desafio persiste mesmo após a conquista de poderes sobre-humanos. Para 2020, temos a esperada sequencia do filme da Mulher Maravilha e da Viúva Negra, que tiveram a data de estreia alterada por conta da pandemia do covid-19.


Nas séries de televisão as mulheres também vêm se destacando em gêneros como a aventura e a superaventura. É uma novidade? Não! Já tivemos sucessos como a série da Mulher Maravilha na década de 1970, estreada por Linda Carter. Não devemos nos esquecer do tremendo sucesso que foi a Mulher Biônica, que conta as aventuras de Jaime Sommers, interpretada pela Lindsay Wagner, que ganhou membros biônicos, tornando uma espécie de ciborgue, após um acidente. 

A série teve três temporadas e estreou na mesma época da série da Mulher Maravilha. Estas duas super-heroínas se destacaram pelo ser perfil feminista. Eram personagens que não dependiam dos homens e que não estavam preocupadas com romance ou casamento. Elas estavam disposta a salvar o mundo, na maior parte das vezes, ameaçado pelos homens.

A década de 1970 foi período da internacionalização do movimento feminista, chamado por muitos autores de "segunda onda". Eu, eu particularmente não consigo pensar nestas duas personagens sem relacioná-las a este contexto. Também não consigo deixar de identificar uma tendência crescente na vida do século XX de uma releitura de personagens femininas nos quadrinhos e/ou a criação de novas personagens, que destoam de alguma forma com a estética dos anos de 1990 e dialogam com os clássicos dos anos de 1940. 

A  "era de ouro dos quadrinhos" foi o momento que também foi marcado pelo protagonismo das “mulheres de papel”, termo usado por Selma de Oliveira em seu livro "Mulher ao Quadrado: as Representações Femininas nos Quadrinhos Norte-Americanos: Permanências e Ressonâncias", ao de referir às personagens femininas de quadrinhos (2007). 

Imagem capturada em: <https://br.pinterest.com/pin/433753007865032439/>.
Acesso em: 15 jul. 2020.
Este retorno das super-mulheres tem se feito notar também em séries como Supergirl e, mais recentemente, Stargirl. No caso da primeira, temos uma releitura de uma personagem criada no final dos anos de 1950, cuja origem veio da necessidade de buscar um modelo de adolescente, dócil e submissa, cuja devoção à família estivesse acima de tudo. A Supergirl original era uma personagem coadjuvante no universo do Superman, uma ajudante insegura e incapaz de reconhecer seu próprio potencial. Um exemplo típico de personagem que se submete à dominação feminina.

A nova Supergirl rompeu os estereótipos de gênero e provou ser tão poderosa e tão capaz quanto qualquer outro super-herói, inclusive o Superman. Na série, lançada em 2015, e que está em sua quinta temporada, temos uma super-heroína num momento mais maduro. Não mais uma adolescente insegura, mas uma mulher determinada. 

Em um episódio da primeira temporada da série, ela enfrenta um antigo inimigo do Superman e vence. Ela recebe o reconhecimento do primo na seguinte mensagem: “ele me derrotou, mas você o venceu”. Esta cena pode ser  interpretada como a comprovação de que no universo da superaventura gênero não é elemento definidor dos limites de um personagem.

Imagem capturada em: <https://www.aficionados.com.br/stargirl-dc/>. Acesso em: 15 jul. 2020.
No caso de Stargirl temos não apenas um caso de empoderamento feminino, mas um resgate da memória dos quadrinhos da “era de ouro”. Aquele tipo de quadrinho que aconchega que beira à inocência, que diverte mesmo tendo seus momentos de seriedade. Para quem não conhece a personagem, vale uma pequena introdução antes de aprofundar mais sobre a série e as representações nela contidas.

A personagem foi criada por por Geoff Johns em 1999, publicada pela DC Comics.  Johns, roteirista, teria baseado a personagem em sua irmã que morreu durante um acidente de avião. Resumidamente, Courtney Whitmore é uma adolescente rebelde que se muda para uma cidade do interior com o padrasto, Pat Dugan, e a mãe. Dugan havia sido, quando mais jovem, ajudante de um super-herói, o Starman (Sylvester Pemberton), também conhecido como Sideral. Um personagem dos anos e 1940 que foi posteriormente reformulado. 

Ele atendia pelo codinome de Stripesy. Resumindo, Courtney acaba descobrindo o equipamento do antigo Starman e se resolve assumir a identidade de Stargirl. Dugan tornou-se seu ajudante, o F.A.I.X.A, utilizando uma armadura de alta tecnologia. Stargirl vai se tornar membro da Sociedade da Justiça e vai atuar, também, de vários outros super-heróis e, claro, ter ser suas próprias aventuras solo.

A série de televisão é até certo ponto fiel á origem da personagem e traz para a tela um tipo de superaventura que há algum tempo não se via. Como eu disse, ela resgata a inocência da era de ouro dos quadrinhos e tira um pouco da obscuridade que há algum tempo domina as séries de superaventura, que em determinado ponto se tornam tão sérias que esquecem que os super-heróis foram criados para serem divertidos, também. Os fãs com a média de 40 e 50 anos de idade se lembram de como Batman podia ser divertido e como era bom dar boas risadas assistindo Adam West e seu Batman nada musculoso.

Ao trazer de volta heróis da década de 1940, Geoff Johns não apenas se apropriou da linguagem original dos quadrinhos de superaventura como criou algo novo. Stargirl não deixa de ser vista como uma tentativa forma hibrida de quadrinhos, que mistura o antigo com o novo, que faz inverte a relação de história (passado) e memória (presente). A personagem transporta para o século XXI a linguagem dos quadrinhos da primeira metade do século XX realizando aplicando a ela a metalinguagem.

O uso da metalinguagem é bem perceptível na série, quando a personagem e seus colegas adolescentes questionam, por exemplo, os nomes dos antigos super-heróis, suas roupas e a dinâmica de suas aventuras. Outro ponto que pode ser destacado na série de TV é justamente o protagonismo da nova geração de super-heróis: adolescentes que estão lidando com os problemas típicos da idade e ainda precisam a prender a lidar com o fardo de ser super-herói ou mesmo supervilão.

Gostaria de terminar me justificando por não ter citado a série da Batwoman. Eu ainda não consegui assistir esta série, portanto seria um tanto irresponsável escrever qualquer coisa sobre ela. Mas assistirei em breve e poderei atualizar esta postagem ou mesmo fazer uma nova, dependendo das impressões que a série me passar.

sábado, 4 de julho de 2020

LIVRO "GÊNERO, SEXUALIDADE & FEMINISMO NOS QUADRINHOS"



Sabe aquele projeto que fica muito tempo na gaveta? Pois é "Gênero, Sexualidade & Feminismo nos Quadrinhos" foi um destes casos. Um projeto que ficou maturando durante quase três anos e que, finalmente, conseguimos concluir.  O mentor intelectual foi Amaro Braga, que já havia organizado outros dois livros com uma temática semelhante. Eu entrei como colaboradora e ajudei a reunir textos e fazer contato com alguns autores. 

Mas se a conclusão deste projeto talvez tenha sido tardia, o seu resultado valeu a a pena.  Os 10 capítulos que compõem esta obra trazem um rico material não apenas sobre a História das Histórias em quadrinhos, mas um debate profundo sobre as relações de gênero e do papel das mulheres na sociedade ao longo dos últimos cem anos. Temáticas que se complementam e alimentam a curiosidade dos amantes doa amantes dos quadrinhos e de pesquisadores que encontram neste produto da cultura pop uma fonte trabalhar questões extremamente pertinentes para a nossa sociedade.

São textos que perpassam várias realidades, com quadrinhos produzidos em países como França, Japão, Estados Unidos, Suécia e Chile. É uma obra que conta com a colaboração de autores nacionais e estrangeiros, alguns deles sendo traduzidos e publicados pela primeira vez no Brasil, como Trina Robbins e Fredrick Strömberg. O prefácio é de Sonia Luyten, uma das pioneiras nos estudos sobre quadrinhos no Brasil.

Confira o sumário:

Prefácio - Gênero, Sexualidade e Feminismo Comprova: a mulher não deve se converter em refém
de posição raramente escolhida por ela.
Sonia M. Bibe Luyten

Apresentação - Aprendendo as Questões de Gênero por Imagens Desenhadas
Amaro Xavier Braga Jr
Natania Aparecida da Silva Nogueira

1. Sangue de Artista: mulheres nos quadrinhos durante a segunda guerra mundial
Trina Robbins

2. Quadrinhos Suecos no Século XXI: a liderança feminina
Fredrik Strömberg

3. Ah! Nana - A Revolução Feminina nos Quadrinhos Franceses
Natania Aparecida da Silva Nogueira

4. Bécassine e as Selvagens: a mulher rural nas histórias em quadrinhos
Valéria Aparecida Bari

5. Mangá Feminino, Revolução Francesa e Feminismo: um olhar sobre a Rosa de Versalhes
Valéria Fernandes da Silva

6. Representação de Etnia e Gênero nos Quadrinhos de Super-heróis
Amaro Xavier Braga Jr

7. A Representação Feminina nas HQs de Super-Heróis:
uma demanda por superação de velhos estereótipos
das "Mulheres na Geladeira”
Amanda Freitas Ramos
Camila C. Magalhães de Miranda
Maria Amália Arruda Camara

8. Por esta eu não esperava! Gênero e Sexualidade
nas Páginas de X-factor
Lucas do Carmo Dalberto

9. Temidos e Odiados pela Sociedade que Juraram Proteger: a mutação como metáfora da condição queer
Guilherme Sfredo Miorando

10. Brasil e Chile: quadrinhos contra a lesbofobia
Daniela dos Santos Domingues Marino

Agradecimentos especiais e Attila Piovesan, responsável pela revisão dos textos, e Rapha Pinheiro, criador da capa do livro. 

O lançamento será dia 02 de agosto de 2020, e o livro ficará disponível gratuitamente, na forma de e-book. Mais detalhes, em breve!

terça-feira, 26 de maio de 2020

“GOO HAE-RYUNG, A HISTORIADORA” E O SIGNIFICADO DE SER HISTORIADOR(A)




Terminei de assistir esta semana o K-drama “Goo Hae-Ryung, a Historiadora” (신입 사관 구해 ), uma produção da Netflix, lançada em 2019. Uma experiência, no mínimo, gratificante. Os doramas têm sido tanto uma forma de lazer quanto uma inspiração que tem me aberto uma série de possibilidades para temas de pesquisa. 

Além disso, eles estão me introduzido na História do Oriente, área na qual eu nunca havia me envolvido nestes meus 28 anos de formada. Aliás, um dos meus projetos para depois do doutorado é justamente escrever um pequeno e-book falando sobre temas históricos do oriente a partir das produções coreanas e chinesas para televisão. Já estou até selecionando minhas fontes, "Goo Hae-Ryung, Historiadora", certamente será uma delas.

Mas o que este k-drama tem de tão especial para que eu o tenha incluído nos meus projetos futuros? 

Eu poderia citar inúmeros pontos e, entre eles o próprio didatismo de “Goo Hae-Ryung, a Historiadora”, que aborda uma variedade enorme de assuntos que, certamente, serão temas de algumas das minhas aulas. Mas, de tudo que ele pode oferecer duas coisas me chamaram a atenção. Primeiramente, o protagonismo feminino, em segundo lugar a forma com o papel social do historiador é apresentado pelo dorama. Possivelmente eu darei alguns spoilers, vai ser inevitável, mas nada que atrapalhe quem quiser conferir depois este drama na Netflix.

Historiadoras aprendizes do Escritório de Decretos Reais.

Vamos começar falando das protagonistas. Neste K-drama as mulheres roubam a cena o tempo todo. Tanto a protagonista, quanto as personagens do elenco de apoio. É um dorama bem no estilo girl power e com uma grande vantagem: com pouquíssimos clichês. Não espere mocinhas frágeis e heróis viris. Aqui as mulheres tomam a iniciativa no amor e são elas que salvam o príncipe indefeso.


 Goo Hae-Ryung
A heroína da história é Goo Hae-Ryung é uma jovem de 26 anos que se recusa a casar e, para fugir do casamento, ela faz o primeiro concurso público para mulheres e se torna historiadora, junto com mais três jovens, dentre elas a filha de um membro do autoescalão do governo. Ela não quer ser esposa. Goo Hae-Ryung deseja ter uma carreira, ser independente financeiramente e não acredita que o casamento seja a única opção para uma mulher.

Mas estamos no início do século XIX, na Dinastia Joseon (1392–1897), na Coreia. Tanto do ponto de vista social e cultural e moral, uma mulher só encontraria realização se fosse esposa e mãe. Goo Hae-Ryung está numa situação difícil porque se ela não aceitar o marido que o irmão escolheu, o chefe da vila na qual ela morava iria casá-la com alguém aleatoriamente. Afinal, uma mulher não pode ficar sem um homem sem perder sua moral. Tal pensamento não foi exclusivo de países do extremo oriente e, ainda hoje, é defendido em muitas regiões do mundo.

A protagonista consegue evitar seu destino predeterminado pela sociedade e se torna funcionária pública. Neste ponto, a narrativa se constrói no passado, mas com elementos do presente. O discurso acerca da liberação feminina encontra facilmente eco nos dias atuais, assim como as dificuldades que as quatro jovens historiadoras enfrentam para conquistar seu espaço dentro da instituição governamental na qual, até então, as únicas mulheres eram as criadas.

Uma pausa aqui para elogiar o talento de Shin Se-kyung, a atriz que interpreta Goo Hae-Ryung.

Voltando à questão do casamento, as colegas historiadoras de Goo Hae-Ryung compartilham com ela, em maior ou menor escala, o desejo pela independência e, também, não veem no casamento a única alternativa para uma mulher.


Song Sa-hee
Destaque para Song Sa-hee, filha de uma família rica, que evitou ao máximo o casamento, e que deseja ser livre para escolher seu caminho, sem ser usada pela família para alianças políticas ou comerciais. A jovem lady é direta: não quero ser usada. Ela é questionada: Você é de uma família, não precisa trabalhar ou se preocupar com dinheiro, por que quer ser historiadora? No que ela responde: Não tenho nada, nada é meu, pois ou mulher. Para Song Sa-hee, interpretada pela atriz Park Ji-hyun, o cargo público de historiadora é a forma não apenas de se libertar das imposições da família, mas, também, de poder garantir seu sustento futuro.

São mulheres que não querem casar apenas para cumprir exigência social e que não se rendem à ilusão do amor romântico. Elas querem amar, querem ser amadas, mas não vão abrir mão da sua liberdade por conta disso. Goo Hae-Ryung, por exemplo, é muito pragmática. Em certo momento ela recebe a proposta de fugir e deixar tudo para atrás para se realizar no amor. A resposta dela: Eu? Fugir e perder tudo que eu conquistei com o meu esforço e apostar numa paixão que eu sei lá se vai ter futuro? É ruim! Não foram exatamente estas palavras, mas este é o sentido delas.

O interessante do grupo formado pelas quatro historiadoras é o fato de que elas possuem origens sociais diferentes, mas compartilham o mesmo destino por serem mulheres. Destaque para fato que a mulher oriunda de família rica se coloca como a mais oprimida, uma vez que sua família a vê como um instrumento para conquistar ou conservar o poder e status a partir de matrimônios arranjados.

Espirituosas e atrevidas, as historiadoras Oh Eun-im (interpretada por Lee Ye-rim ) e Heo Ah-ran (interpretada por Jang Yoo-bin) dão um ar cômico ao drama.
Oh Eun-im (interpretada por Lee Ye-rim) e  Heo Ah-ran (interpretada por Jang Yoo-bin).

Outra coisa que me encantou neste dorama é a forma como são apresentados os historiadores. Eu poderia dizer que eles e elas são os protagonistas da história. No contexto no qual a narrativa se desenvolve, início do século XX, os historiadores representam um corpo de funcionários públicos com um status elevado na corte: são eles os responsáveis por registrar nos sachaek (caderno que os historiadores carregavam) tudo que era dito em reuniões oficiais, públicas ou particulares. 

Das reuniões oficiais com o rei e o príncipe herdeiro, à rotina cotidiana de membros da corte, como a rainha-mãe, a princesa herdeira, o jovem príncipe, etc, tudo era registrado e arquivado, sendo proibido o acesso a esta documentação quem não fosse historiador. O próprio rei não tinha direito a ler o conteúdo dos sachaek.

O que me seduziu mesmo neste dorama foi a forma como a história foi, o tempo todo, representada: ela é a chave para o futuro da nação. Os historiadores se apresentam como detentores de uma ética inabalável, que deve ser mantida a todo custo e defendem o documento de qualquer tipo de interferência externa. No momento, por exemplo, em que o rei tenta passar em cima lei e interferir no escritório de registros históricos, eles resistem. O poder do rei não se rivaliza ao da história.

Uma passagem, que vou resumir agora, mostra o chefe dos historiadores rebatendo um dos colegas que diz algo do tipo: se o rei quer ler, então deixa ler. Ele retruca dizendo algo assim: A gente deixa o rei ler hoje, ele pede para ler amanhã, depois eu começa a sugerir algumas mudanças e, no fim, nós não sermos mais do que marionetes nas mãos dele. Ainda completa que, as leis que protegem os registros e os historiadores foram conquistas depois de séculos de luta. Se eles cedessem, teriam que recomeçar do zero.



A história é colocada como portadora da verdade. Que verdade? Os registros detalhados feitos pelos historiadores e que, depois, seriam usados para escrever os compêndios nos quais era seria sintetizada. O historiador não poderia julgar, seriam as futuras gerações que o fariam. Ele não poderia interferir nem ter opinião, como uma sentinela silenciosa, ele apenas registra.

Uma visão positivista mas é século XIX, então é compreensível.  Não que isso não seja questionado no decorrer da trama, afinal, a narrativa dialoga o tempo todo com o presente. Não achei fontes para embasar ou confirmar este poder dos historiadores durante a Dinastia Joseon, mas confirmei que, de fato, eles existiram e trabalharam junto aos órgãos do governo, por séculos.

Eu realmente poderia escrever muitas páginas sobre esta série, mas vou encerrar a postagem reforçando minha recomendação. Assista “Goo Hae-Ryung, a Historiadora”. É uma história bonita, com personagens marcantes, é leve e, ao mesmo tempo, muito profunda. Você vai rir, vai se emocionar e vai ter contato com conhecimentos que podem fazer diferença na sua formação escolar, social e política. Fora isso é muito divertido, com uma trilha sonora linda, uma fotografia fabulosa, ótima opção para os dias de isolamento. São 20 episódios de cerca de 70 min cada.