sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

PASSANDO UM DIA EM COIMBRA (PORTUGAL)

No dia 04 de janeiro fui passar a Coimbra. Eu já a conhecia pois ano  passado, na mesma época, eu estive lá. Na ocasião eu fui a alguns dos pontos turísticos conhecidos e até visitei a Universidade de Coimbra. 

Mas desta vez eu estava acompanhada de um morador da cidade, João Miguel Lameiras,  o que, diga-se de passagem, torna a experiência muitos mais interessante. Por exemplo, descobri lugares que eu não teria encontrado se fizesse uma pesquisa simples na internet e ouvi histórias que só um ex-aluno da Universidade de Coimbra poderia me contar.

Vamos começar pelo básico, ou seja, apresentando Coimbra para quem nunca ouviu falar da cidade. Coimbra é uma cidade portuguesa que foi antiga capital do país, e é muito conhecida por ter sido palco da romance trágico de Inês de Castro e o D. Pedro I (não confundir com o nosso D. Pedro, que lá tinha o título de D, Pedro IV), imortalizado nos versos de Camões, em "Os Lusíadas". O local onde Inês morreu se tornou uma atração turística, a  Quinta das Lágrimas (clique aqui para conhecer a história). 

"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano."
Trecho de "Os Lusíadas", Luís de Camões, que faz referência ao amor trágico de Inês e Pedro.

Igreja/Mosteiro de Santa Cruz, onde está a sepultura de D, Afonso Henriques.
Lá também está o túmulo de D. Afonso Henriques, o primeiro rei e fundador de Portugal, na Igreja/Mosteiro de Santa Cruz. D. Afonso é lembrado na história por ter sido o primeiro rei a unificar feudos e a forma um Estado Nacional. Para quem gosta de história e literatura, como eu, Coimbra é um prato cheio.

A cidade fica no centro de Portugal, cortada pelo Rio Mondego, a uma distância de duas horas de comboio (trem), tanto saindo do Porto quanto de Lisboa. A viagem é confortável e a paisagem muito bonita.

Logo que cheguei fui conferir o mercado de pulgas, imenso, que estava instalado no entorno do Mosteiro de Santa Clara-A-Velha, um dos pontos turísticos famosos de Coimbra. Em estilo gótico, ele foi fundando no final do século XIII (13 de Abril de 1283), o mosteiro foi refundado no século XIV (10 de Abril de 1314), por Isabel de Aragão, que desejava ser enterrada naquele local, quando morresse. 

Pela sua proximidade com o rio o local estava constantemente sujeito a inundações o que acabou fazendo com que fosse abandonado em 1677. Mais acima foi construído outro convento, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. Em 18 de abril de 2009, o local foi aberto para visitação pública.

Mercado de pulgas de Coimbra, com o Mosteiro Santa Clara-A-Velha ao fundo. Ao alto, à direita, está o Mosteiro de Santa Clara-Nova.
Eu realmente nunca tinha ido a um mercado de pulgas. Já havia visitado os  loppis, na Suécia, que são locais onde se vendem objetos usados e/ou antigos. Mas um mercado de pulgas, foi a primeira vez. Sei que eles existem em todo o mundo, atualmente, mas origem destas feiras é a França do século XIX. Foi uma experiência muito boa, tanto pelo que eu vi quanto pelo  fato de ter sido em Coimbra. Futuramente, quero visitar o mercado de pulgas de Paris. 

Dos vários locais para se visitar o que mais me interessava era a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo (fundada em 1290, ou seja, ainda no século XII), e considerada, também uma das melhores. Atualmente ela possui quase 25.000 estudantes, de todo mundo. Muitos brasileiros, por sinal. Aliás, pode-se usar pontos do ENEM para entrar na Universidade de Coimbra. 
Vista de uma parte da Universidade de Coimbra.
Eu já havia visitado o campus central, que fica na parte alta da cidade, e até sua famosa biblioteca. Mas não tinha ainda me aventurado pelo becos e ruas, que também fazem parte do complexo, com seus bares e suas repúblicas. Achei fascinante. São aqueles detalhes que a gente deixa passar, como desenhos e frases deixadas nas paredes e muros que possuem significados que podem variar ou não, de acordo com a forma que o receptor as interpreta.

Quadrinhos desenhados nos muros de uma república de estudantes.
Acima dos quadrinhos, uma referência ao fim da ditadura fascista de Salazar.


Mais uma referência ao fim da ditadura e a conquista da democracia.
Possivelmente devido ao ambiente político quase apocalíptico no qual estamos vivendo, eu senti uma energia muito forte ali, que crescia quando eu lia frases antifascistas, que estavam a toda parte. Hoje eu estava lendo um artigo que afirmava que hoje Portugal é um país com uma democracia consolidada. 

Mas os portugueses sofreram muito nas mãos do fascismo para poder hoje comemorar a democracia. Do nosso lado, demoramos muito para tentar construir uma democracia, mas creio que usamos material de baixa qualidade, visto que tenho visto pessoas comemorando seu fim. A coitada, mal teve condições de se consolidar numa nação que ainda guarda e cultiva no seu cerne a herança da escravidão.

Andar pelas ruas de Coimbra e, principalmente, na área da universidade, foi como sentido o vento na liberdade, o coração aquecido, principalmente quando eu passava a frente das repúblicas, nas quais os estudantes, de forma bem divertida penduram objetos usados nas janelas como se estivessem me dizendo: olha aqui, somos livres! 
Fachada de uma república de estudantes.

Janela de uma república de estudantes - destaque para o gatinho que descansa entre as grades.
Por fim, para coroar o passeio, Lameiras nos levou ao Penedo da Saudade, um lugar mágico que não havia aparecido nas minha buscas  na internet quando pesquisei sobre a  cidade. O Penedo da Saudade é um parque miradouro do qual se pode ter uma vista belíssima da cidade. Ele foi construído em 1849 e está ligado à Universidade de Coimbra e seus estudantes.

Até o século XVI o local era conhecido como "Pedra dos Ventos" mas mudou de nome  para se tornar uma referência à trágica história de amor de Inês de Castro. Segundo lenda, foi na Pedra dos Ventos que D. Pedro se refugiu para chorar a morte da amada, por isso o local recebeu posteriormente o nome de Penedo da Saudade. Eu não poderia descrever o local, as placas, sua história como algo no mínimo fantástico e tocante. 





E, para encerrar o dia, eu consegui finalmente assistir a um lindo show de fado, tomando um taça de vinho em um lindo restaurante/pastelaria, O Café Santa Cruz, anexo à Igreja de Santa Cruz. É a segunda vez que fui a Coimbra, mas foram realmente duas experiências completamente diferentes. Desta vez havia algo mais, havia toda aquela energia que a Universidade e tudo que ela significa me envolvendo com mais força.  




Eu diria que meus Coimbra este ano serviram para refazer minhas energias e reforçar minhas convicções. Mais do que turismo foi uma viagem de esclarecimento, na qual eu pude ter a certeza de que a bolha de crueldade na qual vivemos no Brasil ainda não chegou ao refúgios sagrados do conhecimento, como a Universidade de Coimbra.

Meus agradecimentos especiais ao amigo João Miguel Lameiras, por um dos mais proveitosos dias que eu tive nestas curtas férias na Europa.

Fontes consultadas:
Mosteiro Santa Clara Velha. Disponível em: <https://www.culturacentro.gov.pt/mosteiro-santa-clara-a-velha/o-mosteiro/>. Acesso em 23 jan. 2020.

Universidade de Coimbra. Disponível em: <http://www.uc.pt/>. Acesso em 23 jan. 2020.

Penedo da Saudade. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Penedo_da_Saudade>.  Acesso em 23 jan. 2020.

Prefeitura Municipal de Coimbra. Disponível em: <https://www.coimbra.mg.gov.br/>. Acesso em 23 jan. 2020.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

ASSISTI AO FILME "PARASITA" (기생충)


Minha primeira resenha será de um filme, "Parasita", que eu havia desistido de assistir, pois não passou nos cinemas próximos da minha cidade mas, por trama destino, estava sendo oferecido durante meu voo para Lisboa, dia 30 de dezembro de 2019.

Por que eu queria tanto assistir a este filme? 

Quem acompanhou o blog nos últimos meses logo vai pensar: - Ah ela está seguindo a "onda coreana"! Mas não é bem isso. 

Eu tenho assistido muitas séries coreanas e chinesas, mas filme, este é o primeiro. Sou basicamente analfabeta, no que diz respeito ao cinema coreano. E já percebi que há muita diferença entre o material produzido para televisão daquele produzido para o cinema. É como comparar um filme com uma novela. São produções com conceitos, objetivos e até públicos diferentes.

O que me fez querer assistir ao filme foram justamente as críticas que ele recebeu. tenho lido críticas positivas desde que "Parasita" fez sua estreia no Brasil. Aliás, esse "boca-a-boca" é apontado como um dos fatores que levaram o filme a ser um sucesso de bilheteria.

Mas vamos que interessa. "Parasita" (기생충) é um filme de suspense e humor negro sul-coreano, do diretor Bong Joon-ho, lançado de 2019.  Ele estreou no Festival de Cannes, em maio de 2019 e ganhou a Palma de Ouro, por unanimidade. Um prêmio inédito para o cinema coreano. O filme foi selecionado para representar a Coreia do sul na 92º edição do Oscar, em 2020, com grandes chances de ganhar na categoria de melhor filme estrangeiro.

Parasita, resumidamente, é um filme inteligente, com um roteiro amarrado que mostra o contraste entre riqueza e pobreza de um forma que, até então, eu nunca tinha visto. Conta a história de duas famílias, uma rica, os Park, e outra paupérrima, o Kim. Usando de subterfúgios, esta família pobre vai se infiltrando na casa da família rica (daí o nome do filme) tentando usufruir ao máximo do que essa aproximação possa lhes favorecer. É um filme que mostra o limite da miséria humana, quando para sobreviver uma família inteira trapaceia. 

O que começa como quase uma comédia, evolui para uma narrativa de suspense que coloca cada um dos personagens no limite da própria sanidade. Existe uma linha bem definida entre riqueza e pobreza e a discriminação surgem em gestos e palavras às vezes aleatórios. Um contraste entre o gueto, no qual vive a parte empobrecida da população sul coreana, e o reduzido grupo formado pelos ricos.

O filme fala do sonho de ascensão social, de fugir da miséria a todo custo e o preço a ser pago por isso. Apesar de ser a quarta maior potencia da Ásia, a Coréia do Sul tem uma elevada taxa de pobreza, principalmente entre os idosos segundo dados da OCDE – Organização das Nações para Cooperação e Desenvolvimento Econômico

Eu gostei da atuação dos atores, de modo geral, e eu conhecia um dos protagonistas, Woo Sik Choi, de uma série que eu gosto muito, chamada "O Pacote". Ele interpreta o filho mais velho dos Kim, o primeiro a se infiltrar na casa dos Park. Também gostei muito da atuação de Chang Hyae Ji.


"Parasita" é uma boa pedida, principalmente para conhecer um pouco mais outras produções, que não as hollywoodianas. Eu assisti por curiosidade e, apesar de ter expectativas, sabia que seria uma experiência diferente daquela que tenho com os k-dramas.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

AS 10 POSTAGENS MAIS VISITADAS DE 2019

Desde que eu comecei ao blog, há mais de 10 anos, tenho o ritual de listar as postagens mais visitadas do ano se encerrou. É uma forma de avaliar o que eu ando escrevendo e o que as pessoas andam lendo aqui no blog.

A cada ano percebo que meus interesse vão mudando de acordo com a  minha rotina. Há anos e que eu escrevi muito, por exemplo, sobre a questão patrimonial, tanto que acabei criando um blog só para isso que, tadinho, anda meio abandonado. Noutros anos escrevi muito sobre história local, quadrinhos franceses, suecos, ensino de história, enfim, coisas que naquele momento foram meu foco.

No ano de 2019, no que eu mais foquei? Em séries e filmes. Os textos que publiquei e que mais foram visitados foram justamente sobre resenhas de séries e filmes que eu assisti. Mas, vejam bem, eu os resenhei pelo seu valor narrativo, pelas suas potencialidades pedagógicas e pela relevância dos temas. Não foi algo aleatório ou simplesmente automático.

Claro, eu escrevi sobre outros assuntos, também. No ano e 2019 escrevi 100 páginas da minha tese e alguns artigos. Pequei, no entanto, no que diz respeito a temas relacionados a ensino de história, educação patrimonial e história local. Mas como eu disse logo no início, meu foco sempre muda. Vamos ver como será em 2020

Foi a postagem mais visitada e comentada de 2019, com mais de 8700 visualizações e 40 comentários. É a resenha de um dorama chinês, lançado em 2019 no Netiflix

TOP 02 - ASHES OF LOVE
Foi a primeira resenha que eu fiz de um dorama chinês. Olhando para trás, ele não é mais meu preferido, mas meio que me introduziu nessa fase de resenhar senhas E algo que me chamou atenção ao escrever esta postagem é que apesar de eu ter desenvolvido uma predileção maior por doramas sul-coreanos, foram os chineses que mais  resenhei.

TOP  03- GO GO SQUID
Outra resenha de série,  também chinesa, que fala sobre campeonatos de jogos eletrônicos. Ela me marcou porque eu gostei tanto que assisti cerca de 30 episódios com legenda em inglês sem paciência para esperar as legendas em português.

text que escrevi sobre memória e política a partir das impressões que eu tive do filme "Vingadores - Ultimato". Considero um dos meus textos mais inspirados.

Texto feminista assumido. Minhas impressões sinceras sobre o filme da Capitã Marvel que, do ponto de vista do emponderamento das mulheres, considero o melhor filme de superaventura.

Este texto eu fiz como um pequeno ensaio para uma pesquisa maior. Quero produzir para 2020 um artigo acadêmico sobre quadrinhos e doramas. Está no topo da minha lista, depois dos dois capítulos finais da minha tese, claro.

Texto especialmente produzido para comemorar os 60 anos da Supergirl, uma das minhas super-heroínas preferida0s. É um texto que fala das origens da personagem, no final dos anos de 1960. 

TOP 08 - VOCÊ CONHECE O PALMITO DE BANANEIRA?
Pois é, eu não sabia o que era, até um amigo me apresentar a essa iguaria. Foi tão interessante que eu resolvi fazer uma postagem, com direito a vídeo ensinando como extrair o palmito de bananeira.

Este foi um dos poucos textos sobre história local que eu produzi em 2019, lamentavelmente. Mas ficou entre os mais visitados, o que mostra que o tema e relevante, pelo menos entre os leitores da minha região.

Este texto é a resenha de um dorama sul-coreano que fala sobre a questão da beleza e de como ela e a ausência dela, podem deixar marcas dolorosas e algumas pessoas. Baseado em uma webtoon esse dorama é um dos meus preferidos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

DOCUMENTÁRIO COMEMORA OS 60 ANOS DA SUPERGIRL


Neste ano de 2019 tivemos dois aniversariantes ilustres completando mais uma década de existência: Batman, que fez seus tenros 80 anos e a Supergirl, que completou 60 anos. Dos dois, o mais festejado foi sem dúvida o Homem Morcego, que além de várias matérias em sites especializados e jornais ganhou exposições espetaculares como a exposição "Batman 80 anos" inaugurada em janeiro durante o Festival Internacional de Bande Dessinée  de Angoulême, na França, com a presença de Frank Miller.

Mas e a Supergirl? O que se fez ou se falou sobre ela durante o ano de 2019?

Sobre seus 60 anos ocorreram nos diversas manifestações nos Estados Unidos, como a programação especial da Supergirl Radio, criada há cinco anos e que, durante ao ano de 2019 se dedicou a comemorar o "Supergirl's 60th Anniversar",  cuja última transmissão, antes desta postagem, foi dia 20 de dezembro (clique aqui para conferir).

A super heroína também esteve presente, no Atlanta Comic Con, em julho, com um painel apresentado por Rebecca Johnson (clique aqui para conferir o conteúdo em PDF). Além disso, seus 60 anos foram registrados em diversos textos, artigos, artes e vídeos feitos por fãs publicadas ao longo do ano.


As comemorações foram, em grande parte, resultado da popularidade recente da personagem com a série Supergirl, que colocou Kara Zor-El em cena, não mais como uma coadjuvante das aventuras do Superman, mas como estrela de seu próprio show.



Aqui no blog, publiquei uma postagem especial com a história da personagem (clique aqui para conferir). Mas, se comparada às comemorações do dos 80 anos do Batman o aniversário da prima do Superman não teve grande impacto na mídia especializada, resumindo-se a alguns poucos artigos ao longo do ano.

No entanto, neste dezembro festivo tivemos o prazer de poder fechar 2019 com uma surpresa para fãs: um documentário produzido pelo canal Cult de Cultura, do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Arte Sequencial Mídia e Cultura Pop, sob coordenação de Iuri Andréas Reblin.

Dividido em duas partes, "A garota de Aço" e a "Garota do Amanhã", ele conta com a participação de diversos pesquisadores de cultura pop, como Iuri Andréas Reblin, Vanessa Camargo, Christian Gonzatti, Guilherme Miorando, Ruben Marcelino e esta que vos fala. O documentário faz uma análise histórica, sociológica e cultural da personagem e sua evolução, nos quadrinhos e nas telinhas ao longo dos seus 60 anos de existência. 


Confira os dois vídeos, logo a baixo, e conheça um pouco mais sobre esta personagem que, nos últimos anos, se tornou um dos símbolos de empoderamento feminino e de diversidade, no âmbito da Arte Sequencial. Se puder, deixe seus comentários aqui no blog ou diretamente no canal do Cult de Cultura, no youtube.


sábado, 14 de dezembro de 2019

O DEVER DE MEMÓRIA E O COMPROMISSO DA ESCOLA

Imagem capturada em: <https://jornalggn.com.br/opiniao/a-memoria-a-historia-e-o-esquecimento/>. Acesso em 14 dez. 2019.

Algumas das melhores reflexões que eu já fiz ocorreram em sala de aula, quando eu introduzia um tema ou respondia a um (a) aluno (a) sobre determinado assunto. Eis que durante a minha última aula do ano antes das provas finais, acabei debatendo com os alunos sobre o "dever de memória”.

O "dever de memória" é um fenômeno contemporâneo, que surgiu na França na década de 1980. Ele estava ligado originalmente aos debates relacionados à memória do holocausto judeu e tinha uma característica reivindicatória: era preciso punir aqueles que cometeram tais crimes contra a humanidade.

Simplificando, o "dever de memória", a busca pela justiça, mesmo que tardia. Foi incentivada a criação de arquivos, datas comemorativas, debates públicos, etc. Era preciso lembrar para não repetir o erro. Era preciso lembrar para que os algozes não ficassem impunes. Era preciso lembrar para que a justiça fosse feita, notadamente dentro da esfera do uso ético e político da memória e da própria história. 

O "dever de memória" bate de frente com o esquecimento. Memória e esquecimento caminham juntos, uma vez que toda comunidade escolhe aquilo que deseja recordar e, muitas vezes, trata-se de uma memória romantizada que nem sempre condiz com o fato ocorrido.

Muitos dos eventos que marcaram a vida de nações inteiras foram violentos e traumáticos. Por exemplo, o mito da fundação de Roma, contado de forma romantizada, nada mais é do que uma história marcada pelo fratricídio. Guerras, revoluções, golpes são eventos potencialmente violentos. Mas a memória coletiva festeja os vencedores, lamenta pelos seus mortos e busca esquecer o trauma. Para que pensar no que já passou, não é mesmo?

Esquecer é mais fácil do que reparar, até porque isso demandaria um esforço de reconhecimento do fato e, junto com isso, a tomada de consciência, normalmente dolorosa. Reconhecer o erro gera a necessidade de se responsabilizar por ele, e isso é assustador. Por isso se recorre ao esquecimento.

A negação do passado  no presente é uma forma de esquecimento. E foi sobre isso que nós discutimos em sala de aula. O Brasil nunca precisou tanto reivindicar o dever de memória. Vivemos um momento de negação, de ameaça revisionista da nossa memória e da nossa história. 

A escravidão, acreditem, há quem negue veementemente que ela tenha realmente existido no Brasil. O racismo, realidade no nosso país há séculos, é dado como inexistente. Os direitos dos povos indígenas, que passam por um novo genocídio, vêm sendo arrancados à força de armas e do sacrifício de muitos que se levantam para defendê-los. O Brasil se tornou o país da negação. Nega-se a pobreza, nega-se a violência, nega-se o bom senso.

É preciso apropriarmo-nos do dever de memória para tentar salvar a memória coletiva e a história de uma violação completa dos seus sentidos. É preciso exigir justiça aos que foram escravizados, mutilados, torturados, mortos ao longo da nossa história por simplesmente defenderem seu direito à liberdade, à felicidade e a uma vida digna, o que deveria ser dever do Estado.

Pouco mais de 20 minutos de uma aula, numa turma da educação básica, e eu aprendi tanto, refleti sobre tanta coisa que nem me sentia a professora, mas uma aluna que estava ali com meus mestres, ainda adolescentes. Isso talvez seja o que nos motiva, aos professores, em tempos tão sombrios: o potencial da juventude de poder enxergar com os próprios olhos e falar com sua própria boca. 

Acredito que seja um dos compromissos da escola garantir que os jovens questionem. Que eles possam debater com professores  e entre si. Que eles entendam que são cidadãos ativos e que o "dever de memória" é o que lhes pode garantir o direito de encarar o futuro com responsabilidade. Essa responsabilidade que tanto tem faltado aos adultos, parece florescer em jovens como Greta Thunberg e tantos outros, anônimos, que não têm medo de se expressar e que sonham com um futuro melhor não apenas para si mesmos, mas para todo o planeta.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

CHEESE IN THE TRAP (치즈인더트): DE WEBTOON A DORAMA

Cartaz com os personagens da série - protagonistas e coadjuvantes. 

Ontem uma pessoa postou um comentário na resenha que eu fiz de "Nosso lugar secreto" pedindo outras resenhas de doramas que saíram no Netflix.  Entre as séries sugeridas estava uma que eu pretendo utilizar no futuro, em um artigo que quero escrever sobre adaptações de quadrinhos para doramas. Assim, não vejo porque não começar desde já. Não pretendo fazer uma descrição minuciosa nem dar spoilers, para não atrapalhar quem ainda não viu. Mas se isso acontecer, mesmo eu tendo todo o cuidado, peço antecipadamente desculpas.

O k-drama em questão chama-se Cheese in the Trap  (치즈인더트), "Queijo na ratoeira", lançado em  2016, estreado por  Park Hae-jin (como Yoo Jung), Kim Go-eun (como Hong Seol), Seo Kang-joon (como Baek In-ho). 
 
Personagens da webtoon e suas contrapartes na série de 2016.

Ele foi adaptado de uma webtoon (história em quadrinhos) de mesmo nome, produzida pela mangaká sul-coreana Soon kki e publicada online entre 2010 e 2016, com versões impressas a partir de 2012. Para quem tiver curiosidade, a webtoon está disponível para leitura (traduzida para o português, aqui!). Este k-drama se apropria da linguagem dos quadrinhos por meio de efeitos de imagem que valorizam a narrativa em seu todo.

Resumidamente, a trama envolve um triangulo amoroso do tipo clássico: João gosta de Maria que gosta de José. Clichê, né? Fórmula que vende fácil, com uma dose de tensão e conflito entre casais. Mas, veja bem, a série gira em torno das relações desses três personagens, mas ela se diferencia por explorar o lado sombrio deles. E essa é a sacada genial de Cheese in the Trap, que transita entre o romance e o suspense. 

Cheese in the Trap mostra o que há de pior e de melhor no se humano e como as relações entre as pessoas podem ser problemáticas, beirando quase à loucura. Mas também fala sobre redenção, aceitação, de tolerância e de como pode ser difícil perdoar e abandonar maus hábitos. É um k-drama intenso que deve ser assistido aos poucos, um episódio ou dois por dia.
 
Webtoon - em estilo mangá.


Como eu disse, a série expõe o que há de obscuro na alma humana. O protagonista e figura chave é Yoo Jung, uma pessoa que esconde uma personalidade tóxica. Durante a série a gente se pergunta: Yoo Jung é um psicopata? Olha, até agora estou na dúvida se ele é ou não. Rico e sofisticado, Yoo Jung entra na vida da simples e esforçada estudante Hong Seol que não é fácil.  De uma família humilde, a moça luta todos os dias para se manter na faculdade, trabalha e se dedica ao máximo aos estudos. 

O terceiro elemento introduzido na história é Baek In-ho, um desafeto de Yoo Jung, ex-membro de uma gangue, órfão e revoltada com uma série e acontecimentos do passado que mudaram sua vida e o levaram a se envolver com a marginalidade.  Baek In-ho tem uma irmã completamente pirada que vai lhe causar muitos problemas ao longo da história.

As séries sul-coreanas, via de regra, não possuem segundas temporadas. Mas no caso de Cheese in the Trap, bem que merecia, uma vez que o final deixa uma grande interrogação. Eu, particularmente, entendi que o diretor jogou para o público o conclusão final da trama. É irritante? Muito! Mas por outro lado é instigante porque quebra justamente aqueles tais clichês dos quais a gente reclama.

Eu particularmente gosto de filmes e séries que deixam uma pulga atrás da orelha quando terminam. Ela fazem a gente largar de lado aquela preguiça mental característica que de quem assiste filmes, séries e novelas. Faz o receptor pensar e dialogar com a narrativa. É claro que para isso a narrativa tem que ser bem amarrada, não pode ser apenas interrompida.
 
Adaptação para o cinema - 2018
Qual o final de Cheese in the Trap? É este mesmo que você pensou. Se outra pessoa chegou a uma conclusão diferente não significa que ela esteja errada. Que tal sentar e discutir sobre isso?

Por fim, Cheese in the Trap também foi adaptado para filme, lançado em 2018, com algumas mudanças no elenco original. Ainda não assisti, mas as avaliações foram boas. Webtoon, série e filme. Se você têm dúvidas sobre se deve assistir ou não Cheese in the Trap, pense bem: se a série não tivesse algum mérito não teria tido tantas adaptações.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O PACOTE ( 더 패키지): CONHECENDO A FRANÇA E ENTENDENDO A SOCIEDADE SUL COREANA


O Pacote (Deo Paekiji // 더 패키지), é um dorama coreano (K-drama), de 2017, dirigido por  Jeon Chang-geun e Kim Jin-won e cujo roteiro é de Chun Sung-il (que inclusive faz um ponta na série, como o dono de uma agência de viagem), com doze capítulos.

É uma serie que explora o microcosmos de relações familiares e afetivas de um grupo de turistas que partem para uma viagem de 10 dias à França. A narrativa se constrói a partir da história de  Yoon So So (interpretada pela Lee Yeon Hee), que é uma guia turística coreana que vive sozinha na França, longe da família e que se apaixona por um dos turistas do grupo que está guiando, San Ma Roo (interpretado pelo cantor e ator Jung Yong Hwa). 

É uma história de amor? Sim! Mas que tipo de amor? Do amor entre pai e filha, entre namorados que estão juntos há muitos anos, entre marido e esposa já idosos que enfrentam a possibilidade de embarcar numa vida de solidão. Mas é, acima de tudo, uma série que foge de muitos clichês que caracterizam as comédias românticas sul coreanas. É uma história sensível que explora os dramas do dia a dia de um pequeno grupo de oito pessoas, cada um enfrentando seus próprios desafios. Divertida e, ao mesmo tempo, tocante.

A série é superior a muitas outras do gênero, em muitos aspectos. Uma das coisas que me chamou a atenção foi o cuidado com a fotografia. As locações foram muito bem escolhidas e a edição ficou perfeita (pelo menos eu não encontrei nada que me desagradasse ou chamasse atenção de forma negativa). E a lista de pontos positivos não para aqui. Vamos por partes.

Os atores são muito bons, destaque para os veteranos  Lee Ji Hyun  (como Han Book Ja) e Jeong Gyu Su (como Oh Gab Soo) que dão um show de interpretação. Se na maior parte dos dramas a gente se foca no casal romântico, eu fiquei encantada com o casal de anciãos que dá, ao mesmo tempo, um toque de humor e desperta a empatia.
Lee Ji Hyun e Jeong Gyu Su em uma cena em Paris.

O roteiro é o ponto alto. Sério, durante todos os doze capítulos eu me indagava: que roteiro fantástico! Tanto que a primeira coisa que fiz foi pesquisar justamente o roteirista Chun Sung-il, que descobri é praticamente um veterano da industria cinematográfica coreana, atuando como ator, diretor e roteirista. Até quis saber mais sobre ele, mas não encontrei um site oficial, apenas uma lista dos filmes nos quais atuou, dirigiu e escreveu o roteiro. Tipo da pessoa que eu admiro, que se destaca pelo talento e não (apenas) pela aparência (pelo menos essa é minha impressão, como consumidora do trabalho dele). 

Eu sempre leio resenhas de séries famosas coreanas antes de assistir ou depois que eu assisto, se gostar muito, para comparar impressões. Eles sempre se focam na beleza dos protonistas ou na química entre eles. Mas no caso de "O Pacote", mais do que isso está a beleza da história, em si. 

Um ponto do roteiro que me chamou a atenção á a forma como ele introduz a histórias de cada personagem ao longo da narrativa, com flashs do passado e situações do presente. É interessante como, a partir de certo ponto, o romance dos protagonistas vai dividindo espaço com os dramas pessoais de cada personagem sem que isso oferece o ritmo da narrativa. E não tire conclusões precipitadas: muita coisa não é o que parece. 

Além disso, há ainda uma boa quantidade de referências diretas a clássicos do cinema francês e a muitos pintores, como Van Gogh e alguns impressionistas, dando um tom de erudição ao texto. Do início ao fim, "O Pacote" convida o expectador a conhecer mais sobre a história, a cultura e o patrimônio da França.

 Você já foi à França? Eu já fui, quatro vezes, e juro que tive a sensação de que eu nunca tinha ido. O filme deixa dicas fabulosas de turismo. É uma mistura perfeita de k-drama com documentário. Difícil descrever. Eu poderia montar um roteiro de viagem a partir desta série, sem risco de me arrepender.
Uma das locações da série - Mont Saint Michel (França).
Outra coisa que gostei muito foi do fato da série questionar o tempo todo os tabus sociais da Coréia do Sul, desde a questão à repressão sexual às formas de tratamento entre coreanos. A protagonista, num determinado momento diz que o que mais a assunta na Coréia do Sul são os coreanos, pela sua visão limitada de mundo e sua falta de empatia. 

O irmão de So So, que a reencontra depois de muitos anos, diz aos seus pais que ela se "tornou uma francesa". Uma referência ao fato de que ela não possuí mais a formalidade característica dos orientais.  Em fala-se isso abertamente. Em muitos momentos, critica-se o machismo, como na hora que o senhor idoso diz que viveu como um tolo pois apenas reproduzia os comportamentos que achava que eram corretos e reprimia seus sentimento.

Afinal, é uma comédia romântica? Sim! E há cenas em que o expectador vai rolar de rir. O romance está na dose certa não sendo açucarado demais e, o desfecho, tem tudo a ver com a personalidade da protagonista. 

E aí, quando eu achei que nada mais poderia me impressionar, So So, a guia turística, fala sobre o "dever de memória", um conceito que surgiu na França. Aos pés do arco do triunfo ela explica como os franceses valorizam a memória. Eles não querem se esquecer e por isso valorizam a história. Perfeito, não?

Eu poderia gastar páginas falando dos pormenores da série e de cada um dos personagens, mas não vem ao caso. Até porque isso já foi feito em outras postagens. Mas não posso deixar de elogiar o roteiro, a fotografia e, claro, a direção que, para mim, foram os grandes protagonistas deste K-drama.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

I ENCONTRO HISTÓRIA, IMPRENSA, CULTURA E FAMÍLIA



No dia 09 de novembro, das 9 horas da manhã, até as 17 horas, estará ocorrendo no Centro Cultural Mauro Almeida Pereira o  "I Encontro História, Imprensa, Cultura e Família", no Centro Cultural Mauro de Almeida, em Leopoldina (MG). O evento é uma iniciativa do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), Niterói (RJ) em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de Leopoldina. Participarão do encontro alunos e professores do mestrado e doutorado e convidados. 

Serão realizadas apresentações de pesquisas cujos temas estão relacionados à História da Imprensa (jornais e revistas) e à História Cultural e Regional. O encontro é aberto à comunidade e os participantes receberão certificado emitido pela UNIVERSO. Não há necessidade de inscrição prévia. O evento é gratuito.

Confira a programação.

Apresentações – 09h às 12h
Mesa I – Imprensa e Cultura
  • João Filipe Domingues Brasil - "Os índios "Chanás" na obra "El Paraguay Católico" de Sanchez Labrador"
  • Arthur da Costa Orlando – “Informações acerca das dinâmicas espaciais de São Paulo do Muriahé entre os anos de 1888 a 1910 a partir da utilização da imprensa muriaeense”
  • Nicolas Theodoridis - "O Espiritismo na Imprensa entre 1870 a 1889" 
  • Natania Nogueira –“A Guerra Fria em charges,  Gazeta de Leopoldina (1951)”
  • Bárbara Schettini - "A contracultura entrelinhas: as fanzines como representação do punk juizforano"
  • Juliana Moura Martins da Fonseca - "O jornalista José Saramago: os editoriais do Diário de Notícias (1974-1975)”
Apresentações – 14h às 17h

Mesa II – Imprensa e Família
  • Gisele Nascimento - “A família estava nos anúncios do Leopoldinense”
  • Natalia Ferreira –“Folhas Malditas: práticas de violência contra mulher na imprensa mineira”
  • Silvana Santos – “Impressões do silêncio: o dito e o não dito nos periódicos capixabas sobre as meninas escravizadas (1869-1891)”
  • Randolpho Radsack Correa – “Justiça, Conflitos Sociais e o papel da Imprensa em Santa Luzia do Carangola (1873-1892)”
  • Igor Nogueira Lacerda – “Da suspeição à liberação: o perfil dos impedimentos de consanguinidade no enlance matrimonial de São João Baptista do Presídio (1839 - 1845)”
  • Beatriz Simão Gontijo Silva – “Batismos, casamentos e a dinâmica social entre escravizados e livres em São Paulo do Muriaé 1852-1888”.
Atualização:
Veja algumas fotos do encontro