terça-feira, 4 de setembro de 2018

O MAIOR PROBLEMA - 85 ANOS DE DESCASO COM A EDUCAÇÃO E A CULTURA

Imagem capturada em: http://movasaomateuspdluizsutter.blogspot.com/2011/05/analfabetismo-funcional-uma-triste.html
Eu tinha por hábito vasculhar as páginas dos jornais locais em busca de notícias interessantes que eu reproduzia e/ou comentava em meu blog. Nada muito pretensioso ou com intenção de promover algum profundo debate historiográfico. Era mais pelo desejo de buscar no passado alguns fragmentos da história local de Leopoldina que fossem interessantes e que ajudassem a contar alguma história ou mesmo a refletir sobre algum tema do presente. 

Hoje, motivada pelos acontecimentos do fim de semana (o incêndio do nosso Museu Nacional da Quinta da Boa Vista) eu me senti compelida a retomar a este velho hábito e li alguns exemplares da Gazeta de Leopoldina[1], disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A princípio, era meu desejo procurar algo sobre as comemorações da Independência do Brasil, mas o destino quis que eu me deparasse com uma matéria cujo título me chamou atenção: "O maior problema".

Trata-se de uma coluna, sem autoria declarada, que fala sobre a questão da educação  no Brasil, há 85 anos atrás. Um texto tão atual que eu preferi reproduzi-lo aqui na íntegra antes de inferir minhas criticas acerca do seu conteúdo.


O MAIOR PROBLEMA

Rio, (UBI) - Em todos os grandes países do mundo, o problema da instrução apresenta-se à frente de todos os outros, despertando o maior carinho por parte dos governos. 

Entre nós, apesar do seu indiscutível incremento, nestes últimos anos, ele vive ainda numa espécie de abandono criminoso, relegado à categoria mais ínfima.

No entanto, poderíamos exibir estatísticas interessantes, provando, por exemplo, o que se faz na Itália, na Inglaterra, França e Alemanha, principalmente nestes dois últimos países, pela instrução pública.

É conhecido o pensamento sobre o assunto, do velho Bisrmarck[2].

A alfabetização de um povo está ligada à sua independência. Não se pode sem cultura ocupar nenhum lugar significativo na civilização.

O Brasil, vivendo agora o período de sua adolescência, devia voltar-se todo para a solução desse problema, que é o mais grave que se nos defrontamos.

As estatísticas apresentam um coeficiente triste de crianças que, em idade escolar, deixam de receber instrução, porque não podem frequentar as escolas.

Isso é quase um crime.

O analfabetismo tem feito um número espantoso de vítimas no Brasil.

Quantas inteligências à ignorância desvia para as diversas modalidades do crime!

A instrução corrige, aperfeiçoa, regenera.

É o melhor meio de se conduzir o homem ao caminho do bem, diz um professor americano.

Nestes últimos anos temos feito alguma coisa pela instrução, mas, na realidade, muito pouco, comparado com o que, com esforço, poderemos fazer pela alfabetização do povo brasileiro. 

Gazeta da Leopoldina. Leopoldina, 22 de outubro de 1933, n. 151. p. 02.


O texto, escrito há 85 anos, durante o período do governo provisório de Getúlio Vargas, externa a preocupação com a alfabetização da população, que não tinha acesso à escola pública. Notem o trecho em que o autor do texto afirma “Não se pode sem cultura ocupar nenhum lugar significativo na civilização”. 

Sem cultura, segundo o autor, estavamos nos afastando da civilização e permanecendo, desta forma, num estado de barbárie. Quase um século depois ainda estamos perdidos em um mar de ignorância. O autor do texto também frisa a importância da educação para afastar o indivíduo da criminalidade e criminaliza o governo que não investe na educação. 


Certamente haverá quem diga que hoje o número de analfabetos é muito reduzido e que a escola pública está ao alcance de todos. Será mesmo?

Segundo Carlos Delabo Rebouças (2017)[3], em um artigo publicado no site “Comunidade ADM”, o Brasil hoje sofre com outro tipo de analfabetismo, o funcional. Cerca de 90% dos brasileiros não sabem ler e escrever com qualidade, são incapazes de compreender textos simples, e muitas vezes se consideram capacitados simplesmente por portarem um diploma, seja ele da educação básica ou superior. 


Em uma reportagem mais recente, de Lorena Costa, para a Gazeta do povo, publicada em 17 de julho de 2018, a autora afirma que "Apenas 8% da população brasileira entre 15 e 64 anos é plenamente capaz de entender e se expressar corretamente. Já o restante apresenta dificuldades, em graus diferentes, de entender e elaborar diversos tipos de texto, interpretar tabelas e gráficos e resolver problemas lógicos e matemáticos".[4] Junte a isso o número de analfabetos (não possuem nenhuma habilidade de leitura e escrita) que era de 7%, cerca de 11,46 milhões em 2017, segundo o IBGE[5].


Um grande número de pessoas possuem uma grande dificuldade em entender o que leem, o que explica manifestações de demonização de livros e de textos publicados em revistas e jornais. A ignorância a respeito do que se lê conduz ao preconceito e à incapacidade de entender as mudanças que a sociedade vem sofrendo ao longo dos anos. Leva pessoas a desconsiderarem o trabalho de autores renomados como Paulo Freire, filósofo da educação cuja a teoria e obra são estudadas em vários países.


Retornando ao texto publicado pela Gazeta de Leopoldina, em 1933, percebemos que ele em nenhum momento fala do ensino privado, mas do público. Investimento no ensino público como uma forma de desenvolver o país e seu povo, a exemplo do que já na época acontecia em outras regiões, notadamente da Europa. O autor anônimo do texto jornalístico de 1933 concorda com os analistas da atualidade quanto à solução para o problema: investimento em políticas públicas voltadas para a melhoria da educação.


Eu, particularmente, sou contra dizer que a situação do ensino atualmente é culpa de um ou outro governo. O texto transcrito acima é da década de 1930 e reproduz, a parte alguns anacronismo, nossa realidade, em pleno século XXI. A República, em sua totalidade nunca investiu de forma continuada na melhoria da educação e na valorização da cultura no Brasil. Tivemos ações que melhoraram de alguma forma o acesso à escola mas não necessariamente a qualidade do ensino.


Pecamos principalmente na formação de professores. Criamos um sistema de distribuição de diplomas que se traduz em números vazios. Temos muitos professores diplomados, mas a maioria não possuí o preparo mínimo para a atuar na sala de aula. Além disso, convivemos com a triste realidade da perseguição aos professores, muitas vezes reféns de discursos conservadores que desejam limitar suas ações em sala de aula, tirando deles o direito constitucional à liberdade de expressão.


E se durante estes 85 anos nós tivemos conquistas, e não há como negá-las, mas elas vivem em constante ameaça num país onde boa parcela da classe política acredita que investimento em cultura, pesquisa e educação são supérfluas. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55, por exemplo, impõe um teto aos gastos públicos, e barra qualquer possibilidade de investimento na área da educação por duas décadas. 

Enquanto ainda me permitem ter e externar minha opinião, eu acredito que a PEC 55 deveria prever 20 anos de investimento intenso na educação, e não o contrário.

As medidas de austeridade que vêm sido tomadas nos últimos anos estão levando as universidades públicas ao sucateamento ainda mais acelerado. Os centros de pesquisa estão sendo abandonados, museus e centros culturais relegados à própria sorte, bolsas de iniciação científica, que a muito custo foram conquistadas, estão sendo canceladas e há uma forte corrente conservadora a favor a privatização do ensino e da criminalização da ação dos educadores, acusados de doutrinação ideológica por uma ala extremista de direita.

Recuando no passado, percebemos que há muito mais permanências do que mudanças. Que as conquistas que tivermos estão sob constante ameaça e que só existe uma forma de superar a os problemas que o país vive: investindo na educação de qualidade, começando pela formação de professores e tornando a carreira do magistério atraente aos jovens talentosos.  Bons professores se traduzem em boas aulas, numa escola mais dinâmica e capaz de atender às necessidades da nossa sociedade. 




[1] Para esclarecimento do leitor,  A Gazeta de Leopoldina foi uma periódico fundado no final do século XIX pela família Ribeiro Junqueira, oligarquia que por décadas dominou o município e regiões próximas, e seu posicionamento político era conservador e de direita.
[2] Primeiro ministro da Prússia, responsável pelo projeto e efetivação da unificação alemã, foi um grande incentivador do ensino e da pesquisa científica na Alemanha do final do século XIX.
[3] REBOUÇAS, Carlos Delano. Analfabetismo funcional no Brasil. Comunidade ADM. Disponível em: http://www.administradores.com.br/artigos/academico/analfabetismo-funcional-no-brasil/103313/. Acesso em: 04 set. 2018.
[4] COSTA, Lorena. Analfabetismo funcional é resultado de ausência de políticas públicas. Gazeta do Povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/analfabetismo-funcional-e-resultado-de-ausencia-de-politicas-publicas-cfawiypv9sm9alpw4xevbuj0u/.Acesso em: 04 set. 2018.
[5] BOAS, Bruno Villas. Analfabetismo cai no Brasil, mas 11,5 milhões não sabem ler, diz IBGE. Valor Econômico. Disponível em: https://www.valor.com.br/brasil/5533911/analfabetismo-cai-no-brasil-mas-115-milhoes-nao-sabem-ler-diz-ibge . Acesso em: 04 set. 2018.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE AS 5ªS JORNADAS INTERNACIONAIS DE QUADRINHOS DA USP

Meu crachá!
Em pouco menos de um mês eu participei de dois encontros acadêmicos sobre quadrinhos. Foi uma verdadeira maratona, ainda mais no início do doutorado. Primeiro porque existe toda aquela logística de escrever o artigo, preparar a apresentação, deixar as coisas mais ou menos encaminhadas no trabalho para poder me ausentar. Mudou toda a minha rotina e isso vem com um custo, que devo quitar nos fins de semana e feriados, só para constar. Do primeiro evento eu já falei em postagem anterior (clique aqui para conferir), para o segundo vou dedicar esta postagem. 

Entre os dias 22 e 24 de agosto eu participei das 5ªs Jornadas Internacionais de Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da USP. Três dias, muitas opções e relaticamente pouco tempo. Por isso eu fiz  questão de não perder nem um minuto e aproveitar a oportunidade de conhecer o trabalho de outros pesquisadores, de interagir e criar parcerias. 
Mesa de abertura (da esquerda para a direita) com Nobu Chinen, Waldomiro Vergueiro, Roberto Elisio dos Santos, Paulo Ramos e Sônia Bibe Luyten.

Já na chegada, para a minha felicidade,  encontrei vários colegas. É estranho estar em São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, com população equivalente à de muitos países europeus, e esbarrar com conhecidos no metrô. E mesmo na USP, eram tantas pessoas que compartilhavam dos mesmos interesses que a sensação é de estar num microcosmos acadêmico.

É, claro, um encontro muito maior do que aqueles que realizamos anualmente pela ASPAS. Se não me falha a memória, tivemos a inscrição de 38 comunicações de pesquisa este ano no IV FNPAS, um número muito bom dentro do que o encontro se propõe e a participação de cerca de 65 pessoas. Nas Jornadas foram inscritos e aprovados 264 trabalhos para 2018. E este não é número redondo. Muitos trabalhos possuem coautoria, portanto, o número de participantes é muito maior. 
Com os amigos/pesquisadores Maiara Alvim e Rubem Marcelino
Coloquemos, então, que estavam reunidos lá mais de 300 pesquisadores, de diversas áreas, para falar sobre quadrinhos. É muito mais do que eu poderia um dia sonhar que encontraria em um evento acadêmico. A convidada estrangeira, Barbara Postema, pesquisadora da Universidade Massey, Nova Zelândia, chegou a afirmar na conferência de abertura que se considerava as Jornadas o maior evento voltado à pesquisa sobre quadrinhos do qual ela já teve a oportunidade de participar. 

Os trabalhos se concentraram no segundo andar do prédio da Escola de Comunicação e Artes (ECA) e se dividiram em sessões de comunicação em dois blocos, com uma média de 3 a 5 apresentações cada. Os trabalhos iniciavam-se às 14:00 e se encerravam às 17:30. O início da noite ficava reservado às conferência, uma para cada dia.
Noite de lançamento de livros: eu estou ali no fundo, ao lado de Iuri Reblin.
Na quinta-feira, dia 23 de agosto aconteceu o lançamento de livros, onde eu e Iuri Reblin lançamos dois livros pela ASPAS. São coletâneas de artigos, referentes a pesquisas apresentadas durante o encontro da ASPAS em Leopoldina, em 2015. Para nossa alegria, as publicações foram muito bem recebidas e uma delas chegou a esgotar já no segundo dia.

Eu assisti uma média de seis comunicações por dia, não era possível assistir a todas, dado o grande número de trabalhos inscritos. E aí eu me identifico com as palavras do professor Waldomiro Vergueiro, um dos organizadores, que em uma postagem no facebook comentou que a coisa que mais lhe frustou foi justamente não ter conseguido conversar com todos, assistir a todos que estavam apresentando. Eu, como mera participante senti o mesmo. 

Um pedacinho a turma reunida!
De fato, foram tantos os estímulos, tantas pessoas com quem eu queria conversar e outras tantas que queriam conversar comigo, que ficou a sensação de que foi pouco tempo para muita coisa. Mas não acho que isso deva ser visto como algo negativo, muito pelo contrário. Significa que o evento foi um sucesso. 

E para além do capital cultural que se adquire nestes eventos, a possibilidade de reforçar laços de amizade, fazer novos contatos e confraternizar com colegas permite não apenas o amadurecimento profissional como o pessoal. Enfim, eu fui feliz em poder estar num ambiente acolhedor, criativo e democrático, onde havia espaço para que todo tipo de pesquisa, nas mais diversas áreas do conhecimento, encontrasse seus interlocutores.


Enquanto isso...
Na hamburgueria "Taverna Medieval", com Amaro Braga e Nildo Viana.
As Jornadas não se resumem apenas a trabalho. Eu tive ótimos momentos com os amigos fora da USP. Vou falar rapidinho deles aqui. 

Na quinta-feira, após o lançamento de livro, fomos todos para a Taverna Medieval, uma hamburgueria localizada em Vila Clementino, cuja decoração é inspirada na idade média, com capacetes, espadas, bebidas servidas em frascos de porção mágica e toda aquela atmosfera bem característica de filmes medievais. Foi muito divertido, levamos até a convidada estrangeira, Barbara Postema, que parece ter se divertido bastante.
Detalhe da decoração
do "Leôncio"

No dia 24 de agosto, sexta-feira, passei uma manhã agradável, antes de ir para a USP, com Conceição Azevedo, da Editora Peirópolis. Conceição tem sido nossa parceira já a algum tempo, enviando para nossas gibitecas quadrinhos produzidos pela Peirópolis e brindes para os encontros da ASPAS. Eu ainda não a havia encontrado pessoalmente e fiquei encantada com o convite para conhecer a editora. Um lugar muito agradável e aconchegante, em Vila Madalena. Ela me convidou para almoçar em um restaurante muito acolhedor, o Leôncio, onde eu comi uma deliciosa carne argentina. A conversa agradável serviu para me deixar mais relaxada antes da minha apresentação, que seria naquele dia.
Com minhas tias Marli e Eni no Mercado Municipal de São Paulo.
A noite eu fiz um programa de família, com meu afilhado, sua esposa e filha. Eles me levaram a um restaurante japonês, em São Bernardo, chamado Nakoo Shushi. Eu adoro comida japonesa, e aquele restaurante é fora de série. A melhor comida japonesa que eu já experimentei. E, por fim, passei uma tarde agradável, no sábado, com minhas tias, antes de retornar a noite para Leopoldina. Fomos ao Mercado Municipal de São Paulo. Fiz um turismo culinário bem ao estilo do amigo Amaro Braga. 

domingo, 26 de agosto de 2018

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE O IV FNPAS

Este ano foi realizado, entre os dias 25 e 27 de julho, o IV Fórum Nacional e Pesquisadores em Arte Sequencial (FNPAS), no Instituto Federal Fluminense, de Macaé (RJ). O evento teve como coordenador o fanzineiro e pesquisador da ASPAS (Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial), Alberto de Souza, que possuí uma projeto de fanzinoteca no IFF Macaé. O tema do encontro foi “Quadrinhos e diversidade”.

A escolha do local respeitou a principal diretriz do FNPAS, que é a de evitar grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, que já sediam anualmente encontros acadêmicos sobre quadrinhos. A ideia é levar a pesquisa e os debates sobre quadrinhos para a periferia. Tanto que, em 2012, o primeiro encontro ocorreu em Leopoldina (MG), em 2014, em São Leopoldo (RS); em 2016, em Goiânia (GO).  Daí, a proposta de se fazer o encontro de 2018 no Instituto Federal Fluminense, na cidade de Macaé, no interior do Estado do Rio de Janeiro, foi muito bem-vinda e rendeu um dos mais proveitos encontros acadêmicos realizados pela ASPAS.
Estudantes e professores do IFF Macaé assistindo à Palestra do abertura, realizada por Valéria Fernandes
 E foi um encontro especial, pois resgatou a memória do FNPAS ao ser realizado em uma escola técnica. Foi muito agradável e recompensador poder estar entre alunos  e professores do ensino médio. Eles não apenas participaram de palestras, oficinas e comunicações, como também protagonizaram exposições e apresentações culturais. E falando de exposição, os alunos do IFF Macaé, juntamente com os professores de língua portuguesa, prepararam um exposição de quadrinhos que deixou muita gente de queixo caído. 

Exposição de quadrinhos dos alunos do IFF Macaé
É importante, especialmente nos dias de hoje, que os jovens tenham contato com o meio acadêmico de forma a desmistificá-lo. Do mesmo modo, os pesquisadores precisam ser lembrados da sua função social que é justamente possibilitar o acesso ao conhecimento, por professores e alunos da educação básica.

Portanto, eu gostaria de colocar como ponto alto desta quarta edição do IV FNPAS justamente a participação de estudantes do ensino médio e tecnológico do IFF, dos professores e dos funcionários técnico-administrativos, que se desdobraram para que os trabalhos pudessem transcorrer da melhor forma possível e se tornaram nossos parceiros no evento.


Lançamento de livros e Fanzines durante o IV FNPAS
Um evento acadêmico onde se podia assistir um debate intenso entre uma estudante do ensino médio com um doutor, dono de uma cadeira universitária. Onde jovens pesquisadores apresentavam suas experiências em sessões de comunicação que surpreenderam pela originalidade de muitos dos trabalhos. Um ambiente intimista, bem característico dos encontros da ASPAS, contagiado pela dinâmica da rotina escolar.

É claro, eu tive meus momentos preferidos. Poderia falar sobre os trabalhos que eu mais gostei ou sobre como foi importante para a ASPAS o lançamento de dois novos livros este ano. Mas achei por bem não ser tão específica. 

Sessão de comunicação, durante o IV FNPAS.
Prefiro falar do que senti a partir do que vi. Eu senti um novo ânimo para continuar meu trabalho com pesquisa e uma necessidade maior de contribuir mais ainda com a formação escolar dos meus alunos. Foi gratificante ver tantas caras novas este ano e poder reencontrar velhos camaradas, que estão junto conosco desde o primeiro FNPAS.

Eu senti que, apesar de tudo que vem acontecendo no nosso país nos últimos anos, a ASPAS se fortaleceu não apenas como grupo, como associação, mas como espaço de resistência acadêmica e cultural, onde ainda podemos debater de forma democrática, deixar de fora as vaidades e mostrar que tudo pode ser convertido em conhecimento legítimo, desde que feito com seriedade. E é isso que a ASPAS faz.

Oficina com Edgar Franco e Danielle Barros na Fanzinoteca do IFF para a comunidade escolar.
Aproveitando, gostaria de agradecer a recepção que recebemos do diretor do IFF Macaé Netto Severino e o apoio da editora Peirópolis, que todos os anos nos envia brindes para serem distribuídos para os participantes. Agradeço especialmente a Alberto que nos convidou para sediar o IV FNPAS no IFF Macaé.

Foram publicados outros relatos mais objetivos do que o meu, como o da pesquisadora Valéria Fernandes, no blog Shoujo Café (clique aqui) e do quadrinista e youtuber Rapha Pinheiro (clique aqui), caso alguém queria saber mais sobre o IV FNPAS, a partir de outros pontos de vista. 

E finalizando, gostaria de convidar a todos e todas a participarem de dois outros encontros que teremos este ano. O ASPAS Norte (clique aqui para mais informações) e o IV Colóquio Regional Sul em Arte Sequencial (clique aqui para mais informações).

domingo, 5 de agosto de 2018

A IMINENTE DESTRUIÇÃO DA PESQUISA CIENTÍFICA NO BRASIL

Imagem capturada em: encurtador.com.br/hoquU. 
Eu tenho evitado escrever sobre temas políticos atuais do nosso país, tanto por desgosto quanto para evitar linchamento por parte de pessoas que não concordam comigo e não conseguem aceitar meu direito a liberdade de expressão. Além disso, como todo profissional da área de humanas atualmente, estou sujeita a ser policiada e tolhida por aqueles que simpatizam com os ideias da Escola Sem Partido, que eu particularmente abomino. E não falo apenas de desconhecidos, incluo aqui amigos e familiares.

Mas há temas que não podem ser ignorados. Há ações que não podem deixar de ser denunciadas. Esta semana foi divulgada uma notícia alarmante acerca de um possível corte o orçamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para 2019, organismo ligado ao MEC. A Capes,  eu acredito, é pouco conhecido pelo público geral mas é um organismo de fundamental importância para a própria existência da ciência no Brasil.  

O corte , se realmente acontecer, irá afetar centenas de milhares de bolsistas de pesquisa em todo o país, incluindo 93 mil bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, 105 mil bolsas de programas de formação de profissionais da educação básica (como PIBIC e Parfor). 

Significará ainda a interrupção do Sistema Universidade Aberta do Brasil e do Programa de Mestrado Profissional para Qualificação de Professores da Rede Pública de Educação Básica (ProEB), prejudicando cerca de 245 mil alunos e bolsistas (professores, tutores, assistentes e coordenadores) de 750 cursos (mestrados profissionais, licenciaturas, bacharelados e especializações) de 110 instituições, em mais de 600 cidades de todo o território nacional.

A interrupção das bolsas e dos programas acarretará, com certeza, o fechamento de diversos cursos de pós-graduação em todo o Brasil, bem como o fim de pesquisas importantes realizadas no país e do intercâmbio científico com pesquisadores do exterior.

Caso o corte seja aprovado estaremos assistindo ao desmantelamento da pesquisa científica no Brasil e da própria universidade pública, que já vem sofrendo com o descaso do governo nos últimos anos. Se isso realmente acontecer, a curto e médio prazo, teremos o desaparecimento de profissionais capacitados em todas as áreas e a provável fuga de intelectuais e potenciais cientistas para outro países. 

O Brasil sofrerá um esvaziamento científico e intelectual que irá colocar nosso país numa situação política e econômica ainda pior. Os estudantes de graduação também serão afetados, com a limitação da oferta de cursos de pós-graduação. E não apenas os das universidades públicas, mas das privadas, também. 

Esqueça por um momento suas simpatias ou antipatias partidárias e pense enquanto cidadão que está sendo lesado, sem poder contar no futuro com profissionais em condições para analisar o contexto político e social do país, sem profissionais capazes de poder pesquisar a cura de doenças, sem profissionais capazes de construir pontes e mesmo estradas. Pense que se você é daqueles que podem pagar por estes serviços eles ficarão muito mais caros. Pense que encontrar profissionais será mais difícil. Não é vantagem para ninguém aumentar a dependência do país, por exemplo, por tecnologia importada.

Pense num país de bestializados que não terão acesso a uma educação com o mínimo de qualidade. Não importa se seu posicionamento político é de esquerda ou direita, não é possível tolerar qualquer ação que prejudique o nosso direito a um serviço apropriado, oferecido por profissionais capacitados.

* Os dados numéricos acima citados foram fornecidos pela Associação de História do Rio Grande do Sul.


segunda-feira, 30 de julho de 2018

LANÇANDO LIVROS EM MACAÉ

Semana passada eu participei de uma  noite de lançamentos de livros durante o Fórum Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial, evento promovido pela ASPAS e que este ano aconteceu em Macaé (RJ). Na ocasião eu lancei dois livros. Pois é, dois livros de uma só vez. No caso, eu foi organizadora, juntamente com Iuri Andréas Reblin, dos dois livros. 

O que tem de especial nesses livros? Para começar, eles nasceram em Leopoldina (MG), onde em 2015 nós realizamos um encontro da ASPAS. Os capítulos dos livros são referentes ao trabalhos apresentados pelos participantes naquela ocasião. Representam o amadurecimento da ASPAS como associação de pesquisadores, que também nasceu e é sediada em Leopoldina. 

Poucas pessoas talvez saibam disso, mas temos aqui na cidade de Leopoldina não apenas uma associação nacional de pesquisa como, também, uma editora voltada para pesquisa acadêmica que vem crescendo a cada ano. 

Os livros lançados foram  Arte Sequencial e seus Multiversos Conceituais, com capa de Amaury Fernandes, e Arte Sequencial e suas Sarjetas Metodológicas, capa de Catia Ana Baldoino da Silva. são livros voltados para a pesquisa utilizando histórias em quadrinhos e que podem ser usados por pesquisadores e estudantes de todas as áreas.

Faremos vários lançamentos ainda este ano, sendo que o próximo deverá ocorrer na ECA/USP, durante as  5ªs Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, no dia 23 de agosto, das 19:15 às 20:15 (sala Egon Schaden). Haverá, também um lançamento aqui em Leopoldina, no dia 21 de setembro, no Museu Espaço dos Anjos. Aguardem mais detalhes.

sábado, 21 de julho de 2018

COMENTANDO A HISTÓRIA EM QUADRINHOS "A ORIGEM DO MUNDO"


Eu li esta semana a História em Quadrinhos (HQ) "A origem do mundo: uma história da vagina ou a vulva vs. o patriarcado" (cujo título original é Kunskapens Frukt), da prestigiada autora sueca Liv Strömquist, publicado recentemente pelo grupo Cia das Letras. É o segundo quadrinho sueco a ser publicado no Brasil, o primeiro foi ano passado: "Alena", de Kim Andersson. Mas é a primeira HQ de uma autora sueca, é bom deixar isso em evidência.

A HQ fala sobre as formas de dominação impostas pelo patriarcado e questiona muitos tabus acerca do corpo e da sexualidade feminina. Ele se divide em três partes. Na primeira, fala sobre a forma como, durante a história do ocidente, notadamente, a vulva  e as formas como o órgão sexual feminino foi perseguido. Na segunda parte, trata da prática da masturbação feminina, os mitos e o discurso médico acerca da sua prática. Por fim, a autora reserva espaço para falar da menstruação.

Adoraria dar mais detalhes, mas infelizmente corro o risco de estragar a surpresa do(a) leitor(a). Mas uma coisa eu posso adiantar: a HQ superou todas as minha expectativas. A leitura é fluida e instigante. A autora usa de ilustrações simples e da técnica da colagem para contar a uma história cultural das mulheres, ou melhor, da opressão sofrida pelas mulheres. 

E a autora tem bagagem para isso. Liv Strömquist possui formação na área de Ciências sociais e realizou uma rígida pesquisa para compor sua obra, que inclusive é cheia de referências. Ela  trata do tema com a propriedade de quem pesquisou sobre ele. É claro, há na HQ muito do ativismo da autora, que é declaradamente feminista. Mas , diferente do que acontece em outros países, ser feminista na Suécia é algo tão normal que o próprio governo se declarou o primeiro governo feminista do mundo.

Sem querer me alongar muito, eu recomendo a leitura da HQ, especialmente para mulheres, não excluindo os homens, independentemente da idade. Se você tem uma filha, compre leia e dê a ela para ler depois e não seria nada mal se seu filho lesse, também.  Se eu tivesse lido quando era mais jovens certamente teria feito uma grande diferença para mim.  

Por fim, gostaria de deixar registrada minha alegria pela publicação desse álbum no Brasil, que nos últimos anos vêm sofrendo um retrocesso social muito grande, com aumento da violência contra as mulheres, da discriminação contra gays e mesmo a perseguição de militantes do movimento feminista, notadamente nas redes sociais. Espero que este álbum chegue às escolas sem que movimentos como a "escola sem partido" ou radicais religiosos criem problemas (meio difícil, mas não custa sonhar). 

Eu vejo a publicação da História da "Origem do Mundo" como uma prova de que a chama lucidez ainda está presente na cena cultural brasileira e de que ainda há possibilidade de construirmos uma sociedade menos desigual, pelo menos no que diz respeito às relações de gênero.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

DE MARIELLE A RAZAN: A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES É A VIOLÊNCIA CONTRA TODA A HUMANIDADE

Ilustração de Chantal Montellier em homenagem à enfermeira Palestina Razan al-Najar

No dia 01 de junho do ano corrente a enfermeira palestina Razan al-Najar, de 21 anos, foi morta a tiros durante um protesto na Faixa de Gaza. Razan era voluntária e foi responsável por salvar centenas de vidas. A morte da enfermeira, que usava o colete médico na ocasião, fere o direito o Direito Internacional Humanitário que, entre outras coisas, protege os feridos em áreas de conflito assim como as equipes médicas que lá atuam. A morte de Razan por forças militares de Israel pode ser caracterizada como uma violação ao DIH e, portanto, um crime de guerra.

Num conflito que ceifa vidas a cada dia, na grande maioria de civis palestinos, uma relevante parcela do povo israelita acredita os palestinos que morrem pelas mãos de seus soldados, merecem esse destino. O povo de Israel parece ter esquecido seu passado de escravidão, de privação, exílio forçado e genocídio.

No Brasil, perdemos uma ativista dos direitos humanos, a vereadora Marielle Franco que foi assassinada no dia 14 de março do ano corrente. Marielle foi, ainda, vítima de difamação, sem nem ao menos poder se defender. Com Razan al-Najar não foi muito diferente. Num primeiro momento, o exército de Israel declarou que abriu fogo apenas em agitadores reduzindo a morte da enfermeira a quase uma banalidade. Mas a reação internacional fez com que Israel prometesse investigar o caso.

Não foi muito diferente aqui no Brasil. Para uma parcela da população, Marielle merecia morrer, afinal ela era uma defensora dos direitos humanos, o que para muitos no Brasil se traduz como "uma defensora de bandidos". Apenas para título de esclarecimento, segundo a ONU, os direitos humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, etc. Aqueles que se dizem contra os direitos humanos, em tese, estão negando-os a si mesmos. 

Ilustração de Mariana Cagnin Disponível em: https://iphone.facebook.com/politicashq/?__tn__=C-R


Um dado estatístico triste, divulgado pela Agência Brasil no início do mês de junho, mostra que no ano de 2016 o Brasil ultrapassou a marca de 62 mil homicídios (62.517 pessoas foram assassinadas) o que corresponde a 30,3 pessoas a cada 100 mil habitantes. Um número 30 vezes maior do que o de toda a Europa. Na última década, mais de meio milhão de brasileiros foram mortos.  A maior parte das vitimas são jovens, negros e mulatos. Todos eles mereciam morrer?

Não consigo entender o ódio que se tem do pobre no Brasil, da mesma forma como não entendo o ódio que leva israelitas a atacarem palestinos. Talvez porque eu use a lógica. A mesma lógica faz com que eu questione:  por que alguém que se dedica a ajudar ao próximo merece morrer?

Também me pergunto que tipo de religião ou de governo pode encontrar razão em defender este tipo de comportamento. Mas razão é algo que não se encontra facilmente no mundo atual. Na verdade, estamos cada vez mais sendo sufocados pela irracionalidade coletiva e pelo ódio a quem simplesmente se recusa a odiar.

Marielle e Razan são duas mulheres vitimas da violência que elas combatiam. Uma violência que não é apenas contra as mulheres, mas contra à própria noção de dignidade. Elas representam todas e todos aqueles que morrem a cada minuto, muitas vezes sem saber a razão. As famílias de Marielle e Razan talvez não conheçam a justiça. Essa é mais uma coisa que elas possuem em comum. Mas não acho que isso seja motivo para se resignar. Pelo contrário, devemos seguir o exemplo destas duas mulheres  para que ainda possa haver esperança da razão sobrepujar a ódio no coração da humanidade.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

INSCRIÇÕES PARA O V CONCURSO LITERÁRIO DA ALLA


Já estão abertas as inscrições para o V Concurso Literário da ALLA. O evento é promovido pela Academia Leopoldinense de Letras e artes e está aberto a todas as escolas do município e ao público geral. A temática é livre. As categorias são:
1. Poesia
2. Cartum/charge
3. Resenha
4. Conto
5. Crônica
6. Relato de experiência pedagógica

As inscrições para o Concurso Literário deverão ser realizadas entre 8 horas do dia 01 de junho de 2018 e 18 horas do dia 15 de junho de 2018, exclusivamente on line. Para mais informações, consulte o edital do concurso no site da ALLA, clicando aqui!

terça-feira, 5 de junho de 2018

ARTIGO PUBLICADO NA PAPIERS NICKELÉS SOBRE MALIN BILLER

Na edição # 55 da revista Papiers Nickelés, de dezembro de 2017, saiu um artigo meu sobre Malin Biller, quadrinista muito popular na Suécia. Eu sou uma admiradora do trabalho dela, que inclusive, foi exposto aqui no Brasil, em Leopoldina (MG), em uma exposição sobre quadrinhos, em maio de 2017.

O artigo é sobre a obra e a trajetória da autora, que me deu uma entrevista via e-mail, ano passado, que eu publiquei aqui no blog (clique aqui para conferir), e com quem eu me encontrei pessoalmente este ano, em Gotemburgo (clique aqui para conferir). 

Segue o meu texto, Malin Biller, bédessinatrice suédoisesobre a autora:
Clique na Imagem para ampliar!
O texto fez parte de um dossiê especial  sobre ilustradores e contou com vários artigos:

1914-18, une guerre féminisée ? Les dessinatrices en guerre I par Antonin Erwan

Enki Bilal, disque disque rage... par Dean Corso

L’histoire d’une image par Patrick Cohen

Vip flingue l’Amérique par Théophraste Epistolier

Le secret de l’énigme du piège diabolique de la Fondation Jacobs par Yves Frémion et Claude Haber

Le prix Papiers Nickelés-SoBD

Cahier central : spécial illustrateurs par Yves Frémion
Suzanne Ballivet froufroute
Caprioli chasse la baleine
En l’an 3000 avec Henriot
’’L’île au trésor’’ de Van Rompaey
Les ’’Tribunaux comiques’’ de Xaudaro
Les cartes de voeux de la ’’Série Kaempfer’’



sexta-feira, 27 de abril de 2018

ARTIGO SOBRE HUMOR E RESISTÊNCIA DURANTE A DITADURA MILITAR


Semana curta, mas produtiva. Tive um artigo aceito para publicação na revista Pesquisa & Educação a Distância, da Universidade Salgado de Oliveira. O artigo é sobre O Pasquim e a resistência através do humor, durante a Ditadura Militar no Brasil. Eu cheguei a apresentar meu trabalho durante um congresso, mas ele não havia sido publicado. Agora apareceu a oportunidade. 

Veja o resumo e, se interessar, clique aqui para ler o texto completo, em pdf

O Pasquim e o papel do humor na resistência contra a Ditadura Militar
O presente trabalho busca analisar o humor gráfico como instrumento de resistência durante a ditadura militar no Brasil a partir de O Pasquim, periódico que circulou durante duas décadas e que nasceu sob a égide do AI-5, no ano de 1969. A partir do humor irreverente, O Pasquim conquistou público e driblou a censura imposta pela ditadura a todos os meios de comunicação. Esse periódico acabou se transformando em um modelo de jornalismo alternativo que iria ser imitado por outros periódicos. O humor como forma de resistência o nosso objeto de estudo no presente texto. Entendemos como resistência um como um processo sociocultural, conforme,definiu Pierre Laborie, uma tomada de consciência acerca de determinada situação que pode levar a ações subversivas contra o elemento opressor. A partir da análise de charges e cartuns publicados no Pasquim, desejamos demonstrar a importância dos cartunistas e da impressa alternativa em combater as imposições do regime militar. Ao mesmo tempo, o Pasquim buscava levar informações ao grande público, chamando a atenção para os abusos do regime e, desta forma, tentar promover a conscientização política que, de outra maneira, não seria possível. O humor foi apropriado e transformado, portanto, num instrumento de resistência que não pôde ser calado durante os anos da ditadura militar no Brasil.

A PRINCESA LEOPOLDINA ESTEVE REALMENTE EM LEOPOLDINA (MG)?

Princesa Dona Leopoldina (1864)
Fonte. Wikepédia
Esta semana eu fui convidada para fazer uma  pequena apresentação para os alunos do 2º ano do ensino fundamental sobre a História de Leopoldina (MG), afinal, estamos comemorando os 164 anos de emancipação do nosso município. 

Uma das perguntas que as crianças sempre fazem é se a Princesa  Dona Leopoldina Teresa Francisca Carolina Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon (1847-1871), filha caçula do Imperador D. Pedro II (neta da Imperatriz Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, no Brasil Maria Leopoldina, a primeira esposa do imperador D. Pedro I e mãe de D. Pedro II), esteve em Leopoldina. 

A resposta para essa pergunta é não. 

Após a apresentação, uma mãe questionou isso novamente com uma das professoras, afirmando que a princesa veio sim, acompanhada de D. Pedro II, e que há fontes que comprovam isso. Chegou até a citar um memorialista famoso, que escreveu sobre a nossa cidade, para reforçar seus argumentos. Como eu tenho o livro, fui conferir e não encontrei nada. Assim como nunca esbarrei com nenhuma fonte bibliográfica ou documental que faça alusão a isso. 

Este tipo de situação acontece com frequência comigo e acredito que com professores do Ensino Fundamental, nos primeiros anos, mais anida. Resolvi apresentar, então, alguns fatos que vão ajudar os professores e professoras a responder a esta pergunta com facilidade e segurança.

No ano de 1854, por época da emancipação de Leopoldina (MG) e da elevação do arraial a vila, o novo município foi nomeado de Leopoldina para homenagear a princesinha, que naquela época tinha apenas sete anos de idade. Existe um história folclórica (passada de boca em boca) de que a princesa esteve aqui por época da emancipação e por isso o município levava seu nome.

Algo bem improvável, a começar por conta do acesso.  A ferrovia só começou a operar na nossa região em 1874. Até então a viagem da Corte (Rio de Janeiro) para Leopoldina (MG), era realizada de forma precária, por estrada. Além disso, qual seria a motivação para que Dom Pedro II submetesse sua filha caçula a uma longa viagem para uma localidade pouco conhecida e de povoamento recente? Eu não consigo encontrar nenhuma.

Por que da homenagem, então? A escolha do nome do município teve, provavelmente, motivações políticas. Nomear um recém criado município, no interior de Minas Gerais, com o nome da filha do Imperador dava à localidade  visibilidade na Corte, isso muito antes do município começar a se destacar com a produção de café. 

E aqui temos uma informação que talvez seja mais preciosa para os professores de Leopoldina. A Princesa Leopoldina, dez anos depois,  casou-se no dia 15 de dezembro de 1864 com Luís Augusto Maria Eudes de Saxe-Coburgo-Gota, Duque de Saxe e Coburgo, tendo partido do Brasil para  viver com o marido na Áustria, onde veio a falecer ainda muito jovem, em 1871. 

Muitos leopoldinenses afirmam categoricamente que a Princesa Leopoldina teria visitado o nosso município em 1881, juntamente com seu pai, Dom Pedro II, algo improvável pois, como vimos, a princesa já havia falecido há mais de uma década. Quem acompanhou o Imperador na viagem que fez durante 36 dias pelo interior de Minas Gerais foi a Imperatriz Dona Tereza Cristina. Citanto o memorialista Barroso Junior:

"(...) no dia 30 de abril, Leopoldina marcava nos seus faustos a visita altamente desvanecedora das Suas Majestades Imperiais D. Pedro II e D. Cristina que em sua pequena comitiva, concluíram naquela cidade, sua longa peregrinação pela província de Minas."
JUNIOR, Barroso. Leopoldina e seus primórdios. Leopoldina, 1943, p. 51.

Situações assim, acredito eu, reforçam a necessidade de se ensinar e estudar História Local nas escolas. Os professores precisam estar informados e instruídos sobre o tema para que possam ter mais segurança ao discorrerem sobre ele. E quando digo isso não estou de forma alguma desqualificando o trabalho docente, mas chamando a atenção para o fato de que há necessidade de investir na formação, na produção de material didático e na atualização dos nossos profissionais. 

Afinal, não se pode exigir dos nossos professores e professoras  um conhecimento ao qual eles e elas não se têm o devido acesso.

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Para saber mais sobre a Princesa Leopoldina, clique aqui.