segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

VISITANDO A CASA DA ESCRITA EM COIMBRA

Eu tenho a mania de andar despreocupadamente pelas ruas das cidades as quais visito a turismo. Pego um mapa, marco os lugares que desejo conhecer e tomo meu rumo. O problema é que nem sempre eu sigo o mapa. Costumo tomar atalhos, que normalmente me fazem andar mais do que o necessário. 

Mas é fazendo isso que eu conheço aqueles recantos que o mapa não mostra. Paisagens lindas que se transformam em belas fotografias, becos e ruas charmosas que a maioria dos turistas não veem. Acabo encontrado lugares que me são realmente atrativos.

Recentemente, enquanto tentava chegar à parte mais alta da cidade para conhecer a Universidade de Coimbra, eu achei um espaço cultural mantido pela municipalidade dedicado ao ato de escrever: A Casa da Escrita.

Sala  para cursos, palestras e oficinas.
O espaço é descrito como um "arquivo aberto, que permite aos frequentadores visitarem as rotas da criação da escrita através dos textos que se vão produzindo na própria Casa." Instalada em uma casa charmosa de três andares, com um lindo jardim interno, localizada na parte alta de Coimbra, a Casa da Escrita pertenceu a família do poeta e ensaísta João José Cochofel, um dos representantes do Neo-Realismo português.

João José de Mello Cochofel Aires de Campos, nasceu na cidade de Coimbra em 1920. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Universidade de Coimbra e foi um dos organizadores da coleção de poesia do Novo Cancioneiro em 1941. Participou da fundação de várias revistas e foi colaborador de outras, das quais podemos citar  AltitudeCadernos do Meio-DiaVérticePresençaSeara Nova, Gazeta Musical e de Todas as Artes. Atuou como poeta e  crítico literário e musical, tenho sido diretor da Academia dos Amadores de Música de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Escritores. Morreu em 1982, deixando incompleto o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, obra que começou a ser publicada em 1971. 
Sótão da Casa da Escrita, onde fica uma pequena biblioteca/arquivo
A Casa da Escrita e sua história têm tudo a ver com aquilo para o qual se propõe. Lá ocorrem regularmente lançamentos de livros, palestras, oficinas de escrita, exibição de filmes, etc, sendo um espaço de criação literária, produção cultural, livre pensamento e debate de ideias

Lugar simpático e aconchegante que me fez sentir vontade de ter algo parecido em Leopoldina. Quem sabe, talvez um dia, a Academia de Letras e Artes de Leopoldina não possa ter sua “Casa da Escrita”, como sede da organização. Já temos uma casa da leitura e uma biblioteca municipal, mas nos falta pensar na questão da escrita em si. Formar leitores e escritores. Pessoas que saibam se expressar bem não apenas pela palavra dita mas também pela palavra escrita.


Fontes de apoio:
Biografia de João José Cachofel. Disponível em: . Acesso em 13 jan. 2019.
Casa da Escrita.Disponível em: . Acesso em 13 jan. 2019.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

NO CINEMA, ASSISTINDO BUMBLEBEE

Na primeira semana de janeiro eu fui ao cinema e assisti ao filme Bumblebee, da franquia de Transformers. Normalmente não seria um filme que me levaria ao cinema. Mas a crítica havia sido muito generosa com a produção e com o desempenho dos atores, resolvi então arriscar. Bumblebee é um filme ambientado nos anos de 1980. A direção ficou a cargo de Travis Knight, que até então só havia se destacado por filmes de animação, tendo algumas indicações para o Oscar no currículo.

Bumblebee é um filme de ação mas é, também, um filme sobre relacionamentos afetivos e sobre família. O foco desta vez não está na luta entre bem e mal ou nos efeitos especiais que mostram robôs gigantescos lutando tão rápido que nem se consegue visualizar seus movimentos. O filme apresenta como protagonistas duas pessoas "quebradas": a jovem Charlie, que não consegue superar a morte do pai e que se isola da família, sempre mergulhada em uma grande tristeza, e Bumblebee, avariado quando chega a Terra, sem memória e sozinho. 

O roteiro é simples de entender: Charlie encontra Bumblebee e devolve a ele seu propósito; o robô, por sua vez, retira a menina do seu mundo triste e depressivo e a ajuda a se reconectar com a família. Acreditem, há momentos realmente dramáticos neste filme da franquia Transformers. 

Sem tirar o mérito do diretor, acredito que o sucesso do filme  deve ser creditado a duas mulheres: a protagonista Hailee Steinfeld, que interpreta Charlie, e a roteirista Christina Hodson, que usando uma narrativa simples, mas de grande sensibilidade, deu uma nova roupagem a um filme que poderia ser outro longa superficial de robôs lutando entre si. 

Aliás, a quantidade de Transformers no filme foi um elemento que fez diferença. Fora algumas passagens em que Optimus Prime apareceu, o longa só teve três Transformers em atuação constante: Bumblebee e dois Decepticons, o que foi mais do que suficiente.

Sem me estender muito, gostaria de finalizar dizendo que Bumblebee tem um ar de nostalgia, ao retratar os anos de 1980. Ele me fez lembrar os filmes daquela época, que ainda não abusavam dos efeitos especiais. Aliás, esse é outro mérito do filme: ele foca nos personagens e suas relações com sensibilidade e humor, e não nos efeitos especiais, que estão lá, são bons, mas que não são, desta vez, o suporte da produção.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A DEMONIZAÇÃO DO MAGISTÉRIO


Nós últimos dias eu tenho lido e escutado opiniões assustadoras sobre o magistério e os profissionais da educação, seja por membros do governo ou por apoiadores. Eu fico assustada porque não me encaixo no perfil que eles traçam dos professores brasileiros. Aliás, se o profissional do ensino que vem sendo descrito, esse monstro sem ética e sem caráter que impõe aos alunos sua forma de pensar, dominasse o cenário educacional eu seria a primeira a denunciar.

Mas justiça seja feita, se o clamor dos últimos meses e os ânimos ainda acirrados pelo pleito eleitoral estão fazendo com que as pessoas se exaltem nas suas opiniões, a verdade é que não é de hoje que a imagem do profissional do ensino vem sendo atacada no Brasil. Não foi o atual governo que começou a denigrir o magistério, nem acho que com ele virá a solução para isso.

Em novembro de 2018 o resultado de uma pesquisa  realizada em 35 países revelou que o  desempenho dos alunos está ligado à forma como a sociedade vê e remunera seus professores. O Brasil ficou em último lugar. Não chegamos a este ponto apenas de um dia para  outro. Ser professor no Brasil não é exatamente a profissão almejada pela maioria dos jovens e nem todos os professores querem realmente estar na sala de aula.

Em 28 anos trabalhando como professora eu conheci bons e maus profissionais. Dei meus tropeços e acho que aprendi com a maioria deles. Já me deparei com situações de todo o tipo, nas quais pude ter a experiência de contar com o apoio de bons profissionais e também de ser desestimulada por profissionais ruins. Deixe-me falar aqui um pouco sobre isso.

No ano de 2006 eu me exonerei do meu cargo de professora do Estado, em uma escola de referência. Na época eu tinha 15 anos de magistério. A razão que me levou a isso foi um episódio envolvendo um colega de trabalho. Durante uma reunião, eu dei  uma sugestão sobre um projeto (que implantei em outra escola no ano seguinte). Um professor socou mesa e gritou as seguintes palavras: - Se você quer mais serviço, arrume um marido e um tanque para lavar roupas!

Nunca esqueci essas palavras e o fato de que ninguém, nem a diretora me defendeu. Eu literalmente adoeci e, por conta disso, perdi a vontade de trabalhar para o Estado. O ambiente de trabalho daquela escola em particular também não ajudou. Daí, eu exonerei.

Mas não abandonei o magistério, continuei na minha outra escola, onde permaneço até hoje. De lá tenho um testemunho diferente. É uma escola de periferia, que atende a uma população mais carente do que as outras nas quais eu trabalhei. Muitos dos nossos alunos e alunas estão constantemente em risco, seja pela falta de recursos ou pelo próprio ambiente que vivem. Já tive alunos com todo o tipo de problemas e de lá eu tirei as maiores lições de toda a minha vida.

Aprendi a me doar e a ser sensível ao sofrimento alheio. Eu me tornei uma pessoa melhor e, acredito, uma profissional melhor. Trabalho muito, mas recebo e dou carinho na mesma medida. Eu testemunhei a mudança de alunos que não tinham perspectivas de futuro conseguirem vencer os desafios da vida. Vi professores, diretores e especialistas amparando famílias, tanto materialmente quando psicologicamente. Eu sei de alunos que hoje são pessoas com uma profissão e uma família que, se não fosse a escola e os professores, estariam ou mortos ou na sarjeta. Perdemos alguns, mas salvamos muitos.

E sempre tivemos uma boa relação com os órgãos de segurança pública. Ao fazermos nosso trabalho na escola estamos ajudando, por exemplo, a polícia militar a fazer o dela. Quem está na escola, está longe da vida do crime. Claro, não podemos ajudar a todos, mas cada um que segue em frente é uma pequena conquista.

Existem bons e maus profissionais, seja no magistério ou em outras funções. Mas a escola ainda é um suporte fundamental para a sociedade e o professor uma peça indispensável para a formação de nossos jovens. Toda essa demonização baseia-se num processo antigo de desqualificação do professor, a partir do exemplo de péssimos profissionais e da ausência de políticas realmente comprometidas com a valorização do magistério. 

Eu acredito que investir em formação, valorização e ética é o que precisamos. Perseguir toda uma classe profissional tendo em vista uma minoria ou uma visão limitada do que é o dia a dia de uma escola só faz justificar o atraso do Brasil em relação a outras nações. Acho que é necessário largar de lado todo o preconceito e as informações deturpadas que chegam todos os dias, e muitas delas nem são verdadeiras, e refletir seriamente sobre o futuro que queremos para nosso país e papel que a escola tem na sua construção. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE MARY POPPINS - O FILME ORIGINAL


Assisti este fim de semana Mary Poppins, a produção original de 1964, disponível para os assinantes do Netflix. Eu nunca havia assistido ao filme, embora eu o conhecesse por fragmentos que passavam em um programa chamado Disneylândia transmitido pela TV Globo, aos domingos. Era por meio dele que eu tinha contanto com os clássicos da Disney, os quais só pude finalmente assistir na íntegra bem mais velha, quando tive condições financeiras para comprar DVDs. Imagino que com muitas outras pessoas da minha geração aconteceu o mesmo.

Eu já fui muito questionado por gastar meu dinheiro com filmes infantis. Pois bem, quando criança fui bombardeada pela propaganda da Disney e nunca tive a oportunidade de ir ao cinema em uma cidade grande para ver um desses clássicos. Muitos, aliás, foram produzidos antes que eu nascesse. Quando adulta e já trabalhando e procurei suprir este vazio da minha infância. 

Além disso eu questiono quem acha que todos os  filmes/animações produzidos pela Disney neste período e mesmo na atualidade são realmente "coisa para crianças".  Eu vejo os clássicos da Disney como filmes para toda a família, ou seja, para todas as idades. Acho, inclusive, preconceituoso querer limitar este tipo de produção apenas para o público infantil, como se todos nós não tivéssemos sido crianças um dia e este filmes não representassem nada na nossa formação cultural e até mesmo moral. 

Eu não tenho vergonha de assistir animações no cinema, por exemplo, e não preciso levar uma criança comigo para manter a aparência. Adultos presos a preconceitos tolos que estabelecem regras com relação ao que pode ou não ser divertido são adultos infelizes. Não é o meu caso.

Mas retornando a Mary Poppins, não sei se conseguirei ir ao cinema para a estreia da nova versão da produção, mas seria inconcebível não assistir ao original, até porque sempre é bom ter um parâmetro para comparação. Não sou crítica profissional de cinema, mas na minha opinião o desempenho do elenco original foi fantástico.Mais de 50 anos depois, o filme ainda conseguiu me encantar.  

Gosto da atmosfera dos filmes antigos e das animações feitas sem auxílio de recursos digitais. Os cenários dos filme são simples e teatrais, mas exatamente por isso muito encantadores. A história em si traz referências muito interessantes, como a participação da sra. Banks no movimento sufragista ou as críticas ao sistema financeiro predatório representado pelos bancos. Eu não vejo nada de infantil nisso, pelo contrário.

Mas, acima de tudo, é um filme moralista e que valoriza o amor e a família. Claro, um filme de 1964 irá trazer a família tradicional, mas creio que a mensagem vale para todas as famílias: o cuidado que se deve ter com a infância.

As crianças precisam da atenção dos pais,  por mais independentes que pareçam ser. A presença deles (ou de pelo menos um deles)  é fundamental para sua formação. É claro, os pais não devem deixar de lado seus interesses, mas devem incluir seus filhos entre as suas prioridades. 

Não acho, por exemplo, que uma mulher DEVE esquecer sua carreira para cuidar dos filhos, mas ela pode fazer as duas coisas sem que uma prejudique a outra. Também acredito que os homens devam dividir com as mulheres a criação dos filhos de forma igual. Não existe isso de separar o que é função do pai e da mãe na educação dos filhos afinal a criação dos filhos é uma parceria ou pelo menos deveria ser. 

Trabalhar o dia todo não é desculpa para não ter tempo de abraçar o filho/filha e perguntar como foi seu dia na escola. Eu não sou mãe, mas sou filha e eu sei como a atenção dos meus pais ou mesmo a falta dela, marcou minha vida.

Por fim, espero que a continuação de Mary Poppins possa trazer uma produção que faça jus à produção original, para a diversão dos mais jovens e a nostalgia dos mais velhos.

domingo, 23 de dezembro de 2018

ARTIGO SOBRE HUMOR NOS QUADRINHOS SUECOS PUBLICADO NA REVISTA ÁRTEMIS

Meu presente de Natal adiantado: saiu o v. 26, n. 01 da Revistas Àrtemis, com o dossiê: O humor das mulheres e as mulheres no humor. Publiquei um artigo na revista (o melhor texto que eu escrevi em 2018, na minha opinião) e convido a todos que se interessarem visitarem o site do periódico. E não façam isso só por mim: há excelentes artigos sobre quadrinhos e humor na publicação. A publicação pode ser acessada clicando aqui!

Seguem o resumo e o abstract do meu artigo!

Um breve panorama do humor nos quadrinhos feministas suecos a partir da obra de Nina Hemmingsson, Malin Biller e Liv Stronquist 
A brief overview of the humor in Swedish feminist comics from the work of Nina Hemmingsson, Malin Biller and Liv Stronquist


RESUMO 
A Suécia é um país que possui tradição tanto na produção quanto na participação das mulheres na cena dos quadrinhos. Mas, no início do século XXI estas mulheres passaram a ter um papel ainda maior graças a todo um contexto sócio-político que conduziu a Suécia a grandes mudanças. Foi importante nesse processo o movimento feminista e a disposição da sociedade em debater acerca da equidade de gênero. Os quadrinhos tiverem seu lugar nesse debate através de produções com um viés feminista, no qual o humor teve uma presença marcante. Para o presente artigo, utilizamos, como exemplo dessa produção, os quadrinhos de três autoras pertencentes a essa nova geração: Nina Hemmingsson, Malin Biller e Liv Strönquist. Por meio desses quadrinhos, notadamente satíricos, é possível notar a construção e descontração dos papéis de gênero assim como do próprio discurso feminista, que dá aos quadrinhos a qualidade de tecnologias de gênero. Palavras-chave: Suécia, Histórias em Quadrinhos, gênero. 

ABSTRACT 
Sweden is a country where we can see traditions both in production and in women’s participation in comic books scene. However, in the early 21st century these women started to have a bigger role thanks to the socio-political context that led Sweden to great changes. The feminist movement and the society will to discuss about gender equality were important in this process. Comic books had their place in this discussion through feminist productions where humor had a strong presence. In this article, we had comics of three authors belonging to this new generation as examples of these productions: Nina Hemmingsson, Malin Biller and Liv Stronguist. By means of these comics, clearly satirical, it is possible to notice the construction and informality of the gender role as well as the feminist discourse itself which offers gender technology quality to the comics. Keywords: Sweden, Comics, genre.

A Revista Ártemis é um periódico semestral, interdisciplinar, vinculada aos Programas de Pós Graduação em Sociologia e Programa de Pós Graduação em Letras da UFPB, dos quais recebe financiamento para editoração. Seu conteúdo é voltado para a "divulgação da produção científica no campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades, dentro de uma perspectiva interdisciplinar, aborda fenômenos socioculturais a partir de análises históricas, literárias, culturais, psicológicas, etc. Os objetivos são: contribuir para a construção de novas abordagens teóricas e metodológicas de investigação e reflexão; e, difundir artigos nacionais e internacionais, pesquisas originais, resenhas e traduções" (*). 

Aproveito a postagem para divulgar a chamada para publicação de artigos da revista Tempo & Argumento - revista de história do tempo presente, para o dossiê: Mulheres, Humor e Cultura de Massa. Mais informação, clique aqui!

(*) Dados retirados do site do periódico.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A MEMÓRIA DAS MULHERES E AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - IV FÓRUM DISCENTE UNIVERSO


Estará acontecendo entre os dias 04 e 05 de dezembro o IV Fórum Discente Universo, na Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO, em Niterói (RJ). Os trabalhos terão início no dia 04 de dezembro às 14 horas. A programação completa do evento pode ser acessada clicando aqui.

É o encerramento oficial do ano letivo para a pós-graduação em História (mestrado e doutorado). Na oportunidade, estarei fazendo uma apresentação sobre a memória das mulheres nas histórias em quadrinhos. 

Mais do que divulgar o evento e a minha apresentação, gostaria de agradecer a todos, colegas de pós-graduação, professores, ex-professores e amigos, pelo suporte me deram durante o ano de 2018. Sem o apoio e a confiança de vocês em mim, eu não seria o sou e não teria as oportunidades que tenho. Muito obrigada.

sábado, 1 de dezembro de 2018

YÔKAIDÔ: ARTE. MEMÓRIA E CULTURA POPULAR JAPONESA

Yôkaidô de Shigeru Mizuki & Utagawa Hiroshige é o 16º licro da coleção Blaise, publicado pelas éditions Cornélius.


Recebo constantemente notificações sobre publicações francesas, muitas vezes acompanhadas dos lançamentos, em versão pdf, para análise. Isso passou a acontecer nos últimos dois anos, desde que participei pela primeira vez do Festival de Quadrinhos de Angoulême.

O ano corrido que tive não me permitiu dar a eles a devida atenção, mas eu estou me organizando para poder, pelo menos uma vez por mês (quem sabe duas) reservar um espaço para falar destas obras.  

Vou começar com o trabalho Yôkaidô, que reúne a obra de Shigeru Mizuki e Utagawa Hiroshige, lançado na última quinta feita, dia 29 de novembro de 2018, pela Éditions Cornélius. Trata-se do livro ilustrações, originais. Trata-se de um livro que reúne as gravuras feitas por Utagawa Hiroshige, sob a releitura de Shigeru Mizuki, que até então eram inéditos na França.

Utagawa Hiroshige
Utagawa Hiroshige é um dos artistas japonês mais reconhecido na arte da gravura. Nascido em 1797, ele retrata a paisagem japonesa antes de sua transformação durante a era Meiji. Em 1832, depois de fazer sua primeira viagem por estrada do Tokaido, que liga a capital do shogun, Edo, e a capital imperial, Kyoto, ele criou série das gravuras mais famosa As Cinquenta e três Estações o Tokaido (1833-1834), com as paisagens dos locais por onde passou, incorporando a elas cenas da vida diária. É considerado um dos o maiores pintores do ukiyo-e (termo japonês que significa "imagem do mundo flutuante"), tendo produziu cerca de 8.000 impressões ao longo de sua vida. Sua influência na arte ocidental é enorme, tendo inspirado mestres impressionistas como Vincent Van Gogh, Claude Monet e Alfred Sisley. 

Shigeru Mizuki
Shigeru Mizuki nasceu 08 de março de 1922 em Sakai-Minato, pequena cidade costeira no sudoeste do Japão, e morreu em 30 de novembro de 2015. Ele sabe que há uma infância livre e feliz, bons tempos ele vai tirar muitas vezes em sua manga.  Durante a II Guerra Mundial participou da À Campanha da Nova Guiné, uma das maiores campanhas militares da II Guerra Mundial, quando tinha pouco mais de 20 anos de idade. As lutas começaram com o ataque japonês a Rabaul em janeiro de 1942, e perduraram até o final da guerra. Durante a guerra. Em Nova Guiné, ele contraiu malária e perdeu o braço esquerdo em bombardeamento. Em 1957, Mizuki começou sua carreira como contador de histórias, utilizando como personagens os youkai, uma classe de criaturas sobrenaturais do folclore japonês, que inclui o oni, a kitsune e a yuki-onna. Ele explorava o universo sobrenatural e demonstrava um profundo conhecimento da alma humana.

O livro é uma homenagem de Shigeru Mizuki  a Hiroshige, que une a tradição clássica do ukiyo-e (movimento artístico da gravura no período Edo) e folclore japonês. No livro, Mizuki  faz uma releitura das gravuras de Hiroshige, inserindo nelas elementos do folclore japonês, os youkai. Nas palavras do editor, as “gravuras de Hiroshige, os youkai personificam esta herança japonesa perdida. Eles são cultura vernacular em que os grandes senhores e camponeses desenharam parte de sua crença e suas férias.” Em respeito a esta herança, Shigeru Mizuki utilizou a mesma técnica de gravura tradicional, na qual cada placa foi gravada em madeira antes de ser impressa.

Na minha leitura, trata-se, ao mesmo tempo, de uma obra que se propõe a reviver uma memória e, ao mesmo tempo, enfatizar o poder da cultura popular, especialmente do folclore, sobre a arte e o imaginário oriental.

O que me levou a comentar sobre esta obra, dentre tantas outras que eu recebi da editora Cornélius foi o fato de que eu já tinha tido contato anteriormente com a obra Utagawa Hiroshige, em 1998, em uma exposição sobre a influência da arte oriental na obra de Van Gogh, em Veneza. A primeira exposição de arte que visitei na primeira vez que viajei ao exterior.

Enfim, um livro belíssimo que pretendo adquirir em sua edição impressa.



domingo, 28 de outubro de 2018

SOBRE O IV COLÓQUIO SUL DE ARTE SEQUENCIAL

Nos dias 12 e 13 de outubro do ano corrente ocorreu na EST - São Leopoldo (RS), o IV Colóquio Sul de Arte Sequencial, sob coordenação do Professor Doutor Iuri Andreas Reblin, ex-coordenador Geral e sócio fundador da ASPAS. O evento reuniu, pela quarta vez, pesquisadores do Rio Grande do Sul e regiões vizinhas que se dispuseram a abrir mão do feriado de 12 de outubro e do sábado para participarem de atividades acadêmicas sobre quadrinhos.

A EST, seu campus oferece uma estrutura fantástica para receber encontros acadêmicos. Além de ceder salas e mesmo prédios inteiros para as atividades ainda há a possibilidade de se hospedar dentro da Universidade na Casa Matriz de Diocesanas, que oferece acomodações superconfortáveis e um ambiente tranquilo para quem quer descansar depois de um dia todo de trabalho/estudo.
Campus da EST - São Leopoldo - RS.
Apesar de ser um evento derivado da ASPAS, esta foi a primeira vez que eu participei do Colóquio Sul de Arte Sequencial e pretendo participar novamente nos próximos anos. É um encontro bem típico da ASPAS, intimista, possibilitando debater mais a fundo com colegas, um ambiente descontraído e super proveitoso. Muito diferente dos encontros monumentais onde somos bombardeados de informações e o aproveitamento é muito pequeno. 

Conferência de abertura do IV Colóqui Sul de Arte Sequencial.
É o que acontece, por exemplo, nos encontros da ANPUH, principalmente os nacionais. O tempo é subaproveitado, pois geralmente ficamos atados a simpósios temáticos, obrigados a e escolher entre centenas de salas. Muita oferta e um risco ainda maior de não fazer uma boa escolha. Tenho preferido, por isso, os encontros pequenos. Acho-os mais produtivos, tanto no aproveitamento do tempo quando na qualidade dos debates.

Em linhas gerais eu posso dizer que foi revigorante poder estar junto aos meus pares nestes dois dias e, também, muito produtivo. Além de reencontrar amigos, nasceram novas amizades e novas ideias para projetos futuros.
Livros e canecas comercializados durante o IV Colóquio Sul de Arte Sequencial.
Outro encontro da ASPAS, que aconteceu nos dias 25 e 26 de outubro, foi o I ASPAS Norte, na Universidade Federal do AMAPÁ. Foi o primeiro encontro realizado na região norte e, assim como o Colóquio Sul de Arte Sequencial, lançou a bases para novos eventos envolvendo quadrinhos e cultura pop, tão importantes para entendermos a dinâmica social do século XXI. 

domingo, 21 de outubro de 2018

O CORREIO DE LEOPOLDINA E OS BONDS A VAPOR


A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional tem disponibilizado outros jornais de Leopoldina, além da Gazeta de Leopoldina e O Leopoldinense. Um destes jornais, do qual constam apenas 02 exemplares digitalizados, é o Correio de Leopoldina - Semanário noticioso. Resolvi dar uma olhada no jornal para verificar se havia alguma curiosidade sobre a cidade, já que eu não escrevo nada sobre Leopoldina já faz algum tempo. 

Acho pertinente fazer uma breve introdução sobre o periódico, a partir dos dados que ele nos oferece. O Correio de Leopoldina - semanário noticioso, foi fundado no final em 1894, entre novembro e dezembro daquele ano. Em seu primeiro número, não há data específica, apenas o ano e o local. Mas como um das suas publicações é a transcrição do discuso de posse do Presidente da República Prudentes de Moraes, datado de 15 de novembro de 1894, é de se supor que o periódico tenha sido publicado pela primeira vez entre a segunda quinzena daquele mês e o mês de dezembro.

Ele era de propriedade da Empresa Editora Mineira, cuja gerência ficava a cargo de Antônio Luiz Delandes, tendo como redator-chefe Henrique Cancio. O jornal atendia exclusivamente aos interesse da lavoura, comércio e indústria do município e aceitava colaborações, desde que se fizesse um "bom uso da linguagem", que não poderia ser insultuosa. Uma curiosidade: o jornal oferecia brindes a seus assinantes, na forma de composições musicais, como pode ser visto na figura abaixo. 

Correio de Leopoldina, n. 01, p. 03.
O Correio de Leopoldina apresentava-se como um jornal "patriótico" e recebia a colaboração de diversos representantes da comunidade, como José Monteiro Ribeiro Junqueira, Ernesto Lacerda e José James Zip Zag, além de correspondentes no Rio de Janeiro, Capital Federal do Brasil durante a Primeira República. Era, portanto  um jornal a serviço das oligarquias locais. A colaboração de José Monteiro Ribeiro Junqueira corrobora com esta afirmação, uma vez que os Monteiro Ribeiro Junqueira exerceram por décadas seu poder na região. 

No primeiro número do jornal chamou-me a atenção uma pequena nota que falava sobre uma proposta que supostamente seria apresentada à Câmara Municipal de Leopoldina: uma linha de bonde a vapor ligando os distritos de Tebas e Piedade (atual Picatuba).

Bonde a vapor, construído por volta de 1870 pela Metropolitan Railway Carriage & Wagon Company, em Birmingham, na Inglaterra, para trafegar em São Vicente - Imagem e dados disponíveis em: http://www.novomilenio.inf.br/santos/trilho24.htm. Acesso em: 23 set. 2018.

Era uma nota, visivelmente especulativa, com pouco mais de 10 linhas, não contendo nenhuma informação concreta sobre o assunto, apenas a intenção de "alguém". Leia a transcrição na íntegra

"Alguém tenciona apresentar à Câmara Municipal um projeto que ligará Piedade a Tebas e e esse distrito à Leopoldina por meio de bonds a vapor. São destes melhoramentos que há muito carecemos, visto serem eles portadores de enormes benefícios, tanto pra os três distritos, como também para o de Rio Pardo e arredores. Não desejamos ser aves agoureiras, porém, é nos permitido fazer esta pergunta:

Onde se encontra o apoio à grandes ideias levantadas neste município?" 


Correio de Leopoldina. Bonds a vapor. p. 04, 1894. 
Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Duas coisas chamam a atenção neste pequeno fragmento. A primeira é a referência aos bondes. Esta é a primeira vez que encontro a menção a este assunto em um jornal de Leopoldina. Nas muitas vezes que visitei o Leopoldinense ou mesmo a Gazeta de Leopoldina, não me deparei com nada do tipo. O único meio de transporte mencionado é a ferrovia, pelo menos no século XIX e início do século XX, a não ser por algumas rápidas menções em folhetins.

Outra coisa intrigante é ideia de usar o bonde para interligar distritos. O bonde é um meio de transporte tipicamente urbano e que possui um número limitado e passageiros, se comparado aos vagões de um trem. No Brasil, o primeiro bonde começou a circular em 1859, por tração animal. Em 1862 vieram os bondes a vapor. Em 1892 os bondes elétricos já haviam sido introduzidos no Brasil, mas Leopoldina só viria a ter acesso à energia elétrica em 1905, com a criação da Companhia Força e Luz Cataguases-Leopoldina (atual Energisa). Daí a menção aos bonde a vapor e não aos bondes elétricos.

Para saber se houve realmente a apresentação do projeto à Câmara se faz necessário uma análise documental que não tenho intenção de fazer no momento por indisponibilidade de tempo. De todo modo, vale prazer de especular um pouco sobre a história de Leopoldina e, quem sabe, inspirar outras pessoas a se aprofundarem nela?


INSCRIÇÕES PARA O 30º SIMPÓSIO TEMÁTICO DE HISTÓRIA DA ANPUH


O 30º SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA ocorrerá na cidade de Recife, entre os dias 15 e 19 de julho de 2019. O encontro é organizado a cada dois anos pela ANPUH (Associação de História) e conta com a participação de historiadores e professores de todo o país.

O tema para 2019 é de extrema importância, uma vez que levanta a questão do futuro da disciplina e como devemos estar preparados para ele. Em tempos em que a emergência de um pensamento reacionário, que demoniza o ensino de história, é preciso mais do que nunca abrir para o debate e buscar formas de fortalecer a educação no Brasil. 

Curiosamente, foi em Recife que participei pela primeira vez de um Simpósio da ANPUH, em 1995 (só havia participado, até então, de encontros regionais). Foi uma experiência única, um marcador de águas na minha vida profissional, por assim dizer. É com um certa nostalgia que pretendo participar de mais este.

As inscrições para COORDENADOR(A) DE SIMPÓSIO TEMÁTICO e para COORDENADOR(A) DE MINICURSO já estão abertas. Os requisitos são: estar associado à ANPUH, com a anuidade em dia, e ter título de doutor(a).

O prazo para inscrição nas modalidades indicadas acima é até o dia 6 de novembro e 2018.

Para mais informações ou inscrever-se, clique aqui.

Participe e colabore na divulgação!

Caso haja interesse de associar-se para poder inscrever-se nas modalidades acima, indique que acesse o site da ANPUH-Brasil.  

 

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O MAIOR PROBLEMA - 85 ANOS DE DESCASO COM A EDUCAÇÃO E A CULTURA

Imagem capturada em: http://movasaomateuspdluizsutter.blogspot.com/2011/05/analfabetismo-funcional-uma-triste.html
Eu tinha por hábito vasculhar as páginas dos jornais locais em busca de notícias interessantes que eu reproduzia e/ou comentava em meu blog. Nada muito pretensioso ou com intenção de promover algum profundo debate historiográfico. Era mais pelo desejo de buscar no passado alguns fragmentos da história local de Leopoldina que fossem interessantes e que ajudassem a contar alguma história ou mesmo a refletir sobre algum tema do presente. 

Hoje, motivada pelos acontecimentos do fim de semana (o incêndio do nosso Museu Nacional da Quinta da Boa Vista) eu me senti compelida a retomar a este velho hábito e li alguns exemplares da Gazeta de Leopoldina[1], disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A princípio, era meu desejo procurar algo sobre as comemorações da Independência do Brasil, mas o destino quis que eu me deparasse com uma matéria cujo título me chamou atenção: "O maior problema".

Trata-se de uma coluna, sem autoria declarada, que fala sobre a questão da educação  no Brasil, há 85 anos atrás. Um texto tão atual que eu preferi reproduzi-lo aqui na íntegra antes de inferir minhas criticas acerca do seu conteúdo.


O MAIOR PROBLEMA

Rio, (UBI) - Em todos os grandes países do mundo, o problema da instrução apresenta-se à frente de todos os outros, despertando o maior carinho por parte dos governos. 

Entre nós, apesar do seu indiscutível incremento, nestes últimos anos, ele vive ainda numa espécie de abandono criminoso, relegado à categoria mais ínfima.

No entanto, poderíamos exibir estatísticas interessantes, provando, por exemplo, o que se faz na Itália, na Inglaterra, França e Alemanha, principalmente nestes dois últimos países, pela instrução pública.

É conhecido o pensamento sobre o assunto, do velho Bisrmarck[2].

A alfabetização de um povo está ligada à sua independência. Não se pode sem cultura ocupar nenhum lugar significativo na civilização.

O Brasil, vivendo agora o período de sua adolescência, devia voltar-se todo para a solução desse problema, que é o mais grave que se nos defrontamos.

As estatísticas apresentam um coeficiente triste de crianças que, em idade escolar, deixam de receber instrução, porque não podem frequentar as escolas.

Isso é quase um crime.

O analfabetismo tem feito um número espantoso de vítimas no Brasil.

Quantas inteligências à ignorância desvia para as diversas modalidades do crime!

A instrução corrige, aperfeiçoa, regenera.

É o melhor meio de se conduzir o homem ao caminho do bem, diz um professor americano.

Nestes últimos anos temos feito alguma coisa pela instrução, mas, na realidade, muito pouco, comparado com o que, com esforço, poderemos fazer pela alfabetização do povo brasileiro. 

Gazeta da Leopoldina. Leopoldina, 22 de outubro de 1933, n. 151. p. 02.


O texto, escrito há 85 anos, durante o período do governo provisório de Getúlio Vargas, externa a preocupação com a alfabetização da população, que não tinha acesso à escola pública. Notem o trecho em que o autor do texto afirma “Não se pode sem cultura ocupar nenhum lugar significativo na civilização”. 

Sem cultura, segundo o autor, estavamos nos afastando da civilização e permanecendo, desta forma, num estado de barbárie. Quase um século depois ainda estamos perdidos em um mar de ignorância. O autor do texto também frisa a importância da educação para afastar o indivíduo da criminalidade e criminaliza o governo que não investe na educação. 


Certamente haverá quem diga que hoje o número de analfabetos é muito reduzido e que a escola pública está ao alcance de todos. Será mesmo?

Segundo Carlos Delabo Rebouças (2017)[3], em um artigo publicado no site “Comunidade ADM”, o Brasil hoje sofre com outro tipo de analfabetismo, o funcional. Cerca de 90% dos brasileiros não sabem ler e escrever com qualidade, são incapazes de compreender textos simples, e muitas vezes se consideram capacitados simplesmente por portarem um diploma, seja ele da educação básica ou superior. 


Em uma reportagem mais recente, de Lorena Costa, para a Gazeta do povo, publicada em 17 de julho de 2018, a autora afirma que "Apenas 8% da população brasileira entre 15 e 64 anos é plenamente capaz de entender e se expressar corretamente. Já o restante apresenta dificuldades, em graus diferentes, de entender e elaborar diversos tipos de texto, interpretar tabelas e gráficos e resolver problemas lógicos e matemáticos".[4] Junte a isso o número de analfabetos (não possuem nenhuma habilidade de leitura e escrita) que era de 7%, cerca de 11,46 milhões em 2017, segundo o IBGE[5].


Um grande número de pessoas possuem uma grande dificuldade em entender o que leem, o que explica manifestações de demonização de livros e de textos publicados em revistas e jornais. A ignorância a respeito do que se lê conduz ao preconceito e à incapacidade de entender as mudanças que a sociedade vem sofrendo ao longo dos anos. Leva pessoas a desconsiderarem o trabalho de autores renomados como Paulo Freire, filósofo da educação cuja a teoria e obra são estudadas em vários países.


Retornando ao texto publicado pela Gazeta de Leopoldina, em 1933, percebemos que ele em nenhum momento fala do ensino privado, mas do público. Investimento no ensino público como uma forma de desenvolver o país e seu povo, a exemplo do que já na época acontecia em outras regiões, notadamente da Europa. O autor anônimo do texto jornalístico de 1933 concorda com os analistas da atualidade quanto à solução para o problema: investimento em políticas públicas voltadas para a melhoria da educação.


Eu, particularmente, sou contra dizer que a situação do ensino atualmente é culpa de um ou outro governo. O texto transcrito acima é da década de 1930 e reproduz, a parte alguns anacronismo, nossa realidade, em pleno século XXI. A República, em sua totalidade nunca investiu de forma continuada na melhoria da educação e na valorização da cultura no Brasil. Tivemos ações que melhoraram de alguma forma o acesso à escola mas não necessariamente a qualidade do ensino.


Pecamos principalmente na formação de professores. Criamos um sistema de distribuição de diplomas que se traduz em números vazios. Temos muitos professores diplomados, mas a maioria não possuí o preparo mínimo para a atuar na sala de aula. Além disso, convivemos com a triste realidade da perseguição aos professores, muitas vezes reféns de discursos conservadores que desejam limitar suas ações em sala de aula, tirando deles o direito constitucional à liberdade de expressão.


E se durante estes 85 anos nós tivemos conquistas, e não há como negá-las, mas elas vivem em constante ameaça num país onde boa parcela da classe política acredita que investimento em cultura, pesquisa e educação são supérfluas. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55, por exemplo, impõe um teto aos gastos públicos, e barra qualquer possibilidade de investimento na área da educação por duas décadas. 

Enquanto ainda me permitem ter e externar minha opinião, eu acredito que a PEC 55 deveria prever 20 anos de investimento intenso na educação, e não o contrário.

As medidas de austeridade que vêm sido tomadas nos últimos anos estão levando as universidades públicas ao sucateamento ainda mais acelerado. Os centros de pesquisa estão sendo abandonados, museus e centros culturais relegados à própria sorte, bolsas de iniciação científica, que a muito custo foram conquistadas, estão sendo canceladas e há uma forte corrente conservadora a favor a privatização do ensino e da criminalização da ação dos educadores, acusados de doutrinação ideológica por uma ala extremista de direita.

Recuando no passado, percebemos que há muito mais permanências do que mudanças. Que as conquistas que tivermos estão sob constante ameaça e que só existe uma forma de superar a os problemas que o país vive: investindo na educação de qualidade, começando pela formação de professores e tornando a carreira do magistério atraente aos jovens talentosos.  Bons professores se traduzem em boas aulas, numa escola mais dinâmica e capaz de atender às necessidades da nossa sociedade. 




[1] Para esclarecimento do leitor,  A Gazeta de Leopoldina foi uma periódico fundado no final do século XIX pela família Ribeiro Junqueira, oligarquia que por décadas dominou o município e regiões próximas, e seu posicionamento político era conservador e de direita.
[2] Primeiro ministro da Prússia, responsável pelo projeto e efetivação da unificação alemã, foi um grande incentivador do ensino e da pesquisa científica na Alemanha do final do século XIX.
[3] REBOUÇAS, Carlos Delano. Analfabetismo funcional no Brasil. Comunidade ADM. Disponível em: http://www.administradores.com.br/artigos/academico/analfabetismo-funcional-no-brasil/103313/. Acesso em: 04 set. 2018.
[4] COSTA, Lorena. Analfabetismo funcional é resultado de ausência de políticas públicas. Gazeta do Povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/analfabetismo-funcional-e-resultado-de-ausencia-de-politicas-publicas-cfawiypv9sm9alpw4xevbuj0u/.Acesso em: 04 set. 2018.
[5] BOAS, Bruno Villas. Analfabetismo cai no Brasil, mas 11,5 milhões não sabem ler, diz IBGE. Valor Econômico. Disponível em: https://www.valor.com.br/brasil/5533911/analfabetismo-cai-no-brasil-mas-115-milhoes-nao-sabem-ler-diz-ibge . Acesso em: 04 set. 2018.