sexta-feira, 21 de julho de 2017

LANÇAMENTO DO LIVRO "AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E A ESCOLA" EM BRASÍLIA

Estarei lançando o livro "As Histórias em Quadrinhos e a Escola" durante o XXIX Simpósio Nacional de História da ANPUH, que vai acontecer em Brasília, semana que vem. 

Todos são bem-vindos!

domingo, 16 de julho de 2017

A VARÍOLA NA ZONA DA MATA: O CASO DE LEOPOLDINA

 "A Varíola- Fia-te na virgem e não corras". Rio de Janeiro. O Malho. Imagem disponível em: http://arch.coc.fiocruz.br/index.php/caricatura-campanha-contra-variola-variola-fia-tena-virgem-e-nao-corras-rio-de-janeiro-o-malho, acesso em 16 jul. 2017.
Uma doença cujos registros remontam à antiguidade, a varíola foi, até final do século XVIII responsável pela morte de um incontável número de pessoas. Calcula-se que apenas no XVIII, morreram na Europa, cerca de sessenta milhões de vítimas de varíola[1].  

Esta doença é considerada uma herança dos colonizadores europeus e teria chegado à América entre os anos de 1518 ou início de 1519. Mais tarde ela foi associada ao tráfico de escravos, dado o aumento dos casos da doença após o início do tráfico negreiro. Segundo Sidney Chalhoub, os escravos transportados em péssimas condições e debilitados fisicamente eram alvos fáceis da doença e a transmitiam aos brasileiros nas localidades onde desembarcavam.[2]

No Brasil, ela teve seu primeiro registro na Bahia, quando em 1561 teria chegado à capitania trazida pelos passageiros de um navio.[3] A doença se espalhou rapidamente causando cerca de trinta mil mortes. Como eram mais vulneráveis à doenças trazidas pelos europeus, os indígenas foram os mais afetados. Populações inteiras foram dizimadas pela moléstia[4].

Havia dois tipos de varíola, a varíola major, que possuía uma grande taxa de mortalidade, que podia chegar a 30% dos infectados, e a varíola minor, com uma taxa de mortalidade de até menos de 1%.[5] Embora este último tipo fosse mais brando, o simples fato de ser identificada uma manifestação da doença era motivo para que se instaurasse o pânico, o medo de uma epidemia.

O contágio ocorre através do suor e qualquer outro tipo de secreção expelida pelo doente. Nas senzalas, dada a aglomeração de escravos em péssimas condições de higiene, a proliferação da doença era rápida. Segundo Márcia Amantino, como não havia tratamento específico para a varíola a solução encontrada era isolar o doente, o que nem sempre funcionava, devido a precariedade com a qual a população escrava era alojada nas fazendas.[6]

Foi por meio de estudos sobre a varíola que, em 1796, surgiu a primeira vacina, criada pelo médico Edward Jenner[7]. No Brasil a vacinação contra a varíola foi introduzida já no final do século XVIII, embora que de forma irregular e com várias ressalvas, pois a população temia tomar a vacina, com medo de adquirir a doença. No século XIX foram feitas várias tentativas de se combater as frequentes epidemias de varíola, mas a aceitação da vacina, mesmo que com algumas ressalvas, ocorreria apenas no século XX[8].

Em Minas Gerais, o primeiro relato oficial de vacinação contra varíola data de 11 de novembro de 1805, em carta escrita pelo governador da capitania que mencionava a ordem régia solicitando empenho das autoridades coloniais na conscientização da população da capitania da importância da vacinação pra o combate da moléstia[9].

Entre os anos de 1873-1874, uma epidemia de varíola atingiu várias cidades mineiras, sendo a capital, Ouro Preto, uma das mais atingidas. Até março de 1875 haviam sido registrados em Ouro Preto 789 casos e 204 óbitos decorrentes da moléstia. A vacinação era realizada nas igrejas, nas câmaras municipais, nas sedes de fazendas espalhadas pelos municípios mineiros, mediante publicação de edital[10].

Os jornais ora tentavam aplacar os ânimos, desmentindo boatos sobre a presença da doença, ora alertavam sobre seus perigos. Foi caso do Pharol, jornal de Juiz de Fora, que trazia regularmente notícias sobre a propagação da varíola na Zona da Mata Mineira, em províncias e mesmo no exterior.

No final do ano de 1878, por exemplo, instalou-se o pânico no município de Juiz de Fora com a possibilidade da ocorrência e propagação de casos de varíola. O pânico era justificado pelo fato de que anos antes, de setembro de 1874 a fevereiro de 1875, a cidade de Juiz de Fora foi assolada pela doença, que em seis meses infectou cerca de 1000 pessoas e matou 135.[11] A tragédia ainda estava bem vívida na memória dos juizforanos. O Pharol publicou uma série de notas de esclarecimento buscando desmentir estes boatos.

Em outubro de 1882, correu em Leopoldina a falsa notícia de um surto de varíola, provocado por ocorrências da doença em outras localidades, como Alfenas, Viçosa e Paraíba do Sul. No caso de Alfenas, a intensidade da epidemia foi tamanha, que a população teria se refugiado no campo, para fugir da doença[12]. Em 1895, a simples suspeita de um caso da doença fez com que fosse destacada uma junta médica para e a emissão de um parecer oficial desmentindo o boato da possível contaminação.

Podemos afirmar ao público para sei tranquilidade que o boato de que havia um caso de varíola na cidade não passou de suspeita.

Tratava-se de um doente de cataporas, moléstia fácil de confundir-se com a varíola.

Publicamos o atestado dos médicos oficiais que confirma o que acabamos de dizer. Eis o atestado:

Atestamos sub Médici fide et jure jurando que não existe caso algum de varíola nesta cidade. O fato suspeito que nos foi indicado na Grama, é um caso de cataporas, sem importância alguma.

Leopoldina, 11 de outubro de 1895.
Dr. Joaquim Antônio Dutra.
Dr Ernesto de La-Cerda.[13]

A publicação de laudos médicos confirmando ou não os casos da doença era prática comum nos jornais, tanto como forma de acalmar a população, quanto como forma de proceder à prevenção e convocar a população para a vacinação contra a moléstia. Negar e certificar a ausência da doença era também uma questão de ordem econômica. Quando boatos se espalhavam, o fluxo de pessoas no comércio local diminuía, muitos deixavam de ir trabalhar, fábricas fecham suas portas, ocasionando prejuízos tanto para os comerciantes quanto para o município.

As cidades da Zona da Mata eram consideradas mais vulneráveis à doença devido à proximidade com o Rio de Janeiro, cidade constantemente assolada por epidemias de varíola durante o Império e a República. Em 1883, a preocupação com a proximidade de Juiz de Fora da Corte, tomada pela doença é expressa no apelo que o jornal faz à Câmara Municipal, pedindo providências para evitar uma possível epidemia.

Jornais da corte dão como assustadoras as proporções que tem tomado a varíola no município neutro. O hospital de Jurujuba, completamente cheio, não dá mais lugar a doentes.

A vista disso não seria tempo de olharmos nós – um pouco para nós mesmos, e tomarmos providências com o fim de evitar a propagação do mal nessa cidade?

A continua em fácil comunicação com a corte põe a epidemia à nossas portas. À câmara municipal pedimos toda a atenção para o assunto. [14]

Em 1894 foram abertos editais para a vacinação contra a varíola, onde a população era convidada a se apresentar para receber a vacina no consultório do delegado de higiene, dr. Ernerto de La Cerda, realizada “todos os domingos (...) das 11 horas ao meio dia, à rua do Cotegipe.”[15] Mas a grande dificuldade estava justamente em vencer a resistência da população em receber a vacina. Além da falta de estrutura administrativa levou-se ainda muito tempo para se superar o medo da vacina. “Essa postura era avaliada pelas autoridades como decorrência da ignorância popular, que impelia a atitudes irracionais e absurdas, como a das mães da cidade de Leopoldina, que escondiam as filhas debaixo da cama para escapar à vacina”[16].

No município de Leopoldina, em 1895, foi registrado um caso na fazenda Sabiá, prontamente comunicado pelo delegado de higiene ao Agente Executivo. Foi liberada uma nota à população avisando que já haviam sido tomas todas as providências para que a doença fosse contida.[17] Cerca de um mês depois foi anunciada a vacinação contra varíola da população do distrito de Conceição da Boa Vista.[18]

Mais de três décadas depois a região ainda não havia superado o medo da doença. Em 1927 um dos documentos que deveria ser apresentado, por exemplo, para matrícula de meninas na Escola Normal do Colégio Imaculada Conceição era o atestado de vacinação contra a varíola.[19]

Em julho de 1933, a Gazeta de Leopoldina, noticiava o crescimento dos casos de varíola em Caratinga e Ubá. Em outubro do mesmo ano a doença chegou a Muriaé[20]. A população foi convocada a se apresentar aos postos de vacinação. A vacina era, inclusive, aplicada nas escolas e nas fábricas, onde havia maior aglomerado de pessoas.

Um dos fatores apontados para a propagação da doença, desde fins do século XIX, era o transporte ferroviário. A ferrovia, assim como as naus que traziam os escravos contaminados, transportava não apenas pessoas e mercadorias, mas, também, doenças como a varíola. Locais onde havia um intenso movimento ferroviário eram considerados sujeitos ao contágio.

Como já noticiou este jornal, há casos de varíola em um município mineiro, que, se não fica próximo do nosso, tem este constante ligação, por estrada de ferro e de rodagem, que significaria séria ameaça para nós, se não fosse à boa vontade com que a nossa população procura prevenir-se contra o mal se vacinando, numa exata compreensão da eficiência desse meio preventivo.[21]

Outro problema era a disponibilidade da vacina nos postos de higiene. Além de poucos, eles não tinha capacidade para atender a toda a população do município que, segundo o jornal, era de 65.677, em 1933. A quantidade de linfas não era suficiente para atender nem a um terço desse número.[22] Pediu-se providências à Diretoria Geral da Saúde Pública e a cidade recebeu novas remessas de vacina. O jornal destacou o aumento da procura pela vacina pela população. Ela é aplicada, também, nos distritos, por farmacêuticos credenciados[23].

A varíola foi a primeira doença infecciosa extinta por meio da vacinação, mas deixou um legado de morte, devastando populações inteiras em todo o mundo. Em Leopoldina, embora não tenhamos em mãos dados relativos a uma possível epidemia da doença, ela não é de todo descartada. O município viveu, desde o início da sua ocupação surtos de sarampo, tido como responsável pela morte de boa parte da população de índios puris, febre amarela e tantas outras doenças infecciosas cuja ação foi registrada no Rio de Janeiro, em Juiz de Fora e Cataguases.




[1] REZENDE, JM. À sombra do plátano: crônicas de história da medicina [online]. São Paulo: Editora Unifesp, 2009. Varíola: uma doença extinta. p .227. Disponível em: http://books.scielo.org/id/8kf92/pdf/rezende-9788561673635-24.pdf , acesso em 14 jul. 2017.
[2] CHALHOUB, Sidney. Cidade Febrik: cortiços e epidemias na corte Imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 109-110.
[3] SILVEIRA, Anny Jackeline Torres, MARQUES, Rita de Cássia. Sobre a varíola e as práticas da vacinação em Minas Gerais (Brasil) no século XIX. vol. 16, no.2,  Rio de Janeiro fev. 2011, p. 388. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csc/v16n2/v16n2a03.pdf, acesso em 11 jul. 2017
[4] REZENDE, JM. Op. Cit., p .227.
[5] SILVEIRA, Anny Jackeline Torres, MARQUES, Rita de Cássia . Op. Cit., p. 390.
[6] AMANTINO, Marcia. OS escravos fugitivos em Minas Gerais e os anúncios do Jornal “O Universal”- 1825 a 1832. Locus Revista de História, 2° proS3:59 S3:59, 2008, p. 71/72. Disponível em: https://locus.ufjf.emnuvens.com.br/locus/article/viewFile/2698/2102, acesso em 15 jul. 2017.
[7] REZENDE, JM. Op. Cit., p. 229.
[8] REZENDE, JM. Op. Cit., p.230.
[9] SILVEIRA, Anny Jackeline Torres, MARQUES, Rita de Cássia. Op. Cit. p. 390.
[10] Idem,  p. 391.
[11] SILVEIRA, Anny Jackeline Torres . Epidemias, estado e sociedade: Minas Gerais na segunda metade do século XIX, Dynamis 2011; 31 (1): 41-63 p.47.
[12] O Leopoldinense. Leopoldina, 07 de janeiro de 1882, ano IV, n. 02, p. 02.
[13] O Leopoldinense. Leopoldina, 13 de outubro de 1895, n. 70, ano XVI, p. 02.
[14] Pharol. Juiz de Fora, 10 de julho e 1883, ano XVII, n. 75 , p. 01
[15] O Leopoldinense. Leopoldina,04 de novembro de 1894, ano XV, n, 25, p. 03.
[16] SILVEIRA, Anny Jackeline Torres, MARQUES, Rita de Cássia. Op. Cit., p. 393.
[17] O Leopoldinense. Leopoldina, 03 de novembro de 1895, n. 73, ano XVI, p. 01.
[18] O Leopoldinense. Leopoldina, 01 dezembro de 1895, n. 77, ano XVI, p. 03.
[19] Gazeta de Leopoldina. Leopoldina, 13 de fevereiro de 1927, n. 21, na XXXII, p. 04.
[20] Gazeta de Leopoldina. Leopoldina, 8 de outubro de 1933, n. 138, ano XXXIX p. 01
[21] Gazeta de Leopoldina, 15 de julho de 1933ano XXXIX, n. 72,  p. 01.
[22] Gazeta de Leopoldina. Leopoldina, 27 de julho de 1933, n. 82, ano XXXIX p. 01.
[23] Gazeta de Leopoldina. Leopoldina, 30 de julho de 1933, n. 85, ano XXXIX p. 01

sábado, 15 de julho de 2017

VISITE A PÁGINA DO LIVRO "AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E A ESCOLA" NO FACEBOOK


Criei uma página no facebook para meu último livro, "As História em Quadrinhos e a Escola: práticas que ultrapassam fronteiras". Lá vou colocar notícias sobre ele, receber encomendas e quem quiser poderá deixar seus comentários. 

Para conferir é só clicar aqui!

segunda-feira, 10 de julho de 2017

1933 - COMO SURGIU A IDEIA DA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO AGROPECUÁRIA DE LEOPOLDINA

Antigo parque de Exposições de Leopoldina.
A ideia da primeira Exposição Agropecuária e Industrial de Leopoldina nasceu em 1933, três anos antes da primeira exposição realizada pela Coopleste, que em 2017 está na sua 81ª edição. Foi uma iniciativa da Gazeta de Leopoldina, na época dirigida pelo Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira, empresário e político local.

Dentro do contexto vivido pelo Brasil, de crise da lavoura cafeeira, a ideia de uma exposição surge como uma forma de valorizar o produtor local e incentivar outros tipos de atividades agrícolas. Afinal, a diversificação das atividades econômicas era, naquele momento uma forma de minimizar os efeitos da queda vertiginosa dos preços do café e o fim do domínio político das oligarquias cafeeiras.  

Segundo a Gazeta de Leopoldina

“O lavrador Leopoldinense, na sua grande modéstia, honraria qualquer certame a que concorresse. É inteligente e trabalhador e os nossos campos feracíssimos. Produzimos de tudo e bom. Numa Exposição Leopoldinense, a seção de produtos agrícolas poderá ser uma verdadeira maravilha, o mesmo aconteceria com a nossa pecuária.[1]

Aliás, a “demasiada modéstia de seu povo” é considerada por Agostinho Marciano d’ Oliveira, bacharel de direito e técnico da lavoura, que cumprimenta a Gazeta pela ideia de exposição em nota publicada naquele jornal, a explicação para um município dos mais ricos permanecer na penumbra[2].

Segunda Gazeta, todos deveriam ser contemplados, do pequeno ao grande produtor. Mas o café, nesta época, ainda aparece em lugar de destaque.

"O nosso município produz, me média, 100.000 sacas de café e é preciso que se consiga pelo menos 30% de cafés "doces". Estamos certos de que o Departamento técnico fará também o seu mostruário facilitando o paralelo e o conhecimento da cor, aspecto e seca mais preferidos"[3]

É bom esclarecer que em meio à crise provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova York, em 1929, a já abalada produção cafeeira foi duramente afetada. Mas nem produtores, nem o próprio governo, desistiram do café. Ele ainda era um produto importante e todo o esforço foi realizado para se salvar a produção. Tanto que até inícios dos anos de 1950 a lavoura cafeeira ainda resistia em Leopoldina.

A Gazeta fala de outras culturas, como o milho "o mais popular e indispensável dos nossos cereais,"[4] e que aparece com sendo um dos produtos mais exportados pelo município. Fala-se ainda do arroz, do feijão, da cana, da mandioca, usada na fabricação de polvilho e da produção de fumo, com destaque par ao município de Tebas.

"Ao distrito de Tebas caberá papel importante, expondo o seu famoso fumo, quer preparado, quer em suas belíssimas folhas, assim como mel que se extrai desse fumo, destinado a ser um dos mais belos inseticidas.[5]"

A matéria ainda enaltece a prática da horticultura, da citricultura e pecuária. A Gazeta fala ainda das "promissoras indústrias" locais.  A economia Leopoldinense é enaltecida e há um discurso otimista com relação ao seu crescimento e desenvolvimento. De fato, este discurso é corrente na época e serve como norte para que os municípios possam estabelecer estratégias para minimizar os efeitos da crise dos anos de 1930. Afinal, segundo a Gazeta de Leopoldina, “nosso município é apontado como terra de ordem, da paz e do trabalho”[6]


[1] GAZETA DE Leopoldina. Leopoldina, 20 de julho de 1933, ano XXXIX,  n. 76, p. 01
[2] GAZETA DE Leopoldina. Leopoldina, 19 de julho de 1933, ano XXXIX , n. 75, p. 01
[3] GAZETA DE Leopoldina. Leopoldina, 22 de julho de 1933, ano XXXIX , n. 78, p. 01.
[4] Idem.
[5] Idem.
[6] GAZETA DE Leopoldina. Leopoldina, 20 de julho de 1933, ano XXXIX,  n. 76, p. 01


sábado, 8 de julho de 2017

ESPECIALIZAÇÃO EM LEITURA E LITERATURA INFANTIL E JUVENIL


Curso de especialização (pós-graduação lato sensu) sobre Leitura e Literatura infantil e Juvenil. Ótima oportunidade para professores da educação básica, de modo geral, e para outros profissionais que trabalham com leitura e cultura. E as aulas são apenas aos sábados.

E os professores são ótimos: Alexandre Damascena, Ana Letícia Leal, Antonella Flavia Catinari, Cintia Barreto, Celso Sisto, Cris Madanelo, Georgina Martins, Hellenice Ferreira, José Prado, Leandro Rodrigues, Leonor Werneck Dos Santos, Luciana Bastos Figueiredo, Maximiliano Torres, Mônica Amim e Thais Linhares.

As inscrições vão até 29/07/2017 e as aulas começam no dia 05/08/2017. Os contatos estão no folder.

Local: Universidade Católica de Petrópolis - Petrópolis - RJ.

terça-feira, 27 de junho de 2017

REALISMO, AUTOBIOGRAFIA E FANTASIA COM LI ÖSTERBERG

Li Österberg pertence àquela geração de mulheres que revolucionou os quadrinhos suecos, com temáticas ligadas ao feminismo, com quadrinhos mais filosóficos e politizados. Formou-se pela "Escola de Quadrinhos de Hofors", onde estudou por três anos. As escolas de quadrinhos na Suécia oferecem uma formação completa para quem deseja se profissionalizar na área. Li Österberg conta que produzia croquis uma vez por semana e que lá conheceu diferentes gêneros de quadrinhos. Havia, também, visitas de artistas veteranos que compartilhavam sua experiência Professional.

Sua profissionalização veio em 1998 quando participou da antologia “Allt för konsten" (Todas as artes), publicada pela Optimal Imprensa, e premiada pelo Prêmio Urhunden[1], em 1999.

Da mesma forma que muitos outros quadrinistas suecos da sua geração, Li Österberg produziu quadrinhos autobiográficos. Segundo ela, este tipo de quadrinhos era uma tendência na Suécia, na década de 1990, e parecia “quase impossível ser publicado com qualquer outra coisa”. Atualmente ela raramente faz este tipo de quadrinho, dedicando-se mais à ao realismo e à fantasia.

Em seus quadrinhos autobiográficos, Li Österbergs fala de suas experiências, sua timidez, neuroses, fobias sociais e de sua família. Um dos seus primeiros quadrinhos deste gênero foi “Sagan om flickan som bara ville Rita” (História sobre a garota que só queria desenhar). Mas vai ser com o fanzine “Agnosis”, que teve 15 números, iniciado por volta de 2004, que ela vai trilhar mais intensamente a autobiografia.

Li Österberg seguiu um caminho inverso com relação à produção de quadrinhos. Ela começou a produzir fanzines depois de ter se profissionalizado.

“Na época, nenhum editor parecia suficientemente interessado em meus quadrinhos. Então, para publicá-los eu tinha a mim mesma. Eu escolhi o nome Agnosis, o oposto do termo gnose (conhecimento), para o meu fanzine, já que meus quadrinhos costumavam ter pessoas confusas que tentavam entender o mundo e a elas mesmas. Eu realmente gostei de fazer fanzines. Isso diminuiu a minha ansiedade com relação ao meu desempenho e me tornou mais criativa. E eles foram bem recebidos no mundo dos quadrinhos suecos, o que eventualmente levou sua publicação. Eu diria que Agnosis foi muito importante tanto para mim pessoalmente quanto para minha carreira”.

Em 2003 ela lançou o álbum “Johanna”, também pela Optimal Imprensa. O projeto nasceu em 2000, em parceria com o escritor e quadrinista Patrik Rochling, para ser uma webcomic feminista e acabou crescendo. A protagonista, a rebelde Johanna, tem suas histórias contadas da adolescência á idade adulta e retrata diversas situações cotidianas, muitas delas divididas com outra personagem, Klara. Com o tempo “Johanna” foi dividindo seu protagonismo com outros personagens secundários. Em 2014 foi publicada uma coleção completa de “Johanna”, com o material publicado entre 2003 e 2012.

Como Li Österberg é fã de mitologia grega desenvolveu um projeto chamado “Nekyia” (2012), onde Hermes e Hades são dois dos protagonistas. O gosto pela mitologia vem do grande conhecimento que ela tem sobre da história e religião. Conta que seu interesse por mitologia surgiu ainda na infância, quando adorava mitos e contos de fadas. Na adolescência a mitologia grega se tornou uma obcessão.

“Eu gostava do fato deles serem tão falhos e humanos. E eles tinham algumas deusas realmente legais e poderosas (o que eu não percebia naquela época era que algumas dessas deusas poderosas possuíam traços bastante misóginos). Mais de dez anos depois, voltei aos mitos gregos e comecei a fazer histórias em quadrinhos sobre eles novamente, desta vez numa tentativa de misturar o gênero realista com o gênero de fantasia”.

Atualmente ela trabalha um novo projeto com Patrik Rochling, onde ele escreve o roteiro, num estilo realista com personagens fictícios. Continua sua série sobre deuses gregos, onde mistura realismo e fantasia, abordando temas como sonhos perdidos, controle de natalidade e a busca por um lugar no mundo. Dessa série já foram publicados três livros e o quarto está em produção.

Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho de Li Österberg é só clicando aqui! 

OBS: Agradecimentos a Li Österberg, que me concedeu uma entrevista via e-mail no dia 23 de abril de 2017 e que pacientemente me tirou muitas dúvidas depois.



[1] Prêmio concedido anualmente aos melhores quadrinhos suecos.

sábado, 24 de junho de 2017

HOMOFOBIA NAS PÁGINAS DA GAZETA DE LEOPOLDINA - 1898


Eventualmente eu percorro as páginas dos jornais antigos de Leopoldina em busca de uma ou outra informação que me inspire um texto ou mesmo uma breve reflexão. Na minha última busca, eu me deparei uma matéria chamada Coisas do dia assinada por Júlio Caledônio[1]. Numa narrativa em forma de crônica, ele fala sobre um homem que conheceu “há alguns anos, infelizmente”. Deu-lhe o nome de João. Segundo ele, um homem bem apessoado, “agrada-se desde logo, ao seu primeiro olhar, que todo travesso, talvez que só para os homens...”

Trata-se de um texto, em resumo, homofóbico, que faz duras críticas ao dito “João” por ter “virado suas opiniões crenças e sentimentos, tudo... do direito para o avesso”. Ou seja, João estava tendo um comportamento fora dos padrões considerados masculinos. O texto foi publicado na primeira página, da Gazeta de Leopoldina do dia 27 de fevereiro de 1898[2].

O comportamento de João, ao que tudo indica, revoltou Caledônio. Ele narra o episódio em que João recebe em seu estabelecimento[3] um senhor que vendia abacaxis e dele se despede fazendo o seguinte gracejo: - “meu benzinho do açúcar, volta amanhã, sim?” Sobre tal comportamento, Caledônio comenta:

"Eu, pelo menos, seria incapaz de chamar - meu amorzinho – a um velho assim, ou a qualquer homem que vista calças; sou capaz, em dados momentos, de dizer coisas mais bonitas ainda, porém não para marmanjos".

O autor deixa bem claro o que ele pensa sobre o assunto, opinião possivelmente compartilhada pelos leitores e a direção do jornal.  É interessante perceber como o discurso que condena a homoafetividade não mudou em quase cento e vinte anos.  Da mesma forma foi fascinante ler o trecho onde o autor coloca sua opinião sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo de forma bem clara e direta, citando homens e mulheres.

"Tudo na natureza foi sabiamente criado.

Assim como é antinatural uma mulher beijar uma outra mulher, ou o homem um outro homem o é dedicar o homem a outro homem uma expressão que só deveria ser ofertada a uma mulher, e a uma mulher que se ama!”

Um homem, por mais delicado, por mais efeminado que seja, não merece uma linguagem tão terna, tão expressiva, tão sentimental:  “meu amorzinho; um benzinho de açúcar; minha florzinha; meu coraçãozinho, etc".

Sabemos que as relações homoafetivas sempre existiram, não há o que se discutir, mas ler tal relato em um jornal do interior de Minas Gerais, do final do século XIX, nos leva a refletir sobre como eram essas relações no dia a dia da comunidade. Nos leva a pensar que havia aqueles que desafiavam os tabus e que não tinham medo de se expor aos olhares e às criticas de conhecidos e vizinhos.

Se havia aqueles que escondiam sua orientação sexual, como ainda hoje existe, o contrário também ocorria e era de conhecimento público. Ou seja, aquela velha frase que ouvimos desde que éramos crianças “antigamente não tinha nada disso”, é pura balela. Não obstante, encontramos relatos sobre relações homoafetivas em vários documentos ao longo da história. A sodomia ao longo da história (práticas sexuais consideradas não naturais) foi vigiada, denunciada e punida.

"As Ordenações Afonsinas consideravam  a sodomia “ o mais torpe, sujo e desonesto de todos os crimes”, condenando à fogueira seus autores, independentemente de sua posição social; as Ordenações Manuelinas ratificavam a pena de morte, acrescentando o confisco dos bens dos réus em favor da coroa, cabendo um terço para os delatores, tornando os filhos  e netos dos fanchonos, infames e inábeis para exercer cargos públicos; as Ordenações Filipinas confirmam integralmente as anteriores, aumenta o prêmio ais delatores na metade dos bens dos sodomitas, ou em 100 cruzados no casso do réu ser despossuído, condenando ainda os sonegadores de sodomitas, aqueles que os encobriam, à confiscação de seu patrimônio e degredo perpétuo para Dora do país. As suas últimas ordenações criminalizavam não apenas o pecado nefando entre homens, mas igualmente o lesbianismo, chamado na época sodomia foeminarum".[4]

Mas estávamos no século XIX, os sodomitas ainda eram tratados como criminosos? 

A resposta é sim. O dramaturgo e escritor  Oscar Wilde, famoso pelo "O Retrato de Dorian Gray", por exemplo, foi preso no dia 6 de abril de 1895 após perder um processo por difamação contra o Marquês de Queensberry. Wilde tinha um caso com o filho do marquês, que o acusou de ser homossexual. Wilde foi preso, considerado culpado e sentenciado a dois anos de trabalhos forçados.[5]

A sodomia foi descriminalizada em vários países europeus no decorrer do século XIX, mas isso não significou uma maior tolerância. A preocupação com os desvios sexuais encontrou outros campos se tornado um tema recorrente na medicina e na psiquiatria.  E mesmo não sendo considerada crime a sodomia ainda era punida pelas autoridades policiais, por ir contra a moral e os bons costumes[6].

Vai ser no século XIX que vai surgir a palavra homossexual, em 1969, cunhada pelo autro-húngaro Karl-Maria Kertbeny, que era substituir o termo sodomia ao se referir à homoafetividade, Em 1870 surge o primeiro estudo científico sobre o assunto[7]. O comportamento homoafetivo passa a ser considerado pela medicina como uma doença, um desvio.

Não era crime João ter um comportamento efeminado, mas não era natural e, portanto, deveria ser denunciado. Se João é um personagem real ou fictício, é difícil saber. Mas ele certamente representa um grupo que existia e, certamente, não era ignorado. João mostra que a homoafetividade está presente em Leopoldina no final do século XIX e que não é tolerada, tendo que sido vigiada e, talvez, punida. Mostra que as relações sociais eram complexas e que estavam sob a zelosa fiscalização do Estado burguês. Os meios de comunicação eram usados para alertar, denunciar e prevenir tais comportamento.





[1] CALEDÔNIO, Júlio. COISAS do dia. Gazeta de Leopoldina, n. 46. Ano 5, Leopoldina, 27 de fevereiro de 1898, p. 01
[2] Jornal disponível para leitura na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (www.memoria.bn.br).
[3] No texto Caledônio diz que João tem um bazar, depois corrige dizendo que é um cartório. Parece se confundir propositadamente.
[4] MOTT, Luiz. Justitia et misericórdia: a inquisição portuguesa e a repressão ao nefando pecado de sodomia. In: NOVINSKY, Anita. CARNEIRO, Maria Luisa Tucci (org). Inquisição: ensaios sobre mentalidade, heresias e arte. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura: São Paulo: EDUSP, 1987, p.  705-6.

[5] Escritor Oscar Wilde é preso por relacionamento com filho de marquês. Disponível em: https://mobile.seuhistory.com/hoje-na-historia/escritor-oscar-wilde-e-preso-por-relacionamento-com-filho-de-marques, acesso em 24 jun. 2017.

[6] PRETES Érika Aparecida, VIANNA Túlio. História da criminalização da homossexualidade no Brasil: da sodomia ao homossexualismo Iniciação científica – Destaques 2007, p. 317. Disponível em: https://vetustup.files.wordpress.com/2013/05/historia-da-criminalizacao-da-homossexualidade-no-brasil-da-sodomia-ao-homossexualismo-tc3balio-l-vianna.pdf, acesso em 24 jun. 2017.
[7] PRETES Érika Aparecida, VIANNA Túlio. Op. Ci.  p. 319. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ALLA COMEMORA UM ANO DE CÍRCULOS DE LEITURA


No dia 14 de junho de 2016 foi realizado o primeiro encontro organizado pela acadêmica Begma Tavares Barbosa, reunindo pessoas interessadas na leitura literária, na formação de leitores literários na escola e na troca de experiências sobre práticas de leitura. 

Para comemorar um ano dos nossos Círculos de Leitura, e no clima da exposição Oxente, vamos nos reunir para conversar sobre autores nordestinos. 

A Academia Leopoldinense de Letras e Artes convida para uma confraternização literária. Os participantes habituais já escolheram seus autores prediletos,
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conforme convite acima. Escolha também um autor do nordeste que lhe agrade e venha participar do encontro especial que será realizado no próximo dia 1 de julho, das 10 às 12 horas, na Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

MULHERES, DE CAROL ROSSETTI

Capa do livro "Mulheres - Retratos de Respeito, Amor-Próprio, Direitos e Dignidade"(2015), editora Sextante.

No feriado eu me dei o luxo de escrever, assistir filmes e colocar uma parte da minha leitura em dia. Comecei com um livro que eu comprei ano passado, Mulheres - Retratos de Respeito, Amor-Próprio, Direitos e Dignidade, de Carl Rossetti, um projeto feito pra levantar a autoestima feminina. 

É um livro feminista e, acima de tudo, um livro onde o feminismo é colocado do jeito que eu acredito que ele deva ser: uma forma de se alcançar justiça social e de promover a inclusão de TODOS, não apenas das mulheres.  Já gostei dele por conta disso. 

Cada capítulo do livro é composto de uma pequena introdução onde a autora trabalha um tema que será representado em imagens nas página seguintes. Simples, bem escrito e bem desenhado, acredito que o livro tenha sido um daqueles projetos que começa pequeno e vai ganhando grandes proporções.

Chamou-me a atenção é a forma como a autora rebate situações onde mulheres se sentem, de alguma maneira, inferiorizadas ou constrangidas. E são tantas as situações! Eu nunca parei para pensar sobre como nós somos bombardeado(a)s cada dia uma gama tão variada de agressões ao que somos, ao que fazemos e ao que pensamos.

E parar para refletir sobre isso é uma forma de nos protegermos contra uma sociedade altamente discriminatória e superficial, onde o que importa é a aparência, em todos os sentidos. É seguir a moda, é fingir ser o que não é, falar o que as pessoas querem ouvir de você. É quase um manual de sobrevivência, que antecipa os desafios que qualquer um de nós pode vir a enfrentar, homens e mulheres, e faz pensar sobre como a nossa sociedade ainda precisa mudar.