Nosso
conhecimento sobre os crimes cometidos por nações do EIXO durante a Segunda
Guerra Mundial é geralmente centrado na Alemanha e em seus campos de
extermínio, que levaram milhões de pessoas inocentes à morte. Livros de
história e obras e ficção trouxeram horríveis experimentos que os nazistas
fizeram com pessoas de todas as idades, experimentos que começaram antes mesmo
do início da guerra. No entanto, pouco estudamos ou falamos sobre os crimes
cometidos pelo Japão.
Devo confessar
que, mesmo com formação em história, foi somente por meio de quadrinhos como
"Grama", cuja a narrativa gira em torno da escravidão sexual de
mulheres pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, e de séries dramáticas como "Mr Sunshine",
que levanta o tema da resistência armada e a luta pela independência da Coreia
durante a dominação japonesa, que eu comecei me interessar e a estudar uma parte da história do Leste Asiático.
No drama, a população civil de regiões colonizadas era exposta a experimentos com o objetivo de criar uma mutação capaz de ser usadas na guerra contra os aliados. Monstros criados em laboratório. "A criatura de Gyeongseong" é uma obra ficcional, repleta de exageros necessários para compor a narrativa fantasiosa, mas que se baseia em fatos históricos.
Em 1935, o governo japonês fundou a Unidade 731, uma unidade secreta de pesquisa e desenvolvimento de guerra biológica e química do Exército Imperial Japonês que realizou experimentação humana letal durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e parte da Segunda Guerra Mundial. Foi oficialmente conhecido como o Departamento de Prevenção de Epidemia e Purificação de Água do Exército de Guangdong. O nome "Unidade 731" foi oficialmente adotado em 1941.
A Unidade 731 era comandada pelo Tenente General Shiro Ishii, responsável por vários de crimes de guerra. O General Shiro Ishi era um cirurgião formado pela faculdade de medicina na Universidade Imperial de Kyoto. Ele entrou para o Exército Imperial Japonês como de Cirurgião do Exército. Antes de iniciar sua pesquisa com seres humanos na Unidade 731, Shiro Ishii viajou para a Europa para estudar armas biológicas e guerra química. Ele foi a versão japonesa de Josef Mengele, responsável pelos experimentos com prisioneiros realizados no campo de Auschwits, na Alemanha.
Estima-se que cerca de 250 a 300 mil pessoas foram submetidas a experimentos realizados pela Unidade 731, sendo que a maioria das vítimas era chinesa. Havia ainda soviéticos, mongóis, coreanos e pessoas pertencentes a países que opunham ao EIXO. Eles foram usados como cobaias para testes de armas bacteriológicas e outros experimentos. O maior número de mortes no campo de Pingfang era de chineses (70%) e soviéticos (30%). A unidade funcionou até o final da guerra, em 1945.
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Unidade 731 - foto atual |
Os experimentos realizados envolviam armas ou procedimentos que poderiam ter uso na guerra. Por exemplo: em câmaras refrigeradoras, prisioneiros eram submetidos a temperaturas de até 50 graus celsius negativos para que os médicos pudessem descobrir a melhor maneira de tratar soldados japoneses que tivessem membros congelados durante batalhas no frio. Para descobrir o que aconteceria a pilotos japoneses caso os aviões dessem pane os cientistas colocavam prisioneiros em centrífugas superpoderosas, onde ficavam rodando até morrer. Testavam bombas com bactérias ou com pulgas infectadas com peste bubônica ou febre tifoide foram jogadas sobre vilarejos chineses. Autópsias eram realizadas com pessoas vivas. E tudo foi minuciosamente registrado em desenhos científicos detalhados. Não foi por nada que a Unidade 732 ganhou o apelido de “Auschwitz asiática”.
Algumas dessas experiências são mostradas no drama, assim como os laboratórios nos quais pode-se ver, por exemplo, órgãos humanos, fetos e até cabeças dentro de vidros com formol. Aparecem também experiências feitas com crianças, que recebiam diariamente injeções e muitas delas desenvolviam doenças que as levavam a óbito. Muitas das experiências eram tão macabras que descrevê-las é difícil. Citei apenas algumas, mas para quem quiser saber mais, eu deixarei o link dos sites que eu consultei para elaborar este texto.
Com a derrota do Japão na guerra, Shiro Ishii encenou a própria morte para fugir do exército dos Estados Unidos, mas acabou sendo descoberto. No entanto, ele negociou sua liberdade em troca do conhecimento que reuniu em suas experiências na Unidade 731. Nem ele nem outros médicos que trabalharam na sua equipe chegaram a ser presos.
Mergulhar na
cultura asiática tem sido um balde d'água fria em muitos sentidos,
principalmente o histórico. Há histórias lá que deveriam ser de conhecimento de
todos, há situações que merecem receber atenção mundial. Violência contra a
mulheres e população LGTBQI+, xenofobia, alcoolismo, violência escolar e
suicídio. O Leste Asiático está submerso em uma série de mazelas que podem ser
explicadas por uma história marcada pela escravidão e pelas disputas
imperialistas, que envolvem não apenas países da região mas, também, nações
europeias e os Estados Unidos. Uma história marcada por violência e que
reproduziu ao longo do tempo essa mesma violência.
Ao falar
sobre os crimes de guerra do Japão não é necessariamente um ataque ao país ou a
seu povo. Os japoneses também formam vítimas de seu próprio governo. Homens,
forçados a servirem ao exército e a cometerem crimes horrorosos. Mulheres
japonesas pobres foram escravizadas sexualmente e transformadas em prostitutas
a serviço do governo. A intenção aqui é alertar para o fato de que estes crimes
aconteceram e podem se repedir enquanto for alimentado um discurso belicoso e
de ódio, discurso este que vem crescendo nos últimos anos. O Japão e a Alemanha
da Segunda Guerra Mundial devem ser o exemplo do que não queremos para o
nosso presente e, muito menos, para o nosso futuro.
REFERÊNCIAS
BROLIA, MARCOS(2014). 550 – Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana (1988). Disponível em: <https://101horrormovies.wordpress.com/2014/10/23/550-campo-731-bacterias-a-maldade-humana-1988/>. Acesso em 27 dez. 2023.
DRUMMOND, Pedro (2021). Uma Auschwitz Na Ásia: O Japão E Sua Macabra Unidade 731. Disponível em <https://historiamilitaronline.com.br/index.php/2021/03/25/uma-auschwitz-na-asia-o-japao-e-sua-macabra-unidade-731/>. Acesso em 27 dez. 2023.
LIMA, Claudia de Castro e (2016). Os terríveis experimentos japoneses com prisioneiros chineses. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/os-terriveis-experimentos-japoneses-com-prisioneiros-chineses?utm_source=google&utm_medium=cpc&utm_campaign=eda_super_audiencia_institucional&gad_source=1&gclid=CjwKCAiAs6-sBhBmEiwA1Nl8szaLjur5cAhvqZa2Qh_JYx61FHbUcPHbIxPuDh92DPHM3tWzLgSA5RoCi38QAvD_BwE>. Acesso em 27 dez. 2023.
PISSURNO,
Fernanda Paixão. Unidade 731. <https://www.infoescola.com/historia/unidade-731/#google_vignette>.
Acesso em 27 dez. 2023.
PREVIDELLI, Fábio. Unidade 731: o antro japonês de experimentos em humanos durante a 2ª guerra. Disponível em: < https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-o-que-foi-a-unidade-731.phtml>.
UNIDADE 731. Wikipedia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Unidade_731>. Acesso em 27 dez. 2023.
Um comentário:
Muito interessante, macabro ao mesmo tempo.
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