domingo, 22 de fevereiro de 2009

O papel do educador na sociedade do conhecimento

Abdeljalil Akarri, consultor da Unesco, fala sobre os desafios dos professores no século 21

Por Mariana vicili

Em julho a PUCRS sediou o 3º Congresso Nacional Marista de Educação, reunindo mais de 2,5 mil professores de todo o País. O foco principal dos debates foram as novas configurações da profissão e da missão do educador no século 21. Entre os conferencistas internacionais estava o professor Abdeljalil Akkari, da Universidade de Genebra, na Suíça. Akkari é consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e diretor de pesquisa na Haute École Pédagogique. Realiza pesquisas sobre desigualdades educacionais, educação comparada e conexões entre culturas e educação. Na ocasião, realizou palestra sobre O ofício de educador na sociedade do conhecimento: profissão e missão. Antes da conferência, concedeu entrevista exclusiva à revista PUCRS Informação falando sobre o tema e comentando a respeito da educação no Brasil.

Quais são os maiores desafios dos educadores na sociedade do conhecimento?
Percebo três desafios principais. Primeiro, ajudar os alunos a selecionarem as informações mais importantes. Numa internet, num banco de dados, existe muita informação. O problema é identificar a informação que tem valor científico, valor numa disciplina. A segunda missão é ajudar os alunos a ver a informação do ponto de vista crítico. Significa que nem tudo o que encontramos na internet e em outras fontes é bom. Não precisamos aceitar tudo sem discussão. A terceira condição é pensar que a internet é só um meio para melhorar a nossa produtividade como educando, que deve ser um instrumento, e não uma finalidade da educação. É preciso conectar o que encontramos na internet com outro meio de conhecimento, valorizando a relação do professor diretamente com o educando.

A filosofia marista de ensino valoriza muito essa relação, além de buscar a formação do aluno como um todo, como profissional e como pessoa. O que o senhor acha?
Na perspectiva marista, o estudante é preparado para o emprego, para a universidade, mas sempre com uma visão histórica e filosófica de prepará-lo para ser responsável pela sua vida, com uma postura crítica. É importante existir esse tipo de instituição que não tem como objetivo só uma preparação instrumental. É uma perspectiva interessante, porque a tendência é menos ética, menos moral. Em vários lugares no mundo, inclusive no Brasil, a educação virou um mercado para gerar lucro, vender curso, enriquecer. A educação marista procura conviver com essa realidade, mas num aspecto mais espiritual, mais humano. Tive a oportunidade de participar do primeiro congresso marista em 1997, em Curitiba, e fui convidado para uma intervenção durante este evento. O que me impressionou mais é que este congresso é um encontro da comunidade marista de todo o Brasil. Tem heterogeneidade, diversidade cultural, diversidade de instituições, o que é uma questão muito importante.

No Brasil, a educação enfrenta um problema muito sério: cada vez menos pessoas querem trabalhar como professores, principalmente nos Ensinos Fundamental e Médio. O que poderia ser feito? A melhora do salário resolveria?
Estou pesquisando agora mesmo a questão da qualidade da educação básica no Brasil. A ideia é ver a opinião dos professores que atuam na rede particular e pública sobre a qualidade da educação. A maioria dos professores que entrevistamos conta que o salário tem relação com o desempenho deles, porém, muitos acreditam que melhorar o salário não vai necessariamente implicar a melhoria do trabalho do professor. Não é só salário, é uma questão de reconhecimento social. No Brasil, percebo que o professor não tem esse reconhecimento. Alguns até comentaram: “Quando as pessoas sabem que a gente é professor de Ensino Fundamental, dizem: ‘que pena, você não encontrou outro trabalho?’ ”. Não tenho solução para reformar isso, mas essa pesquisa pode ajudar a ver por que a questão é assim.

Alguns países com o mesmo nível de desenvolvimento do Brasil conseguiram avanços nessa área. O que poderia ser tomado como exemplo?
Para melhorar a educação básica num país, estudam-se vários países no mundo, sobretudo os asiáticos, que alcançaram um bom nível educacional. O que se pode observar? Primeiro: tem que investir mais na educação. O Brasil investe bastante, mas não investe o correspondente à sua riqueza econômica. A qualidade da educação não pode sair de uma escola que não tem banheiro, não tem teto, não tem água. Todos os estudos internacionais apontam a importância da questão da infra-estrutura. Há também os livros didáticos. Não existe um lugar no mundo onde a educação melhorou sem livro didático apropriado, publicado no lugar, de acordo com realidade cultural e social local. O terceiro ponto é a formação e a condição do trabalho do professor.

Passando do ensino básico para o superior. O que o senhor acha da experiência do ProUni e das cotas no Brasil?
É difícil para um pesquisador estrangeiro opinar de forma lúcida sobre isso, mas vou tentar. Eu ministro um curso sobre educação comparada e relato sobre essa experiência brasileira. Algumas pessoas falam que a educação tem que se basear na questão do mérito. Outra parte da população acha que existem alguns grupos discriminados socialmente, e que o Estado tem o papel de ajudar esse grupo para participar realmente da vida social, política e educacional. No Brasil, historicamente, o programa educacional foi inspirado no dos Estados Unidos. O programa norte-americano é baseado nas categorias raciais. Significa que o cidadão americano se encaixa em categorias, como branco, mestiço, negro, entre outros. O problema é que aqui no Brasil a pessoa é que tem que dizer a sua “categoria”. Deixa muita margem à interpretação de cada um, e essa designação da raça dá problema. Na França a ação é territorial, ou seja, quando você mora num bairro periférico, o Estado vai ajudá-lo, não você, mas o bairro. Por exemplo, o professor que trabalha numa favela ganha mais do que um que trabalha no centro da cidade. O que acho interessante na perspectiva brasileira é a questão social, sobretudo os alunos que passaram pela rede pública e podem ingressar em universidade pública ou privada.

E quanto à educação a distância no ensino superior? O senhor acredita que é uma tendência?
Vejo que havia muita esperança nos cursos a distância. Vou falar da minha própria experiência lá na Universidade de Genebra. Estou experimentando cursos semipresenciais e percebo que, para se ter um bom curso a distância, você precisa trabalhar mais do que com cursos tradicionais. Quando decidi fazer uma parte do curso nessa modalidade, não tive tempo suficiente para melhorá-lo para que fosse adaptado. Um curso a distância pede muita preparação no aspecto técnico, gráfico. Esse tipo de curso tem muita interatividade com os alunos. O que significa que podemos contatar o professor a qualquer momento do dia, da noite. Há uma relação privilegiada com cada estudante. O problema é que isso também precisa de tempo. Mas isso depende também da disciplina. Tenho uma postura bastante crítica sobre uso e abuso de cursos a distância na educação superior.

A questão é, queremos curso a distância porque é mais barato ou mais eficiente para conseguir um objetivo de aprendizagem?
Aqui na PUCRS nós temos alguns cursos com disciplinas a distância na graduação, uma ou duas...
Penso que não se deve parar a experiência com cursos a distância. O que não acredito é num programa inteiro nessa modalidade. A presença de uma ou duas disciplinas com material bem preparado é válida. O melhor curso a distância é aquele criado na universidade que ajuda o professor a prepará-lo, que investe.

Esta entrevista saiu na Revista Informação, da PUCRS, n° 141, setembro/outubro, 2008, p. 25 e 26.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

INSCRIÇÕES PARA O 1° SIEL - AVISO

Caros colegas,

As inscrições para o público externo se esgotaram. Eram 40 vagas. No entanto, em caso de não preenchimento de vagas reservadas aos professores municipais de Leopoldina, à SRE e ao Cefet, disponibilizaremos as mesmas àqueles que estão sendo colocados na fila de espera. Até dia 15 de março teremos uma posição para estas pessoas.

Infelizmente não temos como inscrever mais de 250 pessoas, pois o espaço físico não comporta. Pedimos que confira sua inscrição na sua escola na semana do evento ou pelo e-mail nogueira.natania@gmail.com.

No dia do evento não serão feitas inscrições e as pessoas que não estiverem na listagem não poderão participar. Também não serão aceitas transferência de vagas. Se algum inscrito não puder ir, deverá cancelar a inscrição, mas não poderá passá-la para outra pessoa.


Pedimos sua compreensão e lamentamos não poder atender a todos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Saiba mais sobre os palestrantes que irão se apresentar no I SIEL


Abdeljalil Akkari

Doutorado em Ciências da Educação na Universidade de Genebra (1992). Pós-doutorado na Universidade de Baltimore (1998). De 1996 a 1998 foi professor visitante na Universidade de Maryland, em Baltimore. Foi decano da pesquisa no Haute École Pédagogique (BerneJuraNeuchâtel) até 2008. Atualmente leciona na Universidade de Genebra, como professor de “Dimensões Internacionais da Educação”. Sua pesquisa envolve desigualdades educacionais e educação comparada e, também, sobre conexões entre culturas e educação. É consultor da UNESCO. Ensinou nas universidades de Fribourg e de Genebra. Atua nas áreas de formação de professores, da instrução de minorias culturais, da análise de desigualdades educacionais e da cooperação internacional na pesquisa na instrução. Publicou os seguintes livros:

Akkari, A &. Gohard-Radenkovic, A. (Ed). (Sous presse). Coopération internationale : entre accommodements interculturels et utopies du changement ? Paris : Harmattan.

Dasen, P. & Akkari, A. (Ed.). (sous presse). Educational ideas from the majority world. Delhi: Sage India.

Akkari, A. Solar Pelletier, L. & Heer, S. (Ed). (2007). L’insertion professionnelle des enseignants. Bienne (Suisse) : Editions de la HEP-BEJUNE.

Akkari, A. & Dasen, P. (Ed.) .(2004). Pédagogues et pédagogies du Sud. Paris: L’Harmattan.

Akkari, A. , Sultana, R. & Gurtner, J-L. (Ed.). (2001). Politiques et stratégies éducatives. Termes de l'échange et enjeux Nord-Sud. Bern: Peter Lang.

Akkari, A. (1993). Modernisation des petits paysans. Une mission impossible? Tunis: Éditions Éducation & Cultures.


Camila Pompeu

Possui graduação em Bacharelado e Licenciatura Em Dança pela Faculdade de Artes do Paraná (2003), Especialização em Fundamentos do Ensino da Arte pela Faculdade de Artes do Paraná; Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, PUC-PR, ( A arte como prática de liberdade na formação de professores: um olhar freireano sobre o papel da expressão artística na prática pedagógica).

Atualmente é coordenadora e professora de arte - Colégio Marista Santa Maria. Tem experiência na área de Artes, com ênfase no ensino da Arte, atuando principalmente nos seguintes temas: corpo, educação, formação de professores, ensino-aprendizagem, arte, dança e escola.


Glauci Pereira Ferraz Catrinck

Psicóloga formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1997). Foi bolsista de Extensão no Projeto: “Avaliação Psicológica de Crianças com Dificuldades de Aprendizagem”; trabalhou na ESCOLA MUNICIPAL SANTANA ITATIAIA, Juiz de Fora (1997) com Psicologia Escolar e atendimento em grupo a alunos com problemas de socialização.Atualmente atrabalha como Psicóloga Coordenadora do Serviço do Serviço de Enfrentamento à Violência, ao Abuso, e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes, em Leopoldina.


José Antônio Pinto

Licenciado em Ciências e Licenciado em Física pela Universidade Federal de Viçosa (1984). Mestrado em Ciências Naturais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (2006). Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, atualmente ocupando o cargo de Diretor do Campus III (Leopoldina) do Cefet MG. Pesquisa na área de Formação Continuada professores.


Karina Saavedra Acero Cabello

Bióloga e pesquisadora peruana, mestre em biologia pela FIOCRUZ, desenvolve trabalho na área de educação em saúde.


Lívia Freitas Fonseca Borges

Possui graduação em Pedagogia pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília, graduação em História pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília, Mestrado em Educação pela Universidade de Brasília e Doutorado em Sociologia pela Universidade de Brasília. Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Superior e Educação Profissional, atuando principalmente nos seguintes temas: currículo, formação docente, pedagogia e educação superior.


Marco Antônio Vieira

Pedagogo (UCB-1989), Historiador (UERJ-1996), Especialista em Administração,Supervisão e Orientação Educacional (UFF-1997) e Mestre em Educação (UFF-1998). Seu foco de interesse profissional é em "História da Educação", "História do Magistério" e "Paulo Freire e a Formação de Professores". Atualmente é professor do curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá e sócio-diretor de uma pequena empresa de assessoria educacional, Pedagogium - Assessoria,Cursos e Eventos Ltda.

Programação do 1° SIEL


Local: CEFET - Campus III - Leopoldina

Credenciamento e Café da manhã: 07:30 – 08:30

Abertura: 08:30 – 09: 10


Palestra de abertura : 09:10 – 10:30

"Docência na Educação: elementos integradores"

Lívia Freitas Fonseca Borges


Mesa I: Desafios na formação de professores : 10:30 – 12:00

A formação de professores de Física

José Antônio Pinto


Formação de professores e educação em saúde

Karina Saavedra Acero Cabello


Almoço: 12:00 - 13:30

Mesa II: História, Arte, educação e violência na escola- 13:30 – 15:30

História do Magistério no Brasil: reflexões sobre a gênese e a trajetória.

Marco Antônio Vieira


Arte-Educação e Paulo Freire: do corpo interditado ao corpo emancipado na Escola

Camila Pompeu da Silva


A Violência na Escola e sua Influência no Rendimento, Freqüência e Evasão Escolar.

Gláuci Pereira Ferraz Catrinck


Momento cultural – 15:30 – 16:00

Grupo Folclórico do CEFET: ASSUM PRETO


Palestra de encerramento 16:00 – 17:20

Educação básica de qualidade, projeto politico-pedagógico e trabalho docente: uma articulação necessária - Abdeljalil Akkari


Encerramento 17:20

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Começando a inventariar a documentação da Câmara e Prefeitura de Leopoldina


Apesar de ainda ter muita coisa para tirar do "arquivo municipal", como eu só tenho um dia na semana para me dedicar a esta tarefa, e poucas pessoas para ajudar, eu estou indo algumas vezes na semana na sala onde estão sendo depositados os documentos para fazer uma limpeza manual, com pincel, de cada folha, para tentar uma higienização inicial. Um dos primeiros livros que peguei foi justamente um livro de atas da Câmara Municipal de Leopoldina, do ano de 1858. Uma preciosidade, assinada por um dos mais ilustres representantes do nosso município no Império: Manuel José de Castro.

Manuel José Monteiro de Castro, primeiro barão de Leopoldina, nasceu em 3 abril 1805 em Congonhas do Campo (Mg). Ele faleceu em 27 fevereiro 1868 em São Martinho, Distrito de Providência (Mg). Manuel José Monteiro de Castro foi um militar e político brasileiro.

Filho de Domiciano Ferreira de Sá e Castro e de Maria do Carmo Monteiro de Barros, casou-se com sua prima Clara de Sá e Castro. Oficial de milícias, em 1824, comandou uma companhia da Guarda Nacional, no combate de José Correia.

Em 1833 participou da sedição militar de Ouro Preto. Foi eleito para diversos cargos públicos, sendo presidente da câmara municipal de Ouro Preto, em 1860. Agraciado barão em 6 de setembro de 1862, era comendador da Imperial Ordem da Rosa.

Barão de Leopoldina é um título nobiliárquico criado por D. Pedro II do Brasil. Usaram o título:

1 - Manuel José Monteiro de Castro (1805 — 1868) - 1º barão de Leopoldina.

2 - José de Resende Monteiro (1810 — 1888) - 2º barão de Leopoldina.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

INSCRIÇÕES PARA O 1° SIEL

Começam nesta segunda as inscrições para o 1° SIEL (Seminário Internacional de Educação de Leopoldina), que será realizado na cidade de Leopoldina (MG). As inscrições serão até o dia 13 de março através do e-mail nogueira.natania@gmail.com

Não serão aceitas inscrições na hora do seminário.

O 1° SIEL destina-se a profissionais da educação e alunos de graduação. Serão reservadas 150 vagas para os professores e especialistas da rede municipal de ensino, 30 vagas para funcionários da SRE de Leopoldina, 30 vagas para professores e especialistas do CEFET e 40 vagas para estudantes e profissionais de ensino que atuam na rede particular e estadual.

O critério para preenchimento das vagas é a ordem de inscrição. Escolas municipais que não fizerem a inscrição de seus professores em tempo hábil, correm o risco de que as vagas se esgotem.

No caso de não preenchimento de todas as vagas destinadas a um dos grupos acima citados, estas vagas serão redistribuídas.

As vagas são intransferíveis, portanto, se por alguma razão o/a inscrito(a) não puder participar, favor comunicar com a organização para que a inscrição seja cancelada.

O e-mail com as inscrições deverá conter os seguintes dados:

Nome:
Área de atuação:
Instituição à qual está vinculado(a):
Cidade:
Estado:
Situação atual:
( ) professor da rede municipal
( ) professor da rede municipal e/ou estadual
( ) estudante
( ) outro________________________________________

O Seminário será realizado no dia 21 de março (sábado) com início previsto para as 8 horas e término às 18 horas. Estaremos, em breve, colocando no ar a programação final, acompanhada dos resumos das palestras que serão proferidas.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O professor não tem prestígio

O texto saiu no Correio Brasiliense, e reflete sobre a situação dos professores e do ensino no Brasil. Vale a leitura e um balanço pessoal sobre a carrei do magistério e suas perspectivas futuras. Vale também pensar na formação de professores, tão debilitada nos últimos anos e tão emergencial para um país como o nosso, que carece cada vez mais de profissionais competentes.

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O professor não tem prestígio
Jaime Pinsky

Historiador, doutor e livre docente pela USP, professor titular da Unicamp, coordenador e coautor do livro Ensino de história e criação do fato, entre outros

O professor perdeu prestígio. A notícia parece mais velha do que andar pra frente, como diria minha tia Ana, mas agora vem associada a outra: o país forma cada vez menos professores. A carreira atrai menos gente. O diretor do Colégio Bandeirantes, um dos melhores de São Paulo, em entrevista à Folha de S.Paulo, diz que houve desvalorização da carreira do magistério. Um pesquisador da USP alerta que "apenas 2% dos estudantes de escolas médias de ponta declaram que vão prestar vestibular para ser professor". Isso significa que professores são formados entre os que cursam escolas menos boas. São, portanto, menos preparados. E vão encontrar pela frente alunos cada vez mais difíceis. O resultado, todos sabemos: o Brasil é mais conhecido no mundo pela indisciplina e incontinência etílica e sexual de seus jogadores de futebol do que pelos resultados obtidos por seus estudantes.

Não sei se esse quadro é reversível, a esta altura do campeonato. Mas dá para analisar a questão de forma um pouco mais complexa do que simplesmente esmolar por mais prestígio, como se isso pudesse ocorrer por decreto. De resto, esperar que baixe uma medida provisória por parte de um presidente que não lê, assume que não lê, se orgulha de não ler e ainda tem mais de 80% de aprovação da população, é ilusão em estado puro.

Parte do problema tem a ver com a própria forma de os professores perceberem seu papel no mundo de hoje. Muitos deles se equivocam na sua relação com os alunos, uma vez que têm a pretensão de lhes fornecer informações, como se estivéssemos em pleno século 19 e o rádio, a TV e, principalmente, a internet não tivessem sido inventados. Crianças e jovens, mesmo de escolas públicas, são bombardeados com informações, não têm mais como serem preservados até que os pais e a escola decidam o que e como eles devem conhecer. Decidir quando é o momento de fazer o aluno ter contato com determinada informação era algo possível na era de Gutemberg, e essa já acabou.

Hoje cabe aos professores tarefa diferente, a de transformar informações em conhecimento, o que implica promover a articulação de dados fornecidos por um mundo aparentemente desconexo. E não são muitos os professores preparados para desempenhar esse papel. Transformar informações em conhecimento organizado, sistematizado, pressupõe conhecimento que está fora do alcance de mestres que nem sempre se preocupam, eles mesmos, em construir uma base teórica sólida, que implicaria ler livros e lê-los bem. Pergunta: qual o percentual de professores que faz isso?

Claro que uma parte do problema está com o poder público, com as autoridades educacionais. Salvo meia dúzia de municípios e duas ou três secretarias estaduais de educação não se nota preocupação em fornecer aos professores livros de boa qualidade (mesmo que acessíveis, não adianta confundir educação contínua com disciplina de pós-graduação) para que eles robusteçam sua formação, solidifiquem sua massa teórica e atualizem sua prática em sala de aula. E dar livros não é o suficiente, há que se cobrar deles a leitura. Sim, professores devem ser cobrados, para que não se continue a nivelá-los por baixo. Não é aceitável que livro didático do professor continue sendo fonte única do saber daquele que é responsável pela educação dos alunos.

Para os professores recuperarem o prestígio social eles precisam, antes de mais nada, aumentar sua autoestima. Com mais autorrespeito poderão lutar por melhores condições de trabalho, por salários mais dignos, pelo reconhecimento de seu papel (que não é o de babás de alunos grosseiros e agressivos). Mas tudo passa por sua qualificação, para a qual órgãos de classe e governo deveriam se unir.

De pouco tempo para cá até técnicos de futebol, muitos deles analfabetos funcionais, passaram a ser chamados de professor. Imagine a grita se fossem denominados advogados, ou médicos, ou enfermeiros. Para os professores parece algo aceitável, até normal, ver um sujeito ululando ao lado do campo, gesticulando para as câmaras de TV (já que seus gritos não são ouvidos por ninguém num estádio cheio) ser chamado de professor.

Será que é assim que os professores se percebem? Patéticos? Gritando e não sendo ouvidos, fingindo ensinar para aqueles que ou já sabem, ou não vão aprender com eles? Os técnicos de futebol pelo menos ganham melhor.

Fonte: http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/opiniao/pri_opi_173.htm

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

I Seminário Internacional de Educação de Leopoldina


DATA: 21 de março de 2009 (sábado)

LOCAL: Auditório do CEFET - CAMPUS III - Leopoldina

PÚBLICO ALVO: Estudantes e profissionais do ensino

DURAÇÃO: 8 HORAS

ORGANIZAÇÃO: Natania Aparecida da Silva Nogueira

PROMOÇÃO: CEFET/Uned/Leopoldina e Prefeitura Municipal de Leopoldina

VAGAS LIMITADAS

APOIO: Editora Junqueira& Marin, YAHOO, Superintendência Regional de Ensino

INSCRIÇÕES: DE 16 DE FEVEREIRO A 13 DE MARÇO DE 2009

INFORMAÇÕES: nogueira.natania@gmail.com


Em breve divulgaremos a programação completa.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Arquivo Histórico de Leopoldina: um sonho que está se tornando realidade

Depois de mostrar as fotos do arquivo e conversar com a Secretária de Cultura (Maria Lúcia Braga) e o Presidente da Câmara (Totõe), contando com o apoio dos vereadores Edivaldo e "Tizinha", além, é claro, de colegas do conselho de patrimônio e funcionários da Câmara, tenho a satisfação de poder noticiar que estamos transferindo a documentação antiga da prefeitura para um espaço cedido pela Câmara que poderá, futuramente, abrigar o arquivo da Câmara e o Arquivo Histórico de Leopoldina.

Hoje começamos a retirar os documentos, dentre os quais estão livros de atas de reuniões, datados de 1877. Acredito que possamos encontrar documentos ainda mais antigos. Apesar do aparente estado de deteriorização, boa parte da documentação do século XIX está legível. As capas, muitas estão irrecuperáveis, mas o "miolo" está quase perfeito. Ironicamente, a documentação mais recente está em pior estado.

Há caixas e mais caixas de documentos totalmente inutilizados, vítimas de insetos e da umidade. A forma como os documentos foram jogados também contribuiu para sua deteriorização. Fiquei espantada quando encontrei, em meio às caixas e livros espalhados na sala uma caixa de remédios, vencida. Olhando em volta, encontrei embalagens de plástico de uso farmaceutico. Fico imaginando o que muitas pessoas acham que arquivo e depósito de entulho é a mesma coisa. Mas acredito que muita coisa pode ser recuperada e prefiro não pensar no que se perdeu, mas no que ainda pode ser recuperado.

Estamos discutindo a possibilidade de, em breve, trazer a Leopoldina especialistas em arquivos e em recuperação de documentos da UFJF pra prestar consultoria e promover o treinamento de funcionários da prefeitura para o trabalho de organização e restauração do acervo. Seguem as fotos do nosso primeiro dia de trabalho.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Resgatando a documentação de Leopoldina

Hoje a tarde eu e Lucilene Nunes fomos até o "arquivo" da prefeitura para tentarmos começar um longo processo de organização e recuperação do acervo. Pois bem, nos interessa a documentação produzida no século XIX a meados do século XX. Infelizmente esta documentação foi depositada em uma sala, que fica em um prédio onde funcionam alguns organismos públicos.

A dita sala está fechada há anos, sem ventilação. A lâmpada não acende e a janela não pode ser aberta por conta de uma pilha imensa de papel que a cobre quase que pela metade. Este é um pedaço do arquivo de Leopoldina (outra parte fica em uma casa alugada pela prefeitura, e em melhor estado de conservação). O que fizemos hoje é um reconhecimento. Podemos afirmar que existe ali documentação da época do império, misturado a livros de ponto, atas de reuniões da Câmara, registros financeiros e muito, muito papel esparramado e livros despedaçados.



A atual gestão no deu carta branca para organizar ou pelo menos tentar ordenar a documentação. Mas será um trabalho pesado, que deve tomar dias (só para separar o que está no depósito que chamam de arquivo). Após esta separação, a sala deverá ser arrumada (com armários, e mobiliário necessário) para que esta documentação possa ser consultada. Em alguns meses talvez tenhamos um espaço para consulta deste material, que pode ser muito importante para a construção da nossa história.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A FERROVIA EM LEOPOLDINA

Estou fazendo um pequeno estudo sobre a Ferrovia na Zona da Mata, mais especificamente a Ferrovia em Leopoldina. Infelizmente, falta-me alguma material que ainda precisa ser pesquisado. No final do ano eu tive que parar com meus artigos e fiquei com muita coisa pendente - tanto com relação à História Local, quanto em relação a pesquisas dentro da área da Educação.

No entanto, hoje durante uma reunião com nossa Secretária de Cultura o tema foi levantado e eu me senti na obrigação de colocar alguma coisa no blog, que eu já tinha escrito, até como forma de reviver estar informações em minha mente. Segue um pequeno trecho do trabalho que ainda deve demorar um pouco para ser concluído.
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O TRANSPORTE NA ZONA DA MATA: DO LOMBO DAS MULAS AOS VAGÕES DAS LOCOMOTIVAS

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O sistema de transporte de Minas Gerias baseava-se, até meados do século XIX em precárias estradas e trilhas, por onde passavam tropas de mulas e carroças em direção aos pequenos povoamentos lá existentes. De colonização recente, a Zona da Mata possuía uma grande dificuldade de estabelecer comunicações e trocas comerciais com outras regiões. Segundo Peter Blaseheim,(1) antes da abertura da primeira estrada pavimentada, no ano de 1861, a viagem de 215 km de Juiz de Fora ao Rio de Janeiro (capital), durava quatro dias e era feita no lombo de mulas. A necessidade de encurtar distâncias e estabelecer pólos de comunicação, assim como escolar a produção da região fez com que fazendeiros da Zona da Mata financiassem a abertura de trilhas e estradas.
Na década de 1810, Francisco Leite Ribeiro, que fundador do município de Mar de Espanha, estabeleceu comunicações através da abertura de trilha e do transporte por meio de barca entre Mar de Espanha e a Província do Rio de Janeiro, em 1823. Na década de 1840, ele abriu outra trilha ligando Mar de Espanha, São João Nepomuceno e de Rio Novo à capital provincial de Ouro Preto. Leite Ribeiro planejava, também, uma estrada para carroças de Mar de Espanha até Feijão Cru, atual município de Leopoldina.
Foi em 1836 que o futuro Barão de Bertioga, Antônio José de Silva Pinto, ganhou um contrato do governo provincial para ampliar a Estrada Nova, ou Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes, a trilha colonial que ligava o centro de Minas à costa, de Juiz de Fora até a fronteira da província do Rio de Janeiro. Enquanto Silva Pinto patrocinou e financiou o projeto, o engenheiro alemão Henrique Guilherme Halfeld, o desenvolveu. O Caminho Novo passou a ser chamado de Estrada Paraíbuna e deu origem ao município de Juiz de Fora. Segundo Wilson de Lima Bastos, foi Halfeld um dos responsáveis pela fundação de Juiz de Fora.(2)
Em1861, foi inaugurada a Estrada de Rodagem União e Indústria, ligando a cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro a Juiz de Fora, em Minas Gerais. A estrada foi construída sobre o traçado do Caminho Novo, por onde só passavam pedestres e muares. Ela representou um grande avanço para os transportes na época, sendo a primeira rodovia pavimentada da América Latina. O projeto da estrada começou em 1854 quando o Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, figura influente do império, recebeu a concessão por 50 anos para a construção de uma rota que, partindo de Petrópolis, se dirigisse à margem do Rio Paraíba. Mariano Procópio criou então a Companhia União e Indústria, que deu nome à estrada. Seu lucro vinha do pedágio por mercadoria cobrado dos usuários da Estrada União e Indústria.
O regulamento da empresa de construção e o próprio contrato de construção da estrada proibia o uso de mão-de-obra escrava, apenas alemães ou portugueses. Por esta razão, Mariano Procópio fundou um a colônia de imigrantes alemães com 3000 pessoas, a primeira da cidade de Juiz de Fora, em 1858, chamada de colônia D. Pedro II.(3)
Motivado, talvez, pela prosperidade trazida pela Estrada União Industria à região do Paraibuna, Manoel José Monteiro de Castro, primeiro Barão de Leopoldina, liderou a campanha por um sistema de transporte mais eficiente e extenso na Mata oriental. Leopoldina estava se transformado num importante município produtor de café e necessitava de vias de transporte mais seguras e eficientes para escoar sua produção.
Em 1867, a legislativa provincial prometeu a Monteiro de Castro apoio financeiro para uma estrada que ligasse Leopoldina a Mar de Espanha com Porto Novo no Rio Paraíba, mas o projeto nunca foi financiado. Enfurecidos, os fazendeiros de Leopoldina formaram um plano para separar-se de Minas e juntar-se à Província do Rio a qual esperavam ser mais favoráveis a aliviar o “engarrafamento” de “transporte”.(4)
Os leopoldinenses não haviam conseguido o financiamento para sua estrada, nem se separar de Minas Gerais, mas conquistariam na década de 1870 algo ainda melhor, uma linha ferroviária pela qual poderia escoar toda a sua produção de café.
No Brasil, as ferrovias chegaram em meados do século XIX, durante o segundo reinado. O governo Imperial assentou o fundamento para as ferrovias em 1852, com uma lei que garantia 5% de juros para quem investisse em companhias aprovadas. Para atrair noivos investidores as províncias do Rio, São Paulo e Minas concordaram em acrescentar 2% aos 5% já garantidos pelo Governo Nacional.(5) A estes incentivos uniram-se vultuosos empréstimos feitos a bancos britânicos.
O empresário Irineu Evangelista de Souza (o Visconde de Mauá) foi contratado, em 27 de abril de 1852, pela Província do Rio de Janeiros para construir a primeira via férrea do Brasil, partindo do porto de Mauá até a Raiz da Serra de Petrópolis. Fundada em 29 de maio de 1952, a Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrado de Ferro de Petrópolis, foi a primeira do gênero no Brasil e teve Irineu Evangelista como seu presidente.
Na Zona da Mata, na década de 1870, destacadamente nos municípios produtores de café, os fazendeiros de café da Mata não escondiam seu interesse pelo transporte ferroviário, visto o impacto das ferrovias sobre a economia cafeeira paulista, assim como a proximidade da Pedro II. Muitos representantes da Mata afirmavam que as exportações de café das áreas atendidas pela ferrovia assegurariam a prosperidade das linhas da Mata. O governo da província conferiu à região da Zona da Mata 11 das 25 concessões outorgadas na década de 1870. Até 1884, a Mata possuía 602 quilômetros de via férrea, enquanto o restante da rede de Minas incluía 269 quilômetros na região Sul e 135 quilômetros na região centro.(6)
As ferrovias foram elementos decisivos na conformação do complexo cafeeiro, a chegada da ferrovia representa uma revolução na economia local (7). Ele permite o aumento das margens de lucro por reduzir oi custo do frete, o tempo e transporte e eliminar perdas, liberou uma parcela do capital que antes estava imobilizado em muares, aproveitando nas lavouras os escravos que antes eram usados na s tropas – lembrando que a partir de 1880, com o fim do tráfico, conseguir escravos era muito mais caro e difícil. Assim, ao poder concentrar a mão-de-obra em atividades diretamente produtivas, o fazendo estava facilitando o processo de acumulação do capital. A chegada da ferrovia, em uma primeira análise, veio a capitalizar e modernizar ainda mais a lavoura cafeeira, fato que se traduzia no aumento dos lucros e na diminuição dos cursos.
A ferrovia facilitou, também, o deslocamento de mão-de-obra. Na década de 1870 o governo brasileiro passou a subsidiar a imigração. Os fazendeiros participaram do processo, organizando-se em sociedades anônimas que promoviam a imigração, até o ponto de destino. O café proporcionou ás comunidades o calçamento, a luz elétrica e, finalmente, certa ordem social e política. As cidades progrediram após a especialização da lavoura com renda superior. (8)
A ferrovia era um símbolo de civilidade, de progresso. Representava uma marca de status para os municípios por onde passava e se tornou um instrumento político para fazendeiros, cujas representações na província procuravam concentrar o maior controle possível sobre as linhas férreas. Entre as décadas finais do século XIX e a primeira metade do século XX as ferrovias da Zona da Mata teriam um papel decisivo tanto no desenvolvimento econômico quanto nas relações políticas da região, com destaque para a Companhia Estrada de Ferro Leopoldina, fruto de investimentos de fazendeiros da Zona da Mata e de empresários fluminenses.
A Leopoldina foi a primeira estrada de ferro de Minas Gerais, criada pela Lei da Província de Minhas Gerais n°, 1826, de 10 de outubro de 1871. A linha férrea da Leopoldina partia de Porto Novo da Cunha (Além Paraíba), onde terminavam os trilhos da Pedro II, com o destino final a cidade de Leopoldina. O Decreto Imperial 4.914 de 27 de março de 1872 concedeu ao engenheiro Antonio Paulo de Mello Barreto permissão para organizar uma companhia para construir a estrada de ferro. O decreto 4.976, de 05 de junho de 1872 autorizou seu funcionamento.
Em fevereiro de 1873, foi iniciada a construção. O primeiro trecho foi aberto em 1874 e inauguradas as primeiras três estações: São José (Além Paraíba), Pântano (Fernando Lobo) e Volta Grande. e em 1875 já chagava a Abaíba (Distrito de Santa Izabel). Em 1877 foram entregues ao tráfego as estações de Cataguases (Santa Rita da Meia Pataca) e Leopoldina No ano de 1879 atingia Ubá, Cataguases e Leopoldina. A macha ferroviária da Leopoldina atingia os Estados do RJ, ES, MG.
Segundo Blasemheim, O terminal de Cataguases causou um mal-estar entre o engenheiro da companhia Antônio Pedro de Melo Barreto (concessionário original) e os fazendeiros de Leopoldina. Por conta do das dificuldades apresentadas pelo terreno próximo da zona urbana do município de Leopoldina, Barreto mudou o terminal para Meia Pataca (Cataguases), 12 quilômetros para norte.
Os leopoldinenses não aceitaram o terminal de Cataguases e propuseram um ramal de 12 quilômetros que ligasse o distrito urbano ao tronco principal, em Vista Alegre. Esta linha, argumentavam, triplicava a quilometragem dentro do condado e dava a mais fazendeiros acesso à ferrovia. Tiveram seu desejo realizado quando o ramal de Vista Alegre foi inaugurado, em 1877, junto com nove estações da linha principal. Isto trouxe a ferrovia até Cataguases, 105 quilômetros ao note de Porto Novo.(9)
O fazendeiro Nominato de Souza Lima, deputado provincial de Leopoldina entre os anos de 1872-1873 durante a 19ª legislatura da Assembléia Provincial, Leopoldina, propôs a primeira concessão para a ferrovia em 1871. Juntamente com outros dois fazendeiros da região, Antônio de Santa Cecília, representante de Leopoldina na Assembléia de 1882 e tabelião da companhia, e Cesário Alvim, natural de Ubá, líder do partido liberal e o primeiro governador do Estado de Minas, eram importantes acionistas da Leopoldina e usaram sua influência política em vários momentos para garantir o controle da companhia pelos fazendeiros e investidores fluminenses. Outro político importante e que foi um dos diretores da Leopoldina foi o Visconde de Sinimbú, o Primeiro Ministro do Imperador, e membro do Partido Liberal.

Apesar da grande expansão conquista nos primeiros anos de funcionameento, a leopodiba enfrentou muitos problemas. Dentre eles, a desorganização da rede matense e a ineficiência da companhia na manutenção de seus ramais. O desejo dos fazendeiros da Mata de ter acesso direto aos serviços da ferrovia contribuiu para esta desorganização. Já em 1877 Bendito Valadares previa a falência de grandes companhias, como a Leopoldina. Segundo Valadares, não havia um planejamento eficiente. Nem mesmo a rica Mata, argumentou Valadares, poderia produzir bastante café para sustentar nove companhias ferroviárias.(10)
Em 1890, a Leopoldina havia absorvido as pequenas companhias, incapazes de concorrer com sua extensa rede, que atingia os principais municípios cafeeiros da linha Porto-Cataguases. No entanto, o mal planejamento e a pouca eficiência da rede levou a companhia a enfrentar sérios problemas. Comprou a preços elevados outras linhas, com empréstimos feitos a bancos ingleses, Ao mesmo tempo, seus diretores se preparavam para fundar outras empresa: a Companhia Geral de Estradas de Ferro. Em 1893, esta manobra foi descoberta e considerado um dos mais audaciosos golpes financeiros da época, com fuga de alguns diretores e a prisão de outros.(11)
Com vários problemas financeiros a C.E.F.Leopoldina, que havia sido a maior companhia particular da Mata, a companhia sofreu liquidação forçada em 1897 e em 14 de março de 1898 decretou falência. Seu controle acionário foi transferido aos seus credores ingleses, sendo criada a THE LEOPOLDINA RAILWAY COMPANY LTD., que assumiu a operação da ferrovia, em 1898.(12)
Com a crise do café (1930) e as restrições impostas às importações durante a II Guerra, a Companhia foi parar nas mãos do governo Federal, em 1850, transformando-se na Estrada de Ferro Leopoldina, sendo incluída na Rede Ferroviária Federal (1957). De 1957 a 1965 a rede passou por um período de declínio com a suspensão de vários ramais. Atualmente as linhas da E F Leopoldina pertencem à Ferrovia Centro Atlântica e apenas uma pequena porcentagem está em operação.



[1] BLASENHEIN, Peter. Uma história regional: a Zona da Mata mineira (1870-1906). In.: Seminário de Estudos Mineiros: a República Velha em Minas. Belo Horizonte: UFMG/PROED 1982, p. 73-90; e As ferrovias de Minas no século XIX. In.: Locus: Revista de História. Núcleo de História Regional/UDUFJF, v. 2, n. 2, p.83.
[2] BASTOS, Wilson de Lima. Engenheiro Henrique Guilherme Fernando Halfeld: sua vida, sua obra, sua descendência.Juiz de Fora. Edições Paraibuna, 1975, p. 17
[3] [3] BASTOS, Wilson de Lima. Mariano Procópio Ferreira Lage: sua vida, sua obra e sua descendência. Juiz de Fora; Edições Caminho Novo, 1961, p. 59-60.
[4] BLASENHEIN, Peter. Op. Cit, p.86
[5] BLASENHEIN, Peter. Op. Cit, p.87
[6] BLASENHEIN, Peter. Op. Cit, p.88-89
[7] SEMGHINI, Ulysses C., Do café Pa indústria: uma cidade e seu tempo. – Campinas, SP. Editora da Unicamp, 1997.
[8] MERCADANTE, Paulo. Os Sertões do Leste - estudo de uma região: a Zona da Mata Mineira. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973, p. 95.
[9] BLASENHEIN, Peter. Op. Cit, p.94.
[10] BLASENHEIN, Peter. Op. Cit, p.96.
[11] As três Leopoldinas e sua malha densa. Disponível em http://www.constrenge.com.br/historiaferrovia14.htm, acesso em 20/06/2008.
[12] GOMES, Amadeu, OLIVEIRA, Luis Carlos. Estrada de Ferro Leopoldina. Disponível em http://www.historiadaferrovia.com/leopoldina.html, acesso em 23/06/2008.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Especialistas vêem ensino de história mais crítico, mas ainda há falhas

Artigo publicado no Jornal do Brasil, 19 de janeiro de 2009. Foi enviado pelo colegal Júlio Calasans Maia e eu achei legal postá-lo aqui.

Fernanda Thurler - JORNAL DO BRASIL

A força aérea de Israel preparou uma operação de surpresa, os aviões inflectiram para o sul para atacar, simultaneamente, alvos árabes. Por terra, 235 mil militares armados preparam-se para a ofensiva. O cenário de guerra é o mesmo de hoje, a Faixa de Gaza, os envolvidos também, mas aconteceu em 1967, na famosa Guerra dos Seis Dias. Este é um fato relatado em todos os livros didáticos e ensinado aos alunos como um acontecimento referente a um passado acabado, sem uma correlação com o presente. Mas esta metodologia não é aprovada pelos historiadores consultados pelo Jornal do Brasil. Para a professora Ana Maria Mauad, doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), os educadores devem mostrar aos alunos, por exemplo, que o conflito deflagrado há 40 anos explica a guerra e as mortes de hoje.

- O presente devia buscar explicações no passado, mas os professores ensinam o conteúdo como simples quadros de desenvolvimento da humanidade sem relação com a atualidade - analisa Ana Maria. - A Orientação do Ministério da Cultura é de evitar o anacronismo e a naturalização dos conceitos.

A historiadora, que foi coordenadora adjunta da avaliação dos livros didáticos pelo MEC, explica que no primeiro segmento do ensino fundamental (1º ao 5º ano) a história é estudada junto com a geografia, na disciplina de estudos sociais. Quando os alunos passam para o segundo segmento (6º ao 9º ano), há ruptura total entre história e geografia. Esta metodologia segmentada, segundo Ana Maria, é reforçada durante os três anos do ensino médio:

- O vestibular engessa o ensino. As provas das universidades não estimulam o pensamento crítico do aluno, apenas a narração dos fatos. Na minha opinião é algo que tem de ser repensado. Este ensino enciclopédico dos fatos não desperta o interesse nos alunos. A escola deve ser criativa para produzir um conhecimento em que o aluno se sinta agente da história.

Livros didáticos

Sobre os livros didáticos, os mais antigos, segundo o historiador Antônio José Barbosa de Oliveira, eram mais factuais, preocupados em contar a história dos fatos, as datas, os personagens.

- Era como um receituário para o aluno poder decorar - compara o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). - Hoje, os livros de história estão mais contextualizados. Isso não significa que não sejam importantes nomes e datas, é fundamental ter a clareza dos acontecimentos e da cronologia para mostrar que a gente faz parte de um processo de continuidade e de rupturas. Mas há que se que buscar associações. Ao falar da quebra da bolsa de valores de Nova York, em 1929, o professor pode comprar com o que acontecia no Brasil no mesmo período, era o fim da República Velha e da política de exportação de produtos agrícolas.

Oliveira destaca que não tem como fugir muito das aulas expositivas, mas que a tecnologia pode ser um importante instrumento para atrair o aluno.

- Os filmes ajudam bastante, mas para gostar de história é imprescindível o prazer pela leitura - ressalta. - Todos os demais recursos são complementares.

Apesar de segmentado, segundo o pedagogo e autor de livros sobre educação, Hamilton Werneck, o ensino de história está mais crítico. Ele explica que os livros didáticos antigos retratavam o fato sob a ótica portuguesa. Já os mais recentes passaram a reconhecer a colônia, o país subdesenvolvido também como fazedor da história. Além disso, para Werneck, o que direciona os professores de hoje é a corrente francesa Les Annales, uma visão mais analítica e questionadora dos fatos.

- Hoje, uma criança estuda por livros que questionam a realidade. Não se estuda mais que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Fala-se do achamento da terra nova. Os portugueses sabiam da terra, mas não do tamanho nem das riquezas - exemplifica Werneck.

MEC avalia conteúdo didático a cada três anos

Para a análise dos livros didáticos de história, o Ministério da Educação seleciona 30 professores de todo o Brasil, todos funcionários de universidades públicas. São avaliados a metodologia de ensino-aprendizagem, os textos, ilustrações, exercícios e as atividades propostas que favorecem o desenvolvimento do pensamento autônomo e crítico. Para a professora Ana Maria Mauad, coordenadora adjunta da avaliação dos livros didáticos do ensino médio, as considerações finais foram muito positivas.

- Os livros atuais estão buscando uma renovação da forma do discurso, estão mais dinâmicos, evitando os conhecimentos cristalizados. É um processo em construção - avaliou Ana Maria.

Os livros do ensino médio são revisados a cada três anos. Os aprovados são redesenhados e publicados nos guias que são distribuidos às escolas. Segundo o MEC, os exemplares não podem "veicular preconceitos de qualquer espécie, ignorar as discussões atuais das teorias e práticas pedagógicas, repetir estereótipos, conter informações e conceitos errados ou análises equivocadas, ou ainda, contrariar a legislação vigente".

O livro do ensino médio deve ampliar os conhecimentos adquiridos ao longo do ensino fundamental; oferecer informações capazes de contribuir para a inserção dos alunos no mercado de trabalho, o que implica a capacidade de buscar novos conhecimentos de forma autônoma e reflexiva. O MEC conclui que "a escolha do livro deve ser criteriosa e afinada com as características da escola, dos alunos e com o contexto educacional em que estão inseridos".

Ensino Fundamental

Já a avaliação dos exemplares destinados ao ensino fundamental é feita cada quatro anos. O conteúdo deve contribuir para a formação intelectual e cultural dos estudantes; . favorecer o conhecimento de diversas sociedades historicamente constituídas, por meio de estudos que considerem múltiplas temporalidades; e propiciar a compreensão de que as histórias individuais e coletivas se integram e fazem parte da história.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

I Seminário Internacional de Educação de Leopoldina

Estamos fechando a programação do I SIEL - que deve ser divulgada na íntegra início de fevereiro. Mas já temos nosso convidados confirmados. Segue um currículo resumido de casa um dos participantes.

Abdeljalil Akkari

Doutorado em Ciências da Educação na Universidade de Genebra (1992). Pós-doutorado na Universidade de Baltimore (1998). De 1996 a 1998 foi professor visitante na Universidade de Maryland, em Baltimore. Foi decano da pesquisa no Haute École Pédagogique (BerneJuraNeuchâtel) até 2008. Atualmente leciona na Universidade de Genebra, como professor de “Dimensões Internacionais da Educação”. Sua pesquisa envolve desigualdades educacionais e educação comparada e, também, sobre conexões entre culturas e educação. É consultor da UNESCO. Ensinou nas universidades de Fribourg e de Genebra. Atua nas áreas de formação de professores, da instrução de minorias culturais, da análise de desigualdades educacionais e da cooperação internacional na pesquisa na instrução. Publicou os seguintes livros:


Lívia Freitas Fonseca Borges

Possui graduação em Pedagogia pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília, graduação em História pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília, Mestrado em Educação pela Universidade de Brasília e Doutorado em Sociologia pela Universidade de Brasília. Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Superior e Educação Profissional, atuando principalmente nos seguintes temas: currículo, formação docente, pedagogia e educação superior.


Marco Antônio Vieira

Pedagogo (UCB-1989), Historiador (UERJ-1996), Especialista em Administração,Supervisão e Orientação Educacional (UFF-1997) e Mestre em Educação (UFF-1998). Seu foco de interesse profissional é em "História da Educação", "História do Magistério" e "Paulo Freire e a Formação de Professores". Atualmente é professor do curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá e sócio-diretor de uma pequena empresa de assessoria educacional, Pedagogium - Assessoria,Cursos e Eventos Ltda.


Camila Pompeu

Possui graduação em Bacharelado e Licenciatura Em Dança pela Faculdade de Artes do Paraná (2003), Especialização em Fundamentos do Ensino da Arte pela Faculdade de Artes do Paraná; Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, PUC-PR, ( A arte como prática de liberdade na formação de professores: um olhar freireano sobre o papel da expressão artística na prática pedagógica).

Atualmente é coordenadora e professora de arte - Colégio Marista Santa Maria. Tem experiência na área de Artes, com ênfase no ensino da Arte, atuando principalmente nos seguintes temas: corpo, educação, formação de professores, ensino-aprendizagem, arte, dança e escola.