sábado, 1 de abril de 2017

HELENA FONSECA: DA SUPERAVENTURA AOS QUADRINHOS DE TERROR

Helena Fonseca é uma roteirista de histórias em quadrinhos brasileira, muito ativa entre os anos de 1960 e 1980. Trabalhou com vários gêneros, como aventura, superaventura e terror. Ela pode ser considerada uma das pioneiras dos quadrinhos brasileiros, tanto pela sua versatilidade, quanto pelo fato de ter desenvolvido roteiros para gêneros dos quadrinhos onde as mulheres nem sempre conseguiam se destacar. Pelo menos é o que afirma o senso comum.

Entretanto, pesquisas recentes têm mostrado que a participação feminina na indústria dos quadrinhos é muito maior do que se pensava. No Brasil, temos exemplos de mulheres que se destacam na produção de quadrinhos de terror, aventura e superaventura. Algumas estão até conquistando espaço no mercado externo, como é o caso de autoras como Erika Awano e Bilquis Evely.

Mas, no que diz respeito à memória dos quadrinhos nacionais, muito tem sido perdido e precisa ser recuperado para que se construa uma História dos Quadrinhos no Brasil que possa servir de referência para as futuras gerações. No que diz respeito à produção feminina, a construção desta memória é muito carente. Muitas quadrinistas foram esquecidas pela história, apesar da sua ampla participação na produção nacional.

É o caso de Helena Fonseca. Ela, por exemplo, não possui um verbete na Enciclopédia dos Quadrinhos, de André Kleinert, ampliada em 2014. Mesmo na internet são poucas as referências feitas à sua produção, tendo sua biografia pouco mais de que oito linhas, na Wikiwand. A princípio, pode-se concluir que não há informações disponíveis sobre a autora. Mas realizando um trabalho quase arqueológico, é possível montar um perfil mais detalhado sobre a produção desta quadrinista que, certamente, vai ocupar mais do que oito linhas.

Publicado em outubro de 1967.
Começando pelos quadrinhos de superaventura, Helena Fonseca escreveu roteiros para a revista do Capitão 7, um dos heróis nacionais mais antigos das HQs brasileiras. O Capitão 7 surgiu no início dos anos 1950 como um personagem da TV Record de São Paulo, em 1954. “Foi criado pelo ator e boxeador Ayres Campos, que também o interpretava. O número sete era por causa do canal. Assim, todos associavam o Capitão Sete, como o "herói da Record", herói do 7".[1] Em 1959 ele se tornou herói dos quadrinhos pela editora Continental/Outubro (que em 1966 trocou de nome e se tornou a Editora Taika). Os quadrinhos eram foram desenhados por vários artistas e os roteiros ficaram por conta de Helena Fonseca, Hélio Porto e Gedeone Malagola.

Uma referência ao personagem Capitão 7 está no livro Esses Incríveis heróis de papel, de Ionaldo A. Cavacalti, publicado em 1988. Nele há um breve parágrafo sobre o personagem, mas o nome de Helena Fonseca não é citado, apenas dos desenhistas e capistas. Já o livro A magia da nona arte, de Israel Forguel, publicado em 2016, já faz uma breve referência aos roteiros feitos por Helena Fonseca para este personagem. O nome de Helena Fonseca foi esquecido numa época em que ela ainda era uma autora ativa, e resgatado em obra recente sobre quadrinhos.

Publicado em agosto de 1974.
Helena também foi uma das principais roteiristas das histórias em quadrinhos de Targo, a versão brasileira de Tarzan. Talvez nenhum personagem clássico dos quadrinhos tenha sido tão imitado quanto o rei das selvas. No Brasil, a editora Outubro lançou o tarzanide brasileiro em meados década de 1960[2]. O personagem foi criado por Heli Otávio de Moura Lacerda e desenhado e roteirizado por vários quadrinistas, principalmente Helena Fonseca.

"Seus roteiros eram quase sempre de Helena Fonseca e Francisco de Assis, mas houve outros escritores, e todos tentavam imprimir no herói alguma característica brasileira, visto que na época (ao contrário de hoje), os leitores se identificavam com personagens que explorassem coisas nossas[3]".

Sem data exata de publicação.
Sua participação nos quadrinhos de terror também foi marcante. Helena Fonseca, juntamente com Nico Rosso, criou Naiara, A Filha do Drácula, uma personagem de terror brasileira. Helena já escrevia roteiros para os quadrinhos de Drácula. Ela ajudou a dar ao personagem clássico de terror características bem diferentes daquelas do original do livro de Bram Stoker.

Naiara é a filha rebelde de Drácula, bem no espírito dos anos do final dos anos de 1960. A vampira faz de tudo para contrariar o pai e fugir da sua autoridade. Ela bebia o sangue das suas vítimas em uma grande taça de cristal[4]. O erotismo presente em suas histórias é uma das suas principais características, o que a classificava como sendo um quadrinho para adultos. 

O terror foi um gênero que se difundiu muito no Brasil, nos anos de 1970. Era marcado por cenas de violência, nudez e muito erotismo. Também foi gênero onde as mulheres se destacaram. Ainda no gênero terror ela colaborou ainda para os títulos: Almanaque Clássicos do Terror, Almanaque do Drácula e Seleções de Terror. Além de Helena Fonseca tivemos ainda os contos de terror baseados em histórias do folclore local criadas por Maria Aparecida Godoy, a Cida Godoy.

Vampirella, capa de 1969.
Curiosamente, a personagem Naiara chegou às bancas em 1967, bem antes de Vampirella, personagem criada por Forrest J. Ackerman em 1969, com a ajuda Trina Robbins e Frank Frazetta.[5] Estas duas personagens, apesar de possuírem origens diferentes, apresentam muitas semelhanças como a sensualidade, o erotismo e até a gosto por roupas que valorizam os contornos do corpo.

Helena Fonseca também trabalhou com o gênero nordestern[6], ou gênero cangaço. Ela roteirizou as histórias de Juvêncio, o justiceiro do sertão. O personagem foi criado originalmente pelo jornalista Reinaldo Santos para um programa da Rádio Piratininga, de São Paulo, nos anos de 1960, apoiado no sucesso de outro personagem, de 1953, Jerônimo, o herói do sertão. Juvêncio era inspirado no Zorro, mas ao contrário daquele personagem, ele era um justiceiro: ele não prendia, ele matava bandidos[7].

Sem a data de publicação da revista.
A popularidade da radionovela do justiceiro nordestino acabou levando ao lançamento de uma revista em quadrinhos, em maio de 1968, pela editora Prelúdio. As histórias em quadrinhos do personagem foram desenhadas por Rodolfo Zalla, Eugênio Colonnese, Edmundo Rodrigues e roteirizado por Gedeone Malagola, Helena Fonseca, R. F. Lucchetti, entre outros. Seus quadrinhos foram publicados até agosto de 1969.

Helena trabalhou ainda em vários outros títulos escrevendo roteiros para personagens como Margarida, da Disney, e Os Trapalhões, ambas as revistas publicadas pela Editora Abril; roteirizou Simãozinho, quadrinho infantil publicado pela Editora Prelúdio; escreveu histórias para o Vigilante Rodoviário, publicado pela Editora Outubro/Taika.

Helena Fonseca esteve ativa até o final da década de 1980 e ganhou o Prêmio Angelo Agostini na categoria Mestre, em 1995. Produzindo para várias editoras em uma grande variedade de títulos, Helena Fonseca pode ser considerada uma das profissionais femininas mais bem sucedidas do Brasil.

REFERÊNCIAS

CAVACALTI, Ionaldo A. Esses Incríveis heróis de papel. São Paulo: Rd. Mater, 2016.

Conheça Targo (2012). Disponível em: http://blogmaniadegibi.com/2012/03/conheca-targo/, acesso em 1º abr. 2017.

FORGUEL, Israel. A Magia da Nona Arte. São Paulo: Clube de Autores, 2016.

Helena Fonseca. Disponível em: http://www.wikiwand.com/pt/Helena_Fonseca#/Refer.C3.AAncias, acesso em 1º abr. 2017.

Juvêncio, o justiceiro do sertão. Disponível em: http://www.wikiwand.com/pt/Juv%C3%AAncio,_o_justiceiro_do_sert%C3%A3o, acesso em 1º de abr. 2016.

Super heróis brasileiros de histórias em quadrinhos (2017). Disponível em: http://aminoapps.com/page/comics-portugues/1027610/super-herois-brasileiros-de-historias-em-quadrinhos, acesso em 1º abr. 2017.

UCHOA, Francisco. Naiara de presente (2012). Disponível em: https://planetamongo.wordpress.com/2012/01/23/naiara-de-presente/, acesso em 1º Abr. 2016.

Vampirella. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vampirella#Vampirella_no_Brasil, acesso em 1º abr. 2016.





[1] Super-heróis brasileiros de histórias em quadrinhos. Disponível em: http://aminoapps.com/page/comics-portugues/1027610/super-herois-brasileiros-de-historias-em-quadrinhos, acesso em 1º abr. 2017.
[2] Não consegui encontrar a data exata do primeiro número do personagem. As referências são vagas e fala-se de meados de 1960. Como a revista já estava em seu n. 33  em setembro de 1967 e, supondo que era mensal e foi publicada sem interrupções, Targo deve ter sido lançado aproximadamente em dezembro de 1964.
[3] Conheça Targo. Disponível em: http://blogmaniadegibi.com/2012/03/conheca-targo/, acesso em 1º abr. 2017.
[4] UCHOA, Francisco. Naiara de presente (2012). Disponível em: https://planetamongo.wordpress.com/2012/01/23/naiara-de-presente/, acesso em 1º Abr. 2016.
[5] Vampirella. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vampirella#Vampirella_no_Brasil, acesso em 1º abr. 2016.
[6] Como o próprio nome indica, são quadrinhos de faroeste cuja a ambientação é o sertão nordestino brasileiro.
[7] Juvêncio, o justiceiro do sertão. Disponível em: http://www.wikiwand.com/pt/Juv%C3%AAncio,_o_justiceiro_do_sert%C3%A3o, acesso em 1º de abr. 2016.

quarta-feira, 29 de março de 2017

ENTREVISTA COM A QUADRINISTA SUECA MALIN BILLER

Imagem disponível em: https://www.tanum.no/_skjonnlitteratur/tegneserier-og-grafiske-romaner/lycko-biller-malin-biller-9789174053050, acesso em 28 mar. 2017.

Malin Biller é uma quadrinista sueca que transita entre o humor e o drama. Artista versátil, ela consegue nos brindar com um humor “sério” onde, por exemplo, satiriza a sociedade consumista e a superficialidade feminina ou denuncia a destruição do meio ambiente. Apaixonada por poesia consegue trazer para os quadrinhos os versos e a vida de seus autores favoritos. Ela ainda encontra tempo para se envolver em projetos voltados para a educação. Malin Biller nunca teve seus quadrinhos publicados no Brasil mas, se os tivesse, certamente fariam sucesso.

Malin foi a primeira quadrinista sueca com quem eu tive contato e foi a partir dela que eu realmente me interessei pelos quadrinhos suecos. Atualmente já tenho até alguns ídolos, como Knut Larsson, Sofia Olsson e, claro, a própria Malin. Nada mais justo que compartilhar um pouco daquilo que nós conversamos nos últimos quatro meses. 

Por isso, estou disponibilizando uma série de questões que foram levantadas em duas entrevistas realizadas com ela por e-mail. A primeira em 02 de dezembro de 2016 e a segunda em 28 de março de 2017. A partir destas duas intervenções podemos saber mais sobre a autora e, também, mais sobre a Suécia, este pequeno país gelado de onde saem autores talentosos.

ENTREVISTA COM MALIN BILLER

1) Como você começou a trabalhar com quadrinhos?
Eu sempre gostei de desenhar e eu aprendi a escrever com a ajuda de quadrinhos, quando tinha cerca de  4 a 5 anos. Acho que tinha uns 13 anos quando comecei a fazer quadrinhos. Mas como minhas histórias em quadrinhos não pareciam com as outras histórias em quadrinhos eu pensava que elas não eram quadrinhos “reais”. Foi só quando comecei na Escola de Quadrinhos de Malmö, aos 22 anos, foi que eu percebi que era isso que eu queria fazer! Desde então, tem sido "minha voz" e minha ocupação. É trabalho um duro. Eu trabalho muito para poder pagar minhas despesas, mas vale a pena!

2) Como você diria que a escola de quadrinhos de Malmö influenciou a produção de quadrinhos na Suécia?
Muito, eu diria. Existem outras escolas de quadrinhos na Suécia, mas a de Malmö é realmente especial. Eu só posso falar por mim, mas os professores lá me fizeram acreditar em mim mesma, na minha capacidade de ganhar a vida com os quadrinhos. Lá temos uma educação completa.  Tudo, da escrita do roteiro, da tinta e a como fazer o marketing dos seus quadrinhos.

3) O que é ser cartunista na Suécia? Há algum problema como o sexismo?
Boa pergunta! Eu acho que, em comparação com muitos outros países, é mais fácil ser uma cartunista aqui. A Suécia é um país muito bom para viver na medida em que a igualdade de gênero acontece. Embora ainda tenhamos algum caminho a percorrer! Há sexismo, sim, mas eu tenho sorte, eu acho. A maioria das pessoas com quem trabalho é legal, tanto homens como mulheres. Embora eu já tenha recebido algumas mensagens irritadas de homens mais velhos, que não gostam de mulheres cartunistas com opinião forte.

4) Você disse anteriormente que apesar da igualdade de gênero ainda há obstáculos para as mulheres na Suécia. Você poderia falar mais um pouco sobre isso?
É uma pergunta complicada. E não há uma resposta fácil. As mulheres na Suécia ainda não ganham tanto dinheiro quanto seus colegas do sexo masculino para trabalhar exatamente as mesmas horas, por exemplo. Ainda há um problema com o assédio sexual. Especialmente para as mulheres jovens que escrevem colunas ou blogs políticos. Como em todo o resto do mundo, infelizmente. Mas estamos trabalhando nisso! O movimento feminista na Suécia é forte!

5) Como está atualmente, a participação feminina nos quadrinhos suecos?
 Na Suécia, cerca de 50% das pessoas que trabalham em quadrinhos são mulheres! Portanto, há um grande equilíbrio. E a presença de quadrinhos feministas é realmente grande! Há um monte de nomes importantes, como Liv Strömqvist, Sara Granér, Nanna Johansson e Åsa Grennvall. Elas são realmente talentosas. Nós temos, igualmente, uma grande rede chamada "Dotterbolaget", para mulheres quadrinistas, onde nos ajudamos e às vezes publicamos material juntas.

6) De uma forma geral, quais são as dificuldades enfrentadas por um quadrinista,  homem ou mulher, para publicar na Suécia?
Principalmente publicar e conseguir permanecer publicando em uma revista ou jornal. As vendas de revistas de papel caíram dramaticamente nos últimos anos. E a concorrência é dura. É difícil ganhar bastante dinheiro com apenas quadrinhos, em comparação com a fotografia. Se você não tem sorte, pode começar somente 700 SEK (certa de R$ 245,00) para uma página inteira colorida! No entanto, revistas ligadas a diferentes sindicatos pagam muito melhor.

7) Como é a relação entre os quadrinhos comerciais e a produção independente na Suécia?
Eu acho que é muito boa. Pelo menos para mim. Eu sou um dos poucos que trabalha com ambos durante os anos, tanto material super comercial e quanto artístico. A maioria dos cartunistas suecos se conhece e nos ajudamos mutuamente. Nós sempre nos divertimos quando nos encontramos, apesar de algumas vezes trabalharmos em diferentes gêneros.

8) Qual é o perfil do leitor de quadrinhos na Suécia?
Eu acho que a maioria dos leitores hoje em dia são adultos, entre, digamos, 20-60 anos. Tanto homens quanto mulheres. Para ser honesta, eu não tenho certeza.

9) Você já produziu obras biográficas e adaptações literárias. A partir desta experiência como você enxerga potencial educativo dos quadrinhos?
É enorme! Quando eu era pequena, professores e bibliotecários achavam que era prejudicial ler histórias em quadrinhos. Mas hoje em dia muitos estudos mostraram o oposto:  é benéfico para a compreensão de uma história e ajuda os alunos a aprenderem a ler e a escrever mais facilmente. Eu trabalho muito com o ensino de quadrinhos. Nos últimos meses ensinei quadrinhos para crianças que imigraram para a Suécia recentemente e algumas ainda não têm as habilidades de linguagem para escrever sueco. Mas através de quadrinhos eles podem entender uma história mais fácil e podem se expressar fazendo quadrinhos, usando apenas alguns palavras combinadas com imagens. É ótimo!

10) Entre todas as suas obras, há alguém que você considera ser especial? Qual é a sua favorita?
 É realmente difícil escolher um favorito, mas talvez seja um livro que fiz há cerca de dois anos atrás, que foi uma coleção de adaptações de meu poeta favorito do poeta sueco Gustaf Fröding. O livro foi chamado "I varje droppe är en ädelsten" ("Há uma pedra preciosa em cada gota").
Imagem disponível em: https://www.lambiek.net/artists/b/biller_malin.htm,
acesso em 28 mar. 2017.
Se você gostou da entrevista e quer conhecer um pouco mais sobre a autora, eu publiquei um texto sobre ela no Lady’s Comics, que pode ser visualizado clicando aqui!


domingo, 26 de março de 2017

NOVIDADES SOBRE O III ENTRE ASPAS

Saiu esta semana a segunda circular da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS), com mais detalhes sobre as inscrições para o III Entre ASPAS, que vai ocorrer entre os dias 25 e 27 de maio, em Leopoldina (MG). O encontro de pesquisadores irá acontecer em dois espaços alternados este ano. Na Casa de Leitura Lya Müller Botelho e no Espaço Cultural Mauro de Almeira.

Dentre as atividades estão lançamentos de livros e uma programação cultural especialmente preparada para o evento que, este ano, promete surpreender. E ainda há uma programação paralela, como a exposição "Oxente" quer está acontecendo na Casa de Leitura Lya Müller Botelho. 

Com a possibilidade de vídeo conferências, teremos este ano participação de pesquisadores e autores estrangeiros. Uma já está confirmada, Laure Garrancher, mas ainda há  uma participação internacional a ser confirmada, aguardem!

Entre as novidades trazidas pela segunda circular estão prêmios, que serão oferecidos a pesquisas completas inscritas no evento e a oferta de minicursos gratuitos para a comunidade.


Podem participar sócios da ASPAS, pesquisadores e professores e estudantes de graduação. Mais informações pelo e-mail aspascontato@gmail.com

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

DOTTY VIRVELVIND: A SUPER-HEROÍNA SUECA DOS ANOS DE 1940

Imagem retirada do livro Swedish Comics History, p. 45.
A II Guerra Mundial foi responsável não apenas pela criação de super-heróis nos Estados Unidos, mas também em países europeus como a Suécia. É o caso da personagem Dotty Virvelvind, pseudônimo de Dotty Burns, "a garota que faz o que quer (flickan som gör som hon vill)," foi publicadas na revista semanal Levande Livet nos anos de 1944 e 1945.

Ela surgiu como uma personagem literária, criada por Sture Lönnerstrand para um conto de ficção científica e ilustrada por Lennart Ek.  Logo depois a personagem foi adaptada para os quadrinhos, sendo desenhada posteriormente por Björn Karlsson. Dotty não é considerada apenas a primeira super-heroína sueca como também a primeira do gênero. Ou seja, o primeiro personagem sueco de superaventuras foi uma mulher.

Em seu livro Swedish Comics Histoty, Fredrik Strömberg nos conta que Dotty foi inspirada no Superman, cujos quadrinhos eram muito populares na Suécia naquele momento. Já seus desenhistas Lennart Ek e  Björn Karlsson teriam se inspirado nas aventuras de Flash Gordon, de Alex Raymond, para compor a personagem. Outras fontes apontam a Mulher Maravilha como sendo, também, umas das bases para a criação da primeira super-heroína sueca.

Na origem da personagem há elementos da superaventura que seriam explorados anos mais tarde em personagens populares como o Homem Aranha. Por exemplo, ela adquiriu seus poderes após ser submetida a uma experiência científica, quando lhe foram injetados hormônios de vários animais tais como abelha, aranha, falcão e formiga.

Em resumo a história de Dotty é a seguinte. Ela é uma moça frágil, vítima constante de assédio moral e levada a não acreditar em si mesma. Até que o soro experimental que ela recebe lhe concede superpoderes. Ela é forte, pode voar e respira debaixo d’água.  Dotty torna-se autoconfiante e começa a usar seus poderes para combater o crime.

Algumas curiosidades sobre a Dotty:

  • Suas aventuras se passam em Nova York e ela é representada como sendo estadunidense.
  • Ela tem um namorado/noivo, jornalista, a quem está sempre salvando a vida.
FONTES:
DOTTY Virvelvind. Disponível em: http://www.internationalhero.co.uk/d/dottyvirvelvind.htm, acesso em 27 fev. 2017.

STRÖMBERG, Fredrik. Swedish Comics History. Malmö:  The Swedish Comics Association, 2010.

DOTTY Virvelvind. Disponível em: https://sv.wikipedia.org/wiki/Dotty_Virvelvind. acesso em 27 fev. 2017.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

COMEÇARAM AS INSCRIÇÕES PARA O III ENTRE ASPAS


O Entre ASPAS é um encontro promovido pela Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS) com o objetivo de reunir seus associados e associadas, a cada dois anos, na cidade de Leopoldina, sede física da ASPAS.

SOBRE AS INSCRIÇÕES
Poderão participar do III EntreASPAS os associados e as associadas da ASPAS, bem como demais profissionais que desenvolvam atividades ou tenham interesse em desenvolver ações relacionadas ao estudo ou à pesquisa envolvendo artes sequenciais (quadrinhos, animação, cinema). Portanto, é um evento acadêmico, de viés científico e didático, voltado à profissionais, professores e professoras, estudantes de graduação e pós-graduação e demais interessados da comunidade em geral.

Participantes poderão se inscrever como ouvintes e como apresentadores e apresentadoras de trabalho. Para ambos os casos, serão conferidos certificados de participação, desde que a inscrição esteja efetivada e que, no caso da apresentação oral, participantes se façam presentes para comunicar o trabalho.

Será cobrada uma taxa única de inscrição para participantes que não são associados da ASPAS, no valor de R$ 75,00, via depósito bancário (os dados serão fornecidos em e-mail de resposta à solicitação de inscrição). Associados e associadas da ASPAS, em dia com todas as anuidades (inclusive a de 2017) estão isentos de pagamento de inscrição, sendo necessário apenas a confirmação da presença, igualmente por e-mail. As inscrições serão realizadas exclusivamente por meio do e-mail aspascontato@gmail.com, impreterivelmente a partir do envio dos seguintes dados:


NOTAS SOBRE A APRESENTAÇÃO ORAL
  • Os temas para apresentação oral são livres em termos de abordagem e podem refletir pesquisas realizadas ou em andamento (TCCs, dissertações, teses, entre outros), bem como relatos de experiência ou prática pedagógica, desde que relacionados à arte sequencial;
  • O número de vagas para apresentação oral é limitado;
  • A organização do evento enviará carta de aceite diretamente ao/à proponente;
  • O envio do texto completo se dará após o evento, e as normas de apresentação técnico-científica, os prazos e outras informações serão comunicados diretamente aos inscritos que apresentaram seus trabalhos no evento.
DATAS E PRAZOS

sábado, 25 de fevereiro de 2017

EM BUSCA DO SENTIMENTO DE PERTENCIMENTO


Meu trabalho sobre educação patrimonial foi publicado nos anais da XI SEMANA DE HISTÓRIA POLÍTICA. Segue o resumo. Caso alguém queia ler ou fazer download  dos anais, é só clicar aqui! 

Em busca do sentimento de pertencimento: a importância da educação patrimonial para as cidades interioranas

Resumo: Desenvolver o sentimento de pertencimento, especialmente nas escolas, é fundamental para que o trabalho de educação patrimonial possa apresentar resultados significativos em uma comunidade. O jovem é o alicerce futuro de uma nação e uma nação começa numa localidade, seja ela urbana ou rural. Por isso, a importância de conhecer para valorizar. Conhecer a história local é uma forma de valorizar o presente encontrando no passado os exemplos que inspirem ações futuras. Quem conhece também cuida, preserva. Partindo desta premissa iremos apresentar possibilidades de se trabalhar educação patrimonial com alunos da educação fundamental a partir de experiências desenvolvidas nos últimos quatro anos no município de Leopoldina (MG). Tais experiências envolvem alunos de escola pública e privada e têm por objetivo desenvolver o sentimento de pertencimento nos jovens estudantes como forma de estimular seu interesse não apenas pela preservação do patrimônio cultural mas, também, pela história local. A educação patrimonial será aqui apresentada como uma formação para a cidadania e de promover o desenvolvimento local. 

Palavras-chave: Memória, patrimônio, educação.

Curso: Desenvolvimento de Competências Interculturais e Cooperação Internacional Universitária


De 24 a 26 de abril de 2017, o Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB) e o Departamento de Ciências da Educação da Université de Genève (Suíça) promovem o I Curso de Outono “Desenvolvimento de Competências Interculturais e Cooperação Internacional Universitária”. 

O curso abordará a perspectiva intercultural nas áreas de Educação e de Comunicação, oferecendo aos participantes as ferramentas necessárias para o estabelecimento de interações adequadas com pessoas de culturas distintas. Dentre os módulos do curso, estão o desenvolvimento de habilidades multiculturais, a resolução de potenciais conflitos e o domínio de técnicas para elaboração de projetos de cooperação internacional.   

O curso será ministrado pelo Professor Doutor Abdeljalil Akkari, responsável pelo Programa de “Dimensões internacionais da Educação” da Université de Genève. Seu extenso currículo inclui passagens pelas universidades de Friburgo (Suíça) e de Maryland (EUA). Com diversas obras publicadas sobre o assunto, o Professor Akkari é referência no estudo de temas sobre interculturalidade. 

Para mais informações sobre o curso e para realizar sua inscrição, acesse: http://www.grupocoimbra.org.br/Destaques/GCUB-OUTONO1.PDF

A FUNÇÃO SOCIAL DAS ACADEMIAS DE LETRAS E OS 50 ANOS DA ALL

A Academia Lavrense de Letras comemora este ano seu cinquentenário. Nascida no bojo da Ditadura Militar a ALL foi uma iniciativa do  vereador, jornalista e radialista Herculano Pinto Filho. A Lei Municipal 675, que criava a ALL, foi sancionada no dia  17 de novembro de 1967, que criava a Academia Lavrense de Letras. 

Não houve posse de acadêmicos naquele ano, mas a recomendação para que a ALL fosse instalada em 20 de julho do ano seguinte, o que não aconteceu. Sua instalação de fato só ocorreria no primeiro semestre de 1969. Cinquenta anos depois, a ALL mantém-se ativa e constantemente renovando seus quadros. 

Academias de letras possuem uma função social inalienável. Elas são mantenedoras da memória, de práticas que conferem identidades à localidade. Elas funcionam como pilares da história, mantenedoras de tradições. Elas são, portanto, centros difusores do conhecimento. 

Um acadêmico, ao aceitar participar de uma academia de letras, assume o compromisso de se doar para a sociedade, de incentivar os mais jovens e honrar o conhecimento dos mais velhos. Não pode haver hoje espaço para vaidade e egos em uma academia de letras, mas sim de doação, trabalho e de busca por transformação social.

Elas devem possuir, ainda, um viés pedagógico, assim como possuíam as academias fundadas na Grécia Antiga, na qual se inspiraram as academias modernas. Este viés pedagógico deve ser considerado um diferencial para estas associações, visto que é por meio da educação que se erige uma sociedade mais justa, onde a cultura é reconhecida como algo fundamental para a formação humana do indivíduo.

Sendo assim, a existência de uma academia de letras em atividade em Lavras há quase meio século deve ser comemorada. Não apenas pelo fato do município estar interessado em promover a cultura mas, acima de tudo, por haver pessoas dispostas a se doaram e trabalharem por uma sociedade melhor.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A SUBVERSÃO DO CARNAVAL


Carnaval de 2016.
Ontem à noite o Carnaval começou anunciar sua chegada em Leopoldina com o Bloco do Pó de Giz, formado por professores. O que me fez recordar dos meus primeiros carnavais lá no início da minha adolescência. 

Recordei do meu primeiro baile no Clube do Moinho, aos meus doze anos, acompanhando minha tia. A primeira pessoa que reconheci no meio da multidão de foliões foi meu professor de matemática, o rígido professor Waldir. Ele estava com um copo de cerveja na mão (ele só tinha um braço), um bermudão, uma camiseta e vários colares havaianos pendurados no pescoço. 

Eu fiquei chocada! Era como se eu nunca o tivesse visto na minha vida. Era outra pessoa. Ou não era?

Para mim, a estudante de 12 anos, ver meu professor num baile de carnaval, fantasiado, bebendo e sambando era algo extremamente escandaloso. Foi a primeira vez que eu percebi que a imagem que construímos de alguém nem sempre representa o que ela é na realidade.

O professor Waldir foi meu exemplo e meu libertador. Todos os anos, no carnaval, eu saio como eu quero: com shorts curtos, camisetas, fantasias extravagantes ou simples. Às vezes escandalizo meus alunos mais jovens, às vezes participo das brincadeiras com meus alunos mais velhos.

Mas não é pra isso que serve o Carnaval? Para que as pessoas possam se libertar das suas inibições, deixar suas emoções aflorarem livremente sem a preocupação de censurado ou mesmo condenado socialmente pelas suas ações?

Afinal, no carnaval tudo pode. Era assim na Idade Média, com a Festa dos Loucos, quando se colocava de lado as regras rígidas do cristianismo por três dias e se abraçava sem medo a subversão. Da mesma forma o entrudo no Brasil, no século XIX, oferecia aos seus participantes a oportunidade de extravasar toda a tensão acumulada durante o ano. Os bailes de máscaras, à moda veneziana, introduzidos mais tarde, permitiam que homens e mulheres, protegidos pelo suposto anonimato oferecido pelas mascaras, deixassem aflorar suas paixões.

Carnaval é tempo de libertação. Homens se vestem como mulheres, mulheres usam fantasias extravagantes, crianças correm e brincam, atirando confetes e serpentinas. É época de uma transgressão saudável e libertadora.

Talvez meus carnavais não sejam mais como eram na época do saudoso professor Waldir. Mas sempre é bom ver a alegria das crianças e dos jovens e achar graça de quando me veem com uma fantasia ou uma roupa menos comportada, como se aquilo fosse à coisa mais impressionante do mundo.

E embora talvez algumas possam pensar que isso causa problemas no meu trabalho, se enganam. Eu aprendi que o professor Waldir era ao mesmo tempo o folião e o professor, mas sabia que na sala de aula prevalecia o professor. Mas havia uma admiração muito grande por esta dicotomia. Eu tinha um ótimo professor, que se tornava uma pessoa alegre e festiva na qual me inspiro até hoje.

* Postagem feita em memória do professor Waldir, um grande matemático e um excelente folião.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MINHAS ÚLTIMAS PUBLICAÇÕES SOBRE HISTÓRIA DOS QUADRINHOS E SOBRE QUADRINHOS

Eu colaboro esporadicamente para alguns sites como o site História Hoje e o Lady's Comics e para a revista francesa especializada em quadrinhos Papiers Nickelés. Como a carga horária de professora é pesada, e eu não consigo deixar de levar serviço para casa, nem sempre posso enviar regularmente textos. Mas, entre trancos e barrancos, sempre sai alguma coisa que os editores consideram razoavelmente bom para publicação. 

Minhas últimas duas publicações foram uma em dezembro e agora uma em fevereiro. Em dezembro saiu um texto meu sobre Cecília Capuana (derivado de um texto que eu publiquei aqui no blog, então digamos que tenho uma versão em português, caso algum se interesse, clique aqui para ler) na edição n. 51 da Papiers Nickelés. 

Agora, em fevereiro, publiquei uma postagem sobre Angoulême, no Lady's Comics (afinal, fui lá como representante do grupo), sobre a presença feminina no festival deste ano (clique aqui para conferir o texto). É um texto que meio que complementa os que eu publiquei aqui, sobre Angoulême, além de trazer muitas novidades.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

THE INK LINK – ARTISTAS DOS QUADRINHOS ENGAJADOS

Um dos acontecimentos que marcaram o 44º Festival Internacional de Angoulême, e sobre a qual eu tinha decididamente que escrever, foi o lançamento da associação The Ink Link, que reúne quadrinistas em torno de causas sociais. Ela foi oficialmente apresentada durante o festival de Angoulême, no dia 27 de janeiro, às 18 horas, com a presença de seus cofundadores Laure Garancher, Mayna Itoiz e Wilfrid Lupano. Eu até confirmei presença no coquetel de lançamento, mas acabei não podendo ir porque no mesmo horário eu tive outro compromisso.

Como já relatei em outras postagens, tudo em Angoulême foi muito intenso. Eu recebi vários convites para lançamentos, coquetéis e reuniões dos quais não consegui participar. Algumas conferências eu não consegui assistir, também não visitei nem metade das exposições. Faltou um pouco de organização da minha parte, claro. Como foi minha primeira vez eu não fazia ideia do tamanho do festival, mesmo com a programação em mãos.

Não pude ir mas procurei me inteirar sobre o assunto. O The Ink Link é uma associação fundada por quadrinistas que, entre outras coisas, cria e materiais educacionais, especialmente na forma de Histórias em Quadrinhos, para projetos voltados para a promoção da saúde, dos direitos humanos, educação ambiental, etc. A associação considera os quadrinhos como uma ferramenta eficaz para o diálogo intercultural. A linguagem dos quadrinhos, por assim dizer, tem o poder de levar o conhecimento comunidades que passam por dificuldades em várias áreas, além de facilitar o diálogo entre diferentes culturas.

A associação foi justamente criada para isso: para apoiar causas sociais, atividades de desenvolvimento e os valores humanos através das artes visuais. Para isso conta com uma rede de artistas engajados que pretendem usar dos recursos da nona arte para ajudar no trabalho realizado por organizações não governamentais e associações sem fins lucrativos. The Ink Link acredita no poder da educação e da comunicação através dos quadrinhos.

E tudo começou na América do Sul, quando Laure Garancher, que também é perita do Ministério Francês dos Negócios estrangeiros, recebeu um financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o trabalho em uma comunidade amazônica, há cerca de um ano e meio. Faziam parte da sua equipe os outros dois cofundadores da The Ink Link, Mayana Itoiz e Wilfrid Lupano. 
O grupo trabalhou com populações que viviam isoladas na Amazônia na região do planalto das Guianas, que no Brasil envolveu os Estados do Pará e do Amapá. O maior obstáculo para o trabalho, que tinha por objetivo ensinar a população a se prevenir contra doenças como a malária, era a comunicação. A solução veio através da arte, no caso da arte sequencial.  
Através de ilustrações a equipe conseguiu orientar, por exemplo, garimpeiros a usarem um kit distribuído pela OMS para fazerem o autoexame para prevenção da malária. Ao retornarem à França decidiram repetir a experiência. Nascia em dois de setembro de 2016 The Ink Link, que atualmente reúne vinte profissionais das artes visuais, entre quadrinistas e animadores.
No site da associação podem ser acessados vários dos projetos já desenvolvidos e em desenvolvimento, assim como saber como contribuir para que os artistas possam continuar usando os quadrinhos ampliar a comunicação entre as pessoas, por meio da educação. O site da associação é http://www.theinklink.org/fr
Material produzido em Português para trabalhar com garimpeiros na Amazônia.