domingo, 9 de abril de 2017

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME "ESTRELAS ALÉM DO TEMPO"

Não encontrei ainda terapia melhor para uma mente cansada do que assistir a um bom filme. E o que é um bom filme? Para mim, particularmente, é aquele que além de me divertir me faz pensar. Aquele cujas cenas eu repasso mentalmente. Assim como um bom livro, um bom filme acrescenta algo que a gente nem sabia que faltava.

Recentemente eu assisti “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures). Eu não sou dada a dramas e confesso que as tais “histórias baseadas em fatos reais” não são meu tipo preferido de filme. Mas ao assistir ao trailler pela primeira vez eu pensei: esse filme vai ser maravilhoso. E foi.

Em tempos em que se questiona o protagonismo feminino em filmes e histórias em quadrinhos, desafio qualquer pessoa de bom senso a negar que “Estrelas Além do tempo” não seja um filme que toda menina, que toda mulher, branca ou negra deveria assistir. Aliás, um filme que todos, independentemente do sexo e da cor, deveriam assistir.

É um filme histórico, por assim dizer, uma vez que trás o de um momento crítico da história dos Estados Unidos, que está competindo com a URSS pela conquista do espaço. Os EUA não conseguem se igualar aos soviéticos na corrida espacial. Os cidadãos acreditam que estão sendo espionados por satélites soviéticos. Na mesma época o país estava em meio às lutas pelos direitos civis dos negros. Não por acaso, são mostradas manifestações públicas e discursos de personagens como Martin Luther King.

Afora o e discurso enaltecedor dos valores estadunidenses, temos um enredo pautado nos direitos civis dos negros e, especialmente, dos das mulheres. Portanto, ter três mulheres protagonistas de um filme, mulheres reais que venceram as barreiras da cor e do machismo, é muito mais do que inspirador.

E quem são essas mulheres?

Katherine Johnson - 1966
Pra começar, Katherine Johnson, interpretada por Taraji P. Henson, física, cientista espacial e matemática estadunidense. Ela deu contribuições fundamentais para a aeronáutica e exploração espacial dos Estados Unidos, ela calculava as trajetórias, janelas de lançamento e caminhos de retorno de emergência para muitos voos. Ela, inclusive, participou da missão que levou o primeiro homem à lua, em 1969. De 1958, até sua aposentadoria em 1986, ela trabalhou como técnica aeroespacial.

Dorothy Vaughn, que no filme foi interpretada por Octavia Spencer, ela foi a primeira mulher negra a ser promovida chefe de departamento na National Advisory Committee for Aeronautics- NACA (que mais tarde muda de nome para NASA). Sua trajetória é tão interessante quando a de Katherine.

Dorothy Vaughn
Embora ela não tivesse a genialidade matemática da colega de NACA, ela era uma mulher decidida, de mente afiada, capaz de aproveitar as oportunidades, que eram poucas naquela época. Ela entrou na NACA aproveitando-se da Executive Order 8802, assinada durante o governo de Franklin D. Roosevelt, em 1941, que proibia a discriminação racial na indústria de defesa.

Foi a primeira ação federal a promover igualdade de oportunidades e a proibir a discriminação no emprego, nos Estados Unidos. Mas é sempre bom lembrar que esta ordem veio de encontro ao momento vivido pelo país: os Estados Unidos estavam entrando na II Guerra Mundial e toda força de trabalho deveria ser aproveitada, fosse ela de homens ou mulheres, brancos ou negros.

Apesar do ambiente de trabalho ainda ser marcado pela segregação e os melhores postos ocupados por brancos, esta ordem possibilitou a contratação de negros para as agências do governo e foi ela que possibilitou que Dorothy trabalhasse na NACA, de 1943 a 1971. 

E falando em ambiente segregado, temos cenas em que Katherine Johnson é obrigada a andar um quilômetro para ir ao banheiro, pois só havia um banheiro para negros na NACA. Outra em que os colegas dela, brancos, colocam para ela uma cafeteira em separado escrita “pessoa de cor”, para que ela não usasse a cafeteira deles (ela era a única negra da sala). Ela basicamente consegue mudar isso no “grito”, quando chega ao limite da sua tolerância pessoal à discriminação. Aliás, uma das cenas que eu mais gostei.

Por fim, e não menos importante, temos Mary Jackson, interpretada por Janelle Monáe.  Mary Winston Jackson foi matemática e engenheira aeroespacial. Para conseguir o diploma em engenharia, Mary, assim como muitos negros, teve que pleitear na justiça o direito de frequentar aulas. Ela começou trabalhando com engenheiro polonês Kazimierz Czarnecki, no Túnel de Pressão Supersônico de 4 pés por 4 pés, que acabou sugerindo que ela entrasse em um programa de treinamento que lhe permitiria ganhar uma promoção de matemática para engenheira. 
 
Mary Jackson
Os estagiários tiveram que fazer cursos de pós-graduação em matemática e física nos cursos de pós-graduação administrados pela Universidade da Virgínia. Mas as aulas eram realizadas em uma escola segregada, ou seja, apenas para brancos. E ela conseguiu. Para mim uma das cenas mais espetaculares do filme é justamente aquela em que ela, armada de argumentos sólidos, convence o juiz permitir que ela frequente as aulas, que na época eram a noite. 


Mary Jackson começou sua carreira de engenheira em uma época em que as engenheiras de qualquer tipo, brancas ou negras, eram muito raras. Aposentou-se em 1985.


Embora o foco maior estivesse em Katherine Johnson, estas três mulheres foram igualmente inspiradoras e muito bem interpretadas pelas atrizes que assumiram seus papeis. Eu recomento assistir ao filme, recomendo buscar saber mais sobre elas, principalmente se você, homem ou mulher, branco ou negro, tem alguma dúvida sobre se vale a pena investir numa carreira, por mais difícil que ela pareça ser.

Fontes:
https://www.nasa.gov/, acesso em 08 abr. 2017.

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