sábado, 15 de outubro de 2016

POR QUE EU AINDA QUERO SER PROFESSORA?


Tradicionalmente eu faço uma postagem pelo dia do professor. Como durante a semana minha cabeça estava nas coisas ruins que vêm ameaçando a minha tão desprestigiada profissão docente e o resto do nosso país, pensei então em escrever algum texto bem politizado e revoltado. Mas decidi que não quero fazer isso. Prefiro falar sobre o que me faz querer continuar sendo professora.

Pra começar os alunos. Eles cuidam de mim muito mais do que eu cuido deles. Estão sempre encontrando meus óculos perdidos no meio da minha papelada, tomam conta para que eu não esqueça minha bolsa, se preocupam quando estou triste e querem saber o que podem fazer para me alegrar.

Tem vezes que são eles que me dão energia para continuar trabalhando o resto do dia. Tomam minhas dores quando alguém me aborrece e, se precisar, até entram em uma briga por minha causa. Alguns são como filhos. Outros parecem mais meus irmãos e irmãs. Os danados sabem os meus pontos fracos e exploram com vontade.

Nunca tive problemas sérios com alunos. Geralmente quando me desentendo com um eu me reconcilio o mais rápido possível. Não gosto de brigas. Brigar para quê? Mas nem sempre tem como resolver tudo. Há alguns anos eu passei uma situação constrangedora e chata na escola, por causa de uma aluna. Ela realmente não gosta de mim e, eu nunca descobri a razão. De repente, foi alguma coisa que fiz ou falei causalmente. A gente nem sempre sabe o efeito que as palavras têm sobre o outro.

Na ocasião, eu saí da escola com vontade nunca mais voltar a entrar numa sala de aula. Mas eu tinha que ir trabalhar em outra escola naquele mesmo dia. Então, reuni forças e fui. Nesta outra escola quando cheguei, encontrei os alunos sentados, em silêncio, e havia um pacote com um envelope na minha mesa. Nele estava escrito: para a melhor professora. Bom, chorei né? Muito. E decidi que não ia parar de dar aula. Tenho a cartinha guardada até hoje e não pretendo me desfazer dela.

A segunda razão é que eu gosto de ensinar História, é a minha vida. Gosto de pesquisar e escrever. Mas gosto, também, de falar sobre o que eu escrevo. Algumas pessoas não entendem isso e questionam “por que eu não faço outra coisa?” ou “por que eu não faço um concurso federal e dou aula em uma universidade?”.

É porque eu gosto do que eu faço, mesmo com todos os problemas, o cansaço e a carga horário. Faria até de graça se não precisasse pagar minhas contas no final do mês. Não vou para uma universidade porque lá já tem muito doutor. Meu lugar na escola de educação básica, lá precisam mais de mim.

Mas parece que é difícil para muita gente entender isso. Imagino que é cada vez mais raro que alguém queria ser ou continuar sendo professor pelo prazer de fazer o que gosta. Tempos difíceis em que as necessidades econômicas definem o profissional que você vai ser, ou pior, se você poderá ter uma profissão.

Mas é uma escolha que eu abraço. Claro, têm dias que são difíceis. Que aqueles mesmo alunos que te fazem rir num dia, te fazem perder a paciência no outro. Têm dias que o cansaço é grande, porque a nossa jornada não termina quando saímos da escola. Mas gostaria de conhecer um profissional que não tenha pelo menos um dia ruim durante o mês. Trabalhar não é fácil, em nenhuma profissão. Há desafios todos dos dias.

Encerro esta postagem agradecendo aos alunos que tive todos esses anos. Muitos eu não encontro há tempos. Com outros eu ainda mantenho contato. Sei que de muitos eu não vou me lembrar. Mas se lembrarem de mim, se eu ajudei de alguma forma na sua formação, agradeço a lembrança e agradeço por ter sido meu aluno ou aluna.

4 comentários:

Jordan Furtuoso disse...

Falço de suas nobres palavras as minhas, querida Natania. Um grande abraço!

Karla disse...

Naty, que texto lindo. Comovente.
Você é supimpa. Super Professora de História!!!

Lucas Pimenta disse...

Educar é isso, minha querida amiga e musa inspiradora, educar é um ator de amor e de superação.

Obrigado por sempre ser essa baita professora e continuar a me inspirar todos os dias para continuar sendo o professor que sou!

Natania Nogueira disse...

Obrigada, Karla, Lucas e Jonatan! <3