domingo, 2 de outubro de 2016

AH! NANA! QUARENTA ANOS DE UMA REVOLUÇÃO NOS QUADRINHOS

Ah! Nana! # 01, 1976.
Este mês a revista francesa, Ah! Nana! completa 40 anos do seu lançamento. Desconhecida pelo público brasileiro, Ah! Nana! foi  uma revista de circulação trimestral publicada pela Humanoides Associés, feita por mulheres. A iniciativa partiu de Janic Dionnet (Janic Guillerez), esposa de Jean-Pierre Dionnet, então editor da revista Métal Hurlant.

A década de 1970 era o um momento de emergência do movimento feminista e já circulavam outros periódicos, que representam diferentes tendências dentro do MLF[1]. Um desses periódicos serviu de inspiração para Ah! Nana!: o Sorcières.  Era uma revista literária influenciada pela psicanálise e de tendência política, dirigida por Xavière Gauthie.
 
Ah! Nana! #1, 1976, p. 15.
Os anos de 1970 eram, também, um momento de ruptura nos quadrinhos, quando iniciou-se um forte movimento contra à ideia construída nas décadas de 1950 e 1960 de que HQs eram apenas para crianças. Iniciativas como a revista Métal Hurlant, lançada no início da década de 1970 pela Humanoides Associés, traziam uma nova concepção de quadrinhos. 

Emergiam temas sociais e políticos, o surrealismo se fazia presente em quadrinhos de conteúdo filosófico. Na França o ativismo social foi transportado para essa mídia popular que agora circulava nas mãos de adultos, não mais apenas de crianças.

Ah! Nana! foi inspirada, também, em outra revista, a Wimmen's Comix,[2] considerado o primeiro fanzine feito por mulheres. A Wimmens Comix, foi fruto do movimento underground[3], iniciado nos anos de 1960. Produzida originalmente por Terre Richards, Le Marrs e Trina Robbins, a revista foi uma reação ao machismo e o sexismo presente dentro do movimento underground, que não dava espaço para as mulheres.

Ah! Nana! # 03, 1977.
Ah! Nana! era uma revista experimental, um periódico popular, feminista. Era uma revista de conteúdo político e que se dispunha a revelar ao público adulto mulheres que faziam quadrinhos. Segundo a pesquisadora  Blanche Delaborde, “Ah! Nana! deveria ser um espaço de expressão para as mulheres desenhistas ou roteiristas de histórias em quadrinhos, mas também para jornalistas ou escritoras”.

Com a colaboração de artistas como Trina Robbins, Nicole Claveloux, Florence Cestac, Keleck, Cecília Capuana e Chantal Montellier,  Ah! Nana! era uma iniciativa revolucionária. A revista não excluía os homens, mas eles eram convidados a contribuir. Autores como Jacques Tardi, Rivière, F’murr, Yves Chaland, Daniel Ceppi e  Moebius (Jean Giraud) publicaram em suas páginas. Entre os homens convidados esta ainda o brasileiro, da cidade de Além Paraíba (MG), Sérgio Macedo, que na época vivia na França e publicava pela Métal Hurlant.

Ah! Nana! # 05, 1977, p. 11.
Não havia limites para os temas abordados. Religião, relações sexuais, política, filosofia, tudo se misturava em Ah! Nana!. Era um conteúdo, no mínimo, ousado, envolvendo tabus raramente abordados em uma HQ. Muito diferente das publicações normalmente destinadas às mulheres, repletas de romances e voltadas para a moda e os cuidados com o a o lar.

No dia 18 de agosto de 1978, um decreto publicado no Journal Officiel proibiu a venda da revista a menores. No mês seguinte a edição número 9, cujo dossiê temático é dedicado ao incesto foi imediatamente censurado como pornografia. Segundo Chantal Montellier, não houve pornografia em Ah! Nana! Ela credita o fim da revista ao fato dos homens não aceitarem mulheres falando sobre assuntos que eram tabus, que eram abordados em revistas masculinas, por homens, sob uma ótica machista.

FONTES CONSULTADAS

DELABORDE, Blanche. Ah ! Nana: les femmes humanoides. 9ème Art 2.0, (2006). Disponível em: http://neuviemeart.citebd.org/spip.php?article128acesso em: 28 dez. 2014.

FALARDEAU, Mira, Femmes et Humor. Paris:  Hermann, 2014.

SERVIN, Lucie.  Ah ! Nana, l’histoire d’une censure (2012). Disponível em: <http://zip.net/bsttv8>, acesso em 24 set. 2016.

UNE oeuvrière de la BD féministe et engagée (2013). Disponível em: http://www.cnt-f.org/nautreecole/?Une-oeuvriere-de-la-BD-feministe, acesso em 22 jun. 2016.

VOISIN,Céline. Entretien avec Chantal Montellier  (2011). Disponível em: <http://zip.net/bpttHm>, acesso em 15 ago. 2016. 





[1] Movimento de Liberação Feminina.
[2] Nome mais tarde mudado para Wimmin's Comix.
[3] Movimento de publicações alternativas, surgido nos anos de 1960 e que traziam quadrinhos surrealistas, que podiam falar de vários temas, que iam desde drogas e rock a arte surrealista. O movimento foi fruto do contexto social e político da época, juntamente com o movimento Hippie e a emergência de movimentos pelos direitos civis.


* O texto acima faz parte de uma pesquisa em andamento, com maior riqueza de detalhes, que pretendo publicar em breve. Mas não poderia deixar de falar alguma coisa sobre a revista, justamente no seu aniversário de 40 anos. Caso queria saber mais, tem um texto meu nos Anais do Encontro Nacional da ANPUH, de 2015, que pode ser acessado clicando aqui!

2 comentários:

Trina disse...

Wonderful! I was honored to be one of the contributors to Ah! Nana. It was never pornographic. When men write or draw about taboo sexual subjects, it's satire. When women do the same, suddenly it's pornography.
In my memoir, "Last Girl Standing," to be published in 2017, I write about my experiences with Ah! Nana.

Natania Nogueira disse...

Yes!
I managed to buy five volumes of Oh! Nana !. I found nothing that was so outrageous as to justify its ban. I will wait anxiously her new book, Trina!