domingo, 24 de junho de 2007

A preocupação com a formação das elites durante a Primeira República (Leopoldina 1896 - 1930)


A elite mineira tradicionalmente considerada conciliatória, articulava-se em torno de amplos projetos que refletiam, geralmente, os anseios regionais. Dentre esses projetos, o ensino possuía uma representatividade expressiva, uma vez que transferia para uma instituição a função de perpetuar uma ordem. H. D. Laswell, com base no pensamento de Mosca e Pareto, definiu elite como aqueles que possuíam maior acesso aos valores e ao seu controle, pois são estes mesmos valores que possibilitam não só a criação, mas a permanência de um ideário.[1]

Buscava-se através do ensino uma forma de progresso. No entanto, era, quase sempre, uma educação voltada para os valores das oligarquias: literária, bacharelista e que buscava educar não o futuro cidadão, mas os futuros dirigentes da Nação, assim como formava também aqueles que iriam auxiliá-los nessa tarefa. No início do século XX, no Brasil, a instrução se tornou para muitos um trampolim para o sucesso. Fernando Azevedo referia-se a ela como uma forma de formação das jovens elites republicanas.[2] Coube às escolas particulares a missão de educar os filhos das elites, não apenas no sentido de oferecer-lhes a base necessária para ingressarem nas faculdades. Cabia a elas, sobretudo, possibilitar a preservação das tradições e traços peculiares dessa mesma elite, mantendo-a coesa em seus princípios enquanto camada dominante. É dentro do sistema escolar que são formadas reproduzidas estruturas de pensamento. Os esquemas de pensamento dominantes em uma época são fruto de um processo de reprodução cultural dinâmico, que em culturas eruditas nasce dentro das escolas e delas se espalha para o restante da sociedade.

Segundo Bencostta, a educação voltada para as elites é considerada uma forma de civilizar os membros que futuramente conduziriam a sociedade.[3] Essa sociedade que buscava se adaptar a um novo contexto político e econômico, assumia características próprias. A escola particular é o espaço onde essa elite se desenvolve intelectualmente, onde valores são elaborados e toda uma cultura dominante é gestada.

Possuir um filho estudando em uma escola conceituada era dar um passo a mais no caminho do poder. No início do século XX ganhava cada vez mais força o mito de que a educação era o caminho para a ascensão social e, dentro das camadas médias, esse axioma ganhou muitos adeptos[4]. No entanto, na prática, vontade e capacidade não podiam vencer a auxência de capital econômico ou cultural. A herança cultural e a conta bancária definiam quem ocupava os melhores cargos e seguia as melhores carreiras.

A escola particular formava a tecnocracia que reproduzia em si os valores dominantes de sua época. Para Bourdieu, ao converter hierarquias sociais em hierarquias escolares, o sistema escolar cumpre sua função de legitimar e perpetuar uma ordem social.[5] Assim, ao abrir suas portas para os filhos de frações de classe economicamente e culturalmente bem providas de recursos, os liceus e faculdades promovem uma separação arbitrária entre aquele que pode freqüentar os cursos por eles oferecidos e aqueles que devem recorrer às escolas públicas primárias.

Em uma pequena cidade como Leopoldina, onde o progresso e a civilização eram temas inflamados nos discursos políticos, a expansão de uma rede de escolas particulares representava o desejo de um futuro próspero, a exemplo do passado de glórias criado pelo café. Interessante notar que, justamente entre 1890 e 1906, a expansão da rede de ensino particular foi notável naquele município. Pelo visto, a crise que na década de 90 deixara apavorados os produtores locais não tirara deles o entusiasmo em investir no ensino de seus filhos. Muito pelo contrário, a demanda por mais escolas, tanto na cidade quanto nos distritos que a circundavam, era considerável, sendo que, paralelamente, os Mestres Escola também eram muito solicitados.

A grande maioria das escolas particulares trabalhavam em regime de internato, oferecendo vagas limitadas para moças e rapazes. Na primeira década do século XX começaram a adotar também os regimes de semi-internato e externado, sem salas mistas. As escolas femininas tinham um currículo voltado para o lar. A princípio havia uma grande diferenciação entre o que se ensinava para rapazes e a moças, mas com o tempo algumas matérias foram sendo introduzidas no currículo escolar das moças, sem que este, no entanto, deixasse de conter os conteúdos necessários para a formação de boas mães e esposas. As prendas domésticas também eram aprendidas na escola.

Dentro das despesas dos estudantes estava incluído desde material para toalete até selos e papel para cartas. Pagava-se (no caso do regime de internato) pela limpeza, pela lavagem das roupas e pelos uniformes, que eram variados - uniforme para uso diário, uniforme de gala, camisola ou pijama e roupa para banho. O Atheneu Victor Hugo (1894) foi um dos primeiro colégios fundados no município de Leopoldina e oferecia até o ensino secundário.

A partir da fundação do Ginásio Leopoldinense (1906), os cursos passaram a ter um direcionamento diferente. A escola normal, a escola agrícola e da escola de comércio formavam técnicos que atuariam nas redondezas, ajudando a reforçar o mercado de trabalho, enquanto que o curso secundário preparava jovens para as poucas faculdades brasileiras e para faculdades estrangeiras.

A fundação do Ginásio Leopoldinense, em um primeiro momento, não provocou mudanças profundas dentro do mercado escolar, que seguia seu processo natural de expansão. O Ginásio Leopoldinense era apenas mais uma escola, com instalações simples e com grandes propostas, que visavam aumentar a qualidade do ensino da região. Dez anos depois ele havia se expandido, tinha novas instalações, aumentou o número de vagas e seus cursos haviam se diversificado. Atendia desde crianças com 5 a 6 anos de idade até jovens que desejavam um diploma universitário ( através dos cursos de Farmácia e Odontologia). No final da década de 1920, tornara-se uma instituição monumental.

Sua ascensão, no entanto, provocou uma grande retração do mercado escolar. Estabelecimentos mais modestos não foram capazes de competir com as modernas e amplas instalações e serviços oferecidos pelo Ginásio. Aos poucos aquele mercado em expansão passou a ser monopolizado por esse colégio e, durante a década de 1920 o número de anúncios de vagas em escolas se tornava cada vez mais raro, salvo àqueles feitos pelo Ginásio Leopoldinense.

Ao que tudo indica, até à abertura do Ginásio Leopoldinense, a expansão escolar teve um ritmo intenso, havendo preocupação das escolas em oferecer o curso secundário, cursos técnicos, como o Comercial, e até mesmo cursos a nível superior.

A busca por um ensino de qualidade que oferecesse aos jovens membros da elite local oportunidades para receber uma instrução dentro do modelo representado pelo Colégio D. Pedro II (Ginásio Nacional) foi colocado em prática com o projeto ambicioso que representava o Ginásio Leopoldinense. No entanto, como veremos mais adiante, o papel de uma escola particular, principalmente em um período tão rico em acontecimentos, como foram as três primeiras décadas do século XX, extrapola o espaço limitado da educação formal para invadir um campo social muito mais complexo.

[1] LASSWELL, H. D. In.: Dicionário de Ciências Sociais, p. 389. Ver também: BOBBIO, Noberto. Dicionário de política. 1991; Dicionário do pensamento marxista.
[2] AZEVEDO, Fernando. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. 1943
[3] BENCOSTTA, Marcus Levy Albino. Ide por todo o mundo: a província de São Paulo como campo de missão presbiteriana - 1869 -1892. 1996
[4] XAVIER, Maria Elizabete Sampaio Prado. Capitalismo e escola no Brasil: a constituição do liberalismo em ideologia e as reformas de ensino (1931-61).1990
[5] BOURDIEU, Pierre. Op. cit. 1992, p. 310-12.
Fonte: Este fragmento de texto é parte integrante da monografia de especialização que apresente na UFJF, em 1997 – O Ginásio Leopoldinanese: mito político e formação de elites na Zona da Mata Mineira (1906 - 1930), p.45-49

2 comentários:

NIlza Cantoni disse...

Natania: o seu blog é uma delícia. Além de ler, tenho buscado as fontes utilizadas por vc. No início de setembro estive em Leopoldina mas não deu tempo de procurá-la.

Gostaria de pedir um favor: o link para meu site está apontando para o espelho antigo que eu nem atualizo mais. Minha página principal, desde 2004, é www.cantoni.pro.br e eu sempre esqueço de escrever pedindo para vc trocar o link.

Grande abraço.

Natania Nogueira disse...

Obrigada, Nilza!
Há uuito tempo eu não tinha notícias tuas. Já fiz as alteraçãos que vc me pediu. Obrigada pelas dicas :-)