quarta-feira, 13 de junho de 2007

O Municipio de Leopoldina e a oposição entre o campo e a cidade


O trecho que segue faz parte do artigo publicado na REVISTA Eletrônica de História do Brasil. Juiz de Fora: UFJF. Semestral. 1997-. http://www.ufjf.br/~clionet/rehb

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Leopoldina foi, durante a segunda metade do século XIX, um dos centros cafeeiros mais prósperos de Minas e da Zona da Mata. Em discurso feito à Assembléia Mineira em 1859, o futuro visconde de Caravelas, Carneiro Campos, apontava o significativo crescimento da lavoura de café naquele município,[1] que havia sido criado apenas há cinco anos, desmembrado de Mar de Espanha.[2] Segundo censo realizado em 1872, a população do município era de 41.886 habitantes, dos quais 15.253 eram escravos: um dos maiores planteis de escravos da Zona da Mata.[3] Em 1900, possuía 33.835 habitantes.[4]

Em torno da produção de café desenvolveu-se todo um complexo sistema que assentava-se na expansão da produção para exportação. Surgiam, paralelamente à expansão cafeeira, novas necessidades principalmente entre as camadas mais abastadas da sociedade local. Nas décadas finais do século XIX, a cidade de Leopoldina possuía, dentre outras coisas, energia elétrica, gerada pela Companhia Força e Luz Cataguases/Leopoldina, e uma das mais importantes redes de transportes da Zona da Mata, a Leopoldina Railway Ltda., criada na década de 1870, formada por capital britânico e brasileiro, com sede em Londres.[5]

Pela ferrovia, os cafeicultores escoavam a produção de café e chegavam à cidade de Leopoldina, mais rapidamente, bens de consumo diversos. Os vagões do trem traziam, também, estudantes que, principalmente na década de 1910, entravam na cidade em grande quantidade, atraídos pela privilegiada rede de ensino particular. Entre 1896 e 1914 foram fundadas cerca de 12 escolas particulares, oferecendo diversos cursos, recebendo a cidade o apelido de Atenas da Zona da Mata. Desses estabelecimento, o que mais se destacou foi o Ginásio Leopoldinense, fundado em 1906 por José Monteiro Ribeiro Junqueira, reconhecido como um dos melhores estabelecimentos de ensino de Minas Gerais, oferecendo diversos cursos em todos os níveis, inclusive o superior.[6] O teatro, a música e o cinema eram formas de arte e lazer muito apreciados pela população urbana. Eram comuns notas em jornais anunciando a apresentação de companhias teatrais, saraus e filmes.[7] O Cine Theatro Alencar foi, durante muitas décadas, centro por excelência de encontro de intelectuais e amantes das artes, além de ser também, espaço reservado para debates políticos.

Na cidade viviam aproximadamente 10% do total de habitantes do município, enquanto que nos distritos rurais estavam o restante dos leopoldinenses. Essa população campesina era formada, principalmente, por pequenos agricultores, agregados, ruralistas que trabalhavam em regime de meação ou em troca de um salário[9]. Havia também imigrantes, notadamente italianos, que residiam na Colônia Constança, que ficava a alguns quilômetros da sede do município. Estes eram os responsáveis por boa parte da produção de gêneros alimentícios comercializados na cidade, como destacou o jornal O Pharol, de Juiz de Fora: "Na colonia ‘Constança’, do município de Leopoldina, foram plantadas este anno 117 alqueires e 35 litros de arroz e 143 alqueires e 37 litros de milho. Segundo calculo feito pelo esforçado director da colonia, sr. Climenio Godinho, a colheita ali será a seguinte: arroz 9360 alqueires, e milho, 858 carros. O tempo tem corrido muito bem para as roças, sendo muito possível que a colheita exceda o calculo.Na ‘Constança’ fizeram este ano tambem grandes sementeiras de fumo".[10]

A indústria de Leopoldina resumia-se (até 1913) em duas máquinas de beneficiamento de arroz e um engenho de café,[11] estando mais próxima do campo do que da zona urbana. A sede do município não agiu, neste caso, como pólo de atração, uma vez que se pregava abertamente uma ideologia ruralista, que defendia o progresso através do campo[12]. A produção do café, a pecuária e demais atividades relacionadas ao campo eram a fonte de renda principal. A ausência de real investimento na indústria - gerada talvez pela incapacidade de retenção capital para investimento em outros setores, que não o agropecuário, e dependência de centros maiores como Juiz de Fora e Rio de Janeiro - fez da área urbana privilégio de uma minoria. Os membros da elite agrária e os comerciantes limitavam-se a conquistar novos benefícios urbanos, mas não a estendê-los a toda a população. No entanto, sabemos que, no caso de Leopoldina, a fonte de toda a riqueza estava no campo, mas para o homem humilde da terra restavam apenas os custos da urbanização.[13]

As classes populares estavam concentradas, principalmente nas periferias agrárias, compostas por distritos rurais. Em torno desses distritos, a população campesina organizava-se e socializava informações, oriundas da cidade - fato que provavelmente ocorria com mais intensidade em momentos de maior aglomeração popular, como aos domingos, quando havia missa, nas festas folclóricas ou religiosas, por exemplo. As transformações ocorriam em ritmo lento e, na maior parte do ano. Esse contingente populacional permanecia afastado dos problemas políticos e econômicos do país, quer por seu relativo isolamento, quer pelo pouco interesse que se tinha em levá-los a essa camada pouco participativa, em decorrência de sua exclusão social e econômica.

Apesar de ser um município basicamente agrário, onde a economia girava em torno do café, leite e gêneros como arroz, Leopoldina, a cidade, era um espelho que refletia a aspiração de suas elites em querer acompanhar de perto o ritmo da modernidade. A cultura era tratada com respeito, assim como quem a detinha. Havia preocupação com a informação - daí a presença de jornais na cidade, como a Gazeta de Leopoldina e o Novo Movimento.

A cidade representava o avesso do campo. Estava constantemente preocupada com os avanços do progresso e com a civilização. Essa preocupação com a civilidade é uma herança colonial das Minas Gerais, que no século XVIII[14], sob reflexo do processo civilizador[15] europeu criou modelos de comportamento que serviram para distingir os membros de camadas sociais privilegiadas do restante da população.

No nosso estudo de caso, o campo era o habitat das classes subalternas, incivilizadas, enquanto a cidade era o berço da civilidade, onde se desenvolviam as boas maneiras, a arte de bem tratar, com base no que se convencionou chamar de educação. Essa diferenciação é o que estabelece o equilíbrio das relações de poder e legitima o domínio da cidade sobre o campo - ou, segundo uma visão marxista, do explorador sobre o explorado.

A escola passou a ser, com o aumento da demanda por instrução e especialização - frutos do avanço do capitalismo no Brasil - parte importante desse processo, que pode ser melhor compreendido ao analisarmos o ensino público, destinado às classes menos privilegiadas como forma de civilizar aqueles que eram considerados menos afortunados, ainda mergulhados na barbárie, adequando-os dentro do modelo social burguês que se implantava no país.


[1] ALVES, Márcio Resende Ferrari. Economia na Zona da Mata Mineira: passado e presente; dois casos de análise econômica. Folha de Viçosa. Viçosa - MG, p. 13, 1993.
[2] ACAIACA. Centenário de Leopoldina. Leopoldina, 1954.
[3] ANDRADE, Rômulo. Cafeicultura na Zona da Mata. Revista Brasileira de História. São Paulo. n. 22, p. 93-131, 1992.
[4] CARRARA, Ângelo Alves. A Zona da Mata: diversidade econômica e continuismo (1834-1909). Dissertação de Mestrado. Niterói. UFF. 1993.
[5] Sobre a Leopoldina Raiway Ltda. ver BLASENHEIN, Peter. Uma história regional: a Zona da Mata mineira (1870-1906). Seminário de Estudos Mineiros: a República Velha em Minas. Belo Horizonte: UFMG/PROED 1982, p. 73-90; e As ferrovias de Minas no século XIX. Locus: Revista de História. Juiz de Fora, v. 2, n. 2, p. 81-110, 1996.
[6] Ver. REIS, José Botelho. Ementário do Gymnasio Leopoldinense. 1925.
[7] Raphael Gimenes organizou com artistas da companhia de Zarzuelas e artistas iniciantes do município, a apresentação de espetáculos teatrais: a comédia O caipora Feliz Mimoso, depois Dois velhos de bom gosto e A cabana do Pe. Thomás. (A Gazeta de Leopoldina. Leopoldina, 17/10/1897. Anno III, n. 27, p. 2). "Estreou no dia 8 do corrente com seu 'cinematografo Lumiére' o sr. Germano Alves" (A Gazeta de Leopoldina, 11/06/1899. Ano V, n. 9, p. 2).
[8] Almanack Henalt. Anuário Brasileiro Comercial Illustrado. Rio de Janeiro, anno 6, 1912-1913, p. 52.
[9] Sobre regime de propriedade fundiária e relações de trabalho remuneradas, pré-capitalistas, na Zona da Mata, ver PIRES, Anderson. Capital agrário, investimento e trabalho na Zona da Mata. Dissertação de Mestrado em História. Niterói: UFF. 1993.
[10] O Pharol, Juiz de Fora, 13/01/1916, n. 11, p. 01.
[11] Almanack Henalt, op. cit., p. 53.
[12] Esse tipo de metalidade estava presente em muitos dos editoriais e artigos do jornal local A Gazeta de Leopoldina. Nos períodos de crise do café públicava-se o uma coluna chamada “Em defesa do Café”, e outra com o título de “Policultura”. Ver A Gazeta de Leopoldina, diversos números, 1896-1914.
[13] A nível de comparação, ver: ARIAS, José Miguel Neto. O Eldorado: Londrina e o Norte do Paraná - 1930/1975. Dissertação de Mestrado, São Paulo: USP, 1993. O autor trabalha o processo de urbanização de Londrina e do Norte do Paraná tendo como base a expansão cafeeira. Embora sejam casos de análise usando objetos e contextos diferentes, o trabalho oferece elementos que ajudam a esclarecer alguns porquês com relação ao desenvolvimento das cidades, de forma geral.
[14] Sobre a sociedade nas Minas Gerais do século XVIII, ver: SILVEIRA, Marco Antônio. O universo indistinto: Estado e sociedade nas Minas setecentistas (1735-1808). São Paulo: HUCITEC, 1997.
[15] Segundo Nobert Elias, a civilização é um aspecto específico do desenvolvimento de estruturas socias. Na civilização barbárie e civilization confundem-se, sendo ao mesmo tempo opostos e interdependentes. (ELIAS, Nobert. O processo civilizador. 2. ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994, v. 1.)

2 comentários:

Carlos Eugênio Spinola de Castro disse...

Está difícil o acesso a cópias de teses e histórias da região da Zona da Mata Mineira.
Encontrei pouco material nas bibliotecas.
Estou interessado no estudo das famílias que fundaram e desbravaram a região.
Informem onde eu posso buscar documentos e informações sobre as pessoas no passado da região.

Natania Nogueira disse...

Ih, eu tenho a mesma dificuldade que vc. O que eu faço é ir atrás de pessoas mais antigas que as vezes tem alguma coisa ou me indicam onde posso procurar, mas não é fácil e nem sempre tem resultado esperado.