quarta-feira, 20 de junho de 2007

Leopoldina: a cidade dos estudantes

Em 1913, Custódio de Almeida Lustrosa professor do curso Normal do Ginásio Leopoldinense, faz uma generosa descrição do espaço físico daquela escola[1] que a faz lembrar em muitos trechos das narrativas de Sérgio, jovem personagem de O Ateneu[2], No entanto, o Ginásio não possuía um ambiente repressor e soturno, muito pelo contrário. O Ginásio parecia cultivar um ambiente mais ameno. Talvez seus múltiplos regimes - internato, aberto e semi-aberto- , fossem responsáveis por esta aparência mais suavizada, uma vez que os alunos da escola tinham oportunidade de se integrarem à comunidade local.

A expansão de sua rede física foi necessária para abrigar o grande contingente de alunos que crescia na medida em que se ampliavam os cursos oferecidos. A cidade de Leopoldina possuía uma população reduzida, visto que a maioria dos habitantes do município viviam no campo ou nos pequenos distritos periféricos. Na cidade encontraríamos somente os comerciantes, prestadores de serviços e algumas famílias de fazendeiros, que preferiam fixar-se na cidade. No entanto, a existência de uma escola do porte do Ginásio, oferecendo desde o Jardim de Infância até o ensino superior, atraía estudantes de diversas partes da Zona da Mata. A Leopoldina levava o carregamento de café e em seu lugar deixava os jovens que vinham morar na cidade a fim de estudar. Era uma opção regional e que barateava os custos com a instrução.

Em 1919, Waldemiro Potsch,[3] escolhido pelo Conselho Superior de Ensino para compor a banca de uma das mesas examinadoras naquele ano, em Leopoldina, escreveu curioso artigo - publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro- , no qual deixava registradas suas impressões sobre a cidade. Ficou muito impressionado com o Ginásio, o qual considerou um dos melhores, maiores e mais belos estabelecimentos de ensino da Zona da Mata. Chama Leopoldina de cidade dos estudantes, por constatar que estes pareciam ser, proporcionalmente, em maior quantidade do que os próprios moradores. Aponta um número em torno de 500, afirmando que a cidade não deveria possuir, naquele ano, cerca de 1000 habitantes. Durante as férias escolares Leopoldina literalmente esvaziava-se.

Essa enchente de estudantes podia ser melhor percebida no término do período letivo, quando estes encham os vagões do trem, a fim de retornarem para suas casas.

Potsch mostrou-se surpreso com a disciplina e com a integridade encontrada no estabelecimento - que, ao que parece, foi motivação para que ele escrevesse e publicasse o artigo. Segundo o narrador, foi um dos raros lugares onde a banca não foi assediada pelos alunos e onde não houve, pelo menos naquele ano, uso de pistolões para se conseguir aprovação de alunos.

O Ginásio assumiu um papel fundamental dentro da realidade urbana de Leopoldina. Ele funcionava dentro de parâmetros muito mais amplos do que o simples ensino. Como vimos, ele endossou e encarnou todo um universo simbólico, e funcionando como estímulo para a assimilação de um mito político. Ao mesmo tempo em que agia dentro do imaginário do cidadino, ele trazia também transformações no nível prático. Leopoldina nunca recebeu em um espaço tão breve de tempo um fluxo populacional tão grande, quanto aquela que vinha de distritos e outras cidades da Mata para lá estudar, apesar de o número de escolas particulares ter sido muito representativo no final do século XIX. Houve um estímulo econômico significativo, como o que ocorre em cidades que possuem cursos universitários. Fenômeno intrigante, o Ginásio, como parte de um universo mitológico político, poderá ser melhor compreendido frente ao estudo de alguns dos aspectos gerais do seu cotidiano.

[1] LUSTROSA, Custódio de Almeida. Gymnasio Leopoldinese. Album comemorativo de seu sétimo aniversário: 3 de julho de 1906-1913. Leopoldina/MG
[2] POMPÉIA, Raul. O Ateneu: crônica de saudades, 1988.
[3] In. REIS, José Botelho. Ob. cit., pp. 161-164


Fonte: Este fragmento de texto é parte integrante da monografia de especialização que apresente na UFJF, em 1997 – O Ginásio Leopoldinanese: mito político e formação de elites na Zona da Mata Mineira (1906 - 1930), p.56-59

2 comentários:

Valéria disse...

Querida Natânia:

Amei o seu blog. Como você sabe, a minha profissão é Bibliotecária, eu sou eternamente preocupada com a perda da identidade. Como é que a gente pode amar e se orgulhar do seu "berço", se julga que as coisas "sempre foram assim". A fragmentação da identidade começa aí... Parabéns, meu bem!

Valéria Bari

Natania Nogueira disse...

Obrigada, Valéria!
Não sei se posso mudar o estado anestesia que, infelizmente, domina a mente das pessoas que poderiam estar mudando este quadro de fragmentação da nossa história local, mas posso dar uma pequena colaboração.
:-)