sábado, 30 de junho de 2007

Ensino público e camadas populares em Leopoldina, durante a I República


Apesar de toda a sua prosperidade, Leopoldina estava submetida a uma legislação fiscal pouco favorável ao município. [1] O Estado de conservação de escolas públicas[2] era o mais precário possível: “Até hoje o engenheiro do districto não veio examinar os edifícios onde funcionam tres escolas publicas estadoaes que ameaçam ruinas. Dar-se-ha caso de providencia ordenada pelo governo se fosse para inglez ver?”[3]

O desfecho para tais casos não poderia deixar de ser outro senão uma situação de grande risco para professores e alunos das escolas públicas estaduais de Leopoldina: “Desabou uma das paredes lateraes das escolas públicas estadoaes. Aquelles predeos estão precisando de grandes e urgentes reparos pelo que pedimos ao honrado governo do estado providenciar neste sentido. A parede cahiu sobre classe de bancos que ali se achava tudo estragado. Felizmente foi a noite e a sala estava vazia...”[4]

A municipalidade agiu neste e em outros momentos de forma negligente colocando parte, ou quase toda, a culpa no Estado. Um artigo publicado em 1899, pela Gazeta de Leopoldina, fazia ferrenha oposição a uma atitude do governo de Silviano Brandão, que ordenou a suspensão das aulas da escola do distrito de Campo Limpo, que segundo o editor não trabalhava em sua capacidade máxima. Chama claramente o governo de incompetente com relação à política dirigida ao ensino público, questionando o papel do Estado nesse sentido.[5] No entanto, a municipalidade tinha compromisso com a manutenção de escolas estaduais e não o fazia. Em artigo publicado em meados de 1896, relatava-se o descontentamento de professores que reclamavam do atraso do salário, por parte do município, e do pagamento de aluguel dos prédios onde funcionavam duas cadeiras, uma feminina e outra masculina. A dívida já se estendia por vários meses obrigando professores a pagarem do próprio bolso para evitar o fechamento das classes. Denunciavam, também, a falta de condições de trabalho devido à insalubridade do local que não permitia o bom funcionamento nem a abertura de novas classes.[6]

A imprensa e os professores por algumas vezes denunciavam o estado precário das construções que abrigavam as classes e pediam providências ao governo estadual, além de apoio, à municipalidade.[7] No entanto, eles possuíam uma posição um tanto elitista com relação ao trabalho e aos alunos.

Um documento de grande importância, cujo conteúdo merece ser discutido, que deu nova vida a este trabalho durante o processo de coleta de dados, foi o artigo publicado no periódico local O Novo Movimento.[8] Ele faz um descrição impressionante da realidade da escola pública e das camadas mais baixas que viviam em Leopoldina, no início da Primeira República. Relata o caso do professor Olympio de Paula Correia, que foi destituído de seu cargo de diretor do grupo escolar, depois de ter exercido o magistério por cerca de 40 anos, e substituído pelo professor Reinaldo Matolla. A atitude foi considerada injusta e o jornal procurou construir um argumento favorável àquele profissional do ensino. Para Ricardo Martins, diretor e editor do periódico, as questões que norteavam a prática escolar estavam subordinadas a fatores além do controle do diretor. O primeiro desses fatores era a pobreza das famílias que para lá enviavam seus filhos: elas não possuíam condições de cuidar do uniforme de seus filhos, pois não tinham recursos nem para o sabão, sendo as crianças obrigadas a trabalhar com seus pais para ajudar na manutenção da casa.

Em segundo lugar vinha a metodologia de ensino, que não encontrava retorno. Os pais das crianças reclamavam que seus filhos não aprendiam a ler, escrever e fazer contas e acabavam por isso tirando as crianças da escola. Em terceiro lugar, ficava a falta de preparo dos professores e sua substituição freqüente por estagiárias da Escola Normal. As substituições eram feitas praticamente a cada quinze dias. As crianças tinham, por ano, vários professores, com isso pouco aprendiam e a disciplina era ignorada. Por mais essa razão, os pais acabavam retirando as crianças da escola.

Por fim, havia o problema da distância entre o grupo escolar e a casa das crianças, que chegava a ser de oito horas ida e volta. As crianças iam apenas com uma xícara de café no estômago. Aqueles que possuíam mais de dois filhos em dois turnos diferentes acabavam retirando-os devido ao fato de não poderem buscá-los.

A leitura desse artigo nos levou a conhecer algumas das dificuldades enfrentadas pelas classes subalternas. Percebe-se que seus núcleos familiares são numerosos, provavelmente seguindo um modelo próximo do patriarcalismo. Viviam isoladas na zona rural e sua pobreza - nem sabão tinham para lavar o uniforme das crianças - indica que provavelmente só podiam contar com a força de trabalho de seus próprios membros. Assim, os filhos mais velhos, já em idade produtiva, estavam excluídos de freqüentar as poucas escolas, seja nos distritos ou na cidade. Nessas famílias supõe-se que somente um ou dois filhos conquistavam a oportunidade de aprender ao menos ler e escrever, até completarem idade para trabalhar na roça com seus pais. Além disso, a distância e a dificuldade com o transporte - fatores que atestam o relativo isolamento desses núcleos familiares - dificultavam o ingresso dos pequenos à escola.

As escolas, por sua vez, eram mal equipadas e os professores não tinham uma boa preparação para atender sua clientela irregular e inconstante. Os professores variavam muito - sendo constantemente substituídos por outros ou por estagiárias da Escola Normal -, não conseguiam cumprir com êxito sua tarefa educativa. Entretanto, é possível perceber que, apesar de não terem condições de manter seus filhos na escola, os pais desejavam que esses adquirissem algum conhecimento e o mínimo de instrução, uma vez que reclamavam de obstáculos, de sua luta diária por sobrevivência, e do descaso de dirigentes, políticos e até educadores. Eram pobres, mas desejavam poder oferecer a seus filhos oportunidade de ascender - ler e escrever já era um trunfo nas mãos de camponeses estigmatizados pela sua situação e pobreza e sua falta de civilização.

Quanto ao comprometimento da administração pública com seus professores, podemos destacar o caso de uma professora, que trabalhou durante um mês em substituição ao diretor e não recebeu o pagamento devido. “Requerendo o pagamento devido pela substituição, mandou a secretaria dar-lhe somente 60 e tantos mil reis. Não se conformando, reclamou por petição e a secretaria do interior deu o seguinte despacho:‘Não tem lugar o que requer.’ (...) Já não é pequeno o desgosto das professoras pelas delongas dos processos das secretarias quando se trata de pagar substitutas, tendo havido casos de levar mais de um anno a serem pagas.”[9]

Há também o caso da nomeação de um ilustre professor paraibano Augusto dos Anjos para dirigir o Grupo Escolar, que provocou revolta e indignação ao editor do jornal O Novo Movimento, por se tratar de uma pessoa que desconhecia a realidade do ensino em Leopoldina. “Em substituição ao professor Matolla, de saudosa memória, foi nomeado pelo governo do Estado, director do Grupo Escolar desta cidade, o sr. dr. Augusto dos Anjos, residente no Rio de Janeiro.No entanto, não podemos calar ante a clamorosa injustiça do governo, preferindo para nomeação um cidadão inteiramente alheio ao magistério mineiro, quando ao cargo, põe sua natureza e de accordo do com as ideas do regulamento escolar deveria ser conquistado por acesso, como justa recompensa ao merito do professorado digno. Facil é comprehender que os professores sentir-se-ao sem estimulos, comprehendendo afinal, com dolorosa experiencia que, neste ramo da actividade humana, o merito tem menos valor que as conveniencias dos politiqueiros.”[10]

O poeta paraibano Augusto dos Anjos foi uma das maiores expressões literárias brasileiras. Foi diretor do Grupo Escolar de Leopoldina durante seis meses, tendo então falecido. Sua casa, localizada na avenida central da cidade - hoje conhecida como Barão de Cotegipe -, virou espaço cultural mantido pela iniciativa particular do artista plástico leopoldinense Raphael Domingues Rosa.

A intenção de se fazer um ensino público de qualidade estava presente no discurso liberal em Minas Gerais e encontrava expressão nas idéias de João Pinheiro. Todavia, esbarrava nas dificuldades da vida diária das camadas menos favorecidas da sociedade. Para um lavrador, educar os filhos, dando-lhes condições de aprender a ler, escrever e contar era uma tarefa quase impossível e um sonho que muitos abandonavam.

Em 8 de janeiro de 1912, através do Decreto 3.399, o governo do Estado criou diversas escolas rurais em Minas. Em Leopoldina foram abertas três: uma na Usina Maurício; outra em Barroso, distrito de Conceição; uma última na Colônia Constança, na Boa Sorte. Esta última foi inaugurada em novembro/dezembro daquele mesmo ano. Possuía classes mistas.[11]

As escolas rurais tinham um ensino voltado para o aprendizado agrícola e durante algum tempo foram consideradas formas de tirar o campo do atraso em que se encontrava. Na escola da Colônia Constança, os meninos recebiam orientações quanto a técnicas de cultivo e as meninas lições de costura, arranjos domésticos e culinária, para que se tornassem boas donas de casa e esposas. Havia, também, o Ensino Agrícola, gratuito, oferecido no Ginásio Leopoldinense. A Escola Agrícola - ou Ensino Agrícola -, anexa ao Ginásio, trazia para sua órbita filhos de pequenos proprietários e agricultores, além daqueles que não possuíam recursos. Essa população era educada dentro de padrões gerais que o estabelecimento mantinha em basicamente todos os cursos, conforme a direção fazia questão de salientar[12].

Refletir sobre o ensino público em Leopoldina é também refletir sobre a ação política e administrativa de um Estado onde se articulavam relações de poder ao nível nacional. É também, uma forma de compreender melhor o envolvimento, ou não, das elites econômicas na área social, visto que promover a educação dos miúdos era também uma forma de assistencialismo, em um Brasil onde o ensino público era encarado antes como uma dádiva do que com uma responsabilidade cívica.

[1] Gostaríamos de, posteriormente, comprovar essa teoria através da análise das livros de despesa do município e atas de reunião da Câmara Municipal.
[2] No tocante ao número de escolas públicas em funcionamento durante esse recorte pouco podemos dizer, pois essas informações estão contidas nos relatórios feitos pelo município para o governo do Estado, fonte que infelizmente não pudemos até o presente momento pesquisar.
[3] A Gazeta de Leopoldina, 08/06/1902, n. 8, p. 3
[4] Idem, 26/04/1903. Anno 9, n. 2, p. 3.
[5]Idem, 22/01/1899. Anno IV, n. 41, p. 2. É necessário salientar o caráter político que possuía este periódico. De propriedade do Deputado José Monteiro Ribeiro Junqueira era tendencioso e, quando possível, usado para fazer oposição a outros políticos mineiros, como aconteceu no caso citado.
[6] Idem. 15/08/1910. Anno 1, p. 1.
[7] Esse tipo de apelo era freqüente nos artigos da Gazeta de Leopoldina, principalmente entre 1896 e 1906.
[8] O Novo Movimento. 21/08/1910. Anno 3, p. 1 - 2
[9] Idem. 17/08/1913. Anno 6; n. 04, p. 01.
[10] Ver: Augusto dos Anjos em Leopoldina. Almanack d’Arrebol. Leopoldina, ano 2, n. 4 , nov. 1984, Arte & Cultura.
[11] A Gazeta de Leopoldina. 14/11/1912. Anno XVIII, n. 180, p. 2.
[12]Tanto no Ementário, quanto em diversos artigos lançados pela Gazeta de Leopoldina, a partir de 1912, a Escola Agrícola pretendia assumir um compromisso mais amplo com relação ao ensino. Embora os estudante lá não tivessem em seu currículo todas as matérias que possuíam os alunos que pagavam para estudarem na cidade, o nível de ensino deveria ser superior ao normalmente encontrado nas escolas públicas. Às aulas práticas eram acrescentadas aulas teóricas e o estudo de matemática, língua portuguesa e ciências, oferecidas por professores conceituados, enquanto que os outros conteúdos, técnicos, por indivíduos capacitados, geralmente, pela prática. Acreditamos que havia uma preocupação em se manter um padrão de ensino para todos os cursos. (Ver: REIS, Botelho, op. cit., e A Gazeta de Leopoldina. Diversos números de 1912).


Fonte: Este fragmento de texto é parte integrante da monografia de especialização que apresente na UFJF, em 1997 – O Ginásio Leopoldinanese: mito político e formação de elites na Zona da Mata Mineira (1906 - 1930), p.60-64

4 comentários:

Jenny Horta disse...

Parabéns pelo trabalho tão importante e informativo. Sou uma professora do ensino básico que enveredou pelos caminhos da informática...agora depois de 24 anos, criei coragem e vou cursar história. Visitarei sempre o seu blog, pois será um grande incentivo, sem falar do seu trabalho na Gibiteca.
Um abração

gilvaniadmc disse...

Estou adorando o seu trabalho sobre a história local. gostaria que você visitasse o meu blog.
gilvania

gilvaniadmc disse...

Estou adorando o seu trabalho sobre a história local. gostaria que você visitasse o meu blog.
gilvania

Natania Nogueira disse...

Ii Gilvania,
Eu já visitei seu blog, embora só tenha dado uma olhada rápida, e gostei muito. Devo voltar lá sim, com mais calma.Obrigada pelo convite!