terça-feira, 9 de março de 2021

A NASCIMENTO DA IMPRENSA FEMINISTA NA FRANÇA

Clementine-Hélène Dufau,  La Fronde, 1898, cromolitografia, 99, 80 x 137, 80 cm, colecção privada©Direiros reservados

Estas revistas tiveram um aumento significativo entre as décadas de 1820 e 1850, com 97 títulos publicados. Entre 1870 e 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, mais 30 periódicos já haviam surgido[1]. Alguns com maior ou menor longevidade, a frequência e a quantidade com que estes periódicos – jornais e revistas – foram publicados na França, durante o século XIX e início do século XX, sinaliza para a formação de publico leitor notadamente feminino que vai se identificar com o conteúdo destas publicações que, apesar de trazerem representações idealizadas das mulheres, abrem espaço para que temas de seu interesse político e social possam ser lidos e debatidos a partir da troca de correspondência entre leitoras e editores (as).

A imprensa feminina francesa, desde sua gênese, esteve comprometida com a manutenção da ordem social e entoava, em sua maioria, um discurso alinhado com aquele do patriarcado. No entanto, ao dar voz às mulheres por meio da imprensa, esta mesma ordem social permitiu que as mulheres estabelecessem uma postura crítica com relação a certos comportamentos que limitavam sua inserção no espaço público e lhe impunham normas de decoro que, com o tempo e o surgimento do movimento feminista, passaram a ser questionadas e não toleradas.

Ao lado desta imprensa das mulheres, e alinhada aos grupos dominantes, surgiu no século XIX, uma imprensa feminista, que nasceu e cresceu a partir das revindicações de direitos políticos para as mulheres, que neste período tinham como pauta central o sufrágio. É preciso estabelecer as diferenças entre estas duas mídias, a partir de seus objetivos, para que possamos compreender seus papéis dentro da sociedade francesa.

A imprensa feminista é engajada e suas primeiras jornalistas tinham como princípio a crítica ao poder e eram motivadas pelo idealismo. As feministas têm consciência da importância e do papel da imprensa como instrumento formador de opinião. Segundo Perrot, elas se recusavam, por exemplo, a adotar o sobrenome do marido e assinavam apenas com seu primeiro nome[2].

Em agosto de 1832, começou a ser publicado o primeiro jornal feminista francês, La Femme libre, produzido e publicado por mulheres, sob a direção de  Marie-Reine (Reine Guindorfe) e Jeanne-Désirée (Désirée Véret), ambas pertencentes ao florescente movimento Saint-Simoniano[3]. O Movimento Saint-Simoniano era ligado ao socialismo utópico que surgiu no início do século XIX na Europa. Ele tinha como preocupação os papéis sociais e econômicos das mulheres na sociedade. Acreditava que homens e mulheres estavam envolvidos em uma grande rede social, mas eram inerentemente diferentes.  Em 1832 um grupo de mulheres cria uma dissidência dentro do movimento, Dessa dissidência nasceu o jornal La Femme libre[4].

Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:La-Femme-Libre-1-1832-b.jpg>. Acesso em: Acesso em: 18 set. 2018.

As mulheres Saint-Simonianas formaram uma organização feminista separatista com preocupações e objetivos pragmáticos, que envolvia principalmente o papel social e econômico das mulheres na sociedade.  Suas adeptas questionaram e exigiram mudanças na Lei de Família do Código Napoleônico e queriam a expansão das oportunidades educacionais e econômicas para as mulheres. Elas edificaram um movimento orientado para mulheres e liderado por mulheres.[5] Dentro desse movimento, o La Femme libre, que circulou até 1834, com 34 edições, teve um papel muito importante, criando um novo tipo de imprensa, no qual assuntos como moda e economia doméstica foram substituídos por temas profundamente políticos.

Muito do pioneirismo deste periódico vem da participação de mulheres que falam por si mesmas e não de homens que falam pelas mulheres. E, ao contrário do que aconteceu em outros periódicos voltados para o público feminino, as mulheres que colaboraram e ajudaram a manter financeiramente o La Femme libre eram mulheres do povo. Os custos de publicação foram financiados por costureiras e por assinantes. A independência financeira com relação aos homens possibilitava uma liberdade de expressão para as mulheres que até então não havia sido experimentada[6].

Não era para menos que o periódico tivesse em sua pauta reivindicações pelos direitos civis das mulheres, pela liberdade sentimental, amorosa e sexual[7]. O objetivo do jornal era, acima de tudo, conscientizá-las do seu poder transformador, com base em princípios de liberdade e igualdade[8]. Buscava-se o empoderamento feminino, já em princípios do século XIX, quando o feminismo ganhava seus primeiros contornos. 

Até o final do século muitos outros periódicos feministas iriam surgir na França, à medida que se fortaleciam as reivindicações das mulheres por participação política, igualdade de direitos e liberdade. Crescia o interesse pelo feminismo, o que seria posteriormente chamado de sua primeira onda, na França. Poder publicar em um jornal e expressar suas ideias políticas era uma forma de libertação para muitas mulheres, de vários segmentos da sociedade. Era poder participar da esfera pública, algo que por muito tempo lhe foi negado.

Marguerite Durand

Neste ínterim, um periódico feminista francês se destacou dos demais, La Fronde. Fundado por Marguerite Durand, ele circulou entre 1897 e 1905. Este foi o primeiro jornal feminista de circulação diária, embora posteriormente tenha se tornado mensal e era totalmente gerido por mulheres: não havia cargos na editoração e na produção, nem mesmo na tipografia, que não fosse ocupado por mulheres.  As mulheres que trabalhavam na sua  tipografia chegaram a fundar o Sindicato das Mulheres tipográficas, em 1899[9].

Foi o primeiro jornal feminista a ser bem sucedido, com uma tiragem significativa e um grande número de leitores. E isso se deveu muito à experiência de Marguerite Durand, uma das mais notáveis jornalistas francesas de seu tempo, que aderiu ao feminismo no final do século XIX. Durand começou sua carreira como atriz e depois de casada passou a se dedicar ao jornalismo. Escreveu para o La Presse, que era dirigido pelo seu marido, o advogado George Laguerre. Após o fim do seu casamento, trabalhou para Le Figaro e a seguir passou a militar em prol do socialismo e do feminismo criando  La Fronde[10].

Com La Fronde surgiu uma mídia impressa dentro dos padrões dos grandes jornais, onde temas feministas passaram a ser divulgados para o grande público, ou seja, saindo de um círculo fechado e limitado de leitores para adentrar em espaços onde os jornais abertamente militantes não penetravam. La Fronde mostrou a vivacidade de um jornalismo feito por mulheres, com compromisso com o profissionalismo e, ao mesmo tempo, com a luta engajada por direitos civis e políticos. O jornal possuía, segundo Sandrine Lévêque, um formato híbrido, no qual se apresentava como um jornal moderno, fiel às regras do mercado, e, ao mesmo tempo, uma empresa particular regida pelas regras e pelo idealismo da sua proprietária[11] Ele era, aparentemente, um jornal como os outros, dentro do modelo padrão do jornalismo francês, mas totalmente feito por mulheres.



[1] ZARMANIAN, Charlotte Foucher. Les femmes artistes sous presse. Les créatrices vues par les femmes critiques d’art dans la presse féminine et féministe en France autour de 1900, Sociétés & Représentations 2015/2 (N° 40), p. 111-127. Disponível em: < https://www.cairn.info/revue-societes-et-representations-2015-2-page-111.htm>. Acesso em: 22 set. 2018, p. 115.

[2] PERROT, Michele. Minha História das Mulheres.- São Paulo: Contexto, 2007,, p. 34.

[3] FERRANDO, Stefania, KOLLY, Bérengère. Le premier journal féministe. L’écriture comme pratique politique. La Femme libre de Jeanne-Désirée et Marie-Reine. in Thomas Bouchet et al., Quand les socialistes inventaient l’avenir, La Découverte.  Hors collection Sciences Humaines, 2015, p. 104.

[4] FORGET Evelyn L. . Saint-Simonian Feminism. Feminist Economics 7(1), 2001, 79–96. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1080/135457001316854737>. Acesso em 21 set. 2018, p. 89

[5] FORGET. Op. Cit., 2001, p.90.

[6] FERRANDO. Op. Cit., 2015, p. 105.

[7] PERROT. Op. Cit., 2007, p. 34.

[8] FERRANDO. Op. Cit.,  2015, p. 109.

[9] CHAIGNAUD, François. L’affaire Berger-Levrault : le féminisme à l’épreuve (1897-1905), Rennes, Presses universitaire de Rennes, 2009,p. 165.

[10] CHALIER,Isabelle.La création du journal La Fronde en 1897 par Marguerite Durand (2018). Retronews – Le site de presse de la BNF. Disponível em: <https://www.retronews.fr/journaux/long-format/2018/04/23/la-creation-du-journal-la-fronde-en-1897-par-marguerite-durand>. Acesso em 22 set. 2018.

[11] LÉVÊQUE, Sandrine. Femmes, féministes et journalistes : les rédactrices de La Fronde à l'épreuve de la professionnalisation journalistique. Le Temps des médias 2009/1 (n° 12), p. 41-53. Disponível em: < https://www.cairn.info/revue-le-temps-des-medias-2009-1-page-41.htm>. Acesso em: 23 set. 2018, p. 48.

sábado, 6 de março de 2021

O RAPTO COMO ESTRATÉGIA AMOROSA EM MINAS GERAIS

Imagem capturada em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/namoro-e-casamento-a-moda-colonial.phtml>. Acesso em: 06 mar. 2021.

Uma das estratégias amorosas mais comuns no século XIX, era o rapto. Jovens casais apaixonados fugiam na calada da noite, muitas vezes montados no lombo de cavalos, ou embarcando sorrateiramente em vagões de trens, na esperança de que, quando encontrados, a família da moça permitisse o casamento. Casos como este eram frequentemente narrados nos jornais.

Em cidades como Juiz de Fora (MG), por exemplo, os raptos eram frequentes e, não raramente, podia-se encontrar alguma nota ou mesmo um texto mais longo noticiando as aventuras e desventuras amorosas de jovens, na segunda metade do século XIX. O rapto geralmente era consentido pela moça, que atuava como coautora, mediante a promessa de casamento feita pelo enamorado, uma vez que, após a fuga, suas chances de matrimônio com ouro homem ficariam comprometidas.  

A Gazeta de Leopoldina, de 27 de setembro de 1896, do município e Leopoldina (MG), vai trazer um texto (incompleto) sobre um destes casos. Este periódico, em particular, não costumava dedicar, ao menos neste período, espaço para este tipo de notícia, que envolver relações familiares e afetivas, que não são encontradas com tanta frequência como nos jornais de Juiz de Fora. O caso envolve uma moradora do distrito e Providência. Leia um trecho da transcrição do caso:

“O indivíduo de nome Paulino Antônio da Silva, raptou no distrito da Providência, deste município, a menor Izabel, e contava fazer com ela vida comum sem dar menor satisfação ao juiz de paz e ao padre da freguesia. Para realizar tão venturosos planos, escolheu no próximo município de Cataguases, uma poética moradia. As autoridades dali, porém, que não dormem, acharam felicidade demais para este mundo de dores e privações e engaiolaram os felizes viventes. Verificado o defloramento, e sendo o fato realizado neste município, foram enviados ao enérgico temente Pimenta, digno delegado de polícia, não só os papeis referentes assim como os felizes fugitivos. ”[1]

O texto, é encerrado abruptamente, não havendo sequência, pelo menos não nesta edição, mas este pequeno trecho nos traz muitas informações acerca desta estratégia amorosa. Dados como a idade do autor do rapto e sua ocupação não estão presentes, mas, supõe-se que seja um homem adulto e que tenha certa ocupação visto que havia conseguido uma casa para viver com a moça.

O rapto foi detalhadamente planejado. A menina, menor, foi levada para outro município, Cataguases (MG), no qual o autor, Paulino Antônio da Silva, já havia preparado uma casa para coabitação do casal. Reparem que o texto descreve o evento de forma jocosa, quase como se fosse uma piada, o que de certa forma ameniza o fato do casal ter realizado um ato que desafiava o pátrio poder, ou seja, a autoridade do homem, o pai, sobre as mulheres da sua família.

A comprovação do defloramento é uma forma de conseguir a efetivação do casamento do casal, que poderia ser realizado na delegacia, sob ordens do delegado. Este era, em geral, o objetivo do rapto, o casamento, uma vez que os pais da moça não conseguiriam depois do incidente e comprovado o defloramento que ela conseguisse um bom casamento na sua localidade. Mas isso não era necessariamente uma regra. Nem sempre o raptor tinha relações sexuais com a moça, que era simplesmente levada para a casa de outra pessoa, local no qual ficava escondida, aguardando o desfecho da situação. O casamento, então, deveria ser feito às pressas para se preservar a honra e o nome da família[2].

Quem eram essas moçar que aceitavam participar desses arranjos? Segundo Mary Del Priore,

“Eram moças a quem os pais não consentiam o casamento e afirmavam seu direito de amar, independentemente das situações de raça, dinheiro ou credo. Segundo ele, essas fugas de novela marcam o declínio da família patriarcal e o início da família romântica. Nela, a mulher começava a fazer valer seu desejo de sexo e de querer bem. ”[3]

Era comum e usual o arranjo matrimonial entre as famílias mineiras, nos séculos XIX e em parte do século XX. As mulheres eram utilizadas como “moeda” de troca, em acordos familiares. A fuga de jovens apaixonados, desafiava a regra geral estabelecias pelo pátrio poder e pode ser considerada uma estratégia de resistência, tanto por parte das mulheres, quando por parte dos homens, muitas vezes obrigados a uma união baseada em relações de reciprocidade entre famílias. O memorialista Pedro Nava, por exemplo, narrou um destes casos em suas memórias, no qual Regina, filha de Luiz da Cunha, bisavô de Nava, planejou fugir com seu primo Chico Horta, para casar-se, em 1858[4].

O rapto poderia envolver jovens de grupos abastados e oriundas de classes subalternas. Entre dos grupos de elite a possibilidade de escolha de um cônjuge era muito reduzida e, muitas vezes, o casamente entre primos ou parentes próximos era uma forma de manter e aumentar a fortuna o poder da família. É o que Mônica Junqueira chamou casamentos consanguíneos. Era uma forma de reprodução social, na qual bens materiais e simbólicos circulavam entre famílias importantes e garantiam a perpetuação de seu patrimônio político e social.

Esses casamentos, além de reforçarem o patrimônio da família e afastarem o “fantasma” da falência, permitiam a solidificação das relações, que não passavam somente por um contrato comercial entre devedor e seus credores, como um negócio de família, cuja fortuna e sangue não se dispersavam. Como os esposos, graças ao pátrio poder, possuíam a autoridade de chefes de família, administravam as heranças de suas esposas, possibilitando cada vez mais, o fortalecimento do patrimônio familiar”.[5]

Segundo Mary Del Priore, entre as pessoas mais simples o afeto e o amor possuem um papel importante no casamento e os padrões morais eram mais flexíveis.[6] Mesmo que entre as classes subalternas muitos arranjos matrimoniais fossem baseados em relações de reciprocidade, e buscava-se casamentos que pudessem trazer para a família da noiva, principalmente, algum ganho material, havia certa liberdade entre os jovens de propor casamento a sua amada, com alguma chance de sucesso.

Mas nem sempre os raptos terminavam em casamentos felizes e, em muitos casos costumavam envolver homens já casados que seduziam jovens solteiras com promessas que não pretendiam cumprir. Temos ainda casos nos quais um homem promove o rapto de mais de uma mulher, como ocorreu em Cataguases, em, 1906, quando um homem raptou três mulheres com o objetivo de estabelecer uma relação poligâmica.[7] Além disso, havia casos de raptos sem consentimento da moça, que se via obrigada a casar com um agressor sexual, com o qual deveria permanecer o resto de sua vida.


[1] Rapto. Gazeta de Leopoldina. Leopoldina, 27 de setembro, 1896, nº 17, p. 02.

[2] DEL PRIORE, Mary. História do Amor no Brasil. – São Paulo: Contexto, 2005, p. 148.

[3] DEL PRIORE, Op. Cit., 2005, p. 147

[4] NAVA, Pedro. Baú de Ossos. – 6ª ed – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p 121.

[5] OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Negócios de família: mercado, terra e poder na formação da

cafeicultura mineira. 1780-1870. Bauru – SP: Edusc; Juiz de Fora, MG; FUNALFA, 2005, p. 168-9.

[6] DEL PRIORE, OP. Cit., 2005, p. 159.

[7] Jornal do Commercio, Juiz de Fora, 08 de maio de 1906, ano XI, n 2944, p. 02.


quinta-feira, 4 de março de 2021

BIOGRAFIA ILUSTRADA DE JERÔNIMA MESQUITA


No dia 23 de fevereiro de 2021 foi lançada, em Leopoldina (MG), uma biografia ilustrada de Jerônima Mesquita, personagem muito importante, mas nem sempre lembrada, da História das Mulheres no Brasil. Nascida no Município de Leopoldina, no final do século XIX, Jerônima Mesquita foi uma figura destaque no  movimento sufragista brasileiro, tanto que o Dia Nacional da Mulher, 30 de abril, foi criado em sua homenagem.

A obra "A Mulher que empoderava mulheres" escrita pela professora Natália Montes e ilustrada pela artista plástica Simone M. Campos faz uma leitura biográfica da vida de Jerônima Mesquita numa linguagem acessível e clara. A obra é direcionada ao público infantil, ao qual é preferencialmente recomendada. 

Eu poderia definir essa obra como apenas com uma palavra "sensível". As ilustrações são de um frescor impar e comungam muito bem com o conteúdo. Embora seja um livro infanto-juvenil recomendo sua leitura não apenas para crianças mas também para jovens e adultos. E não apenas de Leopoldina, mas de todo Brasil, afinal Jerônima Mesquita é uma mulher que representa todas as mulheres, de todo o Brasil.

Como não é obra de distribuição nacional, não vai ser encontrada em livrarias, mas quem tiver interesse, pode entrar em contato com a autora pelo e-mail: nataliamontes76@gmail.com

COMENTANTO O DORAMA MR QUEEN - 철인 왕후

Depois que passe a assistir séries do leste asiático (os dramas ou doramas) eu fui várias vezes surpreendida com programas muito acima da média daqueles que eu estava acostumada a assistir. Devo muito isso ao Netflix que disponibilizou uma grade de programação muito rica, que engloba filmes e séries de todo o mundo e que ampliou meus horizontes culturais. E não me refiro aqui apenas a dramas sul-coreanos ou chineses, mas também tailandeses e também de outros países como França, Espanha, Irã, filmes africanos de ótima qualidade. Eu se desprendi das produções estadunidenses e foi como enxergar um novo mundo com novas cores.

De atores excelentes a cenários deslumbrantes, é como viajar pelo mundo sem sair de casa, conhecer outras formas de pensar, identificar formas de resistência e várias representações sociais. E como estamos vivendo uma época transmidiática, uma coisa puxa a outra. A gente começar assistindo séries e filmes, passa a se encantar pela música, a se interessar por games e a ter contato com produções literárias e outras formas de narrativas como quadrinhos que não sabíamos que existia. Junte-se a isso um profissionalismo que merece ser aplaudido de pé, de roteiristas e diretores que conseguem fazer um excelente trabalho com um orçamento muito menor do que qualquer produção média de Hollywood.

Dito tudo isso, eu gostaria de comentar a grande surpresa deste ano que foi o K-drama "Mr. Queen" (철인 왕후), com 20 episódios e mais dois episódios extras, exibidos entre 12 de dezembro e 14 de fevereiro, que eu assisti no Viki. Pois é, infelizmente não está no Netflix, quem sabe no futuro? Já vou adiantando que vou fazer comentários que podem conter spoillers, porque talvez seja difícil falar sobre a drama sem entrar em certos detalhes. Vamos começar pelo título. "Mr. Queen", que é genial e não está escrito errado. 

Baseado no drama da web chinês Go Princess Go, conta as aventuras de um renomado cozinheiro chamado Bong-hwan, que após um acidente vê sua alma sendo transportada no tempo e aprisionada no corpo da infeliz rainha Cheorin na Era Joseon (uma monarquia fundada por Taejo Yi Seong-gye que existiu entre 1392 e 1897). Ou seja, um homem preso no corpo de uma mulher. Pode até parecer que não há nada de extraordinário nisso, mas a coisa não era tão simples assim. A alma da rainha ainda estava lá, ou seja, Bong-hwan compartilha com ela memórias e sentimentos, inclusive a paixão não correspondida que ela tinha pelo rei.

Em meio a tramas políticas e muitos, mas muitos momentos de humor inteligente, temos uma narrativa que simplesmente não deixa furos e que consegue abordar de forma muito interessante questões como, por exemplo, a identidade de gênero. Isso porque Bong-hwan está sob comando do corpo da rainha, mas ela aos poucos vai se manifestando e assumindo controle em alguns momentos, chegando ao ponto de que o cozinheiro não sabe ao certo o quais são seus pensamentos/sentimentos e quais são os dela.

E imaginem a confusão e as cenas hilárias que são produzidas pelas ações de uma mulher do século XIX, que viveu toda uma vida sob rígido controle, que agora tem seu copo possuído por um homem do futuro? A rainha promove uma verdadeira revolução no palácio e na vida do rei e literalmente muda o futuro. Junte-se a isso um figurino de época muito bonito e uma fotografia esmerada.

Além disso, vários temas atuais são discutidos. Há questões políticas relevantes assim como questões culturais e geracionais. O roteiro é muito rico em referências que fazem este drama histórico muito próximo do presente. E vamos falar dos atores. Dos protagonistas Shin Hye-sun (Rainha Cheorin) e Kim Jung-hyun (O rei Cheoljong) ao elenco de apoio não há um que não tenha desempenhado bem seu papel. 

Mas não há como negar que Shin Hye-sun tenha sido o maior destaque. A atriz realmente deu vida ao personagem de uma forma que eu nunca havia visto. Atuação perfeita do início ao fim. De todos os doramas que assisti nos últimos seis meses eu acredito que esse tenha sido o melhor, de longe, em todos os quesitos. Aliás, e não sou só eu que acho. A audiência do programa foi uma das melhores do país, chegando a 17,371% dos expectadores do país, o que não é pouca coisa.

É bom lembra que se trata de uma obra de fantasia que não tem compromisso com a fidelidade histórica e dá outros rumos à vida do rei e da rainha que lá são apresentados como protagonistas. mas há um cuidado muito grande na pesquisa do figurino, na escolha dos cenários e em outros detalhes. O drama vai, por exemplo, introduzir gírias e expressões modernas que não fazem parte do contexto no qual a narrativa se desenrola (século XIX). 

terça-feira, 2 de março de 2021

A IMPRENSA DAS MULHERES NO SÉCULO XIX NA FRANÇA

Página do Journal des dames et des modes, 1830

Pinterest. Imagem disponível em: https://br.pinterest.com/pin/208432288981056862/. Acesso em: 18 set. 2018.


Desde que os primeiros jornais começaram a circular na França, as mulheres letradas passaram a ter acesso ao seu conteúdo. Eram, no entanto, jornais voltados para o interesse dos homens e que não consideravam as mulheres como um público leitor em potencial.  Mas no século XVIII surgiram os primeiros periódicos destinados ao público feminino, apesar de obedecerem a uma pauta editorial específica e restrita, ditada pelos homens.

Um dos primeiros periódicos voltado para as mulheres foi o Journal des Dames[1], fundado por Thorel Campigneulles, o periódico que circulou em Paris entre os anos de 1759 e 1778.  O Journal des Dames era um jornal literário criado para incentivar as mulheres a escreverem[2]. Era uma publicação que abria espaço não apenas para a expressão feminina, através de suas editoras, como, também, externava a preocupação com a educação das mulheres. Outros periódicos seriam publicados na França, mas com uma linha editorial diferente. 

O periódico teve três editoras, dentre elas Madame Beaumer, ferrenha defensora dos direitos das mulheres.  Em um editorial publicado em março de 1762, defendia  o Journal des Dames de seus críticos e também as mulheres enquanto protagonistas sociais. Segundo Madame Beaumer, o sucesso do jornal incomodava os homens que insistiam em não reconhecer a capacidade das mulheres de escrever e ter opinião. 

Com um tom duro contra os detratores do periódico, Madame Beamer defendia o direito das mulheres de se expressarem em público e de participarem da cultura letrada. Ela foi a “primeira jornalista das damas”. A partir dela o Journal des Dames assumiu um discurso não conformista e até mesmo radical. Sobre a vida de Madame Beamer sabe-se muito pouco. Ela se destacou pela sua militância política a favor dos pobres e oprimidos, por justiça social, pela maçonaria, tolerância religiosa, por uma república livre e pela paz mundial[3]. 

Segundo Michele Perrot, a primeira imprensa das mulheres a formar-se no país foi voltada para a moda e outras atividades consideradas de interesse feminino. Elas ficam confinadas a publicações direcionadas a jovens e mulheres e a temáticas superficiais, que não demandavam grande esforço. A profissão de jornalista permanecia restrita para grande parte das mulheres que, mesmo colaborando com periódicos já desde o século XVIII, na França, ainda não tinham o direito de se profissionalizar como jornalista . A primeira mulher a reivindicar para si o jornalismo como profissão, foi Jeanne Deroin, em 1850, durante o julgamento da l’Union des Associations (União das Associações), quando vinte pessoas foram acusadas de atividades socialistas ilegais. Quando indagada de sua profissão ela responde: professora e jornalista[4]

Em 1797, surgiu aquela que é considerada a primeira revista de moda ilustrada francesa, o Journal des Dames et des modes, que circulou até 1839.  Este tipo de impressa cresceu e se desenvolveu ao longo do século XIX, sob a égide da II Revolução Industrial, que favoreceu o surgimento de uma pequena e média burguesia que queria se distinguir por meio da elegância de seus trajes e que impulsionou a indústria da moda. 

Durante a Revolução Francesa, os elementos que dentavam distinção social com vestuário, linguagem, comportamentos, deferência e títulos foram sendo abandonados, uma vez que eram mal vistos pelos revolucionários. Era difícil definir a origem social dos indivíduos, por exemplo, pela sua vestimenta[5]. Segundo Denise Davidson, periódicos como o Journal des Dames et modes tinham a função social de ensinar esta nova burguesia a se comportar, se vestir e criar uma nova identidade social[6]. Publicações como o Journal des dames et des modes cumprem parcialmente essa função para aquelas mulheres que não o sabem fazer sozinhas. 

Era a burguesia francesa construindo a sua identidade após a tomada do poder e a consolidação de suas conquistas com a revolução. O crescimento desta indústria levou à formação de um mercado de consumo direcionado especificamente às mulheres, com produtos que passaram a ocupar espaço nas vitrines das lojas e dos boticários. 

Mas as mulheres acabaram se apropriando destas revistas para tratarem de temas de seu interesse como foi o caso do Journal des demoiselles, fundado em 1833 por Jeanne-Justine Fouqueau de Pussy, destinado a meninas com idade entre 14 e 18 anos. Michele Perrot cita a publicação em seu livro Minha História das Mulheres (2007), onde destaca a tese de doutorado de Christine Léger, defendida em 1988, que analisa a publicação e seu papel na educação de meninas no século XIX. O Journal des Demoiselles destacou-se por ser uma publicação mensal composta, escrita e mesmo parcialmente financiada por mulheres. Na revista podia-se observar, segundo Michele Perrot, um desejo de emancipação das mulheres pela educação e pelo trabalho. A revista aconselhava jovens a estudarem, por exemplo, outros idiomas, pois a tradução era uma profissão conveniente para a mulher[7]

Ao resenhar a tese de Léger, para a revista Romanisme (1992), Perrot chama a atenção para as formas de valorização da mulher, enquanto sujeito social, que eram apresentadas no periódico por meio de biografias de mulheres notáveis e novas representações, por exemplo, do casamento, que aparece como sendo uma escolha da mulher, a quem se aconselha que seja por amor, mais igualitário e com esposas mais ativas e independentes, Há ainda a preocupação em preparar as meninas para a inserção no mercado de trabalho, através de profissões como a de ilustradora, que aparece como outro meio de subsistência e de independência financeira[8]

Atividades como a tradução e a ilustração poupavam as jovens mulheres do convívio com homens em um espaço de trabalho fechado, pois poderiam ser desenvolvidas no espaço privado. Ao longo do século XIX em países como França, Estados Unidos e Suécia, a ilustração como atividade remunerada foi desejada e abraçada por muitas jovens, sendo que algumas delas se destacaram na nascente indústria cultural do século XIX. 

Esta nascente imprensa das mulheres gira em torno de dois eixos: educar a juventude e formar um novo mercado consumidor para os produtos destinados ao consumo feminino. Em sua maioria são periódicos de tom moralista e conservador, embora exista um discurso latente de valorização da mulher e uma demanda por direitos civis e políticos. Mesmo nas publicações mais inocentes, ao mesmo tempo em que se exige o recato também há a preocupação de se elevar a autoestima feminina, em maior ou menor proporção, de acordo com a orientação editorial do periódico.



[1] PERROT, Michele. Minha História das Mulheres.- São Paulo: Contexto, 2007, p. 33

[2] BEAUMER. Editorial, Journal des Dames (march 1762). Disponível em: <http://chnm.gmu.edu/revolution/d/471/>. Acesso em: 20 set. 2018.

[3] DAVIS, Zemon Natalie, FARGE, Arlette (editors). A History of Women in the West – II Renaissence and Enlightenment Paradoxes. 2º ed.- London: Havard Univesity Press, 1993, p. 428.

[4] PRIMI, Alice. La “porte entrebâillée du journalisme”, une brèche vers la Cité ?  Femmes, presse et citoyenneté en France, 1830-1870 », Le Temps des médias 2009/1 (n° 12), p. 28-40. Disponível em: <https://www.cairn.info/revue-le-temps-des-medias-2009-1-page-28.htm>. Acesso em 23 de setembro de 2018, p. 28.

[5] DAVIDSON, Denise, « L’identité politique et sociale au quotidien, 1795-1815 », Annales historiques de la Révolution française [En ligne], 359 | janvier-mars 2010, mis en ligne le 01 mars 2013. Disponível em: https://journals.openedition.org/ahrf/11497>. Acesso em: 20 set. 2018, p. 162.

[6] DAVIDSON. Op. Cit, 2013,  p. 171.

[7] PERROT, OP. Cit., 2007, p. 33

[8] PERROT, Michelle. Christine Léger, Le Journal des Demoiselles. In: Romantisme, 1992, n°77. Les femmes et le bonheur d'écrire. pp. 101-102. Disponível em: <www.persee.fr/doc/roman_0048-8593_1992_num_22_77_6060>, acesso em: 20 set. 2018, p. 102.

V ENTRE ASPAS - AS INSCRIÇÕES JÁ COMEÇARAM

 

Entre ASPAS é um encontro promovido pela Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS) com o objetivo de reunir seus associados e associadas, a cada dois anos, na cidade de Leopoldina, sede física da ASPAS. Este ano todas as atividades serão remotas e distribuídas em três dias, sendo o dia 26 de maio a abertura e o dia 28 de maio o encerramento. Uma oportunidade que, para aqueles que se interessam pelo tema, participarem pela primeira vez sem a necessidade de deslocamento.

O tema deste ano é “Quadrinhos e conexão intermídia”. Estamos vivendo um momento em que as mídias nunca foram tão acessadas e a palavra conexão ganhou um significado mais amplo, o qual resume bem a missão que a ASPAS possuí há quase 10 anos: estabelecer uma rede de conexões entre pesquisadores dedicados aos quadrinhos. 

Uma das características da ASPAS é congregar pesquisadores de todas as áreas. Dos trabalhos inscritos em outras edições do Entre ASPAS tivemos participação de biólogos. historiadores, sociólogos, pedagogos, teólogos, geógrafos, entre tantos outros profissionais e, também, relatos de experiências de profissionais do ensino básico. Todos são bem-vindos e sua participação igualmente relevante.

As inscrições para comunicações começaram dia 01 de março e vão se encerrar no dia 15 de abril., então não perca tempo. Poderão participar do V Entre ASPAS os associados e as associadas da ASPAS, bem como demais profissionais que desenvolvam ou tenham interesse em desenvolver ações relacionadas ao estudo ou à pesquisa envolvendo artes sequenciais (quadrinhos, animação, cinema). Podem participar, também, alunos do ensino médio envolvidos em projetos de extensão envolvendo mídias e quadrinhos, sob orientação de um professor/pesquisador.

Confira mais informações e/ou faça sua inscrição clicando aqui!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

PRÊMIO ARTÉMISIA 2021 - OBRAS SELECIONADAS

O Prix Artémisia  anualmente premia as melhores autoras de quadrinhos publicados em idioma francês  e é oferecido pela Associação Artémisia, que leva o nome da artista italiana do século XVII Artémisia Gentileschi. A cada ano, a associação estabelece uma lista de prêmios e entrega seus prêmios a vários laureados.

As obras  selecionadas para a edição de 2021 foram publicadas em 2020 e sua escolha tive como critérios, sua qualidade, originalidade e criatividade. As vencedoras serão anunciadas dia 07 de janeiro de 2021 durante a abertura de uma exposição dedicada às obras de algumas das autoras premiadas em edições anteriores, na livraria Espace des Femmes-Antoinette Fouque, localizada na rue Jacob 35, em Paris, no 6º arrondissement.

A exposição  "Artemisia, du 15e  siècle  à  l’année de la BD" homenageará Artémisia Gentileschi, que nos brindou com obras maravilhosas até sua morte, em 1656. Artémisia Gentileschi foi umas primeiras mulheres a se destacar na história da arte. Na exposição serão expostas obras de Chantal Montellier, Catel, Laureline Mattiussi, Claire Mallary, Una e Jacky Flemming, assim como uma mostra de vídeos gravados durante a entrega dos prêmios anteriores, por Line Scheibling.

As obras selecionadas para a edição de 2021 são:

1 -  Anaïs Nin de Léonie Bischoff (Casterman)

2 - Baume du tigre de Lucie Quéméner (Delcourt)

3 - Corps en grève de Valentine Boucq et Amandine Puntous (Steinkis)

4 - Les Croques de Léa Mazé (Éditions de la Gouttière)

5 - La déesse requin de Lison Ferné (CFC éditions)

6 -  Hippie Trail de Séverine Laliberté et Elléa Bird (Steinkis)

- La mécanique du sage de Gabrielle Piquet (Atrabile)

8 - Melvina de Rachele Aragno (Dargaud)

9 - Moi Mikko et Annikki de Tiitu Takalo (Rue de l’Échiquier)

10 - Sauf imprévu de Lorena Canottiere (Ici même)

11 - Sourvilo d’Olga Lavrentieva (Actes Sud)

12 - Vent Mauvais de Cati Baur (Rue de Sèvres)


O júri deste ano é composto pela quadrinista, escritora e co-fundadora do Prêmio Artemísa, Chantal Montellier , pela professora de história e geografia Julie Scheibling, pela jornalista Laure Garcia , pelo teórico do cinema Gilles Ciment , ex-diretor da Cité Internationale de la comic et l’image Patrick Gaumer e o escritor, jornalista, autor do World Comic Book Dictionary (Larousse) , Pascal Guichard. O presidente do júri é Laurent Gervereau , artista visual, escritor, diretor de instituições de patrimônio (Musée du vivant) e redes internacionais, presidente do Institut des images. Escritor Gilles Ratier, autor do relatório anual sobre a situação econômica e editorial dos quadrinhos.


Na edição de 2020, o Grande Prêmio foi concedido a Barbara Baldi por seu romance gráfico Ada, publicado pelas edições Ici Even.

QUANDO OUVIR GANHOU OUTRO SIGNIFICADO


Em tempos de pandemia a maioria de nós deixou de ver para ouvir e o som se tornou um dos grandes refúgios para os corações cada vez mais solitários. Nós passamos a ouvir amigos, colegas e desconhecidos, em podcasts, lives e reportagens. O isolamento fez com que ouvíssemos com mais atenção e tornou mais forte nossa memória auditiva. Quantos professores, por exemplo, que depois de quase um ano de aulas remotas não passaram a reconhecer seus alunos pelo som, da sua voz?

Quantos familiares não passaram a interagir mais por chamadas telefônicas ou de vídeo com outros familiares com os quais raramente conversava? Amigos distantes ficaram mais próximos e novas amizades foram nascendo de inteirações entre pessoas por meio digital. Mas mesmo que houvesse imagem, o som se tornou mais representativo. Fechar os olhos e ouvira a voz de outra pessoa passou a preencher um espaço n’alma de muitas pessoas. O som fez revistar antigas memórias e levantas novas questões.

Será que é assim com os astronautas, que ficam meses isolados em estações espaciais? Será que eles também criaram uma memória auditiva em meio ao silencia do espaço, onde o som não propaga? Contrariando muitas das projeções, 2020 foi um ano de encontros. Nos encontramos conosco e com outras pessoas, mas de forma diferente. Criamos memórias singulares que dificilmente serão esquecidas. Superamos grandes dificuldades embalados pelos sons mais diversos. Se carecemos de contato físico, nossas almas nunca estiveram tão próximas. Contrariando as leis da física o som ultrapassou a luz.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

OS 50 ANOS DO I CONGRESSO INTERNACIONAL DE QUADRINHOS


I Congresso Internacional de Quadrinhos - MASP - 1970. Imagem retirada do livro "50 anos: edição Comemorativa da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos (2001)", de Álvaro de Moya.

Novembro passado o I Congresso internacional de Quadrinhos, que ocorreu no Museu de Arte de São Paulo (MASP), entre os dias 23 e 29 de novembro, de 1970, completou 50 anos. O evento teve como instituição de fomento a Escola Panamericana de Arte, fundada em 1963 pelo artista plástico Enrique Lipszyc, um dos idealizadores do congresso.  O acontecimento representou um marco para a pesquisa acadêmica sobre quadrinhos e uma mostra da crescente valorização dessa mídia, que, ao longo dos anos de 1950, sofreu um forte preconceito por parte de setores conservadores da sociedade.

Se ainda havia aqueles que ainda consideravam a leitura de quadrinhos nociva, crescia e se fortalecia um grupo de intelectuais, artistas e educadores que percebiam os quadrinhos como algo além de uma forma de entretenimento barata. Isso pode ser observado tanto em âmbito local quanto nacional. Naquele ano de 1970, escolas da educação básica receberam cartilhas educativas na forma de quadrinhos e os correios, em benefício da Federação das Entidades na Luta Antituberculose do Estado de São Paulo (FELASP), promoveram uma campanha para venda de seloscom os personagens da Turma da Mônica.[1]

São Paulo se destacava não apenas como um polo produtor de quadrinhos mas, também, como irradiador de pesquisas. Nada mais natural que partisse de lá a iniciativa para se colocarem os quadrinhos em debate, a partir de um evento acadêmico, reunindo não apenas autores como pesquisadores. No âmbito local, o I Congresso Internacional de Quadrinhos recebeu atenção de jornais da capital e do interior do Estado de São Paulo, tanto pelo tema abordado quanto pelos convidados, brasileiros e estrangeiros.

A Tribuna, jornal de Santos, no litoral, dedicou quase meia página para noticiar o evento no MASP, destacando a presença estrangeira[2]. Nomes consagrados da indústria dos quadrinhos, representando gêneros e tendências diferentes.

Tabela

* Dados biográficos retirados da wikipedia e da Enciclopédia dos Quadrinhos.

Paralelamente, Pietro Bardi (criador do MASP) e Enrique Lipszy foram responsáveis pela curadoria de uma Exposição Internacional de Quadrinhos, narrando a história da mídia a partir de 1900. A exposição ficou aberta ao público até 15 de dezembro daquele ano. Um dos colaboradores da exposição foi escritor e ilustrador santista Diamantino Silva. 

No dia 23 de novembro, a Folha de S. Paulo colocou os quadrinhos ao lado de Cândido Portinari e de Mário Gruber em uma matéria sobre o início da Exposição Internacional de Quadrinhos, no dia 23 de novembro. [...] “No museu de arte a manifestação das histórias [sic] em quadrinhos com cerca de 400 trabalhos de autores nacionais e do exterior abre-se hoje, às 19 horas, o que poderá ser vista até janeiro: esta [sic]montada no primeiro pavilhão da instituição.”[3]

I Congresso Internacional de Quadrinhos - MASP - 1970. Imagem retirada do livro "50 anos: edição Comemorativa da Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos (2001)", de Álvaro de Moya.

A imprensa fluminense também cedeu espaço para o I Congresso Internacional de Histórias em quadrinhos. O Jornal do Brasil e o Diario da Noite, por exemplo, publicaram matérias detalhadas sobre o evento e seus participantes, até mais completas do que os jornais paulistas. Numa delas, destacou-se um dos temas que foram debatidos durante o evento: a questão dos direitos autorais. 

O Jornal do Brasil ainda trouxe a toma uma questão relevante: as dificuldades que o evento encontrou, sendo a maior delas a falta de verba para trazer especialistas. Enrique Lipszyc de ao Jornal do Brasil o seguinte depoimento:  “Não tivemos apoio de ninguém [...] ficaremos sem a participação de grandes psicólogos, sociólogos, estudiosos dêsse [sic] meio de comunicação. A verba não deu. Apesar disso, conseguimos trazer grandes desenhistas do gênero, façanha que nem o Congresso de Lucca, na Itália, conseguiu até hoje.”[4]

A década de 1970 foi marcada por outras iniciativas de cunho acadêmico com o objetivo de valorar os quadrinhos, tanto como objeto de estudo quando arte. Livros de autores como Umberto Eco foram traduzidos para o português. Um exemplo é “Apocalípticos e Integrados", um clássico do semiótico italiano,  publicado em maio de 1970[5]. Ainda neste ano, Álvaro de Moya, um dos organizadores da I Exposição Internacional de Quadrinhos de 1951, publicou o libro teórico Shazam!  Aos olhos de muitos, os quadrinhos nas escolas e na academia apareciam como sendo uma tendência.

Por todo o país exposições sobre quadrinhos eram recebidas em espaços considerados nobres e/ou monopolizados pela elite cultural e intelectual brasileira.  Em 1970, antes do I Congresso Internacional de Quadrinhos e a Exposição Internacional de quadrinhos no MASP, em fevereiro, a Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal de Campinas promoveu uma exposição de quadrinhos no Museu de Arte Contemporânea daquele município. A exposição não só incentivava a leitura dos quadrinhos como, também, recomendava seu uso nas escolas. 

A Faculdade de Comunicação da UnB e a Fundação Cultural do DF realizaram uma Exposição de Histórias em Quadrinhos que, segundo o professor Francisco Araújo promovia uma [...] “ideia mais vasta de cultura [...]” porque “[...]os problemas contemporâneos estão colocados diariamente nas tiras das histórias em quadrinhos”.[6]

A ocorrência de um congresso de grande porte num espaço nobre como o MASP, fez-me entender mais profundamente o longo percurso que os quadrinhos trilharam desde o século XX até os dias atuais em busca de reconhecimento. Reconhecimento enquanto forma de leitura, como mídia, arte e também como instrumento de ensino e pesquisa. É importante pensar que, há cinquenta anos, estávamos conquistando a primeira grande vitória após uma longa caminhada. 

Cinquenta anos depois, o que temos são uma coleção de outras vitórias com a expansão do campo de estudos dos quadrinhos para além das ciências da comunicação. Atualmente são realizadas pesquisa multidisciplinares envolvendo essa mídia/arte, que é fruto da cultura material dos últimos dois séculos. Foram criados grupos de pesquisas tanto independentes como vinculados às universidades. 

Em 2012, surgiu a Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS, que reúne mais de 70 pesquisadores em constante intercâmbio e com uma considerável produção anual de conteúdo acadêmico.  Para 2021 a Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA/USP), em São Paulo, já este preparando sua 8ª Jornada Internacional de Quadrinhos, evento que reúne anualmente cerca 300 pesquisadores, das mais diversas disciplinas, numa busca constante pela valorização e reconhecimento dos quadrinhos como objeto de estudo.



[1] Campanha com selos. A Tribuna, Santos, 19 de set. de 1970, n. 162 p. 6.

[2] Tarzan, Mandrake e Fantasma em discussão neste Congresso. A Tribuna, Santos, 12 de novembro de 1970, n. 215, p. 06.

[3] Portinari, Quadrinhos, Gruber, Primitivas e de nova visão. Folha de s. Paulo 23 de novembro de 1970, p. 11, n.15135.

[4] Congresso Internacional de Quadrinhos debaterá direitos autorais. Jornal do Brasil, 17 de nov. 1970, Rio de Janeiro, nº 192, 1º Caderno, p. 15

[5] A Tribuna, Santos, 9 de maio de 1970, n. 37 p. 15.

[6] A história que os quadrinhos não contam. Fato Novo, São Paulo, editora verde Amarelo, p. 6, nº 20.

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

LANÇAMENTO DE LIVROS SOBRE QUADRINHOS E CULTURA POP

Esta semana foram lançados dois livros sobre quadrinhos e cultura pop pelo "Cult de Cultura", Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Arte Sequencial, Mídias e Cultura Popsediado em São Leopoldo, RS, ligado à Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS). O Cult de Cultura promove anualmente eventos acadêmicos sobre o tema e publica muito material de qualidade. 

A primeira publicação é o livro "sexo e gênero nos Quadrinhos", organizado por Guilherme “Smee” Sfredo Miorando, com a contribuição de diversos autores, inclusive, Trina Robbins, que publica neste livro seu segundo texto em língua portuguesa.

O segundo livro é resultado dos trabalhos apresentados pelo encontro do Cult de Cultura de 2019, "Vamos falar sobre cultura pop : episodio 4 : o pop não poupa ninguém", organizado por  Thuanny de Azevedo Bedinote, Marcelo Ávila Franco, Larissa Tamborindenguy, Becko e André Daniel Reinke. O livro esta com textos incríveis , sobre histórias em quadrinhos, temáticas e abordagens vairadas. 

As publicações do Cult de Cultura são realizadas com o selo da ASPAS e podem ser obtidas gratuitamente no site do grupo (é só clicar aqui).

Sobre o Cult de Cultura:

A proposta deste grupo de pesquisa é ser um espaço de discussão e pesquisa interdisciplinar, no qual diferentes pesquisadores, de diferentes áreas do conhecimento (especialmente das áreas das ciências humanas e das ciências sociais aplicadas) e de distintas regiões do Brasil, buscam compreender os bens culturais contemporâneos nas dinâmicas que regem seus principais veículos, as diferentes mídias, ocupando-se, em especial com a arte sequencial: filmes, animações e quadrinhos.