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domingo, 4 de dezembro de 2022

OFICINA DE PERFUME INSPIRADA NO UNIVERSO DE HARRY POTTER

Oficina realizada no dia 18 de novembro com alunos do Ensino Fundamental II da E. M. Judith Lintz Guedes Machado, em Leopoldina - MG.

Acredito que várias gerações, até mesmo a minha, leu as obras da autora britânica   J. K. Rowling, criadora a série de romances de Harry Potter, que foram posteriormente adaptados para mídias como quadrinhos, filme e games. O universo fantástico de Harry Potter influenciou e ainda influencia muitas mentes jovens e ávidas por aventura. Mas não é apenas isso, Harry Potter se tornou, também, uma porta para a ciência.

Ficção Fantástica e ciências? Será?

Ora, claro que sim! Não foi muitas vezes na ficção que a ciência encontrou inspiração para grandes descobertas e invenções? O maior exemplo dessa afirmação talvez seja o aclamo romancista do século XIX, Júlio Verne. Com seus livros "Cinco Semanas em um Balão", "Viagem ao Centro da Terra”, "Da Terra à Lua", "Vinte Mil Léguas Submarinas" e "A Volta ao Mundo em 80 Dias" ele não apenas foi um dos pioneiros na da ficção científica como inspirou cientistas do mundo inteiro. Não seria demais dizer que Verne era pop, a sua maneira.

A cultura pop, e aqui especificadamente o universo de Harry Potter, pode ser um caminho para se introduzir a ciência entre os jovens, inspirar novos cientistas, criar futuros adultos mais críticos e abertos ao novo. Exemplo disso foi a oficina que tivemos nas escolas aqui em Leopoldina (MG), entre os dias 17 e 19 de novembro.  Com o título "Perfumes: obras de arte, composições químicas ou poções mágicas?", a oficina se baseia no universo de Harry Potter para levar aos jovens estudantes temas complexos ligados às Ciências da Natureza e suas Tecnologias, usando de interdisciplinaridade, discutindo tópicos de Biologia e Química numa abordagem CienciArte.


Falando assim, o leitor deve se perguntar: "Mas é possível?". Pois eu confirmei que é. Participei como observadora de uma das oficinas, com alunos de escola pública entre 12 e 14 anos e fiquei encantada tanto com o que eles aprenderam como pela forma como o conteúdo foi apresentado. Esses estudantes puderam ter acesso a informação sobre a botânica de plantas aromáticas, sobre metabolismo vegetal, biodiversidade, misturas, solutos e solventes orgânicos, moléculas apolares, volatilidade molecular, cultura do perfume: aspectos históricos e outros temas igualmente complexos, em duas horas de oficina. E, no final, todos muito perfumados, não queriam ir embora. Eu, particularmente fiquei fã do pesquisador/cientista /arte educador da Fiocruz Helder Silva Carvalho.

Eu o assisti ensinado meus alunos a lerem gráficos e entenderem o que leram. Depois de quase dois anos de isolamento, com pouco ou nenhum acesso a aulas remotas, estes estudantes voltaram para a sala de aula este ano com uma série de deficiências de aprendizagem que vão pesar no futuro. Mas na oficina eu percebi que eles estão abertos ao apreender novos conteúdos e que a forma como ensinamos faz diferença. Sei que não podemos ter uma oficina como essa toda semana, ou mesmo todos mês mas, se pudermos planejar atividades como esta com certa regularidade para alunos e mesmo para professores, creio que será possível vencer os desafios que a pandemia de Covid-19 trousse para os professores de todo o mundo.

Por fim, é preciso agradecer à FIOCRUZ por nos proporcionar essa atividade e à ASPAS, a Secretaria de Educação e o Colégio Imaculada Conceição que, juntos tornaram possível que nossos alunos e os alunos de outras escolas pudesse ter essa oportunidade.

Veja a seguir o depoimento do oficineiro sobre a experiência:




segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

COELHO NETTO NA GAZETA DE LEOPOLDINA -

Os cronistas estivem presentes nos jornais que circularam no Brasil desde o império. Alguns escritores imortalizados na língua portuguesa publicaram em jornais do século XIX e XX, como Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, Cecília Meireles, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes de Campos e Clarice Lispector, entre outros. Suas crônicas são verdadeiros testemunhos de seu tempo e seus relatos nos tornaram-se fontes importantes para a história.

A Gazeta de Leopoldina, assim como outros jornais, publicou diversas crônicas, tanto de autores locais quando de autores populares, principalmente aqueles publicados nos jornais do Rio de Janeiro (RJ). Um desses cronistas foi Coelho Netto.

Selo comemorativo dos 100 anos
de nascimento de Coelho Netto

Coelho Neto (Henrique Maximiano Coelho Neto), foi romancista, crítico e teatrólogo, nascido em Caxias ( MA), em 21 de fevereiro de 1864, e falecido no Rio de Janeiro (RJ), em 28 de novembro de 1934. Mudando-se para o Rio de Janeiro em 1885, fez parte do grupo de Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney, além de tornar-se companheiro José do Patrocínio, na campanha abolicionista. Ingressou na Gazeta da Tarde, passando depois para a Cidade do Rio, onde chegou a exercer o cargo de secretário. Foi quando publicou suas primeira obras, com destaque para seu romance A conquista (1899). 

Envolveu-se com a política durante a Primeira República, tendo sido eleito  deputado federal pelo Maranhão, em 1909, foi reeleito em 1917. Foi também secretário-geral da Liga de Defesa Nacional e membro do Conselho Consultivo do Teatro Municipal. Continuou publicando em jornais usando inúmeros pseudônimos, entre outros: Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés.

Na Gazeta de Leopoldina, temos uma crônica de Coelho Netto, publicada em 06 de maio de 1909. A crônica “Para sempre” fala de um amor pedido prematuramente. Leve e sensível, a crônica tem um tom poético e uma linguagem acessível. Confira 

PARA SEMPRE – COELHO NETTO

“Empresta-me o teu coração, disse-me ela, já débil, em vésperas de morrer. Eu sei que vou partir e não quero levar comigo o que não me pertence. Guarda em teu coração o que te confiar e nunca o abras, vê bem! Nem confies a outrem para que se não venha a conhecer o segredo de uma pobrezinha e eu, lá mesmo na Altura, choraria de vergonha se viesse, saber que haviam descoberto. Empresta-me o teu coração... disse-me ela”

Como havia eu de negar cousa tão simples a uma infeliz que morria? Dizem que os que vão morrer nada se nega e eu, não querendo que me ficasse eterno remorso, cedi ao pedido da moribunda, deixando com ela o meu coração para que nele guardasse o que , já com voz surda, afirmou que não lhe pertencia.

Quando me o devolveu não senti mudança alguma. Que teria a moribunda pálida guardado em seu coração? Não sei. No dia seguinte, com o frio do inverso, esfriou para sempre e, de olhos fechados no peito magro, fui encontrá-la no seu leito virginal cercada de flores. Pobrezinha! Tinha apenas 18 anos...

E levamo-la ao cemitério. Os coveiros tomaram-na e o caixão baixou a sepultura, cobrindo-se de terra. Tomei a casa e a tarde, logo depois que ela despareceu, desanuviou-se; cigarras cantavam e o azul desapareceu com estrelas.

Seria tão grande a tristeza da infeliz que desse para entristecer a natureza inteira? Não sei, mas tanto que os seus olhos fecharam-se voltou ao mundo a alegria e os pássaros, que não cantavam, entraram a cantar jocundos[1], como na primavera.

E os dias correram, correram os duas e eu comecei a sentir que meu coração pesava no meu peito.

Durante duas eu o sentia ao cair das noites, até que impressionado e lembrando-me da morta, resolvi recorrer aos homens de ciências para que tentassem descobrir que havia no meu coração. Debalde[2] os homens de ciências auscultaram[3], debalde! Nenhum soube dar a razão do meu sofrimento. Foi um velho poeta quem me disse a triste verdade:  - Ah! Meu amigo, tendes o vosso coração cheio de amor da morta, foi isso que ela vos deixou e, tão grande é, tão grande! Que ela não o quis levar para que não passasse quando houvesse de subir ao céu.

E agora, bardo? Que ei de fazer desse amor de uma finada! Que hei de fazer para aliviar um coração que tanto sofre! O poeta acolheu os ombros com tristeza e disse:

- Não sei...

E quando com o coração cheio desse amor sombrio que me pesa tanto que não deixa entrar pelo outro amor, porque o tomou por inteiro. Pobre de mim! Pobre de mim!

Fontes consultadas:

GAZETA de Leopoldina. Leopoldina, 06 de maio de 1909, nº 6, p. 02

COELHO Netto – Biografia. Academia Brasileira de Letras. Disponível em: < https://www.academia.org.br/academicos/coelho-neto/biografia


[1] Adjetivo que expressa alegria, satisfação; alegre. Que aparece agradável e amenamente; aprazível, ameno.

[2] Inutilmente.

[3] Auscultaram vem do verbo auscultar. O mesmo que: escutaram, ouviram, sondaram, inquiriram, investigaram, averiguaram, perquiriram, perscrutaram, pesquisaram.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

TUDO BEM NÃO SER NORMAL: UM CONTO DE FADAS PARA ADULTOS

Na sua origem os contos de fadas eram sombrios e tenebrosos, utilizados como uma forma de disciplinar e conter impulsos, por meio de histórias nas quais muitas vezes os vilões não era tão piores do que os mocinhos. Eles traziam representações dos perigos da vida cotidiana, eles estabeleciam os limites entre o certo e o errado, reforçavam papeis de gênero que oprimiam as mulheres e traziam à tona o lado sombrio da sociedade. O recado era bem claro, o mundo do não é justo, aprenda a se defender se quiser sobreviver. Os contos de fadas, também,não distinguiam crianças de adultos.

Philippe Ariès, em seus estudos sobre a origem social da infância, explica que na Idade Média as crianças eram considerados seres sem autonomia ou estatuto social. Vai ser apenas na idade moderna que elas serão reconhecidas como tal. Mesmo assim, a infância seria desfrutada, por um longo tempo, apenas pelas crianças que pertenciam aos grupos privilegiados. Chapeuzinho Vermelho, o Gato de Botas, a Bela Adormecida ou a Branca de Neve e os Sete Anões, contos famosos a literatura infantil universal foram copilados, reescritos e adaptados para se tornarem apropriados para o público infantil, afinal, era preciso criar todos um aparato para educar a criança, que não mais é vista genericamente como uma adulto em miniatura.

Recheados de metáforas esses contos foram e ainda são utilizados de forma disciplinadora. Mas, como no passado, eles continuam sendo apropriados e seu discurso mudando de direção. Sobre folclore europeu e a forma como os contos populares eram utilizados de forma disciplinadora, a primeira leitura que tive e recomendo, é a obra de Robert Darnton, “O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa”, publicado originalmene em 1984, em particular o capítulo um “Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso”, que fala sobre os contos de fadas e os trata como documentos históricos uma vez que trazem representações sociais a partir das quais se pode perceber as mudanças na mentalidade humana. 

Atualmente temos presenciado essa apropriação ou mesmo um retorno à origem da literatura popular europeia por meio do cinema, dos quadrinhos, games e séries de televisão. Os contos de fadas estão sendo reescritos para os adultos e não trazem apenas metáforas com o objetivos pedagógicos, mas estão se tornando um espaço para que a própria psique humana possa ser representada, interpretada e reinterpretada.

Esta pelo menos é a análise que eu faço como consumidora de cultura, a partir do contato com artefatos culturais pop, dos quais eu quero destacar um aqui, em especial a séria dramática produzida pelo Estúdio Dragon e distribuída mundialmente pelo Netflix, “Tudo bem não ser normal” (사이코 지만 괜찮아).  Este K-drama utiliza contos de fadas modernos para falar sobre traumas e sentimentos. A cada episódio uma história é narrada de forma a associar a trajetória dos personagens principais à história que está sendo contada, utilizando diversas metáforas.

Os contos de fadas, de certa forma dividem o protagonismo com os personagens envolvidos na trama. Temos um enfermeiro/cuidador, Moon Gang-tae , interpretado pelo ator Kim Soo-hyun,  que trabalha e hospitais psiquiátricos e que cuida do irmão mais velho autista sozinho, desde que a mãe morreu tragicamente, quando ele tinha apenas 12 anos de idade.  Moon Sang-tae, o irmão autista que tem um talento enorme para a arte, mas que é extremamente dependente do irmão caçula, interpretado pelo ator Oh Jung-se, diga-se de passagem, com perfeição.  

O trio se completa com Ko Moon-young, interpretada pela atriz Seo Ye-ji, uma escritora de contos de fadas de sucesso, com uma história familiar trágica que fez com que ela se fechasse para qualquer tido de sentimentos. É claro, não falta a bruxa, causadora de toda a dor e tristeza que perseguiu os protagonistas até a vida adulta.

"A mão e o tamboril", "O cão feliz", "A criança Zumbi" e o "O Menino que alimentava pesadelos" são contos narrados ao longo da série e que, na verdade, refletem a carga emocional e psicológica que envolve os protagonistas. Na verdade, refletem o estado psicológico da própria escritora, incapaz de criar contos de fada que tenha um final feliz. Na verdade, ela retorna em seus escritos à origem desse tipo de literatura em sua fase mais sombria.

As metáforas contidas nesses contos fazem transbordar a dor reprimida pelos personagens. Assim, é tocante e ao mesmo tempo muito delicada a forma como a literatura interage com a realidade e vice-versa. No episódio no qual é narrado o conto da "Criança Zumbi", Moon Gang-tae, que tem por hábito reprimir suas emoções começa a chorar ao ler a história da mãe que ofereceu seu próprio corpo para alimentar o filho. Ele associa a história à sua infância e ao seu relacionamento com a mãe e o irmão.

A cura dos traumas é o que move a história. A descoberta e reconhecimento de sentimentos reprimidos, o desejo de romper com o passado, a conquista da autonomia e da coragem para encarar os desafios da vida. Um conto de fadas que mostra que os adultos também precisam de cuidados e que o abandono é, provavelmente, a pior doença que a sociedade impõem a aqueles que não se encaixam dentro daquilo que se considera “normal”. Mas o que é normal afinal? 

Tudo bem não se normal é um exemplo de apropriação da literatura pela televisão mas, também, de hibridismo cultural, uma vez que os contos de fada passam a ser parte essencial do da narrativa, criando algo novo, uma mistura de duas formas de arte. Cada conto de fadas que é um presente para o expectador que pode desfrutar de um pouco de literatura, além de uma bela arte ilustrativa, tanto pelas páginas dos livros, que de fato acabaram sendo publicados a partir do k-drama, e dos efeitos de animação usados eventualmente. E isso é o que torna a história sensível e diferente.

Referências:

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.

DARNTON, Robert. O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa. – São Paulo: Graal, 2011.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

VISITANDO A CASA DA ESCRITA EM COIMBRA

Eu tenho a mania de andar despreocupadamente pelas ruas das cidades as quais visito a turismo. Pego um mapa, marco os lugares que desejo conhecer e tomo meu rumo. O problema é que nem sempre eu sigo o mapa. Costumo tomar atalhos, que normalmente me fazem andar mais do que o necessário. 

Mas é fazendo isso que eu conheço aqueles recantos que o mapa não mostra. Paisagens lindas que se transformam em belas fotografias, becos e ruas charmosas que a maioria dos turistas não veem. Acabo encontrado lugares que me são realmente atrativos.

Recentemente, enquanto tentava chegar à parte mais alta da cidade para conhecer a Universidade de Coimbra, eu achei um espaço cultural mantido pela municipalidade dedicado ao ato de escrever: A Casa da Escrita.

Sala  para cursos, palestras e oficinas.
O espaço é descrito como um "arquivo aberto, que permite aos frequentadores visitarem as rotas da criação da escrita através dos textos que se vão produzindo na própria Casa." Instalada em uma casa charmosa de três andares, com um lindo jardim interno, localizada na parte alta de Coimbra, a Casa da Escrita pertenceu a família do poeta e ensaísta João José Cochofel, um dos representantes do Neo-Realismo português.

João José de Mello Cochofel Aires de Campos, nasceu na cidade de Coimbra em 1920. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Universidade de Coimbra e foi um dos organizadores da coleção de poesia do Novo Cancioneiro em 1941. Participou da fundação de várias revistas e foi colaborador de outras, das quais podemos citar  AltitudeCadernos do Meio-DiaVérticePresençaSeara Nova, Gazeta Musical e de Todas as Artes. Atuou como poeta e  crítico literário e musical, tenho sido diretor da Academia dos Amadores de Música de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Escritores. Morreu em 1982, deixando incompleto o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, obra que começou a ser publicada em 1971. 
Sótão da Casa da Escrita, onde fica uma pequena biblioteca/arquivo
A Casa da Escrita e sua história têm tudo a ver com aquilo para o qual se propõe. Lá ocorrem regularmente lançamentos de livros, palestras, oficinas de escrita, exibição de filmes, etc, sendo um espaço de criação literária, produção cultural, livre pensamento e debate de ideias

Lugar simpático e aconchegante que me fez sentir vontade de ter algo parecido em Leopoldina. Quem sabe, talvez um dia, a Academia de Letras e Artes de Leopoldina não possa ter sua “Casa da Escrita”, como sede da organização. Já temos uma casa da leitura e uma biblioteca municipal, mas nos falta pensar na questão da escrita em si. Formar leitores e escritores. Pessoas que saibam se expressar bem não apenas pela palavra dita mas também pela palavra escrita.


Fontes de apoio:
Biografia de João José Cachofel. Disponível em: . Acesso em 13 jan. 2019.
Casa da Escrita.Disponível em: . Acesso em 13 jan. 2019.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

CORA CORALINA E O PODER DAS PALAVRAS

Imagem disponível em: https://www.blahcultural.com/biografia-de-autor-cora-coralina/,acesso em 20 ago. 2017.

No dia 20 de agosto comemorou-se o 128º centenário do nascimento de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nome da poetisa Cora Coralina. Nome que ela tomou emprestado de uma mulher que conheceu. Achava-o melodioso ao ser pronunciado. 

Ela nasceu em Goiás, em meio a crise do império, no ano em que seria proclamada a república no Brasil, 1889. Cora não nasceu em um Brasil escravocrata mas foi prisioneira de uma sociedade androgênica e patriarcal, assim como tantas outros mulheres. 

Cora Coralina encontrou sua libertação na poesia. Poesia onde o eu feminino está sempre sente. Uma poesia que buscou aproximar todas as mulheres, mesmo aquelas que a sociedade estigmatizou. 

Mulher da vida

Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.

Cora era uma transgressora em vários sentidos. Fugiu para viver com um homem mais velho e divorciado, contrariando a família e a moral da sua época. Vendeu livros, trabalhou em jornais, fez doces e criou seis filhos após a viuvez. Ela tinha apenas o ensino primário e se tornou um dos maiores nomes da literatura do Brasil. 

Não era propriamente uma desconhecida do mundo literário. Chegou a ser convidada para participar da semana da  Arte Moderna, em 1922, mas seu marido não permitiu. Já idosa, sua obra foi apresentada ao grande público por ninguém menos do que Carlos Drummond Andrade, que sobre sua poesia disse:

"É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia."

O mesmo Carlos Drummond, mineiro de Itabira, que reconheceu o talento daquela senhora e que este ano foi homenageado pela FLIMINAS - Festa Literária de Minas Gerais -, que ocorreu entre os dias 17 e 20 de agosto,  na cidade de Rio Novo (MG), encerranda justamente no dia do nascimento de Cora Coralina.

E como não se encantar por aquilo eu nos faz sentir prazer, que nos faz descobri novos mundo e aflorar novas paixões? O mundo seria mais triste sem a poesia, sem a literatura, sem os quadrinhos. Tudo que nos faz sonhar e nos leva pra longe da realidade é o que, na verdade, nos fortalece para que possamos enfrentar os obstáculos do dia a dia. 

O poder da palavra é inegável. Dela se constroem os discursos, dela se edificam nações. Ela abre o mundo para as muitas "Coras", que se expressam através das letras. 

Ana Lins morreu em 10 de abril de 1985, mas Cora Coralina vai viver para sempre na memória da literatura brasileira.


domingo, 5 de junho de 2016

O GUARANI EM QUADRINHOS – 1937

Capa da minha maravilhosa revista, que me foi presenteada pelo amigo Antônio Marcio Junqueira Lisboa.

Hoje eu tive o prazer ser presenteada com revistas juvenis das décadas de 1930 e 1940, pelo amigo Antônio Márcio Junqueira Lisboa. Dentre elas uma se destacou: a encadernação da adaptação para quadrinhos do romance de José de Alencar, O Guarani, publicada em 1937, de autoria de Francisco Acquarone. Trata-se da primeira adaptação da obra, publicada pelo jornal Correio Universal. Um verdadeiro tesouro.

E, como não podia deixar de ser, eu resolvi fazer uma rápida e despretensiosa pesquisa sobre a obra e, claro, seu autor.
Única foto que eu encontrei de Acquarone. Disponível em: http://editoraalianca.com.br/autor/francisco-acquarone/, acesso em 05 de jun. 2016.

Formado pela Escola Nacional de Belas Artes, Francisco Acquarone dedicou-se à pintura, desenho, caricatura e ilustração. Trabalhou como jornalista e ilustrador do periódico Dom Quixote, tendo colaborado, também para o Jornal, A Noite e Dom Casmurro, revista de cultura voltada para a divulgação das artes plásticas. Participou dos Salões de Belas Artes, entre 1926 e 1941, com paisagens, retratos, pinturas históricas e de gênero. Tornou-se famoso por sua atuação como historiador da arte tendo publicado vários livros sobre o assunto.

Penúltima página da adaptação de O Guarani, por Francisco Acquarone
Nos quadrinhos teve influência de Alex Raymond (GOIDANISH, p. 22). Para quem não conhece, Alex Raymond foi o criador de quatro dos mais importantes personagens das Histórias em Quadrinhos do século XX: Flash Gordon, Jim das Selvas, Agente Secreto X-9 e Rip Kirby, que no Brasil era publicado com o nome de Nick Holmes. 

Entre 1937 em 1938, Francisco Aquarone publicou outra adaptação de José de Alencar, "Minas de Prata", no Globo Juvenil,"Minas de Ouro", com roteiro de Pinheiro de Lemos. Ainda pelo periódico, publicou "Vida de Circo", em parceria com Bandeira Duarte, a adaptação do clássico do escritor britânico Herbert George Wells "Os primeiros Homens na Lua" e adaptou ainda "Atribuições de um Chines na China", de Júlio Verne.

Capa de João Tymbira ao redor do Brasil
Imagem disponível em: http://sallesfanzineiro.blogspot.com.br/2010/11/este-blog-pretende-humildemente-ser-uma.html, acesso em 05 de jun. 2016.
Em 1938, ainda pelo Correio Universal, lançou João Tymbira em redor do Brasil, uma HQ protagonizada por um herói brasileiro cujas aventuras tinham como cenário várias regiões do Brasil, de Minas Gerais à Amazônia. Em suas aventuras, João Tymbira era acompanhado de Rosinha, do cão Tupy e do casal de índios Gorgulho e Guaracy. Uma curiosidade: em suas aventuras pelo nordeste, João Tymbira encontra ninguém menos do que Lampião, o rei do cangaço.

Olha o Lampião, na visão de Francisco Acquarone.
Imagem disponível em: http://sallesfanzineiro.blogspot.com.br/2010/11/este-blog-pretende-humildemente-ser-uma.html, acesso em 05 de jun. 2016.
Publicação independente, o periódico carioca Correio Universal  foi fundado em 1936 por Mauricio Ferraz (sob o pseudônimo de Álvaro Armando) e sua esposa Helena Ferraz de Abreu, e publicou com exclusividade as aventuras do Fantasma, de Lee Falk, até 1939. Muitas outras adaptações literárias foram publicadas depois, por outros periódicos. Diversos fatores contribuíram para o sucesso destas publicações junto ao público juvenil e, até mesmo, adulto.

Propaganda dos quadrinhos publicados pelo Correio Universal, mas páginas finais do álbum.
Segundo Cláudio César de Oliveira Campos (2013, p. 91), ainda na década de 1930 havia “iniciativas e programas governamentais tiveram como cerne a problemática do sistema educacional e consequentemente a qualidade e prática da leitura.” Políticas estas que alicerçadas no Estado Novo pelo Instituto Nacional do Livro (INL) criado em 1937. Como podemos ver tanto políticas de incentivo à leitura quanto o uso dos quadrinhos para fins pedagógicos não é algo tão recente assim no Brasil.

Para os fãs do Fantasma, um anúncio das aventuras do herói mascarado na página final da edição de O Guarani.
Essas políticas não tiveram o êxito desejado, mas abriram espaço para que projetos encabeçados por homens como Adolfo Aizen e Roberto Marinho transformassem os quadrinhos em muito mais do que simples diversão. Encartes, álbuns e revistas produzidas durante as décadas seguintes apresentavam-se, também como um suporte à educação de crianças e jovens, alavancaram as primeiras campanhas em prol da difusão da leitura, idealizando a criação de bibliotecas país afora, conjecturando instrumentos de elevação cultural, contudo, a iniciativa não obteve os frutos esperados.


FONTES CONSULTADAS

CAMPOS, Cláudio César de Oliveira. Quadrinhos e o incentivo à leitura. Monografia apresentada à Faculdade de Ciência da Informação da Universidade de Brasília, como requisito necessário para a obtenção do Grau de Bacharel em Biblioteconomia, Brasília, 2013.

Francisco Acquarone. Disponível em: https://www.escritoriodearte.com/artista/francisco-acquarone/, acesso em: 05 de junho de 2016.

GOIDANICH, Hiron Cardoso. Enciclopédia dos Quadrinhos. Porto Alegre: L&PM, 2014.