Mostrando postagens com marcador filme. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filme. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de outubro de 2022

A MULHER REI E A HISTÓRIA DAS MULHERES NA ÁFRICA

Divulgação do filme - "A Mulher Rei".

Fazia um bom tempo que eu ia ao cinema assistir um filme que me marcasse, mas A "Mulher Rei" simplesmente puxou o meu tapete, e isso num bom sentido. Eu fiquei sem chão e mergulhei de cabeça em uma história que me fez pensar em muitas coisas. Até então, eu dizia que poucos filmes sobre a África haviam realmente me marcado. Vou citar dois, "O menino que descobriu o vento" e " Pantera Negra". Ambos, de formas diferentes, descontroem muitos estereótipos que temos da África.  Mas a "Mulher Rei" vai além disso. Ele descontrói a própria história da África e das mulheres africanas, sempre representadas como fracas, submissas, vítimas constantes de violência e mutilação.  

Um filme que traz um reino africano, em sua plenitude, enfrentando seus inimigos, não se curvando aos homens brancos europeus. Um filme de mulheres fortes e com um elenco composto por atrizes experientes, muitas delas de ascendência africana, valorizando não apenas as atrizes negras, mas atrizes negras africanas. Além disso, salvo a licença poética característica de obra de ficção, é um filme com fortes bases históricas e com uma pesquisa realmente bem feita. Podemos perceber isso pela preocupação com o figurino, com a contextualização história e com a escolha e elaboração de cenários.

Amazonas de Daomé

O filme é ambientado na África, no Reino de Daomé, atual Benin, um dos reinos mais poderosos daquele continente entre os séculos XVI e XIX. Daomé permaneceu um reino autônomo até 1904, quando o último rei foi destronado e os franceses o anexaram ao seu império colonial, depois de muitos anos de guerra. A história gira em torno das "Agodjié", também chamadas de Ahosi ou Mino, uma tropa de elite formada por mulheres guerreiras a serviço do rei.  O grupo é comandado por Nanisca, personagem de Viola Davis, que além de defender o reino de tribos inimigas e de colonizadores franceses ainda entoa um poderoso discurso contra a escravidão de africanos e sua venda para traficantes europeus. As "Agodjié", inclusive, inspiram as “Dora Milaje, mulheres da guarda real de Wakanda no filme “Pantera Negra.

Essas mulheres guerreiras realmente existiram e foram temidas tanto por africanos quanto por europeus, estes últimos as chamavam de Amazonas, uma referência ao mito grego. Segundo registros, o primeiro regimento de "Agodjié" foi formado durante o reinado de Tassi Hangbe, a primeira e única mulher que reinou em Daomé, no século XVIII e, também, a primeira "Agodjié". Há também relatos que afirmam que elas eram, originalmente, mulheres caçadoras. Essas guerreiras bem treinadas atuavam na segurança da família real, como espiãs e em batalhas.

Elas eram moças recrutadas entre o povo de Daomé ou oferecidas, quando meninas, pelas suas famílias ao rei. Elas podiam ser também mulheres capturadas de outras tribos e transformadas em cativas. A essas últimas era feita a oferta de servir ao rei como mulheres livres. Isso aparece em uma passagem do filme. Quando uma mulher de uma tribo inimiga é questionada sobre a razão que a leva a aceitar a oferta ela responde algo como “Aqui vou ser o caçador e não a presa”. E não deviam ser poucas que aceitavam pois dos escravos traficados do reino, a minoria era de mulheres.

Grupo de durante uma visita a Paris, 1891 - Fonte: https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/

Tornar-se uma "Agodjié" dava às mulheres um novo papel dentro de uma sociedade dominada por homens. Elas abriam mão do casamento e dos filhos e recebendo em troca o reconhecimento e um status social que as colocava entre as pessoas mais respeitadas e admiradas de Daomé. Os homens comuns não podiam encará-las, inclusive as temiam, e tinham que abrir caminho quando elas passavam. Apesar de todos os riscos e do treinamento intenso muitas mulheres escolhiam se tornar "Agodjié", tanto que elas representavam cerca de um terço das topas de Daomé. Além disso, as "Agodjié" tinha influência política e participação de decisões importantes. Em muitos reinos africanos mulheres chegaram a assumir posições de liderança ou mesmo certo status social, mas em Daomé as mulheres encontraram-se em uma posição de empoderamento única, o que torna ainda mais interessante sua história, contada no filme.

O Brasil tem uma ligação com o reino de Daomé que começou com Portugal, durante as navegações. Os portugueses estabeleceram relações econômicas e diplomáticas na região, tendo lá construído uma feitoria no reino de Daomé, posteriormente transformada na Fortaleza de São João Batista de Ajudá. De lá vieram considerável parte dos escravos trazidos para a América. Daomé enriqueceu com esse comércio, trocando prisioneiros de guerra por mercadorias europeus. No entanto, como tempo, o próprio povo de Daomé acabou vendido como escravo. Não atoa a região recebeu o nome de “Costa dos Escravos”. Daomé também tinha relações diplomáticas com o Brasil, tendo sido o primeiro Estado a reconhecer a nossa independência, em 1922, antes mesmo dos Estados Unidos, o que ocorreu apenas em 26 de maio de 1824.

Fortaleza de São João Batista de Ajudá - 1886 - Fonte: wikipedia.

No filme, por exemplo, o próprio rei afirmou que sua mãe havia sido vendida e que ele procurava por ela para trazê-la de volta para África. A maior parte dos escravizados vinha para o Brasil, daí a ligação de Daomé com nosso país. A presença brasileira naquele reino e sua relação com o Brasil está presente no filme.  

Muitos ex-escravizados, inclusive chegaram a retornar para Daomé. Seus descentes representam hoje 5% da população de Benin e são chamados de agudás. Os agudás têm origens diversas e se encontram atualmente em todas as classes sociais. Fazem parte do grupo, também, descendentes de traficantes, de comerciantes brasileiros e portugueses estabelecidos na região. Há ainda aqueles sem ligação ancestral com o Brasil mas que estão de alguma forma ligada aos brasileiros e se apropriaram de seus costumes.

Eu me emocionei no filme porque senti que pela primeira vez vou ter um material realmente rico e empoderador para poder utilizar na escola. Trabalho com muitos alunos afrodescendentes, “A Mulher Rei” traz não apenas uma boa contextualização da história de um reino africano como, também, de empoderamento feminino. Essas mulheres guerreiras, na sua ferocidade, entoam um discurso libertário. Elas agarram a oportunidade e fogem do papel de submissão representado pelo casamento, geralmente arranjado, no qual não seria valorizada e estaria à mercê da violência. Assistam à “A Mulher Rei”, independente do seu gênero e da sua cor, tenho certeza que vai ser uma ótima experiência.

Fontes consultadas:

Agudás - de africanos no Brasil a ‘brasileiros’ na África. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/hcsm/a/vtXQvFkGbHFSHQhs5BQv3rs/?lang=pt>. Acesso em 02 de out. 2022.

Amazonas de Daomé: as mulheres mais temidas do mundo. Disponível em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-amazonas-daome-mulheres-temidas-mundo.phtml>. Acesso em 02 de out. 2022.

Amazonas: O exército feminino do Reino do Daomé. Disponpível em: https://www.dw.com/pt-002/amazonas-o-ex%C3%A9rcito-feminino-do-reino-do-daom%C3%A9/a-56823669. Acesso em 02 de out. 2022.

JIF : Je vous Présente les Agodjié, Braves Amazones du Danhomè. Disponível em: <https://fafadi323701274.wordpress.com/2020/02/29/jif-je-vous-presente-les-agodjie-braves-amazones-du-danhome/>. Acesso em 02 de out. 2022.

Os guerreiros deste reino de África Ocidental eram formidáveis – e eram mulheres. Disponível em: <https://www.natgeo.pt/historia/2022/09/os-guerreiros-deste-reino-de-africa-ocidental-eram-formidaveis-e-eram-mulheres>. Acesso em 02 de out. 2022.

Reino do Daomé. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_do_Daom%C3%A9>. Acesso em 02 de out. 2022.

The Woman King (2022). Disponível em: <https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/>. Acesso em 02 de out. 2022.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

O LEVANTE DE BELA CRUZ - DOCUMENTÁRIO

Um das coisas das quais fui privada durante  mais de uma ano de meio de  pandemia foi de poder participar de eventos culturais. Este mês estou rompendo com esse jejum. Ontem pude participar de um evento extremamente gratificante, que foi o pré-lançamento do filme/documentário, 
“O levante de Bela Cruz” , exibido no Espaço Cultural Mauro Almeida, em parceria com o Polo Audio Visual, a Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho e a Secretaria de Cultura. Esporte, Lazer e Turismo de Leopoldina. 

O documentário narra de um episódio corrido em Minas Gerais, em 1833, durante o período regencial. Uma rebelião de escravizados, envolvendo disputas políticas entre fazendeiros, na região de Carrancas, nas fazendas Campo Alegre e Bella Cruz, pertencentes a família Junqueira. No evento de lançamento, estava presente a diretora e produtora do documentário,  Elza Cataldo, cineasta, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Após a exibição do documentário, a diretora e membros da equipe da produção abriram para debate, respondendo perguntas e compartilhando detalhes e impressões sobre a experiência de produzir o documentário.

Eu não vou fazer uma resenha do documentário, mas levantar apenas algunas pontos que me chamaram a atenção. O primeiro é o tema. Como professora, conhecer mais sobre partes da história de Minas é, por si só enriquecedor, mas poder ter acesso a um movimento envolvendo escravos, no período regencial, é ainda mais importante. É um material que, mesmo que não possa ser exibido na sua íntegra, durante uma aula, pode trazer elementos importantes para se discutir o período, indo além do lugar comum.

Trata-se de uma produção que valoriza a a memória coletiva, dando voz a pessoas comuns, que contam a história a partir daquilo que aprenderam por meio da tradição. Nesse sentido, temos um documentário que sabe equilibrar muito bem a pesquisa historiográfica com elementos da memória que ajudam, inclisive, a solidificar uma identidade étnica e mesmo regional.

Abrindo espaço para debates sobre violência, escravismo e política, no século XIX, “O levante de Bela Cruz” também permite um diálogo como presente. Por tudo isso eu recomendo o documentário para professores e para o público geral, como uma forma de conhecer mais nossa história e repensar certos preconceitos e tabus que reproduzimos ao longo dos séculos e que ainda precisam sem rompidos.

O documentária está disponível no site do Polo Áudio Visual e pode ser acessado clicando aqui!


sábado, 13 de março de 2021

MULHERES OCULTAS NO CINEMA E NA VIDA REAL

No mês das mulheres, porque parto do ponto de vista compartilhado por alguns países de que março é o Mês da Mulher, eu resolvi assistir filmes, ler livros e quadrinhos que falem de mulheres e, se for o caso, comentar aqui no blog. Assisti três filmes até agora, todos no Netflix. Eu não sei se vou escrever sobre todos, mas pelo menos alguns eu pretendo pelo menos citar.

O primeiro filme que assisti foi "Mulheres Ocultas" (Little Big Women)filme taiwanês de maior bilheteria de 2020, estrelado por um elenco de mulheres maravilhosas e talentosas, liderado pela veterana de 81 anos, Chen Shu-fang, vencedora do Cavalo de Ouro de Melhor Atriz (o Oscar do cinema Chinês) pelo seu papel neste filme e ainda levou o prêmio de melhor atrás coadjuvante por outro filme, “Dear Tenant”.

Chen Shu-fang (2020)

O filme se baseia na experiência pessoal do diretor, Joseph Chen-chieh Hsu, e gira em torno dos rancores de uma mulher, a matriarca Lin Shoyng, abandonada pelo marido e que, após a morte dele tenta resolver seus rancores e aceitar a outra mulher, com a qual ele passou a viver. Um baita filme que questiona valores familiares tradicionais e envolve três gerações de mulheres.

Se eu pudesse resumir em uma frase, diria que o filme fala de reconciliação e de união entre as mulheres. Aqui, não se trata apenas da protagonista, interpretada por Chen Shu-fang, e cá entre nós, que atriz maravilhosa, mas de todas as mulheres que foram afetadas pelo caso extraconjugal do falecido patriarca da família.

Cartaz promocional do Netflix

O que eu achei muito interessante neste filme é que, apesar de ter sido baseado nas experiências de um homem, do diretor Joseph Chen-chieh Hsu, é um filme que trata com muita sensibilidade do que é ser mulher, não apenas em Taiwan, mas em todo mundo. Isso porque, certos tabus sociais são reproduzidos em menor ou maior escala em outros países, pelo menos com relação às mulheres. 

Não podemos deixar de dar mérito à roteirista roteirista Maya Huang , que junto com o diretor deu vida a essas mulheres. E falar de mulheres é mais do que correto em relação a esse filme: idosas, maduras e jovens, elas estão representadas lá. Falam de relacionamentos, sexo, sobre a vida e o que ela lhes oferece ou tira. O filme é um mergulho em dramas pessoais muito próximos daquilo que cada uma de nós pode viver um dia.

Eu gostei muito. Assisti com minha tia idosa e ela também gostou. Na verdade, ela confessou que foi o primeiro filme que ela assistiu comigo que gostou. Ela também se identificou em muitos momentos com os dramas das personagens. Acho que esse talvez seja o grande mérito da produção, que despretensiosamente nos chama a compartilhar as dores, alegrias e sofrimentos daquelas mulheres que poderiam ser nossas tias, amigas, vizinhas ou colegas de trabalho.  Não vou comentar mais, para não dar spoillers. Para quem quer variar um pouco dos filmes de ação ou suspense e das comédias românticas, fica a dica de um filme sensível e com boas atuações.

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

COMENTANDO O FILME "ALONG WITH THE GODS: THE TWO WORLDS" ( 신과 함께 - 인과 연)

 

Até ano passado eu não havia assisto a filmes sul coreanos, eu confeço.  Mas depois de "Parasita", eu passei a buscar novas opções dentro da Korean Wave (Onda Coreana), incluindo aí cinema e quadrinhos. Esta semana, eu me deparei com o filme  "Along with the Gods: The Two Worlds" (신과 함께 - 인과 연), uma ficção/fantasia lançada nos cimenas no final de 2017, baseada em um webtoon de grande sucesso. 

Webtoon, explicando aqui  rapidamente, é um manhwa (nome dado à shistórias em quadrinhos sul coreanas) que sai em capítulos periódicos na internet, e que é acessado principalmente por smartphones pelos usuários das plataformas  nas quais elas são publicadas.

De leitura rápida, os webtoons são uma febre na Coreia do Sul  e há de todos os tipos, para todos os púbicos. Muitos, devido ao sucesso, são impressos em papel e vendem horrores. O boom dos webtoons, na primeira década do século XXI, se deveu tanto ao uso e aumento do consumo de smartphones, quando à crescente procura por snack culture (formas rápidas de diversão, que podem ser consumidas em poucos minutos).

Nos últimos 10 anos esses manhwas vêm sendo adptados com cada vez maios frequência para a televisão, na forma de k-dramas e houve ainda adaptações pra cinema. É o caso de  "Along with the Gods: The Two Worlds".

Eu caí neste filme por puro acaso e de forma inusitada. Eu estava lendo um artigo ciêntifico sobre webtoons, "Snack Culture’s Dream of Big-Screen Culture: Korean Webtoons’ Transmedia Storytelling", de Dal Yong Jin, da Simon Fraser University (Canadá). O pesquisador usa, justamente, "Along with the Gods: The Two Worlds" como estudo. Aí não teve jeito eu tive que procurar e assistir.


A narrativa gira em torno da seguinte trama: um bombeiro morre salvando a vida de uma criança e é considerado uma alma modelo. Por isso, ele vai ter a oportunidade de reencarnar em 49 dias. No entanto, ele deve passar por sete infernos e ser julgado por sete deuses para conseguir ser premiado com a reencarnação rápida. Ele é acompanhado por  três guardiões (algo como anjos da morte), que devem fazer o papel de seus defensores durante os sete julgamentos. Só que a coisa não é tão simples quanto parece e aí o expectador se vê envolvido numa trama frenética e viciente, como tremendos efeitos especiais, cenas comoventes e um desfecho impressionante. É tudo o que eu posso dizer, sem spoilers.

Ah, claro, filme com ótimos atores, ótima cenografira, uma direção excelente e que, imagino, deva ter sido um expetáculo de assistir numa sala de cinema. Eu super recomendo. Aliás, vou até cruzar os dedos para que alguma alma iluminada publique os quadrinhos aqui no Brasil. Até porque quero conferir se o manhwa é tão bom sua adaptação.

Clique aqui para dar uma conferida na ficha técnica completa do filme. 


PS: Há uma sequência do filme, Along With the Gods, The Last 49 Days (2018), que também é muito boa. Recomendo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

ASSISTI AO FILME "PARASITA" (기생충)


Minha primeira resenha será de um filme, "Parasita", que eu havia desistido de assistir, pois não passou nos cinemas próximos da minha cidade mas, por trama destino, estava sendo oferecido durante meu voo para Lisboa, dia 30 de dezembro de 2019.

Por que eu queria tanto assistir a este filme? 

Quem acompanhou o blog nos últimos meses logo vai pensar: - Ah ela está seguindo a "onda coreana"! Mas não é bem isso. 

Eu tenho assistido muitas séries coreanas e chinesas, mas filme, este é o primeiro. Sou basicamente analfabeta, no que diz respeito ao cinema coreano. E já percebi que há muita diferença entre o material produzido para televisão daquele produzido para o cinema. É como comparar um filme com uma novela. São produções com conceitos, objetivos e até públicos diferentes.

O que me fez querer assistir ao filme foram justamente as críticas que ele recebeu. tenho lido críticas positivas desde que "Parasita" fez sua estreia no Brasil. Aliás, esse "boca-a-boca" é apontado como um dos fatores que levaram o filme a ser um sucesso de bilheteria.

Mas vamos que interessa. "Parasita" (기생충) é um filme de suspense e humor negro sul-coreano, do diretor Bong Joon-ho, lançado de 2019.  Ele estreou no Festival de Cannes, em maio de 2019 e ganhou a Palma de Ouro, por unanimidade. Um prêmio inédito para o cinema coreano. O filme foi selecionado para representar a Coreia do sul na 92º edição do Oscar, em 2020, com grandes chances de ganhar na categoria de melhor filme estrangeiro.

Parasita, resumidamente, é um filme inteligente, com um roteiro amarrado que mostra o contraste entre riqueza e pobreza de um forma que, até então, eu nunca tinha visto. Conta a história de duas famílias, uma rica, os Park, e outra paupérrima, o Kim. Usando de subterfúgios, esta família pobre vai se infiltrando na casa da família rica (daí o nome do filme) tentando usufruir ao máximo do que essa aproximação possa lhes favorecer. É um filme que mostra o limite da miséria humana, quando para sobreviver uma família inteira trapaceia. 

O que começa como quase uma comédia, evolui para uma narrativa de suspense que coloca cada um dos personagens no limite da própria sanidade. Existe uma linha bem definida entre riqueza e pobreza e a discriminação surgem em gestos e palavras às vezes aleatórios. Um contraste entre o gueto, no qual vive a parte empobrecida da população sul coreana, e o reduzido grupo formado pelos ricos.

O filme fala do sonho de ascensão social, de fugir da miséria a todo custo e o preço a ser pago por isso. Apesar de ser a quarta maior potencia da Ásia, a Coréia do Sul tem uma elevada taxa de pobreza, principalmente entre os idosos segundo dados da OCDE – Organização das Nações para Cooperação e Desenvolvimento Econômico

Eu gostei da atuação dos atores, de modo geral, e eu conhecia um dos protagonistas, Woo Sik Choi, de uma série que eu gosto muito, chamada "O Pacote". Ele interpreta o filho mais velho dos Kim, o primeiro a se infiltrar na casa dos Park. Também gostei muito da atuação de Chang Hyae Ji.


"Parasita" é uma boa pedida, principalmente para conhecer um pouco mais outras produções, que não as hollywoodianas. Eu assisti por curiosidade e, apesar de ter expectativas, sabia que seria uma experiência diferente daquela que tenho com os k-dramas.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

O MENINO QUE DESCOBRIU O VENTO NOS AJUDA A ENCONTRAR VALOR NAS PEQUENAS COISAS


Alguns filmes trazem grandes lições em pequenas coisas. Acho que essa frase resume o que eu senti ao assistir à produção britânica "O menino que descobriu o vento" (2019), dirigida por Chiwetel Ejiofor, ator de origem nigeriana, que também é uma das estrelas do filme. 

"O menino de encontrou o vento" é a história do jovem William Kamkwamba, que descobriu um método para criar energia eólica no meio das terras secas do Malawi, conseguindo dessa forma irrigar as plantações e salvar sua aldeia da fome. É um filme que mostra como a engenhosidade e a determinação podem ser ajudar a superar situações adversas com o mérito de nos apresentar uma África multifacetada: aquela que mantém as tradições, mas que deseja abraçar a modernidade.

A República do Malawi, lugar que serve de cenário para o filme, é um país da África Oriental, que faz fronteira com a Tanzânia, Moçambique e  Zâmbia. Sua capital é Lilongwe. É um dos países mais densamente povoados do mundo, e um dos menos desenvolvidos. Os idiomas oficiais são o chichewa e inglês. O país sofreu colonização inglesa, no século XIX. Tornou-se independente em fevereiro de 1963.

"O menino que descobriu o vento" enaltece o valor da escola em tempos em que estamos enfrentando uma onda conservadora que tende a diminuir a importância da educação na vida do indivíduo. O filme ainda ressalta a importância da preservação do meio ambiente, fala de direitos humanos, de política, e da sabedoria e cultura africanas.

Trata-se de uma produção midiática com potencial para ser utilizada em diversas disciplinas, como história, sociologia, geografia, ciências, língua portuguesa e ensino religioso. Um material como grande potencial multi e interdisciplinar. As possibilidades de uso são enormes e o resultado, acredito, tende a ser um aproveitamento do conteúdo muito acima da média esperada com o uso de materiais didáticos tradicionais, como livro didático, por exemplo. 

O filme, exibido no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019, é baseado no livro de memórias The Boy Who Harnessed The Wind, de William Kamkwamba e Bryan Mealer e está disponível na Netflix. Aliás, não custa repetir que a Netflix tem oferecido ao publico brasileiro a oportunidade de ter contato com belas produções, de vários países,  abrindo a possibilidade de acesso a um universo cinematográfico muito mais amplo. Eu, particularmente, já assisti filmes indianos, noruegueses, tchecos e franceses que provavelmente eu jamais teria conhecido por meio da TV aberta ou mesmo por assinatura que privilegia produções estadunidenses.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A SOCIEDADE LITERÁRIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA


Baseado no livro da americana Mary Ann Shafer, o filme "A Sociedade Literária e a torta de casca de batata" (2018) está disponível no programação da Netflix.  
Ambientado no ano de 1946, o filme conta a história da jovem escritora  Juliet Ashton, interpretada pela atriz Lily James, que está refazendo sua vida após a trágica perda da sua família, durante os bombardeios a Londres. 

O filme chama a atenção justamente por focar na reconstrução, no recomeço após a o fim do conflito. Não apenas da reconstrução urbana em si, mas no fortalecimento dos espíritos, do desejo de um novo recomeço para aqueles que sobreviveram e tiveram seus traumas e perdas durante o conflito. E este, a meu ver, é seu maior mérito. 

Escritora de sucesso, Juliet vive um momento importante da sua vida, vendo-se prestes a fazer grandes escolhas com relação ao seu futuro profissional e pessoal.  Após receber a carta de um fazendeiro, decide visitar Guernsey, uma ilha no Canal da Mancha, na costa da Normandia que faz parte da Grã-Bretanha, invadida pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Juliet vai à Guernsey para conhecer a "Sociedade Literária e a torta de casca de batata", grupo de leitores formado durante a ocupação.

A viagem acaba se transformado não apenas numa jornada de autoconhecimento como também revela histórias de amor e coragem, protagonizadas por pessoas simples, que usaram os livros como forma de se unir e resistir à ocupação nazista. A trama gira em torno dos participantes do clube de leitura mas tem seu foco especialmente nas mulheres, sua força, sua capacidade de lutar e de resistir.

É um filme sensível, com belas paisagens e uma atuação dos autores, tanto os mais jovens quanto os veteranos. Eu particularmente tenho gostado muito da atuação de Lily James, que conheci há alguns anos na série britânica Downton Abbey. Como professora eu certamente o utilizaria na sala de aula para trabalhar o pós-guerra, para tratar de temas como o nazismo, empoderamento feminino e principalmente, trabalhar a leitura como forma de resistência e libertação.

Assista ao trailler!

domingo, 10 de março de 2019

A CAPITÃ MARVEL E O EMPODERAMENTO FEMININO


Capitã Marvel não é o primeiro filme de superaventura protagonizado por uma mulher, embora seja o primeiro do tipo realizado pela Marvel. Confesso que estava na expectativa para assisti-lo motivada pela  curiosidade em saber como a Marvel iria superar, ou pelo menos tentar repetir, o sucesso do filme da Mulher Maravilha.

Mas acabei concluindo que tratam-se de dois tipos diferentes de personagens e, portanto, é muito difícil estabelecer um parâmetro de comparação entre suas respectivas produções. Então, vou me abster no sentido de apontar qual foi o melhor, até porque não vem ao caso. Até porque, a Mulher Maravilha é um ícone dos quadrinhos. Minha mãe, por exemplo, nunca vai ao cinema. Ela não apenas foi assistir ao filme da Mulher Maravilha comigo e com as netas como saiu empolgadíssima.

Ontem eu a convidei novamente para ir comigo ao cinema, desta vez para assistir Capitã Marvel, e ela disse que não iria. Questionei  - “Por que não? Você gostou do filme da Mulher Maravilha!”. Ela simplesmente respondeu: - "Ah, mas era a Mulher Maravilha”.

A Capitã Marvel não é um ícone. Na verdade ela era até pouco tempo desconhecida do grande público, daquele que não lê quadrinhos de superaventura e, portanto, não conhece toda a legião de personagens da Marvel. Neste sentido, a personagem da Marvel está em desvantagem com relação à princesa das amazonas, que arrastou para os cinemas uma legião de admiradores. Multidões que se empolgaram com as cenas de luta e que torceram intensamente pela personagem.

No entanto, para muito além dos efeitos especiais e das cenas de luta características deste tipo de obra cinematográfica, o poder do discurso contido na narrativa é o que faz toda a diferença. E se muitos meninos vão assistir a filmes de superaventura em busca de adrenalina, para muitas meninas e mulheres eles têm outro significado. Tanto Mulher Maravilha e Capitã Marvel falam sobre empoderamento feminino e superação.

Mas, no caso da  Capitã Marvel, a meu ver, essa experiência foi muito mais intensa. Ela não foi a única personagem feminina de destaque. Havia pelo menos mais duas, que tiveram um papel determinante na trama. Personagens que desafiam o discurso alienante que afirma que a mulher, por ser mulher, é limitada e frágil.

No momento de retrocesso no qual vivemos, em que a igualdade de gênero é citada como uma das causas do aumento da violência contra as mulheres, a Capitã Marvel nos traz um exemplo de superação física e mental. Ela nos diz que a nossa fraqueza vem dos outros e não de nós mesmas. Que vamos cair, mas podemos nos levantar,  e que nunca devemos desistir só porque os outros dizem que não somos capazes de atingir nossos objetivos.

A Capitã Marvel é Carol Danvers, uma mulher que viveu para superar os limites que a ela foram impostos. Nem todo o poder universo teria feito dela a guerreira que se tornou se ela não tivesse sido a humana que tantas vezes caiu e se ergueu e que nunca desistiu.

A Capitã Marvel não é um ícone como a Mulher Maravilha, mas tem potencial para sê-lo, embora eu acredite que ela não o deseje, uma vez que, palavras dela, ela não precisa provar nada para ninguém.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

NO CINEMA, ASSISTINDO BUMBLEBEE

Na primeira semana de janeiro eu fui ao cinema e assisti ao filme Bumblebee, da franquia de Transformers. Normalmente não seria um filme que me levaria ao cinema. Mas a crítica havia sido muito generosa com a produção e com o desempenho dos atores, resolvi então arriscar. Bumblebee é um filme ambientado nos anos de 1980. A direção ficou a cargo de Travis Knight, que até então só havia se destacado por filmes de animação, tendo algumas indicações para o Oscar no currículo.

Bumblebee é um filme de ação mas é, também, um filme sobre relacionamentos afetivos e sobre família. O foco desta vez não está na luta entre bem e mal ou nos efeitos especiais que mostram robôs gigantescos lutando tão rápido que nem se consegue visualizar seus movimentos. O filme apresenta como protagonistas duas pessoas "quebradas": a jovem Charlie, que não consegue superar a morte do pai e que se isola da família, sempre mergulhada em uma grande tristeza, e Bumblebee, avariado quando chega a Terra, sem memória e sozinho. 

O roteiro é simples de entender: Charlie encontra Bumblebee e devolve a ele seu propósito; o robô, por sua vez, retira a menina do seu mundo triste e depressivo e a ajuda a se reconectar com a família. Acreditem, há momentos realmente dramáticos neste filme da franquia Transformers. 

Sem tirar o mérito do diretor, acredito que o sucesso do filme  deve ser creditado a duas mulheres: a protagonista Hailee Steinfeld, que interpreta Charlie, e a roteirista Christina Hodson, que usando uma narrativa simples, mas de grande sensibilidade, deu uma nova roupagem a um filme que poderia ser outro longa superficial de robôs lutando entre si. 

Aliás, a quantidade de Transformers no filme foi um elemento que fez diferença. Fora algumas passagens em que Optimus Prime apareceu, o longa só teve três Transformers em atuação constante: Bumblebee e dois Decepticons, o que foi mais do que suficiente.

Sem me estender muito, gostaria de finalizar dizendo que Bumblebee tem um ar de nostalgia, ao retratar os anos de 1980. Ele me fez lembrar os filmes daquela época, que ainda não abusavam dos efeitos especiais. Aliás, esse é outro mérito do filme: ele foca nos personagens e suas relações com sensibilidade e humor, e não nos efeitos especiais, que estão lá, são bons, mas que não são, desta vez, o suporte da produção.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE MARY POPPINS - O FILME ORIGINAL


Assisti este fim de semana Mary Poppins, a produção original de 1964, disponível para os assinantes do Netflix. Eu nunca havia assistido ao filme, embora eu o conhecesse por fragmentos que passavam em um programa chamado Disneylândia transmitido pela TV Globo, aos domingos. Era por meio dele que eu tinha contanto com os clássicos da Disney, os quais só pude finalmente assistir na íntegra bem mais velha, quando tive condições financeiras para comprar DVDs. Imagino que com muitas outras pessoas da minha geração aconteceu o mesmo.

Eu já fui muito questionado por gastar meu dinheiro com filmes infantis. Pois bem, quando criança fui bombardeada pela propaganda da Disney e nunca tive a oportunidade de ir ao cinema em uma cidade grande para ver um desses clássicos. Muitos, aliás, foram produzidos antes que eu nascesse. Quando adulta e já trabalhando e procurei suprir este vazio da minha infância. 

Além disso eu questiono quem acha que todos os  filmes/animações produzidos pela Disney neste período e mesmo na atualidade são realmente "coisa para crianças".  Eu vejo os clássicos da Disney como filmes para toda a família, ou seja, para todas as idades. Acho, inclusive, preconceituoso querer limitar este tipo de produção apenas para o público infantil, como se todos nós não tivéssemos sido crianças um dia e este filmes não representassem nada na nossa formação cultural e até mesmo moral. 

Eu não tenho vergonha de assistir animações no cinema, por exemplo, e não preciso levar uma criança comigo para manter a aparência. Adultos presos a preconceitos tolos que estabelecem regras com relação ao que pode ou não ser divertido são adultos infelizes. Não é o meu caso.

Mas retornando a Mary Poppins, não sei se conseguirei ir ao cinema para a estreia da nova versão da produção, mas seria inconcebível não assistir ao original, até porque sempre é bom ter um parâmetro para comparação. Não sou crítica profissional de cinema, mas na minha opinião o desempenho do elenco original foi fantástico.Mais de 50 anos depois, o filme ainda conseguiu me encantar.  

Gosto da atmosfera dos filmes antigos e das animações feitas sem auxílio de recursos digitais. Os cenários dos filme são simples e teatrais, mas exatamente por isso muito encantadores. A história em si traz referências muito interessantes, como a participação da sra. Banks no movimento sufragista ou as críticas ao sistema financeiro predatório representado pelos bancos. Eu não vejo nada de infantil nisso, pelo contrário.

Mas, acima de tudo, é um filme moralista e que valoriza o amor e a família. Claro, um filme de 1964 irá trazer a família tradicional, mas creio que a mensagem vale para todas as famílias: o cuidado que se deve ter com a infância.

As crianças precisam da atenção dos pais,  por mais independentes que pareçam ser. A presença deles (ou de pelo menos um deles)  é fundamental para sua formação. É claro, os pais não devem deixar de lado seus interesses, mas devem incluir seus filhos entre as suas prioridades. 

Não acho, por exemplo, que uma mulher DEVE esquecer sua carreira para cuidar dos filhos, mas ela pode fazer as duas coisas sem que uma prejudique a outra. Também acredito que os homens devam dividir com as mulheres a criação dos filhos de forma igual. Não existe isso de separar o que é função do pai e da mãe na educação dos filhos afinal a criação dos filhos é uma parceria ou pelo menos deveria ser. 

Trabalhar o dia todo não é desculpa para não ter tempo de abraçar o filho/filha e perguntar como foi seu dia na escola. Eu não sou mãe, mas sou filha e eu sei como a atenção dos meus pais ou mesmo a falta dela, marcou minha vida.

Por fim, espero que a continuação de Mary Poppins possa trazer uma produção que faça jus à produção original, para a diversão dos mais jovens e a nostalgia dos mais velhos.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE O FILME DA MULHER MARAVILHA

Fui assistir, no último domingo, ao filme da Mulher Maravilha. Sou fã da personagem, do que ela representa. A Mulher Maravilha foi importante na minha infância, ela era um modelo para as meninas. Uma mulher que não precisava dos homens para protegê-la, que enfrentava o perigo sem medo. Ela foi, também, o modelo da minha sobrinha que é, inclusive, fã de Lynda Carter. De geração a geração, a Mulher Maravilha vem inspirando meninas/mulheres em todo o mundo.

Já adianto que não me considero uma especialista na personagem. Tenho alguns livros sobre ela, li alguns quadrinhos e assisti animações e ao seriado com Lynda Carter. Já citei ela em alguns artigos e até na minha dissertação, mas escrevo aqui sem o compromisso de contribuir para uma análise profunda sobre a personagem, longe disso. Conheço gente que sabe muito mais do que eu sobre ela. 

Também não vou enrolar para falar sobre o filme. Prefiro ser objetiva. Posso dizer que fui assistir ao filme com uma expectativa maior do que o normal. E fui em família: com meu irmão, minhas duas sobrinhas e minha mãe, que detesta cinema, mas foi porque o filme era da Mulher Maravilha. 

O filme foi bom, bem acima das minhas expectativas, que não eram tão boas. Dado o histórico dos filmes da DC, eu realmente estava com o pé atrás, ainda mais porque o filme se passa durante a I Guerra Mundial.  Só essa descontextualização já havia me desagradado, mesmo antes de ver o filme. A Mulher Maravilha foi criada para lutar contra nazistas, em 1941, não contra alemães em 1918.

Mas, tudo bem, até que os roteiristas conseguiram contornar esta mutilação histórica e a personagem em si rouba a cena. Aliás, apesar de todas as criticas que li e ouvi sobre a escolha da atriz eu diria que Gal Gadot deu conta do recado. 

Gadot deu vida a uma guerreira motivada por uma causa, e que vai, aos poucos, perdendo a inocência à medida em que conhece melhor o mundo dos homens. Ela quer vencer o Deus da Guerra pelo amor, tal como Afrodite preconiza na primeira aventura da Mulher Maravilha. Acho isso legal. Acho que William Marston aprovaria. Mas senti falta de uma vilã mais consistente. A Dra. Veneno estava meio apagada. A baronesa Paula Von Gunther talvez tivesse sido uma escolha melhor.
Origem dos Super Heróis - Ebal/1975.

Não pretendo fazer uma resenha longa. Então vou encerrar dizendo que o filme é bom, a personagem foi bem construída, os demais atores cumprem bem seu papel. Eu ainda prefiro os filmes da Marvel, claro. Mas a DC mostrou que pode fazer um bom filme de superaventura, apesar de não se arriscar muito (tirar a Mulher Maravilha do contexto da II Guerra é uma forma de levar o filme a países onde símbolos nazistas não podem ser exibidos). Dito isso, recomendo a todos que assistam ao filme, levem seus filhos, sobrinhos, maridos, esposas e namorados (as).


domingo, 9 de abril de 2017

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME "ESTRELAS ALÉM DO TEMPO"

Não encontrei ainda terapia melhor para uma mente cansada do que assistir a um bom filme. E o que é um bom filme? Para mim, particularmente, é aquele que além de me divertir me faz pensar. Aquele cujas cenas eu repasso mentalmente. Assim como um bom livro, um bom filme acrescenta algo que a gente nem sabia que faltava.

Recentemente eu assisti “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures). Eu não sou dada a dramas e confesso que as tais “histórias baseadas em fatos reais” não são meu tipo preferido de filme. Mas ao assistir ao trailler pela primeira vez eu pensei: esse filme vai ser maravilhoso. E foi.

Em tempos em que se questiona o protagonismo feminino em filmes e histórias em quadrinhos, desafio qualquer pessoa de bom senso a negar que “Estrelas Além do tempo” não seja um filme que toda menina, que toda mulher, branca ou negra deveria assistir. Aliás, um filme que todos, independentemente do sexo e da cor, deveriam assistir.

É um filme histórico, por assim dizer, uma vez que trás o de um momento crítico da história dos Estados Unidos, que está competindo com a URSS pela conquista do espaço. Os EUA não conseguem se igualar aos soviéticos na corrida espacial. Os cidadãos acreditam que estão sendo espionados por satélites soviéticos. Na mesma época o país estava em meio às lutas pelos direitos civis dos negros. Não por acaso, são mostradas manifestações públicas e discursos de personagens como Martin Luther King.

Afora o e discurso enaltecedor dos valores estadunidenses, temos um enredo pautado nos direitos civis dos negros e, especialmente, dos das mulheres. Portanto, ter três mulheres protagonistas de um filme, mulheres reais que venceram as barreiras da cor e do machismo, é muito mais do que inspirador.

E quem são essas mulheres?

Katherine Johnson - 1966
Pra começar, Katherine Johnson, interpretada por Taraji P. Henson, física, cientista espacial e matemática estadunidense. Ela deu contribuições fundamentais para a aeronáutica e exploração espacial dos Estados Unidos, ela calculava as trajetórias, janelas de lançamento e caminhos de retorno de emergência para muitos voos. Ela, inclusive, participou da missão que levou o primeiro homem à lua, em 1969. De 1958, até sua aposentadoria em 1986, ela trabalhou como técnica aeroespacial.

Dorothy Vaughn, que no filme foi interpretada por Octavia Spencer, ela foi a primeira mulher negra a ser promovida chefe de departamento na National Advisory Committee for Aeronautics- NACA (que mais tarde muda de nome para NASA). Sua trajetória é tão interessante quando a de Katherine.

Dorothy Vaughn
Embora ela não tivesse a genialidade matemática da colega de NACA, ela era uma mulher decidida, de mente afiada, capaz de aproveitar as oportunidades, que eram poucas naquela época. Ela entrou na NACA aproveitando-se da Executive Order 8802, assinada durante o governo de Franklin D. Roosevelt, em 1941, que proibia a discriminação racial na indústria de defesa.

Foi a primeira ação federal a promover igualdade de oportunidades e a proibir a discriminação no emprego, nos Estados Unidos. Mas é sempre bom lembrar que esta ordem veio de encontro ao momento vivido pelo país: os Estados Unidos estavam entrando na II Guerra Mundial e toda força de trabalho deveria ser aproveitada, fosse ela de homens ou mulheres, brancos ou negros.

Apesar do ambiente de trabalho ainda ser marcado pela segregação e os melhores postos ocupados por brancos, esta ordem possibilitou a contratação de negros para as agências do governo e foi ela que possibilitou que Dorothy trabalhasse na NACA, de 1943 a 1971. 

E falando em ambiente segregado, temos cenas em que Katherine Johnson é obrigada a andar um quilômetro para ir ao banheiro, pois só havia um banheiro para negros na NACA. Outra em que os colegas dela, brancos, colocam para ela uma cafeteira em separado escrita “pessoa de cor”, para que ela não usasse a cafeteira deles (ela era a única negra da sala). Ela basicamente consegue mudar isso no “grito”, quando chega ao limite da sua tolerância pessoal à discriminação. Aliás, uma das cenas que eu mais gostei.

Por fim, e não menos importante, temos Mary Jackson, interpretada por Janelle Monáe.  Mary Winston Jackson foi matemática e engenheira aeroespacial. Para conseguir o diploma em engenharia, Mary, assim como muitos negros, teve que pleitear na justiça o direito de frequentar aulas. Ela começou trabalhando com engenheiro polonês Kazimierz Czarnecki, no Túnel de Pressão Supersônico de 4 pés por 4 pés, que acabou sugerindo que ela entrasse em um programa de treinamento que lhe permitiria ganhar uma promoção de matemática para engenheira. 
 
Mary Jackson
Os estagiários tiveram que fazer cursos de pós-graduação em matemática e física nos cursos de pós-graduação administrados pela Universidade da Virgínia. Mas as aulas eram realizadas em uma escola segregada, ou seja, apenas para brancos. E ela conseguiu. Para mim uma das cenas mais espetaculares do filme é justamente aquela em que ela, armada de argumentos sólidos, convence o juiz permitir que ela frequente as aulas, que na época eram a noite. 


Mary Jackson começou sua carreira de engenheira em uma época em que as engenheiras de qualquer tipo, brancas ou negras, eram muito raras. Aposentou-se em 1985.


Embora o foco maior estivesse em Katherine Johnson, estas três mulheres foram igualmente inspiradoras e muito bem interpretadas pelas atrizes que assumiram seus papeis. Eu recomento assistir ao filme, recomendo buscar saber mais sobre elas, principalmente se você, homem ou mulher, branco ou negro, tem alguma dúvida sobre se vale a pena investir numa carreira, por mais difícil que ela pareça ser.

Fontes:
https://www.nasa.gov/, acesso em 08 abr. 2017.