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quinta-feira, 25 de setembro de 2025

ALGUMAS NOTAS SOBRE O LIVRO KIM JIYOUNG, NASCIDA EM 1982


Tenho lido poucas obras que não são relacionadas ao trabalho, principalmente ficção. Uma boa ficção ajuda muito no trabalho intelectual pois estimula a criatividade. Ficar presa apenas a textos acadêmicos pode fazer com que um(a) pesquisador(a) reduza consideravelmente seu repertório prejudicando, inclusive sua escrita. 

Sendo assim, eu resolvi separar algumas obras que estão se empilhando nas prateleiras das minhas estantes para ler, nem que fosse apenas algumas páginas diárias. Livros de poesia, romances de ficção e muitas histórias em quadrinhos, que eu comprei e ainda nem folhei. Decidi, também, colocar como meta toda semana tentar tirar um tempo para fazer um pequeno texto sobre das obras cuja leitura encerrei.

Vou começar com o livro “Kim Jiyoung, nascida em 1982”, que eu terminei de ler na semana passada. Este livro foi publicado originalmente na Coreia do Sul em 2016 e se tornou um fenômeno internacional. Foi recomendação da amiga Fabiana Rubira. A autora do livro é Cho Nam-Joo, uma ex-roteirista de televisão. Na época da publicação de seu livro, na Coreia do Sul, estava emergindo o movimento #MeToo no país. Foi uma coincidência feliz para a autora, que viu seu livro ganhando visibilidade graças ao amplo debate sobre o papel da mulher na sociedade sul-coreana, fortemente marcada pela desigualdade de gênero.

Neste livro ela narra a vida de Kim Jiyoung uma jovem sul-coreana que pode representar qualquer uma jovem comum, na faixa dos 30 anos de idade. Vinda de uma família simples, Kim Jiyoung encontrou-se sob uma grande pressão para atender as expectativas do mercado de trabalho e ao mesmo tempo da sociedade. Ela quer investir em uma carreira, conseguir um bom casamento e construir uma família.

Parece tudo muito engessado, e realmente é. Kim Jiyoung é uma das milhões de mulheres que andam na corda-bamba na Coreia do Sul. Ela tem ambições, mas vê pouco a pouco seus sonhos escapando entre seus dedos quando opta por ter o primeiro filho. Por detrás disso há uma forte pressão social. A moça o engravida e é obrigada a abrir mão da sua carreira e dos seus sonhos para viver como esposa e mãe.  

O livro vai e volta no tempo, trazendo a jovem Kim Jiyoung, suas experiências na infância e na juventude, assim como os obstáculos que teve que enfrentar em uma sociedade que ainda valoriza mais os homens, seja como filhos ou como trabalhares. Na Coreia do Sul, muito mais do que no Brasil, e aí podemos destacar a influência do confucionismo naquele país, os homens ainda são acima das mulheres, até na própria família. Era muito comum, por exemplo, as irmãs começarem a trabalhar cedo para pagar os estudos dos irmãos. Em tempos mais antigos, as mulheres nem mesmo podiam comer na mesma mesa que os homens e nem mesmo partilhar da mesma comida.

Uma coisa que me chamou atenção neste livro, é que a autora teve a preocupação de inserir dados retirados de artigos científicos, de matérias jornalistas e indicadores estatísticos. É uma forma de embasar a história de vida da protagonista e chamar atenção para os obstáculos que as mulheres têm que enfrentar, da infância à vida adulta.  Entre estes dados estão aqueles relacionados à questão de desigualdade de gênero e sobre o mercado de trabalho.

A saúde mental é outra questão que o livro aborda, resultado de todos esta pressão social que se coloca sobre as mulheres. Kim Jiyoung passa a  frequentar um psiquiatra após ter sua criança, sentindo-se perdida e sem perspectivas de futuro. A maternidade é apresentada como sendo o fim  da possibilidade de acessão profissional pois, apesar de existir licença maternidade, as mulheres são levada a desistir de seus empregos e voltar para sua posição original, após alguns anos, é muito raro. 

Muitas mulheres que têm filhos optam por empregos de meio período, descartando sua formação universitária e sua experiência profissional. Aí alguém pode dizer: "Ah, mas ela não precisa fazer isso!". Talvez para quem viva no Brasil e em outros países ocidentais isso possa ser uma possibilidade, e temos muitos exemplo no nosso dia a dia, mas lá na Coreia do Sul a coisa não é bem assim. Não são todas que conseguem permanecer em seus empregos após ter filhos e mesmo aquelas que retornam podem ainda abandonar o trabalho devido ao acumulo de responsabilidades profissionais e domésticas.

Um drama recente, "A cidade e lei" (2025), traz uma situação semelhante quando uma advogada, Bae Mun Jeong, interpretada pela atriz Ryu Hye Young,  engravida e procura se informar sobre sua licença maternidade (ou licença parental). Ela ouve do chefe que, nestes casos, o normal é se demitir. Ela não aceita a situação e busca manter seu direito adquirido por lei: de afastar, ter seu(ua) filho(a) e retomar às suas atividades profissionais ao fim da licença. Mesmo sendo advogada ela tem muita dificuldade para conseguir, reproduzindo uma situação que afeta ainda em 2025 muitas mulheres naquele país. Aliás, a roteirista do drama tem formação em advocacia, o que dá uma certa profundidade à experiência desta personagem em particular.

Tanto o livro quanto nesta série  podemos perceber que mulheres que se casam são vistas como um problema, pois eventualmente podem engravidar e interromper suas tarefas. O retorno é visto como inviável, e muito disso se deve à grande competitividade. Um dos dados que a autora apresenta é justamente sobre essa questão, em 2009 "quatro em cada dez mulheres trabalham sem a garantia de licença maternidade"(p. 93). 

A mesma sociedade, que atualmente vive uma crise séria de crescimento demográfico, quer que as mulheres casem e tenham filhos, mas acabam obrigando-as a escolher entre família e profissão, como se não houvesse um meio termo (aquele encontrado pela advogada da série que eu citei). Como a autora gosta de inserir dados estatísticos e informações retiradas de fontes científicas, vou finalizar o texto com alguns dados atuais com relação às mulheres na Coreia do Sul.

"A partir da década de 2010, mais mulheres optaram por permanecer solteiras ou casadas e sem filhos. Políticas familiares como creche e licença parental não foram suficientes para tornar o trabalho e a criação dos filhos compatíveis em geral e, portanto, não tiveram os efeitos desejados sobre a fertilidade e o emprego feminino. Os efeitos das intervenções políticas variam com base em fatores como a posição das mulheres no mercado de trabalho e o acesso a programas de apoio, como creches de qualidade. A análise indica que, até que o emprego e a maternidade possam ser combinados de forma razoável para a maioria das mulheres, o custo alternativo da maternidade permanecerá alto e a fecundidade permanecerá baixa ou cairá ainda mais" 

(Women’s employment and fertility in Korea. OECD. 18 October 2024. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/women-s-employment-and-fertility-in-korea_ac53879e-en.html Acesso em 25 set. 2025).

domingo, 20 de julho de 2025

POSY SIMMONS - HERSELF

 


Indo contra a corrente do individualismo contemporâneo, as histórias desenhadas por Posy Simmonds são fruto de um olhar meticuloso sobre o outro. Essa leitura refinada do período nos permite perceber melhor as nuances do nosso cotidiano” (Exposição Posy Simmons. Herself, Angoulême, 2025).

 

“Posy Simmons. Por ela mesma” foi uma das exposições mais concorridas durante o 52º FIBD de Angoulême, tanto pela obra e trajetória da autora, uma veterana entre as quadrinistas britânicas, quanto pelo fato de se tratar de laureada de 2024. Sim, estamos falando de um das (poucas) mulheres que recebeu o Grand Prix (o prémio máximo do festival) em duas 52 edições. E ela mereceu, certamente. Esta autora não é conhecida do público brasileiro, mas influenciou várias gerações de artistas britânicos e de outros países, nos quais sua obra foi traduzida, como a França.

Rosemary Elizabeth "Posy" Simmonds é uma cartunista de jornal britânica, escritora e ilustradora de livros infantis e graphic novels. Ela é mais conhecida por sua longa associação com o The Guardian, para o qual desenhou as séries Gemma Bovery (2000) e Tamara Drewe (2005–2006), ambas publicadas posteriormente como livros. Assim como Claire Bretecher usou da sátira e do humor para criar histórias que criticavam e expunham os vícios das classes médias francesas, Posy faz algo bem semelhante, mas com um estilo mais “gentil”.  

Ela cria retratos psicológicos precisos, zomba das deficiências da classe média e do cenário cultural, caricatura a seriedade e critica os desenvolvimentos sociais. Entre suas influencias literárias estão escritores como Gustave Flaubert e Charles Dickens. Suas personagens femininas têm como característica serem obstinadas. Elas não necessariamente terão um final feliz. Elas são "heroínas condenadas", como em romances góticos dos séculos XVIII e XIX, mas claro, dialogando com o presente, o moderno. Suas obras mais famosas são Tamara Drewe e Gemma Bovery (Denoël).

Nascida em 1945, a autora completa este ano 80 anos, sendo mais de 50 anos como cartunista. acrescentam mais camadas às histórias. Posy Simmonds ficou famosa nacionalmente por sua tira “The Silent Three of St. Botolph's”, que começou a aparecer no “The Guardian” em 1977 e era sobre três amigas de longa data. Mais tarde, ela publicou-o em livros e desenvolveu-o ainda mais para criar sua primeira história em quadrinhos, “True Love”. Suas outras publicações também começaram como tiras no “The Guardian”.

Simmons publicou ainda livros e quadrinhos infantis. Sua exposição traz essa longa trajetória, mostrando várias facetas da autora, sobretudo, sua preocupação com a memória. Em “Posy Simmons. Herself” temos uma imersão na história dos quadrinhos britânicos antes de chegarmos propriamente na produção da autora. Este detalhe, que pode até passar por despercebido por que está lá apenas pela autora, demonstra a importância dada por ela e pela curadoria do festival em trazer à tona a história dos quadrinhos da qual esta veterana, e porque não dizer, e pioneira faz parte.

Na exposição podemos conhecer mais sobre Posy Simmons. Seu engajamento em questões políticas, sua intimidade, sua visão de mundo e, suas mulheres, figuras tragicômicas que derrubam códigos sociais. Suas influencias também estão presentes, seja na arte ou na literatura. A exposição trouxe ainda desenhos inéditos da autora que, por sinal, abriu a exposição no dia 29 de janeiro, com uma visita guiada exclusivamente para profissionais.

Entre o material inédito da exposição estão os cadernos de Posy Simmons, nos quais podemos perceber como a autora faz sua leitura do cotidiano, sua sensibilidade ao representar em seus desenhos os destituídos e anônimos. Ao mesmo tempo ela denuncia as formas contemporâneas de alienação, dando voz aos anônimos. Pessoas comuns, pessoas que passam por privações e que muitas vezes ficam convenientemente invisíveis para a sociedade. Ela se posiciona conta o individualismo e lança um olhar meticuloso sobre o outro.

Cabe por fim acrescentar que Posy Simmons, além de profissional de grande estatura e que hoje represente uma das vozes mais fortes entre as autoras britânicas, é uma criatura dotada de grande gentiliza. Seu semblante suave e sua voz mansa deixam todos ao seu redor confortáveis. Mas não se deixem enganar por seu semblante sereno. Por detrás dele há uma mulher forte, capaz de colocar em suas obras representações da realidade política e social intensas que nos fazem questionar padrões normatizados de comportamento.

Imagens da exposição – 29 de janeiro de 2025













UMA CONSTELAÇÃO DE MULHERES


Uma das exposições deste ano do Festival Internacional de Bande Dessinée de Angoulême, na França, foi a exposição “Constellation Graphique” (Constelação Gráfica), que reuniu obra de 9 autoras espanholas que representam a nova geração de quadrinistas espanholas: Bàrbara Alca, Marta Cartu, Genie Espinosa, Ana Galvañ, Nadia Hafid, Conxita Herrero, María Medem, Miriam Persand e Roberta Vázquez. Esta exposição, embora configura dentro das exposições principais do festival, talvez não tenha sido a mais badalada ou visitada, mas certamente foi uma das mais originais que o 52º FIBD trouxe este ano. Isso porque, além de trazer um espaço aberto para a diversidade é, também, um espaço 100% destinado às mulheres, algo que em outras edições do FIBD nem sempre foi possível encontrar.

Na exposição, que foi até 16 de março de 2025, no Museu de Angoulême, a curadoria do evento destacou como um de seus pontos principais a renovação dos quadrinhos espanhóis. As autoras trazem em suas obras uma diversidade de linguagens, de registros estéticos, por meio do uso da cor, do grafismo ou da experimentação estilística e narrativa. Elas representam, desta forma, a vanguarda dos quadrinhos espanhóis, nesta segunda década do século XXI.

Este grupo de mulheres, cada uma em seu próprio estilo e abordando temas diversos, trazem-nos um olhar crítico e bem humorado da realidade da geração dos millenials, também conhecida como "Geração Y", formada por pessoas que nasceram entre os anos 1981 e 1996.  A exposição faz um raio x da sociedade espanhola, por meio do olhar de mulheres, que colocam em seus quadrinhos uma carga intensa de emoção, autocrítica, crítica social e, acima de tudo, expressando expectativas e desilusões.

O panorama cultural e profissional dos quadrinhos espanhóis passou por uma série de mudanças a partir da década de 1980, com o aumento da demanda pelo produto, o que levou ao surgimento de novos títulos e possibilitou a profissionalização de toda uma geração de autores oriundos no underground. O mercado se ampliou, como a abertura de lojas especializadas e com os primeiros festivais. As nove quadrinistas que foram escolhidas para ter sua obra exposta na exposição “Constellation Graphique” representam a geração nasceu no bojo do boom dos quadrinhos espanhóis, marcado pela dissidência estética, assim como pelo questionamento de lugares-comuns e formas canônicas de expressão, embora a estabilidade profissional permaneça um horizonte distante.

Roberta Vázquez possui um estilo que se inspira nas fontes da tradição underground, mas canibaliza ícones pop de seu contexto geracional na forma de fan art.  Vázquez tem no humor corrosivo uma marca registrada, que lhe permite realizar uma leitura implacável da sociedade líquida e da precariedade econômica que condicionam a vida dos millennials.

Marta Cartu, possui um trabalho que se aproxima com o de Jeffrey Brown, gradualmente abordando os desafios de uma história em quadrinhos conceitual, com um olhar sobre os códigos e formas da arte contemporânea. Sua obra é intimista e reflexiva, e nela a pesquisa formal é inseparável de uma meditação sobre noções e questões contemporâneas, como identidade, competitividade e autoexigência, a arbitrariedade dos papeis de gênero, aspectos utópicos, o potencial distópico das novas tecnologias e a servidão de múltiplos empregos.

Ana Galvan é a mais experiente do grupo de quadrinistas da exposição e se destaca dentro da vanguarda dos quadrinhos espanhois pela  influência de seu corpus oratório e por seu papel impulsionador nas redes de difusão de artistas de vanguarda. Galvan construiu um universo pessoal no qual a influência composicional e cromática do construtivismo russo e uma narração fria e desinteressada foram colocadas a serviço de uma leitura distópica da realidade. 

Genie Espinosa destaca-se pelos seus personagens, de formas arredondadas, que podem ser interpretadas como uma firme reivindicação de corpos não normativos. Eles introduziram nos quadrinhos uma energia urbana explosiva, salpicada de girl power. Um espírito que também é encontrado em seu trabalho no campo do design de cartazes e em murais de arte de rua, que destilam ecos dos subúrbios com a sofisticação de uma nova forma de glamour.

O trabalho de Maria Medem tende à abstração e parte de elementos mais poéticos do que narrativos, aprofundando o que ela mesma chama de estética conelse, uma abordagem formal que exige um tratamento muito específico e essencialista da linha, da cor e do texto. O artista busca a ambiguidade, refletindo a sensação de distância que o leitor percebe em personagens deslocados em meio a paisagens que amplificam a força dos elementos naturais.

Nadia Hafid trabalha junto com Marta Cartu a partir da experimentação formal por meio da composição da página é uma das características das obras de Nadia Hafid e Marta Cartu. A obra conjunta das duas autoras, exposta na exposição, são obras cerebrais e sintéticas nas quais nenhum dos elementos presentes é acidental. Hafid se afasta dos códigos hegemônicos do realismo para se aproximar da estética de um pós-modernismo seduzido pelo potencial expressivo das geometrias fractais e suas infinitas fragmentações. O resultado são quadrinhos estimulantes e vibrantes.

Bárbara Alca em sua obra retrata uma geração (a sua) perdida, decepcionada e às vezes considerada frívola e superficial. Suas histórias hilárias exalam um componente autobiográfico misturado à cultura pop que a torna única em sua geração. Seu trabalho foi publicado nas revistas El País, El Jueves e Ruby Star.

Herrero consolidou nos quadrinhos de vanguarda com um estilo sintético e potente, que mescla expressão gráfica e poética. Transitando entre costumes locais, fantasia e experimentação. A formação autodidata de Conxita Herrero, que só começou a se interessar por histórias em quadrinhos aos dezoito anos, permitiu que ela quebrasse os códigos tradicionais do meio, de uma forma quase subversiva. Ela adota a atitude de vanguarda que surge da liberdade de ação daqueles que abordam uma língua a partir das periferias, sem se verem obrigados a respeitar nenhuma tradição. Ainda que a história em quadrinhos ocupe apenas uma pequena parte de um corpus considerável que colocou a poesia, a colagem, o grafismo e as canções a serviço de um discurso de si, que também percorre as páginas de sua fundamental Gran bola de helado.

Miriam Persand um dos aspectos mais marcantes da sua obra é ahabilidade de dar vida a criaturas antropomorfizadas. Seu fascínio por animais como corujas, pombos, ratos e jacarés – especialmente jacarés devido aos nossos "cérebros ansiosos reptilianos" – serve como ponto de partida para abordar emoções complexas. Com seu estilo vibrante trata de problemas cotidianos usando abusando das metáforas. Temas como ansiedade fazem parte dos seus quadrinhos, assim como uma busca para o próprio sentido da vida.  Persand cria histórias que evocam uma sensação de admiração, expandindo os limites do que é esperado no mundo real.

FOTOS DA EXPOSIÇÃO (29/01/2025)







As informações do texto foram retiradas do material fornecido pela exposição, complementado por dados retirados de sites das autoras.


domingo, 27 de abril de 2025

CEMITÉRIO: REFLEXÕES SOBRE FEMINICÍDIO

 


Uma surpresa que a Netflix trouxe para mim este mês foi a série turca "Cemitério (Graveyard)". Minha primeira série turca por sinal.  A série tem duas temporadas e foi originalmente lançada em 2022. A primeira temporada tem 4 episódios, com uma média de uma hora e meia cada. A segunda em 8 episódios com uma média de 45 minutos cada. A série mostra o trabalho da Unidade de Crimes especiais liderada pela inspetora chefe Önem Özülkü, interpretada pela fantástica atriz Birce Akalay . A unidade da polícia turca foi criada como resposta ao aumento dos crimes de feminicídio. Já de início percebe-se que sua criação foi um ato político e que não se espera muito dela nem dos seus membros. Na verdade, há quem preveja seu fracasso.  Isso porque  os problemas que eles têm que enfrentar não se resumem apenas em investigar crimes de feminicídio e capturar os criminosos. Eles também lidam com o machismo estrutural da sociedade turca, que é constantemente denunciado em cada episódio da série.

Aliás, o próprio nome da séria conduz a várias questões. A Unidade de Crimes Especiais foi instalada no porão do prédio e obrigada a operar junto ao arquivo de crimes não solucionados. O local recebe o nome de “Cemitério” e, o que no início é visto como algo pejorativo, depois acaba ganhando um simbolismo maior, representando a luta da equipe para impedir que crimes contra as mulheres façam parte dos “casos não solucionados”. Eles passam, inclusive, a se autointitular equipe do “Cemitério”, para horror de seus superiores.

Eu, particularmente, sei muito pouco sobre a Turquia e nunca parei imaginar que em um país islamizado, e aí peço desculpas pelo meu preconceito, as mulheres tivessem espaço não apenas para denunciar na televisão, como é o caso da série, a violência e, menos ainda, que houvesse um movimento atuante que busca ações concretas contra o feminicídio no país. Neste ponto devo agradecer à Netflix que me vez pesquisar o tema. Uma das primeiras coisas que eu descobri é que a  Turquia é um estado secular, sem religião oficial, apesar da maioria se mulçumana, e lá vigora a liberdade religiosa.  No entanto, o partido atual no poder, é islâmico e vem sendo constantemente acusado por sua inércia e tolerância com relação à violência contra as mulheres. Além disso elas ainda possuem baixa representatividade política. O Parlamento Turco possui maioria de homens – nas últimas eleições, em 2023, 121 mulheres garantiram assento no parlamento com 600 membros

A série não aborda diretamente questões religiosas. Ela foca na violência contra a mulher de forma indistinta e que leva à sua morte. Namorados e maridos violentos, pais omissos. Casos de abusos de jovens por parentes próximos são denunciados também. Ao investigar um caso de feminicídio, os policiais trazem a toda uma séria de violências e gênero que perpassaram a vida da vítima e de pessoas próximas a ela. E material para isso não falta.

Só em 2024 foram registrados 394 casos de mulheres assassinadas por homens e mais 259 mulheres foram encontradas mortas de forma suspeita. Estes números foram considerados recordes e apontam para aumento progressivo da violência contra as mulheres na Turquia. Segundo os dados da  We Will Stop Femicide Platform (Vamos acabar com o feminicídio), entre as principais causas do aumento de crimes de morte contras as mulheres esta “a falta de implementação efetiva da Lei de Proteção nº 6284, a retórica misógina e anti-criança, a participação de grupos reacionários e intolerantes no poder e a inadequação das políticas para as mulheres”. [1] A impunidade também é apontada como uma das razões. 

“A Plataforma "Vamos Acabar com o Feminicídio", também conhecida ela sigla KCDP, relatou que 3.185 mulheres foram mortas por homens entre 2008 e 2019, e pelo menos 1.499 entre 2020 e setembro de 2024, com o número de feminicídios aumentando a cada ano. As mortes de cerca de 1.030 mulheres também foram consideradas suspeitas.

"Mais de 1,4 milhão de mulheres relataram ter sofrido violência doméstica entre janeiro de 2013 e julho de 2024, informou o site de notícias Turkish Minute , citando dados recebidos do Ministério da Família e Serviços Sociais pelo jornal diário Birgün. (Texto traduzido)”[2]

Vários protestos de mulheres exigindo uma reação mais forte do governo, organizadas pela We Will Stop Femicide Platform, ocorreram em 2024, que foi considerado o ano das Jovens Feministas na Turquia. A Federação de Jovens Feministas organizou seminários em muitas universidades e desenvolveram políticas para lidar com os problemas das mulheres jovens.


Protestos em outubro de 2024, na Turquia.

A questão da impunidade é um dos maiores ranços da protagonista da série, a inspetora chefe Önem Özülkü, que constantemente se revolta com as penas leves dadas a assassino de mulheres.  Outra razão é o discurso que aponta as mulheres como a causa dos feminicídios e dizem: “As mulheres que são mortas são tão culpadas quanto os homens que as matam”. Há ainda aquele pensamento de que as mulheres são também culpadas pela sua própria morte. Este discurso apareceu em um dos episódios da série e que foi duramente refutado com excelentes argumentos e uma boa dose de revolta por parte dos policiais. Uma realidade, por sinal, não muito diferente do Brasil onde a vítima na maioria das vezes é culpabilizada pela violência que sofre.

As mortes correm principalmente dentro dos lares e as vitima são esposas e filhas, “Em 2024, 280 mulheres foram mortas pelo homem com quem eram casadas, pelo pai, filho ou parente”. E o alvo não tem sido apenas mulheres adultas e adolescentes.  Em 2024, 19 meninas foram assassinadas pelos pais e 9 delas foram assassinadas junto com suas mães”.[3] Quanto ao governo, ele vê estes casos como problemas no âmbito familiar e promove ações para proteção a família, como um todo, e não de proteção para as mulheres, o que agrava muito mais a situação e acaba aumentando a impunidade. E assim como acontece aqui no Brasil, a legislação criada para proteger as mulheres encontra muitos obstáculos. Em 2024, 20 mulheres que estavam sob proteção policial foram assassinadas. Não é à toa que a Turquia está entre os piores países do mundo em violência contra as mulheres. 

Eu poderia escrever muito mais o assunto, mas vou retomar à serie pois não posso deixar de falar sobre a Birce Akalay, que encarna a protagonista.  A forma como ela desenvolve a personagem é perfeita. Fiz uma busca para saber mais sobre ela e o que descobri ratificou a primeira impressão que ela me passou. De aspirante a Miss Turquia a professora no departamento de teatro da Universidade Haliç, ela ainda se dedica a causas sociais, é meioambientalista e defensora  dos direitos das mulheres, sendo ainda Embaixadora da Bondade e Esperança da LÖSEV, instituição sem fins lucrativos dedicada a crianças com leucemia. Ninguém melhor para encarnar a inspetora chefe Önem Özülkü.[4]

Para finalizar gostaria de deixar aqui o trecho de um artigo sobre feminicídio na Turquia que trabalha este conceito.

“O conceito de feminicídio, usado já na década de 1800 para se referir ao assassinato de uma mulher, foi reintroduzido por Radford em 1976 no Tribunal de Crimes Contra as Mulheres como o assassinato misógino de mulheres por homens. Na década de 1970, o conceito de feminicídio se tornou popular e foi modificado pelo movimento feminista em um conceito político. O movimento feminista insistiu na dimensão sexista do homicídio feminino, em contraste com o termo neutro "homicídio". O discurso do feminicídio representa um "objetivo político de reconhecer e tornar visível a discriminação, a opressão, a desigualdade e a violência contra as mulheres sistemática que, em sua forma mais extrema, culmina na morte". As definições de feminicídio e violência contra as mulheres apresentam “características compartilhadas” . Ambas estão enraizadas em uma cultura de “violência e discriminação contra as mulheres”, bem como “em conceitos patriarcais de inferioridade e subordinação das mulheres. Essas características são construídas por meio da cultura, mentalidades e costumes e não são casos aleatórios de violência”. [5]



[1] We Will Stop Femicides Platform 2024 Annual Report. Disponível em> https://kadincinayetlerinidurduracagiz.net/veriler/3130/we-will-stop-femicides-platform-2024-annual-report. Acesso em 27 de mai. 2025.

[2] ECHOLS, William. Turkey's ruling party uses misinformation to downplay scope of femicide (2024). Disponível em: https://www.voanews.com/a/turkey-s-ruling-party-uses-misinformation-to-downplay-scope-of-femicide-/7826624.html. Acesso em 27 de mai. 2025.

[3] We Will Stop Femicides Platform 2024 Annual Report. Disponível em> https://kadincinayetlerinidurduracagiz.net/veriler/3130/we-will-stop-femicides-platform-2024-annual-report. Acesso em 27 de mai. 2025.

[4] Birce Akalay . Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Birce_Akalay. Acesso em 27 de mai. 2025.

[5] Traduzido e adaptado de Koç, G. (2022). A Study of Femicide in Turkey From 2010 to 2017. SAGE Open12(3). https://doi.org/10.1177/21582440221119831 (Original work published 2022)

sábado, 23 de dezembro de 2023

COMENTANDO O K-DRAMA "OS OUTROS NÃO"


Sou fã de dramas coreanos desde 2019, mas assisto também produção asiáticas de outros países como China, Tailândia e Vietnã. Gosto muito de alguns tipos específicos de dramas, principalmente aqueles que fogem ao lugar comum e, mesmo tendo alguns clichês, muitas vezes necessários, trazem histórias envolventes. É o caso de "남남 (NamNam)", "Not Others", em português "Os outros não".  O drama conta a história de mãe e filha que dividem juntas uma vida cheia de altos de baixos. 

 

Eu confesso que me interessei pelo drama por conta de uma das protagonistas Jeon Hye-jin, uma atriz muito talentosa, que na casa dos quarenta anos continua trabalho em muitos projetos numa indústria que privilegia as mulheres jovens. Não é uma comédia romântica, embora exista interesses românticos para as protagonistas, os homens apenas estão lá para reforçar a força das mulheres, que deles nada dependem, muito pelo contrário. 

A história começa quando a estudante do ensino médio Kim Eun Mi (interpretada por Jeon Hyejin), descobriu que estava grávida. Determinada a criar sua filha, Jin Hee (interpretada pela cantora Choi Sooyoung), a jovem mãe enfrenta muitos desafios. O primeiro foi a família do namorado, que proibiu o relacionamento, o segundo foi sua própria família, com um pai alcoólatra do qual a moça era vítima constante de violência doméstica. sozinha, as duas enfrentam juntas todas as adversidades da vida.

Ao longo dos 12 episódios da série vamos conhecendo um pedacinho do passado destas duas mulheres e entendendo melhor sua relação, que muitas vezes parece muito mais a de duas irmãs (sendo a mãe a irmã caçula e rebelde) do que de mãe e filha. Jin Hee durante toda a narrativa deixa claro que, apesar das brigas constantes com a mãe, ela é sempre sua prioridade. As duas não falam de relacionemos externos, vivem de dependem uma da outra numa relação quase simbiótica e não querem mudar isso.

Eun Mi já com quase 50 anos trabalha como fisioterapeuta, Jin Hee, de 29 anos, tem uma carreira como policial. Nem mesmo o aparecimento do pai biológico muda a conexão entre mãe e filha. Mais do que falar dos desafios da maternidade enfrentados por uma jovem num país conservador e machista como a Coreia do Sul, o drama traz temas atuais e sensíveis como a violência contra as mulheres, a opção por uma vida de solteira, tanto da mãe quanto da filha e o próprio conceito de família, já que as duas tiveram que construir uma família não parental, ao longo de sua trajetória. Amigos que as colheram ganharam um status de família enquanto que aqueles com os quais Jin Hee compartilha laços consanguíneos são pessoas completamente estranhas à sua realidade.

Esta parte, em especial, foi que me prendeu à trama e me fez levantar questões com relação ao conceito que temos e que reproduzimos mesmo que inconscientemente de família. Acredito que, dentro da realidade sul coreana, esse debate seja ainda mais acalorado, uma vez que essa sociedade se alicerçou dentro de uma filosofia confucionista, baseada no dever fundamental dos filhos cuidar e obedecer aos seus pais e honrar os ancestrais. 

O respeito pela autoridade e pela autoridade familiar também é uma característica importante do confucionismo. Uma família hierarquizada em todos os sentidos. Muito diferente do núcleo familiar criado por Kim Eun Mi e sua filha. Enfim, para quem tiver interesse numa história engraçada e, ao mesmo tempo comovente, eu recomendo. Este drama está disponível no VIKI para assinantes, mas acredito que pode ser encontrado gratuitamente nos fansubs.