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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

A CRIATURA DE GYEONGSEONG E OS CRIMES DE GUERRA DO JAPÃO

Nosso conhecimento sobre os crimes cometidos por nações do EIXO durante a Segunda Guerra Mundial é geralmente centrado na Alemanha e em seus campos de extermínio, que levaram milhões de pessoas inocentes à morte. Livros de história e obras e ficção trouxeram horríveis experimentos que os nazistas fizeram com pessoas de todas as idades, experimentos que começaram antes mesmo do início da guerra. No entanto, pouco estudamos ou falamos sobre os crimes cometidos pelo Japão.

 

Devo confessar que, mesmo com formação em história, foi somente por meio de quadrinhos como "Grama", cuja a narrativa gira em torno da escravidão sexual de mulheres pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, e de séries dramáticas como "Mr Sunshine", que levanta o tema da resistência armada e a luta pela independência da Coreia durante a dominação japonesa, que eu comecei me interessar e a estudar uma parte da história do Leste Asiático.  


Recentemente eu assisti a primeira parte de um o drama histórico lançado pela Netflix, em dezembro de 2023, chamado “Gyeongseong Creature” (A criatura de Gyeongseong), uma obra de suspense e de ficção científica, que fala sobre experimentos conduzidos por médicos japoneses em laboratórios secretos, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi a partir desse programa de TV que acabei conhecendo mais uma história lamentável da Segunda Guerra Mundial, cuja barbárie atualmente vem sendo enaltecida por pessoas de pouco conhecimento e nenhuma sensibilidade.

 

No drama, a população civil de regiões colonizadas era exposta a experimentos com o objetivo de criar uma mutação capaz de ser usadas na guerra contra os aliados. Monstros criados em laboratório. "A criatura de Gyeongseong" é uma obra ficcional, repleta de exageros necessários para compor a narrativa fantasiosa, mas que se baseia em fatos históricos.


Em 1935, o governo japonês fundou a Unidade 731, uma unidade secreta de pesquisa e desenvolvimento de guerra biológica e química do Exército Imperial Japonês que realizou experimentação humana letal durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e parte da Segunda Guerra Mundial. Foi oficialmente conhecido como o Departamento de Prevenção de Epidemia e Purificação de Água do Exército de Guangdong. O nome "Unidade 731" foi oficialmente adotado em 1941.


A Unidade 731 era comandada pelo Tenente General Shiro Ishii, responsável por vários de crimes de guerra. O General Shiro Ishi era um cirurgião formado pela faculdade de medicina na Universidade Imperial de Kyoto. Ele entrou para o Exército Imperial Japonês como de Cirurgião do Exército. Antes de iniciar sua pesquisa com seres humanos na Unidade 731, Shiro Ishii viajou para a Europa para estudar armas biológicas e guerra química. Ele foi a versão japonesa de Josef Mengele, responsável pelos experimentos com prisioneiros realizados no campo de Auschwits, na Alemanha.


Estima-se que cerca de 250 a 300 mil pessoas foram submetidas a experimentos realizados pela Unidade 731, sendo que a maioria das vítimas era chinesa. Havia ainda soviéticos, mongóis, coreanos e pessoas pertencentes a países que opunham ao EIXO. Eles foram usados como cobaias para testes de armas bacteriológicas e outros experimentos. O maior número de mortes no campo de  Pingfang era de chineses (70%) e soviéticos (30%). A unidade funcionou até o final da guerra, em 1945.

 

Unidade 731 - foto atual

Os experimentos realizados envolviam armas ou procedimentos que poderiam ter uso na guerra. Por exemplo: em câmaras refrigeradoras, prisioneiros eram submetidos a temperaturas de até 50 graus celsius negativos para que os médicos pudessem descobrir a melhor maneira de tratar soldados japoneses que tivessem membros congelados durante batalhas no frio.  Para descobrir o que aconteceria a pilotos japoneses caso os aviões dessem pane os cientistas colocavam prisioneiros em centrífugas superpoderosas, onde ficavam rodando até morrer. Testavam bombas com bactérias ou com pulgas infectadas com peste bubônica ou febre tifoide foram jogadas sobre vilarejos chineses. Autópsias eram realizadas com pessoas vivas. E tudo foi minuciosamente registrado em desenhos científicos detalhados. Não foi por nada que a Unidade 732 ganhou o apelido de “Auschwitz asiática”.

Algumas dessas experiências são mostradas no drama, assim como os laboratórios nos quais pode-se ver, por exemplo, órgãos humanos, fetos e até cabeças dentro de vidros com formol. Aparecem também experiências feitas com crianças, que recebiam diariamente injeções e muitas delas desenvolviam doenças que as levavam a óbito. Muitas das experiências eram tão macabras que descrevê-las é difícil. Citei apenas algumas, mas para quem quiser saber mais, eu deixarei o link dos sites que eu consultei para elaborar este texto.

Com a derrota do Japão na guerra, Shiro Ishii encenou a própria morte para fugir do exército dos Estados Unidos, mas acabou sendo descoberto. No entanto, ele negociou sua liberdade em troca do conhecimento que reuniu em suas experiências na Unidade 731. Nem ele nem outros médicos que trabalharam na sua equipe chegaram a ser presos.

A China chegou a produzir um filme sobre a Unidade 731, “Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana” (Men Behind the Sun), de 1988. O diretor Tun Fei Mou que usou como locação o verdadeiro quartel general do 731, na província de Habin, na Manchúria. Em “A criatura de Gyeongseong” o campo é citado, mesmo que indiretamente. No drama, após o fechamento de um laboratório na Manchúria, as experiências teriam continuado na Coreia, que na época ainda chamava-se Joseon. De fato, o Campo 731 não foi o único local no qual experimentos eram realizados, mas ele foi o modelo seguido por outros laboratórios espalhados por outras regiões.

Por fim, uma coisa que  me chamou atenção no drama, foi a forma como os japoneses tratavam as populações dominadas. O desprezo, o ódio e a xenofobia estão presentes nas relações com outro de uma forma nauseante. Os japoneses alimentaram seu exército com homens recrutados em regiões dominadas, que eram obrigados a lutar pelo Japão e eram frequentemente vítimas de humilhando dentro do exército. Eram desprezados e ensinados a desprezar seus pares. Os japoneses reproduziam o mesmo pensamento de superioridade racial que considerava outros povos asiáticos inferiores moralmente e biologicamente. Esse tipo de comportamento que foi incentivado entre japoneses é bem representado na série, dando uma ideia de como dolorosa foi a dominação japonesa na primeira metade do século XX.


Mergulhar na cultura asiática tem sido um balde d'água fria em muitos sentidos, principalmente o histórico. Há histórias lá que deveriam ser de conhecimento de todos, há situações que merecem receber atenção mundial. Violência contra a mulheres e população LGTBQI+, xenofobia, alcoolismo, violência escolar e suicídio. O Leste Asiático está submerso em uma série de mazelas que podem ser explicadas por uma história marcada pela escravidão e pelas disputas imperialistas, que envolvem não apenas países da região mas, também, nações europeias e os Estados Unidos. Uma história marcada por violência e que reproduziu ao longo do tempo essa mesma violência.

 

Ao falar sobre os crimes de guerra do Japão não é necessariamente um ataque ao país ou a seu povo. Os japoneses também formam vítimas de seu próprio governo. Homens, forçados a servirem ao exército e a cometerem crimes horrorosos. Mulheres japonesas pobres foram escravizadas sexualmente e transformadas em prostitutas a serviço do governo. A intenção aqui é alertar para o fato de que estes crimes aconteceram e podem se repedir enquanto for alimentado um discurso belicoso e de ódio, discurso este que vem crescendo nos últimos anos. O Japão e a Alemanha da Segunda Guerra Mundial devem ser o exemplo do que não queremos para o nosso presente e, muito menos, para o nosso futuro.

 

REFERÊNCIAS

BROLIA, MARCOS(2014). 550 – Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana (1988). Disponível em: <https://101horrormovies.wordpress.com/2014/10/23/550-campo-731-bacterias-a-maldade-humana-1988/>. Acesso em 27 dez. 2023.

DRUMMOND, Pedro (2021). Uma Auschwitz Na Ásia: O Japão E Sua Macabra Unidade 731. Disponível em <https://historiamilitaronline.com.br/index.php/2021/03/25/uma-auschwitz-na-asia-o-japao-e-sua-macabra-unidade-731/>. Acesso em 27 dez. 2023.

LIMA, Claudia de Castro e (2016). Os terríveis experimentos japoneses com prisioneiros chineses. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/os-terriveis-experimentos-japoneses-com-prisioneiros-chineses?utm_source=google&utm_medium=cpc&utm_campaign=eda_super_audiencia_institucional&gad_source=1&gclid=CjwKCAiAs6-sBhBmEiwA1Nl8szaLjur5cAhvqZa2Qh_JYx61FHbUcPHbIxPuDh92DPHM3tWzLgSA5RoCi38QAvD_BwE>. Acesso em 27 dez. 2023.

PISSURNO, Fernanda Paixão. Unidade 731. <https://www.infoescola.com/historia/unidade-731/#google_vignette>. Acesso em 27 dez. 2023.

PREVIDELLI, Fábio. Unidade 731: o antro japonês de experimentos em humanos durante a 2ª guerra. Disponível em: < https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-o-que-foi-a-unidade-731.phtml>.

UNIDADE 731. Wikipedia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Unidade_731>. Acesso em 27 dez. 2023.

domingo, 22 de maio de 2022

ARTIGO FALANDO SOBRE WEBTOONS E K-DRAMAS PUBLICADO EM REVISTA DA UFS

 


Faz um tempo que eu escrevi um artigo sobre cultura pop coreana - especificamente dramas e quadrinhos. Ele foi publicado recentemente pela Revista Cajueiro, pela UFS. É um texto bem didático e pelo qual eu tenho muito carinho e fiquei muito feliz em vê-lo disponível, inclusive com uma versão em inglês. Segue o resumo do texto. Quem gostar do resumo, pode ter acesso ao artigo, clicando aqui!

De Webtoons a K-dramas as adaptações de manhwas e as tendências lançadas pela Korean Wave

Resumo: Dentro da Korean Wave, os manhwas são um dos produtos culturais que estão sendo levados para outros países, algumas vezes confundidos com os mangás japoneses. São narrativas sequenciais gráficas, com linguagem híbrida de texto e imagem, com diferenças verificáveis nas metáforas visuais e enredos. A Korean Wave é um fenômeno Cultural do séc. XXI, que se encaixa dentro de um quadro geral da globalização, no qual artefatos culturais assumiram um papel importante tanto para a economia quanto para a sociedade de dado país ou região. Esse artigo apresenta aspectos da Korean Wave ou Hallyu (onda coreana), que pode ser resumido na expansão de múltiplos aspectos da cultura sul-coreana para as mais diversas regiões do mundo. Apresentam-se como fonte de leitura e entretenimento, sobretudo infanto-juvenil, devido ao seu acesso facilitado, por meio dos smartphones, assim como os temas atualizados e de interesse para a juventude, em nível global. Conclui que o fenômeno da leitura sofre profundas alterações, e requer estudos no campo cultural, particularmente aqueles que optam pela interdisciplinaridade, necessários para absorver as mudanças que vêm sendo operadas tanto nas relações humanas quanto na produção de conhecimento.

 

A REVISTA CAJUEIRO  é editada pelo GRUPO PLENA: Grupo de Pesquisa em Leitura, Escrita e Narrativa, em formato eletrônico. É publicada pelo Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas da Universidade Federal de Sergipe. Se trata de um periódico científico semestral, que tem como objetivo principal promover a difusão, democratização e fortalecimento das pesquisas em Ciência da Informação, com ênfase na contemplação dos objetos e objetivos referentes à formação de leitores e da cultura da leitura, em todos os seus aspectos e ambientes sociais, assim como observar as repercussões positivas dos hábitos e gostos leitores na sociedade. Visa também ampliar o diálogo com a comunidade científica internacional e contribuir para o desenvolvimento da sociedade, nos caminhos da leitura.


domingo, 26 de dezembro de 2021

DEVO MORRER POR QUE SOU MULHER? O REI DE PORCELANA (연모) E O NEOCONFUCIONISMO


Baseado no manhwa (história em quadrinhos coreana), “The King’s Affection” (연모), "O Rei de Porcelana" (título em português), é uma série original do Netflix, que teve seus últimos capítulos, 20 no total, exibidos no dia 24 de dezembro, no Brasil. Trata-se de um drama de época sul-coreano, que gira em torno da história de dois gêmeos, Lee Hwi (o menino) e Dam-i (a menina). Filhos do príncipe-herdeiro, as crianças ao nascerem trazem caos para o palácio. Primeiro, porque o nascimento de gêmeos era sinal de mal agouro, segundo, porque de acordo com a doutrina neoconfuncionista, ao dividir o ventre da mãe com uma menina, o menino era considerado um homem fraco. Isso poderia ser tolerado entre os plebeus, mas era uma fraqueza para a nobreza, em especial a família real.

A solução para isso foi matar a menina e todos que tinham conhecimento da sua existência. Ela deve morrer por ser mulher? Essa é a questão que é levantada ao longo de toda a trama. A pequena e indefesa Dam-i deve ser sacrificada para que seu irmão possa ascender ao trono. No entanto, a princesa-herdeira desafia o neconfucionismo e salva a vida da menina que, mais tarde, por uma reviravolta do destino, assume o lugar do irmão mais velho e torna-se rei, durante a Dinastia Joseon, no século XV.

Dam-i  deixa de existir para que Lee Hwi possa continuar existindo e, com isso, garantir sua própria sobrevivência. A menina se torna menino. "O Rei de Porcelana" conta a história de uma donzela guerreira, que precisa esconder seu gênero e viver uma vida que não é sua. A questão dos papeis de gênero perpassa toda a narrativa. Sendo mulher, mas vivendo como homem, Dam-i  mostra que esses papeis são apenas construções. Por mais de uma década ela mantém a farsa e acaba sendo coroada rei, e um rei muito competente. Não lhe falta nada: sabedoria, força, habilidade de luta e carisma.

Imagem do manhwa (2011), capturada em: https://amazonesstory.tistory.com/354


Essa temática, mulheres que se disfarçam de homens, é recorrente em dramas asiáticos, não sendo esse a originalidade da série. No entanto, a forma como a narrativa de desenvolve e os questionamentos que emergem ao longo da trama, fazem de "O Rei de Porcelana" um drama que foge do lugar comum e, no qual, a nossa donzela guerreira apesar da sua trajetória trágica, não se render ou ser subjugada pelo papel masculino que assume. Ao contrário, ela reivindica sua identidade como mulher.

"O Rei de Porcelana" subverte o papel da donzela guerreira, que morre ou é sacrificada ao final da sua trajetória. Nessa história, Lee Hwi morre para que Dam-i  possa viver. O neoconfuncionismo não é apenas criticado, mas desafiado. Ela não deve morrer por ser mulher, essa é a mensagem final do drama. Uma mensagem que dialoga com o presente, num país no qual mulheres e homens ainda são influenciados por valores arcaicos, baseados numa filosofia que sobrevive ancorada no patriarcalismo.

Essa série dramática coloca em cena a questão do gênero de forma a nos levar a refletir sobre o que realmente é ser homem e ser mulher. Vale destacar a atuação de Park Eun-bin, que a protagonista, que interpreta a nossa donzela guerreira. Uma história muito bem orquestrada, uma narrativa cheia de reviravoltas do início ao fim, um elenco magistral, uma bela trilha sonora e uma cenografia de tirar o fôlego fazem de O Rei de Porcelana uma obra ímpar, que vale a pena ser assistida.


sábado, 1 de maio de 2021

COMO UMA BORBOLETA: COMENTANDO NAVILLERA

 

Navillera (나빌레라), cuja tradução par ao português seria “Como uma borboleta”, é um k-drama que estreou em março no Netflix, e teve seu fim na última semana de abril. Com apenas 12 episódios, de aproximadamente uma hora cada, Navillera foi adaptada de um webtoon, de grande sucesso, que conta a história de um homem que, aos 70 anos de idade, resolve fazer balé. Acompanhei a série pontualmente, todas as segundas e terças, e fiquei hipnotizada com a história, que foge do padrão em vários sentidos.

Não é uma comédia romântica, está mais para uma história de amizade e que foca, também nos conflitos entre pais e filhos. A narrativa é fluida, sensível, colocando em cena problemas comuns relacionados tanto aos jovens, como os desafios que enfrentam no mercado de trabalho, suas dúvidas e angustias com relação ao futuro. Por outro lado, ela fala sobre os desafios que também são enfrentados pelos idosos, suas relações familiares, o preconceito e, também, a forma como problemas de saúde afetam tanto a eles quanto às pessoas que os cercam.

Imagem retirada do webtoon, capítulo 1.
É uma história singela, que prende o expectador do início ao fim, e que foge dos padrões e dos clichês que normalmente encontramos nos quadrinhos e nos seriados. É literalmente um programa para toda a família. Se eu ainda tivesse avós vivos eu assistiria com eles e tenho certeza que eles iriam se divertir. Eu realmente não consigo apontar defeitos e só tenho elogios aos atores, todos sem exceção, dos protagonistas aos coadjuvantes. Mas não tem como deixar de destacar os meus favoritos.

Para começar eu me apaixonei pela atuação de Park In-hwan, ator de 76 anos, que iniciou sua carreira em 1965, tendo atuado em dezenas de produções no cinema, na TV e no teatro. Em Navillera ele é Shim Deok-chul, um carteiro aposentado que resolve aprender balé, um sonho que tinha desde a infância, mas que nunca pode realizar. Primeiro, porque a família não apoiava, segundo, porque não possuía condições financeiras para isso. 

Imagem capturada em: https://revistakoreain.com.br/2021/03/k-drama-navillera-quebra-padroes-e-promete-emocionar/

Um homem que trabalhou muito e passou por muitas dificuldades para criar os três filhos. O retrato do homem comum sul-coreano, que tem uma vida laboriosa e que, após 40 anos de trabalho, se resigna com uma vida pacata de aposentado. Só que no caso desse personagem não vai ser assim, ele corre atrás dos sonhos perdidos, mesmo com toda dificuldade, e mostra que a velhice não é o fim.

Meu segundo personagem preferido é a esposa de Shim Deok-chul, Choi Hae-nam, interpretada pela magnífica atriz Na Moon-hee, de 80 anos de idade. Essa atriz maravilhosa simplesmente roubou o meu coração com sua atuação em Navillera. Ela é o retrato da mãe zelosa, mas é também a esposa parceira, que vai apoiar os sonhos do marido. 

Aliás, a relação dos dois, como casal, é muito harmoniosa e marcada pelo respeito mútuo. Para além do amor, está o companheirismo e a amizade construída pelos anos de convivência. E o casamento aqui não é apresentado como um conto de fadas. Na verdade, o drama deixa bem claro como pode ser difícil construir e manter uma família unida.

Imagem capturada em: https://revistakoreain.com.br/2021/03/k-drama-navillera-quebra-padroes-e-promete-emocionar/

Por fim, eu tiro o chapéu para o jovem ator Song Kang, que interpreta Lee Chae-rok, um talentoso dançarino de 23 anos, que começou a fazer balé aos 19 anos, seguindo os passos da mãe, que era dançarina e que havia morrido há alguns anos. Ele está vivendo uma crise, com o pai preso, sem dinheiro e quase desistindo do balé. É aí que ele conhece Deok-chul, e um acaba mudando a vida do outro.

A relação entre os personagens vai sendo construída a cada episódio e é umas das coisas mais bonitas da série. Um passa a apoiar o outro e Deok-chul devolve a Lee Chae-rok não apenas a esperança mais o sentimento de pertencer a uma família.  Eles, claro, aprenderam alguns movimentos de balé, mas, logicamente, precisaram de dublês para executar movimentos mais complexos. Neste momento, entraram os recursos de câmera e luz que possibilitaram que a performance dos protagonistas fosse o mais real possível.

Imagem Capturada em: https://www.elfolivre.com.br/2021/03/navillera-netflix.html

Se eu escrever mais vou acabar dando spoillers, por isso vou encerrar recomendando novamente a série e deixando aqui o link (clique aqui), para quem quiser conferir o webtoon (em inglês).

quinta-feira, 4 de março de 2021

COMENTANTO O DORAMA MR QUEEN - 철인 왕후

Depois que passe a assistir séries do leste asiático (os dramas ou doramas) eu fui várias vezes surpreendida com programas muito acima da média daqueles que eu estava acostumada a assistir. Devo muito isso ao Netflix que disponibilizou uma grade de programação muito rica, que engloba filmes e séries de todo o mundo e que ampliou meus horizontes culturais. E não me refiro aqui apenas a dramas sul-coreanos ou chineses, mas também tailandeses e também de outros países como França, Espanha, Irã, filmes africanos de ótima qualidade. Eu se desprendi das produções estadunidenses e foi como enxergar um novo mundo com novas cores.

De atores excelentes a cenários deslumbrantes, é como viajar pelo mundo sem sair de casa, conhecer outras formas de pensar, identificar formas de resistência e várias representações sociais. E como estamos vivendo uma época transmidiática, uma coisa puxa a outra. A gente começar assistindo séries e filmes, passa a se encantar pela música, a se interessar por games e a ter contato com produções literárias e outras formas de narrativas como quadrinhos que não sabíamos que existia. Junte-se a isso um profissionalismo que merece ser aplaudido de pé, de roteiristas e diretores que conseguem fazer um excelente trabalho com um orçamento muito menor do que qualquer produção média de Hollywood.

Dito tudo isso, eu gostaria de comentar a grande surpresa deste ano que foi o K-drama "Mr. Queen" (철인 왕후), com 20 episódios e mais dois episódios extras, exibidos entre 12 de dezembro e 14 de fevereiro, que eu assisti no Viki. Pois é, infelizmente não está no Netflix, quem sabe no futuro? Já vou adiantando que vou fazer comentários que podem conter spoillers, porque talvez seja difícil falar sobre a drama sem entrar em certos detalhes. Vamos começar pelo título. "Mr. Queen", que é genial e não está escrito errado. 

Baseado no drama da web chinês Go Princess Go, conta as aventuras de um renomado cozinheiro chamado Bong-hwan, que após um acidente vê sua alma sendo transportada no tempo e aprisionada no corpo da infeliz rainha Cheorin na Era Joseon (uma monarquia fundada por Taejo Yi Seong-gye que existiu entre 1392 e 1897). Ou seja, um homem preso no corpo de uma mulher. Pode até parecer que não há nada de extraordinário nisso, mas a coisa não era tão simples assim. A alma da rainha ainda estava lá, ou seja, Bong-hwan compartilha com ela memórias e sentimentos, inclusive a paixão não correspondida que ela tinha pelo rei.

Em meio a tramas políticas e muitos, mas muitos momentos de humor inteligente, temos uma narrativa que simplesmente não deixa furos e que consegue abordar de forma muito interessante questões como, por exemplo, a identidade de gênero. Isso porque Bong-hwan está sob comando do corpo da rainha, mas ela aos poucos vai se manifestando e assumindo controle em alguns momentos, chegando ao ponto de que o cozinheiro não sabe ao certo o quais são seus pensamentos/sentimentos e quais são os dela.

E imaginem a confusão e as cenas hilárias que são produzidas pelas ações de uma mulher do século XIX, que viveu toda uma vida sob rígido controle, que agora tem seu copo possuído por um homem do futuro? A rainha promove uma verdadeira revolução no palácio e na vida do rei e literalmente muda o futuro. Junte-se a isso um figurino de época muito bonito e uma fotografia esmerada.

Além disso, vários temas atuais são discutidos. Há questões políticas relevantes assim como questões culturais e geracionais. O roteiro é muito rico em referências que fazem este drama histórico muito próximo do presente. E vamos falar dos atores. Dos protagonistas Shin Hye-sun (Rainha Cheorin) e Kim Jung-hyun (O rei Cheoljong) ao elenco de apoio não há um que não tenha desempenhado bem seu papel. 

Mas não há como negar que Shin Hye-sun tenha sido o maior destaque. A atriz realmente deu vida ao personagem de uma forma que eu nunca havia visto. Atuação perfeita do início ao fim. De todos os doramas que assisti nos últimos seis meses eu acredito que esse tenha sido o melhor, de longe, em todos os quesitos. Aliás, e não sou só eu que acho. A audiência do programa foi uma das melhores do país, chegando a 17,371% dos expectadores do país, o que não é pouca coisa.

É bom lembra que se trata de uma obra de fantasia que não tem compromisso com a fidelidade histórica e dá outros rumos à vida do rei e da rainha que lá são apresentados como protagonistas. mas há um cuidado muito grande na pesquisa do figurino, na escolha dos cenários e em outros detalhes. O drama vai, por exemplo, introduzir gírias e expressões modernas que não fazem parte do contexto no qual a narrativa se desenrola (século XIX). 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

TUDO BEM NÃO SER NORMAL: UM CONTO DE FADAS PARA ADULTOS

Na sua origem os contos de fadas eram sombrios e tenebrosos, utilizados como uma forma de disciplinar e conter impulsos, por meio de histórias nas quais muitas vezes os vilões não era tão piores do que os mocinhos. Eles traziam representações dos perigos da vida cotidiana, eles estabeleciam os limites entre o certo e o errado, reforçavam papeis de gênero que oprimiam as mulheres e traziam à tona o lado sombrio da sociedade. O recado era bem claro, o mundo do não é justo, aprenda a se defender se quiser sobreviver. Os contos de fadas, também,não distinguiam crianças de adultos.

Philippe Ariès, em seus estudos sobre a origem social da infância, explica que na Idade Média as crianças eram considerados seres sem autonomia ou estatuto social. Vai ser apenas na idade moderna que elas serão reconhecidas como tal. Mesmo assim, a infância seria desfrutada, por um longo tempo, apenas pelas crianças que pertenciam aos grupos privilegiados. Chapeuzinho Vermelho, o Gato de Botas, a Bela Adormecida ou a Branca de Neve e os Sete Anões, contos famosos a literatura infantil universal foram copilados, reescritos e adaptados para se tornarem apropriados para o público infantil, afinal, era preciso criar todos um aparato para educar a criança, que não mais é vista genericamente como uma adulto em miniatura.

Recheados de metáforas esses contos foram e ainda são utilizados de forma disciplinadora. Mas, como no passado, eles continuam sendo apropriados e seu discurso mudando de direção. Sobre folclore europeu e a forma como os contos populares eram utilizados de forma disciplinadora, a primeira leitura que tive e recomendo, é a obra de Robert Darnton, “O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa”, publicado originalmene em 1984, em particular o capítulo um “Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso”, que fala sobre os contos de fadas e os trata como documentos históricos uma vez que trazem representações sociais a partir das quais se pode perceber as mudanças na mentalidade humana. 

Atualmente temos presenciado essa apropriação ou mesmo um retorno à origem da literatura popular europeia por meio do cinema, dos quadrinhos, games e séries de televisão. Os contos de fadas estão sendo reescritos para os adultos e não trazem apenas metáforas com o objetivos pedagógicos, mas estão se tornando um espaço para que a própria psique humana possa ser representada, interpretada e reinterpretada.

Esta pelo menos é a análise que eu faço como consumidora de cultura, a partir do contato com artefatos culturais pop, dos quais eu quero destacar um aqui, em especial a séria dramática produzida pelo Estúdio Dragon e distribuída mundialmente pelo Netflix, “Tudo bem não ser normal” (사이코 지만 괜찮아).  Este K-drama utiliza contos de fadas modernos para falar sobre traumas e sentimentos. A cada episódio uma história é narrada de forma a associar a trajetória dos personagens principais à história que está sendo contada, utilizando diversas metáforas.

Os contos de fadas, de certa forma dividem o protagonismo com os personagens envolvidos na trama. Temos um enfermeiro/cuidador, Moon Gang-tae , interpretado pelo ator Kim Soo-hyun,  que trabalha e hospitais psiquiátricos e que cuida do irmão mais velho autista sozinho, desde que a mãe morreu tragicamente, quando ele tinha apenas 12 anos de idade.  Moon Sang-tae, o irmão autista que tem um talento enorme para a arte, mas que é extremamente dependente do irmão caçula, interpretado pelo ator Oh Jung-se, diga-se de passagem, com perfeição.  

O trio se completa com Ko Moon-young, interpretada pela atriz Seo Ye-ji, uma escritora de contos de fadas de sucesso, com uma história familiar trágica que fez com que ela se fechasse para qualquer tido de sentimentos. É claro, não falta a bruxa, causadora de toda a dor e tristeza que perseguiu os protagonistas até a vida adulta.

"A mão e o tamboril", "O cão feliz", "A criança Zumbi" e o "O Menino que alimentava pesadelos" são contos narrados ao longo da série e que, na verdade, refletem a carga emocional e psicológica que envolve os protagonistas. Na verdade, refletem o estado psicológico da própria escritora, incapaz de criar contos de fada que tenha um final feliz. Na verdade, ela retorna em seus escritos à origem desse tipo de literatura em sua fase mais sombria.

As metáforas contidas nesses contos fazem transbordar a dor reprimida pelos personagens. Assim, é tocante e ao mesmo tempo muito delicada a forma como a literatura interage com a realidade e vice-versa. No episódio no qual é narrado o conto da "Criança Zumbi", Moon Gang-tae, que tem por hábito reprimir suas emoções começa a chorar ao ler a história da mãe que ofereceu seu próprio corpo para alimentar o filho. Ele associa a história à sua infância e ao seu relacionamento com a mãe e o irmão.

A cura dos traumas é o que move a história. A descoberta e reconhecimento de sentimentos reprimidos, o desejo de romper com o passado, a conquista da autonomia e da coragem para encarar os desafios da vida. Um conto de fadas que mostra que os adultos também precisam de cuidados e que o abandono é, provavelmente, a pior doença que a sociedade impõem a aqueles que não se encaixam dentro daquilo que se considera “normal”. Mas o que é normal afinal? 

Tudo bem não se normal é um exemplo de apropriação da literatura pela televisão mas, também, de hibridismo cultural, uma vez que os contos de fada passam a ser parte essencial do da narrativa, criando algo novo, uma mistura de duas formas de arte. Cada conto de fadas que é um presente para o expectador que pode desfrutar de um pouco de literatura, além de uma bela arte ilustrativa, tanto pelas páginas dos livros, que de fato acabaram sendo publicados a partir do k-drama, e dos efeitos de animação usados eventualmente. E isso é o que torna a história sensível e diferente.

Referências:

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.

DARNTON, Robert. O Grande Massacre de Gatos: e outros episódios da história cultural francesa. – São Paulo: Graal, 2011.


sábado, 5 de setembro de 2020

O SETEMBRO AMARELO NA HALLYU: AS REPRESENTAÇÕES DO SUICÍDIO NA CULTURA POP

Cena de suicído no K-drama "W: two worlds"

No último ano eu me aproximei da Hallyu (Onda Coreana)[1] por meio dos k-dramas e, depois pelos quadrinhos. O que é algo natural para mim, e quem acompanha o blog já percebeu. Gosto de conhecer outras culturas, especialmente pelas suas expressões artístico-narrativas, pois elas sempre me conduzem a questionamentos e indagações.

Foi assim quando comecei a estudar quadrinhos estadunidenses da primeira metade do século XX, para o mestrado, e está sendo assim com quadrinhos franceses no doutorado. Paralelamente, sou fascinada pelos estilo sueco de fazer quadrinhos, por exemplo e quero me aprofundar mais mais além dois artigos que já escrevi e penso neles potencialmente como um tema para pós-doutorado. Mas eu ainda não tinha tido interesse pela produção do leste asiático, mesmo tendo muitos amigos leitores e pesquisadores, que produzem um ótimos material sobre o assunto. Assumo que nunca fui leitora de mangá, por exemplo, apesar de apreciar o traço de muitos artistas, mas só na última semana eu comprei dois, por conta de temas que emergiram em k-dramas que assisti recentemente.

O contato com a produção sul-coreana mudou minha perspectiva e me fez querer saber mais sobre o oriente. Achei a história da Coreia muito interessante, e a forma como o país se construiu, sua cultura e as relações de gênero desafiaram minha curisosidade. E isso se deve essecialmente ao contato com a cultura de massa sul coreana. Primeiro, eu me surpreendi com a qualidade da produção para a televisão e, posteriormente, para o cinema. Em seguida eu percebi que a produção para a televisão, os chamados k-dramas, não apenas dialogava muito com a linguagem dos quadrinhos como, também, se apropriava deles de uma forma que não vejo acontecer no contexto ocidental.

Foi assim que cheguei aos manhwas (quadrinhos coreanos) e sua forma mais popular, os webtoons. Dando uma explicação rápida, os webtoons são um formato de quadrinhos digitais muito populares na Coreia do Sul, consumidos em grande quantidade por pessoas de todas as idades. Lá se desenvolveu o que se chama de snack culture, uma forma de cultura que pode ser consumida em poucos minutos, por meio dos smartphones. Há de tudo, k-dramas com episódios de 5 a 10 minutos, webtoons em capítulos, romances em fascículos. Todos são postados periodicamente e, aos poucos, o leitor vai conseguindo acompanhar sua série preferida enquanto toma um café, está no metrô ou no ônibus. Ideal para uma sociedade na qual quase não há tempo para o lazer.

Uma sociedade movida pela necessidade de trabalhar cada vez mais. O sucesso na carreira não e possível a todos e existe uma discriminação muito grande para com aqueles que não são bem sucedidos. Vem daí a cobrança enorme sobre os jovens, que quase não possuem tempo para se divertir, debruçados em cima dos bancos escolares, estudando nos fins de semana.  Até porque não basta apenas entrar em uma universidade, mas sim numa das três mais prestigiadas, Seoul, Korea e Yonsei, apelidadas de “Sky”.

Para o psicólogo Kim Tae-hyung, que trabalha em Seul, as crianças coreanas estão "crescendo sozinhas, estudando sozinhas". "Elas são forçadas a estudarem muito e competirem com seus amigos. Esse tipo de isolamento pode causar depressão e pode ser um grande fator para suicídio."

No mundo todo, suicídio é a segunda causa de morte entre pessoas jovens, mas na Coreia do Sul é a causa número um e morte de jovens entre 10 e 30 anos.

O país também tem os maiores níveis de estresse entre jovens entre 11 e 15, em comparação com qualquer outro país industrializado do mundo, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).[2]

Os adultos, por sua vez, são forçados a se dedicar quase que inteiramente ao trabalho, até idade avançada, uma vez que o sistema previdenciário do país é insuficiente para garantir seu sustendo durante a terceira idade. Por conta de tanta pressão social, o consumo de álcool na Coreia do Sul duas vezes maior do que o da Rússia e o índice de suicídios naquele país e um dos mais elevados do mundo, o maior entre os países em desenvolvimento. E isso aparece constantemente representado seja nos k-dramas, seja nos manhwa.  

Coreia do Sul, com 29,1 casos a cada 100 mil habitantes em 2012, é a nação desenvolvida com mais suicídios, segundo dados publicados este mês pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O país ocupa o 1º lugar pelo nono ano consecutivo, muito acima do segundo, a Hungria, com 19,4 casos a cada 100 mil habitantes. À margem do "clube oficial dos países ricos" só a Lituânia supera a Coreia do Sul. O país europeu tem 31 casos a cada 100 mil, conforme dados de 2012. Mais de 14 mil pessoas se suicidam anualmente na Coreia do Sul e a incidência dobra na terceira idade, revelando o lado mais cruel de um país entregue ao desenvolvimento, ao dinheiro e à honra.[3]

Nos k-dramas e nos manhwas há referências constantes ao suicídio. Personagens que tiram sua vida por não aguentarem a pressão social, personagens que pensam em se matar pelo menos uma vez durante a trama. O rapaz que não aguenta a pressão da família que cobra dele o ingresso em uma boa universidade ou que passe em um concurso público; a moça que sofre com excesso de trabalho e assédio no emprego; o rapaz que perdeu os movimento das pernas em um acidente e se sente um pária numa sociedade que exige que todos sejam produtivos; o idoso abandonado pelos filhos e que não possuí meios de se sustentar. A pobreza de uma parcela significativa da sociedade, que vive de subempregos.

"Chesse in the trap", k-drama adaptado de um webtoon.

Efeitos nocivos em uma sociedade que abraçou o neoliberalismo e é uma das mais globalizadas do mundo, e que podem ser percebidos nos produções midiáticas que, apesar dos clichês básicos e necessários para prender a audiência, trazem representações sociais que podem ajudar a refletir acerca de temas que nos são comuns.

Por ser a quarta maior causa de mortes nos país, a prática do suicídio encontrou o caminho da naturalização. O que se procura atualmente é buscar suas causas e tentar combate-las, o que não necessariamente é fácil, num país no qual ele se tornou uma questão de saúde pública, levando o Estado a tomar medidas preventivas e até restringir a venda de pesticidas, por exemplo, usados principalmente pelas mulheres que querem se suicidar. 

O debate sobre o tema ganhou ainda mais destaque quando ídolos da Hallyu começaram a morrer quase que seguidamente. Jovens atores e cantores que tiraram suas vidas em meio ao sucesso por não suportarem as pressões do trabalho e da sociedade. Pressões estas, aliás, que são constantemente abordadas em webtoons e k-dramas nos quais os protagonistas são ídolos da música ou da televisão.

“À medida que a imprensa internacional presta mais atenção ao que está por detrás deste género musical, mais se descobre: dietas rigorosas, cirurgias plásticas, contratos severos, subornos, assédio e muitas horas de trabalho são algumas das difíceis condições da indústria K-pop já antes relatadas.”[4]

Os webtoons e os k-dramas acabam e tornando espaços para denuncia e combate, por exemplo, do suicídio, quando questionam o “por que?” ou quando buscam passar uma mensagem de encorajamento.nA denúncia constante de abusos estão presentes nos manhwas e nos k-dramas. No Netflix, por exemplo, o k-drama adaptado de um webtoon, “Cheese in the trap”(2016), mostra as dificuldades de uma jovem de origem pobre em uma universidade, vítima da pressão social e bullying. Mystic Pop Up Bar (2020), também adaptado de um webtoon, tem como protagonista é uma mulher que cometeu suicídio e por determinação divina deveria voltar à terra e ajudar a curar as almas de 100 mil pessoas que acumulavam mágoas. 

Em uma outra produção, que leva os quadrinhos para o k-drama por meio de apropriação de linguabem, “W: Two Worlds”(2016), temos um cartunista mergulhando na depressão e no alcoolismo cujo pensamento está o tempo todo voltado para a morte, como única solução para seus problemas. Um dos grandes sucessos do cinema sul coreano, também adaptado de um webtoon, Along with the gods: two worlds (2017), por exemplo, apresenta um personagem que está sob vigilância por risco de suicídio, durante o período do serviço miltar obrigatório no país.

Mystic Pop Up Bar, webtoon adapta para k-drama que tem como tema a depressão gerada pelos problemas diários da população.

Assim como esses, há tantos outros exemplos que a cultura de massas nos oferece e que ajuda a levantar questões acerca de qual sociedade estamos criando e qual sociedade realmente precisamos ter. Mesmo que o caso sul coreano seja ímpar, e preciso lembrar que os problema é global e que, apensar das diferenças culturais, as causas muitas vezes são as mesmas. Tendo sido criada para ser um produto de consumo a cultura de massas extrapola seus objetivos originais uma vez que acaba assumindo o papel de atender às demandas sociais. Denunciar situações abusivas, corrupção política, misoginia, racismo e tantos outros injustiças passou a der o pano de fundo de muitas tramas, de músicas e da arte que, à sua maneira, se apresentam canais de conscientização e de reflexão.

Embora o modelo coreano não seja global, é a tendência do neoliberalismo priorizar o trabalho e produção. As pessoas passam a ser muito mais valorizadas pelo que são capazes de oferecer e termos produtivos do que necessariamente sociais, assim como cresce a falta de empatia e o distanciamento entre as pessoas. 

É preciso refletir a forma como esse modelo pode ser perverso e de como ele tem ganhado espaço e aumento ainda mais as diferenças entre as pessoas. Em tempos de pandemia, a falta e empatia parece ganhar novos contornos e maior destaque, uma vez que para uma significativa parcela da sociedade global, o dinheiro tem tido prioridade sobre a vida. Estamos encarando a morrte cada vez com mais naturidade. Não que ela não seja natural. Mas não é natural alguém pensar em tirar a vida com apena 11 anos de idade, ou um idoso achar que sua vida vale menos do que a de um jovem, ou um empresário e membros de um governo afirmar que a morte por covid-19 é invitave e, bem, vamos nos confomar. A falta de empatia com o sofrimento alheio não tem nada de normal.



[1] Hallyu é um termo que foi criado na China, no final da década de 1990, e apropriado pela Coreia do Sul que pode ser traduzido como a expansão da cultura sul coreana por meios da exportação de produtos e hábitos culturais.

[2] SHARIF, Hossein. O temido 'Enem' que sela o futuro dos jovens e paralisa a Coreia do Sul por um dia(2018). Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46221616>. Acesso em: 05 set. 2020.

[3] AMERISE, Atahualpa. Coreia do Sul: a república do suicídio (2015). Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/09/18/coreia-do-sul-a-republica-do-suicidio.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: 5 de set. 2020.

[4] MARTINS, Raquel. Sucesso, depressão e suicídios. O encanto e o lado negro da indústria K-Pop (2029). Disponível em: https://observador.pt/2019/11/30/sucesso-depressao-e-suicidios-o-encanto-e-o-lado-negro-da-industria-k-pop/. Acesso em: 05 de set. 2020


terça-feira, 26 de maio de 2020

“GOO HAE-RYUNG, A HISTORIADORA” E O SIGNIFICADO DE SER HISTORIADOR(A)




Terminei de assistir esta semana o K-drama “Goo Hae-Ryung, a Historiadora” (신입 사관 구해 령), uma produção da Netflix, lançada em 2019. Uma experiência, no mínimo, gratificante. Os doramas têm sido tanto uma forma de lazer quanto uma inspiração que tem me aberto uma série de possibilidades para temas de pesquisa. 

Além disso, eles estão me introduzido na História do Oriente, área na qual eu nunca havia me envolvido nestes meus 28 anos de formada. Aliás, um dos meus projetos para depois do doutorado é justamente escrever um pequeno e-book falando sobre temas históricos do oriente a partir das produções coreanas e chinesas para televisão. Já estou até selecionando minhas fontes, "Goo Hae-Ryung, Historiadora", certamente será uma delas.

Mas o que este k-drama tem de tão especial para que eu o tenha incluído nos meus projetos futuros? 

Eu poderia citar inúmeros pontos e, entre eles o próprio didatismo de “Goo Hae-Ryung, a Historiadora”, que aborda uma variedade enorme de assuntos que, certamente, serão temas de algumas das minhas aulas. Mas, de tudo que ele pode oferecer duas coisas me chamaram a atenção. Primeiramente, o protagonismo feminino, em segundo lugar a forma com o papel social do historiador é apresentado pelo dorama. Possivelmente eu darei alguns spoilers, vai ser inevitável, mas nada que atrapalhe quem quiser conferir depois este drama na Netflix.

Historiadoras aprendizes do Escritório de Decretos Reais.

Vamos começar falando das protagonistas. Neste K-drama as mulheres roubam a cena o tempo todo. Tanto a protagonista, quanto as personagens do elenco de apoio. É um dorama bem no estilo girl power e com uma grande vantagem: com pouquíssimos clichês. Não espere mocinhas frágeis e heróis viris. Aqui as mulheres tomam a iniciativa no amor e são elas que salvam o príncipe indefeso.


 Goo Hae-Ryung
A heroína da história é Goo Hae-Ryung é uma jovem de 26 anos que se recusa a casar e, para fugir do casamento, ela faz o primeiro concurso público para mulheres e se torna historiadora, junto com mais três jovens, dentre elas a filha de um membro do autoescalão do governo. Ela não quer ser esposa. Goo Hae-Ryung deseja ter uma carreira, ser independente financeiramente e não acredita que o casamento seja a única opção para uma mulher.

Mas estamos no início do século XIX, na Dinastia Joseon (1392–1897), na Coreia. Tanto do ponto de vista social e cultural e moral, uma mulher só encontraria realização se fosse esposa e mãe. Goo Hae-Ryung está numa situação difícil porque se ela não aceitar o marido que o irmão escolheu, o chefe da vila na qual ela morava iria casá-la com alguém aleatoriamente. Afinal, uma mulher não pode ficar sem um homem sem perder sua moral. Tal pensamento não foi exclusivo de países do extremo oriente e, ainda hoje, é defendido em muitas regiões do mundo.

A protagonista consegue evitar seu destino predeterminado pela sociedade e se torna funcionária pública. Neste ponto, a narrativa se constrói no passado, mas com elementos do presente. O discurso acerca da liberação feminina encontra facilmente eco nos dias atuais, assim como as dificuldades que as quatro jovens historiadoras enfrentam para conquistar seu espaço dentro da instituição governamental na qual, até então, as únicas mulheres eram as criadas.

Uma pausa aqui para elogiar o talento de Shin Se-kyung, a atriz que interpreta Goo Hae-Ryung.

Voltando à questão do casamento, as colegas historiadoras de Goo Hae-Ryung compartilham com ela, em maior ou menor escala, o desejo pela independência e, também, não veem no casamento a única alternativa para uma mulher.


Song Sa-hee
Destaque para Song Sa-hee, filha de uma família rica, que evitou ao máximo o casamento, e que deseja ser livre para escolher seu caminho, sem ser usada pela família para alianças políticas ou comerciais. A jovem lady é direta: não quero ser usada. Ela é questionada: Você é de uma família, não precisa trabalhar ou se preocupar com dinheiro, por que quer ser historiadora? No que ela responde: Não tenho nada, nada é meu, pois ou mulher. Para Song Sa-hee, interpretada pela atriz Park Ji-hyun, o cargo público de historiadora é a forma não apenas de se libertar das imposições da família, mas, também, de poder garantir seu sustento futuro.

São mulheres que não querem casar apenas para cumprir exigência social e que não se rendem à ilusão do amor romântico. Elas querem amar, querem ser amadas, mas não vão abrir mão da sua liberdade por conta disso. Goo Hae-Ryung, por exemplo, é muito pragmática. Em certo momento ela recebe a proposta de fugir e deixar tudo para atrás para se realizar no amor. A resposta dela: Eu? Fugir e perder tudo que eu conquistei com o meu esforço e apostar numa paixão que eu sei lá se vai ter futuro? É ruim! Não foram exatamente estas palavras, mas este é o sentido delas.

O interessante do grupo formado pelas quatro historiadoras é o fato de que elas possuem origens sociais diferentes, mas compartilham o mesmo destino por serem mulheres. Destaque para fato que a mulher oriunda de família rica se coloca como a mais oprimida, uma vez que sua família a vê como um instrumento para conquistar ou conservar o poder e status a partir de matrimônios arranjados.

Espirituosas e atrevidas, as historiadoras Oh Eun-im (interpretada por Lee Ye-rim ) e Heo Ah-ran (interpretada por Jang Yoo-bin) dão um ar cômico ao drama.
Oh Eun-im (interpretada por Lee Ye-rim) e  Heo Ah-ran (interpretada por Jang Yoo-bin).

Outra coisa que me encantou neste dorama é a forma como são apresentados os historiadores. Eu poderia dizer que eles e elas são os protagonistas da história. No contexto no qual a narrativa se desenvolve, início do século XX, os historiadores representam um corpo de funcionários públicos com um status elevado na corte: são eles os responsáveis por registrar nos sachaek (caderno que os historiadores carregavam) tudo que era dito em reuniões oficiais, públicas ou particulares. 

Das reuniões oficiais com o rei e o príncipe herdeiro, à rotina cotidiana de membros da corte, como a rainha-mãe, a princesa herdeira, o jovem príncipe, etc, tudo era registrado e arquivado, sendo proibido o acesso a esta documentação quem não fosse historiador. O próprio rei não tinha direito a ler o conteúdo dos sachaek.

O que me seduziu mesmo neste dorama foi a forma como a história foi, o tempo todo, representada: ela é a chave para o futuro da nação. Os historiadores se apresentam como detentores de uma ética inabalável, que deve ser mantida a todo custo e defendem o documento de qualquer tipo de interferência externa. No momento, por exemplo, em que o rei tenta passar em cima lei e interferir no escritório de registros históricos, eles resistem. O poder do rei não se rivaliza ao da história.

Uma passagem, que vou resumir agora, mostra o chefe dos historiadores rebatendo um dos colegas que diz algo do tipo: se o rei quer ler, então deixa ler. Ele retruca dizendo algo assim: A gente deixa o rei ler hoje, ele pede para ler amanhã, depois eu começa a sugerir algumas mudanças e, no fim, nós não sermos mais do que marionetes nas mãos dele. Ainda completa que, as leis que protegem os registros e os historiadores foram conquistas depois de séculos de luta. Se eles cedessem, teriam que recomeçar do zero.



A história é colocada como portadora da verdade. Que verdade? Os registros detalhados feitos pelos historiadores e que, depois, seriam usados para escrever os compêndios nos quais era seria sintetizada. O historiador não poderia julgar, seriam as futuras gerações que o fariam. Ele não poderia interferir nem ter opinião, como uma sentinela silenciosa, ele apenas registra.

Uma visão positivista mas é século XIX, então é compreensível.  Não que isso não seja questionado no decorrer da trama, afinal, a narrativa dialoga o tempo todo com o presente. Não achei fontes para embasar ou confirmar este poder dos historiadores durante a Dinastia Joseon, mas confirmei que, de fato, eles existiram e trabalharam junto aos órgãos do governo, por séculos.

Eu realmente poderia escrever muitas páginas sobre esta série, mas vou encerrar a postagem reforçando minha recomendação. Assista “Goo Hae-Ryung, a Historiadora”. É uma história bonita, com personagens marcantes, é leve e, ao mesmo tempo, muito profunda. Você vai rir, vai se emocionar e vai ter contato com conhecimentos que podem fazer diferença na sua formação escolar, social e política. Fora isso é muito divertido, com uma trilha sonora linda, uma fotografia fabulosa, ótima opção para os dias de isolamento. São 20 episódios de cerca de 70 min cada.