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sábado, 4 de outubro de 2025

LANÇAMENTO DO LIVRO "QUADRINHOS, CONCEITOS E LINGUAGENS"


Saiu esta semana o último livro da trilogia que ajudei a organizar de textos resultantes do I Encontro Internacional da ASPAS e do VII Fórum de Pesquisadores em Arte Sequencial, realizado entre 5 e 8 de novembro de 2024. 

Foi o fim de um ciclo de trabalhos que durou quase dois anos e que envolveu toda a preparação para o evento, o evento em si e, posteriormente a organização de três volumes de livros, a partir dos texto enviados e aprovados para publicação. Aproveito para agradecer aos colegas Nataniel dos Santos Gomes, Guilherme Sfredo Miorando, Lucio Luiz Corrêa da Silva, Sebastian Gago, Joyce Mirella dos Anjos Viana e  Luísa Arantes Bahia que participaram e colaboraram com todo esse processo.

O prefácio deste livro foi gentilmente escrito pela professora doutora Valéria Fernandes da Silva.

Confira os capítulos:

1. A teoria funcionalista e a tradução de HQs - Deborah Covre Simão Martim, Nataniel dos Santos Gomes. 

2. Clube de Conversação em Português utilizando quadrinhos: uma experiência de intercâmbio na Universidade de Buenos Aires (Argentina) - Eduarda Fernandes da Rosa, Angélica Rosa de Matos, Vanessa Maciel Franco Magalhães.

3. Carlos Trillo como agente de consagração dos Quadrinhos Argentinos (1970-1980) - Sebastian Horacio Gago.

4. Histórias quadrinizadas: algumas considerações sobre biografias em quadrinhos - Natania A. da Silva Nogueira.

5. Mulheres quadrinistas na Suécia – de quadrinhos infantis ao feminismo - Fredrik Strömberg.

6. Entre a madeira e o concreto: a poética da memória entre os espaços de Eisner e Chabouté Alessandra Matias Querido, William Farago da Maia.

7. Histórias em quadrinhos: preferências de leitura em papel e tela - Leticia Gomes Oliveira Seiboth Nataniel dos Santos Gomes.

8. As fanzinotecas como manutenção solidária e coletiva sócio-político-paratópica - Gazy Andraus.

9. Os quadrinhos, a translinguagem e as conexões presentes - João Soares Rampi.
 
10. Quadrinhos, redes sociais e autoria coletiva: analisando o caso da série de tirinhas Cuscuz Surpresa, de Helô D’Angelo e Daniel Cesart - Maiara Alvim de Almeida.

11. Representatividade regional no Prêmio Angelo Agostini - Ivan Carlo Andrade de Oliveira.

Este  livro e os outros dois (Super-heróis, política e identidades e Quadrinhos, pesquisa e educação), podem ser ser acessados aqui!

terça-feira, 30 de setembro de 2025

FREDRIC, WILLIAM E A AMAZONA. PERSEGUIÇÃO E CENSURA AOS QUADRINHOS

 


Fredric, Willian e a Amazona: perseguição aos quadrinhos, traz a biografia conjunta do psiquiatra Dr. Fredric Wertham e do psicólogo  William Moulton Marston. O primeiro, autor do livro Sedução do Inocente,  ficou conhecido por ser protagonista da famigerada companha de perseguição aos quadrinhos, que na década de 1950 representou um duro golpe à indústria dos quadrinhos nos Estados Unidos e que teve reflexos diversos países do ocidente. O segundo, ficou conhecido como criador da Mulher Maravilha, a primeira grande heroína surgida na égide da segunda onda do feminismo, durante a Segunda Guerra Mundial.

O quadrinhos nos traz uma história que busca reproduzir o contexto de criação da Mulher Maravilha e, ao mesmo tempo, o surgimento das teorias de Wertham, que condenava a leitura dos quadrinhos. Os autores buscam reconstituir os bastidores desse processo, colocando na mesa as influências que este dois homens tiveram para construírem seu legado. 

Wertham, mergulhado no mundo do crime, analisando perfis de psicopatas, imerso numa visão mais pessimista e traumatizante da realidade, perpassada  pela violência em seu estado mais perverso. Ao mesmo tempo, o psiquiatra tenta contrabalancear esta negatividade promovendo auxilio psiquiátrico a comunidades negras nos Estados Unidos. No entanto, de acordo com a narrativa da obra, ele não consegue se distanciar do fato de estar imerso na violência, e assume uma postura rígida com relação principalmente a quadrinhos de crime e de terror.

Marston, é sempre apresentado de forma otimista, um idealista que tem uma vida excêntrica com suas duas esposas (ele era adepto do poliamor). Ele encontra nos quadrinhos uma forma de popularizar suas ideias acerca das relações de gênero e do feminismo e de sua invenção, o polígrafo, comumente chamado de detector de mentiras. Suas relações familiares fazem parte do enredo, destacando sua relação com sua esposa e sua amante. 

Não acho que o termo “amante” seja correto para descrever a relação dele com Olive Byrne mas não me veio em mente outra palavra, visto que, levando em conta os paradigmas sociais da época, ela se encaixava dentro desta categoria, embora sua relação com Marston não fosse clandestina (inclusive, se alguém tiver um termo melhor que eu possa usar, aceito sugestões). Há de se destacar a forte presença de sua  esposa, Elizabeth Holloway Marston, e sua importância tanto no que tocante ao bom andamento das relações familiares quanto ao seu trabalho de Marston e à própria criação da Mulher Maravilha.

Esta HQ, de autoria dos franceses Jean-Marc Lainé (roteiro) e Thierry Olivier (arte). O roteirista, Lainé, criou a narrativa deste quadrinho a parte do seu conhecimento sobre a história dos quadrinhos estadunidenses, tendo experiências tanto como editor quanto como pesquisador de quadrinhos. A obra, apesar de possuir muitos elementos ficcionais, até porque não há como escapar deles quando se constrói uma narrativa biográfica em quadrinhos, é bem factualmente bem embasada, inclusive com  textos complementares, ao final da obra que valem a pena ser lidos.

domingo, 20 de julho de 2025

POSY SIMMONS - HERSELF

 


Indo contra a corrente do individualismo contemporâneo, as histórias desenhadas por Posy Simmonds são fruto de um olhar meticuloso sobre o outro. Essa leitura refinada do período nos permite perceber melhor as nuances do nosso cotidiano” (Exposição Posy Simmons. Herself, Angoulême, 2025).

 

“Posy Simmons. Por ela mesma” foi uma das exposições mais concorridas durante o 52º FIBD de Angoulême, tanto pela obra e trajetória da autora, uma veterana entre as quadrinistas britânicas, quanto pelo fato de se tratar de laureada de 2024. Sim, estamos falando de um das (poucas) mulheres que recebeu o Grand Prix (o prémio máximo do festival) em duas 52 edições. E ela mereceu, certamente. Esta autora não é conhecida do público brasileiro, mas influenciou várias gerações de artistas britânicos e de outros países, nos quais sua obra foi traduzida, como a França.

Rosemary Elizabeth "Posy" Simmonds é uma cartunista de jornal britânica, escritora e ilustradora de livros infantis e graphic novels. Ela é mais conhecida por sua longa associação com o The Guardian, para o qual desenhou as séries Gemma Bovery (2000) e Tamara Drewe (2005–2006), ambas publicadas posteriormente como livros. Assim como Claire Bretecher usou da sátira e do humor para criar histórias que criticavam e expunham os vícios das classes médias francesas, Posy faz algo bem semelhante, mas com um estilo mais “gentil”.  

Ela cria retratos psicológicos precisos, zomba das deficiências da classe média e do cenário cultural, caricatura a seriedade e critica os desenvolvimentos sociais. Entre suas influencias literárias estão escritores como Gustave Flaubert e Charles Dickens. Suas personagens femininas têm como característica serem obstinadas. Elas não necessariamente terão um final feliz. Elas são "heroínas condenadas", como em romances góticos dos séculos XVIII e XIX, mas claro, dialogando com o presente, o moderno. Suas obras mais famosas são Tamara Drewe e Gemma Bovery (Denoël).

Nascida em 1945, a autora completa este ano 80 anos, sendo mais de 50 anos como cartunista. acrescentam mais camadas às histórias. Posy Simmonds ficou famosa nacionalmente por sua tira “The Silent Three of St. Botolph's”, que começou a aparecer no “The Guardian” em 1977 e era sobre três amigas de longa data. Mais tarde, ela publicou-o em livros e desenvolveu-o ainda mais para criar sua primeira história em quadrinhos, “True Love”. Suas outras publicações também começaram como tiras no “The Guardian”.

Simmons publicou ainda livros e quadrinhos infantis. Sua exposição traz essa longa trajetória, mostrando várias facetas da autora, sobretudo, sua preocupação com a memória. Em “Posy Simmons. Herself” temos uma imersão na história dos quadrinhos britânicos antes de chegarmos propriamente na produção da autora. Este detalhe, que pode até passar por despercebido por que está lá apenas pela autora, demonstra a importância dada por ela e pela curadoria do festival em trazer à tona a história dos quadrinhos da qual esta veterana, e porque não dizer, e pioneira faz parte.

Na exposição podemos conhecer mais sobre Posy Simmons. Seu engajamento em questões políticas, sua intimidade, sua visão de mundo e, suas mulheres, figuras tragicômicas que derrubam códigos sociais. Suas influencias também estão presentes, seja na arte ou na literatura. A exposição trouxe ainda desenhos inéditos da autora que, por sinal, abriu a exposição no dia 29 de janeiro, com uma visita guiada exclusivamente para profissionais.

Entre o material inédito da exposição estão os cadernos de Posy Simmons, nos quais podemos perceber como a autora faz sua leitura do cotidiano, sua sensibilidade ao representar em seus desenhos os destituídos e anônimos. Ao mesmo tempo ela denuncia as formas contemporâneas de alienação, dando voz aos anônimos. Pessoas comuns, pessoas que passam por privações e que muitas vezes ficam convenientemente invisíveis para a sociedade. Ela se posiciona conta o individualismo e lança um olhar meticuloso sobre o outro.

Cabe por fim acrescentar que Posy Simmons, além de profissional de grande estatura e que hoje represente uma das vozes mais fortes entre as autoras britânicas, é uma criatura dotada de grande gentiliza. Seu semblante suave e sua voz mansa deixam todos ao seu redor confortáveis. Mas não se deixem enganar por seu semblante sereno. Por detrás dele há uma mulher forte, capaz de colocar em suas obras representações da realidade política e social intensas que nos fazem questionar padrões normatizados de comportamento.

Imagens da exposição – 29 de janeiro de 2025













terça-feira, 14 de maio de 2024

QUADRINHOS FEMINISTAS OU QUADRINHOS PARA MULHERES?


Recentemente foi lançado livro "Interfaces Midiáticas e Quadrinhos", organizado por Rafael Senra e Ivan Carlo Andrade de Oliveira. O livro sai como uma co-edição da Editora da Unifap com a Editora Verter, e reúne artigos de autores que apresentaram na quarta edição do Evento ASPAS Norte. Um destes artigos é "Quadrinhos feministas ou quadrinhos para mulheres" um texto que eu produzi a partir de uma apresentação que realizei durante o ASPAS Norte.

No artigo eu analiso diversos tipos de HQs produzidas por mulheres e para mulheres buscando entender como este material pode ser apropriado por leitores e leitoras, buscando levar em consideração o contexto no qual foi produzido e o objetivo da produção.

Quem quiser conferir, o livro pode ser acessado gratuitamente, clicando aqui.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

PRÊMIO ARTEMÍSIA 2024 - RESULTADO ANUNCIADO

Saiu o resultado do Prêmio Artemisa, de 2024, criado há 17 anos para dar visibilidade ao trabalho de mulheres quadrinistas na França. O resultado é divulgado tradicionalmente no dia 9 de janeiro, data em que se comemora o nascimento de Simone de Beauvoir. 

Criado em 2007 por Chantal Montellier e Jeanne Puchol, o Prêmio Artemísia possui cinco categorias diferentes. O júri composto por Chantal Montellier , Isabelle Beaumenay-Chaland , Julie Scheibling , Patrick Gaumer , Pascal Guichard e Christophe Vilain , é acompanhado pelo presidente honorário Laurent Gervereau . O Grande Prêmio anterior de 2023 foi concedido a Valentine Cuny-Le Callet por Perpendicular ao Sol (Delcourt) .

As vencedoras de 2024:

  • Grand Prix Artémisia: Madones et putains (Madonas e Prostitutas) de Nine Antico (Dupuis)


  • Prêmio Artemisia Weed: Devenir de Joanna Folivéli (Futuro de Joanna Folivéli) (Dois Pontos)



  • Prêmio Artémisia Poésie-Mixte: Grande échappée (A Grande Fuga) de Bérengère Delaporte , variação gráfica em torno do poema La Panthère (A Pantera) de Rainer Maria Rilke (Nathan)

  • Prêmio Artémisia de Humor: Le grand incident (O grande incidente) de Zelba (edições Futuropolis / Louvre)


  • Prêmio Artémisia Survireuse: (Sultana) de Lili Sohn e Élodie Lascar (Steinkis)

  • A entrega dos prêmios vai acontecer no dia 17 de janeiro, no L'Espace des Femmes - Antoinnete Fouque, em Paris, França. Des Femmes é uma editora criada em 1973 por Antoinette Fouque com o objetivo de impulsionar a vida editorial, intelectual e cultural francesa, destacando a criação das mulheres. Antoinette Fouque foi uma psicanalista francesa envolvida no Movimento de Libertação das Mulheres. 

domingo, 7 de janeiro de 2024

MADELEINE, RESISTENTE E QUADRINHOS SOBRE A II GUERRA MUNDIAL

Minha primeira postagem do ano vai ser sobre uma HQ que eu comecei a ler justamente no dia 1º de janeiro, e com certo atraso, devo dizer. É a HQ "Madeleine, resistente: a rosa engatilhada". Trata-se de uma HQ criada a partir das memórias da poetisa e jornalista (correspondente de guerra) Madeleine Riffaud, uma jovem que, em 1942, aos 18 anos, e sofrendo de tuberculose, desafiou a ocupação nazista na França, lutando da resistência. Tinha tudo para dar errado, não é? Uma menina frágil e ainda por cima doente, disposta a encarar um dos momentos mais difíceis da história da humanidade. Mas olha, ela conseguiu, tanto que viveu para contar a sua história por meio dos quadrinhos.

Madeleine, resistente é uma série em quadrinhos que teve seu primeiro volume publicado no Brasil em 2023. Esta série é ressoldado de um trabalho conjunto entre Madeleine Riffaud, Dominique Bertail, Cartunista e colorista francês, e do roteirista francês Jean-David Morvan. É uma autobiografia, um registro histórico da vida de Riffaud que está fazendo muito sucesso em todo o mundo.

Madeleine Riffaud nasceu em 23 de agosto de 1924 é filha de professores. Ao se unir à resistência adotou o codinome "Rainer", em homenagem ao poeta alemão Rainer Maria Rilke. Ela participou das ações das “Forças do Interior Francesas” em várias operações contra as forças de ocupação nazistas. Em 23 de julho de 1944, ela ficou famosa pelo assassinato de um oficial alemão, em plena luz do dia. Presa e torturada ela foi liberada e retomou suas ações junto à resistência, até o final da guerra. Como jornalista, ela se envolveu na frente de descolonização, tendo presenciado, e relatado como jornalista, a guerra da Indochina, da Argélia e do Vietnã. Só por essa biografia resumida dá para ver que Madeleine Riffaud tem muita história para contar.

Eu tive contado com a HQ Madeleine, resistente, pela primeira vez, em janeiro de 2023, durante o 50º Festival de BD de Angoulême, na França. Sobre ela foi montada uma maravilhosa exposição sobre a HQ e a própria Madeleine. Foi uma das exposições que que mais gostei em todo o festival. Não apenas pela forma como a HQ foi exposta mas, principalmente, porque foi uma exposição montada a partir do ponto de vista da História. 





Mais do que promover a HQ a exposição, na minha interpretação, foi pedagógica, mostrando não apenas uma parte da guerra que poucos vivenciaram como, também, um exemplo de empoderamento feminino, a partir das experiências de Madeleine.

Posso dizer que conheci Madeleine Riffaud antes de ler a HQ e, por isso, eu acabei lendo e me interessado ainda mais pelo tema da resistência, que eu já havia trabalhando um tanto quanto superficialmente em outros momentos. Para quem gosta do assunto, a leitura desta HQ é mais que recomendada. O segundo volume deve sair agora em 2024, em português. Uma coisa que eu gostei muito foi a história “bônus” no final da HQ, que consta como o projeto começou, na forma de quadrinhos

 

domingo, 17 de dezembro de 2023

MINHA TESE FOI PREMIADA NO HQ MIX

 

Finalmente consegui fôlego para falar sobre a minha premiação no 35º HQ MIX, que ocorreu no dia 06 de dezembro, no SESC 24 de maio, em São Paulo. Pois é, minha tese de doutorado, que analisa a revista francesa Ah! Nana e o movimento feminista na Franca, na década de 1970 recebeu o prêmio de melhor tese, por unanimidade (palavras de Sônia Luyten durante a premiação). 

Pois é, a ficha ainda não caiu totalmente. 

Eu olho para o troféu e me questiono: "É meu mesmo?".

Com Dani Marino
Isso tudo porque meu doutorado foi muito diferente do meu mestrado. O mestrado foi relativamente fácil e eu estava muito segura do que eu queria realmente fazer. Tanto que, quando fiz minha qualificação minha dissertação estava praticamente pronta. Já no doutorado foi diferente. Foi tenso, eu passei por bloqueios criativos, troquei de orientadora no meio do caminho, fiquei insegura e me questionava sobre minha escolha de tema. Mas meti a cara e corri atrás do prejuízo. 

Com Sabrina da Paixão

Já que eu tinha me decidido sobre falar sobre a história e os quadrinhos na França, eu não iria recuar. Não é da minha natureza deixar uma coisa pela metade. Mas parece que o universo conspirou a meu favor. Eu conheci muita gente que me ajudou e  motivou. Pessoas se aproximaram de mim para oferecer ajuda, olha que coisa! Rompi barreiras de idioma e consegui o máximo que eu pude dentro dos limites que eu tinha. Sinceramente, as pessoas acreditaram mais do que eu. 

O doutorado foi sofrido mas o resultado foi maravilhoso. Ao ver minha tese pronta eu me senti recompensada  pelo meu esforço e pelo meu trabalho.

Com Sônia Luyten
Receber o prêmio foi muito mais do que eu poderia esperar, de várias formas. Eu me emocionei com a alegria dos amigos. Não sabia que era querida por tanta gente. Vi pessoas comemorando como se elas tivessem ganhado.  Minha diretora, assim que soube, disse que iria comigo receber o prêmio do meu lado. Ela e uma outra amiga querida da escola, Elizandia, cobriram os gastos com a viagem (que não foi pequeno) para poder estar do meu lado no dia da entrega. Muitos amigos e  familiares largaram o estavam fazendo, para comparece à entrega do troféu. E não foi pouca gente. 

Com Claudia e Elizandia
Isso foi o maior prêmio: o reconhecimento por parte dos meus pares e o carinho recebido dos amigos, amigas e familiares, antes, durante e depois da premiação. Por tudo isso valeram 4 anos de pesquisa e escrita. Por tudo isso valeu meu diploma, que é tanto meu quando de vocês, assim como esse prêmio que eu dedico a todos e toda que acreditam em mim, muito mais do que eu mesma.

Muito obrigada aos avaliadores que viram potencial na minha pesquisa, muito obrigada a quem acreditou e acredita em mim. É isso que motiva acordar todo dia, a ler, escrever e produzir conteúdo. Uma tese não se escreve sozinha, ela é escrita por mãos invisíveis, as mãos de quem acredita e apoia o pesquisador/a na sua jornada.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O ÚLTIMO VOO DAS BORBOLETAS - IMPRESSÕES


Eu terminei de ler hoje o mangá "O último voo das Borboletas", de Kan Takahan, mangaká premiada, que debutou em 2001. Em 2020, a autora venceu o 24º Prêmio Cultural Osamu Tezuka. Sua obra aborda temas cotidianos, o que me agrada muito, e tem influência franco-belga. Não conhecia a autora, até porque eu não sou leitura regular de mangá (e pode até ter sido que eu tenha lido algo antes, mas não me recordo), mas gostei muito dessa HQ. A narrativa, a arte, a preocupação com a pesquisa na construção dos cenários e dos personagens são alguns dos seus pontos fortes.

Cho-no-Michiyuki ou "Voo das borboletas" é uma referência a obra do teatro kubuki, de 1784, de Gohei Namiki. Trata-se de um mangá histórico, ficcional, que se passa no Japão do século XIX. A protagonista é Kichou, uma cortesã de luxo, que trabalhava no bordel Kagetsu-rou  da Casa Hiketa-ya, um estabelecimento muito famoso no Japão, com quase 400 anos, hoje conhecido como Restaurante Histórico Kagetsu. Nele, as gueixas - mulheres que se dedicavam às artes e ao entretenimento, dividiam espaço com as yuujo, como eram chamadas de mulher de diversão, que prestavam favores sexuais. 

Kichou era uma taju, uma cortesã que tinha habilidades de uma gueixa, beleza esmerada e inteligência, e por isso estava no topo da hierarquia dentro do bordel. Seus clientes eram selecionados e pagavam muito mais um valor mais elevado, sendo que ela poderia, inclusive, se recusar a atender uma pessoa, caso não desejasse. 

Uma menina se tornava yuujo quando era enviada ainda bem jovem para o bordel, geralmente vendida pela família, que não tinha condições de alimentar a prole. Essa é a história de Kichou, vendida pelo pai ainda menina. Essas mulheres desenvolviam uma dívida com o estabelecimento que poderia ser paga com o passar do tempo, com seu trabalho, ou por algum amante que desejava torna-la esposa.

É uma história muito interessante e sensível, que fala sobre a vida das mulheres nos bordeis, de doenças como a sífilis, de como o estigma da prostituição as marcava, mesmo quando conseguiam conquistar sua liberdade e estabelecer uma família. Não é um mangá que vai trazer a violência contra as mulheres, mas o modo como elas viviam e conviviam como a realidade social e cultural de um Japão que estava se às portas da Era Meiji.

Embora o local, bordel Kagetsu-rou, seja real, tendo até inspirado outras histórias, os personagens são ficcionais, com exceção de um, o doutor Toon, um médico ocidental – Anthonius Franciscus Bauduin – que realmente existiu e que foi apropriado pela autora, embora sua inserção na obra seja toda ficcional.

Recomendo a leitura, principalmente porque é também uma experiência de aprendizado. A autora teve a preocupação de escrever um prefácio, esclarecendo pontos e contado um pouco sobre o processo de criação do mangá e ainda disponibilizou um glossário, que traz informações tanto sobre termos usados, quando sobre a história e a cultura do Japão do século XIX, durante o Era Edo.

domingo, 23 de outubro de 2022

HELENA FONSECA NA PAPIERS NICKELÉS


Recentemente publiquei um artigo sobre a quadrinista Helena Fonseca na revista francesa Papiers Nickelés, nº 73. Uma autora que eu admiro muito mas sobre a qual não tenho muitas informações, infelizmente. Ela inclusive foi escolhida para ser homenageada pelos alunos da minha escola, quando da escolha do nome da nossa gibiteca escolar. Tenho até uma postagem sobre ela, um pouco menor do que o artigo que eu enviar para a revista.  Quem quiser conferir, é só clicar aqui. Caso algum pesquisador queira usar o texto em francês para alguma referência, mas não tem acesso a revista, pode ler o artigo, clicando aqui!

terça-feira, 19 de julho de 2022

ARTIGO SOBRE A HQ PELE DE HOMEM

Ano passado eu postei aqui minhas impressões sobre a HQ "Pele de Homem". Gostei tanto que até mesmo participei de um vídeo comentando sobre essa produção, com Valéria Fernandes da Silva e Fabiana Rubira (clique aqui para conferir). Por fim acabei produzindo um artigo sobre ele, com o título: "Pele de Homem e a desconstrução dos Papeis de Gênero nos Quadrinhos", que saiu pela Revista da Universo. Foi meu último trabalho publicado como doutoranda. 

Vou compartilhar aqui o resumo do artigo e, logo depois o link para quem quiser ler na íntegra.

"Pele de Homem"(2020) é uma história em quadrinhos, doravante HQ, franco-belga, que conquistou o público europeu e foi traduzida em 2021 para o português. A narrativa é ambientada na Itália do período renascentista e gira em torno de Bianca, uma jovem que se prepara para o casamento, mas que deseja conhecer o futuro marido. Seu desejo se realiza quando ela descobre um artefato místico que é passado de geração em geração para as mulheres da sua família, uma pele de homem. Trata-se de uma HQ que fala, com muita sensibilidade, sobre a condição feminina numa sociedade patriarcalista, que discute questões relativas aos papéis de gênero, a sexualidade e a homoafetividade, ambientado naquele contexto italiano. O roteirista Hubert Boulard e o ilustrador Frédéric Leutelier constroem uma história que mistura elementos históricos e ficção que dialogam com o presente. Nessa narrativa escrita e visual, o leitor(a) pode se encontrar representado(a) em vários momentos.

Para ler o artigo completo, clique aqui!


domingo, 26 de junho de 2022

COMENTANDO O LIVRO "MULHERES QUADRINISTAS - NO CEARÁ TEM DISSO, SIM!"

Terminei neste fim de semana de ler o livro "Mulheres Quadrinistas no Ceará tem disso, sim!", de Jeanni Cordeiro Barros, com prefácio da pesquisadora Sônia Luyten. Comprei o livro durante a pandemia e ele estava entre minhas prioridades de leitura depois que eu concluísse a minha tese. E foi uma leitura muito boa, por sinal. Fazia tempo que um livro teórico não me prendia tanto ao ponto de eu o ler quase todo em um dia. O livro me cativou por duas coisas.

Primeiro porque apresenta a obra de mulheres quadrinistas, apresentando as autoras juntamente com sua obra. Conhecer a autora ou autor, permite o leitor se apropriar de uma forma diferente da obra. Barros faz um trabalho biográfico e, ao mesmo tempo uma História dos Quadrinhos, além do um registro memorialístico. 

Em segundo, a obra não deixa de ser um registro da história dos quadrinhos local. O que é fantástico. Minha primeira formação como pesquisadora foi em História Local e eu tenho o maior respeito por quem se dedica a essa linha de pesquisa. Eu mesma tento, quando posso, voltar às minha origens, produzindo artigos e livros sobre o tema.  Algo que deveria ser feito em todos os Estados. 

Outra coisa que eu gostei muito foi o fato da autora ter feito uma História das Mulheres na Arte. Barros um movimento que vai do macro ao micro. Ela contextualiza as mulheres no campo das artes de uma forma geral, ela parte para as mulheres nos quadrinhos o Brasil e, nos capítulos que seguem, coloca o foca nas mulheres produtoras de quadrinhos no Ceará.

Por fim, resta elogiar o projeto gráfico. O livro é muito bem diagramado. O tamanho e o papel são muito bons, com ilustrações coloridas e em preto e branco. O valor também é acessível. Um item que não pode faltar na biblioteca de quem pesquisa quadrinhos no Brasil.


domingo, 22 de maio de 2022

ARTIGO FALANDO SOBRE WEBTOONS E K-DRAMAS PUBLICADO EM REVISTA DA UFS

 


Faz um tempo que eu escrevi um artigo sobre cultura pop coreana - especificamente dramas e quadrinhos. Ele foi publicado recentemente pela Revista Cajueiro, pela UFS. É um texto bem didático e pelo qual eu tenho muito carinho e fiquei muito feliz em vê-lo disponível, inclusive com uma versão em inglês. Segue o resumo do texto. Quem gostar do resumo, pode ter acesso ao artigo, clicando aqui!

De Webtoons a K-dramas as adaptações de manhwas e as tendências lançadas pela Korean Wave

Resumo: Dentro da Korean Wave, os manhwas são um dos produtos culturais que estão sendo levados para outros países, algumas vezes confundidos com os mangás japoneses. São narrativas sequenciais gráficas, com linguagem híbrida de texto e imagem, com diferenças verificáveis nas metáforas visuais e enredos. A Korean Wave é um fenômeno Cultural do séc. XXI, que se encaixa dentro de um quadro geral da globalização, no qual artefatos culturais assumiram um papel importante tanto para a economia quanto para a sociedade de dado país ou região. Esse artigo apresenta aspectos da Korean Wave ou Hallyu (onda coreana), que pode ser resumido na expansão de múltiplos aspectos da cultura sul-coreana para as mais diversas regiões do mundo. Apresentam-se como fonte de leitura e entretenimento, sobretudo infanto-juvenil, devido ao seu acesso facilitado, por meio dos smartphones, assim como os temas atualizados e de interesse para a juventude, em nível global. Conclui que o fenômeno da leitura sofre profundas alterações, e requer estudos no campo cultural, particularmente aqueles que optam pela interdisciplinaridade, necessários para absorver as mudanças que vêm sendo operadas tanto nas relações humanas quanto na produção de conhecimento.

 

A REVISTA CAJUEIRO  é editada pelo GRUPO PLENA: Grupo de Pesquisa em Leitura, Escrita e Narrativa, em formato eletrônico. É publicada pelo Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas da Universidade Federal de Sergipe. Se trata de um periódico científico semestral, que tem como objetivo principal promover a difusão, democratização e fortalecimento das pesquisas em Ciência da Informação, com ênfase na contemplação dos objetos e objetivos referentes à formação de leitores e da cultura da leitura, em todos os seus aspectos e ambientes sociais, assim como observar as repercussões positivas dos hábitos e gostos leitores na sociedade. Visa também ampliar o diálogo com a comunidade científica internacional e contribuir para o desenvolvimento da sociedade, nos caminhos da leitura.


quinta-feira, 12 de maio de 2022

ANNE MERGEN E AS CHARGES POLÍTICAS NA DÉCADA DE 1940

Anne Mergen foi uma pioneira nas artes gráficas que atuou como cartunista e chargista, entre as décadas de 1930 e 1950. Anne Briardy Mergen nasceu em Omaha, Nebraska, em 9 de agosto de 1906. Já na infância, a jovem Anne já se interessava pelo desenho, interesse esse que a levou a cursar arte comercial em comercial em Chicago. Foi lá que a autora começou a desenvolver o estilo que marcaria a sua obra e a tornaria mais tarde a primeira dama da charge política nos Estados Unidos, onde desenvolveu seu próprio estilo distinto. Ela se mudou para Miami em meados da década de 1920, onde começou a trabalhar em publicidade de moda para uma loja de departamentos local.

Começou a carreira como cartunista editorial no Miami Daily News, jornal no qual trabalhou por décadas.  Ela trabalho como artista de publicidade de moda para uma loja de departamentos, época em que começou a enviar seus desenhos para o Começou no produzindo desenhos de moda para o jornal Miami Daily New e, em 1933, publicou seu primeiro cartum editorial.  Usando sua formação na escola de arte, experiência em ilustração de moda e seu conhecimento sobre política, fruto do interesse que ela tinha sobre o tema, Mergen se formou e em 1936 e passou a trabalhar em integral como uma cartunista editorial, tornando-a a única caricaturista política nos Estados Unidos. Mergen foi uma das primeiras mulheres a atuar no jornalismo político ilustrado, área na qual, até então, era domínio dos homens.

The Master of Jet Propulsion. Publicado em 15 de february de1940. Anne Mergen Collection, The Ohio State University Billy Ireland Cartoon Library & Museum.

Mergen dividiu o trabalho com o cuidado com a casa, como muitas mulheres de seu tempo. Ela produziu sua obra principalmente em um estúdio caseiro, dividindo o trabalho jornalístico com os afazeres domésticos e a criação dos filhos. Em seu trabalho, cobria tanto manchetes nacionais quanto internacionais, o que dava à sua produção um caráter mais amplo, assim como exigia de Mergen um conhecimento maior tanto do contexto local quando global.

Como cartunista, Anne Mergen, se interessava por temas sobre política internacional. Produziu muitas charges sobre a  II Guerra Mundial e após a guerra, ela continuou a comentar sobre as questões sociais e políticas como a energia atômica, a corrida armamentista, a Guerra da Coréia. Apesar do destaque para a produção voltada para a política internacional, uma característica da produção de Mergen era a preocupação com questões “domesticas”, temas que diziam respeito ao bem estar social da população estadunidense. Dentre elas temos questões relacionadas à saúde e a educação.

 

 A direita:Running a poor second, 02 de outubro de 1955/ A esquerda: The message from above, 01 de junho de 1954. Fonte: Library of Congress.

Quando a Suprema Corte dos EUA decidiu que a segregação racial nas escolas públicas era inconstitucional, ela apoiou e de enfaticamente decisão, tendo produzido a charge “The Message from Above”. Além disso, foi defensora ferrenha de melhorias na educação, com escolas melhor equipadas e preparadas para receber a população, independentemente da cor ou da origem social. Mergen também fez campanha pela vacina contra a poliomielite, que considerava um risco às crianças, população mais vulnerável à doença. Esse último tema, em particular lhe era muito caro, tanto que que a autora chegou a comemorar o início do uso da vacina, em 1955, segundo depoimento da sua filha, Joan Bernhardt.  

Apple For Teacher, 23 de maio de 1954

Anne Mergen se aposentou em 1956, mas continuou produzindo até 1959. O trabalho de Mergen durou mais de 20 anos, período durante o qual a cartunista produziu mais de 7.000 lustrações. Em 2013, sua obra pode ser vista no  The Florida Historic Capitol Museum , em uma exposição que durou de 12 de março de 2013  a 21 de julho de 2013, intitulada “Anne Mergen: Florida Cartoons - Trace the Power of the Editorial Cartoon”. Parte de obra pode ser acessada encontrado no site da The Ohio State University, no setor Digital Collections. A cartunista faleceu em 3 de julho de 1994.

É necessário finalizar dizendo que Anne Mergen foi uma mulher que de muitas formas desafiou os padrões de sua época. Não apenas por atuar numa área dominada pelos homens, mas pela sua militância social e pela consciência que tinha sobre a força do seu trabalho. Foi uma mulher que não se sentia intimidada pelo machismo presente na sociedade estadunidense e que foi maximizado após a II Guerra Mundial. Mergen desafiou paradigmas, destacando-se tanto na análise de problemas políticos e sociais como no uso inteligente do humor como forma de criticá-los.

Fontes:

Anne Briardy Mergen, 1906-1994. Wander Women Project. Disponível em: <https://wanderwomenproject.com/women/anne-briardy-mergen/>. Acesso em 11 mai. 2022.

Anne Mergen. Women in Comics. Disponível em: < https://womenincomics.fandom.com/wiki/Anne_Mergen>. Acesso em 11 mai.2022.

Megen, Anne. Political Cartoons and massive resistance in Virginia. Disponível em: < http://www.littlejohnexplorers.com/jeff/brown/cartoon/cartoonfullpage22.htm>. Acesso em 11 mai. 2022.

NATANSON, Barbara Orbach (2020).  Ready for Research: Anne Mergen’s Editorial Cartoons. Disponível em: < https://blogs.loc.gov/picturethis/2020/02/ready-for-research-anne-mergens-editorial-cartoons/>. Acesso em 08 mai. 2022.

SPITZER, Tanja B.  Anne Mergen: First Lady of Editorial Cartoons During World War II (2020). Disponível em: <https://www.nationalww2museum.org/war/articles/anne-mergen-political-cartoons>. Acesso em 08 mai. 2022.