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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

PROJETO VARAL DE MEMÓRIAS


Este ano eu emplaquei vários projetos mas não consegui separar tempo para registrar, em palavras escritas, nenhum deles. Vou aproveitar o final do ano para fazer isso. Projetos, resenhas de livros e de quadrinhos, pretendo colocar tudo em dia em dezembro e janeiro. 

Vou começar com o projeto que eu desenvolvi recentemente na E. M. Judith Lintz Guedes Machado, Leopoldina (MG) e que recebeu o nome de "Varal de Memórias". Trata-se de um  projeto que começou a ganhar corpo em agosto de 2023, justamente na semana do estudante (semana em que comemoramos o dia do estudantes, 11 de agosto, com atividades extras na escola) . Eu resolvi, na inspiração, pedir para que cada aluno/a escrevesse pelo menos meia filha de caderno contanto uma lembrança/experiência relacionada à escola.  As experiências seriam transcritas e faríamos um varal no qual cada um colocaria seu texto. Daí o nome de "Varal de Memórias".

Era para ser uma atividade apenas para minhas turmas do oitavo ano, mas acabou se tornando um projeto maior, que envolveu 8 salas e alunos do 7º ao 9º ano. Os textos eram tão interessantes que acabei abandonando a ideia original e resolvi transcrever os 110 texto que recebi e transformar em um livro. Com isso eu manteria o registro daquelas memórias e os alunos/as que participaram do projeto poderiam ter consigo o fruto do seu trabalho e compartilhar suas memórias com outras pessoas.

Foi assim que nasceu o livro "Varal de Memórias" que foi lançado oficialmente no dia 02 de dezembro, numa cerimônia que teve a participação de alguns alunos que participaram da atividade, além de pais, professore e autoridades ligadas à educação e à cultura, de Leopoldina (MG) e até de outros municípios da Zona da Mata. Foi emocionante. 




O livro foi literalmente impresso na escola. A diretora imprimiu e encadernou pessoalmente exatos 110 unidades e também fizemos uma versão e-book. Estamos levantando a possibilidade de conseguirmos verba para imprimir em gráfica 100 unidades do livro, para serem distribuídas para escolas do munícipio, mas isso é projeto para 2024. 

Fazendo um apanhado geral, a experiência de organizar um livro de memórias foi um desafio e um prazer. Um desafio pois trabalhar com jovens requer certos cuidados e eu meio que pisei em ovos com relação aos relatos, porque eu estava trabalhando com menores. O primeiro passo foi pedir autorização dos pais/responsáveis e garantir o anonimato dos participantes. Sim, não nomeei os alunos/as, por questão de ética com pesquisa envolvendo seres humanos. Fui orientada a proceder desta forma.  Outro desafio foi de organizar o livro da forma devida.

Prometi aos alunos que eles teriam tratamento de autor. Não deveriam se preocupar com a escrita pois todo o material seria revisado antes de publicado. Para isso eu contei com a ajuda da equipe do professor Nataniel Gomes do curso de letras UEMS, que se voluntariaram para fazer a revisão. A diagramação foi realizada juntamente com o professor Amaro Braga, da UFAL, amigo de longa data. A capa foi criada por duas aluna da escola, Lívia e Vivian, e tratada digitalmente pelo designer e quadrinista Hamilton Kabuna. O prefácio foi realizado pela professora Fabiana Rubira, da FEUSP. Enfim, foi um trabalho coletivo, envolvendo pessoas de dentro de fora da escola.

O prazer veio na reação dos/as estudantes que participaram do projeto tanto durante o processo de produção do texto quanto no lançamento do livro. Aqueles que não puderam estar presentes no lançamento buscaram seus exemplares e foi muito recompensador ver como liam com interesse e comentavam entre si sobre os textos.

Para quem tiver interesse em conferir o trabalho basta clicar aqui e baixar gratuitamente o e-book. Se quiser deixar suas impressões, faça um comentário. Irei compartilhar com os alunos/as da escola.

sábado, 2 de julho de 2022

DESAFIOS DAS ESCOLAS PÚBLICAS PÓS-QUARENTENA

Imagino que mais de uma centena de textos sobre educação trazem como título a palavra desafio. Desafiar, segundo o dicionário, significa, provocar uma pessoa, incitar alguém para um duelo, combate ou guerra, medir forças durante uma luta ou competição. Para a escola, e os professores, desafiar significa enfrentar todos os dias os obstáculos desempenhar bem sua função. Agora, muito mais do que antes, tem sido uma prova de fogo lecionar.

Estamos diante de uma horda de alunos despreparados para a vida escolar. E esse despreparo não se deve apenas às questão de aprendizagem, de apropriação de conteúdos. O desafio maior tem sido o da convivência. Não apenas a convivência com os professores, mas entre eles mesmos. Falo aqui da minha experiência neste primeiro semestre, com alunos do fundamental II, em escola pública. 

Alunos que não tiveram oportunidade de estudar e frequentar a escola por dois anos. As aulas remotas, realizados por meio de aplicativos, usando o celular, desgastaram os professores e não tiveram muito efeito sobre uma clientela que, muitas vezes, nem celular possuía. A saúde mental tanto de alunos quando de professores também sofreu com a pandemia de Covid-19. O resultado disso, eu tenho testemunhado na escola, às vezes durante minhas aulas, às vezes em relatos de colegas. 

Imagem capturada em: https://www.facebook.com/cnj.oficial/photos/a.191159914290110/1681947658544654/?type=3

O bullying na escola aumentou enormemente, a ponto de resultar, em alguns casos, de violência física, quando a vítima chega ao limite e revida de forma quase desesperadora. É praticamente uma rotina constante ficar atenta a sinais de intimidação entre alunos, buscando evitar qualquer tipo de assédio moral.

A imaturidade é outro ponto. Nesses dois anos de afastamento da escola, os alunos perderam ou não desenvolveram o traquejo básico para conviver com outras pessoas, sejam elas os colegas ou os professores. Temos alunos do sétimo ano que agem como crianças do quinto ano. Crises de choro e de ansiedade se tornaram rotina. 

Tanto professores quanto alunos estão sendo vítimas de violência moral. À falta de limites some-se a falta da educação familiar. Alunos rebeldes e desrespeitosos, muito mais do que antes. Claro, isso é uma generalização. Temos alunos que sabem lidar com o ambiente escolar e com os outros de forma cordial, mas acabam sendo prejudicados pelo contexto geral. São eles, inclusive, os que mais sobre com o bullying.

Ouvi de um colega que uma mãe reclamou que a escola não está educando seu filho, pois ele está desenvolvendo "maus hábitos". Fico imaginando que algumas, não todas claro, famílias pensam que a escola deverá ser responsável pela formação moral de suas crianças. Mas isso não é papel dos pais? Não é a família que cria a base da identidade da criança, lhe ensina valores e transmite sua experiência de vida?

Imagem capturada em: https://twitter.com/kaol_/status/1154072744495108096

É muito complicada a própria relação  entre os alunos. Muitas agressões verbais ou mesmo físicas por conta de coisas irrelevantes. Fiquei assombrada com a reação de alunos mais velhos quando solicitei que mantivessem o distanciamento. Eles começaram se se agredir verbalmente, com xingamentos, e ameaças físicas. E como gritam uns com os outros! 

É visível a instabilidade psicológica dos adolescentes, que estão passando por uma fase da vida caracterizada por muitas mudanças físicas. Essa instabilidade se torna visível na forma como tratam o outro. E o apoio da família parece ter diminuído. Talvez para não ter que assumir a responsabilidade de ensinar, no sentido de educar para vida, muitos pais têm apoiado as más ações dos filhos e sobrecarregando o trabalho dos especialistas. Estamos tendo que repensar o papel da escola e do professor, em particular. 

Neste retorno às aula presenciais eu tenho observado muitos dos meus colegas empenhados em trabalhar. Temos buscado alternativas para suprir a deficiência de aprendizagem. No entanto, ao mesmo tempo somos desestimulados pelo ambiente difícil da sala de aula. Com isso o desgaste físico e emocional diários  tem refletido em adoecimento, o que faz com que professores de afastem da sala de aula temporariamente, interrompendo um ciclo de trabalho que precisará ser retomado no futuro.

Enquanto ambiente social, a escola tem sido palco de relações tóxicas, resultado de dois anos de isolamento que parecem ter feito com que os alunos esquecessem de como é ser aluno. Hoje o desafio não tem sido o ensino-aprendizagem, mas incutir normas básicas de convivência social e respeito ao outro. 

OBS: Este texto é uma autoanálise, uma forma que encontrei de refletir sobre os problemas que tenho e que outros colegas têm tido na pratica docente diária. Sempre acreditei no poder da palavra escrita. Não apenas pensar sobre algo, mas escrever sobre algo pode ampliar a compreensão que nós temos da realidade e de nos mesmos.

domingo, 25 de outubro de 2020

HISTÓRIA DA INFANCIA E DA EDUCAÇÃO NO BRASIL - BREVE PANORAMA

A história da educação infantil no Brasil está relacionada à história da infância que, a partir do século XIX, passou a ser um tema cada vez frequente tanto entre educadores quando no âmbito das políticas públicas. É um momento de grande e conquista sua independência em, em 1822. Assistimos, então, a construção de uma nação marcada pela escravidão e pela desigualdade social e econômica, na qual o assistencialismo foi a base das políticas públicas voltadas para a infância e a educação.

 

Ao longo da história do Brasil, a infância foi marcada pelo abandono das crianças pobres, entregues às instituições de caridade administradas pelo Estado ou pela igreja, uma prática constante nos séculos XVIII e XIX. Um abando que não era negado pela própria legislação portuguesa, que tutelava o Brasil. Neste período já podemos identificar legislações de proteção à infância, que seguiam as leis portuguesas do século XVI, que visava os grupos subalternos, tendo entre outros objetivos o combate à delinquência. Em 1775 e 1783 havia leis específicas acerca dos cuidados para com as crianças abandonadas, como consequência da pobreza dos pais.[1]


As crianças eram abanadas, geralmente pela, mães em instituições como as Santas Casas de Misericórdia, onde havia as “rodas dos expostos”, nas quais as mais ou pais, de forma anônima, depositavam bebês, muitos deles com poucas horas ou dias de vida. As crianças que sobreviviam eram encaminhadas a lares “adotivos”, cujas famílias recebiam ajuda financeira para a manutenção das crianças. No entanto, elas eram muitas vezes submetidas desde bem cedo a trabalhos extenuantes desde bem jovens, e se tornavam “crias”[2].

 


Havia ainda os asilos de órfãos que recebiam crianças abandonadas. Neles, por exemplo, as meninas eram preparadas para o casamento, uma vez que era prática comum, buscar nos asilos esposas jovens, cuja moral não era garantida pela instituição[3]. Ainda no período do Império, vimos surgir as escolas agrícolas, que acolhiam os meninos órfãos e os preparavam para trabalhar nas fazendas, como mão de obra barata e especializada. Este modelo foi mantido no século XX, durante a Primeira República.[4]


A educação das crianças pobres, quando ocorria, era voltada para o trabalho e/ou para a preparação para o casamento. Já as crianças de famílias abastardas, recebiam educação domiciliar, com tutores contratados pelos pais ou eram enviadas aos internatos, nos quais permaneciam por longos períodos sem contato com suas famílias e sob uma rígida disciplina que incluía, inclusive os castigos físicos.


Meninos e meninas de classes privilegiadas, ao longo do século XIX, foram educados sob o olhar de tutores e professores cuja função era ensinar conteúdos como língua portuguesa e matemática e, acima de tudo, disciplinar crianças e adolescentes, para que se tornem indivíduos responsáveis. Desde o período colonial a educação brasileira foi fortemente influenciada pela doutrina cristã católica, na qual a aquisição da leitura e da escrita que lhe permitisse ler os textos sagrados, era considerado suficiente para sua formação geral.


Cartilhas de alfabetização e ensino da religião eram comumente usadas, tanto no aprendizado a domicílio, quanto naquele público. Sedimentando o trabalho que já deveria ter sido feito pela mãe, na primeira fase da vida da criança, tais cartilhas voltavam à carga sobre tudo o que dizia respeito à vida espiritual. A escola deveria ter um crucifixo diante do qual, ao entrar, as crianças se persignavam, ajoelhando e benzendo-se pois “o sinal da santa cruz é o mais forte para vencer as tentações do inimigo comum”: o terrível e maldoso Satã.[5]


Mesmo após a instituição do ensino laico, com a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, em 1759, o ensino ainda foi fortemente influenciado pela doutrina cristã. A religião esteve constantemente presente nas escolas brasileiras mesmo o Estado tendo declarado o ensino laico, na última Constituição brasileira, de 1988[6], sendo comum a presença de símbolos religiosos em escolas não confessionais, mesmo na atualidade.


Ao longo do século XIX e durante o século XX a infância foi chamando a atenção de educadores, médicos e políticos. Era preciso educar as crianças desde a mais tenra idade para inibir a delinquência, entre os pobres, e formar a juventude que iria tomar as rédeas da política e da economia do país, entre as elites. Escolas particulares deram atenção aos pequenos herdeiros de comerciantes e fazendeiros, enquanto que foram criadas creches para acolher os filhos dos trabalhadores das cidades. 

A partir da segunda metade do século XIX, o quadro das instituições destinadas à primeira infância era formado basicamente da creche e do jardim de infância ao lado de outras modalidades educacionais, que foram absorvidas como modelos em diferentes países. No Brasil, por exemplo, a creche foi criada exclusivamente com caráter assistencialista, o que diferenciou essa instituição das demais criadas nos países europeus e norte-americanos, que tinham nos seus objetivos o caráter pedagógico. Essas diferenças exigem que seja analisada na sua especificidade, para que se possa compreender a trajetória desse nível de ensino no caso brasileiro e na relação que estabelece com o contexto universal.[7]

Ao longo do século XIX crescia um discurso que via na escola uma instituição criada para preservar a infância e a juventude de todo mal. Este pensamento se pautava em questões morais defendidas pela medicina daquele período e sobre as quais irão ser erigidas as práticas higienistas que marcaram a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. Estas práticas se assentavam no controle da sexualidade e ao combate aos vícios que eram reproduzidos desde o período colonial e se apoiavam numa “[...] pedagogia infantil disseminada na segunda metade do século XIX influência perniciosa, e moldadas de acordo com os princípios higienistas.[8]

Na passagem para o século XX, durante o período republicano, o crescimento das cidades fez acentuar a mortalidade infantil. As cidades brasileiras estavam constantemente sob ameaça de epidemias como a de varíola e de febre amarela, vitimando principalmente as crianças pequenas. Só na cidade do Rio de Janeiro faleceram, entre os anos de 1903 a 1909, vítimas da varíola, 1.646 crianças, entre 0 e 1 ano de idade.[9] Esta situação acabou levando ao surgimento de inciativas de cunho assistencialista como objetivo de proteger a infância.

Muitas creches foram criadas a partir da inciativa de organizações filantrópicas, voltadas para o atendimento às crianças pobres, cujas mães precisavam trabalhar fora de casa. Vários setores da sociedade defendiam a criação dos jardins de infância, baseada em um pensamento jurídico-policial, que relacionava o abandono à delinquência, e a ideário médico-higienista e religioso cujo objetivo era combater a mortalidade infantil.[10]

Ao longo do século XX este discurso assistencialista foi reforçado e reproduzido, no que diz respeito à educação pública, que se assentava na ideia de uma educação compensatória. A função da educação infantil estava relacionada não necessariamente com a aprendizagem. Ela era vista como um meio de suprir as necessidades básicas de crianças oriundas das classes populares, consideradas carente e inferiores, uma vez que não correspondiam ao ideal de infância, que tinha como modelo as crianças de classe média. Segundo Pascoal e Machado, “ a fim de superar as deficiências de saúde e nutrição, assim como as deficiências escolares, são oferecidas diferentes propostas no sentido de compensar tais carências”.[11] 

Nos anos de 1970, prevalecia ainda esse discurso assistencialista que defendia uma educação compensatória e que via a educação infantil também como uma forma de driblar o fracasso escolar, comumente relacionado à pobreza das famílias. Mais do que reformas sociais e investimentos no desenvolvimento humano, os defensores deste tipo de pensamento acreditavam que o cuidado com a infância iria solucionar os problemas do país, colocando sobre a educação infantil e a educação básica expectativas que não seriam alcançadas.

Nos anos de 1970, as políticas educacionais voltadas à educação de crianças de 0 a 6 anos defendiam a educação compensatória com vistas à compensação de carências culturais, deficiências linguísticas e defasagens afetivas das crianças provenientes das camadas populares. Influenciados por orientações de agências internacionais e por programas desenvolvidos nos Estados Unidos e na Europa, documentos oficiais do MEC e pareceres do então Conselho Federal de Educação defendiam a ideia de que a pré-escola poderia, por antecipação, salvar a escola dos problemas relativos ao fracasso escolar.[12] 

Este tipo de perspectiva ia de encontro com o pensamento de educadores como Paulo Freire para quem a educação não iria resolver todos os problemas do Brasil, mas era um passo importante neste caminho. Para Freire, a educação infantil deveria estar focada na criança, como sujeito do conhecimento, e visar não apenas sua formação escolar, mas, sobretudo, cidadã.[13] Não se poderia ignorar as necessidades das crianças, como seres sociais e simplesmente pensa-las como operários que iriam construir o futuro. Neste sentido, a década de 1980, sob influência do pensamento freiriano trouxe as primeiras conquistas, no que diz respeito aos direitos das crianças e à forma como a educação infantil passou a ser tratada dentro das políticas públicas.

Uma legislação que garantisse a educação infantil nas escolas públicas e que pudesse atender às classes menos favorecidas só foi possível na década de 1980, graças à pressão da sociedade civil, que se mobilizou em prol da defesa da infância. O tema foi colocando no centro dos debates sobre propostas para a educação, que deveriam constar da nova Constituição Federal Brasileira, promulgada em 1988. A partir de então, à criança de zero a seis anos passou a ser considerada como sujeito de direitos, podendo gozar plenamente de seus direitos de cidadania.

De acordo com a Constituição Federal de 1988, é “[...] O dever do Estado para com a educação será efetivado mediante a garantia de oferta de creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade”[14]. Estas instituições não se limitariam apenas aos cuidados físicos para com as crianças, mas também estariam voltadas para um trabalho, deixando de estar vinculadas à assistência social para atuarem também como parte da formação educacional da criança, na pré-alfabetização.

Em 1990, foi aprovada a Lei 8.069/90, que criou o Estatuto da Criança e do Adolescente, conferindo às crianças os direitos humanos. Segundo o Estatuto, a criança e o adolescente devem ter assegurados os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, para que seja possível, desse modo, ter acesso às oportunidades de “[...] desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade”[15] Complementado os ganhos legais para infância no Brasil, neste período, foi aprovada em 1996 a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que inseriu a educação infantil como primeira etapa da Educação Básica, colocando como sua finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, como forma  de complemento ao papel da família e da comunidade.[16]



[1] VENÂNCIO, Renato Pinto. Famílias abandonadas: assistência à criança de camadas populares no Rio de Janeiro e em Salvador – séculos XVIII e XIX. Campinas, Papirus, 1999, p. 21.

[2] Nome que se dava a crianças, principalmente meninas, adotadas informalmente, e que se tornavam criados e criadas nas casas de senhores e senhores e senhoras ricos, trabalhando em um regime de semiescravidão, por casa e comida, e passíveis de castigos físicos.

[3] LEITE, Míriam Moreira. A condição feminina no Rio de Janeiro, no século XIX: antologia de textos de viajantes estrangeiros. São Paulo: HUCITEC, Universidade de São Paulo, 1984, p. 38

[4] NOGUEIRA, Natania. Aparecida da Silva. Leopoldina: instrução, mito político e formação de elites na Zona da Mata Mineira (1895-1930). Leopoldina: Ed. do autor, 2011, p. 95.

[5] PRIORE, Mary Del. O cotidiano da criança livre no brasil entre a colônia e o império. In: História das crianças no Brasil / Mary Del Priore organizadora 7. ed. – São Paulo: Contexto, 2010, p. 55.

[6] O Brasil teve várias constituições, sendo a primeira as Constituição do Império, de 1824, e a última a Constituição de 1988, promulgada com o fim da Ditadura Militar (1964-1985).

[7] PASCHOAL. Jaqueline Delgado, MACHADO, Maria Cristina Gomes. A história da educação infantil no Brasil: avanços, retrocessos e desafios dessa modalidade educacional. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.33, p.78-95,mar.2009. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8639555>. Acesso em: 10 set. 2020, p. 81.

[8] RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. História da saúde mental infantil: a criança brasileira da colônia à República Velha. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 29-38, jan./abr. 2006. Disponível em: < https://www.scielo.br/pdf/pe/v11n1/v11n1a04.pdf>. Acesso em 08 set. 2020.

[9] PEREIRA, Thales Augusto Zamberlan. Mortalidade entre brancos e negros no Rio de Janeiro após a abolição. Estud. Econ., São Paulo, vol.46, n.2, p. 439-469, abr.-jun. 2016. Disponível em: < https://www.scielo.br/pdf/ee/v46n2/0101-4161-ee-46-02-0439.pdf>. Acesso em 08 set. 2020.

[10] PASCHOAL, Op. Cit, 2009, p.83.

[11] PASCHOAL, Op. Cit, 2009, p.83.

[12] KRAMER , Sonia As crianças de 0 a 6 anos nas políticas educacionais no brasil: educação infantil e/é fundamental. Educ. Soc., Campinas, vol. 27, n. 96 - Especial, p. 797-818, out. 2006. Disponível em http://www.cedes.unicamp.br. Acesso em 29 ago 2020, p. 799.

[13] SAUL, Alexandre, SILVA, Camila Godói da. Contribuições de Paulo Freire para a educação infantil: implicações para as políticas públicas. Disponível em <https://anpae.org.br/simposio2011/cdrom2011/PDFs/trabalhosCompletos/comunicacoesRelatos/0020.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2020.

[14] BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em 29 ago. 2020.

[15] BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de junho de 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm>. Acesso em 29 ago. 2020.

[16] BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Dispõe sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: MEC, 1996. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm>. Acesso em 29 ago. 2020.

terça-feira, 13 de março de 2018

PASSANDO O DIA EM UMA ESCOLA SUECA DE EDUCAÇÃO INFANTIL

Imagem meramente ilustrativa, captura no site do EL Paíz, disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/09/eps/1489066869_454079.html, acesso em 13 mar. 2018.

Nas minhas férias eu passei um dia em uma escola pública de educação infantil em Örebro, Suécia. Foi uma experiência tão enriquecedora que eu não poderia deixar de falar sobre ela de forma detalhada. Eu, antes de me formar em História, fiz o curso de magistério. Na época eu já estava na faculdade, mas para conseguir meu primeiro emprego na área de educação eu teria que ter o diploma de magistério. Mas nunca dei aulas para crianças.

Convivo com elas na escola, são alunos e alunas dos meus colegas que trabalham com educação infantil e com as primeiras séries do ensino fundamental, mas apenas isso. Foi uma experiência nova para mim. Primeiro, por ser a primeira vez que eu passei quase um dia todo com crianças pequenas em uma escola. Segundo, porque isso aconteceu em um país onde eu nem falo o idioma. Loucura, né?

Devo confessar que me deu medo. Mas, quem me conhece sabe que medo não me segura. Afinal, eu não poderia perder a oportunidade de conferir porque os suecos são considerados modelo para a educação infantil na Escandinávia.  Então, lá fui eu, no meu segundo dia em Örebro, para o trabalho.  A escola é uma creche, na verdade. As crianças que se encontram lá possuem de um a cinco anos, e convivem em turmas mistas onde há um professor (a), um (a) cuidador (a) e um (a) estagiário (a).  

Na classe onde eu fiquei são dezoito crianças com idades variadas. A escola é nova, foi inaugurada há pouco menos de um ano. Ao lado dela está sendo construída uma nova escola, que irá receber alunos mais velhos, equivalente ao nosso ensino fundamental. A escola nova tinha previsão para ser entregue no final do ano, mas em agosto próximo já poderá começar a funcionar. 

Na Suécia as empreiteiras não somente cumprem os prazos como costumam entregar as obras antes do previsto. Outra coisa digna de nota: a escola vai precisar de cerca de vinte professores, mas a oferta de profissionais é pequena. Então, estão sobrando vagas de emprego. Que tal aprender sueco e ser professor (a) na Suécia? As condições de trabalho lá são ótimas.

Mas não se iluda: trabalha-se muito para fazer jus aos bons salários que são pagos na educação. E com boa remuneração o professor só precisa se dedicar a uma só escola. E quanto à remuneração, ela não segue uma tabela, é negociada diretamente com o diretor da escola. Se o professor quiser um aumento tem que negociar diretamente com o chefe.

O currículo da educação infantil na Suécia é voltado para o desenvolvimento da criança a partir das suas necessidades. Ela se baseia nos valores democráticos e nos direitos humanos. Na escola é a criança que escolhe o que quer fazer. Por exemplo, na classe onde eu fiquei as crianças vão ao quarto de brinquedos e lá elas pegavam o que elas queriam. Eu brinquei com elas de massinha, com jogos educativos e até de boneca. O professor deixa a criança à vontade para fazer a atividade que ela achar mais apropriada naquele dia. Ele(a) não prepara as aulas, mas observa, registra e analisa o desenvolvimento de cada criança.

As atividades comuns a todos, as que têm horário específico, são basicamente a hora das refeições e de sair para brincar na parte externa da escola. Os pais sabem exatamente o que seus filhos estão fazendo. A escola documenta e coloca disponível no site da instituição tudo que é realizado durante as aulas, que são em tempo integral: manhã e tarde. Eu, por exemplo, cheguei às 7 horas da manhã e saí às 17 horas. 

E eu não fiquei só observando. Eu conversei com professores, procurei me informar de como a escola funcionava e passei horas brincando com crianças. Aliás, acho que nem com as sobrinhas, quando pequenas, eu brinquei tanto. E quase todos os brinquedos são educativos. As crianças na Suécia, desde pequenas gostam muito de brincar com Lego. E brincam mesmo. O filho do meu amigo, de quatro anos, praticamente constrói cidades com Lego. Esse tipo de brinquedo ajuda a desenvolver o raciocínio da criança. 

Também havia brinquedos que dependiam do conhecimento de cores, de formas geométricas e até matemáticas. Fiz amizade com uma menina de cinco anos que escolheu um desses jogos e me ensinou a jogar falando o nome das cores em inglês. Pois é, ela se comunicava comigo assim, sabia algumas palavras em inglês e usava comigo durante as brincadeiras. Surpreendentemente fofo.

A estrutura física da escola é incrível. Desde as áreas de convivência dos professores, que oferecem todo o conforto possível, com sofás, poltronas e espaços para leitura e descanso, até às salas de aula que, possuem vários ambientes. O refeitório é muito funcional e espaçoso.  As crianças têm várias opções de alimentos, fazem uma fila e vão ser servidas uma a uma. No dia que eu fui havia penne com azeitonas, salmão gratinado, batatas cozidas acompanhadas de molho tártaro, salada e ainda um prato vegetariano. As crianças se servem de água e de leite. O leite é retirado de uma máquina.

E as crianças literalmente se servem!
Modelo de babador que as crianças suecas usam na escola, de silicone e nylon. Nada de roupa ou refeitório sujos. 

A educação sueca é voltada para a autonomia do individuo desde a infância. Assim, as crianças que já conseguem, servem-se sozinhas. E esqueça os pratos e copos de metal ou plástico: é tudo de vidro. Os talheres são de metal: colher, garfo e faca. E elas estão tão acostumadas, que se levantam com aquele prato enorme nas mãos, e se servem novamente. Depois, cada uma recolhe seu prato, seus talheres e seu copo da mesa e coloca para lavar.  E acreditem: eu vi uma criança com dois anos incompletos fazendo tudo isso sozinha. Crianças pequenas usam um babador especial de silicone que não permite que elas sujem suas roupas enquanto comem.

Aliás, foi na hora de uma das refeições que eu tive a minha experiência mais cativante. À tarde as crianças já estavam acostumadas comigo e até já me incluíam nas suas brincadeiras. Fui até disputada por três delas, que se apossaram de mim na hora do lanche da tarde. No refeitório elas me conduziram para a mesa onde queriam que eu sentasse e, pasmem, um menino de quatro anos puxou a cadeira, fazendo cara de sério, para que eu sentasse. Derreti, é claro. Conto nos dedos as vezes que um homem foi tão delicado assim comigo. Pois é, aquele menino sapeca de cinco anos dá um banho em muito marmanjo.

Na classe em que eu fiquei havia uma sala ampla, onde as crianças brincavam, equipada com uma pequena cozinha, um quarto usando para brincadeiras, mas, especialmente, para o repouso dos menores após o almoço, um quarto para guardar os brinquedos e um ateliê, onde elas podem brincar com tintas. Ainda há um fraldário, todo equipado, e um banheiro, adaptado para crianças pequenas.  Caso uma criança acidentalmente suje a sua roupa, há uma lavanderia onde a roupa é lavada e colocada em um secador. Em questão de minutos tudo está resolvido.

A escola ainda é responsável pelo bem-estar da criança e deve manter o poder público informado caso note algo diferente em seu comportamento ou ela apresente marcas físicas de violência. Naquela semana, por exemplo, os professores tiveram uma palestra sobre abuso infantil, como forma de estarem preparados para lidar com este tipo de coisa, caso haja alguma desconfiança. Na Suécia o bem estar da criança deve ser garantido a todo custo.

Existe muito sigilo em torno das escolas e das crianças. As escolas não divulgam fotos das crianças e não permitem fotos no interior dos estabelecimentos, pelo menos não para visitantes. Uma das condições para que eu passasse o dia lá foi a promessa de que não divulgaria o nome da escola nem dos alunos, caso escrevesse sobre ela. A privacidade da criança é preservada. Mesmo no site da escola, fotos com crianças não mostram seus rostos e não trazem seus nomes, mesmo o acesso sendo permitido apenas para os pais dos alunos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

VALORIZANDO O AMBIENTE ESCOLAR: RELATO

Crianças e adolescente precisam de responsabilidade. Não importa se pequena ou grande: guardar os sapatos na sapateira, levar o lixo para fora de casa, lavar os copos  e as xícaras depois do café da manhã ou mesmo colocar papel higiênico no banheiro. Enfim, qualquer coisa que a criança de habitue a fazer desde pequena. Ajudar em casa faz bem para a criança. Ela se sente produtiva e se torna produtiva também na escola. 

A escola, por sua vez deve ver as crianças e os adolescentes como pessoas capazes de assumir responsabilidades. Dê um desafio a uma turma de alunos, a mais agitada da escola, diga que precisa deles, que eles são importantes para executar determinada tarefa. Você pode se surpreender com o resultado da experiência.

Esta semana eu fui designada para ficar em uma turma de sexto ano que não é minha (não leciono para o sexto ano). Não iria dar aula de História, claro, porque não sou a professora da turma, então dei a eles uma tarefa.

Alunos lendo e  alunos restaurando revistas!
Quem não ajudou, também não atrapalhou!
Fui com a turma para a Gibiteca da escola, inaugurada recentemente. Felizmente a Gibiteca é muito usada pelos alunos da escola. Infelizmente, tenho pouco tempo para reorganizá-la e consertar HQs que ficam danificadas pelo uso. Assim, a Gibiteca estava um pouco bagunçada e havia muitos quadrinhos a serem restaurados.  Pedi a eles que me ajudassem nestas duas tarefas. 

Acreditem, a princípio achei que eles iriam derrubar a sala mas não é que os danadinhos fizeram exatamente o que eu pedi? Em cerca de 40 minutos eles reorganizaram toda a Gibiteca e restauraram cerca de 30 revistas que estavam com capas rasgadas ou arrancadas. Nem todos se comprometeram, mas aqueles que não quiseram participar da arrumação também não atrapalharam. Ficaram sentados lendo HQs. 

Gibiteca após o furacão, digo, da arrumação! 
Quando a aula chegou ao final eu me deparei com uma Gibiteca tão bem organizada que fiquei até sem palavras. E o melhor de tudo: agora eles vão dar ainda mais valor para o espaço porque foi responsabilidade deles organizá-lo. Este sentimento, de ser responsável por algo, não vai embora facilmente. Garanto a vocês que esta turma estará sempre pronta a ajudar e participar de tudo que for feito naquela Gibiteca.

Fica aqui meu agradecimento à turma do sexto ano, sala 202, pelo excelente trabalho realizado!

Turma do sexto ano, 202, do Colégio Imaculada Conceição, posando depois da tarefa realizada.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Roda de conversa com alunos da Escola Conhecer

Com os alunos da Escola Conhecer
Recebi da coordenação da Escola Conhecer (Leopoldina – MG), o convite para um bate-papo com os alunos. O tema foi "Histórias em Quadrinhos". Eles queriam saber mais sobre a Gibiteca que temos na Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado.

Uma turminha muito animada e articulada. 

Fizeram muitas perguntas, e cheguei a ficar até meio enrolada para responder algumas. Eles se informaram sobre o tema e elaboraram uma série de questões objetivas. Foi uma turma de crianças bem heterogênea, com meninos e meninas de idades variadas e alunos com necessidades especiais. Todos harmoniosamente organizados.

Roda de bate papo com alunos da Escola Conhecer

A escola Conhecer faz um trabalho pedagógico diferenciado, baseado nas ideias e práticas do educador português José Pacheco, que revolucionou o ensino em Portugal, quando ao assumir a direção da Escola da Ponte, uma escola pública que recebia alunos com grandes dificuldades sociais, comportamentais e, claro, de aprendizagem, trocou o método tradicional de ensino por um alternativo. 

Ele acabou com turmas, salas de aula, disciplinas e passou a ensinar conforme a motivação dos alunos. Os estudantes passaram a se organizar para estudar os assuntos que lhes interessam. Aprenderam a ter autonomia, a pesquisar e eram avaliados apenas quando se sentiam preparados para isso.Os alunos se reúnem em assembleia e criam as regras de convivência. Estudam conteúdos necessários, mas estudam principalmente o que querem aprender. 
 
Alunos da Escola da Ponte se preparando para a Assembleia
O professor é um orientador dentro desse processo, que não exclui, que rompe com barreiras de aprendizagem e que ajuda a integrar o aluno à sociedade de forma que ele se torne um cidadão completo e competente naquilo que desejar fazer, na carreira que desejar seguir.

O resultado: uma das melhores experiência de ensino do mundo, uma escola onde todo mundo aprende, uma escola realmente inclusiva.

A coordenação da escola Conhecer abraçou a ideia e criou uma escola diferenciada. Eu já tinha ouvido muito falar da escola e hoje eu pude comprovar como esse trabalho realmente dá resultados pelo contato que tive com os alunos. Sai de lá com a alma lavada e pensando se, um dia, o nosso sistema vai poder usar esse modelo, se vamos ter coragem de romper com o ensino tradicional, que oprime tanto os alunos quanto os professores.

 Sugestão: palestra do professor José Pacheco, na UNISINOS



 
 

sábado, 17 de maio de 2014

O QUE FAZ UM PROFESSOR FELIZ?

Eu sei que a carreira do magistério é muito difícil. O professor passa por momentos de desânimo, o nosso salário não é lá grandes coisas se comparado a de outros profissionais, outras ocupações, mas tem suas compensações. Eu tinha uma professora que falava sempre que o magistério era uma vocação, uma entrega. Que o professor para realmente educar tem que se envolver com os alunos e com a escola. 

A gente sabe que, nos dias de hoje, esse envolvimento tem sido cada vez menor. Muitos jovens professores estão assumindo a carreira não por vocação, mas por falta de opção. Professores mais antigos, desgastados de desanimados, falam em abandonar o magistério, em se aposentar, acabam até adoecendo porque não se sentem motivados. E isso realmente é muito ruim, porque sem motivação, entrar numa sala de aula é realmente um suplício. Eu mesma, este ano, cheguei a deixar escapara em voz alta numa turma do oitavo ano a seguinte frase; "Eu não queria estar aqui!".

Pois é, nós temos nossos dias ruins, faz parte. Mas não podem ser todos. É sabido que não se consegue nada sem persistência e esforço. Assim, da mesma forma que naquele dia eu não estava com vontade de estar na sala de aula, vieram outros em que eu não queria estar fora dela. O magistério é assim, uns dias são bons, outros nem tanto.

Mas não é assim que é a vida?

Hoje eu estava refletindo sobre esta questão e comecei a pensar no que me faz feliz, como professora e como pessoa. Sim, como pessoa, porque não entendo quem diz que depois que sai da escola, deixa tudo para traz. O que eu faço é parte de mim, como posso simplesmente dividir minha vida?

Lembrei de um episódio ocorrido há uns dois ou três anos. Eu estava na minha escola municipal, estava me sentido mal fisicamente, mas tinha que trabalhar até o início da noite. Entrei numa sala do nono ano, eu me sentei e fiz a chamada. Um aluna veio à minha mesa e perguntou: 

- Professora, a senhora está passando mal?

Bom, não tinha como esconder, era visível, então eu confirmei. A aluna (Ingrid) então pegou o meu livro e disse:

- Então a senhora vai descansar, porque eu vou corrigir o dever e ninguém vai fazer bagunça. 

Foram 50 minutos de silêncio numa sala que geralmente era muito agitada. Eu me emociono com isso até hoje. É uma coisa que me faz feliz, que eu gosto de recordar quando estou começando a me sentir triste.

Em outro episódio, ano passado, eu estava em casa, sozinha, num fim de semana a noite. A campainha tocou. Levei um susto, não esperava ninguém. Eram seis ex-alunos, na faixa dos 15 anos. Eles foram me levar um pacote de amendoim doce, às 22 horas da noite. Estavam com saudades de mim. Resolveram ir me ver. Isso, com certeza me deixa feliz. Poder ter o carinho incondicional dos meus alunos. Que outro profissional tem isso?

E por fim, o motivo que me levou a esta breve reflexão. Ontem eu dei uma prova na escola onde eu leciono pela manhã. Os resultados não têm sido muito bons. Dar aulas em algumas turmas têm sido muito difícil. Muita conversa, falta de interesse e as notas vêm refletindo isso. Só que desta vez, foi diferente. Eu corrigi as provas logo após tê-las aplicado. Cerca de 40% dos alunos praticamente fecharam a avaliação. No total, o êxito das minhas três turmas foi de 95%. Quase não acreditei. 

Isso me fez muito feliz. Não a nota em si, mas saber que eles tiveram interesse em estudar, que se esforçaram para aprender e entender uma matéria que não é lá das mais fáceis. Mas o que me fez mesmo feliz foi a felicidade desses meninos e meninas que estão aprendendo que se esforçar pode trazer uma satisfação muito grande. Aprenderam que não existe o mais ou o menos inteligente, mas aqueles que estão determinados a vencer. Isso me fez feliz, a felicidade deles.


Então, mesmo sabendo que vão haver dias em que eu talvez pense ou fale "Não queria estar aqui", nesses dias eu vou me recordar do pacote de amendoim que eu ganhei no meio da noite, da aluna que se compadeceu de mim e tentou tornar meu dia menos penoso e da alegria daqueles alunos que se encheram de felicidade com o resultado de uma avaliação e comemoraram sua vitória como um atleta olímpico comemora uma medalha de ouro. Essas pequenas memórias sempre vão me fazer uma professora feliz.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

CAMPANHA PELA PAZ NA ESCOLA

Em meio a inúmeras notícias de agressões contra professores em todo o país, o Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais (Sinpro Minas), que representa a categoria nas escolas privadas do estado, lança a Campanha pela Paz nas Escolas.  

A campanha tem o objetivo de ampliar o debate e a conscientização de professores, pais, alunos, gestores, poder público e toda a sociedade sobre as causas e conseqüências acerca da violência nas escolas. O tema é complexo e não há soluções prontas, mas o diálogo e ações efetivas podem apontar caminhos.

Ao cumprir o seu papel em defesa dos professores e de uma educação de qualidade, o Sinpro Minas promoveu algumas ações como a realização de uma pesquisa sobre o tema e a criação de um serviço de disque-denúncia (0800 7703035).

Conheça a campanha clicando aqui!