No último ano eu me aproximei da Hallyu (Onda Coreana)
por meio dos k-dramas e, depois pelos quadrinhos. O que é algo natural para
mim, e quem acompanha o blog já percebeu. Gosto de conhecer outras culturas,
especialmente pelas suas expressões artístico-narrativas, pois elas sempre me
conduzem a questionamentos e indagações.
Foi assim quando comecei a estudar quadrinhos
estadunidenses da primeira metade do século XX, para o mestrado, e está sendo
assim com quadrinhos franceses no doutorado. Paralelamente, sou fascinada pelos
estilo sueco de fazer quadrinhos, por exemplo e quero me aprofundar mais mais além dois artigos que já escrevi e penso neles potencialmente como um tema para pós-doutorado. Mas eu ainda não tinha tido interesse pela
produção do leste asiático, mesmo tendo muitos amigos leitores e pesquisadores, que produzem
um ótimos material sobre o assunto. Assumo que nunca fui leitora de mangá, por
exemplo, apesar de apreciar o traço de muitos artistas, mas só na última semana eu comprei dois, por conta de temas que emergiram em k-dramas que assisti recentemente.
O contato com a produção sul-coreana mudou minha perspectiva e me fez querer saber mais sobre o oriente. Achei a história da Coreia muito interessante, e a forma como o país se construiu, sua cultura e as relações de gênero desafiaram minha curisosidade. E isso se deve essecialmente ao contato com a cultura de massa sul coreana. Primeiro,
eu me surpreendi com a qualidade da produção para a televisão e,
posteriormente, para o cinema. Em seguida eu percebi que a produção para a
televisão, os chamados k-dramas, não apenas dialogava muito com a linguagem dos
quadrinhos como, também, se apropriava deles de uma forma que não vejo acontecer
no contexto ocidental.
Foi assim que cheguei aos manhwas (quadrinhos coreanos) e sua forma mais popular, os webtoons. Dando uma explicação rápida,
os webtoons são um formato de
quadrinhos digitais muito populares na Coreia do Sul, consumidos em grande
quantidade por pessoas de todas as idades. Lá se desenvolveu o que se chama de snack culture, uma forma de cultura que
pode ser consumida em poucos minutos, por meio dos
smartphones. Há de tudo, k-dramas com episódios de 5 a 10 minutos, webtoons em
capítulos, romances em fascículos. Todos são postados periodicamente e, aos
poucos, o leitor vai conseguindo acompanhar sua série preferida enquanto toma
um café, está no metrô ou no ônibus. Ideal para uma sociedade na qual quase não
há tempo para o lazer.
Uma sociedade movida pela necessidade de trabalhar cada vez mais. O sucesso na carreira não e possível a todos e existe
uma discriminação muito grande para com aqueles que não são bem sucedidos. Vem daí
a cobrança enorme sobre os jovens, que quase não possuem tempo para se divertir,
debruçados em cima dos bancos escolares, estudando nos fins de semana. Até porque não basta apenas entrar em uma
universidade, mas sim numa das três mais prestigiadas, Seoul, Korea e Yonsei,
apelidadas de “Sky”.
Para o psicólogo Kim Tae-hyung, que trabalha em
Seul, as crianças coreanas estão "crescendo sozinhas, estudando
sozinhas". "Elas são forçadas a estudarem muito e competirem com seus
amigos. Esse tipo de isolamento pode causar depressão e pode ser um grande
fator para suicídio."
No mundo todo, suicídio é a segunda causa de
morte entre pessoas jovens, mas na Coreia do Sul é a causa número um e morte de
jovens entre 10 e 30 anos.
O país também tem os maiores níveis de estresse
entre jovens entre 11 e 15, em comparação com qualquer outro país
industrializado do mundo, segundo a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE).[2]
Os adultos, por sua vez, são forçados a se dedicar
quase que inteiramente ao trabalho, até idade avançada, uma vez que o sistema
previdenciário do país é insuficiente para garantir seu sustendo durante a
terceira idade. Por conta de tanta pressão social, o consumo de álcool na
Coreia do Sul duas vezes maior do que o da Rússia e o índice de suicídios naquele
país e um dos mais elevados do mundo, o maior entre os países em desenvolvimento.
E isso aparece constantemente representado seja nos k-dramas, seja nos manhwa.
Coreia do Sul, com 29,1 casos a cada 100 mil
habitantes em 2012, é a nação desenvolvida com mais suicídios, segundo dados
publicados este mês pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico (OCDE). O país ocupa o 1º lugar pelo nono ano consecutivo, muito
acima do segundo, a Hungria, com 19,4 casos a cada 100 mil habitantes. À margem
do "clube oficial dos países ricos" só a Lituânia supera a Coreia do
Sul. O país europeu tem 31 casos a cada 100 mil, conforme dados de 2012. Mais
de 14 mil pessoas se suicidam anualmente na Coreia do Sul e a incidência dobra
na terceira idade, revelando o lado mais cruel de um país entregue ao
desenvolvimento, ao dinheiro e à honra.[3]
Nos k-dramas e nos manhwas há referências
constantes ao suicídio. Personagens que tiram sua vida por não aguentarem a
pressão social, personagens que pensam em se matar pelo menos uma vez durante a
trama. O rapaz que não aguenta a pressão da família que cobra dele o ingresso
em uma boa universidade ou que passe em um concurso público; a moça que sofre
com excesso de trabalho e assédio no emprego; o rapaz que perdeu os movimento
das pernas em um acidente e se sente um pária numa sociedade que exige que
todos sejam produtivos; o idoso abandonado pelos filhos e que não possuí meios
de se sustentar. A pobreza de uma parcela significativa da sociedade, que vive
de subempregos.
Efeitos nocivos em uma sociedade que abraçou o
neoliberalismo e é uma das mais globalizadas do mundo, e que podem ser
percebidos nos produções midiáticas que, apesar dos clichês básicos e
necessários para prender a audiência, trazem representações sociais que podem
ajudar a refletir acerca de temas que nos são comuns.
Por ser a quarta maior causa de mortes nos país, a
prática do suicídio encontrou o caminho da naturalização. O que se procura
atualmente é buscar suas causas e tentar combate-las, o que não necessariamente
é fácil, num país no qual ele se tornou uma questão de saúde pública, levando o Estado a tomar medidas preventivas e até restringir a venda de pesticidas, por exemplo, usados principalmente pelas mulheres que querem se suicidar.
O debate sobre o tema ganhou ainda mais destaque quando
ídolos da Hallyu começaram a morrer
quase que seguidamente. Jovens atores e cantores que tiraram suas vidas em meio
ao sucesso por não suportarem as pressões do trabalho e da sociedade. Pressões estas,
aliás, que são constantemente abordadas em webtoons e k-dramas nos quais os
protagonistas são ídolos da música ou da televisão.
“À medida que a imprensa internacional presta
mais atenção ao que está por detrás deste género musical, mais se descobre:
dietas rigorosas, cirurgias plásticas, contratos severos, subornos, assédio e
muitas horas de trabalho são algumas das difíceis condições da indústria K-pop
já antes relatadas.”[4]
Os webtoons e os k-dramas acabam e tornando espaços para denuncia e combate, por exemplo, do suicídio, quando questionam o “por que?” ou quando buscam passar uma mensagem de encorajamento.nA denúncia constante de abusos estão presentes nos manhwas e nos k-dramas. No Netflix, por
exemplo, o k-drama adaptado de um webtoon,
“Cheese in the trap”(2016), mostra as dificuldades de uma jovem de origem pobre em
uma universidade, vítima da pressão social e bullying. Mystic Pop Up Bar (2020), também
adaptado de um webtoon, tem como protagonista é uma mulher que cometeu suicídio
e por determinação divina deveria voltar à terra e ajudar a curar as almas de
100 mil pessoas que acumulavam mágoas.
Em uma outra produção, que leva os quadrinhos
para o k-drama por meio de apropriação de linguabem, “W: Two Worlds”(2016), temos um cartunista
mergulhando na depressão e no alcoolismo cujo pensamento está o tempo todo
voltado para a morte, como única solução para seus problemas. Um dos grandes sucessos do cinema sul coreano, também adaptado de um webtoon, Along with the gods: two worlds (2017), por exemplo, apresenta um personagem que está sob vigilância por risco de suicídio, durante o período do serviço miltar obrigatório no país.

Assim como esses, há tantos outros exemplos que a
cultura de massas nos oferece e que ajuda a levantar questões acerca de qual
sociedade estamos criando e qual sociedade realmente precisamos ter. Mesmo que
o caso sul coreano seja ímpar, e preciso lembrar que os problema é global e
que, apensar das diferenças culturais, as causas muitas vezes são as mesmas.
Tendo sido criada para ser um produto de consumo a cultura de massas extrapola
seus objetivos originais uma vez que acaba assumindo o papel de atender às
demandas sociais. Denunciar situações abusivas, corrupção política, misoginia,
racismo e tantos outros injustiças passou a der o pano de fundo de muitas tramas,
de músicas e da arte que, à sua maneira, se apresentam canais de conscientização
e de reflexão.
Embora o modelo coreano não seja global, é a tendência
do neoliberalismo priorizar o trabalho e produção. As pessoas passam a ser muito
mais valorizadas pelo que são capazes de oferecer e termos produtivos do que necessariamente
sociais, assim como cresce a falta de empatia e o distanciamento entre as pessoas.
É preciso refletir a forma como esse modelo pode ser perverso e de como ele tem ganhado espaço e aumento ainda mais as diferenças entre as pessoas. Em tempos
de pandemia, a falta e empatia parece ganhar novos contornos e maior
destaque, uma vez que para uma significativa parcela da sociedade global, o dinheiro
tem tido prioridade sobre a vida. Estamos encarando a morrte cada vez com mais naturidade. Não que ela não seja natural. Mas não é natural alguém pensar em tirar a vida com apena 11 anos de idade, ou um idoso achar que sua vida vale menos do que a de um jovem, ou um empresário e membros de um governo afirmar que a morte por covid-19 é invitave e, bem, vamos nos confomar. A falta de empatia com o sofrimento alheio não tem nada de normal.