quinta-feira, 23 de setembro de 2021

GUERRA FRIA EM CHARGES: A GUERRA DA COREIA NAS PÁGINAS DA GAZETA DE LEOPOLDINA

Usei charges do jornal local, a Gazeta de Leopoldina, para trabalhar com questões relacionados ao uso da imagem durante a Guerra Fria, com destaque para a Guerra da Coreia. Confira o resumo:


Nesse trabalho fez-se uma análise do discurso contido no periódico “A Gazeta de Leopoldina”, jornal do município de Leopoldina em Minas Gerais. O período analisado corresponde ao ano de 1951, quando o jornal publicou uma série de charges sobre a Guerra da Coreia, com viés anticomunista. O objetivo é demonstrar como o jornal pode ser utilizado, tanto como fonte de pesquisa, quanto como recurso didático para se estudar determinados períodos da história. Metodologicamente, optou-se pela análise do conteúdo a fim de identificar a orientação ideológica do periódico. Buscou-se conceitualizar a charge, como arte gráfica e meio de expressão, inserindo-a nos campos da política e da ideologia. Em seguida, foram apresentados, exemplos de como ela foi utilizada como forma de propaganda comunista e anticomunista ao longo do século XX. Por fim, partiu-se para o foco principal do estudo, que é a análise das charges publicadas, com a preocupação de se apresentar tanto o contexto histórico geral, quanto efetuar uma análise do conteúdo publicado neste periódico, aliado aos interesses dos grupos aos quais ele atendia”.

 

O texto possuí versão em inglês e espanhol. Para ler o texto na íntegra, clique aqui!


Sobra Revista Cajueiro

A Revista Cajueiro foi criada no âmbito das ações do PLENA - GRUPO DE PESQUISA EM LEITURA, ESCRITA E NARRATIVA: Cultura, Mediação, Apresentação Gráfica, Editoração, Manifestações. Sua missão primordial é a disseminação de pesquisas, ações, políticas, boas práticas, além do debate de ideias sobre a formação de leitores e a cultura da leitura no Brasil, com ênfase na Ciência da Informação.

 

Seu objetivo principal é agregar conhecimento à Ciência da Informação e áreas afins, contextualizando socialmente os conteúdos e também estabelecendo o debate e a aproximação da academia com a sociedade e seus segmentos, as profissões voltadas para a formação do leitor e a produção de leituras.

 

O público-alvo da Revista Cajueiro é formado pelos pesquisadores acadêmicos, docentes, bibliotecários, documentalistas, arquivistas, profissionais da informação, gestores e dirigentes de sistemas e unidades de informação (Bibliotecas, Gibitecas, Arquivos, Pontos de Leitura, Centros Culturais), editores, assim como professores, educadores, terapeutas da leitura, contadores de histórias, e lideranças sociais e políticas vinculadas a disseminação de práticas leitoras e ao fortalecimento da cultura da leitura.

 

Os temas em vista para a publicação na Revista Cajueiro são: Documentação e Gestão da Informação; Formação do Leitor e Cultura da Leitura; História e Cultura Editorial; Leitura Pública e Políticas de Leitura; Mediação de Leitura e Letramento; Narrativa Sequencial Gráfica em análise; Narrativa Sequencial Gráfica em Exposição; Temática Interdisciplinar em Ciência da Informação.

 


terça-feira, 14 de setembro de 2021

TRABALHADORAS INVISÍVEIS: MULHERES QUADRINISTAS E OS SILÊNCIOS DA HISTÓRIA


Produzi esse texto em parceria com a querida amiga Valéria Fernandes da Silva, para o 31º Simpósio Nacional de História da ANPUH. O encontro ocorreu em julho deste ano (2021) e foi publicado  este mês, em formato eletrônico. Nele estamos falando sobre a história de mulheres quadrinistas, cuja memória vem sendo revisitada. Os desafios, os obstáculos que muitas delas encontraram ao longo da profissão, não apenas por serem mulheres mais, também, pelo fato de ser quadrinista nem sempre foi considerada uma atividade digna de status. Segue o resumo do artigo.

Resumo: Quando nos dedicamos a falar das mulheres quadrinistas, normalmente, nos deparamos com grandes silêncios que sugerem que elas não existiam, ou não produziram nada que merecesse figurar nos livros de História. Este tipo de discurso foi produzido e reproduzido ao longo dos anos e reforçada tanto por intelectuais, especializados nos estudos sobre quadrinhos, quanto pelos fãs e os meios de comunicação. Vez ou outra, algumas mulheres conseguiram romper essa barreira, somente para terem sua obra celebrada como exceção ou escrutinada a partir de critérios estabelecidos para validar a obra de autores masculinos. Consideradas excepcionais, elas não podiam servir, portanto, de modelo para as outras mulheres. Dentro das narrativas sobre a História das histórias de quadrinhos, constituiu-se como uma verdade que a profissão é masculina e que as mulheres no Ocidente não seriam nem produtoras, nem consumidoras de quadrinhos. As discriminações e omissões decorrentes do gênero, isto é, dos papéis atribuídos à homens e mulheres em uma dada sociedade historicamente determinada, vem sendo muito estudadas nos últimos anos. Vários estudiosas colocaram abaixo muitas das teorias que, por exemplo, relacionavam a suposta inferioridade biológica e intelectual das mulheres com reação aos homens. Outras demostraram que os papeis sociais outrora naturalizados foram socialmente construídos. O objetivo desse trabalho é abordar, utilizando-se das discussões feministas e do campo dos estudos de gênero, este aspecto da História dos Quadrinhos, mas ir um pouco além, a partir das falas de algumas autoras e sobre elas mesmas, é possível perceber outro fator de exclusão: a carreira de quadrinista não era vista digna de ser perseguido por um artista sério, mas, especialmente, em tempos de crise econômica, ou de guerra, era um trabalho temporário que deveria ser superado tão logo fosse possível. Em nosso trabalho, pretendemos resgatar as falas de mulheres quadrinistas que enfrentaram uma barreira a mais para produzirem seus quadrinhos e como as formas de literatura vistas como populares eram consideradas inferiores e mesmo perniciosas para a juventude até por seus próprios autores. Acreditamos que os quadrinhos sejam não apenas um lugar de fala mas, também, um lugar de memória dessas mulheres e que, a partir de sua trajetória podemos compor um quadro mais amplo no qual temos não apenas a possibilidade de analisar relações de gênero mais de identificar pontos relevantes para a construção de uma história das mulheres nas artes gráficas, um campo que por muito tempo foi monopolizado pelos homens.  

Caso alguém se interesse, clique aqui para ler o texto na íntegra.

Como citar esse texto:

SILVA, Valéria Fernandes da, NOGUEIRA, Natania Aparecida da Silva. Trabalhadoras invisíveis: mulheres quadrinistas e os silêncios da História. Anais do 31° Simpósio Nacional de História [livro eletrônico] : história, verdade e tecnologia /organização Márcia Maria Menendes Motta. -- 1. ed. --São Paulo : ANPUH-Brasil, 2021.

sábado, 11 de setembro de 2021

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE A HQ "PELE DE HOMEM"


Eu me sinto incomodada quando as pessoas falam de  forma generalizante que os homens não entendem as mulheres. Quais homens? Quais mulheres? 

Começo o meu texto com essa provocação depois de me deliciar com a leitura de "Pele de Homem"(2020), uma HQ aclamada e que tem acumulado não apenas elogios como, também, prêmios. Essa HQ foi roteirizada por Hubert Boulard, ou apenas Hubert, que nos deixou em 2020, aos 49 anos de idade. A ilustração e as cores ficaram a cargo de Zanzim, pseudônimo de Frédéric Leutelier.

Dois homens que souberam colocar em imagem e texto os dilemas enfrentados por uma mulher que vive em uma cidade italiana, no período do renascentista. A HQ levanta diversas questões, que vão dos papeis de gênero impostos a homens e mulheres ao fanatismo religioso e à homoafetividade. 

"Pele de Homem" narra a história de Bianca, uma mulher que recebe como herança de família uma pele de homem. Ao vesti-la ela realmente se torna um homem, com músculos mais forte e sendo inclusive capaz de ter um relacionamento sexual. Bianca quer entender o mundo dos homens, conhecer o seu futuro marido e, por tabela, acaba se descobrindo enquanto mulher. 

Uma HQ que valoriza as mulheres, reivindica respeito e explora o mundo dos homens a partir de uma perspectiva feminina. Pois é, e essa HQ foi escrita por dois homens. Intrigante, não? Talvez não tanto. Há homens plurais, assim como mulheres plurais, por isso sempre evitamos usar o singular para nos referirmos a um e outro. 

Há homens que conseguem se colocar nos lugar das mulheres e o fazem muito bem. É o caso dessa HQ que, surpreendentemente nos brinda com uma história de empoderamento, quando uma mulher se torna um homem numa sociedade fechada para as mulheres e a revoluciona. 

Mas se a pele é de homem, a mente, as ações e as ideias são de Bianca, se descobre como mulher. Isso não porque pode se disfarçar de homem, mas porque é capaz de identificar os mecanismos de dominação que colocam as mulheres como seres inferiores e se recusa a se curvar a eles.

Enfim, um obra muito bonita, tanto pelo traço delicado quando pela profundidade do texto.  Pele de Homem foi publicada em português e é um excelente leitura, tanto para homens quando para mulheres.

domingo, 5 de setembro de 2021

QUADRINHO E MEMÓRIA: OUVINDO A VOZ DAS MULHERES

Tornei-me admiradora dos quadrinhos de Keum Suk Gendry-Kim quando li “Grama”, primeira HQ da autora sul-coreana a ser publicado no Brasil Agora reafirmo minha admiração após ler "A Espera", HQ publicada recentemente no Brasil. Keum Suk Gendry-Kim trabalha com memórias, a partir das quais cria obras de ficção. Uma ficção que traz uma base sólida, pois é criada a partir de entrevistas e de pesquisas. Umberto Eco afirma que a ficção só se constrói a partir da realidade, nada mais certo e que pode ser comprovado em "A Espera". 

Nesta obra, Keum Suk Gendry-Kim escreve sobre a guerra da Coreia a partir dos relatos de pessoas que foram separadas de suas famílias, no início da década de 1950. A autora faz um levantamento histórico que permite a nós, leigos na história do leste asiático, contextualizarmos o período que vai da Segunda Guerra à guerra da Coreia. Ela faz essa contextualização ao introduzir o testemunho de quem vivenciou esses eventos, por meio de personagens ficcionais baseados em pessoas reais. Uma ficção se que se constrói a partir da memória individual e coletiva.

É uma obra que traz uma fluidez da narrativa que permite ao leitor uma leitura prazerosa, ao mesmo tempo que aborda com sensibilidade tema delicados, como o caso da separação das famílias. Outro ponto que me agrada muito, é o fato da autora se auto representar, na forma de Jina, filha caçula da protagonista, Gwija, uma senhora de 90 anos que foi separada do marido e do filho quando fugiam da guerra. Ao se colocar na narrativa a autora faz o papel de mediadora e cria uma dinâmica única na qual histórias são introduzidas e contadas. 

Ao contrário de “Grama”, quando ela não está apenas pesquisando e colhendo informações e memórias de sobreviventes. Em “A Espera” a autora está também contando a própria história, uma vez que sua mãe também passou pela mesma situação. A autora é parte de uma das famílias que foram separadas e coloca na HQ relatos que colheu no seio familiar. Sendo assim, “A Espera” traz também a escrita de si, uma vez que a autora também vivenciou a questão central, que a separação das famílias e a espera pelo reencontro.

Keum Suk Gendry-Kim dá oportunidade para mulheres contarem a história a partir de um ponto de vista diferente dos homens, assim como fez em Grama. Elas falam do casamento, da maternidade e das dificuldades de ser mulher numa sociedade na qual elas não possuíam espaço para expressão. A obra traz um raio-x do patriarcado coreano, nas décadas de 1940 e 1950, que em muitos pontos se assemelha à realidade das mulheres do Ocidente, que só veio a conhecer mudanças significativas a partir do movimento feminina.

Eu poderia escrever várias páginas sobre essa HQ, e pretendo fazê-lo em breve, mas vou finalizar recomendando fortemente a obra para quem gosta de um quadrinho de ficção que trata de temas sensíveis e que revisita e conta a história de forma clara e comprometida.

sábado, 12 de junho de 2021

EXPERIÊNCIA TRABALHANDO COM O CANVA NA SALA DE AULA

HQ produzida pela aluna Gabrielly, para o projeto interdisciplinar sobre Meio Ambiente.

Há cerca de duas semana eu participei de uma oficina ministrada por Vanuza Durães, mestre em Educação Matemática Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, durante o V Entre ASPAS: O Canva como aliado nos processos de ensino e aprendizado nas produções de HQs. A oficina ensinava a usar o Canva, uma plataforma de design gráfico que possibilita criar uma séria de mídias para serem utilizadas na internet e fora dela, também.

É um verdadeiro paraíso para professores, porque tem basicamente tudo que a gente precisa e coisas que nem sabemos que existe. Só para dar alguns exemplos, no Canva para professores, tem desde templates a modelos de cartazes, designers para tabelas de horário, sugestões de atividades em inglês, matemática, português, que podem ser modificadas e adaptadas, fora a possibilidade de criação de turmas com os alunos. Eu não daria conta de listar tudo até porque eu ainda não explorei todos os recursos, longe disso.

Para a versão do professor, é preciso fazer um registro, comprovando que você trabalha com educação. O registro permite que o professor tenha acesso a muitos recursos de forma gratuita. Exista a versão paga, para aqueles que querem usar o programa com tudo que ele tem para oferecer. A versão gratuita é mais simples e com muitas limitações, principalmente de edição.

Canva para professores
Antes de fazer a oficina eu usava o Canva para produzir alguns logos ou figuras para ilustrar alguma atividade. Mas depois da oficina eu me dei conta de que não cheguei nem perto de usar o programa em todos o seu potencial. Por exemplo, eu não sabia que poderia fazer histórias em quadrinhos utilizando o Canva.

De repente eu me vi diante de uma infinidade de modelos de quadrinhos, assim como de imagens disponíveis para uso, sem preocupação com direitos autorais, além de diversos elementos que podem ser utilizados para compor HQs, das mais curtas às mais longas. Há, também, ainda a possibilidade de upload de imagens.

Esta semana eu resolvi fazer uma experiência e montei algumas HQs com os alunos para um projeto interdisciplinar sobre meio ambiente que a escola está fazendo. Teve quem duvidasse que eu conseguiria. Isso porque os alunos da escola na qual leciono não possuem recursos além do celular e nem sempre podem baixar aplicativos (quase nunca) por conta do espaço da memória. Então, partimos para uma atividade coletiva.

Algumas opções de modelos de quadrinhos que o Canva oferece.
Como assim?

Usei o google meet para reunir 12 alunos de uma das minhas salas de 8º ano e apresentei o Canva para eles, junto com a proposta de criar tirinhas. Mostrei as opções que o programa possuía. Eles foram selecionados os modelos que acharam mais interessantes e pensando nos temas que poderiam usar. Em duas aulas, produzimos 8 tirinhas, sendo que o mais interessante foi a participação. 

Quando um aluno estava montando a sua, junto comigo (escolhendo personagens, elementos e ditando os diálogos), outros alunos davam sugestões e sugerindo como o quadrinho do (a) colega poderia ficar melhor. Eu simplesmente ia seguindo as orientações e minha interferência foi mínima. Nem precisei me preocupar com a disciplina, eles mesmo interrompiam algum(a) colega que por alguma razão desviasse a atenção de quem estava montando sua HQ.

O aluno pode mudar o cenário, acrescentar ou retirar elementos e escolher os personagens que vai querer usar na sua HQ.

Melhor que o produto foi a reação dos alunos. Segundo eles, se os professores estivessem com eles juntos para fazerem as atividades, seria bem melhor. Além disso, foi realmente uma atividade em equipe, na qual os colegas foram encorajando uns aos outros e ajudando quando havia alguma dificuldade. Algo do tipo é difícil de conseguir mesmo em sala de aula.

Por fim, achei que seria interessante colocar aqui a minha experiência e recomendo o uso do Canva para fins pedagógicos. Não apenas para o professor criar material como, também, para os alunos terem outras opções de trabalhar o conteúdo. Eu pretendo usar o Canva como alunos da rede particular, que possuem computador e recursos para poderem montar sozinhos suas HQs, mas essa experiência de produção, envolvendo a participação do grupo, é fundamental. Tanto que, antes de partir para a criação autoral eu quero montar junto com o grupo uma HQ coletiva justamente para poder experimentar esse momento de inteiração e participação.

sábado, 1 de maio de 2021

COMO UMA BORBOLETA: COMENTANDO NAVILLERA

 

Navillera (나빌레라), cuja tradução par ao português seria “Como uma borboleta”, é um k-drama que estreou em março no Netflix, e teve seu fim na última semana de abril. Com apenas 12 episódios, de aproximadamente uma hora cada, Navillera foi adaptada de um webtoon, de grande sucesso, que conta a história de um homem que, aos 70 anos de idade, resolve fazer balé. Acompanhei a série pontualmente, todas as segundas e terças, e fiquei hipnotizada com a história, que foge do padrão em vários sentidos.

Não é uma comédia romântica, está mais para uma história de amizade e que foca, também nos conflitos entre pais e filhos. A narrativa é fluida, sensível, colocando em cena problemas comuns relacionados tanto aos jovens, como os desafios que enfrentam no mercado de trabalho, suas dúvidas e angustias com relação ao futuro. Por outro lado, ela fala sobre os desafios que também são enfrentados pelos idosos, suas relações familiares, o preconceito e, também, a forma como problemas de saúde afetam tanto a eles quanto às pessoas que os cercam.

Imagem retirada do webtoon, capítulo 1.
É uma história singela, que prende o expectador do início ao fim, e que foge dos padrões e dos clichês que normalmente encontramos nos quadrinhos e nos seriados. É literalmente um programa para toda a família. Se eu ainda tivesse avós vivos eu assistiria com eles e tenho certeza que eles iriam se divertir. Eu realmente não consigo apontar defeitos e só tenho elogios aos atores, todos sem exceção, dos protagonistas aos coadjuvantes. Mas não tem como deixar de destacar os meus favoritos.

Para começar eu me apaixonei pela atuação de Park In-hwan, ator de 76 anos, que iniciou sua carreira em 1965, tendo atuado em dezenas de produções no cinema, na TV e no teatro. Em Navillera ele é Shim Deok-chul, um carteiro aposentado que resolve aprender balé, um sonho que tinha desde a infância, mas que nunca pode realizar. Primeiro, porque a família não apoiava, segundo, porque não possuía condições financeiras para isso. 

Imagem capturada em: https://revistakoreain.com.br/2021/03/k-drama-navillera-quebra-padroes-e-promete-emocionar/

Um homem que trabalhou muito e passou por muitas dificuldades para criar os três filhos. O retrato do homem comum sul-coreano, que tem uma vida laboriosa e que, após 40 anos de trabalho, se resigna com uma vida pacata de aposentado. Só que no caso desse personagem não vai ser assim, ele corre atrás dos sonhos perdidos, mesmo com toda dificuldade, e mostra que a velhice não é o fim.

Meu segundo personagem preferido é a esposa de Shim Deok-chul, Choi Hae-nam, interpretada pela magnífica atriz Na Moon-hee, de 80 anos de idade. Essa atriz maravilhosa simplesmente roubou o meu coração com sua atuação em Navillera. Ela é o retrato da mãe zelosa, mas é também a esposa parceira, que vai apoiar os sonhos do marido. 

Aliás, a relação dos dois, como casal, é muito harmoniosa e marcada pelo respeito mútuo. Para além do amor, está o companheirismo e a amizade construída pelos anos de convivência. E o casamento aqui não é apresentado como um conto de fadas. Na verdade, o drama deixa bem claro como pode ser difícil construir e manter uma família unida.

Imagem capturada em: https://revistakoreain.com.br/2021/03/k-drama-navillera-quebra-padroes-e-promete-emocionar/

Por fim, eu tiro o chapéu para o jovem ator Song Kang, que interpreta Lee Chae-rok, um talentoso dançarino de 23 anos, que começou a fazer balé aos 19 anos, seguindo os passos da mãe, que era dançarina e que havia morrido há alguns anos. Ele está vivendo uma crise, com o pai preso, sem dinheiro e quase desistindo do balé. É aí que ele conhece Deok-chul, e um acaba mudando a vida do outro.

A relação entre os personagens vai sendo construída a cada episódio e é umas das coisas mais bonitas da série. Um passa a apoiar o outro e Deok-chul devolve a Lee Chae-rok não apenas a esperança mais o sentimento de pertencer a uma família.  Eles, claro, aprenderam alguns movimentos de balé, mas, logicamente, precisaram de dublês para executar movimentos mais complexos. Neste momento, entraram os recursos de câmera e luz que possibilitaram que a performance dos protagonistas fosse o mais real possível.

Imagem Capturada em: https://www.elfolivre.com.br/2021/03/navillera-netflix.html

Se eu escrever mais vou acabar dando spoillers, por isso vou encerrar recomendando novamente a série e deixando aqui o link (clique aqui), para quem quiser conferir o webtoon (em inglês).

quinta-feira, 22 de abril de 2021

CASO DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO SÉCULO XIX

Lá pelos idos de 1998, quando eu estava ainda começando a me aventurar para além de estudos sobre história da educação e história local, umas das coisas que mais me chamavam atenção quando fazia pesquisas em arquivos em Juiz de Fora eram as notícias relacionadas a crimes e acidentes envolvendo mulheres e crianças. Eu, na época lia e analisava processo processos de divórcio do início da República e Jornais publicados em Juiz de Fora como o Jornal do Commercio (meu preferido) e o Pharol. 

Numa dessas acabei produzindo alguns artigos sobre violência contra a mulher e sobre família no período da Primeira República, que era normalmente meu recorte temporal. Apenas muito tempo depois eu me afastei desse período e comecei a me interessar por História Internacional e História Cultural. Na realidade eu poderia afirmar que meu interesse pela História das Mulheres e pelo privado nasceu dessas primeiras pesquisas, que eu ainda quero retomar, mais de duas décadas depois, assim que eu concluir minha tese de doutorado. 

Mas porque estou falando sobre isso?

Eu tenho assistido como ouvinte aulas da minha orientadora do doutorado, Mary Del Priore. Numas dessas aulas ela nos brindou com o fragmento de um de seus livros mais recentes, "Sobreviventes e  Guerreiras", no qual ela transcreve um trecho de um processo que dá sentença de "capadura"(castração) a um agressor sexual, em Sergipe, no ano de 1833. Segundo ela, um caso raro para época, na qual a justiça raramente condenava agressores. 

Mas o que lei do império determinava?

 

Segundo a pesquisadora Naiara Machado, o “No Código Criminal do Império (1830) o estupro contra mulher honesta era previsto e as penas eram de prisão e pagamento de um dote a vítima. Porém, se a vítima fosse prostituta a pena de prisão de 3 a 12 anos seria reduzida para 1mês a 2 anos. Contudo, não se aplicava pena para aquele que se casasse com a ofendida”. Ou seja, era considerado um crime menor e cuja punição variava de acordo com o status da mulher. 

Se a mulher fosse “honesta”, o estuprador recebia uma determinada punição; se a vítima fosse uma profissional do sexo, esta punição era bem menor, se ocorresse. Além disso, a vítima ainda corria o risco de ser obrigada a casar com o agressor. Dois anos depois, uma mudança no código não trouxe uma punição mais severa, acrescendo-se aí pena de trabalhos forçados ao autor do crime, com um agravante se a ofendida fosse menor de 15 anos.

A legislação em si projeta o pensamento da época no qual as mulheres eram subvalorizadas e seu corpo considerado uma propriedade para os homens, pensamento ainda muito presente na atualidade. Mas esse fato faz do processo acima descrito ainda mais singular, uma vez que a pena para réu vai muito além daquilo que a lei determina, o que sinaliza para um outro tipo de comportamento, que destoa da regra geral da época.

Além disso, texto é muito divertido, uma vez que o vocabulário da época traz alguns termos bem interessantes para descrever determinadas ações. Por exemplo, palavras cujo significado eu não consegui encontrar em dicionários como "abrafolar" ou " conxambranas". Estas duas palavras estão relacionadas ao ato sexual, pelo que entendi e o que puder averiguar em alguns sites que pesquisei.  

O texto em si é não apenas um documento interessante do ponto de vista histórico como também do ponto de vista semântico.  É um texto divertido, embora sua redação original não tenha tido essa intenção. Um documento recomendado para ser trabalho não apenas em aulas de história.

 



FONTES:

MACHADO, Naiara. Uma breve história sobre o crime de estupro. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/51014/uma-breve-historia-sobre-o-crime-de-estupro>. Acesso em 22 de abr. 2021

PRIORE, Mary Del. Sobreviventes e Guerreiras. São Paulo: Editora Planeta, 2020.



domingo, 11 de abril de 2021

ORGANIZANDO MEU ACERVO: ALGUMAS REFLEXÕES

Parte da minha coleção de livros teóricos sobre Histórias em Quadrinhos.

Hoje vou fazer uma postagem bem pessoal, mas que acho que pode trazer algum benefício aos colegas que, como eu, foram cultivando, aos poucos, suas coleções de livros e quadrinhos. Eu tento organizar meu acervo sempre que posso, embora nem sempre possa manter certa periodicidade pois, como quem tem uma biblioteca privada bem sabe, isso demanda uma quantidade de tempo da qual nem sempre dispomos no dia a dia. 

A certa idade, eu optei por me desprender daquilo que não é necessário, reservando um espaço apenas pelo que eu considero útil tanto para o meu trabalho na escola quando para fins de pesquisa. Posso dizer que estou mais pragmática e menos emocional com relação ao meu acervo. Por isso, de tempos em tempos eu reorganizo minhas coleções e reservo livros ou quadrinhos do quais não mais necessito para doação. 

Eu, normalmente, os repasso a ex-alunos ou conhecidos que sei que terão interesse e farão bom proveito. No caso da minha coleção de quadrinhos, eu a doei para a escola e a partir dela eu montei uma gibiteca, alimentada por outras doações de colecionadores que, como eu, resolveram abri mão de parte do seu acervo particular. Isso resolve, por exemplo, o problema do espaço, que é o principal tormento de quem não consegue se desapegar de suas coleções.

Parte da minha coleção de História do Brasil, já envolvida em papel filme.

Não tenho pudor em passar adiante obras que me fizerem companhia por muitos anos, nem mesmo aquelas cujos autores me fizeram dedicatórias. Sobre isso, antes eu tinha ressalvas, porque esses livros e quadrinhos possuem um valor emocional agregado a eles. Mas, por outro lado, qual autor não quer que sua obra seja lida por um número maior de pessoas? Doar livros é, também, uma forma não apenas de difusão de conhecimento mas, também, de dar evidência a autores e autoras.

Eu, naturalmente, valorizo minhas coleções, tanto que estou empregando, no momento, algumas técnicas de conservação de livros que aprendi recentemente com a amiga Valéria Aparecida Bari, num dos programas que gravamos para o canal da ASPAS - Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial, no Youtube (clique aqui se quiser conferir). 

A técnica consiste em envolver com papel filme meus livros e meus quadrinhos. Isso tanto possibilita a melhor conservação das obras como resolve dois problemas. O primeiro é o odor que o papel produz com o tempo e o envelhecimento. O segundo é com relação a limpeza, que fica mais fácil porque o pó não penetra nas laterais e nas páginas do livro. A limpeza fica mais fácil desta forma, e o ambiente do escritório mais apropriado para o trabalho, ainda mais em tempos de trabalho remoto. 

A pergunta que alguém certamente vai fazer, e que eu fiz: " - Mas e quando eu precisar do livro?" Bem, nesse caso, retirasse o plástico e depois coloca-se outro. Dá um certo trabalho, eu sei, mas normalmente não utilizo durante o ano nem 15% do meu acervo. O restante fica constantemente exporto à poeira e agentes biológicos que podem acelerar seu processo de degradação.

Parte da minha coleção de HQs, já com papel filme.

Optei por um sistema de classificação bem simples no qual eu estou organizando minhas coleções a partir de alguns critérios. Primeiro, autoria. Reúno obras do mesmo autor para ficar fácil encontrá-las. No caso das quadrinhos, não apenas autor(a), mas também procedência e gênero. Por exemplo, históricos, superaventura, mangás, manhwas. Optei por colocar o gênero acima da procedência então tenho, por exemplo, superaventura tanto em português quando em francês, grego, alemão e inglês.

Para os livros, eu adotei também o sistema de autoria, mas eles estão subdivididos de acordo com o tema. Livros de história geral, de teoria da história, de história do Brasil, de História das Mulheres, de Educação Patrimonial, Educação ou de Ensino de História e livros teóricos sobre quadrinhos. Percebi que isso facilita muito quando tenho que buscar por um tema especifico e me poupa muito tempo.

Mantenho obras raras e revistas acondicionadas em caixas, separadamente. No caso das obras raras, eu as envolvo com papel de seda, e pretendo manter assim, pois acho mais adequado do que o plástico. Cada um acaba criando seu próprio sistema, até porque num acervo particular, o proprietário faz as regras uma vez que ele será o único usuário.

Mas estou aceitando sugestões, principalmente para a conservação do acervo, que acho ser a parte mais importante. O papel está sempre sujeito a agentes externos e, muitas vezes, só nos damos conta de que uma obra começou a se deteriorar quando o processo já está adiantado. Assim, quem quiser deixar sugestões, elas são bem-vindas!

quarta-feira, 17 de março de 2021

SILENCIADAS: BRUXAS OU FEMINISTAS?


Uma das coisas que o Netflix trouxe de bom foi a variedade de opções de filmes e séries de diversos países. Em tempos de pandemia isso tem sido uma ótima opção, que faz com que a gente possa fugir das já batidas produções estadunidenses e conhecer outros tipos de cinema, descobrindo diretores, roteirista e autores talentosos que até então eram desconhecidos de boa parte do público brasileiro. Da mesma forma, produções brasileiras têm ganhado o mundo e conquistando fãs.

Dito isso, quero falar hoje sobre o filme, “Silenciadas”, uma produção do Netflix. Silenciadas foi dirigido pelo argentino Pablo Agüero e o roteiro é de Katell Guillo. O filme estrelado por Amaia Aberasturi (Ana), Alex Brendemühl (juiz Rostegui), Daniel Fanego (como Consejero), Garazi Urkola (Katalin), Yune Nogueiras (María), Jone Laspiur (Maider), Irati Saez de Urabain (Olaia), Lorea Ibarra (Oneka) e Asier Oruesagasti (Padre Cristóbal). É um filme histórico e, também, um filme que pode ser considerado feminista. Eu o assisti sem grandes expectativas e saí muito satisfeita, tanto com enredo de forma geral, quando com a atuação das atrizes, que protagonizaram a trama.

O filme se passa no início do século XVII, mais precisamente em 1609, numa vila de pescadores, no país Basco, e narra a história de um grupo de jovens mulheres que foram aleatoriamente acusadas de bruxaria, aprisionadas e condenadas como hereges por um inquisidor. A história é uma adaptação do livro "A Feiticeira", de Jules Michelet. Estima-se que por acusação de bruxaria, cerca de 100 mil mulheres podem ter sido executadas durante ao longo da história. O número pode ser até maior. Um verdadeiro genocídio de mulheres, tutelado pelo Estado.

O que mais me chamou atenção nessa produção foi o fato de não encarar as bruxas como seres sobrenaturais. Na verdade, a bruxaria em si não é o centro do debate, mas sim a arbitrariedade com a qual as mulheres são julgadas, sem direito à defesa. São culpadas por serem mulheres. Os homens as temem, isso é deixado bem claro pela narrativa. 

Silenciadas é também um filme que mostra a resistência dessas mulheres, agredidas e humilhadas, que encontram forças para se erguer contra seus opressores. Elas resistem cantando, resistem rindo, quando não há mais esperança, resistem ao desafiarem seus opressores e utilizarem seus medos e superstições contra eles mesmos. Não há como não querer se unir a elas contra o fanatismo e o preconceito.

Do ponto de vista histórico, é um filme que pode servir como referência para estudos sobre a caça às bruxas e a inquisição espanhola. Ele traz muitas boas referências e gira em torno dos mistérios do ritual do shabbat, festa profana que, segundo a Igreja Católica, as mulheres realizam para invocar o Diabo. Um ritual cujo imaginário foi construído ao longo da inquisição a partir de relatos de mulheres que, sob tortura, descreviam essa festa profana usando de toda a imaginação que pudessem acessar, a fim de colocar fim às longas sessões de tortura.

O shabbat foi posteriormente apropriado pela literatura, notadamente a feminista, como um símbolo de libertação das mulheres. Na França da década de 1970, por exemplo, uma das revistas feministas de maior destaque daquele período chamava-se Socières. Artistas como a quadrinista italiana Cecília Capuana, que publicou nas revistas Métal Hulant e Ah! Nana, neste período, utilizaram as bruxas como um símbolo feminino de rebeldia e libertação.

Por fim, algo que eu não posso deixar de comentar. Eu consultei alguns artigos e críticas ao filme antes de escrever a minha e, praticamente em todas elas, o filme está sendo colocado como se passando no século XV, durante a Idade Média. Um erro gravíssimo, pois a história se passa em 1609, portanto, século XVII, Idade Moderna e após a Reforma Religiosa. Não custa pesquisar um pouco ante de escrever a resenha de um filme histórico.

sábado, 13 de março de 2021

MULHERES OCULTAS NO CINEMA E NA VIDA REAL

No mês das mulheres, porque parto do ponto de vista compartilhado por alguns países de que março é o Mês da Mulher, eu resolvi assistir filmes, ler livros e quadrinhos que falem de mulheres e, se for o caso, comentar aqui no blog. Assisti três filmes até agora, todos no Netflix. Eu não sei se vou escrever sobre todos, mas pelo menos alguns eu pretendo pelo menos citar.

O primeiro filme que assisti foi "Mulheres Ocultas" (Little Big Women)filme taiwanês de maior bilheteria de 2020, estrelado por um elenco de mulheres maravilhosas e talentosas, liderado pela veterana de 81 anos, Chen Shu-fang, vencedora do Cavalo de Ouro de Melhor Atriz (o Oscar do cinema Chinês) pelo seu papel neste filme e ainda levou o prêmio de melhor atrás coadjuvante por outro filme, “Dear Tenant”.

Chen Shu-fang (2020)

O filme se baseia na experiência pessoal do diretor, Joseph Chen-chieh Hsu, e gira em torno dos rancores de uma mulher, a matriarca Lin Shoyng, abandonada pelo marido e que, após a morte dele tenta resolver seus rancores e aceitar a outra mulher, com a qual ele passou a viver. Um baita filme que questiona valores familiares tradicionais e envolve três gerações de mulheres.

Se eu pudesse resumir em uma frase, diria que o filme fala de reconciliação e de união entre as mulheres. Aqui, não se trata apenas da protagonista, interpretada por Chen Shu-fang, e cá entre nós, que atriz maravilhosa, mas de todas as mulheres que foram afetadas pelo caso extraconjugal do falecido patriarca da família.

Cartaz promocional do Netflix

O que eu achei muito interessante neste filme é que, apesar de ter sido baseado nas experiências de um homem, do diretor Joseph Chen-chieh Hsu, é um filme que trata com muita sensibilidade do que é ser mulher, não apenas em Taiwan, mas em todo mundo. Isso porque, certos tabus sociais são reproduzidos em menor ou maior escala em outros países, pelo menos com relação às mulheres. 

Não podemos deixar de dar mérito à roteirista roteirista Maya Huang , que junto com o diretor deu vida a essas mulheres. E falar de mulheres é mais do que correto em relação a esse filme: idosas, maduras e jovens, elas estão representadas lá. Falam de relacionamentos, sexo, sobre a vida e o que ela lhes oferece ou tira. O filme é um mergulho em dramas pessoais muito próximos daquilo que cada uma de nós pode viver um dia.

Eu gostei muito. Assisti com minha tia idosa e ela também gostou. Na verdade, ela confessou que foi o primeiro filme que ela assistiu comigo que gostou. Ela também se identificou em muitos momentos com os dramas das personagens. Acho que esse talvez seja o grande mérito da produção, que despretensiosamente nos chama a compartilhar as dores, alegrias e sofrimentos daquelas mulheres que poderiam ser nossas tias, amigas, vizinhas ou colegas de trabalho.  Não vou comentar mais, para não dar spoillers. Para quem quer variar um pouco dos filmes de ação ou suspense e das comédias românticas, fica a dica de um filme sensível e com boas atuações.

 

quinta-feira, 11 de março de 2021

AS "OUSADAS" E A MEMÓRIA DAS MULHERES NOS QUADRINHOS

Eu tenho utilizado dois termos com muita frequência em meus artigos sobre mulheres nos quadrinhos: "lugar de memória" e "lugar de fala". Lugar de memória porque muitos quadrinhos, notadamente aqueles feitos por mulheres, embora não necessariamente apenas por elas, têm trazido histórias de mulheres cuja memória ou foi esquecida ou não é conhecida pelo grande público ou pelo público mais jovem. Esses quadrinhos, a meu ver, são lugares de memória, e possuem uma função muito importante que é a de socializar conhecimento e colocar as mulheres no centro de vários debates, que vão além das pautas feministas.

Lugar de fala, porque por meio de quadrinhos, muitas autoras conseguem expressar suas ideias, seus sentimentos e compartilhar suas angústias. Não invariavelmente, quadrinhos de ficção são baseados em experiências de suas autoras, algumas delas traumáticas, e se tornam espaços nos quais elas compartilham com seus leitores e leitoras sua vivência, tornando os quadrinhos uma porta para o espaço privado. Dependendo do tipo de quadrinho e da interpretação do (a) leitor (a), muitas obras assumem estas duas características.

Neste sentido, eu gostaria de colocar aqui minhas impressões sobre os quadrinhos da francesa Pénélope Bagieu, publicados no Brasil em 2019 (vol. 01) e 2020 (vol.2), pela editora Nemo, “Ousadas: mulheres que só fazem o querem”. Trata-se de uma série de pequenas biografias de mulheres, trinta delas, se eu contei corretamente. Vou apontar aqui os pontos positivos da obra e o que eu não gostei, lembrando que eu estou partindo de um ponto de vista pessoal, mesmo que baseada em algum conhecimento teórico.

O primeiro ponto que eu destacaria aqui é a diversidade que caracterizou a obra, em vários sentidos. Diversidade temporal: mulheres de diversos períodos da história foram biografadas, desde a antiguidade até o século XXI. A autora não obedeceu uma ordem cronológica. Num momento estávamos no século VI no outro no XVII aí voltávamos para a antiguidade clássica. Não havia uma linha temporal estabelecida, o que pode parecer meio caótico para aqueles que são mais metódicos, mas que não atrapalha de forma alguma a leitura, uma vez que cada biografia independe da outra.

Temos ainda a diversidade espacial: Pénélope Bagieu nos leva a uma verdadeira viagem volta ao mundo, passando por todos os continentes. A autora teve muito cuidado em inserir o máximo possível de mulheres representando várias regiões e, também, diversas etnias. Elas são brancas, negras, ameríndias, asiáticas. São mulheres de credos orientação sexual diversos. Acima de tudo, temos na obra uma seleção de mulheres tão humanizadas que é difícil não se sentir próxima de algumas delas. Rainhas, médicas, zoólogas, xamãs, dançarinas, cientistas, exploradoras e donas de casa. 

Pénélope Bagieu fez uma pesquisa cuidadosa ao compor essas biografias. Ela consegue trazer de forma leve e bem-humorada, a vida dessas mulheres, que nem sempre era um mar de rosas. Muitas dessas mulheres sofreram formas de discriminação e violência física ou simbólica, seja pela sua aparência, sua origem social, sua etnia ou por serem diferentes de outras mulheres. Temos personagens autistas, refugiadas, mulheres revolucionárias esposas e mães dedicadas que têm em comum o fato de terem sido ousadas, ou seja, mesmo com todos os obstáculos elas “fizeram o que queriam”.

Uma leitura indicada para mulheres de todas as idades. E não apenas mulheres, homens deveriam ler, também, uma vez que essas personagens maravilhosas em toda a sua diversidade, são universalmente inspiradoras. Para quem quiser conferir, uma dica: eu comprei um box com os dois volumes e achei que ficou bem em conta. 

Agora o que eu não gostei. Embora o conteúdo e a qualidade do material ser muito bom, o formato que a editora escolheu, 24x17, dificulta a leitura. Isso porque a autora utiliza, também, letras cursivas nos quadrinhos, cuja leitura fica difícil e cansativa porque o tamanho da letra fez com que eu, em muitos momentos, ficasse presa a um quadro tentando enxergar o que estava escrito. A opção por um formato maior teria sido melhor para o leitor e aí, seria perfeito.

Por fim, quero abrir um parênteses para dizer que, no Brasil, este tipo de quadrinho biográfico, seguindo a mesma linha de "Ousadas", já vem sendo publicado. Temos, por exemplo, a HQ de Aline Lemos, "artistas brasileiras" (clique aqui para conferir) e "Divas brasileiras", de  Eduardo Ribas e Guilherme  Miorando (mais informações, aqui)


terça-feira, 9 de março de 2021

A NASCIMENTO DA IMPRENSA FEMINISTA NA FRANÇA

Clementine-Hélène Dufau,  La Fronde, 1898, cromolitografia, 99, 80 x 137, 80 cm, colecção privada©Direiros reservados

Estas revistas tiveram um aumento significativo entre as décadas de 1820 e 1850, com 97 títulos publicados. Entre 1870 e 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, mais 30 periódicos já haviam surgido[1]. Alguns com maior ou menor longevidade, a frequência e a quantidade com que estes periódicos – jornais e revistas – foram publicados na França, durante o século XIX e início do século XX, sinaliza para a formação de publico leitor notadamente feminino que vai se identificar com o conteúdo destas publicações que, apesar de trazerem representações idealizadas das mulheres, abrem espaço para que temas de seu interesse político e social possam ser lidos e debatidos a partir da troca de correspondência entre leitoras e editores (as).

A imprensa feminina francesa, desde sua gênese, esteve comprometida com a manutenção da ordem social e entoava, em sua maioria, um discurso alinhado com aquele do patriarcado. No entanto, ao dar voz às mulheres por meio da imprensa, esta mesma ordem social permitiu que as mulheres estabelecessem uma postura crítica com relação a certos comportamentos que limitavam sua inserção no espaço público e lhe impunham normas de decoro que, com o tempo e o surgimento do movimento feminista, passaram a ser questionadas e não toleradas.

Ao lado desta imprensa das mulheres, e alinhada aos grupos dominantes, surgiu no século XIX, uma imprensa feminista, que nasceu e cresceu a partir das revindicações de direitos políticos para as mulheres, que neste período tinham como pauta central o sufrágio. É preciso estabelecer as diferenças entre estas duas mídias, a partir de seus objetivos, para que possamos compreender seus papéis dentro da sociedade francesa.

A imprensa feminista é engajada e suas primeiras jornalistas tinham como princípio a crítica ao poder e eram motivadas pelo idealismo. As feministas têm consciência da importância e do papel da imprensa como instrumento formador de opinião. Segundo Perrot, elas se recusavam, por exemplo, a adotar o sobrenome do marido e assinavam apenas com seu primeiro nome[2].

Em agosto de 1832, começou a ser publicado o primeiro jornal feminista francês, La Femme libre, produzido e publicado por mulheres, sob a direção de  Marie-Reine (Reine Guindorfe) e Jeanne-Désirée (Désirée Véret), ambas pertencentes ao florescente movimento Saint-Simoniano[3]. O Movimento Saint-Simoniano era ligado ao socialismo utópico que surgiu no início do século XIX na Europa. Ele tinha como preocupação os papéis sociais e econômicos das mulheres na sociedade. Acreditava que homens e mulheres estavam envolvidos em uma grande rede social, mas eram inerentemente diferentes.  Em 1832 um grupo de mulheres cria uma dissidência dentro do movimento, Dessa dissidência nasceu o jornal La Femme libre[4].

Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:La-Femme-Libre-1-1832-b.jpg>. Acesso em: Acesso em: 18 set. 2018.

As mulheres Saint-Simonianas formaram uma organização feminista separatista com preocupações e objetivos pragmáticos, que envolvia principalmente o papel social e econômico das mulheres na sociedade.  Suas adeptas questionaram e exigiram mudanças na Lei de Família do Código Napoleônico e queriam a expansão das oportunidades educacionais e econômicas para as mulheres. Elas edificaram um movimento orientado para mulheres e liderado por mulheres.[5] Dentro desse movimento, o La Femme libre, que circulou até 1834, com 34 edições, teve um papel muito importante, criando um novo tipo de imprensa, no qual assuntos como moda e economia doméstica foram substituídos por temas profundamente políticos.

Muito do pioneirismo deste periódico vem da participação de mulheres que falam por si mesmas e não de homens que falam pelas mulheres. E, ao contrário do que aconteceu em outros periódicos voltados para o público feminino, as mulheres que colaboraram e ajudaram a manter financeiramente o La Femme libre eram mulheres do povo. Os custos de publicação foram financiados por costureiras e por assinantes. A independência financeira com relação aos homens possibilitava uma liberdade de expressão para as mulheres que até então não havia sido experimentada[6].

Não era para menos que o periódico tivesse em sua pauta reivindicações pelos direitos civis das mulheres, pela liberdade sentimental, amorosa e sexual[7]. O objetivo do jornal era, acima de tudo, conscientizá-las do seu poder transformador, com base em princípios de liberdade e igualdade[8]. Buscava-se o empoderamento feminino, já em princípios do século XIX, quando o feminismo ganhava seus primeiros contornos. 

Até o final do século muitos outros periódicos feministas iriam surgir na França, à medida que se fortaleciam as reivindicações das mulheres por participação política, igualdade de direitos e liberdade. Crescia o interesse pelo feminismo, o que seria posteriormente chamado de sua primeira onda, na França. Poder publicar em um jornal e expressar suas ideias políticas era uma forma de libertação para muitas mulheres, de vários segmentos da sociedade. Era poder participar da esfera pública, algo que por muito tempo lhe foi negado.

Marguerite Durand

Neste ínterim, um periódico feminista francês se destacou dos demais, La Fronde. Fundado por Marguerite Durand, ele circulou entre 1897 e 1905. Este foi o primeiro jornal feminista de circulação diária, embora posteriormente tenha se tornado mensal e era totalmente gerido por mulheres: não havia cargos na editoração e na produção, nem mesmo na tipografia, que não fosse ocupado por mulheres.  As mulheres que trabalhavam na sua  tipografia chegaram a fundar o Sindicato das Mulheres tipográficas, em 1899[9].

Foi o primeiro jornal feminista a ser bem sucedido, com uma tiragem significativa e um grande número de leitores. E isso se deveu muito à experiência de Marguerite Durand, uma das mais notáveis jornalistas francesas de seu tempo, que aderiu ao feminismo no final do século XIX. Durand começou sua carreira como atriz e depois de casada passou a se dedicar ao jornalismo. Escreveu para o La Presse, que era dirigido pelo seu marido, o advogado George Laguerre. Após o fim do seu casamento, trabalhou para Le Figaro e a seguir passou a militar em prol do socialismo e do feminismo criando  La Fronde[10].

Com La Fronde surgiu uma mídia impressa dentro dos padrões dos grandes jornais, onde temas feministas passaram a ser divulgados para o grande público, ou seja, saindo de um círculo fechado e limitado de leitores para adentrar em espaços onde os jornais abertamente militantes não penetravam. La Fronde mostrou a vivacidade de um jornalismo feito por mulheres, com compromisso com o profissionalismo e, ao mesmo tempo, com a luta engajada por direitos civis e políticos. O jornal possuía, segundo Sandrine Lévêque, um formato híbrido, no qual se apresentava como um jornal moderno, fiel às regras do mercado, e, ao mesmo tempo, uma empresa particular regida pelas regras e pelo idealismo da sua proprietária[11] Ele era, aparentemente, um jornal como os outros, dentro do modelo padrão do jornalismo francês, mas totalmente feito por mulheres.



[1] ZARMANIAN, Charlotte Foucher. Les femmes artistes sous presse. Les créatrices vues par les femmes critiques d’art dans la presse féminine et féministe en France autour de 1900, Sociétés & Représentations 2015/2 (N° 40), p. 111-127. Disponível em: < https://www.cairn.info/revue-societes-et-representations-2015-2-page-111.htm>. Acesso em: 22 set. 2018, p. 115.

[2] PERROT, Michele. Minha História das Mulheres.- São Paulo: Contexto, 2007,, p. 34.

[3] FERRANDO, Stefania, KOLLY, Bérengère. Le premier journal féministe. L’écriture comme pratique politique. La Femme libre de Jeanne-Désirée et Marie-Reine. in Thomas Bouchet et al., Quand les socialistes inventaient l’avenir, La Découverte.  Hors collection Sciences Humaines, 2015, p. 104.

[4] FORGET Evelyn L. . Saint-Simonian Feminism. Feminist Economics 7(1), 2001, 79–96. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1080/135457001316854737>. Acesso em 21 set. 2018, p. 89

[5] FORGET. Op. Cit., 2001, p.90.

[6] FERRANDO. Op. Cit., 2015, p. 105.

[7] PERROT. Op. Cit., 2007, p. 34.

[8] FERRANDO. Op. Cit.,  2015, p. 109.

[9] CHAIGNAUD, François. L’affaire Berger-Levrault : le féminisme à l’épreuve (1897-1905), Rennes, Presses universitaire de Rennes, 2009,p. 165.

[10] CHALIER,Isabelle.La création du journal La Fronde en 1897 par Marguerite Durand (2018). Retronews – Le site de presse de la BNF. Disponível em: <https://www.retronews.fr/journaux/long-format/2018/04/23/la-creation-du-journal-la-fronde-en-1897-par-marguerite-durand>. Acesso em 22 set. 2018.

[11] LÉVÊQUE, Sandrine. Femmes, féministes et journalistes : les rédactrices de La Fronde à l'épreuve de la professionnalisation journalistique. Le Temps des médias 2009/1 (n° 12), p. 41-53. Disponível em: < https://www.cairn.info/revue-le-temps-des-medias-2009-1-page-41.htm>. Acesso em: 23 set. 2018, p. 48.