sexta-feira, 22 de julho de 2022

COMENTANDO A HQ "NÃO ERA VOCE QUE EU ESPERAVA"

Eu desenvolvi nos últimos anos uma preferência por quadrinhos autobiográficos. Isso aconteceu quase que naturalmente, à medida que fui tendo acesso a esse tipo de material. Sobre esse gênero eu o considero ímpar pois ele é capaz de abrir uma comunicação mais ampla entre leitor e autor.  Isso porque, pelo menos no meu caso, eu sinto como se alguém estivesse me contanto uma história. Algo bom pessoal que essa pessoa quer compartilhar com outras pessoas. 

São quadrinhos que tem uma sensibilidade muito grande e muitas vezes falam de coisas que nós costumamos guardar para nós mesmos. São HQs, também, que possuem um certo compromisso com o que estão narrando. Algumas vezes eles nos ensinam sobre o que não sabemos ou o que achamos saber. Eles acabam assumindo uma um função informativa.

Eles podem ser, também, comparados ao gênero literário "memória". Um quadrinista ao fazer um quadrinhos autobiográfico se torna um memorialista, mesmo que não seja essa a sua intenção. Esse exercício da escrita de si é incrivelmente cativante porque temos uma sede enorme de estar com o outro, mesmo que seja apenas apropriando sua narrativa. 

Nos encontramos, muitas vezes, nessas narrativas. Nossas dúvidas, nossos preconceitos, nossas próprias experiências podem estar ali. Conheci muitos quadrinistas que, desde o início da carreira, basearam seus quadrinhos na sua própria experiência, embora usassem de uma dose de ficção. E aqui eu gostaria de destacar quadrinistas mulheres, que com quadrinhos autobiográficos encontraram uma forma de serem ouvidas pelo mundo. Seus personagens ficcionais, na verdade, são canais de comunicação por meio dos quais elas se abrem para o mundo.

No entanto, colocar-se como personagem, abrir seus pensamentos, narrar sua própria experiência na primeira pessoa não é fácil. Embora possa-se usar do recurso da ficção para dar certo alívio cômico ou mesmo para expressar emoções mais profundas, essa escrita de si é extremamente desafiadora.

Dito tudo isso, vamos ao que esse texto se presta, que é comentar a HQ "Não era você que eu esperava", do francês Fabien Toulmé. O Autor é formado em engenharia e depois de trabalhar muitos anos no ramo, inclusive no Brasil (onde fez intercâmbio, abriu uma firma e até se casou e constituiu família), resolveu se dedicar aos quadrinhos. O ponto chave dessa mudança foi o nascimento da sua filha caçula, Júlia. É claro, isso é uma dedução, baseada no fato de que "Não era você que eu esperava" foi seu primeiro quadrinho que, publicado em 2014, e narra os primeiros nos de vida da filha, que nasceu com síndrome de down, também conhecida como  trissomia 21 .

O quadrinho fala das dificuldades de Toulmé, enquanto pai, aceitar a filha como sendo portadora de uma deficiência. Uma verdadeira autoterapia na qual o autor expõe e analisa seus sentimentos. Não há floreios. Toulmé assume seu lado preconceituoso, expõe sua dor e a de sua família. Não se apresenta como um pai perfeito mas como uma pessoa que aprendeu a aceitar as diferenças. Ele narra seu processo de humanização, se posso assim chamar, que ocorre à medida que ele interage com a criança que, desde o início, ele achava que nunca iria aceitar.

Há muitas histórias sobre amor materno. Eu sinto falta de histórias sobre amor paterno. Principalmente quando conseguimos perceber em "Não era você que eu esperava", como o mito do amor incondicional dos pais é realmente uma construção social. Toulmé e sua esposa, Patrícia, tiveram que aprender a amar a criança. Ela não era amada só por existir. Isso porque a relação consanguínea em si não garante que o amor entre pais e filhos floresça. Até para amar é necessário um esforço.

Esse é um ponto que eu gostei muito. Ver esse amor sendo construído. Ele não é natural, mas resultado de interação, de abertura para o outro, de romper preconceitos e padrões. Toulmé discriminava crianças com síndrome de down. Ao se tornar pai de uma criança portadora de trissomia 21 ele foi levado a rever seus preconceitos e aceitar as diferenças. Isso porque esse tipo de medo nasce justamente de não se encontrar no outro, ou seja, naquele que é diferente de nós.

Dito isso, só me resta recomendar o quadrinho. Boa leitura, traço agravável e extremante sensível e impactante.


 

 


terça-feira, 19 de julho de 2022

ARTIGO SOBRE A HQ PELE DE HOMEM

Ano passado eu postei aqui minhas impressões sobre a HQ "Pele de Homem". Gostei tanto que até mesmo participei de um vídeo comentando sobre essa produção, com Valéria Fernandes da Silva e Fabiana Rubira (clique aqui para conferir). Por fim acabei produzindo um artigo sobre ele, com o título: "Pele de Homem e a desconstrução dos Papeis de Gênero nos Quadrinhos", que saiu pela Revista da Universo. Foi meu último trabalho publicado como doutoranda. 

Vou compartilhar aqui o resumo do artigo e, logo depois o link para quem quiser ler na íntegra.

"Pele de Homem"(2020) é uma história em quadrinhos, doravante HQ, franco-belga, que conquistou o público europeu e foi traduzida em 2021 para o português. A narrativa é ambientada na Itália do período renascentista e gira em torno de Bianca, uma jovem que se prepara para o casamento, mas que deseja conhecer o futuro marido. Seu desejo se realiza quando ela descobre um artefato místico que é passado de geração em geração para as mulheres da sua família, uma pele de homem. Trata-se de uma HQ que fala, com muita sensibilidade, sobre a condição feminina numa sociedade patriarcalista, que discute questões relativas aos papéis de gênero, a sexualidade e a homoafetividade, ambientado naquele contexto italiano. O roteirista Hubert Boulard e o ilustrador Frédéric Leutelier constroem uma história que mistura elementos históricos e ficção que dialogam com o presente. Nessa narrativa escrita e visual, o leitor(a) pode se encontrar representado(a) em vários momentos.

Para ler o artigo completo, clique aqui!


sábado, 2 de julho de 2022

DESAFIOS DAS ESCOLAS PÚBLICAS PÓS-QUARENTENA

Imagino que mais de uma centena de textos sobre educação trazem como título a palavra desafio. Desafiar, segundo o dicionário, significa, provocar uma pessoa, incitar alguém para um duelo, combate ou guerra, medir forças durante uma luta ou competição. Para a escola, e os professores, desafiar significa enfrentar todos os dias os obstáculos desempenhar bem sua função. Agora, muito mais do que antes, tem sido uma prova de fogo lecionar.

Estamos diante de uma horda de alunos despreparados para a vida escolar. E esse despreparo não se deve apenas às questão de aprendizagem, de apropriação de conteúdos. O desafio maior tem sido o da convivência. Não apenas a convivência com os professores, mas entre eles mesmos. Falo aqui da minha experiência neste primeiro semestre, com alunos do fundamental II, em escola pública. 

Alunos que não tiveram oportunidade de estudar e frequentar a escola por dois anos. As aulas remotas, realizados por meio de aplicativos, usando o celular, desgastaram os professores e não tiveram muito efeito sobre uma clientela que, muitas vezes, nem celular possuía. A saúde mental tanto de alunos quando de professores também sofreu com a pandemia de Covid-19. O resultado disso, eu tenho testemunhado na escola, às vezes durante minhas aulas, às vezes em relatos de colegas. 

Imagem capturada em: https://www.facebook.com/cnj.oficial/photos/a.191159914290110/1681947658544654/?type=3

O bullying na escola aumentou enormemente, a ponto de resultar, em alguns casos, de violência física, quando a vítima chega ao limite e revida de forma quase desesperadora. É praticamente uma rotina constante ficar atenta a sinais de intimidação entre alunos, buscando evitar qualquer tipo de assédio moral.

A imaturidade é outro ponto. Nesses dois anos de afastamento da escola, os alunos perderam ou não desenvolveram o traquejo básico para conviver com outras pessoas, sejam elas os colegas ou os professores. Temos alunos do sétimo ano que agem como crianças do quinto ano. Crises de choro e de ansiedade se tornaram rotina. 

Tanto professores quanto alunos estão sendo vítimas de violência moral. À falta de limites some-se a falta da educação familiar. Alunos rebeldes e desrespeitosos, muito mais do que antes. Claro, isso é uma generalização. Temos alunos que sabem lidar com o ambiente escolar e com os outros de forma cordial, mas acabam sendo prejudicados pelo contexto geral. São eles, inclusive, os que mais sobre com o bullying.

Ouvi de um colega que uma mãe reclamou que a escola não está educando seu filho, pois ele está desenvolvendo "maus hábitos". Fico imaginando que algumas, não todas claro, famílias pensam que a escola deverá ser responsável pela formação moral de suas crianças. Mas isso não é papel dos pais? Não é a família que cria a base da identidade da criança, lhe ensina valores e transmite sua experiência de vida?

Imagem capturada em: https://twitter.com/kaol_/status/1154072744495108096

É muito complicada a própria relação  entre os alunos. Muitas agressões verbais ou mesmo físicas por conta de coisas irrelevantes. Fiquei assombrada com a reação de alunos mais velhos quando solicitei que mantivessem o distanciamento. Eles começaram se se agredir verbalmente, com xingamentos, e ameaças físicas. E como gritam uns com os outros! 

É visível a instabilidade psicológica dos adolescentes, que estão passando por uma fase da vida caracterizada por muitas mudanças físicas. Essa instabilidade se torna visível na forma como tratam o outro. E o apoio da família parece ter diminuído. Talvez para não ter que assumir a responsabilidade de ensinar, no sentido de educar para vida, muitos pais têm apoiado as más ações dos filhos e sobrecarregando o trabalho dos especialistas. Estamos tendo que repensar o papel da escola e do professor, em particular. 

Neste retorno às aula presenciais eu tenho observado muitos dos meus colegas empenhados em trabalhar. Temos buscado alternativas para suprir a deficiência de aprendizagem. No entanto, ao mesmo tempo somos desestimulados pelo ambiente difícil da sala de aula. Com isso o desgaste físico e emocional diários  tem refletido em adoecimento, o que faz com que professores de afastem da sala de aula temporariamente, interrompendo um ciclo de trabalho que precisará ser retomado no futuro.

Enquanto ambiente social, a escola tem sido palco de relações tóxicas, resultado de dois anos de isolamento que parecem ter feito com que os alunos esquecessem de como é ser aluno. Hoje o desafio não tem sido o ensino-aprendizagem, mas incutir normas básicas de convivência social e respeito ao outro. 

OBS: Este texto é uma autoanálise, uma forma que encontrei de refletir sobre os problemas que tenho e que outros colegas têm tido na pratica docente diária. Sempre acreditei no poder da palavra escrita. Não apenas pensar sobre algo, mas escrever sobre algo pode ampliar a compreensão que nós temos da realidade e de nos mesmos.

domingo, 26 de junho de 2022

COMENTANDO O LIVRO "MULHERES QUADRINISTAS - NO CEARÁ TEM DISSO, SIM!"

Terminei neste fim de semana de ler o livro "Mulheres Quadrinistas no Ceará tem disso, sim!", de Jeanni Cordeiro Barros, com prefácio da pesquisadora Sônia Luyten. Comprei o livro durante a pandemia e ele estava entre minhas prioridades de leitura depois que eu concluísse a minha tese. E foi uma leitura muito boa, por sinal. Fazia tempo que um livro teórico não me prendia tanto ao ponto de eu o ler quase todo em um dia. O livro me cativou por duas coisas.

Primeiro porque apresenta a obra de mulheres quadrinistas, apresentando as autoras juntamente com sua obra. Conhecer a autora ou autor, permite o leitor se apropriar de uma forma diferente da obra. Barros faz um trabalho biográfico e, ao mesmo tempo uma História dos Quadrinhos, além do um registro memorialístico. 

Em segundo, a obra não deixa de ser um registro da história dos quadrinhos local. O que é fantástico. Minha primeira formação como pesquisadora foi em História Local e eu tenho o maior respeito por quem se dedica a essa linha de pesquisa. Eu mesma tento, quando posso, voltar às minha origens, produzindo artigos e livros sobre o tema.  Algo que deveria ser feito em todos os Estados. 

Outra coisa que eu gostei muito foi o fato da autora ter feito uma História das Mulheres na Arte. Barros um movimento que vai do macro ao micro. Ela contextualiza as mulheres no campo das artes de uma forma geral, ela parte para as mulheres nos quadrinhos o Brasil e, nos capítulos que seguem, coloca o foca nas mulheres produtoras de quadrinhos no Ceará.

Por fim, resta elogiar o projeto gráfico. O livro é muito bem diagramado. O tamanho e o papel são muito bons, com ilustrações coloridas e em preto e branco. O valor também é acessível. Um item que não pode faltar na biblioteca de quem pesquisa quadrinhos no Brasil.


sexta-feira, 24 de junho de 2022

CONHECENDO O BAIRRO DE BOM RETIRO, EM SÃO PAULO

Fiz minha primeira viagem longa desde o início da pandemia, em 2020, e foi para o Estado de São Paulo. Passei uns dias em Campinas (SP) na casa de uma amiga. Fui curtir um pouco de frio e tomar um bom vinho a noite, acompanhado de uma conversa agradável. Em Campinas eu tive três momentos marcantes. O primeiro foi conhecer a gibiteca da Biblioteca Pública Municipal Prof. Ernesto Manuel Zink. Fui por indicação de um amigo e gostei muito de poder conhecer uma gibiteca que fica dentro de uma biblioteca. É outro tipo de trabalho, ambiente e organização. Fui muito bem recebida, por sinal, e voltei de lá com muitas ideias para futuras parcerias.

Gibiteca da Biblioteca Pública Municipal Prof. Ernesto Manuel Zink

O segundo momento foi reencontrar, depois de uma década, o querido Bira Dantas, cartunista que fez o logotipo da nossa Gibiteca, aqui em Leopoldina (MG). Marcamos de nos encontrar na Nico Paneteria, uma padaria/lanchonete com um cardápio incrível. Boa conversa e doces deliciosos. Foi ótimo. Não sei vocês, mas uma das coisas que eu mais senti falta durante essa pandemia foi de fazer esse tipo de programa. Algo que parece tão trivial, mas que ganhou importância justamente porque não podíamos ter mais esses pequenos prazeres.

Mini-bolo de chocolate com morango do Nico Paneteria. Divino!

O terceiro momento foi assistir a uma manifestação do sindicato dos servidores municipais, que estavam aguardando o resultado das negociações sobre o seu aumento salarial. Minha amiga é servidora aposentada e queria participar. Fui junto pois queria ver como era. Tinha até cartaz pedindo greve. Foi emocionante, no início, mas a emoção acabou quando o líder do sindicato anunciou o fechamento de um acordo desfavorável aos servidores. Acreditam nisso? E ele ainda jogou a seguinte frase: "Não vai ter greve por que amanhã é feriado". Em??? Sério, eu comecei a rir histericamente. Foi tão ridículo. Mas os servidores estavam furiosos, e com razão.

Manifestação dos servidores municipais em frente da Prefeitura de Campinas (SP).

Mas vamos ao prato principal. São Paulo, capital. Fui para São Paulo na sexta-feira dia 17 de junho para assistir a um show de k-pop. Eu combinei com mais duas amigas e resolvemos ter essa experiência. O grupo que se apresentou foi o 2k(Tu:Zi), um grupo formado por 5 rapazes. Olha, foi um excelente show, com mais de duas horas de duração. Foi minha primeira experiência do tipo. Como o show foi em um teatro, na Mooca, foi bem intimista. Eles pararam e conversaram com o público, em inglês, receberam homenagens de fãs e até bilhetes escritos de improviso. As músicas são um rock-pop agradável para os ouvidos. Foi bem além da minha expectativa inicial.


No dia seguinte eu marquei de encontrar com alguns amigos na feira coreana, no bairro de Bom Retiro. Foi bem legal. Experimentei comidas de rua coreanas, daquelas que a gente vê nos dramas. Tudo uma delícia. Comi tteokbokki, uma massa de arroz (que parece um inhoque) com molho picante e, também comi Odeng um bolinho de peixe com a massa feita com amido, farinha, vinho de arroz e outras especiarias. Na feira estava tendo uma série de apresentações em comemoração ao 9º aniversário do BTS. Aliás, no metrô, linha amarela, havia várias propagandas sobre o aniversário desse famoso grupo de k-pop. Isso me surpreendeu e me deu uma noção maior de como a hallyu está mesmo tomando conta do ocidente. Vejam meu caso, eu quis experimentar tudo que eu sempre vejo na televisão.

Comendo Odeng!

Depois de assistir apresentações e comer os petiscos de rua coreanos, fomos a um famoso supermercado coreano, o Otugui, que tem todos os produtos populares na coreia. De macarrão instantâneo (vários tipos) a bebidas, pães e frutas. Eu queria experimentar de tudo um pouco, mas me contive. Comprei algumas coisas, claro. O que eu mais gostei foi do doce de arroz com recheio de feijão. Gente, é muito bom! Não é muito doce e derrete na boca. Quero aprender a fazer.

Quase no fim do nosso passeio fomos a um restaurante coreano super badalado, o Choyee Café e Restaurante. Pedimos um frango frito para comer tomando cerveja, claro. Quando recebemos o cardápio, achamos o preço bem salgado, mas resolvemos ficar, afinal, era um momento de confraternização. Mas, eis a surpresa. O frango que daria para duas pessoas, foi suficiente para quatro, isso porque todos os pratos vinham com acompanhamentos, salada, kimchi, pajeon , japchae e barata doce empada e frita. Tudo delicioso reposto por três vezes. Tudo incluído no preço do prato escolhido. No final ficou super barato, pela quantidade de comida que foi servida.

Melhor frango frito que já comi em toda a minha vida!

Mas senti falta de uma coisa. Fui pesando que entraria na feira artesanato típico da Coreia do Sul, mas não havia nada. A feira tem apenas barracas de comida. Estava ótimo, lógico, mas isso meio que me decepcionou pois eu queria comprar coisas como xícaras, por exemplo. 

Passeio apesar disso foi um ótimo momento, compartilhado com queridos amigos. Por fim, quando nós estávamos nos despedindo nos deparamos com duas belíssimas pinturas na lateral de dois edifícios. A primeira, uma versão coreana de Alice no país das Maravilhas, a outra uma imagem rural da Coreia antiga. É com essas duas imagens que eu encerro esse texto. Espero que meu relato sirva para quem também está curioso sobre a cultura coreana e quer experimentar comidinhas deliciosas.




domingo, 22 de maio de 2022

ARTIGO FALANDO SOBRE WEBTOONS E K-DRAMAS PUBLICADO EM REVISTA DA UFS

 


Faz um tempo que eu escrevi um artigo sobre cultura pop coreana - especificamente dramas e quadrinhos. Ele foi publicado recentemente pela Revista Cajueiro, pela UFS. É um texto bem didático e pelo qual eu tenho muito carinho e fiquei muito feliz em vê-lo disponível, inclusive com uma versão em inglês. Segue o resumo do texto. Quem gostar do resumo, pode ter acesso ao artigo, clicando aqui!

De Webtoons a K-dramas as adaptações de manhwas e as tendências lançadas pela Korean Wave

Resumo: Dentro da Korean Wave, os manhwas são um dos produtos culturais que estão sendo levados para outros países, algumas vezes confundidos com os mangás japoneses. São narrativas sequenciais gráficas, com linguagem híbrida de texto e imagem, com diferenças verificáveis nas metáforas visuais e enredos. A Korean Wave é um fenômeno Cultural do séc. XXI, que se encaixa dentro de um quadro geral da globalização, no qual artefatos culturais assumiram um papel importante tanto para a economia quanto para a sociedade de dado país ou região. Esse artigo apresenta aspectos da Korean Wave ou Hallyu (onda coreana), que pode ser resumido na expansão de múltiplos aspectos da cultura sul-coreana para as mais diversas regiões do mundo. Apresentam-se como fonte de leitura e entretenimento, sobretudo infanto-juvenil, devido ao seu acesso facilitado, por meio dos smartphones, assim como os temas atualizados e de interesse para a juventude, em nível global. Conclui que o fenômeno da leitura sofre profundas alterações, e requer estudos no campo cultural, particularmente aqueles que optam pela interdisciplinaridade, necessários para absorver as mudanças que vêm sendo operadas tanto nas relações humanas quanto na produção de conhecimento.

 

A REVISTA CAJUEIRO  é editada pelo GRUPO PLENA: Grupo de Pesquisa em Leitura, Escrita e Narrativa, em formato eletrônico. É publicada pelo Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas da Universidade Federal de Sergipe. Se trata de um periódico científico semestral, que tem como objetivo principal promover a difusão, democratização e fortalecimento das pesquisas em Ciência da Informação, com ênfase na contemplação dos objetos e objetivos referentes à formação de leitores e da cultura da leitura, em todos os seus aspectos e ambientes sociais, assim como observar as repercussões positivas dos hábitos e gostos leitores na sociedade. Visa também ampliar o diálogo com a comunidade científica internacional e contribuir para o desenvolvimento da sociedade, nos caminhos da leitura.


domingo, 15 de maio de 2022

TRABALHAR II GUERRA MUNDIAL E ESCRAVIDÃO SEXUAL DE MULHERES USANDO SÉRIE DE TV

Estátuas memoriais, espalhadas por várias partes da Coreia do Sul, criadas para chamar atenção do governo e protestar contra o Japão. 

Um dos mais abomináveis crimes cometidos pelo Japão durante a II Guerra Mundial foi a escravidão e exploração sexual de mulheres em instalações criadas pelos japoneses, para servirem com bordeis para seus soldados. Esse sistema de exploração sexual baseado na criação de “estações ou casas de conforto” vitimou centenas de milhares de mulheres que ainda aguardam a reparação pelos danos físicos e psicológicos deixados pela experiência.

Foram criadas cerca de 400 “estações de conforto”, espalhadas pela China, Filipinas, Taiwan, Cingapura, Indonésia, Birmânia, Tailândia e Vietnã, sempre próximas às bases militares. Estima-se que cerca de 80 a 200 mil mulheres foram forçadas a prestar serviços sexuais a soldados japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que apenas 30% delas sobreviveram. O maior número de mulheres era de origem coreana, cerca de 80% delas.

NHD Boulder Valley “Truth Be Told” por Eliana White

Esse horrendo crime de guerra permaneceu por décadas esquecido/omitido, uma vez que as vitimas, intimidadas pela sociedade, e por suas próprias famílias, permaneceram caladas. Só recentemente o tema emergiu graças ao depoimento de uma das vítimas, já idosa, assombrada pela dor das memórias de guerra e em busca de justiça. Qual justiça? O reconhecimento do crime e um pedido oficial de desculpas do Japão, que até hoje não aconteceu.

Eu conheci o tema por meio de uma HQ produzida pela sul-coereana Keum Suk Gendry-Kim, em 2017, e traduzida para diversos idiomas, como inglês e francês, e publicada no Brasil, em português, em 2020. O quadrinho , de nome “Grama”, baseia-se no depoimento de uma sobrevivente e em pesquisas realizadas pela autora (clique aqui se quiser saber mais). Para quem não sabe, a península da Coreia foi invadida e colonizada por japoneses no início do século XX e seu povo sujeito às mais diversas agruras.

O tema se tornou um dos meus favoritos, em termos de historiografia, e me fez interessar pela história de países do leste asiático, que pouco ou quase nada estudamos no Brasil, dada a nossa tradição eurocêntrica.  Por isso foi uma grata surpresa poder assistir um episódio, o de número 13, de Tomorrow (Amanhã), série do Netflix, abordado esse tema. 

Normalmente, eu me contento e comentar os aspectos gerais de uma série/drama, mas neste caso, chamo aqui a atenção para um capítulo específico. Isso porque no episódio 13, retirando a parte fantasiosa da série, temos uma reconstituição histórica da exploração dessas mulheres durante a II Guerra. A reconstituição baseia-se no relato de uma personagem fictícia, uma sobrevivente, idosa, que nos últimos momentos de sua vida ainda espera por reparação. A sobrevivente Jeong-mun, conta sua história e a de outras mulheres, e faz uma apelo à memória: não esqueçam. 

Cena de Tomorrow, episódio 13, mostrando as meninas sendo levadas para as estações de conforto por soldados japoneses.


Eu, particularmente, achei esse episódio precioso. Não apenas pelo tema que aborda mas, também, pela forma que o tema foi abordado. Com certeza eu irei utilizá-lo em sala de aula, uma vez que ele ilustra de forma clara e didática tanto a tragédia das Comfort Women como, também, a própria questão da memória e questões relacionadas a gênero. Além disso, proporciona apresentar aos alunos uma outra abordagem sobre a II Guerra, que vai para além dos conflitos ocorridos na Europa e da questão do próprio holocausto.

Eu, particularmente, pretendo introduzir o tema das Comfort Women quando for estudar II Guerra Mundial e usar esse episódio do Netflix como material de apoio. Em seguida pretendo trabalhar as noções de crime de guerra e falar sobre a escravidão sexual. Como forma de avaliação vou pedir para que façam uma história em quadrinhos sobre o tema, e aí vou usar Grama como exemplo e, também, material de apoio.

Esse episódio será exibido no Brasil no dia 21 de maio, no Netflix. Recomento para uso de professores de história e mesmo de outros conteúdos. Mesmo sendo um episódio de uma série que envolve um contexto maior, é possível usar essa parte do programa para fins didáticos sem problemas. Claro, recomendo ao professor/professora, fazer uma breve pesquisa sobre o assunto para poder melhor aproveitar esse material e enriquecer a aula.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

ANNE MERGEN E AS CHARGES POLÍTICAS NA DÉCADA DE 1940

Anne Mergen foi uma pioneira nas artes gráficas que atuou como cartunista e chargista, entre as décadas de 1930 e 1950. Anne Briardy Mergen nasceu em Omaha, Nebraska, em 9 de agosto de 1906. Já na infância, a jovem Anne já se interessava pelo desenho, interesse esse que a levou a cursar arte comercial em comercial em Chicago. Foi lá que a autora começou a desenvolver o estilo que marcaria a sua obra e a tornaria mais tarde a primeira dama da charge política nos Estados Unidos, onde desenvolveu seu próprio estilo distinto. Ela se mudou para Miami em meados da década de 1920, onde começou a trabalhar em publicidade de moda para uma loja de departamentos local.

Começou a carreira como cartunista editorial no Miami Daily News, jornal no qual trabalhou por décadas.  Ela trabalho como artista de publicidade de moda para uma loja de departamentos, época em que começou a enviar seus desenhos para o Começou no produzindo desenhos de moda para o jornal Miami Daily New e, em 1933, publicou seu primeiro cartum editorial.  Usando sua formação na escola de arte, experiência em ilustração de moda e seu conhecimento sobre política, fruto do interesse que ela tinha sobre o tema, Mergen se formou e em 1936 e passou a trabalhar em integral como uma cartunista editorial, tornando-a a única caricaturista política nos Estados Unidos. Mergen foi uma das primeiras mulheres a atuar no jornalismo político ilustrado, área na qual, até então, era domínio dos homens.

The Master of Jet Propulsion. Publicado em 15 de february de1940. Anne Mergen Collection, The Ohio State University Billy Ireland Cartoon Library & Museum.

Mergen dividiu o trabalho com o cuidado com a casa, como muitas mulheres de seu tempo. Ela produziu sua obra principalmente em um estúdio caseiro, dividindo o trabalho jornalístico com os afazeres domésticos e a criação dos filhos. Em seu trabalho, cobria tanto manchetes nacionais quanto internacionais, o que dava à sua produção um caráter mais amplo, assim como exigia de Mergen um conhecimento maior tanto do contexto local quando global.

Como cartunista, Anne Mergen, se interessava por temas sobre política internacional. Produziu muitas charges sobre a  II Guerra Mundial e após a guerra, ela continuou a comentar sobre as questões sociais e políticas como a energia atômica, a corrida armamentista, a Guerra da Coréia. Apesar do destaque para a produção voltada para a política internacional, uma característica da produção de Mergen era a preocupação com questões “domesticas”, temas que diziam respeito ao bem estar social da população estadunidense. Dentre elas temos questões relacionadas à saúde e a educação.

 

 A direita:Running a poor second, 02 de outubro de 1955/ A esquerda: The message from above, 01 de junho de 1954. Fonte: Library of Congress.

Quando a Suprema Corte dos EUA decidiu que a segregação racial nas escolas públicas era inconstitucional, ela apoiou e de enfaticamente decisão, tendo produzido a charge “The Message from Above”. Além disso, foi defensora ferrenha de melhorias na educação, com escolas melhor equipadas e preparadas para receber a população, independentemente da cor ou da origem social. Mergen também fez campanha pela vacina contra a poliomielite, que considerava um risco às crianças, população mais vulnerável à doença. Esse último tema, em particular lhe era muito caro, tanto que que a autora chegou a comemorar o início do uso da vacina, em 1955, segundo depoimento da sua filha, Joan Bernhardt.  

Apple For Teacher, 23 de maio de 1954

Anne Mergen se aposentou em 1956, mas continuou produzindo até 1959. O trabalho de Mergen durou mais de 20 anos, período durante o qual a cartunista produziu mais de 7.000 lustrações. Em 2013, sua obra pode ser vista no  The Florida Historic Capitol Museum , em uma exposição que durou de 12 de março de 2013  a 21 de julho de 2013, intitulada “Anne Mergen: Florida Cartoons - Trace the Power of the Editorial Cartoon”. Parte de obra pode ser acessada encontrado no site da The Ohio State University, no setor Digital Collections. A cartunista faleceu em 3 de julho de 1994.

É necessário finalizar dizendo que Anne Mergen foi uma mulher que de muitas formas desafiou os padrões de sua época. Não apenas por atuar numa área dominada pelos homens, mas pela sua militância social e pela consciência que tinha sobre a força do seu trabalho. Foi uma mulher que não se sentia intimidada pelo machismo presente na sociedade estadunidense e que foi maximizado após a II Guerra Mundial. Mergen desafiou paradigmas, destacando-se tanto na análise de problemas políticos e sociais como no uso inteligente do humor como forma de criticá-los.

Fontes:

Anne Briardy Mergen, 1906-1994. Wander Women Project. Disponível em: <https://wanderwomenproject.com/women/anne-briardy-mergen/>. Acesso em 11 mai. 2022.

Anne Mergen. Women in Comics. Disponível em: < https://womenincomics.fandom.com/wiki/Anne_Mergen>. Acesso em 11 mai.2022.

Megen, Anne. Political Cartoons and massive resistance in Virginia. Disponível em: < http://www.littlejohnexplorers.com/jeff/brown/cartoon/cartoonfullpage22.htm>. Acesso em 11 mai. 2022.

NATANSON, Barbara Orbach (2020).  Ready for Research: Anne Mergen’s Editorial Cartoons. Disponível em: < https://blogs.loc.gov/picturethis/2020/02/ready-for-research-anne-mergens-editorial-cartoons/>. Acesso em 08 mai. 2022.

SPITZER, Tanja B.  Anne Mergen: First Lady of Editorial Cartoons During World War II (2020). Disponível em: <https://www.nationalww2museum.org/war/articles/anne-mergen-political-cartoons>. Acesso em 08 mai. 2022.

domingo, 8 de maio de 2022

COMENTANDO O SOM DA MAGIA (안나라수마나라 )


Faz um tempo que um programa de televisão me desperta o desejo de escrever. Sendo assim, não posso menosprezar essa inspiração repentina e vou tentar traçar aqui em poucas linhas as minhas impressões do novo k-drama da Netflix, "O Som da Magia" (안나라수마나라 ). Reconheço que assisti o programa por curiosidade, uma vez que ele traz a proposta de explorar o gênero musical. 

Embora a música esteja presente em boa parte das produções sul-coreanas, uma produção que se apresenta como um drama musical não deixa de ser inusitada. Além disse, trata-se de uma adaptação de um webtoon, uma história em quadrinhos para leitura em celular. Os webtoons sul-coreanos têm crescido no gosto do público global e fornecido material para diversas produções como, por exemplo, "O Rei de Porcelana", k-drama lançado pela Netflix, final do ano passado, e que foi um grande sucesso. 

Poderia citar mais uma dezena dessas adaptações, nos mais diversos gêneros, como fantasia, terror e aventura. No caso de "O Som da Magia", a adaptação não apenas foi muito feliz como ultrapassou qualquer expectativa que e tivesse anteriormente. 

Para começar, a escolha do elenco foi muito boa. Os protagonistas, os antagonistas e o elenco de apoio foram excelentes. E olhem que não sou muito fã de Ji Chang-wook mas acho que o ator se desafiou, fugindo um pouco dos papéis de ação e das comédias românticas que lhe são característicos. Além disso, ele canta e dança muito bem, pelo menos o suficiente para cumprir satisfatoriamente seu papel na série. 

A trilha sonora e as coreografias também foram um destaque, afinal, é um musical. As Melodias são muito bonitas, arranjos musicais de qualidade e cantores competentes. Foi o primeiro musical sul-coreano que eu assisti e não deixa a desejar aos musicais da Disney, por exemplo. Mas se a música e a dança são a marca registrada do programa, ele não se reduz a isso. Na verdade, essa série mergulha num tema muito profundo, que é a passagem da adolescência para a vida adulta e as escolhas que os jovens têm que fazer.

No caso da Coreia do Sul isso envolve uma série de fatores que não nos são tão comuns. Por exemplo, cobra-se a excelência dos jovens. Essa cobrança retira deles parte da juventude, estimula comportamentos como o bullying e mesmo o suicídio. A pobreza, a pressão da família, o ambiente por vezes hostil da escola, as cobranças duras da vida. Tudo isso e um pouco mais serve de pano de fundo para uma história que aquece o coração.

Na trama temos um mágico Lee Eul, interpretado por Ji Chang-wook, que vive em um parque de diversões abandonado. Ele entra na vida de dois estudantes do ensino médio, Yoon Ah-yi (Joo Ye-rim) e Na Il-deung (Hwang In-youp). Os três compartilham histórias pessoais repletas de dor e tristeza e aprendem juntos a superar suas dificuldades.

É uma história que traz uma crítica social muito forte, na qual questiona-se a interferência da família nas escolhas dos filhos e a forma como isso pode levar ao desenvolvimento de distúrbios psicológicos e mesmo alienação social. Aliás, uma das partes que eu mais gostei foi justamente quando o jovem Na Il-deung percebe que aqueles que são incompreendidos pelas suas escolhas, classificados como loucos ou alienados, são justamente aqueles que desafiaram os paradigmas sociais e buscaram outros caminhos.

Uma história muito bonita, bem construída e com o uma carga, psicológica, sociológica e filosófica muito grande.  Esse k-drama tem apenas seis episódios, mas que poderia ter mais, sem dúvida, sem perder a qualidade. Recomendo a quem quer assistir algo diferente.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

II GUERRA MUNDIAL, QUADRINHOS E MEMÓRIA


Aproveitei os feriados de abril  para colocar algumas leituras em dia. Dentre elas a HQ "Lilly Renée, fuga do holocausto", de Trina Robbins, com ilustrações de Anne Timons e Mo Oh. O quadrinho foi publicado no Brasil início do ano, pela Excelsior book One, uma editora, aliás, que eu não conhecia. Basicamente, é um quadrinho biográfico, que conta uma parte da vida da autora de quadrinhos Lilly Rennée, refugiada austríaca, que veio com a família para os Estados Unidos, para fugir da perseguição aos judeus e da guerra, no início da década de 1940. 

É uma grande obra dos quadrinhos? Não necessariamente. É um quadrinhos biográfico que segue o mesmo estilo de quadrinhos desse gênero, traçando uma narrativa linear, pontuando alguns fatos marcantes que ajudam na contextualização da história. É uma obra comum, em muitos aspectos, mas nem por isso deixa de ter seus méritos.

O primeiro deles é o fato de ser um quadrinhos didático. A autora teve a preocupação em explicar, inclusive, os termos em alemão que foram usados, assim como esclarecer alguns fatos que foram citados ao longo da história. No final da HQ, mais do que um glossário, Trina Robbins contextualiza o período para o leitor tenha uma experiência de aprendizado, algo que muito historiadores não se preocupam em fazer, uma vez que costumam escrever muito mais para seus pares do que para o público leigo. 

Essa preocupação com a contextualização dá um diferencial à obra. Nem sempre quadrinhos biográficos trazem esse material "extra", encerrando com alguns comentários feitos pelo autor, ou acrescentando alguns dados biográficos ausentes na obra como forma de apêndice. Às vezes, nem isso.

O segundo mérito da obra é o fato de colocar como protagonista uma mulher que teve um papel importante na produção de quadrinhos nos anos de 1940, e cuja memória é desconhecida, ou pouco conhecida, por boa parte dos leitores desse gênero narrativo. Daí o fato do subtítulo da obra colocar Lilly Renée como "pioneira e símbolo de empoderamento". Esse tipo de trabalho é raro, para não dizer único, uma vez que o protagonismos das mulheres na indústria dos quadrinhos é um tema ainda pouco explorado, principalmente numa obra em quadrinhos.

Embora o monte da narrativa gire em torno das experiências que a autora teve fugindo do nazismo, e sofrendo preconceito por ser judia e refugiada, ela se encerra com um breve relato da entrada da autora na cena dos quadrinhos, ainda jovem. Nesse ponto eu senti falta de um poucos mais das experiências de Lilly Renée como quadrinista, embora eu reconheça que não era a intenção obra focar nessa parte da vida da autora. Talvez se fosse um quadrinhos autobiográfico essa lacuna fosse melhor preenchida, uma vez que partisse direto das memórias de Renée, o que não é o caso aqui. Assim, fica aquela sensação de "quero mais". 

Pagina de Señorita Rio, por Lilly Renée

Eu, particularmente, tenho intensão de num futuro próximo me debruçar sobre a obra dessa autora, principalmente Señorita Rio, uma personagem fascinante. Acho atrativo não apenas as representações das mulheres nos quadrinhos de aventura e superaventura dos anos de 1940 mas, também, as representações que se tinha dos sul-americanos. Veja o caso de Señorita Rio, uma personagem brasileira, cujo título está escrito em espanhol.

Eu recomendo o quadrinhos como leitura para jovens, então, se seu filho ou filha curte quadrinhos e você deseja que ele experimente outros tipos de HQ, fica a dica; Além disso essa HQ é um bom material para se trabalhar questões relacionadas ao nazismo, holocausto e II Guerra mundial em sala de aula. As possibilidades de exploração do conteúdo ficam a critério do/a professor/a mas, sem dúvida, ele pode e dever ser utilizado,.

quarta-feira, 30 de março de 2022

MAIS CHANTAL MONTELLIER NO BRASIL

Recentemente eu fui convidada pelos editores da Comix Zone para escrever a apresentação de um obra que traz uma coletânea de quadrinhos de uma autora que eu admiro muito, Chantal Montellier. Na verdade, a própria Chantal recomendou meu nome, o que me deixou muito emocionada. Conheci Chantal Montellier em janeiro de 2015, quando estava buscando material para compor um capítulo de livro que eu estava escrevendo.

Pesquisando autoras francesas eu caí justamente no site de Montellier e comecei a olhar os releases da suas obras. Fascinada, entrei em contato com a autora e, por surpresa, fui prontamente respondida. Daí em diante, foram muitas conversas por e-mail e encontros que ocorreram na França e mesmo aqui no Brasil, quando a autora foi convidada a participar de uma das edições da SIQ, organizadas pela ECO - UFRJ. 

A amizade com Chantal Montellier me abriu muitas portas, tanto no Brasil quanto na França. Passei a ser correspondente  de uma revista francesa, a Papiers Nickelés; comecei a me interessa por aquela que se tornou o tema da minha teses de doutorado, a revista Ah! Nana e conheci pessoas incríveis como Cecília Capuana. Eu poderia listar aqui muitas coisas mas diria que a maior delas foi meu amadurecimento como leitora e como pesquisadora. 

Por isso eu quero aqui recomendar essa obra, intitulada Social Fiction, para quem quiser ler um tipo de quadrinho que consegue romper com muitas paradigmas. São HQs adultas, que lidam com temas profundos e que nos coloca a refletir sobre aspectos da nossa realidade. Eu particularmente, estou muito feliz com essa publicação e gostaria que muitas outras viesse. Dependesse mim, todas as obras de Chantal seriam publicadas no Brasil. Então, se você gostar de algo que foge da narrativa convencional, curte quadrinhos que tratam de temas políticos e sociais, leia Chantal Montellier e descubra um estilo diferente de quadrinhos francês.

Link para a pré-venda aqui!

sábado, 19 de março de 2022

VII CONCURSO LITERÁRIO DA ACADEMIA LEOPOLDINENSE DE LETRAS E ARTES - ALLA

A  Academia Leopoldinense de Letras e Artes, sediada na cidade de Leopoldina, tornou público o regulamento do seu VII Concurso Literário. As inscrições acontecerão no período de 10/06/2022 a 30/06/2022 em no site da ALLA (clique aqui para acessar). Podem participar do concurso alunos matriculados matriculados no Ensino Fundamental I, Ensino Fundamental II e Ensino Médio, bem como professores que estiverem ou não vinculados a uma instituição de ensino. Também podem participar qualquer pessoa física, que  poderá se inscrever na modalidade “Público em geral”. 

O edital completo já está disponível (clique aqui). 

Quaisquer dúvidas, podem ser enviadas para o e-mail concursoliterario.alla@gmail.com 

Academia Leopoldinense de Letras e Artes (ALLA) é uma instituição literária e artística da cidade brasileira de Leopoldina, no estado de Minas Gerais. Foi fundada em 13 de fevereiro de 2008.

domingo, 6 de março de 2022

AS MULHERES ESTÃO DOMINANDO ANGOULÊME?

 O título dessa postagem talvez pareça exagerado, mas reflete um sentimento de satisfação ao saber que, depois de tantos anos, as mulheres estão ocupando espaço e competindo lado a lado com os homens num dos eventos mais importantes, relacionado aos quadrinhos, na Europa e no mundo. 

O festival de Angoulême, que está em sua 49ª edição, tem como finalistas para o Grand Prix, pela primeira vez, três mulheres: Penélope Bagieu, Julie Doucet e Catherine Meurisse. O fato é tão significativo que a própria organização do evento reconhece sua importância. 

Em quase meio século de existência o Festival Internacional de Bande Dessinée de Angoulême havia premiado apenas três mulheres, Claire Bretécher (1983), Florence Cestac (2000) e Rumiko Takahashi (2019). Para 2022, pela primeira vez, já sabemos por antecedência que uma mulher será escolhida. Mas a questão toda não é sobre quem recebe o prêmio, mas a forma como as indicações eram realizadas, privilegiando os homens em uma enorme lista na qual poucas ou nenhuma mulher aparecia. Isso mudou, e os resultados estão aqui.

Em 2016, a ausência completa das mulheres entre a lista de indicados levou a protestos, gerou controvérsias e fez com que o Festival de Angoulême repensasse a forma como autores e autoras eram tratados. No ano de 2017, por exemplo, diversos coletivo de mulheres quadrinistas se reuniram e promoveram debates. As mulheres foram sendo gradativamente acolhidas e, em 2019, depois de um hiato de 19 anos, uma mulher novamente é premiada. Trata-se aqui de um reconhecimento conquistado a partir da pressão de grupos feministas e de coletivos de mulheres, apoiados por autores que também se sentiam incomodados com o sexismo que criava barreiras para o reconhecimento do trabalho de autoras talentosas. 

Claro, elas receberam prêmios em outras categorias, mas a categoria principal ficava invariavelmente nas mãos dos homens. Faltava talento? Claro que não! O talento das mulheres nos quadrinhos podia ser visto, por exemplo, na seleção do Prêmio Artemísia, criado para dar visibilidade ao trabalho de autoras que publicam na França.  Obras lindas, sensíveis e profundas foram selecionadas e premiadas ano a ano, mostrando que elas estavam lá, e seus pares as reconheciam. Já era a vez de Angoulême mudar. E parece que está mudando.

Nessa véspera do Dia Internacional da Mulher essa conquista, que pode parecer distante para a maioria de nós, tem um grande significado. A indicação de três mulheres, a premiação de uma, reflete uma mudança de postura e de pensamento que pode impactar positivamente futuras gerações de autoras.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E OS LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA

Esse texto é um breve preâmbulo de um texto maior que desejo escrever em breve. Ele partiu da experiência de observar as mudanças ocorridas nos livros didáticos, como professora do ensino fundamental, mas últimas três décadas. Uma dessas mudanças está na forma como os livros estão trazendo e tratando as fontes históricas. Notadamente nos últimos dez anos, novos elementos vêm sendo acrescidos aos livros. As charges, primeiro, as tiras cômicas e as histórias em quadrinhos, em seguida. Como elemento imagético, essas mídias foram ganhando espaço nos livros de história, tanto para ilustrar e exemplificar conteúdos quando para embasar atividades. 

 

No entanto, na pressente década, elas foram incluídas e citadas como fontes didáticas. No livro didático adotado pelo Programa Nacional do Livro Didático - PNLD, do oitavo ano "Vontade e Saber", de autora de Adriana Machado Dias, Keila Grimberg e Marco Pellegrini, da editora quinteto, que será utilizado nas escolas públicas até 2013, no primeiro capítulo, de introdução à história, os quadrinhos estão citados como fonte histórica.

 

Com o título " A renovação das fontes históricas", o livro traz uma página no "Tico-Tico", considerada a primeira revista em quadrinhos brasileira, como exemplo de quadrinhos como documento histórico. Em um pequeno parágrafo, os autores apresentam as HQs como uma das fontes que passaram a serem reconhecidas a partir do processo de inovação (palavra usada pelos autores) dos estudos históricos iniciados na França, com a Escola de Annales. Aos quadrinhos acrescenta outras fontes como a música e os filmes.  Segundo o livro: "Com essa renovação, além dos documentos oficiais, passaram a ser considerados fontes válidas para o estudo da história objetos pessoais, pinturas, cartas, histórias em quadrinhos, esculturas, filmes, músicas, relatos, entre outras."

 


Uma página, dois pequenos parágrafos, mas muitos significados. Os quadrinhos são listados como “fonte válida”, ou seja, estão sendo reconhecidos oficialmente como uma fonte história. Mais do que isso, estão sendo citados em um livro didático, direcionado ao grande público e, também, aos professores.


Os quadrinhos já entraram na academia, e estão presentes em maior ou menor proporção nas salas das universidades e nos programas de pós-graduação, em maior ou menor proporção, dependendo do curso. No campo da história o reconhecimento e usa da fonte já vem ocorrendo há muitos anos. Cabe aqui citar os trabalhos do historiador francês Pierre Couperie, um historiador francês especializado em quadrinhos, pioneiro neste campo de trabalho. Couperie foi um dos primeiros historiadores a trabalhar este campo de pesquisa, ainda na década de 1960), não apenas na França. Ele diversificava seus trabalhos em história social e econômica. Em seu tempo, Couperie foi um militante tanto no estudo acadêmico dos quadrinhos quanto no seu uso como recurso para educação. 


Posteriormente tivemos outros renomados historiadores da escola francesa como Michel Vovelle que em sua obra “Imagens e Imaginário na História”, não apenas defende o uso de quadrinhos como fonte de pesquisa como eles tema de dois capítulos do livro. Podemos ainda citar a historiadora Michelle Perrot, cujas pesquisa no campo da história das mulheres são reconhecidas em todo mundo, que utiliza os quadrinhos da personagem Becassine, como fonte e referência em seu livro “Mulheres públicas”.


No entanto, nas escolas do ensino regular, a qualidade dos quadrinhos como fonte é normalmente desconhecida, quando não ignorada. Por essa razão, ao serem citados ao lado de outras mídias num capítulo de introdução à história, os quadrinhos tiveram seu status alavancado. Isso porque podemos acrescer aí o reconhecimento oficial do próprio estado, que já há algum tempo reconheceu os quadrinhos como um tipo de leitura indicada a crianças e jovens, enviando anualmente vários títulos para as bibliotecas escolares por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE).  No portal do MEC temos, inclusive, um breve texto justificando e indicando a leitura das HQs e sua presença nas bibliotecas escolares.


“A leitura de obras em quadrinhos demanda um processo bastante complexo por parte do leitor: texto, imagens, balões, ordem das tiras, onomatopeias, que contribuem significativamente para a independência do leitor na interpretação dos textos lidos. Além disso, o universo dos quadrinhos faz parte das experiências cotidianas dos alunos. É uma linguagem reconhecida bem antes de a criança passar pelo processo de alfabetização. ”


Agora para além da leitura, temos os quadrinhos como fonte e, portanto, objeto de reconhecido valor científico, não apenas por historiadores, mas um reconhecimento oficial que pode vir a ser importante tanto para a popularização do uso da fonte, mas, também para seu uso como recurso didático para professores nas salas de ala de todo o Brasil.


Fontes:
DIAS, Adriana Machado[et all]. Vontade de Saber: 8º ano: ensino fundamental: anos finais. - São Paulo: Quinteto Editorial, 2018.

PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 1998. 160 p.

Por que livros em quadrinhos foram incluídos no Programa Nacional Biblioteca da Escola?Portal do MEC. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/par/136-perguntas-frequentes-911936531/quadrinhos-do-pnbe-1574596564/282-por-que-livros-em-quadrinhos-foram-incluidos-no-programa-nacional-biblioteca-da-escola>. Acesso em 12 fev 2022.

VOVELLE, Michel. Imagens e Imaginário na História: fantasmas e certezas nas mentalidades desde a Idades Média até o século XX. São Paulo: Ed. Ática, 1997.