domingo, 11 de abril de 2021

ORGANIZANDO MEU ACERVO: ALGUMAS REFLEXÕES

Parte da minha coleção de livros teóricos sobre Histórias em Quadrinhos.

Hoje vou fazer uma postagem bem pessoal, mas que acho que pode trazer algum benefício aos colegas que, como eu, foram cultivando, aos poucos, suas coleções de livros e quadrinhos. Eu tento organizar meu acervo sempre que posso, embora nem sempre possa manter certa periodicidade pois, como quem tem uma biblioteca privada bem sabe, isso demanda uma quantidade de tempo da qual nem sempre dispomos no dia a dia. 

A certa idade, eu optei por me desprender daquilo que não é necessário, reservando um espaço apenas pelo que eu considero útil tanto para o meu trabalho na escola quando para fins de pesquisa. Posso dizer que estou mais pragmática e menos emocional com relação ao meu acervo. Por isso, de tempos em tempos eu reorganizo minhas coleções e reservo livros ou quadrinhos do quais não mais necessito para doação. 

Eu, normalmente, os repasso a ex-alunos ou conhecidos que sei que terão interesse e farão bom proveito. No caso da minha coleção de quadrinhos, eu a doei para a escola e a partir dela eu montei uma gibiteca, alimentada por outras doações de colecionadores que, como eu, resolveram abri mão de parte do seu acervo particular. Isso resolve, por exemplo, o problema do espaço, que é o principal tormento de quem não consegue se desapegar de suas coleções.

Parte da minha coleção de História do Brasil, já envolvida em papel filme.

Não tenho pudor em passar adiante obras que me fizerem companhia por muitos anos, nem mesmo aquelas cujos autores me fizeram dedicatórias. Sobre isso, antes eu tinha ressalvas, porque esses livros e quadrinhos possuem um valor emocional agregado a eles. Mas, por outro lado, qual autor não quer que sua obra seja lida por um número maior de pessoas? Doar livros é, também, uma forma não apenas de difusão de conhecimento mas, também, de dar evidência a autores e autoras.

Eu, naturalmente, valorizo minhas coleções, tanto que estou empregando, no momento, algumas técnicas de conservação de livros que aprendi recentemente com a amiga Valéria Aparecida Bari, num dos programas que gravamos para o canal da ASPAS - Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial, no Youtube (clique aqui se quiser conferir). 

A técnica consiste em envolver com papel filme meus livros e meus quadrinhos. Isso tanto possibilita a melhor conservação das obras como resolve dois problemas. O primeiro é o odor que o papel produz com o tempo e o envelhecimento. O segundo é com relação a limpeza, que fica mais fácil porque o pó não penetra nas laterais e nas páginas do livro. A limpeza fica mais fácil desta forma, e o ambiente do escritório mais apropriado para o trabalho, ainda mais em tempos de trabalho remoto. 

A pergunta que alguém certamente vai fazer, e que eu fiz: " - Mas e quando eu precisar do livro?" Bem, nesse caso, retirasse o plástico e depois coloca-se outro. Dá um certo trabalho, eu sei, mas normalmente não utilizo durante o ano nem 15% do meu acervo. O restante fica constantemente exporto à poeira e agentes biológicos que podem acelerar seu processo de degradação.

Parte da minha coleção de HQs, já com papel filme.

Optei por um sistema de classificação bem simples no qual eu estou organizando minhas coleções a partir de alguns critérios. Primeiro, autoria. Reúno obras do mesmo autor para ficar fácil encontrá-las. No caso das quadrinhos, não apenas autor(a), mas também procedência e gênero. Por exemplo, históricos, superaventura, mangás, manhwas. Optei por colocar o gênero acima da procedência então tenho, por exemplo, superaventura tanto em português quando em francês, grego, alemão e inglês.

Para os livros, eu adotei também o sistema de autoria, mas eles estão subdivididos de acordo com o tema. Livros de história geral, de teoria da história, de história do Brasil, de História das Mulheres, de Educação Patrimonial, Educação ou de Ensino de História e livros teóricos sobre quadrinhos. Percebi que isso facilita muito quando tenho que buscar por um tema especifico e me poupa muito tempo.

Mantenho obras raras e revistas acondicionadas em caixas, separadamente. No caso das obras raras, eu as envolvo com papel de seda, e pretendo manter assim, pois acho mais adequado do que o plástico. Cada um acaba criando seu próprio sistema, até porque num acervo particular, o proprietário faz as regras uma vez que ele será o único usuário.

Mas estou aceitando sugestões, principalmente para a conservação do acervo, que acho ser a parte mais importante. O papel está sempre sujeito a agentes externos e, muitas vezes, só nos damos conta de que uma obra começou a se deteriorar quando o processo já está adiantado. Assim, quem quiser deixar sugestões, elas são bem-vindas!

quarta-feira, 17 de março de 2021

SILENCIADAS: BRUXAS OU FEMINISTAS?


Uma das coisas que o Netflix trouxe de bom foi a variedade de opções de filmes e séries de diversos países. Em tempos de pandemia isso tem sido uma ótima opção, que faz com que a gente possa fugir das já batidas produções estadunidenses e conhecer outros tipos de cinema, descobrindo diretores, roteirista e autores talentosos que até então eram desconhecidos de boa parte do público brasileiro. Da mesma forma, produções brasileiras têm ganhado o mundo e conquistando fãs.

Dito isso, quero falar hoje sobre o filme, “Silenciadas”, uma produção do Netflix. Silenciadas foi dirigido pelo argentino Pablo Agüero e o roteiro é de Katell Guillo. O filme estrelado por Amaia Aberasturi (Ana), Alex Brendemühl (juiz Rostegui), Daniel Fanego (como Consejero), Garazi Urkola (Katalin), Yune Nogueiras (María), Jone Laspiur (Maider), Irati Saez de Urabain (Olaia), Lorea Ibarra (Oneka) e Asier Oruesagasti (Padre Cristóbal). É um filme histórico e, também, um filme que pode ser considerado feminista. Eu o assisti sem grandes expectativas e saí muito satisfeita, tanto com enredo de forma geral, quando com a atuação das atrizes, que protagonizaram a trama.

O filme se passa no início do século XVII, mais precisamente em 1609, numa vila de pescadores, no país Basco, e narra a história de um grupo de jovens mulheres que foram aleatoriamente acusadas de bruxaria, aprisionadas e condenadas como hereges por um inquisidor. A história é uma adaptação do livro "A Feiticeira", de Jules Michelet. Estima-se que por acusação de bruxaria, cerca de 100 mil mulheres podem ter sido executadas durante ao longo da história. O número pode ser até maior. Um verdadeiro genocídio de mulheres, tutelado pelo Estado.

O que mais me chamou atenção nessa produção foi o fato de não encarar as bruxas como seres sobrenaturais. Na verdade, a bruxaria em si não é o centro do debate, mas sim a arbitrariedade com a qual as mulheres são julgadas, sem direito à defesa. São culpadas por serem mulheres. Os homens as temem, isso é deixado bem claro pela narrativa. 

Silenciadas é também um filme que mostra a resistência dessas mulheres, agredidas e humilhadas, que encontram forças para se erguer contra seus opressores. Elas resistem cantando, resistem rindo, quando não há mais esperança, resistem ao desafiarem seus opressores e utilizarem seus medos e superstições contra eles mesmos. Não há como não querer se unir a elas contra o fanatismo e o preconceito.

Do ponto de vista histórico, é um filme que pode servir como referência para estudos sobre a caça às bruxas e a inquisição espanhola. Ele traz muitas boas referências e gira em torno dos mistérios do ritual do shabbat, festa profana que, segundo a Igreja Católica, as mulheres realizam para invocar o Diabo. Um ritual cujo imaginário foi construído ao longo da inquisição a partir de relatos de mulheres que, sob tortura, descreviam essa festa profana usando de toda a imaginação que pudessem acessar, a fim de colocar fim às longas sessões de tortura.

O shabbat foi posteriormente apropriado pela literatura, notadamente a feminista, como um símbolo de libertação das mulheres. Na França da década de 1970, por exemplo, uma das revistas feministas de maior destaque daquele período chamava-se Socières. Artistas como a quadrinista italiana Cecília Capuana, que publicou nas revistas Métal Hulant e Ah! Nana, neste período, utilizaram as bruxas como um símbolo feminino de rebeldia e libertação.

Por fim, algo que eu não posso deixar de comentar. Eu consultei alguns artigos e críticas ao filme antes de escrever a minha e, praticamente em todas elas, o filme está sendo colocado como se passando no século XV, durante a Idade Média. Um erro gravíssimo, pois a história se passa em 1609, portanto, século XVII, Idade Moderna e após a Reforma Religiosa. Não custa pesquisar um pouco ante de escrever a resenha de um filme histórico.

sábado, 13 de março de 2021

MULHERES OCULTAS NO CINEMA E NA VIDA REAL

No mês das mulheres, porque parto do ponto de vista compartilhado por alguns países de que março é o Mês da Mulher, eu resolvi assistir filmes, ler livros e quadrinhos que falem de mulheres e, se for o caso, comentar aqui no blog. Assisti três filmes até agora, todos no Netflix. Eu não sei se vou escrever sobre todos, mas pelo menos alguns eu pretendo pelo menos citar.

O primeiro filme que assisti foi "Mulheres Ocultas" (Little Big Women)filme taiwanês de maior bilheteria de 2020, estrelado por um elenco de mulheres maravilhosas e talentosas, liderado pela veterana de 81 anos, Chen Shu-fang, vencedora do Cavalo de Ouro de Melhor Atriz (o Oscar do cinema Chinês) pelo seu papel neste filme e ainda levou o prêmio de melhor atrás coadjuvante por outro filme, “Dear Tenant”.

Chen Shu-fang (2020)

O filme se baseia na experiência pessoal do diretor, Joseph Chen-chieh Hsu, e gira em torno dos rancores de uma mulher, a matriarca Lin Shoyng, abandonada pelo marido e que, após a morte dele tenta resolver seus rancores e aceitar a outra mulher, com a qual ele passou a viver. Um baita filme que questiona valores familiares tradicionais e envolve três gerações de mulheres.

Se eu pudesse resumir em uma frase, diria que o filme fala de reconciliação e de união entre as mulheres. Aqui, não se trata apenas da protagonista, interpretada por Chen Shu-fang, e cá entre nós, que atriz maravilhosa, mas de todas as mulheres que foram afetadas pelo caso extraconjugal do falecido patriarca da família.

Cartaz promocional do Netflix

O que eu achei muito interessante neste filme é que, apesar de ter sido baseado nas experiências de um homem, do diretor Joseph Chen-chieh Hsu, é um filme que trata com muita sensibilidade do que é ser mulher, não apenas em Taiwan, mas em todo mundo. Isso porque, certos tabus sociais são reproduzidos em menor ou maior escala em outros países, pelo menos com relação às mulheres. 

Não podemos deixar de dar mérito à roteirista roteirista Maya Huang , que junto com o diretor deu vida a essas mulheres. E falar de mulheres é mais do que correto em relação a esse filme: idosas, maduras e jovens, elas estão representadas lá. Falam de relacionamentos, sexo, sobre a vida e o que ela lhes oferece ou tira. O filme é um mergulho em dramas pessoais muito próximos daquilo que cada uma de nós pode viver um dia.

Eu gostei muito. Assisti com minha tia idosa e ela também gostou. Na verdade, ela confessou que foi o primeiro filme que ela assistiu comigo que gostou. Ela também se identificou em muitos momentos com os dramas das personagens. Acho que esse talvez seja o grande mérito da produção, que despretensiosamente nos chama a compartilhar as dores, alegrias e sofrimentos daquelas mulheres que poderiam ser nossas tias, amigas, vizinhas ou colegas de trabalho.  Não vou comentar mais, para não dar spoillers. Para quem quer variar um pouco dos filmes de ação ou suspense e das comédias românticas, fica a dica de um filme sensível e com boas atuações.

 

quinta-feira, 11 de março de 2021

AS "OUSADAS" E A MEMÓRIA DAS MULHERES NOS QUADRINHOS

Eu tenho utilizado dois termos com muita frequência em meus artigos sobre mulheres nos quadrinhos: "lugar de memória" e "lugar de fala". Lugar de memória porque muitos quadrinhos, notadamente aqueles feitos por mulheres, embora não necessariamente apenas por elas, têm trazido histórias de mulheres cuja memória ou foi esquecida ou não é conhecida pelo grande público ou pelo público mais jovem. Esses quadrinhos, a meu ver, são lugares de memória, e possuem uma função muito importante que é a de socializar conhecimento e colocar as mulheres no centro de vários debates, que vão além das pautas feministas.

Lugar de fala, porque por meio de quadrinhos, muitas autoras conseguem expressar suas ideias, seus sentimentos e compartilhar suas angústias. Não invariavelmente, quadrinhos de ficção são baseados em experiências de suas autoras, algumas delas traumáticas, e se tornam espaços nos quais elas compartilham com seus leitores e leitoras sua vivência, tornando os quadrinhos uma porta para o espaço privado. Dependendo do tipo de quadrinho e da interpretação do (a) leitor (a), muitas obras assumem estas duas características.

Neste sentido, eu gostaria de colocar aqui minhas impressões sobre os quadrinhos da francesa Pénélope Bagieu, publicados no Brasil em 2019 (vol. 01) e 2020 (vol.2), pela editora Nemo, “Ousadas: mulheres que só fazem o querem”. Trata-se de uma série de pequenas biografias de mulheres, trinta delas, se eu contei corretamente. Vou apontar aqui os pontos positivos da obra e o que eu não gostei, lembrando que eu estou partindo de um ponto de vista pessoal, mesmo que baseada em algum conhecimento teórico.

O primeiro ponto que eu destacaria aqui é a diversidade que caracterizou a obra, em vários sentidos. Diversidade temporal: mulheres de diversos períodos da história foram biografadas, desde a antiguidade até o século XXI. A autora não obedeceu uma ordem cronológica. Num momento estávamos no século VI no outro no XVII aí voltávamos para a antiguidade clássica. Não havia uma linha temporal estabelecida, o que pode parecer meio caótico para aqueles que são mais metódicos, mas que não atrapalha de forma alguma a leitura, uma vez que cada biografia independe da outra.

Temos ainda a diversidade espacial: Pénélope Bagieu nos leva a uma verdadeira viagem volta ao mundo, passando por todos os continentes. A autora teve muito cuidado em inserir o máximo possível de mulheres representando várias regiões e, também, diversas etnias. Elas são brancas, negras, ameríndias, asiáticas. São mulheres de credos orientação sexual diversos. Acima de tudo, temos na obra uma seleção de mulheres tão humanizadas que é difícil não se sentir próxima de algumas delas. Rainhas, médicas, zoólogas, xamãs, dançarinas, cientistas, exploradoras e donas de casa. 

Pénélope Bagieu fez uma pesquisa cuidadosa ao compor essas biografias. Ela consegue trazer de forma leve e bem-humorada, a vida dessas mulheres, que nem sempre era um mar de rosas. Muitas dessas mulheres sofreram formas de discriminação e violência física ou simbólica, seja pela sua aparência, sua origem social, sua etnia ou por serem diferentes de outras mulheres. Temos personagens autistas, refugiadas, mulheres revolucionárias esposas e mães dedicadas que têm em comum o fato de terem sido ousadas, ou seja, mesmo com todos os obstáculos elas “fizeram o que queriam”.

Uma leitura indicada para mulheres de todas as idades. E não apenas mulheres, homens deveriam ler, também, uma vez que essas personagens maravilhosas em toda a sua diversidade, são universalmente inspiradoras. Para quem quiser conferir, uma dica: eu comprei um box com os dois volumes e achei que ficou bem em conta. 

Agora o que eu não gostei. Embora o conteúdo e a qualidade do material ser muito bom, o formato que a editora escolheu, 24x17, dificulta a leitura. Isso porque a autora utiliza, também, letras cursivas nos quadrinhos, cuja leitura fica difícil e cansativa porque o tamanho da letra fez com que eu, em muitos momentos, ficasse presa a um quadro tentando enxergar o que estava escrito. A opção por um formato maior teria sido melhor para o leitor e aí, seria perfeito.

Por fim, quero abrir um parênteses para dizer que, no Brasil, este tipo de quadrinho biográfico, seguindo a mesma linha de "Ousadas", já vem sendo publicado. Temos, por exemplo, a HQ de Aline Lemos, "artistas brasileiras" (clique aqui para conferir) e "Divas brasileiras", de  Eduardo Ribas e Guilherme  Miorando (mais informações, aqui)


terça-feira, 9 de março de 2021

A NASCIMENTO DA IMPRENSA FEMINISTA NA FRANÇA

Clementine-Hélène Dufau,  La Fronde, 1898, cromolitografia, 99, 80 x 137, 80 cm, colecção privada©Direiros reservados

Estas revistas tiveram um aumento significativo entre as décadas de 1820 e 1850, com 97 títulos publicados. Entre 1870 e 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, mais 30 periódicos já haviam surgido[1]. Alguns com maior ou menor longevidade, a frequência e a quantidade com que estes periódicos – jornais e revistas – foram publicados na França, durante o século XIX e início do século XX, sinaliza para a formação de publico leitor notadamente feminino que vai se identificar com o conteúdo destas publicações que, apesar de trazerem representações idealizadas das mulheres, abrem espaço para que temas de seu interesse político e social possam ser lidos e debatidos a partir da troca de correspondência entre leitoras e editores (as).

A imprensa feminina francesa, desde sua gênese, esteve comprometida com a manutenção da ordem social e entoava, em sua maioria, um discurso alinhado com aquele do patriarcado. No entanto, ao dar voz às mulheres por meio da imprensa, esta mesma ordem social permitiu que as mulheres estabelecessem uma postura crítica com relação a certos comportamentos que limitavam sua inserção no espaço público e lhe impunham normas de decoro que, com o tempo e o surgimento do movimento feminista, passaram a ser questionadas e não toleradas.

Ao lado desta imprensa das mulheres, e alinhada aos grupos dominantes, surgiu no século XIX, uma imprensa feminista, que nasceu e cresceu a partir das revindicações de direitos políticos para as mulheres, que neste período tinham como pauta central o sufrágio. É preciso estabelecer as diferenças entre estas duas mídias, a partir de seus objetivos, para que possamos compreender seus papéis dentro da sociedade francesa.

A imprensa feminista é engajada e suas primeiras jornalistas tinham como princípio a crítica ao poder e eram motivadas pelo idealismo. As feministas têm consciência da importância e do papel da imprensa como instrumento formador de opinião. Segundo Perrot, elas se recusavam, por exemplo, a adotar o sobrenome do marido e assinavam apenas com seu primeiro nome[2].

Em agosto de 1832, começou a ser publicado o primeiro jornal feminista francês, La Femme libre, produzido e publicado por mulheres, sob a direção de  Marie-Reine (Reine Guindorfe) e Jeanne-Désirée (Désirée Véret), ambas pertencentes ao florescente movimento Saint-Simoniano[3]. O Movimento Saint-Simoniano era ligado ao socialismo utópico que surgiu no início do século XIX na Europa. Ele tinha como preocupação os papéis sociais e econômicos das mulheres na sociedade. Acreditava que homens e mulheres estavam envolvidos em uma grande rede social, mas eram inerentemente diferentes.  Em 1832 um grupo de mulheres cria uma dissidência dentro do movimento, Dessa dissidência nasceu o jornal La Femme libre[4].

Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:La-Femme-Libre-1-1832-b.jpg>. Acesso em: Acesso em: 18 set. 2018.

As mulheres Saint-Simonianas formaram uma organização feminista separatista com preocupações e objetivos pragmáticos, que envolvia principalmente o papel social e econômico das mulheres na sociedade.  Suas adeptas questionaram e exigiram mudanças na Lei de Família do Código Napoleônico e queriam a expansão das oportunidades educacionais e econômicas para as mulheres. Elas edificaram um movimento orientado para mulheres e liderado por mulheres.[5] Dentro desse movimento, o La Femme libre, que circulou até 1834, com 34 edições, teve um papel muito importante, criando um novo tipo de imprensa, no qual assuntos como moda e economia doméstica foram substituídos por temas profundamente políticos.

Muito do pioneirismo deste periódico vem da participação de mulheres que falam por si mesmas e não de homens que falam pelas mulheres. E, ao contrário do que aconteceu em outros periódicos voltados para o público feminino, as mulheres que colaboraram e ajudaram a manter financeiramente o La Femme libre eram mulheres do povo. Os custos de publicação foram financiados por costureiras e por assinantes. A independência financeira com relação aos homens possibilitava uma liberdade de expressão para as mulheres que até então não havia sido experimentada[6].

Não era para menos que o periódico tivesse em sua pauta reivindicações pelos direitos civis das mulheres, pela liberdade sentimental, amorosa e sexual[7]. O objetivo do jornal era, acima de tudo, conscientizá-las do seu poder transformador, com base em princípios de liberdade e igualdade[8]. Buscava-se o empoderamento feminino, já em princípios do século XIX, quando o feminismo ganhava seus primeiros contornos. 

Até o final do século muitos outros periódicos feministas iriam surgir na França, à medida que se fortaleciam as reivindicações das mulheres por participação política, igualdade de direitos e liberdade. Crescia o interesse pelo feminismo, o que seria posteriormente chamado de sua primeira onda, na França. Poder publicar em um jornal e expressar suas ideias políticas era uma forma de libertação para muitas mulheres, de vários segmentos da sociedade. Era poder participar da esfera pública, algo que por muito tempo lhe foi negado.

Marguerite Durand

Neste ínterim, um periódico feminista francês se destacou dos demais, La Fronde. Fundado por Marguerite Durand, ele circulou entre 1897 e 1905. Este foi o primeiro jornal feminista de circulação diária, embora posteriormente tenha se tornado mensal e era totalmente gerido por mulheres: não havia cargos na editoração e na produção, nem mesmo na tipografia, que não fosse ocupado por mulheres.  As mulheres que trabalhavam na sua  tipografia chegaram a fundar o Sindicato das Mulheres tipográficas, em 1899[9].

Foi o primeiro jornal feminista a ser bem sucedido, com uma tiragem significativa e um grande número de leitores. E isso se deveu muito à experiência de Marguerite Durand, uma das mais notáveis jornalistas francesas de seu tempo, que aderiu ao feminismo no final do século XIX. Durand começou sua carreira como atriz e depois de casada passou a se dedicar ao jornalismo. Escreveu para o La Presse, que era dirigido pelo seu marido, o advogado George Laguerre. Após o fim do seu casamento, trabalhou para Le Figaro e a seguir passou a militar em prol do socialismo e do feminismo criando  La Fronde[10].

Com La Fronde surgiu uma mídia impressa dentro dos padrões dos grandes jornais, onde temas feministas passaram a ser divulgados para o grande público, ou seja, saindo de um círculo fechado e limitado de leitores para adentrar em espaços onde os jornais abertamente militantes não penetravam. La Fronde mostrou a vivacidade de um jornalismo feito por mulheres, com compromisso com o profissionalismo e, ao mesmo tempo, com a luta engajada por direitos civis e políticos. O jornal possuía, segundo Sandrine Lévêque, um formato híbrido, no qual se apresentava como um jornal moderno, fiel às regras do mercado, e, ao mesmo tempo, uma empresa particular regida pelas regras e pelo idealismo da sua proprietária[11] Ele era, aparentemente, um jornal como os outros, dentro do modelo padrão do jornalismo francês, mas totalmente feito por mulheres.



[1] ZARMANIAN, Charlotte Foucher. Les femmes artistes sous presse. Les créatrices vues par les femmes critiques d’art dans la presse féminine et féministe en France autour de 1900, Sociétés & Représentations 2015/2 (N° 40), p. 111-127. Disponível em: < https://www.cairn.info/revue-societes-et-representations-2015-2-page-111.htm>. Acesso em: 22 set. 2018, p. 115.

[2] PERROT, Michele. Minha História das Mulheres.- São Paulo: Contexto, 2007,, p. 34.

[3] FERRANDO, Stefania, KOLLY, Bérengère. Le premier journal féministe. L’écriture comme pratique politique. La Femme libre de Jeanne-Désirée et Marie-Reine. in Thomas Bouchet et al., Quand les socialistes inventaient l’avenir, La Découverte.  Hors collection Sciences Humaines, 2015, p. 104.

[4] FORGET Evelyn L. . Saint-Simonian Feminism. Feminist Economics 7(1), 2001, 79–96. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1080/135457001316854737>. Acesso em 21 set. 2018, p. 89

[5] FORGET. Op. Cit., 2001, p.90.

[6] FERRANDO. Op. Cit., 2015, p. 105.

[7] PERROT. Op. Cit., 2007, p. 34.

[8] FERRANDO. Op. Cit.,  2015, p. 109.

[9] CHAIGNAUD, François. L’affaire Berger-Levrault : le féminisme à l’épreuve (1897-1905), Rennes, Presses universitaire de Rennes, 2009,p. 165.

[10] CHALIER,Isabelle.La création du journal La Fronde en 1897 par Marguerite Durand (2018). Retronews – Le site de presse de la BNF. Disponível em: <https://www.retronews.fr/journaux/long-format/2018/04/23/la-creation-du-journal-la-fronde-en-1897-par-marguerite-durand>. Acesso em 22 set. 2018.

[11] LÉVÊQUE, Sandrine. Femmes, féministes et journalistes : les rédactrices de La Fronde à l'épreuve de la professionnalisation journalistique. Le Temps des médias 2009/1 (n° 12), p. 41-53. Disponível em: < https://www.cairn.info/revue-le-temps-des-medias-2009-1-page-41.htm>. Acesso em: 23 set. 2018, p. 48.

sábado, 6 de março de 2021

O RAPTO COMO ESTRATÉGIA AMOROSA EM MINAS GERAIS

Imagem capturada em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/namoro-e-casamento-a-moda-colonial.phtml>. Acesso em: 06 mar. 2021.

Uma das estratégias amorosas mais comuns no século XIX, era o rapto. Jovens casais apaixonados fugiam na calada da noite, muitas vezes montados no lombo de cavalos, ou embarcando sorrateiramente em vagões de trens, na esperança de que, quando encontrados, a família da moça permitisse o casamento. Casos como este eram frequentemente narrados nos jornais.

Em cidades como Juiz de Fora (MG), por exemplo, os raptos eram frequentes e, não raramente, podia-se encontrar alguma nota ou mesmo um texto mais longo noticiando as aventuras e desventuras amorosas de jovens, na segunda metade do século XIX. O rapto geralmente era consentido pela moça, que atuava como coautora, mediante a promessa de casamento feita pelo enamorado, uma vez que, após a fuga, suas chances de matrimônio com ouro homem ficariam comprometidas.  

A Gazeta de Leopoldina, de 27 de setembro de 1896, do município e Leopoldina (MG), vai trazer um texto (incompleto) sobre um destes casos. Este periódico, em particular, não costumava dedicar, ao menos neste período, espaço para este tipo de notícia, que envolver relações familiares e afetivas, que não são encontradas com tanta frequência como nos jornais de Juiz de Fora. O caso envolve uma moradora do distrito e Providência. Leia um trecho da transcrição do caso:

“O indivíduo de nome Paulino Antônio da Silva, raptou no distrito da Providência, deste município, a menor Izabel, e contava fazer com ela vida comum sem dar menor satisfação ao juiz de paz e ao padre da freguesia. Para realizar tão venturosos planos, escolheu no próximo município de Cataguases, uma poética moradia. As autoridades dali, porém, que não dormem, acharam felicidade demais para este mundo de dores e privações e engaiolaram os felizes viventes. Verificado o defloramento, e sendo o fato realizado neste município, foram enviados ao enérgico temente Pimenta, digno delegado de polícia, não só os papeis referentes assim como os felizes fugitivos. ”[1]

O texto, é encerrado abruptamente, não havendo sequência, pelo menos não nesta edição, mas este pequeno trecho nos traz muitas informações acerca desta estratégia amorosa. Dados como a idade do autor do rapto e sua ocupação não estão presentes, mas, supõe-se que seja um homem adulto e que tenha certa ocupação visto que havia conseguido uma casa para viver com a moça.

O rapto foi detalhadamente planejado. A menina, menor, foi levada para outro município, Cataguases (MG), no qual o autor, Paulino Antônio da Silva, já havia preparado uma casa para coabitação do casal. Reparem que o texto descreve o evento de forma jocosa, quase como se fosse uma piada, o que de certa forma ameniza o fato do casal ter realizado um ato que desafiava o pátrio poder, ou seja, a autoridade do homem, o pai, sobre as mulheres da sua família.

A comprovação do defloramento é uma forma de conseguir a efetivação do casamento do casal, que poderia ser realizado na delegacia, sob ordens do delegado. Este era, em geral, o objetivo do rapto, o casamento, uma vez que os pais da moça não conseguiriam depois do incidente e comprovado o defloramento que ela conseguisse um bom casamento na sua localidade. Mas isso não era necessariamente uma regra. Nem sempre o raptor tinha relações sexuais com a moça, que era simplesmente levada para a casa de outra pessoa, local no qual ficava escondida, aguardando o desfecho da situação. O casamento, então, deveria ser feito às pressas para se preservar a honra e o nome da família[2].

Quem eram essas moçar que aceitavam participar desses arranjos? Segundo Mary Del Priore,

“Eram moças a quem os pais não consentiam o casamento e afirmavam seu direito de amar, independentemente das situações de raça, dinheiro ou credo. Segundo ele, essas fugas de novela marcam o declínio da família patriarcal e o início da família romântica. Nela, a mulher começava a fazer valer seu desejo de sexo e de querer bem. ”[3]

Era comum e usual o arranjo matrimonial entre as famílias mineiras, nos séculos XIX e em parte do século XX. As mulheres eram utilizadas como “moeda” de troca, em acordos familiares. A fuga de jovens apaixonados, desafiava a regra geral estabelecias pelo pátrio poder e pode ser considerada uma estratégia de resistência, tanto por parte das mulheres, quando por parte dos homens, muitas vezes obrigados a uma união baseada em relações de reciprocidade entre famílias. O memorialista Pedro Nava, por exemplo, narrou um destes casos em suas memórias, no qual Regina, filha de Luiz da Cunha, bisavô de Nava, planejou fugir com seu primo Chico Horta, para casar-se, em 1858[4].

O rapto poderia envolver jovens de grupos abastados e oriundas de classes subalternas. Entre dos grupos de elite a possibilidade de escolha de um cônjuge era muito reduzida e, muitas vezes, o casamente entre primos ou parentes próximos era uma forma de manter e aumentar a fortuna o poder da família. É o que Mônica Junqueira chamou casamentos consanguíneos. Era uma forma de reprodução social, na qual bens materiais e simbólicos circulavam entre famílias importantes e garantiam a perpetuação de seu patrimônio político e social.

Esses casamentos, além de reforçarem o patrimônio da família e afastarem o “fantasma” da falência, permitiam a solidificação das relações, que não passavam somente por um contrato comercial entre devedor e seus credores, como um negócio de família, cuja fortuna e sangue não se dispersavam. Como os esposos, graças ao pátrio poder, possuíam a autoridade de chefes de família, administravam as heranças de suas esposas, possibilitando cada vez mais, o fortalecimento do patrimônio familiar”.[5]

Segundo Mary Del Priore, entre as pessoas mais simples o afeto e o amor possuem um papel importante no casamento e os padrões morais eram mais flexíveis.[6] Mesmo que entre as classes subalternas muitos arranjos matrimoniais fossem baseados em relações de reciprocidade, e buscava-se casamentos que pudessem trazer para a família da noiva, principalmente, algum ganho material, havia certa liberdade entre os jovens de propor casamento a sua amada, com alguma chance de sucesso.

Mas nem sempre os raptos terminavam em casamentos felizes e, em muitos casos costumavam envolver homens já casados que seduziam jovens solteiras com promessas que não pretendiam cumprir. Temos ainda casos nos quais um homem promove o rapto de mais de uma mulher, como ocorreu em Cataguases, em, 1906, quando um homem raptou três mulheres com o objetivo de estabelecer uma relação poligâmica.[7] Além disso, havia casos de raptos sem consentimento da moça, que se via obrigada a casar com um agressor sexual, com o qual deveria permanecer o resto de sua vida.


[1] Rapto. Gazeta de Leopoldina. Leopoldina, 27 de setembro, 1896, nº 17, p. 02.

[2] DEL PRIORE, Mary. História do Amor no Brasil. – São Paulo: Contexto, 2005, p. 148.

[3] DEL PRIORE, Op. Cit., 2005, p. 147

[4] NAVA, Pedro. Baú de Ossos. – 6ª ed – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p 121.

[5] OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Negócios de família: mercado, terra e poder na formação da

cafeicultura mineira. 1780-1870. Bauru – SP: Edusc; Juiz de Fora, MG; FUNALFA, 2005, p. 168-9.

[6] DEL PRIORE, OP. Cit., 2005, p. 159.

[7] Jornal do Commercio, Juiz de Fora, 08 de maio de 1906, ano XI, n 2944, p. 02.


quinta-feira, 4 de março de 2021

BIOGRAFIA ILUSTRADA DE JERÔNIMA MESQUITA


No dia 23 de fevereiro de 2021 foi lançada, em Leopoldina (MG), uma biografia ilustrada de Jerônima Mesquita, personagem muito importante, mas nem sempre lembrada, da História das Mulheres no Brasil. Nascida no Município de Leopoldina, no final do século XIX, Jerônima Mesquita foi uma figura destaque no  movimento sufragista brasileiro, tanto que o Dia Nacional da Mulher, 30 de abril, foi criado em sua homenagem.

A obra "A Mulher que empoderava mulheres" escrita pela professora Natália Montes e ilustrada pela artista plástica Simone M. Campos faz uma leitura biográfica da vida de Jerônima Mesquita numa linguagem acessível e clara. A obra é direcionada ao público infantil, ao qual é preferencialmente recomendada. 

Eu poderia definir essa obra como apenas com uma palavra "sensível". As ilustrações são de um frescor impar e comungam muito bem com o conteúdo. Embora seja um livro infanto-juvenil recomendo sua leitura não apenas para crianças mas também para jovens e adultos. E não apenas de Leopoldina, mas de todo Brasil, afinal Jerônima Mesquita é uma mulher que representa todas as mulheres, de todo o Brasil.

Como não é obra de distribuição nacional, não vai ser encontrada em livrarias, mas quem tiver interesse, pode entrar em contato com a autora pelo e-mail: nataliamontes76@gmail.com

COMENTANTO O DORAMA MR QUEEN - 철인 왕후

Depois que passe a assistir séries do leste asiático (os dramas ou doramas) eu fui várias vezes surpreendida com programas muito acima da média daqueles que eu estava acostumada a assistir. Devo muito isso ao Netflix que disponibilizou uma grade de programação muito rica, que engloba filmes e séries de todo o mundo e que ampliou meus horizontes culturais. E não me refiro aqui apenas a dramas sul-coreanos ou chineses, mas também tailandeses e também de outros países como França, Espanha, Irã, filmes africanos de ótima qualidade. Eu se desprendi das produções estadunidenses e foi como enxergar um novo mundo com novas cores.

De atores excelentes a cenários deslumbrantes, é como viajar pelo mundo sem sair de casa, conhecer outras formas de pensar, identificar formas de resistência e várias representações sociais. E como estamos vivendo uma época transmidiática, uma coisa puxa a outra. A gente começar assistindo séries e filmes, passa a se encantar pela música, a se interessar por games e a ter contato com produções literárias e outras formas de narrativas como quadrinhos que não sabíamos que existia. Junte-se a isso um profissionalismo que merece ser aplaudido de pé, de roteiristas e diretores que conseguem fazer um excelente trabalho com um orçamento muito menor do que qualquer produção média de Hollywood.

Dito tudo isso, eu gostaria de comentar a grande surpresa deste ano que foi o K-drama "Mr. Queen" (철인 왕후), com 20 episódios e mais dois episódios extras, exibidos entre 12 de dezembro e 14 de fevereiro, que eu assisti no Viki. Pois é, infelizmente não está no Netflix, quem sabe no futuro? Já vou adiantando que vou fazer comentários que podem conter spoillers, porque talvez seja difícil falar sobre a drama sem entrar em certos detalhes. Vamos começar pelo título. "Mr. Queen", que é genial e não está escrito errado. 

Baseado no drama da web chinês Go Princess Go, conta as aventuras de um renomado cozinheiro chamado Bong-hwan, que após um acidente vê sua alma sendo transportada no tempo e aprisionada no corpo da infeliz rainha Cheorin na Era Joseon (uma monarquia fundada por Taejo Yi Seong-gye que existiu entre 1392 e 1897). Ou seja, um homem preso no corpo de uma mulher. Pode até parecer que não há nada de extraordinário nisso, mas a coisa não era tão simples assim. A alma da rainha ainda estava lá, ou seja, Bong-hwan compartilha com ela memórias e sentimentos, inclusive a paixão não correspondida que ela tinha pelo rei.

Em meio a tramas políticas e muitos, mas muitos momentos de humor inteligente, temos uma narrativa que simplesmente não deixa furos e que consegue abordar de forma muito interessante questões como, por exemplo, a identidade de gênero. Isso porque Bong-hwan está sob comando do corpo da rainha, mas ela aos poucos vai se manifestando e assumindo controle em alguns momentos, chegando ao ponto de que o cozinheiro não sabe ao certo o quais são seus pensamentos/sentimentos e quais são os dela.

E imaginem a confusão e as cenas hilárias que são produzidas pelas ações de uma mulher do século XIX, que viveu toda uma vida sob rígido controle, que agora tem seu copo possuído por um homem do futuro? A rainha promove uma verdadeira revolução no palácio e na vida do rei e literalmente muda o futuro. Junte-se a isso um figurino de época muito bonito e uma fotografia esmerada.

Além disso, vários temas atuais são discutidos. Há questões políticas relevantes assim como questões culturais e geracionais. O roteiro é muito rico em referências que fazem este drama histórico muito próximo do presente. E vamos falar dos atores. Dos protagonistas Shin Hye-sun (Rainha Cheorin) e Kim Jung-hyun (O rei Cheoljong) ao elenco de apoio não há um que não tenha desempenhado bem seu papel. 

Mas não há como negar que Shin Hye-sun tenha sido o maior destaque. A atriz realmente deu vida ao personagem de uma forma que eu nunca havia visto. Atuação perfeita do início ao fim. De todos os doramas que assisti nos últimos seis meses eu acredito que esse tenha sido o melhor, de longe, em todos os quesitos. Aliás, e não sou só eu que acho. A audiência do programa foi uma das melhores do país, chegando a 17,371% dos expectadores do país, o que não é pouca coisa.

É bom lembra que se trata de uma obra de fantasia que não tem compromisso com a fidelidade histórica e dá outros rumos à vida do rei e da rainha que lá são apresentados como protagonistas. mas há um cuidado muito grande na pesquisa do figurino, na escolha dos cenários e em outros detalhes. O drama vai, por exemplo, introduzir gírias e expressões modernas que não fazem parte do contexto no qual a narrativa se desenrola (século XIX). 

terça-feira, 2 de março de 2021

A IMPRENSA DAS MULHERES NO SÉCULO XIX NA FRANÇA

Página do Journal des dames et des modes, 1830

Pinterest. Imagem disponível em: https://br.pinterest.com/pin/208432288981056862/. Acesso em: 18 set. 2018.


Desde que os primeiros jornais começaram a circular na França, as mulheres letradas passaram a ter acesso ao seu conteúdo. Eram, no entanto, jornais voltados para o interesse dos homens e que não consideravam as mulheres como um público leitor em potencial.  Mas no século XVIII surgiram os primeiros periódicos destinados ao público feminino, apesar de obedecerem a uma pauta editorial específica e restrita, ditada pelos homens.

Um dos primeiros periódicos voltado para as mulheres foi o Journal des Dames[1], fundado por Thorel Campigneulles, o periódico que circulou em Paris entre os anos de 1759 e 1778.  O Journal des Dames era um jornal literário criado para incentivar as mulheres a escreverem[2]. Era uma publicação que abria espaço não apenas para a expressão feminina, através de suas editoras, como, também, externava a preocupação com a educação das mulheres. Outros periódicos seriam publicados na França, mas com uma linha editorial diferente. 

O periódico teve três editoras, dentre elas Madame Beaumer, ferrenha defensora dos direitos das mulheres.  Em um editorial publicado em março de 1762, defendia  o Journal des Dames de seus críticos e também as mulheres enquanto protagonistas sociais. Segundo Madame Beaumer, o sucesso do jornal incomodava os homens que insistiam em não reconhecer a capacidade das mulheres de escrever e ter opinião. 

Com um tom duro contra os detratores do periódico, Madame Beamer defendia o direito das mulheres de se expressarem em público e de participarem da cultura letrada. Ela foi a “primeira jornalista das damas”. A partir dela o Journal des Dames assumiu um discurso não conformista e até mesmo radical. Sobre a vida de Madame Beamer sabe-se muito pouco. Ela se destacou pela sua militância política a favor dos pobres e oprimidos, por justiça social, pela maçonaria, tolerância religiosa, por uma república livre e pela paz mundial[3]. 

Segundo Michele Perrot, a primeira imprensa das mulheres a formar-se no país foi voltada para a moda e outras atividades consideradas de interesse feminino. Elas ficam confinadas a publicações direcionadas a jovens e mulheres e a temáticas superficiais, que não demandavam grande esforço. A profissão de jornalista permanecia restrita para grande parte das mulheres que, mesmo colaborando com periódicos já desde o século XVIII, na França, ainda não tinham o direito de se profissionalizar como jornalista . A primeira mulher a reivindicar para si o jornalismo como profissão, foi Jeanne Deroin, em 1850, durante o julgamento da l’Union des Associations (União das Associações), quando vinte pessoas foram acusadas de atividades socialistas ilegais. Quando indagada de sua profissão ela responde: professora e jornalista[4]

Em 1797, surgiu aquela que é considerada a primeira revista de moda ilustrada francesa, o Journal des Dames et des modes, que circulou até 1839.  Este tipo de impressa cresceu e se desenvolveu ao longo do século XIX, sob a égide da II Revolução Industrial, que favoreceu o surgimento de uma pequena e média burguesia que queria se distinguir por meio da elegância de seus trajes e que impulsionou a indústria da moda. 

Durante a Revolução Francesa, os elementos que dentavam distinção social com vestuário, linguagem, comportamentos, deferência e títulos foram sendo abandonados, uma vez que eram mal vistos pelos revolucionários. Era difícil definir a origem social dos indivíduos, por exemplo, pela sua vestimenta[5]. Segundo Denise Davidson, periódicos como o Journal des Dames et modes tinham a função social de ensinar esta nova burguesia a se comportar, se vestir e criar uma nova identidade social[6]. Publicações como o Journal des dames et des modes cumprem parcialmente essa função para aquelas mulheres que não o sabem fazer sozinhas. 

Era a burguesia francesa construindo a sua identidade após a tomada do poder e a consolidação de suas conquistas com a revolução. O crescimento desta indústria levou à formação de um mercado de consumo direcionado especificamente às mulheres, com produtos que passaram a ocupar espaço nas vitrines das lojas e dos boticários. 

Mas as mulheres acabaram se apropriando destas revistas para tratarem de temas de seu interesse como foi o caso do Journal des demoiselles, fundado em 1833 por Jeanne-Justine Fouqueau de Pussy, destinado a meninas com idade entre 14 e 18 anos. Michele Perrot cita a publicação em seu livro Minha História das Mulheres (2007), onde destaca a tese de doutorado de Christine Léger, defendida em 1988, que analisa a publicação e seu papel na educação de meninas no século XIX. O Journal des Demoiselles destacou-se por ser uma publicação mensal composta, escrita e mesmo parcialmente financiada por mulheres. Na revista podia-se observar, segundo Michele Perrot, um desejo de emancipação das mulheres pela educação e pelo trabalho. A revista aconselhava jovens a estudarem, por exemplo, outros idiomas, pois a tradução era uma profissão conveniente para a mulher[7]

Ao resenhar a tese de Léger, para a revista Romanisme (1992), Perrot chama a atenção para as formas de valorização da mulher, enquanto sujeito social, que eram apresentadas no periódico por meio de biografias de mulheres notáveis e novas representações, por exemplo, do casamento, que aparece como sendo uma escolha da mulher, a quem se aconselha que seja por amor, mais igualitário e com esposas mais ativas e independentes, Há ainda a preocupação em preparar as meninas para a inserção no mercado de trabalho, através de profissões como a de ilustradora, que aparece como outro meio de subsistência e de independência financeira[8]

Atividades como a tradução e a ilustração poupavam as jovens mulheres do convívio com homens em um espaço de trabalho fechado, pois poderiam ser desenvolvidas no espaço privado. Ao longo do século XIX em países como França, Estados Unidos e Suécia, a ilustração como atividade remunerada foi desejada e abraçada por muitas jovens, sendo que algumas delas se destacaram na nascente indústria cultural do século XIX. 

Esta nascente imprensa das mulheres gira em torno de dois eixos: educar a juventude e formar um novo mercado consumidor para os produtos destinados ao consumo feminino. Em sua maioria são periódicos de tom moralista e conservador, embora exista um discurso latente de valorização da mulher e uma demanda por direitos civis e políticos. Mesmo nas publicações mais inocentes, ao mesmo tempo em que se exige o recato também há a preocupação de se elevar a autoestima feminina, em maior ou menor proporção, de acordo com a orientação editorial do periódico.



[1] PERROT, Michele. Minha História das Mulheres.- São Paulo: Contexto, 2007, p. 33

[2] BEAUMER. Editorial, Journal des Dames (march 1762). Disponível em: <http://chnm.gmu.edu/revolution/d/471/>. Acesso em: 20 set. 2018.

[3] DAVIS, Zemon Natalie, FARGE, Arlette (editors). A History of Women in the West – II Renaissence and Enlightenment Paradoxes. 2º ed.- London: Havard Univesity Press, 1993, p. 428.

[4] PRIMI, Alice. La “porte entrebâillée du journalisme”, une brèche vers la Cité ?  Femmes, presse et citoyenneté en France, 1830-1870 », Le Temps des médias 2009/1 (n° 12), p. 28-40. Disponível em: <https://www.cairn.info/revue-le-temps-des-medias-2009-1-page-28.htm>. Acesso em 23 de setembro de 2018, p. 28.

[5] DAVIDSON, Denise, « L’identité politique et sociale au quotidien, 1795-1815 », Annales historiques de la Révolution française [En ligne], 359 | janvier-mars 2010, mis en ligne le 01 mars 2013. Disponível em: https://journals.openedition.org/ahrf/11497>. Acesso em: 20 set. 2018, p. 162.

[6] DAVIDSON. Op. Cit, 2013,  p. 171.

[7] PERROT, OP. Cit., 2007, p. 33

[8] PERROT, Michelle. Christine Léger, Le Journal des Demoiselles. In: Romantisme, 1992, n°77. Les femmes et le bonheur d'écrire. pp. 101-102. Disponível em: <www.persee.fr/doc/roman_0048-8593_1992_num_22_77_6060>, acesso em: 20 set. 2018, p. 102.