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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

A CRIATURA DE GYEONGSEONG E OS CRIMES DE GUERRA DO JAPÃO

Nosso conhecimento sobre os crimes cometidos por nações do EIXO durante a Segunda Guerra Mundial é geralmente centrado na Alemanha e em seus campos de extermínio, que levaram milhões de pessoas inocentes à morte. Livros de história e obras e ficção trouxeram horríveis experimentos que os nazistas fizeram com pessoas de todas as idades, experimentos que começaram antes mesmo do início da guerra. No entanto, pouco estudamos ou falamos sobre os crimes cometidos pelo Japão.

 

Devo confessar que, mesmo com formação em história, foi somente por meio de quadrinhos como "Grama", cuja a narrativa gira em torno da escravidão sexual de mulheres pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, e de séries dramáticas como "Mr Sunshine", que levanta o tema da resistência armada e a luta pela independência da Coreia durante a dominação japonesa, que eu comecei me interessar e a estudar uma parte da história do Leste Asiático.  


Recentemente eu assisti a primeira parte de um o drama histórico lançado pela Netflix, em dezembro de 2023, chamado “Gyeongseong Creature” (A criatura de Gyeongseong), uma obra de suspense e de ficção científica, que fala sobre experimentos conduzidos por médicos japoneses em laboratórios secretos, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi a partir desse programa de TV que acabei conhecendo mais uma história lamentável da Segunda Guerra Mundial, cuja barbárie atualmente vem sendo enaltecida por pessoas de pouco conhecimento e nenhuma sensibilidade.

 

No drama, a população civil de regiões colonizadas era exposta a experimentos com o objetivo de criar uma mutação capaz de ser usadas na guerra contra os aliados. Monstros criados em laboratório. "A criatura de Gyeongseong" é uma obra ficcional, repleta de exageros necessários para compor a narrativa fantasiosa, mas que se baseia em fatos históricos.


Em 1935, o governo japonês fundou a Unidade 731, uma unidade secreta de pesquisa e desenvolvimento de guerra biológica e química do Exército Imperial Japonês que realizou experimentação humana letal durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e parte da Segunda Guerra Mundial. Foi oficialmente conhecido como o Departamento de Prevenção de Epidemia e Purificação de Água do Exército de Guangdong. O nome "Unidade 731" foi oficialmente adotado em 1941.


A Unidade 731 era comandada pelo Tenente General Shiro Ishii, responsável por vários de crimes de guerra. O General Shiro Ishi era um cirurgião formado pela faculdade de medicina na Universidade Imperial de Kyoto. Ele entrou para o Exército Imperial Japonês como de Cirurgião do Exército. Antes de iniciar sua pesquisa com seres humanos na Unidade 731, Shiro Ishii viajou para a Europa para estudar armas biológicas e guerra química. Ele foi a versão japonesa de Josef Mengele, responsável pelos experimentos com prisioneiros realizados no campo de Auschwits, na Alemanha.


Estima-se que cerca de 250 a 300 mil pessoas foram submetidas a experimentos realizados pela Unidade 731, sendo que a maioria das vítimas era chinesa. Havia ainda soviéticos, mongóis, coreanos e pessoas pertencentes a países que opunham ao EIXO. Eles foram usados como cobaias para testes de armas bacteriológicas e outros experimentos. O maior número de mortes no campo de  Pingfang era de chineses (70%) e soviéticos (30%). A unidade funcionou até o final da guerra, em 1945.

 

Unidade 731 - foto atual

Os experimentos realizados envolviam armas ou procedimentos que poderiam ter uso na guerra. Por exemplo: em câmaras refrigeradoras, prisioneiros eram submetidos a temperaturas de até 50 graus celsius negativos para que os médicos pudessem descobrir a melhor maneira de tratar soldados japoneses que tivessem membros congelados durante batalhas no frio.  Para descobrir o que aconteceria a pilotos japoneses caso os aviões dessem pane os cientistas colocavam prisioneiros em centrífugas superpoderosas, onde ficavam rodando até morrer. Testavam bombas com bactérias ou com pulgas infectadas com peste bubônica ou febre tifoide foram jogadas sobre vilarejos chineses. Autópsias eram realizadas com pessoas vivas. E tudo foi minuciosamente registrado em desenhos científicos detalhados. Não foi por nada que a Unidade 732 ganhou o apelido de “Auschwitz asiática”.

Algumas dessas experiências são mostradas no drama, assim como os laboratórios nos quais pode-se ver, por exemplo, órgãos humanos, fetos e até cabeças dentro de vidros com formol. Aparecem também experiências feitas com crianças, que recebiam diariamente injeções e muitas delas desenvolviam doenças que as levavam a óbito. Muitas das experiências eram tão macabras que descrevê-las é difícil. Citei apenas algumas, mas para quem quiser saber mais, eu deixarei o link dos sites que eu consultei para elaborar este texto.

Com a derrota do Japão na guerra, Shiro Ishii encenou a própria morte para fugir do exército dos Estados Unidos, mas acabou sendo descoberto. No entanto, ele negociou sua liberdade em troca do conhecimento que reuniu em suas experiências na Unidade 731. Nem ele nem outros médicos que trabalharam na sua equipe chegaram a ser presos.

A China chegou a produzir um filme sobre a Unidade 731, “Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana” (Men Behind the Sun), de 1988. O diretor Tun Fei Mou que usou como locação o verdadeiro quartel general do 731, na província de Habin, na Manchúria. Em “A criatura de Gyeongseong” o campo é citado, mesmo que indiretamente. No drama, após o fechamento de um laboratório na Manchúria, as experiências teriam continuado na Coreia, que na época ainda chamava-se Joseon. De fato, o Campo 731 não foi o único local no qual experimentos eram realizados, mas ele foi o modelo seguido por outros laboratórios espalhados por outras regiões.

Por fim, uma coisa que  me chamou atenção no drama, foi a forma como os japoneses tratavam as populações dominadas. O desprezo, o ódio e a xenofobia estão presentes nas relações com outro de uma forma nauseante. Os japoneses alimentaram seu exército com homens recrutados em regiões dominadas, que eram obrigados a lutar pelo Japão e eram frequentemente vítimas de humilhando dentro do exército. Eram desprezados e ensinados a desprezar seus pares. Os japoneses reproduziam o mesmo pensamento de superioridade racial que considerava outros povos asiáticos inferiores moralmente e biologicamente. Esse tipo de comportamento que foi incentivado entre japoneses é bem representado na série, dando uma ideia de como dolorosa foi a dominação japonesa na primeira metade do século XX.


Mergulhar na cultura asiática tem sido um balde d'água fria em muitos sentidos, principalmente o histórico. Há histórias lá que deveriam ser de conhecimento de todos, há situações que merecem receber atenção mundial. Violência contra a mulheres e população LGTBQI+, xenofobia, alcoolismo, violência escolar e suicídio. O Leste Asiático está submerso em uma série de mazelas que podem ser explicadas por uma história marcada pela escravidão e pelas disputas imperialistas, que envolvem não apenas países da região mas, também, nações europeias e os Estados Unidos. Uma história marcada por violência e que reproduziu ao longo do tempo essa mesma violência.

 

Ao falar sobre os crimes de guerra do Japão não é necessariamente um ataque ao país ou a seu povo. Os japoneses também formam vítimas de seu próprio governo. Homens, forçados a servirem ao exército e a cometerem crimes horrorosos. Mulheres japonesas pobres foram escravizadas sexualmente e transformadas em prostitutas a serviço do governo. A intenção aqui é alertar para o fato de que estes crimes aconteceram e podem se repedir enquanto for alimentado um discurso belicoso e de ódio, discurso este que vem crescendo nos últimos anos. O Japão e a Alemanha da Segunda Guerra Mundial devem ser o exemplo do que não queremos para o nosso presente e, muito menos, para o nosso futuro.

 

REFERÊNCIAS

BROLIA, MARCOS(2014). 550 – Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana (1988). Disponível em: <https://101horrormovies.wordpress.com/2014/10/23/550-campo-731-bacterias-a-maldade-humana-1988/>. Acesso em 27 dez. 2023.

DRUMMOND, Pedro (2021). Uma Auschwitz Na Ásia: O Japão E Sua Macabra Unidade 731. Disponível em <https://historiamilitaronline.com.br/index.php/2021/03/25/uma-auschwitz-na-asia-o-japao-e-sua-macabra-unidade-731/>. Acesso em 27 dez. 2023.

LIMA, Claudia de Castro e (2016). Os terríveis experimentos japoneses com prisioneiros chineses. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/os-terriveis-experimentos-japoneses-com-prisioneiros-chineses?utm_source=google&utm_medium=cpc&utm_campaign=eda_super_audiencia_institucional&gad_source=1&gclid=CjwKCAiAs6-sBhBmEiwA1Nl8szaLjur5cAhvqZa2Qh_JYx61FHbUcPHbIxPuDh92DPHM3tWzLgSA5RoCi38QAvD_BwE>. Acesso em 27 dez. 2023.

PISSURNO, Fernanda Paixão. Unidade 731. <https://www.infoescola.com/historia/unidade-731/#google_vignette>. Acesso em 27 dez. 2023.

PREVIDELLI, Fábio. Unidade 731: o antro japonês de experimentos em humanos durante a 2ª guerra. Disponível em: < https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-o-que-foi-a-unidade-731.phtml>.

UNIDADE 731. Wikipedia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Unidade_731>. Acesso em 27 dez. 2023.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

INTRODUÇÃO À HISTÓRIA LOCAL: LEOPOLDINA, OCUPAÇÃO E POVOAMENTO

 


Este ano comecei um projeto com a amiga e colega de trabalho Luciene Nunes Silva. Preparamos um curso, dividido em três módulos, para professores e professoras do ensino fundamental, primeiros anos, do município de Leopoldina. O primeiro módulo foi oferecido em outubro. O curso consiste numa formação básica para o ensino de história local. O objetivo é, não apenas, oferecer informação para os e as docentes mas, sobretudo, introduzi-los no uso de conceito relacionados à história e de documentos que podem ajudar a complementar o ensino da história loca.

Para isso elaboramos um material inédito sobre a História de Leopoldina, que foi oferecido na forma de e-book.  O primeiro e-book (serão 3 volumes) se ocupou de questões ligadas à ocupação e formação da Zona da Mata e ficou divido nos seguintes tópicos:

1.  Os primeiros habitantes de Leopoldina: características dos Puris e dos Coroados e  sugestão de atividades em sala de aula.
2. O mito de origem: a Lenda do Feijão Cru.
3. A ocupação do território: a criação do município; trabalhando história a partir de mapas.
4. Quem foi a Princesa Leopoldina? -  Trabalhando a biografia e a escrita de si nas aulas de história
5.  O jornal como fonte para aulas de história

Para os próximos módulos, que vão acontecer nos meses de abril e agosto (datas ainda não definidas) iremos explorar outros aspecto da história local como política, sociedade, arte, cultura, educação e saúde, procurando trazer material inédito que possa não apenas atualizar conteúdo como, também, permitir aos professores e professores a oportunidade de ter acesso a informações que dificilmente serão encontradas de forma ordenada na internet.

Diferente do que muita gente acredita, não é fácil e muitas vezes nem é possível, encontrar material sobre conteúdos relacionados à história local na internet. Isto porque trata-se de temas específicos que são condicionadas à um produção historiográfica que pode não estar disponível na rede ou mesmo  não existir. Tendo isso em mente, oferecemos o curso para a Secretaria Municipal de Educação de Leopoldina e fomos prontamente atendidas. Esperamos que nos próximos módulos passamos aprofundar junto aos professores.

Quem tiver interesse pode acessar o livro clicando aqui!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

PROJETO VARAL DE MEMÓRIAS


Este ano eu emplaquei vários projetos mas não consegui separar tempo para registrar, em palavras escritas, nenhum deles. Vou aproveitar o final do ano para fazer isso. Projetos, resenhas de livros e de quadrinhos, pretendo colocar tudo em dia em dezembro e janeiro. 

Vou começar com o projeto que eu desenvolvi recentemente na E. M. Judith Lintz Guedes Machado, Leopoldina (MG) e que recebeu o nome de "Varal de Memórias". Trata-se de um  projeto que começou a ganhar corpo em agosto de 2023, justamente na semana do estudante (semana em que comemoramos o dia do estudantes, 11 de agosto, com atividades extras na escola) . Eu resolvi, na inspiração, pedir para que cada aluno/a escrevesse pelo menos meia filha de caderno contanto uma lembrança/experiência relacionada à escola.  As experiências seriam transcritas e faríamos um varal no qual cada um colocaria seu texto. Daí o nome de "Varal de Memórias".

Era para ser uma atividade apenas para minhas turmas do oitavo ano, mas acabou se tornando um projeto maior, que envolveu 8 salas e alunos do 7º ao 9º ano. Os textos eram tão interessantes que acabei abandonando a ideia original e resolvi transcrever os 110 texto que recebi e transformar em um livro. Com isso eu manteria o registro daquelas memórias e os alunos/as que participaram do projeto poderiam ter consigo o fruto do seu trabalho e compartilhar suas memórias com outras pessoas.

Foi assim que nasceu o livro "Varal de Memórias" que foi lançado oficialmente no dia 02 de dezembro, numa cerimônia que teve a participação de alguns alunos que participaram da atividade, além de pais, professore e autoridades ligadas à educação e à cultura, de Leopoldina (MG) e até de outros municípios da Zona da Mata. Foi emocionante. 




O livro foi literalmente impresso na escola. A diretora imprimiu e encadernou pessoalmente exatos 110 unidades e também fizemos uma versão e-book. Estamos levantando a possibilidade de conseguirmos verba para imprimir em gráfica 100 unidades do livro, para serem distribuídas para escolas do munícipio, mas isso é projeto para 2024. 

Fazendo um apanhado geral, a experiência de organizar um livro de memórias foi um desafio e um prazer. Um desafio pois trabalhar com jovens requer certos cuidados e eu meio que pisei em ovos com relação aos relatos, porque eu estava trabalhando com menores. O primeiro passo foi pedir autorização dos pais/responsáveis e garantir o anonimato dos participantes. Sim, não nomeei os alunos/as, por questão de ética com pesquisa envolvendo seres humanos. Fui orientada a proceder desta forma.  Outro desafio foi de organizar o livro da forma devida.

Prometi aos alunos que eles teriam tratamento de autor. Não deveriam se preocupar com a escrita pois todo o material seria revisado antes de publicado. Para isso eu contei com a ajuda da equipe do professor Nataniel Gomes do curso de letras UEMS, que se voluntariaram para fazer a revisão. A diagramação foi realizada juntamente com o professor Amaro Braga, da UFAL, amigo de longa data. A capa foi criada por duas aluna da escola, Lívia e Vivian, e tratada digitalmente pelo designer e quadrinista Hamilton Kabuna. O prefácio foi realizado pela professora Fabiana Rubira, da FEUSP. Enfim, foi um trabalho coletivo, envolvendo pessoas de dentro de fora da escola.

O prazer veio na reação dos/as estudantes que participaram do projeto tanto durante o processo de produção do texto quanto no lançamento do livro. Aqueles que não puderam estar presentes no lançamento buscaram seus exemplares e foi muito recompensador ver como liam com interesse e comentavam entre si sobre os textos.

Para quem tiver interesse em conferir o trabalho basta clicar aqui e baixar gratuitamente o e-book. Se quiser deixar suas impressões, faça um comentário. Irei compartilhar com os alunos/as da escola.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

COMENTANDO A HQ COLABORAÇÃO HORIZONTAL

 

Eu gosto de Histórias em Quadrinho produzidas em contextos históricos específicos e que trazem reflexões sobre questões importantes, muitas vezes desconhecidas do grande público pois não contam dos livros de História. É  o caso  de "Colaboração Horizontal" publicada no Brasil em 2022, pela editora Nemo. Esta HQ estava na minha lista de leitura já havia um tempo. Colaboração horizontal é um termo (que particularmente eu não gosto) aplicado às relações românticas e sexuais entre mulheres e soldados nazistas durante o período de ocupação da França pela Alemanha durante a II Guerra Mundial. 

Contextualizando, em 1940 a França caiu nas mãos do EIXO, sendo invadida pelo exército italiano e Alemão. O governo francês foi derrubada e o país foi divido. Surgiu a França de Vichy, um regime francês que colaborou com os nazistas ao longo da guerra, enquanto a outra parte do país foi ocupada por tropas alemães e, ao sul, formou-se um governo de resistência liderado por Charle de Gaulle.

Apesar do movimento de resistência e da ação de civis dentro das áreas ocupadas e das áreas livres, uma grande parte da população se calou frente a ocupação e se omitiu no que dizia respeito à perseguição de judeus e outros grupos pelos nazistas. Pode-se dizer que uma parte significativa da população francesa fez vista grossa ou declarou sua simpatia ao nazismo nestes 4 anos e ocupação. Alemães e franceses viviam e conviviam de forma despreocupada. 

Mas, com o fim da guerra, aqueles que declararam favoráveis à resistência subitamente aumentou assim como surgiu a necessidade de encontrar alguém a quem punir e responsabilizar. As mulheres foram o alvo perfeito, em particular aquelas que mantiveram qualquer tipo de relacionamento afetivo e físico com alemães, independentemente de ser consensual ou não. Essas mulheres foram humilhadas publicamente, presas e mesmo mortas, consideradas traidoras da França.

Fonte: Quora

Elas foram alvos de linchamentos morais públicos e da purga, que consistia consistia na raspagem de seus cabelos e no desfile público pelas ruas das cidades, vilas ou aldeias. Muitas das mulheres eram também despidas e marcadas com a suástica nazista através de tintura ou mesmo com ferro quente. Além de toda a humilhação, elas foram condenadas a penas de seis meses a um ano de prisão em decorrência da suposta colaboração com o inimigo. Cerca 20.000 mulheres foram alvos das purgas legais na França.[1]

Esse o tema explorado pelas autoras Carole Maurel (arte) e Mademoiselle Navie (roteiro) nesta HQ. Elas trazem no centro na narrativa a história de uma jovem mulher, casada, Rose, cujo marido era prisioneiro guerra, que vive um romance com um soldado alemão, Mark. A história começa a ser contada pela protagonista, já idosa, e acaba envolvendo muitas outras mulheres, presente nos entorno de Rose.

Na verdade, a HQ trata justamente da forma como essas mulheres viveram este momento sombria da história da França e da humanidade. Elas são submetidas á violência por parte dos homens, seus maridos e/ou vizinhos, e tentam se defender e sobreviver num ambiente hostil no qual são objetificadas e inferiorizadas. Mulheres forçadas a se prostituírem para continuar vivendo e, ao mesmo tempo, perdendo a vontade de viver quando abrem mão da sua dignidade; mulheres que lutam para ajudar a libertar a França e proteger judeus; mulheres que tentam se aceitar e se defender do olhar preconceituoso do outo.

Colaboração horizontal fala de família, de resistência, de amor, de ódio, de sentimentos múltiplos e antagônicos que se misturam num ambiente belicoso, numa sociedade com relações desestruturadas pela guerra.

Uma leitura agradável, uma obras bem produzida com arte impecável.


domingo, 19 de março de 2023

O ESPAÇO URBANO COMO LUGAR DE MEMÓRIA

 

O Grand Palais, em Paris, está passando por uma reforma. Para justificar essa reforma foi feito um grande painel (acho que posso chamar assim) contando um pouco da história do edifício, além de outras informações destinados ao público.

Recentemente eu viajei ao exterior e uma das coisas que me chamou atenção, e que talvez passe despercebido para a maioria dos turistas, foi a formo como o espaço urbano é transformado em lugar de memória, a partir de ações simples. Por exemplo, na França, tanto na capital como em comunas do interior, quando se faz a reforma de um prédio, coloca-se banners ou murais explicando o "por que" daquele espaço ser preservado. Conta-se, por exemplo, a história de quem morou naquele lugar, ou a história do edifício e sua importância como patrimônio. 

Não se trata apenas de dizer o que vai ser feito, mas justificar valorizando o patrimônio. Essas ação são uma forma de educação patrimonial, na qual a comunidade tem acesso a informação histórica e, ao mesmo tempo, a criação de um espaço de memória. Uma forma didática de se educar, porque não é apenas na escola que temos acesso a conhecimento, as ruas das cidades também podem nos ensinar muito. 

Em Petrópolis há placas nas calçadas assinalando a história de casarões que fazem parte do centro histórico. No bairro de Benfica, em Lisboa, há também esse tipo de sinalização, que remete à memória do bairro a partir do seu conjunto arquitetônico. Em Mafra, Portugal, temos o projeto "Caminhos da poesia" ou "Caminho de Camões", que correspondem a 10 poemas de Camões distribuídos entre o Jardim do Cerco, o parque intermodal do Alto da Vela, a Variante Sul. Tal iniciativa une literatura, história e memória por meio da poesia.

Outro exemplo, são as placas com os nomes de ruas. Em algumas cidades, como Cognac, na França, os nomes das ruas vem seguidas de alguma informação sobre a pessoa nomeada, que deixar de ser um sujeito anônimo e passa a ter uma identidade. Algo simples e muito significativo. Na cidade do Rio de Janeiro e, acredito, em outras cidades brasileiras, esse tipo de ação, que ajuda a preservar a memória, já existe.

Eu fui surpreendida no meu retorno à minha cidade, Leopoldina (MG). com uma iniciativa semelhante e, diga-se de passagem, até melhor elaborada. A prefeitura está instalando novas placas de indicação nas quais esclarece quem é a pessoa à qual se homenageia nomeado praças, ruas, avenidas. Uma iniciativa fantástica que ajuda a valorar não apenas o espaço urbano, mas a construir uma identidade local.

Placa colocada na esquina da minha rua, não apenas trazendo uma pequena biografia do personagem que a nomeia mas, inclusive, o cep, que recentemente foi alterado.

Os pesquisadores Nilza Cantoni e José Luiz Machado já haviam feito, anos atrás, em 2004, um excelente trabalho identificando os nome das ruas de Leopoldina, "Nossas ruas, nossa gente: logradouros púbicos de Leopoldina" (clique aqui para acessar). Imagino que a iniciativa da prefeitura tenha partido desse trabalho que, agora, está dando mais frutos, transformando as ruas em lugares onde a história e a memória estão presentes.

Este exemplos que trazem iniciativas brasileiras e de outros países demonstra que ações com relação à memória e ao patrimônio, em contextos diferentes, trazem similaridades. Há a preocupação em usar o espaço público de forma pedagógica, de educar e criar um sentimento de orgulho pelo espaço urbano, reforçando assim a identidade coletiva, local e/ou nacional, assim como o sentimento de pertencimento.

domingo, 2 de outubro de 2022

A MULHER REI E A HISTÓRIA DAS MULHERES NA ÁFRICA

Divulgação do filme - "A Mulher Rei".

Fazia um bom tempo que eu ia ao cinema assistir um filme que me marcasse, mas A "Mulher Rei" simplesmente puxou o meu tapete, e isso num bom sentido. Eu fiquei sem chão e mergulhei de cabeça em uma história que me fez pensar em muitas coisas. Até então, eu dizia que poucos filmes sobre a África haviam realmente me marcado. Vou citar dois, "O menino que descobriu o vento" e " Pantera Negra". Ambos, de formas diferentes, descontroem muitos estereótipos que temos da África.  Mas a "Mulher Rei" vai além disso. Ele descontrói a própria história da África e das mulheres africanas, sempre representadas como fracas, submissas, vítimas constantes de violência e mutilação.  

Um filme que traz um reino africano, em sua plenitude, enfrentando seus inimigos, não se curvando aos homens brancos europeus. Um filme de mulheres fortes e com um elenco composto por atrizes experientes, muitas delas de ascendência africana, valorizando não apenas as atrizes negras, mas atrizes negras africanas. Além disso, salvo a licença poética característica de obra de ficção, é um filme com fortes bases históricas e com uma pesquisa realmente bem feita. Podemos perceber isso pela preocupação com o figurino, com a contextualização história e com a escolha e elaboração de cenários.

Amazonas de Daomé

O filme é ambientado na África, no Reino de Daomé, atual Benin, um dos reinos mais poderosos daquele continente entre os séculos XVI e XIX. Daomé permaneceu um reino autônomo até 1904, quando o último rei foi destronado e os franceses o anexaram ao seu império colonial, depois de muitos anos de guerra. A história gira em torno das "Agodjié", também chamadas de Ahosi ou Mino, uma tropa de elite formada por mulheres guerreiras a serviço do rei.  O grupo é comandado por Nanisca, personagem de Viola Davis, que além de defender o reino de tribos inimigas e de colonizadores franceses ainda entoa um poderoso discurso contra a escravidão de africanos e sua venda para traficantes europeus. As "Agodjié", inclusive, inspiram as “Dora Milaje, mulheres da guarda real de Wakanda no filme “Pantera Negra.

Essas mulheres guerreiras realmente existiram e foram temidas tanto por africanos quanto por europeus, estes últimos as chamavam de Amazonas, uma referência ao mito grego. Segundo registros, o primeiro regimento de "Agodjié" foi formado durante o reinado de Tassi Hangbe, a primeira e única mulher que reinou em Daomé, no século XVIII e, também, a primeira "Agodjié". Há também relatos que afirmam que elas eram, originalmente, mulheres caçadoras. Essas guerreiras bem treinadas atuavam na segurança da família real, como espiãs e em batalhas.

Elas eram moças recrutadas entre o povo de Daomé ou oferecidas, quando meninas, pelas suas famílias ao rei. Elas podiam ser também mulheres capturadas de outras tribos e transformadas em cativas. A essas últimas era feita a oferta de servir ao rei como mulheres livres. Isso aparece em uma passagem do filme. Quando uma mulher de uma tribo inimiga é questionada sobre a razão que a leva a aceitar a oferta ela responde algo como “Aqui vou ser o caçador e não a presa”. E não deviam ser poucas que aceitavam pois dos escravos traficados do reino, a minoria era de mulheres.

Grupo de durante uma visita a Paris, 1891 - Fonte: https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/

Tornar-se uma "Agodjié" dava às mulheres um novo papel dentro de uma sociedade dominada por homens. Elas abriam mão do casamento e dos filhos e recebendo em troca o reconhecimento e um status social que as colocava entre as pessoas mais respeitadas e admiradas de Daomé. Os homens comuns não podiam encará-las, inclusive as temiam, e tinham que abrir caminho quando elas passavam. Apesar de todos os riscos e do treinamento intenso muitas mulheres escolhiam se tornar "Agodjié", tanto que elas representavam cerca de um terço das topas de Daomé. Além disso, as "Agodjié" tinha influência política e participação de decisões importantes. Em muitos reinos africanos mulheres chegaram a assumir posições de liderança ou mesmo certo status social, mas em Daomé as mulheres encontraram-se em uma posição de empoderamento única, o que torna ainda mais interessante sua história, contada no filme.

O Brasil tem uma ligação com o reino de Daomé que começou com Portugal, durante as navegações. Os portugueses estabeleceram relações econômicas e diplomáticas na região, tendo lá construído uma feitoria no reino de Daomé, posteriormente transformada na Fortaleza de São João Batista de Ajudá. De lá vieram considerável parte dos escravos trazidos para a América. Daomé enriqueceu com esse comércio, trocando prisioneiros de guerra por mercadorias europeus. No entanto, como tempo, o próprio povo de Daomé acabou vendido como escravo. Não atoa a região recebeu o nome de “Costa dos Escravos”. Daomé também tinha relações diplomáticas com o Brasil, tendo sido o primeiro Estado a reconhecer a nossa independência, em 1922, antes mesmo dos Estados Unidos, o que ocorreu apenas em 26 de maio de 1824.

Fortaleza de São João Batista de Ajudá - 1886 - Fonte: wikipedia.

No filme, por exemplo, o próprio rei afirmou que sua mãe havia sido vendida e que ele procurava por ela para trazê-la de volta para África. A maior parte dos escravizados vinha para o Brasil, daí a ligação de Daomé com nosso país. A presença brasileira naquele reino e sua relação com o Brasil está presente no filme.  

Muitos ex-escravizados, inclusive chegaram a retornar para Daomé. Seus descentes representam hoje 5% da população de Benin e são chamados de agudás. Os agudás têm origens diversas e se encontram atualmente em todas as classes sociais. Fazem parte do grupo, também, descendentes de traficantes, de comerciantes brasileiros e portugueses estabelecidos na região. Há ainda aqueles sem ligação ancestral com o Brasil mas que estão de alguma forma ligada aos brasileiros e se apropriaram de seus costumes.

Eu me emocionei no filme porque senti que pela primeira vez vou ter um material realmente rico e empoderador para poder utilizar na escola. Trabalho com muitos alunos afrodescendentes, “A Mulher Rei” traz não apenas uma boa contextualização da história de um reino africano como, também, de empoderamento feminino. Essas mulheres guerreiras, na sua ferocidade, entoam um discurso libertário. Elas agarram a oportunidade e fogem do papel de submissão representado pelo casamento, geralmente arranjado, no qual não seria valorizada e estaria à mercê da violência. Assistam à “A Mulher Rei”, independente do seu gênero e da sua cor, tenho certeza que vai ser uma ótima experiência.

Fontes consultadas:

Agudás - de africanos no Brasil a ‘brasileiros’ na África. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/hcsm/a/vtXQvFkGbHFSHQhs5BQv3rs/?lang=pt>. Acesso em 02 de out. 2022.

Amazonas de Daomé: as mulheres mais temidas do mundo. Disponível em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-amazonas-daome-mulheres-temidas-mundo.phtml>. Acesso em 02 de out. 2022.

Amazonas: O exército feminino do Reino do Daomé. Disponpível em: https://www.dw.com/pt-002/amazonas-o-ex%C3%A9rcito-feminino-do-reino-do-daom%C3%A9/a-56823669. Acesso em 02 de out. 2022.

JIF : Je vous Présente les Agodjié, Braves Amazones du Danhomè. Disponível em: <https://fafadi323701274.wordpress.com/2020/02/29/jif-je-vous-presente-les-agodjie-braves-amazones-du-danhome/>. Acesso em 02 de out. 2022.

Os guerreiros deste reino de África Ocidental eram formidáveis – e eram mulheres. Disponível em: <https://www.natgeo.pt/historia/2022/09/os-guerreiros-deste-reino-de-africa-ocidental-eram-formidaveis-e-eram-mulheres>. Acesso em 02 de out. 2022.

Reino do Daomé. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_do_Daom%C3%A9>. Acesso em 02 de out. 2022.

The Woman King (2022). Disponível em: <https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/>. Acesso em 02 de out. 2022.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

PROJETO GUERREIRAS DA INDEPENDÊNCIA

Para a semana da comemoração dos 200 anos da Independência, preparamos na Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado uma pequena exposição de banners com o tema "Guerreiras da Independência", que vai ser começar no dia 06 de setembro e deve durar até  o final do mês. 

Na exposição trazemos a história de mulheres que foram importantes tanto para a declaração da nossa Independência quanto para que ela pudesse se consolidar. Mulheres que foram para a frente de batalha para lutar contra tropas portuguesas, mulheres que se colocaram contra a opressão. Nestes 200 anos queremos trazer aqui sua memória, para que elas possam inspirar novas gerações.

O objetivo do projeto é trabalhar justamente o papel das pessoas comuns nas história, sem tirar o mérito, claro, daqueles que já são conhecidos. Em especial, escolhemos as mulheres porque elas normalmente são esquecidas ou citadas superficialmente. O projeto pretende atender a todos os anos do Ensino Fundamental e do EJA e ser ponto de partida para outros pequenos projetos e para debates. 

Confira nossa pequena exposição.





Agradecimentos

Agradecemos à direção da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado por apoiar o projeto e aos senhores Amilton Kabuna e Luiz de Mello por patrocinarem os banners.

OBS: Os banners podem ser reproduzidos livremente.

Créditos

As imagens foram capturadas na Internet. 

Imperatriz Maria Leopoldina - Flávio Viana (@flaviovianart).  Imagem capturada aqui

Maria Felipa de Oliveira - arte de @ltdathayde. Imagem capturada aqui!

Maria Quitéria de Jesus - ilustração de Guilherme Karsten. Imagem capturada aqui!

Joana Angélica - Imagem capturada aqui!

sábado, 12 de fevereiro de 2022

AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E OS LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRIA

Esse texto é um breve preâmbulo de um texto maior que desejo escrever em breve. Ele partiu da experiência de observar as mudanças ocorridas nos livros didáticos, como professora do ensino fundamental, mas últimas três décadas. Uma dessas mudanças está na forma como os livros estão trazendo e tratando as fontes históricas. Notadamente nos últimos dez anos, novos elementos vêm sendo acrescidos aos livros. As charges, primeiro, as tiras cômicas e as histórias em quadrinhos, em seguida. Como elemento imagético, essas mídias foram ganhando espaço nos livros de história, tanto para ilustrar e exemplificar conteúdos quando para embasar atividades. 

 

No entanto, na pressente década, elas foram incluídas e citadas como fontes didáticas. No livro didático adotado pelo Programa Nacional do Livro Didático - PNLD, do oitavo ano "Vontade e Saber", de autora de Adriana Machado Dias, Keila Grimberg e Marco Pellegrini, da editora quinteto, que será utilizado nas escolas públicas até 2013, no primeiro capítulo, de introdução à história, os quadrinhos estão citados como fonte histórica.

 

Com o título " A renovação das fontes históricas", o livro traz uma página no "Tico-Tico", considerada a primeira revista em quadrinhos brasileira, como exemplo de quadrinhos como documento histórico. Em um pequeno parágrafo, os autores apresentam as HQs como uma das fontes que passaram a serem reconhecidas a partir do processo de inovação (palavra usada pelos autores) dos estudos históricos iniciados na França, com a Escola de Annales. Aos quadrinhos acrescenta outras fontes como a música e os filmes.  Segundo o livro: "Com essa renovação, além dos documentos oficiais, passaram a ser considerados fontes válidas para o estudo da história objetos pessoais, pinturas, cartas, histórias em quadrinhos, esculturas, filmes, músicas, relatos, entre outras."

 


Uma página, dois pequenos parágrafos, mas muitos significados. Os quadrinhos são listados como “fonte válida”, ou seja, estão sendo reconhecidos oficialmente como uma fonte história. Mais do que isso, estão sendo citados em um livro didático, direcionado ao grande público e, também, aos professores.


Os quadrinhos já entraram na academia, e estão presentes em maior ou menor proporção nas salas das universidades e nos programas de pós-graduação, em maior ou menor proporção, dependendo do curso. No campo da história o reconhecimento e usa da fonte já vem ocorrendo há muitos anos. Cabe aqui citar os trabalhos do historiador francês Pierre Couperie, um historiador francês especializado em quadrinhos, pioneiro neste campo de trabalho. Couperie foi um dos primeiros historiadores a trabalhar este campo de pesquisa, ainda na década de 1960), não apenas na França. Ele diversificava seus trabalhos em história social e econômica. Em seu tempo, Couperie foi um militante tanto no estudo acadêmico dos quadrinhos quanto no seu uso como recurso para educação. 


Posteriormente tivemos outros renomados historiadores da escola francesa como Michel Vovelle que em sua obra “Imagens e Imaginário na História”, não apenas defende o uso de quadrinhos como fonte de pesquisa como eles tema de dois capítulos do livro. Podemos ainda citar a historiadora Michelle Perrot, cujas pesquisa no campo da história das mulheres são reconhecidas em todo mundo, que utiliza os quadrinhos da personagem Becassine, como fonte e referência em seu livro “Mulheres públicas”.


No entanto, nas escolas do ensino regular, a qualidade dos quadrinhos como fonte é normalmente desconhecida, quando não ignorada. Por essa razão, ao serem citados ao lado de outras mídias num capítulo de introdução à história, os quadrinhos tiveram seu status alavancado. Isso porque podemos acrescer aí o reconhecimento oficial do próprio estado, que já há algum tempo reconheceu os quadrinhos como um tipo de leitura indicada a crianças e jovens, enviando anualmente vários títulos para as bibliotecas escolares por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE).  No portal do MEC temos, inclusive, um breve texto justificando e indicando a leitura das HQs e sua presença nas bibliotecas escolares.


“A leitura de obras em quadrinhos demanda um processo bastante complexo por parte do leitor: texto, imagens, balões, ordem das tiras, onomatopeias, que contribuem significativamente para a independência do leitor na interpretação dos textos lidos. Além disso, o universo dos quadrinhos faz parte das experiências cotidianas dos alunos. É uma linguagem reconhecida bem antes de a criança passar pelo processo de alfabetização. ”


Agora para além da leitura, temos os quadrinhos como fonte e, portanto, objeto de reconhecido valor científico, não apenas por historiadores, mas um reconhecimento oficial que pode vir a ser importante tanto para a popularização do uso da fonte, mas, também para seu uso como recurso didático para professores nas salas de ala de todo o Brasil.


Fontes:
DIAS, Adriana Machado[et all]. Vontade de Saber: 8º ano: ensino fundamental: anos finais. - São Paulo: Quinteto Editorial, 2018.

PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 1998. 160 p.

Por que livros em quadrinhos foram incluídos no Programa Nacional Biblioteca da Escola?Portal do MEC. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/par/136-perguntas-frequentes-911936531/quadrinhos-do-pnbe-1574596564/282-por-que-livros-em-quadrinhos-foram-incluidos-no-programa-nacional-biblioteca-da-escola>. Acesso em 12 fev 2022.

VOVELLE, Michel. Imagens e Imaginário na História: fantasmas e certezas nas mentalidades desde a Idades Média até o século XX. São Paulo: Ed. Ática, 1997.


terça-feira, 23 de novembro de 2021

O LEVANTE DE BELA CRUZ - DOCUMENTÁRIO

Um das coisas das quais fui privada durante  mais de uma ano de meio de  pandemia foi de poder participar de eventos culturais. Este mês estou rompendo com esse jejum. Ontem pude participar de um evento extremamente gratificante, que foi o pré-lançamento do filme/documentário, 
“O levante de Bela Cruz” , exibido no Espaço Cultural Mauro Almeida, em parceria com o Polo Audio Visual, a Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho e a Secretaria de Cultura. Esporte, Lazer e Turismo de Leopoldina. 

O documentário narra de um episódio corrido em Minas Gerais, em 1833, durante o período regencial. Uma rebelião de escravizados, envolvendo disputas políticas entre fazendeiros, na região de Carrancas, nas fazendas Campo Alegre e Bella Cruz, pertencentes a família Junqueira. No evento de lançamento, estava presente a diretora e produtora do documentário,  Elza Cataldo, cineasta, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Após a exibição do documentário, a diretora e membros da equipe da produção abriram para debate, respondendo perguntas e compartilhando detalhes e impressões sobre a experiência de produzir o documentário.

Eu não vou fazer uma resenha do documentário, mas levantar apenas algunas pontos que me chamaram a atenção. O primeiro é o tema. Como professora, conhecer mais sobre partes da história de Minas é, por si só enriquecedor, mas poder ter acesso a um movimento envolvendo escravos, no período regencial, é ainda mais importante. É um material que, mesmo que não possa ser exibido na sua íntegra, durante uma aula, pode trazer elementos importantes para se discutir o período, indo além do lugar comum.

Trata-se de uma produção que valoriza a a memória coletiva, dando voz a pessoas comuns, que contam a história a partir daquilo que aprenderam por meio da tradição. Nesse sentido, temos um documentário que sabe equilibrar muito bem a pesquisa historiográfica com elementos da memória que ajudam, inclisive, a solidificar uma identidade étnica e mesmo regional.

Abrindo espaço para debates sobre violência, escravismo e política, no século XIX, “O levante de Bela Cruz” também permite um diálogo como presente. Por tudo isso eu recomendo o documentário para professores e para o público geral, como uma forma de conhecer mais nossa história e repensar certos preconceitos e tabus que reproduzimos ao longo dos séculos e que ainda precisam sem rompidos.

O documentária está disponível no site do Polo Áudio Visual e pode ser acessado clicando aqui!


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

GUERRA FRIA EM CHARGES: A GUERRA DA COREIA NAS PÁGINAS DA GAZETA DE LEOPOLDINA

Usei charges do jornal local, a Gazeta de Leopoldina, para trabalhar com questões relacionados ao uso da imagem durante a Guerra Fria, com destaque para a Guerra da Coreia. Confira o resumo:


Nesse trabalho fez-se uma análise do discurso contido no periódico “A Gazeta de Leopoldina”, jornal do município de Leopoldina em Minas Gerais. O período analisado corresponde ao ano de 1951, quando o jornal publicou uma série de charges sobre a Guerra da Coreia, com viés anticomunista. O objetivo é demonstrar como o jornal pode ser utilizado, tanto como fonte de pesquisa, quanto como recurso didático para se estudar determinados períodos da história. Metodologicamente, optou-se pela análise do conteúdo a fim de identificar a orientação ideológica do periódico. Buscou-se conceitualizar a charge, como arte gráfica e meio de expressão, inserindo-a nos campos da política e da ideologia. Em seguida, foram apresentados, exemplos de como ela foi utilizada como forma de propaganda comunista e anticomunista ao longo do século XX. Por fim, partiu-se para o foco principal do estudo, que é a análise das charges publicadas, com a preocupação de se apresentar tanto o contexto histórico geral, quanto efetuar uma análise do conteúdo publicado neste periódico, aliado aos interesses dos grupos aos quais ele atendia”.

 

O texto possuí versão em inglês e espanhol. Para ler o texto na íntegra, clique aqui!


Sobra Revista Cajueiro

A Revista Cajueiro foi criada no âmbito das ações do PLENA - GRUPO DE PESQUISA EM LEITURA, ESCRITA E NARRATIVA: Cultura, Mediação, Apresentação Gráfica, Editoração, Manifestações. Sua missão primordial é a disseminação de pesquisas, ações, políticas, boas práticas, além do debate de ideias sobre a formação de leitores e a cultura da leitura no Brasil, com ênfase na Ciência da Informação.

 

Seu objetivo principal é agregar conhecimento à Ciência da Informação e áreas afins, contextualizando socialmente os conteúdos e também estabelecendo o debate e a aproximação da academia com a sociedade e seus segmentos, as profissões voltadas para a formação do leitor e a produção de leituras.

 

O público-alvo da Revista Cajueiro é formado pelos pesquisadores acadêmicos, docentes, bibliotecários, documentalistas, arquivistas, profissionais da informação, gestores e dirigentes de sistemas e unidades de informação (Bibliotecas, Gibitecas, Arquivos, Pontos de Leitura, Centros Culturais), editores, assim como professores, educadores, terapeutas da leitura, contadores de histórias, e lideranças sociais e políticas vinculadas a disseminação de práticas leitoras e ao fortalecimento da cultura da leitura.

 

Os temas em vista para a publicação na Revista Cajueiro são: Documentação e Gestão da Informação; Formação do Leitor e Cultura da Leitura; História e Cultura Editorial; Leitura Pública e Políticas de Leitura; Mediação de Leitura e Letramento; Narrativa Sequencial Gráfica em análise; Narrativa Sequencial Gráfica em Exposição; Temática Interdisciplinar em Ciência da Informação.