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domingo, 26 de abril de 2026

UMA LEITURA COMPARADA DAS SÉRIES DRAMÁTICAS COREANAS MR. QUEEN E HAE-RYUNG, A HISTORIADORA

Este mês saiu finalmente um artigo que eu publiquei junto com a querida Fabiana Rubira. Nos nos desafiamos a fazer um estudo de gênero a partir de duas séries históricas coreanas. Foi muito instrutivo e prazeroso escrever sobre o tema.

Segue o resumo:

Na presente pesquisa iremos analisar duas séries dramáticas sul-coreanas, Mr. Queen (2021) e Hae-Ryung, A Historiadora (2019), disponíveis no serviço de streaming da Netflix, e distribuídos para diversos países. Estas séries têm por característica serem protagonizadas por mulheres e ambientadas na Coreia do século XIX, durante a dinastia Joseon. Outra característica é o fato de que, apesar de ambientadas no passado, essas séries dialogam com o presente, apresentando-nos questões que vão desde a necessidade de se combater preconceitos e estereótipos, relacionados a papéis de gênero, à corrupção política. Suscitando, assim, debates contemporâneos de grande relevância, o que torna a narrativa não apenas rica, mas altamente politizada, ao criticar, por vezes de modo muito bem-humorado e, em outras, bastante sério, valores socioculturais construídos sobre uma base moral neoconfucionista. A parte destas produções podemos realizar contrapontos com o tempo presente, e identificar discursos que ecoam atualmente na sociedade sul-coreana e mundial. Para tanto vamos trabalhar com autores como David Lowenthal, que trabalha a aproximação entre a ficção e a história, Roger Chartier e seus conceitos de apropriação e representação e Joan Scott, com base teórica para o estudo de questão de gênero.

O texto completo pode ser acessado clicando aqui!

domingo, 19 de maio de 2024

COLÉGIO IMACULADA CONCEIÇÃO: FORMAÇÃO DOCENTE E MEMÓRIA

Ontem, no Dia Nacional do Museu, durante a 22º Semana Nacional do Museu, no Espaço dos Anjos, eu fiz o lançamento do meu livro "Colégio Imaculada Conceição: formação docente e memória". O evento é o primeiro de muitos lançamentos que ainda vamos realizar até o segundo semestre deste ano. 

O livro é uma produção independente e nasceu do desejo de escrever sobre a história do Colégio Imaculada Conceição, de Leopoldina (MG), que este ano completou 106 anos de existência. Foi, também uma forma de eu retornar àquilo que marcou o início da minha vida como pesquisadora, a História do Ensino e, também, a história Regional.

Eu já havia escrito um livro, na década de 2010, sobre o Ginásio Leopoldinense, outra escola centenária de Leopoldina. Foi minha primeira obra autoral e resultado da minha especialização, realizada entre 1996 e 1997 na UFJF. Eu sempre gostei muito de história regional, assim como gosto muito de história das mulheres. 

Eu me sinto muito confortável trabalhando estes dois temas. Confesso que eles me dão uma sensação de auto realização. Falar sobre minha região faz com que eu reforce meu sentimento de pertencimento, falar sobre mulheres faz com que eu me sinta mais confiante.

Com este livro eu tive a oportunidade de fazer as duas coisas. Eu escrevi sobre o ensino para mulheres em Minas Gerais e em Leopoldina, e pude falar bastante da nossa história local. Mesmo sendo um livro voltado para o caso de Leopoldina, ele pode ser usado como uma referência para o estudo da história do ensino em Minas Gerais, uma vez que eu busquei vincular o nosso contexto local com a história de Minas e do Brasil.

Enfim, estou muito feliz com o resultado e espero que todos aqueles e aquelas que compareceram ao lançamento ontem possam ter uma leitura agradável. Tenho que agradecer muito às pessoas que me apoiaram na elaboração da obra, seja lendo e dando sugestões, seja fazendo a correção ortográfica e a diagramação. 

Agradecimentos especiais a Guilherme Smee (que fez a arte da capa), Ana Cristina Fajardo e Luiz de Melo (que fizeram a correção ortográfica) e Conceição Zambrano, diretora do Colégio Imaculada, que me deu acesso à documentação para a pesquisa e possibilitou que o livro fosse lançado neste dia 18 de maio, de 2024, uma data que vou guardar dentro do coração.

Pessoas que quiserem obter o livro e não são de Leopoldina, podem fazê-lo entrando em contato pelo e-mail nogueira.natania@gmail.com


terça-feira, 14 de maio de 2024

QUADRINHOS FEMINISTAS OU QUADRINHOS PARA MULHERES?


Recentemente foi lançado livro "Interfaces Midiáticas e Quadrinhos", organizado por Rafael Senra e Ivan Carlo Andrade de Oliveira. O livro sai como uma co-edição da Editora da Unifap com a Editora Verter, e reúne artigos de autores que apresentaram na quarta edição do Evento ASPAS Norte. Um destes artigos é "Quadrinhos feministas ou quadrinhos para mulheres" um texto que eu produzi a partir de uma apresentação que realizei durante o ASPAS Norte.

No artigo eu analiso diversos tipos de HQs produzidas por mulheres e para mulheres buscando entender como este material pode ser apropriado por leitores e leitoras, buscando levar em consideração o contexto no qual foi produzido e o objetivo da produção.

Quem quiser conferir, o livro pode ser acessado gratuitamente, clicando aqui.

domingo, 4 de dezembro de 2022

COMENTANDO A HQ BERTHA LUTZ E A CARTA DA ONU

Não tenho lido tantos quadrinhos quanto eu gostaria, mas estou muito satisfeita com aqueles que eu decidi  priorizar a leitura. Um deles é a HQ Bertha Lutz e a Carta da ONU, de Angélica Kalil, Mariamma Fonseca, com cores Faw Carvalho  e mentoria da quadrinista Ana Luiza Koehler. E já começo elogiando essa HQ por ser resultado de um trabalho conjunto que, acredito eu, resultou da troca de ideias entre todas as envidas, Um trabalho de história de memória em forma de quadrinhos que nos coloco dentro de um contexto de militância feminista num momento no qual as mulheres estão sendo incluídas de forma inédita no espaço macro político.

Mas comecei e já apontei diversos méritos da obra.

Quem acompanha as postagens que faço no meu blog sabe que tenho uma predileção por quadrinhos que trazem conteúdo biográfico ou autobiográfico. Da mesma forma gosto de obras que tem na história sua principal referência e que se preocupam em utilizar fontes e contextualizar, mesmo que isso não seja uma obrigatoriedade em obras de ficção.

Essa HQ sobre Bertha Lutz se encaixa dentro disso. É obra que eu chamaria de referência para quem quer trabalhar a história do feminismo mundial e brasileiro. Bertha, perdoem-me a intimidade, foi uma mulher fabulosa. Cientista, feminista, política, militante sufragista, ao longo de outras mulheres como Jerônima Mesquita foi responsável pela conquista do voto feminino.

Além disso, foi uma das poucas mulheres a participar da elaboração da Carta da ONU, em 1945. Esse documento, histórico, propunha a construção e um futuro melhor, após o flagelo de duas guerras mundiais. As mulheres estavam lá, 14 mulheres, sobre as quais acabamos tendo conhecimento não apenas da sua existência, pois confesso que além de Bertha, não conhecia nenhuma delas, como também de seus feitos e conquistas. Algumas delas nos trazem simpatia, outras nem tanto. É notável perceber que, ao contrário do que muitos pensam, as mulheres não pensam igual. As posições e ações de Bertha, por exemplo, iam de encontro a concepções mais conservadoras de algumas delas.


Mas como eu disse, trata-se de uma biografia histórica que traz à tona a memória do feminismo e não apenas a memória de uma feminista. Uma obra de ficção que dialoga com a história. Ficcção pois a Bertha que nos é apresentada e o resultado da apropriação e da visão de mundo as autoras, mas baseia-se em documentos, em relatos. Documentos de época como cartas, textos oficiais e fotografias.

Há na obra passagens muito interessantes, marcadas por uma crítica sutil, por uma ironia leve mas certeira, por informações e cenas que ajudam a enriquecer o estudo tanto da política internacional brasileira quando do que era ser mulher nos anos de 1940. Enfim, recomendo a leitura da obra, tanto pelo seu valor histórico e seu conteúdo rico quando pelo fato de ser, realmente, uma boa leitura.

E o que é uma boa leitura para mim?

Um texto leve, mas rico, um traço simples, mas marcante, uma obra despretensiosa mas que alcança tudo que propõe e muito mais.

domingo, 23 de outubro de 2022

HELENA FONSECA NA PAPIERS NICKELÉS


Recentemente publiquei um artigo sobre a quadrinista Helena Fonseca na revista francesa Papiers Nickelés, nº 73. Uma autora que eu admiro muito mas sobre a qual não tenho muitas informações, infelizmente. Ela inclusive foi escolhida para ser homenageada pelos alunos da minha escola, quando da escolha do nome da nossa gibiteca escolar. Tenho até uma postagem sobre ela, um pouco menor do que o artigo que eu enviar para a revista.  Quem quiser conferir, é só clicar aqui. Caso algum pesquisador queira usar o texto em francês para alguma referência, mas não tem acesso a revista, pode ler o artigo, clicando aqui!

domingo, 2 de outubro de 2022

A MULHER REI E A HISTÓRIA DAS MULHERES NA ÁFRICA

Divulgação do filme - "A Mulher Rei".

Fazia um bom tempo que eu ia ao cinema assistir um filme que me marcasse, mas A "Mulher Rei" simplesmente puxou o meu tapete, e isso num bom sentido. Eu fiquei sem chão e mergulhei de cabeça em uma história que me fez pensar em muitas coisas. Até então, eu dizia que poucos filmes sobre a África haviam realmente me marcado. Vou citar dois, "O menino que descobriu o vento" e " Pantera Negra". Ambos, de formas diferentes, descontroem muitos estereótipos que temos da África.  Mas a "Mulher Rei" vai além disso. Ele descontrói a própria história da África e das mulheres africanas, sempre representadas como fracas, submissas, vítimas constantes de violência e mutilação.  

Um filme que traz um reino africano, em sua plenitude, enfrentando seus inimigos, não se curvando aos homens brancos europeus. Um filme de mulheres fortes e com um elenco composto por atrizes experientes, muitas delas de ascendência africana, valorizando não apenas as atrizes negras, mas atrizes negras africanas. Além disso, salvo a licença poética característica de obra de ficção, é um filme com fortes bases históricas e com uma pesquisa realmente bem feita. Podemos perceber isso pela preocupação com o figurino, com a contextualização história e com a escolha e elaboração de cenários.

Amazonas de Daomé

O filme é ambientado na África, no Reino de Daomé, atual Benin, um dos reinos mais poderosos daquele continente entre os séculos XVI e XIX. Daomé permaneceu um reino autônomo até 1904, quando o último rei foi destronado e os franceses o anexaram ao seu império colonial, depois de muitos anos de guerra. A história gira em torno das "Agodjié", também chamadas de Ahosi ou Mino, uma tropa de elite formada por mulheres guerreiras a serviço do rei.  O grupo é comandado por Nanisca, personagem de Viola Davis, que além de defender o reino de tribos inimigas e de colonizadores franceses ainda entoa um poderoso discurso contra a escravidão de africanos e sua venda para traficantes europeus. As "Agodjié", inclusive, inspiram as “Dora Milaje, mulheres da guarda real de Wakanda no filme “Pantera Negra.

Essas mulheres guerreiras realmente existiram e foram temidas tanto por africanos quanto por europeus, estes últimos as chamavam de Amazonas, uma referência ao mito grego. Segundo registros, o primeiro regimento de "Agodjié" foi formado durante o reinado de Tassi Hangbe, a primeira e única mulher que reinou em Daomé, no século XVIII e, também, a primeira "Agodjié". Há também relatos que afirmam que elas eram, originalmente, mulheres caçadoras. Essas guerreiras bem treinadas atuavam na segurança da família real, como espiãs e em batalhas.

Elas eram moças recrutadas entre o povo de Daomé ou oferecidas, quando meninas, pelas suas famílias ao rei. Elas podiam ser também mulheres capturadas de outras tribos e transformadas em cativas. A essas últimas era feita a oferta de servir ao rei como mulheres livres. Isso aparece em uma passagem do filme. Quando uma mulher de uma tribo inimiga é questionada sobre a razão que a leva a aceitar a oferta ela responde algo como “Aqui vou ser o caçador e não a presa”. E não deviam ser poucas que aceitavam pois dos escravos traficados do reino, a minoria era de mulheres.

Grupo de durante uma visita a Paris, 1891 - Fonte: https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/

Tornar-se uma "Agodjié" dava às mulheres um novo papel dentro de uma sociedade dominada por homens. Elas abriam mão do casamento e dos filhos e recebendo em troca o reconhecimento e um status social que as colocava entre as pessoas mais respeitadas e admiradas de Daomé. Os homens comuns não podiam encará-las, inclusive as temiam, e tinham que abrir caminho quando elas passavam. Apesar de todos os riscos e do treinamento intenso muitas mulheres escolhiam se tornar "Agodjié", tanto que elas representavam cerca de um terço das topas de Daomé. Além disso, as "Agodjié" tinha influência política e participação de decisões importantes. Em muitos reinos africanos mulheres chegaram a assumir posições de liderança ou mesmo certo status social, mas em Daomé as mulheres encontraram-se em uma posição de empoderamento única, o que torna ainda mais interessante sua história, contada no filme.

O Brasil tem uma ligação com o reino de Daomé que começou com Portugal, durante as navegações. Os portugueses estabeleceram relações econômicas e diplomáticas na região, tendo lá construído uma feitoria no reino de Daomé, posteriormente transformada na Fortaleza de São João Batista de Ajudá. De lá vieram considerável parte dos escravos trazidos para a América. Daomé enriqueceu com esse comércio, trocando prisioneiros de guerra por mercadorias europeus. No entanto, como tempo, o próprio povo de Daomé acabou vendido como escravo. Não atoa a região recebeu o nome de “Costa dos Escravos”. Daomé também tinha relações diplomáticas com o Brasil, tendo sido o primeiro Estado a reconhecer a nossa independência, em 1922, antes mesmo dos Estados Unidos, o que ocorreu apenas em 26 de maio de 1824.

Fortaleza de São João Batista de Ajudá - 1886 - Fonte: wikipedia.

No filme, por exemplo, o próprio rei afirmou que sua mãe havia sido vendida e que ele procurava por ela para trazê-la de volta para África. A maior parte dos escravizados vinha para o Brasil, daí a ligação de Daomé com nosso país. A presença brasileira naquele reino e sua relação com o Brasil está presente no filme.  

Muitos ex-escravizados, inclusive chegaram a retornar para Daomé. Seus descentes representam hoje 5% da população de Benin e são chamados de agudás. Os agudás têm origens diversas e se encontram atualmente em todas as classes sociais. Fazem parte do grupo, também, descendentes de traficantes, de comerciantes brasileiros e portugueses estabelecidos na região. Há ainda aqueles sem ligação ancestral com o Brasil mas que estão de alguma forma ligada aos brasileiros e se apropriaram de seus costumes.

Eu me emocionei no filme porque senti que pela primeira vez vou ter um material realmente rico e empoderador para poder utilizar na escola. Trabalho com muitos alunos afrodescendentes, “A Mulher Rei” traz não apenas uma boa contextualização da história de um reino africano como, também, de empoderamento feminino. Essas mulheres guerreiras, na sua ferocidade, entoam um discurso libertário. Elas agarram a oportunidade e fogem do papel de submissão representado pelo casamento, geralmente arranjado, no qual não seria valorizada e estaria à mercê da violência. Assistam à “A Mulher Rei”, independente do seu gênero e da sua cor, tenho certeza que vai ser uma ótima experiência.

Fontes consultadas:

Agudás - de africanos no Brasil a ‘brasileiros’ na África. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/hcsm/a/vtXQvFkGbHFSHQhs5BQv3rs/?lang=pt>. Acesso em 02 de out. 2022.

Amazonas de Daomé: as mulheres mais temidas do mundo. Disponível em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-amazonas-daome-mulheres-temidas-mundo.phtml>. Acesso em 02 de out. 2022.

Amazonas: O exército feminino do Reino do Daomé. Disponpível em: https://www.dw.com/pt-002/amazonas-o-ex%C3%A9rcito-feminino-do-reino-do-daom%C3%A9/a-56823669. Acesso em 02 de out. 2022.

JIF : Je vous Présente les Agodjié, Braves Amazones du Danhomè. Disponível em: <https://fafadi323701274.wordpress.com/2020/02/29/jif-je-vous-presente-les-agodjie-braves-amazones-du-danhome/>. Acesso em 02 de out. 2022.

Os guerreiros deste reino de África Ocidental eram formidáveis – e eram mulheres. Disponível em: <https://www.natgeo.pt/historia/2022/09/os-guerreiros-deste-reino-de-africa-ocidental-eram-formidaveis-e-eram-mulheres>. Acesso em 02 de out. 2022.

Reino do Daomé. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_do_Daom%C3%A9>. Acesso em 02 de out. 2022.

The Woman King (2022). Disponível em: <https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/>. Acesso em 02 de out. 2022.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

PROJETO GUERREIRAS DA INDEPENDÊNCIA

Para a semana da comemoração dos 200 anos da Independência, preparamos na Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado uma pequena exposição de banners com o tema "Guerreiras da Independência", que vai ser começar no dia 06 de setembro e deve durar até  o final do mês. 

Na exposição trazemos a história de mulheres que foram importantes tanto para a declaração da nossa Independência quanto para que ela pudesse se consolidar. Mulheres que foram para a frente de batalha para lutar contra tropas portuguesas, mulheres que se colocaram contra a opressão. Nestes 200 anos queremos trazer aqui sua memória, para que elas possam inspirar novas gerações.

O objetivo do projeto é trabalhar justamente o papel das pessoas comuns nas história, sem tirar o mérito, claro, daqueles que já são conhecidos. Em especial, escolhemos as mulheres porque elas normalmente são esquecidas ou citadas superficialmente. O projeto pretende atender a todos os anos do Ensino Fundamental e do EJA e ser ponto de partida para outros pequenos projetos e para debates. 

Confira nossa pequena exposição.





Agradecimentos

Agradecemos à direção da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado por apoiar o projeto e aos senhores Amilton Kabuna e Luiz de Mello por patrocinarem os banners.

OBS: Os banners podem ser reproduzidos livremente.

Créditos

As imagens foram capturadas na Internet. 

Imperatriz Maria Leopoldina - Flávio Viana (@flaviovianart).  Imagem capturada aqui

Maria Felipa de Oliveira - arte de @ltdathayde. Imagem capturada aqui!

Maria Quitéria de Jesus - ilustração de Guilherme Karsten. Imagem capturada aqui!

Joana Angélica - Imagem capturada aqui!

terça-feira, 19 de julho de 2022

ARTIGO SOBRE A HQ PELE DE HOMEM

Ano passado eu postei aqui minhas impressões sobre a HQ "Pele de Homem". Gostei tanto que até mesmo participei de um vídeo comentando sobre essa produção, com Valéria Fernandes da Silva e Fabiana Rubira (clique aqui para conferir). Por fim acabei produzindo um artigo sobre ele, com o título: "Pele de Homem e a desconstrução dos Papeis de Gênero nos Quadrinhos", que saiu pela Revista da Universo. Foi meu último trabalho publicado como doutoranda. 

Vou compartilhar aqui o resumo do artigo e, logo depois o link para quem quiser ler na íntegra.

"Pele de Homem"(2020) é uma história em quadrinhos, doravante HQ, franco-belga, que conquistou o público europeu e foi traduzida em 2021 para o português. A narrativa é ambientada na Itália do período renascentista e gira em torno de Bianca, uma jovem que se prepara para o casamento, mas que deseja conhecer o futuro marido. Seu desejo se realiza quando ela descobre um artefato místico que é passado de geração em geração para as mulheres da sua família, uma pele de homem. Trata-se de uma HQ que fala, com muita sensibilidade, sobre a condição feminina numa sociedade patriarcalista, que discute questões relativas aos papéis de gênero, a sexualidade e a homoafetividade, ambientado naquele contexto italiano. O roteirista Hubert Boulard e o ilustrador Frédéric Leutelier constroem uma história que mistura elementos históricos e ficção que dialogam com o presente. Nessa narrativa escrita e visual, o leitor(a) pode se encontrar representado(a) em vários momentos.

Para ler o artigo completo, clique aqui!


domingo, 26 de junho de 2022

COMENTANDO O LIVRO "MULHERES QUADRINISTAS - NO CEARÁ TEM DISSO, SIM!"

Terminei neste fim de semana de ler o livro "Mulheres Quadrinistas no Ceará tem disso, sim!", de Jeanni Cordeiro Barros, com prefácio da pesquisadora Sônia Luyten. Comprei o livro durante a pandemia e ele estava entre minhas prioridades de leitura depois que eu concluísse a minha tese. E foi uma leitura muito boa, por sinal. Fazia tempo que um livro teórico não me prendia tanto ao ponto de eu o ler quase todo em um dia. O livro me cativou por duas coisas.

Primeiro porque apresenta a obra de mulheres quadrinistas, apresentando as autoras juntamente com sua obra. Conhecer a autora ou autor, permite o leitor se apropriar de uma forma diferente da obra. Barros faz um trabalho biográfico e, ao mesmo tempo uma História dos Quadrinhos, além do um registro memorialístico. 

Em segundo, a obra não deixa de ser um registro da história dos quadrinhos local. O que é fantástico. Minha primeira formação como pesquisadora foi em História Local e eu tenho o maior respeito por quem se dedica a essa linha de pesquisa. Eu mesma tento, quando posso, voltar às minha origens, produzindo artigos e livros sobre o tema.  Algo que deveria ser feito em todos os Estados. 

Outra coisa que eu gostei muito foi o fato da autora ter feito uma História das Mulheres na Arte. Barros um movimento que vai do macro ao micro. Ela contextualiza as mulheres no campo das artes de uma forma geral, ela parte para as mulheres nos quadrinhos o Brasil e, nos capítulos que seguem, coloca o foca nas mulheres produtoras de quadrinhos no Ceará.

Por fim, resta elogiar o projeto gráfico. O livro é muito bem diagramado. O tamanho e o papel são muito bons, com ilustrações coloridas e em preto e branco. O valor também é acessível. Um item que não pode faltar na biblioteca de quem pesquisa quadrinhos no Brasil.


quinta-feira, 12 de maio de 2022

ANNE MERGEN E AS CHARGES POLÍTICAS NA DÉCADA DE 1940

Anne Mergen foi uma pioneira nas artes gráficas que atuou como cartunista e chargista, entre as décadas de 1930 e 1950. Anne Briardy Mergen nasceu em Omaha, Nebraska, em 9 de agosto de 1906. Já na infância, a jovem Anne já se interessava pelo desenho, interesse esse que a levou a cursar arte comercial em comercial em Chicago. Foi lá que a autora começou a desenvolver o estilo que marcaria a sua obra e a tornaria mais tarde a primeira dama da charge política nos Estados Unidos, onde desenvolveu seu próprio estilo distinto. Ela se mudou para Miami em meados da década de 1920, onde começou a trabalhar em publicidade de moda para uma loja de departamentos local.

Começou a carreira como cartunista editorial no Miami Daily News, jornal no qual trabalhou por décadas.  Ela trabalho como artista de publicidade de moda para uma loja de departamentos, época em que começou a enviar seus desenhos para o Começou no produzindo desenhos de moda para o jornal Miami Daily New e, em 1933, publicou seu primeiro cartum editorial.  Usando sua formação na escola de arte, experiência em ilustração de moda e seu conhecimento sobre política, fruto do interesse que ela tinha sobre o tema, Mergen se formou e em 1936 e passou a trabalhar em integral como uma cartunista editorial, tornando-a a única caricaturista política nos Estados Unidos. Mergen foi uma das primeiras mulheres a atuar no jornalismo político ilustrado, área na qual, até então, era domínio dos homens.

The Master of Jet Propulsion. Publicado em 15 de february de1940. Anne Mergen Collection, The Ohio State University Billy Ireland Cartoon Library & Museum.

Mergen dividiu o trabalho com o cuidado com a casa, como muitas mulheres de seu tempo. Ela produziu sua obra principalmente em um estúdio caseiro, dividindo o trabalho jornalístico com os afazeres domésticos e a criação dos filhos. Em seu trabalho, cobria tanto manchetes nacionais quanto internacionais, o que dava à sua produção um caráter mais amplo, assim como exigia de Mergen um conhecimento maior tanto do contexto local quando global.

Como cartunista, Anne Mergen, se interessava por temas sobre política internacional. Produziu muitas charges sobre a  II Guerra Mundial e após a guerra, ela continuou a comentar sobre as questões sociais e políticas como a energia atômica, a corrida armamentista, a Guerra da Coréia. Apesar do destaque para a produção voltada para a política internacional, uma característica da produção de Mergen era a preocupação com questões “domesticas”, temas que diziam respeito ao bem estar social da população estadunidense. Dentre elas temos questões relacionadas à saúde e a educação.

 

 A direita:Running a poor second, 02 de outubro de 1955/ A esquerda: The message from above, 01 de junho de 1954. Fonte: Library of Congress.

Quando a Suprema Corte dos EUA decidiu que a segregação racial nas escolas públicas era inconstitucional, ela apoiou e de enfaticamente decisão, tendo produzido a charge “The Message from Above”. Além disso, foi defensora ferrenha de melhorias na educação, com escolas melhor equipadas e preparadas para receber a população, independentemente da cor ou da origem social. Mergen também fez campanha pela vacina contra a poliomielite, que considerava um risco às crianças, população mais vulnerável à doença. Esse último tema, em particular lhe era muito caro, tanto que que a autora chegou a comemorar o início do uso da vacina, em 1955, segundo depoimento da sua filha, Joan Bernhardt.  

Apple For Teacher, 23 de maio de 1954

Anne Mergen se aposentou em 1956, mas continuou produzindo até 1959. O trabalho de Mergen durou mais de 20 anos, período durante o qual a cartunista produziu mais de 7.000 lustrações. Em 2013, sua obra pode ser vista no  The Florida Historic Capitol Museum , em uma exposição que durou de 12 de março de 2013  a 21 de julho de 2013, intitulada “Anne Mergen: Florida Cartoons - Trace the Power of the Editorial Cartoon”. Parte de obra pode ser acessada encontrado no site da The Ohio State University, no setor Digital Collections. A cartunista faleceu em 3 de julho de 1994.

É necessário finalizar dizendo que Anne Mergen foi uma mulher que de muitas formas desafiou os padrões de sua época. Não apenas por atuar numa área dominada pelos homens, mas pela sua militância social e pela consciência que tinha sobre a força do seu trabalho. Foi uma mulher que não se sentia intimidada pelo machismo presente na sociedade estadunidense e que foi maximizado após a II Guerra Mundial. Mergen desafiou paradigmas, destacando-se tanto na análise de problemas políticos e sociais como no uso inteligente do humor como forma de criticá-los.

Fontes:

Anne Briardy Mergen, 1906-1994. Wander Women Project. Disponível em: <https://wanderwomenproject.com/women/anne-briardy-mergen/>. Acesso em 11 mai. 2022.

Anne Mergen. Women in Comics. Disponível em: < https://womenincomics.fandom.com/wiki/Anne_Mergen>. Acesso em 11 mai.2022.

Megen, Anne. Political Cartoons and massive resistance in Virginia. Disponível em: < http://www.littlejohnexplorers.com/jeff/brown/cartoon/cartoonfullpage22.htm>. Acesso em 11 mai. 2022.

NATANSON, Barbara Orbach (2020).  Ready for Research: Anne Mergen’s Editorial Cartoons. Disponível em: < https://blogs.loc.gov/picturethis/2020/02/ready-for-research-anne-mergens-editorial-cartoons/>. Acesso em 08 mai. 2022.

SPITZER, Tanja B.  Anne Mergen: First Lady of Editorial Cartoons During World War II (2020). Disponível em: <https://www.nationalww2museum.org/war/articles/anne-mergen-political-cartoons>. Acesso em 08 mai. 2022.

domingo, 6 de março de 2022

AS MULHERES ESTÃO DOMINANDO ANGOULÊME?

 O título dessa postagem talvez pareça exagerado, mas reflete um sentimento de satisfação ao saber que, depois de tantos anos, as mulheres estão ocupando espaço e competindo lado a lado com os homens num dos eventos mais importantes, relacionado aos quadrinhos, na Europa e no mundo. 

O festival de Angoulême, que está em sua 49ª edição, tem como finalistas para o Grand Prix, pela primeira vez, três mulheres: Penélope Bagieu, Julie Doucet e Catherine Meurisse. O fato é tão significativo que a própria organização do evento reconhece sua importância. 

Em quase meio século de existência o Festival Internacional de Bande Dessinée de Angoulême havia premiado apenas três mulheres, Claire Bretécher (1983), Florence Cestac (2000) e Rumiko Takahashi (2019). Para 2022, pela primeira vez, já sabemos por antecedência que uma mulher será escolhida. Mas a questão toda não é sobre quem recebe o prêmio, mas a forma como as indicações eram realizadas, privilegiando os homens em uma enorme lista na qual poucas ou nenhuma mulher aparecia. Isso mudou, e os resultados estão aqui.

Em 2016, a ausência completa das mulheres entre a lista de indicados levou a protestos, gerou controvérsias e fez com que o Festival de Angoulême repensasse a forma como autores e autoras eram tratados. No ano de 2017, por exemplo, diversos coletivo de mulheres quadrinistas se reuniram e promoveram debates. As mulheres foram sendo gradativamente acolhidas e, em 2019, depois de um hiato de 19 anos, uma mulher novamente é premiada. Trata-se aqui de um reconhecimento conquistado a partir da pressão de grupos feministas e de coletivos de mulheres, apoiados por autores que também se sentiam incomodados com o sexismo que criava barreiras para o reconhecimento do trabalho de autoras talentosas. 

Claro, elas receberam prêmios em outras categorias, mas a categoria principal ficava invariavelmente nas mãos dos homens. Faltava talento? Claro que não! O talento das mulheres nos quadrinhos podia ser visto, por exemplo, na seleção do Prêmio Artemísia, criado para dar visibilidade ao trabalho de autoras que publicam na França.  Obras lindas, sensíveis e profundas foram selecionadas e premiadas ano a ano, mostrando que elas estavam lá, e seus pares as reconheciam. Já era a vez de Angoulême mudar. E parece que está mudando.

Nessa véspera do Dia Internacional da Mulher essa conquista, que pode parecer distante para a maioria de nós, tem um grande significado. A indicação de três mulheres, a premiação de uma, reflete uma mudança de postura e de pensamento que pode impactar positivamente futuras gerações de autoras.

sábado, 27 de novembro de 2021

REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES NOS QUADRINHOS DE AVENTURA: SHEENA, THE QUEEN OF THE JUNGLE


Saiu esta semana um artigo que eu escrevi, retornando aos quadrinhos estadunidenses dos anos de 1930 e 1940, depois de muito tempo e me arriscando pela primeira vez com adaptações para televisão. Primeira vez mesmo. Foi o primeiro artigo que eu escrevi do gênero e finalmente foi publicado na revista Cult de Cultura: revista interdisciplinar sobre arte sequencial, mídias e cultura pop , no dossiê "Cultura Pop: problematizações". O título do artigo é "Representações das Mulheres nos Quadrinhos de Aventura: Sheena, The Queen Of The Jungle"

Segue o resumo: O presente artigo pretende analisar as adaptações da personagem Sheena, the Queen of the Jungle, criada  em  1937,  como  uma  versão  feminina  de  Tarzan,  para  os  quadrinhos.  Esta  personagem  foi posteriormente adaptada para a televisão e para o cinema, ao longo do século XX e no início do século XXI. Nosso objetivo é, a partir da análise da personagem, identificar representações do feminino e entender até que ponto o corpo objetificado da personagem foi um instrumento de perpetuação da dominação  masculina,  numa  sociedade  patriarcal  e  da  naturalização  dos  papéis  de  gênero.  A personagem e suas adaptações serão analisadas à luz da história, a fim de se identificar mudanças e permanências na forma como ela é representada em contextos distintos. Para tanto, teremos como nossa principal base teórica Teresa Lauretis e Roger Chartier

Caso queira conferir o artigo completo, clique aqui!

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

MONEYPENNY E A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NO UNIVERSO DE JAMES BOND

Sean Connery como James Bond junto com Lois Maxwell como Miss Moneypenny em 'Goldfinger' 

O texto que segue, eu escrevi há alguns anos, para colaborar com o artigo do amigo Octávio Aragão. Hoje, relendo, senti vontade de compartilhar. Então resolvi postar aqui no blog, afinal, demandou esforço e acho que talvez agrade a alguns dos leitores e leitoras do blog.

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James Bond e todo o universo fictício que o cerca surgiram dentro de um contexto histórico impactado, de um lado, pelo horror da Segunda Guerra Mundial, e outro pelas transformações geopolíticas que começavam a desenhar os contornos do que seria a nova ordem mundial, marcada pela Guerra Fria.  Ian Fleming foi perspicaz ao se apropriar de um cenário que mostrava promissor como pano de fundo para uma obra de ficção na qual ele pode ainda utilizar suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial, na Divisão de Inteligência Naval e como jornalista.

Os anos de 1950, no entanto, não podem se resumidos apenas à geopolítica ou à memória da Segunda Guerra. Eles são, também, um período marcado por grande retrocesso nas relações sociais, especialmente no que diz respeito à inserção social da mulher. Durante os anos e guerra, as mulheres conquistaram espaço no mercado de trabalho, ocupando cargos que, até então, eram quase que exclusivamente masculinos. Durante o esforço de guerra as lideranças mundiais tentaram ignorar o gênero dos seus soldados. As britânicas foram convocadas para o exercito, as estadunidenses pilotavam aviões de carga e construíam submarinos, as soviéticas pilotavam tanques de guerra, as francesas tiveram um papel muito importante no movimento de resistência.

Mas as representações das mulheres na Segunda Guerra Mundial foram estereotipadas, principalmente nos anos que se seguiram ao conflito. De um lado elas aparecem como as secretarias ou auxiliares fiéis, muitas vezes austeras ou com ar inocente, quase infantil. Por outro lado são apresentadas, também, como as espiãs pérfidas, que seduzem e desvirtuam os homens. Onde estão as atiradoras de elite, as aviadoras intrépidas, as mulheres que combatiam as trincheiras?

Após a Segunda Guerra os papeis de gênero foram reconfigurados num processo que Susan Faludi (2001) chamou de Backlash, um enorme retrocesso nas relações entre homens e mulheres, que marcou o período pós-guerra As mulheres, que na década de 1940 foram valoradas como profissionais, passaram a ser desqualificadas.  O papel de dona de casa, mãe e esposa foi reforçado, assim como o preconceito contra aquelas que insistiam em seguir uma carreira profissional considerada “não-feminina”.

Não por acaso a Moneypenny de Lois Maxwell aparece usando um uniforme da marinha britânica no filme in You Only Live Twice (1967), reafirmando a presença das mulheres nas formas armadas mas, reforçando seu papel burocrático. Ela é militar, mas não deixa está em campo, ou seja, não deixa de ser apenas uma secretária.

Criada nos anos de 1950, Moneypenny nasceu dentro de um contexto no qual as mulheres deveram servir aos homens e auxiliá-los, mas jamais assumir qualquer protagonismo. Elas podem flertar, mas não devem se manter castas desempenhando sempre o papel da boa moça. As mulheres das décadas de 1950 e 1960, em particular, são constantemente vitimas de uma violência simbólica, reforçada por um discurso no qual as mulheres são levadas a aceitarem como sendo natural a sua condição de inferioridade. 

 
Lois Maxwell, com Money penny em You Only Live Twice

Exercida através de um conjunto de mecanismos de conservação e reprodução das estruturas de domínio, a violência simbólica se perpetua, fazendo parte tanto do universo masculino quanto do feminino. Os dominados, inconsciente e involuntariamente, assimilam os valores e a visão do mundo dos dominantes, o modo de ver, a maneira de valorar. As concepções de fundo são as dos dominantes, mas os dominados ignoram totalmente esse processo deaquisição e partem ingenuamente do princípio de que essas ideias e esses valores são os seus (NOGUEIRA, 2015, 80).

 Segundo Pierre Bourdieu (1998), utiliza-se critério biológico como forma de justificar uma divisão social, baseada numa relação de gênero desisigual, na qual as mulheres são submetidas à dominação masculina. Cabe às mulheres, dentro dessa configuração, um papel de submissão e aceitação da sua condição de inferioridade frente aos homens, seus superiores. Por sua vez, para Joan Scott (1989),  o gênero é uma construção, um universo simbólico a partir do qual definimos a forma como vamos enxergar a nós mesmos(as) e a realidade em que vivemos; um saber, uma percepção sobre as diferenças sexuais, é uma relação de poder que vai muito além da questão biológica (o sexo), alicerçada em hierarquias sociais, valores culturais, em símbolos e significados.

Essas relações de gênero pode ser vistas como socialmente produzidas e reforças, negando às mulheres seu protagonismo em esferas nas quais, supostamente, apenas homens podem adentrar. Talvez por isso cause tanto espanto ao público masculino a possibilidade de uma mulher assumir o lugar do lendário 007 rompendo com o ciclo de dominação.

A ideia de inferioridade feminina está presente no nome da personagem Moneypenny, que pode ser traduzido como algo do tipo “dinheiro em centavos”, algo de baixo valor. Conscientemente ou não, ao construir a personagem, na década de 1950, o autor deu a ela um nome singular que marca sua condição de coadjuvante em uma trama na qual sua participação é pequena e muitas vezes figurativa. Se houve momentos de emporamento a eles se seguiram blacklashs, quando a personagem não se considera capaz de assumir um papel mais ativo na trama e se recolhe, novamente, ao papel de secretária.

REFERÊNCIAS

FALUDI, Susan. Backlash. O contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres. Trad. Mário Fondelli. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

BOURDIEU. Pierre. La domination masculine. Paris - Éditions du Seuil, 1998.

NOGUEIRA, Natania Aparecida da Silva. As representações femininas nas Histórias em Quadrinhos norte-americanas: June Tarpé Mills e sua Miss Fury (1941-1952). Dissertação apresentada para obtenção do Grau de Mestre em História - Universidade Salgado de Oliveira - Niterói, 2015.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para análise histórica (1989). Disponível em: <http://bit.ly/2yKYNX3>, acesso em 27 mai. 2017.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

TRABALHADORAS INVISÍVEIS: MULHERES QUADRINISTAS E OS SILÊNCIOS DA HISTÓRIA


Produzi esse texto em parceria com a querida amiga Valéria Fernandes da Silva, para o 31º Simpósio Nacional de História da ANPUH. O encontro ocorreu em julho deste ano (2021) e foi publicado  este mês, em formato eletrônico. Nele estamos falando sobre a história de mulheres quadrinistas, cuja memória vem sendo revisitada. Os desafios, os obstáculos que muitas delas encontraram ao longo da profissão, não apenas por serem mulheres mais, também, pelo fato de ser quadrinista nem sempre foi considerada uma atividade digna de status. Segue o resumo do artigo.

Resumo: Quando nos dedicamos a falar das mulheres quadrinistas, normalmente, nos deparamos com grandes silêncios que sugerem que elas não existiam, ou não produziram nada que merecesse figurar nos livros de História. Este tipo de discurso foi produzido e reproduzido ao longo dos anos e reforçada tanto por intelectuais, especializados nos estudos sobre quadrinhos, quanto pelos fãs e os meios de comunicação. Vez ou outra, algumas mulheres conseguiram romper essa barreira, somente para terem sua obra celebrada como exceção ou escrutinada a partir de critérios estabelecidos para validar a obra de autores masculinos. Consideradas excepcionais, elas não podiam servir, portanto, de modelo para as outras mulheres. Dentro das narrativas sobre a História das histórias de quadrinhos, constituiu-se como uma verdade que a profissão é masculina e que as mulheres no Ocidente não seriam nem produtoras, nem consumidoras de quadrinhos. As discriminações e omissões decorrentes do gênero, isto é, dos papéis atribuídos à homens e mulheres em uma dada sociedade historicamente determinada, vem sendo muito estudadas nos últimos anos. Vários estudiosas colocaram abaixo muitas das teorias que, por exemplo, relacionavam a suposta inferioridade biológica e intelectual das mulheres com reação aos homens. Outras demostraram que os papeis sociais outrora naturalizados foram socialmente construídos. O objetivo desse trabalho é abordar, utilizando-se das discussões feministas e do campo dos estudos de gênero, este aspecto da História dos Quadrinhos, mas ir um pouco além, a partir das falas de algumas autoras e sobre elas mesmas, é possível perceber outro fator de exclusão: a carreira de quadrinista não era vista digna de ser perseguido por um artista sério, mas, especialmente, em tempos de crise econômica, ou de guerra, era um trabalho temporário que deveria ser superado tão logo fosse possível. Em nosso trabalho, pretendemos resgatar as falas de mulheres quadrinistas que enfrentaram uma barreira a mais para produzirem seus quadrinhos e como as formas de literatura vistas como populares eram consideradas inferiores e mesmo perniciosas para a juventude até por seus próprios autores. Acreditamos que os quadrinhos sejam não apenas um lugar de fala mas, também, um lugar de memória dessas mulheres e que, a partir de sua trajetória podemos compor um quadro mais amplo no qual temos não apenas a possibilidade de analisar relações de gênero mais de identificar pontos relevantes para a construção de uma história das mulheres nas artes gráficas, um campo que por muito tempo foi monopolizado pelos homens.  

Caso alguém se interesse, clique aqui para ler o texto na íntegra.

Como citar esse texto:

SILVA, Valéria Fernandes da, NOGUEIRA, Natania Aparecida da Silva. Trabalhadoras invisíveis: mulheres quadrinistas e os silêncios da História. Anais do 31° Simpósio Nacional de História [livro eletrônico] : história, verdade e tecnologia /organização Márcia Maria Menendes Motta. -- 1. ed. --São Paulo : ANPUH-Brasil, 2021.

sábado, 11 de setembro de 2021

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE A HQ "PELE DE HOMEM"


Eu me sinto incomodada quando as pessoas falam de  forma generalizante que os homens não entendem as mulheres. Quais homens? Quais mulheres? 

Começo o meu texto com essa provocação depois de me deliciar com a leitura de "Pele de Homem"(2020), uma HQ aclamada e que tem acumulado não apenas elogios como, também, prêmios. Essa HQ foi roteirizada por Hubert Boulard, ou apenas Hubert, que nos deixou em 2020, aos 49 anos de idade. A ilustração e as cores ficaram a cargo de Zanzim, pseudônimo de Frédéric Leutelier.

Dois homens que souberam colocar em imagem e texto os dilemas enfrentados por uma mulher que vive em uma cidade italiana, no período do renascentista. A HQ levanta diversas questões, que vão dos papeis de gênero impostos a homens e mulheres ao fanatismo religioso e à homoafetividade. 

"Pele de Homem" narra a história de Bianca, uma mulher que recebe como herança de família uma pele de homem. Ao vesti-la ela realmente se torna um homem, com músculos mais forte e sendo inclusive capaz de ter um relacionamento sexual. Bianca quer entender o mundo dos homens, conhecer o seu futuro marido e, por tabela, acaba se descobrindo enquanto mulher. 

Uma HQ que valoriza as mulheres, reivindica respeito e explora o mundo dos homens a partir de uma perspectiva feminina. Pois é, e essa HQ foi escrita por dois homens. Intrigante, não? Talvez não tanto. Há homens plurais, assim como mulheres plurais, por isso sempre evitamos usar o singular para nos referirmos a um e outro. 

Há homens que conseguem se colocar no lugar das mulheres e o fazem muito bem. É o caso dessa HQ que, surpreendentemente nos brinda com uma história de empoderamento, quando uma mulher se torna um homem numa sociedade fechada para as mulheres e a revoluciona. 

Mas se a pele é de homem, a mente, as ações e as ideias são de Bianca, se descobre como mulher. Isso não porque pode se disfarçar de homem, mas porque é capaz de identificar os mecanismos de dominação que colocam as mulheres como seres inferiores e se recusa a se curvar a eles.

Enfim, uma obra muito bonita, tanto pelo traço delicado quando pela profundidade do texto.  Pele de Homem foi publicada em português e é um excelente leitura, tanto para homens quando para mulheres.

domingo, 5 de setembro de 2021

QUADRINHOS E MEMÓRIA: OUVINDO A VOZ DAS MULHERES

Tornei-me admiradora dos quadrinhos de Keum Suk Gendry-Kim quando li “Grama”, primeira HQ da autora sul-coreana a ser publicado no Brasil Agora reafirmo minha admiração após ler "A Espera", HQ publicada recentemente no Brasil. Keum Suk Gendry-Kim trabalha com memórias, a partir das quais cria obras de ficção. Uma ficção que traz uma base sólida, pois é criada a partir de entrevistas e de pesquisas. Umberto Eco afirma que a ficção só se constrói a partir da realidade, nada mais certo e que pode ser comprovado em "A Espera". 

Nesta obra, Keum Suk Gendry-Kim escreve sobre a guerra da Coreia a partir dos relatos de pessoas que foram separadas de suas famílias, no início da década de 1950. A autora faz um levantamento histórico que permite a nós, leigos na história do leste asiático, contextualizarmos o período que vai da Segunda Guerra à guerra da Coreia. Ela faz essa contextualização ao introduzir o testemunho de quem vivenciou esses eventos, por meio de personagens ficcionais baseados em pessoas reais. Uma ficção se que se constrói a partir da memória individual e coletiva.

É uma obra que traz uma fluidez da narrativa que permite ao leitor uma leitura prazerosa, ao mesmo tempo que aborda com sensibilidade tema delicados, como o caso da separação das famílias. Outro ponto que me agrada muito, é o fato da autora se auto representar, na forma de Jina, filha caçula da protagonista, Gwija, uma senhora de 90 anos que foi separada do marido e do filho quando fugiam da guerra. Ao se colocar na narrativa a autora faz o papel de mediadora e cria uma dinâmica única na qual histórias são introduzidas e contadas. 

Ao contrário de “Grama”, quando ela não está apenas pesquisando e colhendo informações e memórias de sobreviventes. Em “A Espera” a autora está também contando a própria história, uma vez que sua mãe também passou pela mesma situação. A autora é parte de uma das famílias que foram separadas e coloca na HQ relatos que colheu no seio familiar. Sendo assim, “A Espera” traz também a escrita de si, uma vez que a autora também vivenciou a questão central, que a separação das famílias e a espera pelo reencontro.

Keum Suk Gendry-Kim dá oportunidade para mulheres contarem a história a partir de um ponto de vista diferente dos homens, assim como fez em Grama. Elas falam do casamento, da maternidade e das dificuldades de ser mulher numa sociedade na qual elas não possuíam espaço para expressão. A obra traz um raio-x do patriarcado coreano, nas décadas de 1940 e 1950, que em muitos pontos se assemelha à realidade das mulheres do Ocidente, que só veio a conhecer mudanças significativas a partir do movimento feminina.

Eu poderia escrever várias páginas sobre essa HQ, e pretendo fazê-lo em breve, mas vou finalizar recomendando fortemente a obra para quem gosta de um quadrinho de ficção que trata de temas sensíveis e que revisita e conta a história de forma clara e comprometida.