O texto completo pode ser acessado clicando aqui!
Este site foi criado para que eu pudesse postar meus trabalhos sobre a História de Leopoldina, sobre História do Ensino e Educação. Com o tempo ele acabou se tornando muito mais do que isso. Hoje eu o uso para fazer reflexões sobre meu trabalho na escola, sobre minhas pesquisas com quadrinhos e sobre minhas opiniões sobre livros e filmes.
domingo, 26 de abril de 2026
UMA LEITURA COMPARADA DAS SÉRIES DRAMÁTICAS COREANAS MR. QUEEN E HAE-RYUNG, A HISTORIADORA
domingo, 19 de maio de 2024
COLÉGIO IMACULADA CONCEIÇÃO: FORMAÇÃO DOCENTE E MEMÓRIA
O livro é uma produção independente e nasceu do desejo de escrever sobre a história do Colégio Imaculada Conceição, de Leopoldina (MG), que este ano completou 106 anos de existência. Foi, também uma forma de eu retornar àquilo que marcou o início da minha vida como pesquisadora, a História do Ensino e, também, a história Regional.
Eu já havia escrito um livro, na década de 2010, sobre o Ginásio Leopoldinense, outra escola centenária de Leopoldina. Foi minha primeira obra autoral e resultado da minha especialização, realizada entre 1996 e 1997 na UFJF. Eu sempre gostei muito de história regional, assim como gosto muito de história das mulheres.
Eu me sinto muito confortável trabalhando estes dois temas. Confesso que eles me dão uma sensação de auto realização. Falar sobre minha região faz com que eu reforce meu sentimento de pertencimento, falar sobre mulheres faz com que eu me sinta mais confiante.
Com este livro eu tive a oportunidade de fazer as duas coisas. Eu escrevi sobre o ensino para mulheres em Minas Gerais e em Leopoldina, e pude falar bastante da nossa história local. Mesmo sendo um livro voltado para o caso de Leopoldina, ele pode ser usado como uma referência para o estudo da história do ensino em Minas Gerais, uma vez que eu busquei vincular o nosso contexto local com a história de Minas e do Brasil.
Enfim, estou muito feliz com o resultado e espero que todos aqueles e aquelas que compareceram ao lançamento ontem possam ter uma leitura agradável. Tenho que agradecer muito às pessoas que me apoiaram na elaboração da obra, seja lendo e dando sugestões, seja fazendo a correção ortográfica e a diagramação.
Agradecimentos especiais a Guilherme Smee (que fez a arte da capa), Ana Cristina Fajardo e Luiz de Melo (que fizeram a correção ortográfica) e Conceição Zambrano, diretora do Colégio Imaculada, que me deu acesso à documentação para a pesquisa e possibilitou que o livro fosse lançado neste dia 18 de maio, de 2024, uma data que vou guardar dentro do coração.
Pessoas que quiserem obter o livro e não são de Leopoldina, podem fazê-lo entrando em contato pelo e-mail nogueira.natania@gmail.com
terça-feira, 14 de maio de 2024
QUADRINHOS FEMINISTAS OU QUADRINHOS PARA MULHERES?
domingo, 4 de dezembro de 2022
COMENTANDO A HQ BERTHA LUTZ E A CARTA DA ONU
Mas comecei e já apontei diversos méritos da obra.
Quem acompanha as postagens que faço no meu blog sabe que tenho uma predileção por quadrinhos que trazem conteúdo biográfico ou autobiográfico. Da mesma forma gosto de obras que tem na história sua principal referência e que se preocupam em utilizar fontes e contextualizar, mesmo que isso não seja uma obrigatoriedade em obras de ficção.
Essa HQ sobre Bertha Lutz se encaixa dentro disso. É obra que eu chamaria de referência para quem quer trabalhar a história do feminismo mundial e brasileiro. Bertha, perdoem-me a intimidade, foi uma mulher fabulosa. Cientista, feminista, política, militante sufragista, ao longo de outras mulheres como Jerônima Mesquita foi responsável pela conquista do voto feminino.
Além disso, foi uma das poucas mulheres a participar da elaboração da Carta da ONU, em 1945. Esse documento, histórico, propunha a construção e um futuro melhor, após o flagelo de duas guerras mundiais. As mulheres estavam lá, 14 mulheres, sobre as quais acabamos tendo conhecimento não apenas da sua existência, pois confesso que além de Bertha, não conhecia nenhuma delas, como também de seus feitos e conquistas. Algumas delas nos trazem simpatia, outras nem tanto. É notável perceber que, ao contrário do que muitos pensam, as mulheres não pensam igual. As posições e ações de Bertha, por exemplo, iam de encontro a concepções mais conservadoras de algumas delas.
Mas como eu disse, trata-se de uma biografia histórica que traz à tona a memória do feminismo e não apenas a memória de uma feminista. Uma obra de ficção que dialoga com a história. Ficcção pois a Bertha que nos é apresentada e o resultado da apropriação e da visão de mundo as autoras, mas baseia-se em documentos, em relatos. Documentos de época como cartas, textos oficiais e fotografias.
Há na obra passagens muito interessantes, marcadas por uma crítica sutil, por uma ironia leve mas certeira, por informações e cenas que ajudam a enriquecer o estudo tanto da política internacional brasileira quando do que era ser mulher nos anos de 1940. Enfim, recomendo a leitura da obra, tanto pelo seu valor histórico e seu conteúdo rico quando pelo fato de ser, realmente, uma boa leitura.
E o que é uma boa leitura para mim?
Um texto leve, mas rico, um traço simples, mas marcante, uma obra despretensiosa mas que alcança tudo que propõe e muito mais.
domingo, 23 de outubro de 2022
HELENA FONSECA NA PAPIERS NICKELÉS
domingo, 2 de outubro de 2022
A MULHER REI E A HISTÓRIA DAS MULHERES NA ÁFRICA
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| Divulgação do filme - "A Mulher Rei". |
![]() |
| Amazonas de Daomé |
O
filme é ambientado na África, no Reino de Daomé, atual Benin, um dos reinos
mais poderosos daquele continente entre os séculos XVI e XIX. Daomé permaneceu um
reino autônomo até 1904, quando o último rei foi destronado e os franceses o anexaram
ao seu império colonial, depois de muitos anos de guerra. A história gira em
torno das "Agodjié", também chamadas de Ahosi ou Mino,
uma tropa de elite formada por mulheres guerreiras a serviço do rei. O grupo é comandado por Nanisca, personagem
de Viola Davis, que além de defender o reino de tribos inimigas e de
colonizadores franceses ainda entoa um poderoso discurso contra a escravidão de
africanos e sua venda para traficantes europeus. As "Agodjié",
inclusive, inspiram as “Dora
Milaje”, mulheres da guarda real de Wakanda no filme “Pantera Negra”.
Essas
mulheres guerreiras realmente existiram e foram temidas tanto por africanos
quanto por europeus, estes últimos as chamavam de Amazonas, uma referência ao
mito grego. Segundo registros, o primeiro regimento de "Agodjié" foi formado durante o reinado de Tassi Hangbe, a primeira e única mulher que reinou em Daomé,
no século XVIII e, também, a primeira "Agodjié". Há também relatos
que afirmam que elas eram, originalmente, mulheres caçadoras. Essas guerreiras
bem treinadas atuavam na segurança da família real, como espiãs e em batalhas.
Elas eram moças recrutadas
entre o povo de Daomé ou oferecidas, quando meninas, pelas suas famílias ao
rei. Elas podiam ser também mulheres capturadas de outras tribos e
transformadas em cativas. A essas últimas era feita a oferta de servir ao rei como
mulheres livres. Isso aparece em uma passagem do filme. Quando uma mulher de
uma tribo inimiga é questionada sobre a razão que a leva a aceitar a oferta ela
responde algo como “Aqui vou ser o caçador e não a presa”. E não deviam ser
poucas que aceitavam pois dos escravos traficados do reino, a minoria era de
mulheres.
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Grupo de durante uma visita a Paris, 1891 - Fonte: https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/
Tornar-se uma "Agodjié"
dava às mulheres um novo papel dentro de uma sociedade dominada por homens.
Elas abriam mão do casamento e dos filhos e recebendo em troca o reconhecimento
e um status social que as colocava entre as pessoas mais respeitadas e admiradas
de Daomé. Os homens comuns não podiam encará-las, inclusive as temiam, e tinham
que abrir caminho quando elas passavam. Apesar de todos os riscos e do
treinamento intenso muitas mulheres escolhiam se tornar "Agodjié",
tanto que elas representavam cerca de um terço das topas de Daomé. Além disso,
as "Agodjié" tinha influência política e participação de decisões
importantes. Em muitos reinos africanos mulheres chegaram a assumir posições de
liderança ou mesmo certo status social, mas em Daomé as mulheres encontraram-se
em uma posição de empoderamento única, o que torna ainda mais interessante sua
história, contada no filme.
O Brasil tem uma ligação
com o reino de Daomé que começou com Portugal, durante as navegações. Os portugueses
estabeleceram relações econômicas e diplomáticas na região, tendo lá construído
uma feitoria no reino de Daomé, posteriormente transformada na Fortaleza
de São João Batista de Ajudá. De
lá vieram considerável parte dos escravos trazidos para a América. Daomé
enriqueceu com esse comércio, trocando prisioneiros de guerra por mercadorias
europeus. No entanto, como tempo, o próprio povo de Daomé acabou vendido como
escravo. Não atoa a região recebeu o nome de “Costa dos Escravos”. Daomé também
tinha relações diplomáticas com o Brasil, tendo sido o primeiro Estado a
reconhecer a nossa independência, em 1922, antes mesmo dos Estados Unidos, o
que ocorreu apenas em 26 de
maio de 1824.

Fortaleza de São João Batista de Ajudá - 1886 - Fonte: wikipedia.
Eu me emocionei no filme porque senti que pela
primeira vez vou ter um material realmente rico e empoderador para poder
utilizar na escola. Trabalho com muitos alunos afrodescendentes, “A Mulher Rei”
traz não apenas uma boa contextualização da história de um reino africano como,
também, de empoderamento feminino. Essas mulheres guerreiras, na sua
ferocidade, entoam um discurso libertário. Elas agarram a oportunidade e fogem
do papel de submissão representado pelo casamento, geralmente arranjado, no
qual não seria valorizada e estaria à mercê da violência. Assistam à “A Mulher
Rei”, independente do seu gênero e da sua cor, tenho certeza que vai ser uma
ótima experiência.
Fontes
consultadas:
Agudás - de africanos no Brasil a ‘brasileiros’ na África. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/hcsm/a/vtXQvFkGbHFSHQhs5BQv3rs/?lang=pt>. Acesso em 02 de out. 2022.
Amazonas de Daomé: as mulheres mais temidas do mundo. Disponível em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-amazonas-daome-mulheres-temidas-mundo.phtml>. Acesso em 02 de out. 2022.
Amazonas: O exército feminino do Reino do Daomé. Disponpível em: https://www.dw.com/pt-002/amazonas-o-ex%C3%A9rcito-feminino-do-reino-do-daom%C3%A9/a-56823669.
Acesso em 02 de out. 2022.
JIF : Je vous Présente les Agodjié, Braves Amazones du Danhomè. Disponível em: <https://fafadi323701274.wordpress.com/2020/02/29/jif-je-vous-presente-les-agodjie-braves-amazones-du-danhome/>. Acesso em 02 de out. 2022.
Os guerreiros deste reino de África Ocidental eram formidáveis – e eram mulheres. Disponível em: <https://www.natgeo.pt/historia/2022/09/os-guerreiros-deste-reino-de-africa-ocidental-eram-formidaveis-e-eram-mulheres>. Acesso em 02 de out. 2022.
Reino do Daomé. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_do_Daom%C3%A9>. Acesso em 02 de out. 2022.
The Woman King (2022). Disponível em: <https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/>. Acesso em 02 de out. 2022.
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
PROJETO GUERREIRAS DA INDEPENDÊNCIA
Para a semana da comemoração dos 200 anos da Independência, preparamos na Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado uma pequena exposição de banners com o tema "Guerreiras da Independência", que vai ser começar no dia 06 de setembro e deve durar até o final do mês.
Na exposição trazemos a história de mulheres que foram importantes tanto para a declaração da nossa Independência quanto para que ela pudesse se consolidar. Mulheres que foram para a frente de batalha para lutar contra tropas portuguesas, mulheres que se colocaram contra a opressão. Nestes 200 anos queremos trazer aqui sua memória, para que elas possam inspirar novas gerações.
O objetivo do projeto é trabalhar justamente o papel das pessoas comuns nas história, sem tirar o mérito, claro, daqueles que já são conhecidos. Em especial, escolhemos as mulheres porque elas normalmente são esquecidas ou citadas superficialmente. O projeto pretende atender a todos os anos do Ensino Fundamental e do EJA e ser ponto de partida para outros pequenos projetos e para debates.
Confira nossa pequena exposição.
Agradecimentos
Agradecemos à direção da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado por apoiar o projeto e aos senhores Amilton Kabuna e Luiz de Mello por patrocinarem os banners.
OBS: Os banners podem ser reproduzidos livremente.
Créditos
As imagens foram capturadas na Internet.
Imperatriz Maria Leopoldina - Flávio Viana (@flaviovianart). Imagem capturada aqui
Maria Felipa de Oliveira - arte de @ltdathayde. Imagem capturada aqui!
Maria Quitéria de Jesus - ilustração de Guilherme Karsten. Imagem capturada aqui!
Joana Angélica - Imagem capturada aqui!
terça-feira, 19 de julho de 2022
ARTIGO SOBRE A HQ PELE DE HOMEM
Vou compartilhar aqui o resumo do artigo e, logo depois o link para quem quiser ler na íntegra.
"Pele de Homem"(2020) é uma história em quadrinhos, doravante HQ, franco-belga, que conquistou o público europeu e foi traduzida em 2021 para o português. A narrativa é ambientada na Itália do período renascentista e gira em torno de Bianca, uma jovem que se prepara para o casamento, mas que deseja conhecer o futuro marido. Seu desejo se realiza quando ela descobre um artefato místico que é passado de geração em geração para as mulheres da sua família, uma pele de homem. Trata-se de uma HQ que fala, com muita sensibilidade, sobre a condição feminina numa sociedade patriarcalista, que discute questões relativas aos papéis de gênero, a sexualidade e a homoafetividade, ambientado naquele contexto italiano. O roteirista Hubert Boulard e o ilustrador Frédéric Leutelier constroem uma história que mistura elementos históricos e ficção que dialogam com o presente. Nessa narrativa escrita e visual, o leitor(a) pode se encontrar representado(a) em vários momentos.
Para ler o artigo completo, clique aqui!
domingo, 26 de junho de 2022
COMENTANDO O LIVRO "MULHERES QUADRINISTAS - NO CEARÁ TEM DISSO, SIM!"
Primeiro porque apresenta a obra de mulheres quadrinistas, apresentando as autoras juntamente com sua obra. Conhecer a autora ou autor, permite o leitor se apropriar de uma forma diferente da obra. Barros faz um trabalho biográfico e, ao mesmo tempo uma História dos Quadrinhos, além do um registro memorialístico.
Em segundo, a obra não deixa de ser um registro da história dos quadrinhos local. O que é fantástico. Minha primeira formação como pesquisadora foi em História Local e eu tenho o maior respeito por quem se dedica a essa linha de pesquisa. Eu mesma tento, quando posso, voltar às minha origens, produzindo artigos e livros sobre o tema. Algo que deveria ser feito em todos os Estados.
Outra coisa que eu gostei muito foi o fato da autora ter feito uma História das Mulheres na Arte. Barros um movimento que vai do macro ao micro. Ela contextualiza as mulheres no campo das artes de uma forma geral, ela parte para as mulheres nos quadrinhos o Brasil e, nos capítulos que seguem, coloca o foca nas mulheres produtoras de quadrinhos no Ceará.
Por fim, resta elogiar o projeto gráfico. O livro é muito bem diagramado. O tamanho e o papel são muito bons, com ilustrações coloridas e em preto e branco. O valor também é acessível. Um item que não pode faltar na biblioteca de quem pesquisa quadrinhos no Brasil.
quinta-feira, 12 de maio de 2022
ANNE MERGEN E AS CHARGES POLÍTICAS NA DÉCADA DE 1940
Começou
a carreira como cartunista editorial no Miami Daily News, jornal no qual
trabalhou por décadas. Ela trabalho como
artista de publicidade de moda para uma loja de departamentos, época em que
começou a enviar seus desenhos para o Começou no produzindo desenhos de moda
para o jornal Miami Daily New e, em 1933, publicou seu primeiro cartum editorial.
Usando sua formação na escola de arte,
experiência em ilustração de moda e seu conhecimento sobre política, fruto do
interesse que ela tinha sobre o tema, Mergen se formou e em 1936 e passou a
trabalhar em integral como uma cartunista editorial, tornando-a a única
caricaturista política nos Estados Unidos. Mergen foi uma das primeiras
mulheres a atuar no jornalismo político ilustrado, área na qual, até então, era
domínio dos homens.
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| The Master of Jet Propulsion. Publicado em 15 de february de1940. Anne Mergen Collection, The Ohio State University Billy Ireland Cartoon Library & Museum. |
Mergen dividiu o trabalho com o cuidado com a casa, como muitas mulheres de seu tempo. Ela produziu sua obra principalmente em um estúdio caseiro, dividindo o trabalho jornalístico com os afazeres domésticos e a criação dos filhos. Em seu trabalho, cobria tanto manchetes nacionais quanto internacionais, o que dava à sua produção um caráter mais amplo, assim como exigia de Mergen um conhecimento maior tanto do contexto local quando global.
Como
cartunista, Anne Mergen, se interessava por temas sobre política internacional.
Produziu muitas charges sobre a II
Guerra Mundial e após a guerra, ela continuou a comentar sobre as questões
sociais e políticas como a energia atômica, a corrida armamentista, a Guerra da
Coréia. Apesar do destaque para a produção voltada para a política
internacional, uma característica da produção de Mergen era a preocupação com
questões “domesticas”, temas que diziam respeito ao bem estar social da
população estadunidense. Dentre elas temos questões relacionadas à saúde e a
educação.
| A direita:Running a poor second, 02 de outubro de 1955/ A
esquerda: The message from above, 01 de junho de 1954. Fonte: Library of
Congress. |
Quando a Suprema Corte dos EUA decidiu que a segregação racial nas escolas públicas era inconstitucional, ela apoiou e de enfaticamente decisão, tendo produzido a charge “The Message from Above”. Além disso, foi defensora ferrenha de melhorias na educação, com escolas melhor equipadas e preparadas para receber a população, independentemente da cor ou da origem social. Mergen também fez campanha pela vacina contra a poliomielite, que considerava um risco às crianças, população mais vulnerável à doença. Esse último tema, em particular lhe era muito caro, tanto que que a autora chegou a comemorar o início do uso da vacina, em 1955, segundo depoimento da sua filha, Joan Bernhardt.

Apple For Teacher, 23 de maio de 1954
Anne Mergen se aposentou em 1956, mas continuou produzindo até 1959. O trabalho de Mergen durou mais de 20 anos, período durante o qual a cartunista produziu mais de 7.000 lustrações. Em 2013, sua obra pode ser vista no The Florida Historic Capitol Museum , em uma exposição que durou de 12 de março de 2013 a 21 de julho de 2013, intitulada “Anne Mergen: Florida Cartoons - Trace the Power of the Editorial Cartoon”. Parte de obra pode ser acessada encontrado no site da The Ohio State University, no setor Digital Collections. A cartunista faleceu em 3 de julho de 1994.
É
necessário finalizar dizendo que Anne Mergen foi uma mulher que de muitas
formas desafiou os padrões de sua época. Não apenas por atuar numa área
dominada pelos homens, mas pela sua militância social e pela consciência que
tinha sobre a força do seu trabalho. Foi uma mulher que não se sentia
intimidada pelo machismo presente na sociedade estadunidense e que foi
maximizado após a II Guerra Mundial. Mergen desafiou paradigmas, destacando-se
tanto na análise de problemas políticos e sociais como no uso inteligente do
humor como forma de criticá-los.
Fontes:
Anne Briardy Mergen, 1906-1994. Wander Women
Project. Disponível em:
<https://wanderwomenproject.com/women/anne-briardy-mergen/>. Acesso em 11
mai. 2022.
Anne Mergen. Women in Comics. Disponível em:
< https://womenincomics.fandom.com/wiki/Anne_Mergen>.
Acesso em 11 mai.2022.
Megen, Anne. Political Cartoons and massive
resistance in Virginia. Disponível em: <
http://www.littlejohnexplorers.com/jeff/brown/cartoon/cartoonfullpage22.htm>. Acesso
em 11 mai. 2022.
NATANSON, Barbara Orbach (2020). Ready
for Research: Anne Mergen’s Editorial Cartoons. Disponível em: < https://blogs.loc.gov/picturethis/2020/02/ready-for-research-anne-mergens-editorial-cartoons/>. Acesso
em 08 mai. 2022.
SPITZER, Tanja B. Anne Mergen: First
Lady of Editorial Cartoons During World War II (2020). Disponível em: <https://www.nationalww2museum.org/war/articles/anne-mergen-political-cartoons>.
Acesso em 08 mai. 2022.
domingo, 6 de março de 2022
AS MULHERES ESTÃO DOMINANDO ANGOULÊME?
O título dessa postagem talvez pareça exagerado, mas reflete um sentimento de satisfação ao saber que, depois de tantos anos, as mulheres estão ocupando espaço e competindo lado a lado com os homens num dos eventos mais importantes, relacionado aos quadrinhos, na Europa e no mundo.
O
festival de Angoulême, que está em sua 49ª edição, tem como finalistas para o
Grand Prix, pela primeira vez, três mulheres: Penélope Bagieu, Julie
Doucet e Catherine Meurisse. O fato é tão significativo que a própria
organização do evento reconhece sua importância.
Em quase meio século de existência o Festival
Internacional de Bande Dessinée de Angoulême havia premiado apenas três mulheres, Claire
Bretécher (1983), Florence Cestac (2000) e Rumiko Takahashi (2019). Para
2022, pela primeira vez, já sabemos por antecedência que uma mulher será
escolhida. Mas a questão toda não é sobre quem recebe o prêmio, mas a forma
como as indicações eram realizadas, privilegiando os homens em uma enorme lista
na qual poucas ou nenhuma mulher aparecia. Isso mudou, e os resultados estão aqui.
Em 2016, a ausência completa das mulheres entre a lista de
indicados levou a protestos, gerou controvérsias e fez com que o Festival de
Angoulême repensasse a forma como autores e autoras eram tratados. No ano de
2017, por exemplo, diversos coletivo de mulheres quadrinistas se reuniram e
promoveram debates. As mulheres foram sendo gradativamente acolhidas e, em 2019,
depois de um hiato de 19 anos, uma mulher novamente é premiada. Trata-se aqui de um reconhecimento
conquistado a partir da pressão de grupos feministas e de coletivos de mulheres,
apoiados por autores que também se sentiam incomodados com o sexismo que criava
barreiras para o reconhecimento do trabalho de autoras talentosas.
Claro, elas receberam prêmios em outras categorias, mas a categoria
principal ficava invariavelmente nas mãos dos homens. Faltava talento? Claro
que não! O talento das mulheres nos quadrinhos podia ser visto, por exemplo,
na seleção do Prêmio Artemísia, criado para dar visibilidade ao trabalho de
autoras que publicam na França. Obras lindas, sensíveis e profundas
foram selecionadas e premiadas ano a ano, mostrando que elas estavam lá, e seus
pares as reconheciam. Já era a vez de Angoulême mudar. E parece que está
mudando.
Nessa véspera do Dia Internacional da Mulher essa conquista, que pode parecer distante para a maioria de nós, tem um grande significado. A indicação de três mulheres, a premiação de uma, reflete uma mudança de postura e de pensamento que pode impactar positivamente futuras gerações de autoras.
sábado, 27 de novembro de 2021
REPRESENTAÇÕES DAS MULHERES NOS QUADRINHOS DE AVENTURA: SHEENA, THE QUEEN OF THE JUNGLE
Segue o resumo: O presente artigo pretende analisar as adaptações da personagem Sheena, the Queen of the Jungle, criada em 1937, como uma versão feminina de Tarzan, para os quadrinhos. Esta personagem foi posteriormente adaptada para a televisão e para o cinema, ao longo do século XX e no início do século XXI. Nosso objetivo é, a partir da análise da personagem, identificar representações do feminino e entender até que ponto o corpo objetificado da personagem foi um instrumento de perpetuação da dominação masculina, numa sociedade patriarcal e da naturalização dos papéis de gênero. A personagem e suas adaptações serão analisadas à luz da história, a fim de se identificar mudanças e permanências na forma como ela é representada em contextos distintos. Para tanto, teremos como nossa principal base teórica Teresa Lauretis e Roger Chartier
Caso queira conferir o artigo completo, clique aqui!
sexta-feira, 1 de outubro de 2021
MONEYPENNY E A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NO UNIVERSO DE JAMES BOND
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Sean Connery como James Bond junto com Lois Maxwell como Miss Moneypenny em 'Goldfinger' |
O texto que segue, eu escrevi há alguns anos, para colaborar com o artigo do amigo Octávio Aragão. Hoje, relendo, senti vontade de compartilhar. Então resolvi postar aqui no blog, afinal, demandou esforço e acho que talvez agrade a alguns dos leitores e leitoras do blog.
*********
James
Bond e todo o universo fictício que o cerca surgiram dentro de um contexto
histórico impactado, de um lado, pelo horror da Segunda Guerra Mundial, e outro
pelas transformações geopolíticas que começavam a desenhar os contornos do que
seria a nova ordem mundial, marcada pela Guerra Fria. Ian Fleming
foi perspicaz ao se apropriar de um cenário que mostrava promissor como pano de
fundo para uma obra de ficção na qual ele pode ainda utilizar suas experiências
durante a Segunda Guerra Mundial, na Divisão de Inteligência Naval e como
jornalista.
Os
anos de 1950, no entanto, não podem se resumidos apenas à geopolítica ou à
memória da Segunda Guerra. Eles são, também, um período marcado por grande
retrocesso nas relações sociais, especialmente no que diz respeito à inserção
social da mulher. Durante os anos e guerra, as mulheres conquistaram espaço no
mercado de trabalho, ocupando cargos que, até então, eram quase que
exclusivamente masculinos. Durante o esforço de guerra as lideranças mundiais
tentaram ignorar o gênero dos seus soldados. As britânicas foram convocadas
para o exercito, as estadunidenses pilotavam aviões de carga e construíam
submarinos, as soviéticas pilotavam tanques de guerra, as francesas tiveram um
papel muito importante no movimento de resistência.
Mas
as representações das mulheres na Segunda Guerra Mundial foram estereotipadas,
principalmente nos anos que se seguiram ao conflito. De um lado elas aparecem
como as secretarias ou auxiliares fiéis, muitas vezes austeras ou com ar
inocente, quase infantil. Por outro lado são apresentadas, também, como as
espiãs pérfidas, que seduzem e desvirtuam os homens. Onde estão as atiradoras
de elite, as aviadoras intrépidas, as mulheres que combatiam as trincheiras?
Após
a Segunda Guerra os papeis de gênero foram reconfigurados num processo que
Susan Faludi (2001) chamou de Backlash, um enorme retrocesso
nas relações entre homens e mulheres, que marcou o período pós-guerra As
mulheres, que na década de 1940 foram valoradas como profissionais, passaram a
ser desqualificadas. O papel de dona de casa, mãe e esposa foi
reforçado, assim como o preconceito contra aquelas que insistiam em seguir uma
carreira profissional considerada “não-feminina”.
Não
por acaso a Moneypenny de Lois Maxwell aparece usando um uniforme da marinha
britânica no filme in You Only Live Twice (1967), reafirmando a
presença das mulheres nas formas armadas mas, reforçando seu papel burocrático.
Ela é militar, mas não deixa está em campo, ou seja, não deixa de ser apenas
uma secretária.
Criada nos anos de 1950, Moneypenny nasceu dentro de um contexto no qual as mulheres deveram servir aos homens e auxiliá-los, mas jamais assumir qualquer protagonismo. Elas podem flertar, mas não devem se manter castas desempenhando sempre o papel da boa moça. As mulheres das décadas de 1950 e 1960, em particular, são constantemente vitimas de uma violência simbólica, reforçada por um discurso no qual as mulheres são levadas a aceitarem como sendo natural a sua condição de inferioridade.
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| Lois Maxwell, com Money penny em You Only Live Twice |
Exercida através de um conjunto de mecanismos de conservação e reprodução das estruturas de domínio, a violência simbólica se perpetua, fazendo parte tanto do universo masculino quanto do feminino. Os dominados, inconsciente e involuntariamente, assimilam os valores e a visão do mundo dos dominantes, o modo de ver, a maneira de valorar. As concepções de fundo são as dos dominantes, mas os dominados ignoram totalmente esse processo deaquisição e partem ingenuamente do princípio de que essas ideias e esses valores são os seus (NOGUEIRA, 2015, 80).
Segundo Pierre Bourdieu (1998), utiliza-se critério biológico como forma de justificar uma divisão social, baseada numa relação de gênero desisigual, na qual as mulheres são submetidas à dominação masculina. Cabe às mulheres, dentro dessa configuração, um papel de submissão e aceitação da sua condição de inferioridade frente aos homens, seus superiores. Por sua vez, para Joan Scott (1989), o gênero é uma construção, um universo simbólico a partir do qual definimos a forma como vamos enxergar a nós mesmos(as) e a realidade em que vivemos; um saber, uma percepção sobre as diferenças sexuais, é uma relação de poder que vai muito além da questão biológica (o sexo), alicerçada em hierarquias sociais, valores culturais, em símbolos e significados.
Essas relações de gênero pode ser vistas como socialmente produzidas e reforças, negando às mulheres seu protagonismo em esferas nas quais, supostamente, apenas homens podem adentrar. Talvez por isso cause tanto espanto ao público masculino a possibilidade de uma mulher assumir o lugar do lendário 007 rompendo com o ciclo de dominação.
A ideia de inferioridade feminina está presente no nome da personagem Moneypenny, que pode ser traduzido como algo do tipo “dinheiro em centavos”, algo de baixo valor. Conscientemente ou não, ao construir a personagem, na década de 1950, o autor deu a ela um nome singular que marca sua condição de coadjuvante em uma trama na qual sua participação é pequena e muitas vezes figurativa. Se houve momentos de emporamento a eles se seguiram blacklashs, quando a personagem não se considera capaz de assumir um papel mais ativo na trama e se recolhe, novamente, ao papel de secretária.
REFERÊNCIAS
FALUDI, Susan. Backlash. O contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres. Trad. Mário Fondelli. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
BOURDIEU. Pierre. La domination masculine. Paris - Éditions du Seuil, 1998.
NOGUEIRA, Natania Aparecida da Silva. As representações femininas nas Histórias em Quadrinhos norte-americanas: June Tarpé Mills e sua Miss Fury (1941-1952). Dissertação apresentada para obtenção do Grau de Mestre em História - Universidade Salgado de Oliveira - Niterói, 2015.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para análise histórica (1989). Disponível em: <http://bit.ly/2yKYNX3>, acesso em 27 mai. 2017.
terça-feira, 14 de setembro de 2021
TRABALHADORAS INVISÍVEIS: MULHERES QUADRINISTAS E OS SILÊNCIOS DA HISTÓRIA
Resumo: Quando nos dedicamos a falar das mulheres quadrinistas, normalmente, nos deparamos com grandes silêncios que sugerem que elas não existiam, ou não produziram nada que merecesse figurar nos livros de História. Este tipo de discurso foi produzido e reproduzido ao longo dos anos e reforçada tanto por intelectuais, especializados nos estudos sobre quadrinhos, quanto pelos fãs e os meios de comunicação. Vez ou outra, algumas mulheres conseguiram romper essa barreira, somente para terem sua obra celebrada como exceção ou escrutinada a partir de critérios estabelecidos para validar a obra de autores masculinos. Consideradas excepcionais, elas não podiam servir, portanto, de modelo para as outras mulheres. Dentro das narrativas sobre a História das histórias de quadrinhos, constituiu-se como uma verdade que a profissão é masculina e que as mulheres no Ocidente não seriam nem produtoras, nem consumidoras de quadrinhos. As discriminações e omissões decorrentes do gênero, isto é, dos papéis atribuídos à homens e mulheres em uma dada sociedade historicamente determinada, vem sendo muito estudadas nos últimos anos. Vários estudiosas colocaram abaixo muitas das teorias que, por exemplo, relacionavam a suposta inferioridade biológica e intelectual das mulheres com reação aos homens. Outras demostraram que os papeis sociais outrora naturalizados foram socialmente construídos. O objetivo desse trabalho é abordar, utilizando-se das discussões feministas e do campo dos estudos de gênero, este aspecto da História dos Quadrinhos, mas ir um pouco além, a partir das falas de algumas autoras e sobre elas mesmas, é possível perceber outro fator de exclusão: a carreira de quadrinista não era vista digna de ser perseguido por um artista sério, mas, especialmente, em tempos de crise econômica, ou de guerra, era um trabalho temporário que deveria ser superado tão logo fosse possível. Em nosso trabalho, pretendemos resgatar as falas de mulheres quadrinistas que enfrentaram uma barreira a mais para produzirem seus quadrinhos e como as formas de literatura vistas como populares eram consideradas inferiores e mesmo perniciosas para a juventude até por seus próprios autores. Acreditamos que os quadrinhos sejam não apenas um lugar de fala mas, também, um lugar de memória dessas mulheres e que, a partir de sua trajetória podemos compor um quadro mais amplo no qual temos não apenas a possibilidade de analisar relações de gênero mais de identificar pontos relevantes para a construção de uma história das mulheres nas artes gráficas, um campo que por muito tempo foi monopolizado pelos homens.
Caso alguém se interesse, clique aqui para ler o texto na íntegra.
Como citar esse texto:
SILVA, Valéria Fernandes da, NOGUEIRA, Natania Aparecida da Silva. Trabalhadoras invisíveis: mulheres quadrinistas e os silêncios da História. Anais do 31° Simpósio Nacional de História [livro eletrônico] : história, verdade e tecnologia /organização Márcia Maria Menendes Motta. -- 1. ed. --São Paulo : ANPUH-Brasil, 2021.
sábado, 11 de setembro de 2021
MINHAS IMPRESSÕES SOBRE A HQ "PELE DE HOMEM"
Eu me sinto incomodada quando as pessoas falam de forma generalizante que os homens não entendem as mulheres. Quais homens? Quais mulheres?
Começo o meu texto com essa provocação depois de me deliciar com a leitura de "Pele de Homem"(2020), uma HQ aclamada e que tem acumulado não apenas elogios como, também, prêmios. Essa HQ foi roteirizada por Hubert Boulard, ou apenas Hubert, que nos deixou em 2020, aos 49 anos de idade. A ilustração e as cores ficaram a cargo de Zanzim, pseudônimo de Frédéric Leutelier.
Dois homens que souberam colocar em imagem e texto os dilemas enfrentados por uma mulher que vive em uma cidade italiana, no período do renascentista. A HQ levanta diversas questões, que vão dos papeis de gênero impostos a homens e mulheres ao fanatismo religioso e à homoafetividade.
"Pele de Homem" narra a história de Bianca, uma mulher que recebe como herança de família uma pele de homem. Ao vesti-la ela realmente se torna um homem, com músculos mais forte e sendo inclusive capaz de ter um relacionamento sexual. Bianca quer entender o mundo dos homens, conhecer o seu futuro marido e, por tabela, acaba se descobrindo enquanto mulher.
Uma HQ que valoriza as mulheres, reivindica respeito e explora o mundo dos homens a partir de uma perspectiva feminina. Pois é, e essa HQ foi escrita por dois homens. Intrigante, não? Talvez não tanto. Há homens plurais, assim como mulheres plurais, por isso sempre evitamos usar o singular para nos referirmos a um e outro.
Há homens que conseguem se colocar no lugar das mulheres e o fazem muito bem. É o caso dessa HQ que, surpreendentemente nos brinda com uma história de empoderamento, quando uma mulher se torna um homem numa sociedade fechada para as mulheres e a revoluciona.
Mas se a pele é de homem, a mente, as ações e as ideias são de Bianca, se descobre como mulher. Isso não porque pode se disfarçar de homem, mas porque é capaz de identificar os mecanismos de dominação que colocam as mulheres como seres inferiores e se recusa a se curvar a eles.
Enfim, uma obra muito bonita, tanto pelo traço delicado quando pela profundidade do texto. Pele de Homem foi publicada em português e é um excelente leitura, tanto para homens quando para mulheres.
domingo, 5 de setembro de 2021
QUADRINHOS E MEMÓRIA: OUVINDO A VOZ DAS MULHERES
Nesta obra, Keum Suk Gendry-Kim escreve sobre a guerra da Coreia a partir dos relatos de pessoas que foram separadas de suas famílias, no início da década de 1950. A autora faz um levantamento histórico que permite a nós, leigos na história do leste asiático, contextualizarmos o período que vai da Segunda Guerra à guerra da Coreia. Ela faz essa contextualização ao introduzir o testemunho de quem vivenciou esses eventos, por meio de personagens ficcionais baseados em pessoas reais. Uma ficção se que se constrói a partir da memória individual e coletiva.
É uma obra que traz uma fluidez da narrativa que permite ao leitor uma leitura prazerosa, ao mesmo tempo que aborda com sensibilidade tema delicados, como o caso da separação das famílias. Outro ponto que me agrada muito, é o fato da autora se auto representar, na forma de Jina, filha caçula da protagonista, Gwija, uma senhora de 90 anos que foi separada do marido e do filho quando fugiam da guerra. Ao se colocar na narrativa a autora faz o papel de mediadora e cria uma dinâmica única na qual histórias são introduzidas e contadas.
Keum Suk Gendry-Kim dá oportunidade para mulheres contarem a história a partir de um ponto de vista diferente dos homens, assim como fez em Grama. Elas falam do casamento, da maternidade e das dificuldades de ser mulher numa sociedade na qual elas não possuíam espaço para expressão. A obra traz um raio-x do patriarcado coreano, nas décadas de 1940 e 1950, que em muitos pontos se assemelha à realidade das mulheres do Ocidente, que só veio a conhecer mudanças significativas a partir do movimento feminina.
Eu poderia escrever várias páginas sobre essa HQ, e pretendo fazê-lo em breve, mas vou finalizar recomendando fortemente a obra para quem gosta de um quadrinho de ficção que trata de temas sensíveis e que revisita e conta a história de forma clara e comprometida.

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