| Pátio interno do museu, próximo à entrada. |
| Pátio interno do Museu |
Sua história remonta a década de 1940, quando tem início o movimento de revalorização do patrimônio cultural pré-hispânico e colonial, tendo à frente o pintor indigenista Cecilio Guzmán de Rojas, natural de Potosí, Bolívia. Rojas foi aluno de Avelino Nogales[1] e de Julio Romero de Torres[2] e tornou-se um dia líderes do movimento de arte indígena boliviana durante a primeira metade do século XX. Ficou conhecido por por misturar os estilos Art Nouveau e Art Déco com imagens.
Ao lado da revolução cultural também ocorreção revoluções políticas e sociais na Bolívia, que estão presentes em várias exposições do museu. Um dos temas que me chamou a atenção é o da Guerra do Chaco, entre Bolívia e Paraguai, ocorrida entre os anos de 1932 e 1935. Foi uma guerra pela conquista do território conhecido como Gran Chaco ou Chaco Boreal, que levou a morte de 90 mil pessoas, a maior parte boliviana (cerca de 60 mil). A causa da guerra foi a suspeita de que haveria petróleo na região, instigada pela Standard Oil, empresa fundada em 1870 por John D. Rockefeller nos EUA. Pois é, sempre ele, o petróleo envolvido em conflitos sangrentos, tendo por detrás governos que representam grandes conglomerados.
A exposição dá um salto do tempo. Saímos de obras datadas do período colonial e caímos no século XX. O museu oferece uma exposição impactante sobre A Guerra do Chaco, com cenas fortes e que revelam a necessidade de preservar esta parte dolorosa da memória do país, marcada pela celebração do sacrifício e do heroísmo. Faço aqui mea culpa, pois depois percebi que fiquei tão imersa nas exposição que quase não tirei fotos. só percebi isso quando estava redigindo este texto. O que não é ruim, pois eu realmente fiz uma imersão, curiosa com o que via e lia.
| O quadro faz uma crítica ao Imperialismo representado pela Coca-Cola (minha nterpretação, não fotografei a legenda). |
| A pintura na imagem é "Fiesta Indígena" (ou "Fiesta Nativa"), do artista lituano-boliviano Juan Rimsa |
Ainda falando em revolução, já no final da visita eu
mergulhei na obra de Miguel Alandia Pantoja, que é descrito como “O pintor da
Revolução”. Trata-se de uma exposição dedicada ao artista, e que particularmente, foi a que eu mais gostei.
Segundo as informações da exposição, Miguel Alandia Pantoja, “concebeu a arte
como um compromisso social e político; por isso, sua paleta denunciava
veementemente as injustiças. Desde jovem, defendeu um estilo artístico
distintamente anticlerical, anticolonial e anti-imperialista” (traduzido de textos da exposição).
Miguel Alandia Pantoja, nasceu em 27 de março de 1914 na zona mineira de Catavi próxima a Potosi, lutou na Guerra do Chaco e foi prisioneiro dos paraguaios. Ele fez parte do movimento do indigenista cultural, relacionado ao
“movimento latino-americano de conteúdo nacionalista, antiimperialista e de crítica social, que se expressou inicialmente com grande intensidade na arena cultural. O indigenismo associado à crítica social marcou as sociedades em que havia desagregação de valores culturais e sociais tradicionais das comunidades e lutas internas de caráter classista e étnico (...) [e] buscava raízes e identidade nas origens históricas da América Latina e, ao mesmo tempo, na modernização que se dava através de vínculos com as vanguardas artísticas nas primeiras décadas do século XX”[3].
Pantoja teve como uma de suas influências foi o já citado Cecilio Guzman de Rojas, que estava ligado ao indigenismo literário de Gamaliel Churata do grupo Orkopata. Ele foi um dos artistas que retratou a Guerra do Chaco, a partir da sua própria experiência, como combatente “tendo vivenciado o conflito em primeira mão nas trincheiras e testemunhado como a guerra abalou uma geração de jovens”. Ele também é testemunho da Revolução Nacional Boliviana, que ocorreu em 1952, liderada pelo Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).
Esta revolução derrubou o regime oligárquico, tendo tido um forte apoio popular, notadamente de mineiros e camponeses. A partir daí foi implementado o voto universal, a reforma agrária, a nacionalização das minas de estanho e o fortalecimento do Estado. E os trabalhadores das minas e os camponeses são justamente os protagonistas de suas obras. Os heróis não loureados da revolução. O pintor também destaca o papel das mulheres na revolução.
A
imagem mostra a obra de arte "La Última Cena con la Chola Paceña", do
artista boliviano Cristian Laime Yujra. O artista substitui Jesus e os
apóstolos por figuras de "cholas paceñas" (mulheres indígenas de La
Paz, Bolívia) em trajes tradicionais, incluindo chapéus-coco. |
Sobre o indigenismo cultural, eu me via mergulhada nele quase que o tempo todo. Parece haver uma grande valorização dos povos originário, de uma forma que nunca vi no Brasil. Acho até injusto fazer qualquer comparação, uma vez que nossos povos estiveram submetidos a situações e a politica de Estado que são completamente diferentes da realidade Boliviana.
A Bolívia é um país majoritariamente povoado por descendentes de povos originários, cerca de 59% a 62% da população se identificando como indígena. As principais etnias são: Quéchuas (mais de 49%) e Aimarás (mais de 40%) na região andina, e Guarani, Chiquitano e Moxeño nas terras baixas. Mestiços (30%) e brancos (10%) compõem o restante. [4]
| Pintura de Miguel Alandia Pantoja, representando a mulher indígena boliviana - sem título. |
| Alandia Pantoja utilizou o muralismo para transmitir mensagens de identidade e políticas para as massas. |
| Pintura do artista boliviano Miguel Alandia Pantoja. |
Por fim, eu gostaria de apontar aqui uma experiência ainda
mais pessoal. À medida em que eu apreciava o museu, e não apenas as obras expostas,
mas o espaço em si, um edifício belíssimo, que tem em suas características traços
araquidônicos coloniais e europeus, eu fui rememorando a a obra de “Pensamento
Mestiço”, do historiador francês, Serge Gruzinski. Eu fiz a leitura deste livro
a cerca de 20 anos atrás, e me alegrou, ao folheá-lo quando retornei de viagem,
que eu havia assimilado uma boa parte do conceito de mestiçagem cultural e aplicado
na minha visita ao museu de arte.
Gruzinski realiza estudos sobre a imagem mestiça e o
ingresso na modernidade do México. Nesta obra em particular ele busca explicar
como se deu essa miscigenação cultural, como ela foi trabalhada pelas elites e
pelo povo, o quanto de nativo e como foi preservado e como as categorias
europeias foram assimiladas. Gruzinski a influência do renascimento europeu na
América, criando um tipo de arte “mestiça”, hibrida. Na época em que eu li o livro, eu ainda não tinha certas habilidades que tenho hoje com relação à análise de imagens,
mas senti uma satisfação bem grande ao perceber que pude fazer bom uso da leitura
e que ela enriqueceu ainda mais minha experiência durante minha viagem.
Gostaria de finalizar justamente com a instalação que me impactou, a da Virgen Cerro (Colina Virgem), uma uma representação da arte vice-real que funde a imagem da Virgem Maria no Cerro Rico de Potosí (Ptoschí) Segue a imagem e a descrição:
| Parte frontal da obra. |
A Virgem da Colina — como modelo iconográfico — foi popularizada no século XVI (1580-1620) através das alegorias literárias dos agostinianos, que descreviam a Virgem Maria como uma colina de pedras preciosas, "da qual emergiu aquela pedra sem pés nem mãos que é Cristo". Isso permitiu a conexão entre o culto indígena às colinas e os supostos milagres da devoção mariana. Nos tempos pré-hispânicos, algumas colinas eram locais de culto, o que abriu a possibilidade de cristianizar a imponente montanha, estabelecendo o mito de que Maria apareceu na colina prateada, permitindo assim a fusão das duas imagens.
O uso de recursos visuais como parte da erradicação da idolatria levou à colocação da montanha sagrada a serviço da mineração de prata, visto que sua exibição pública ocorreu durante o auge da corrida do ouro, sustentada pelo trabalho forçado de povos indígenas sob o sistema de encomienda, escravos trazidos da África e mitayos (trabalhadores forçados). Diante da ambição dos colonizadores, alguns indígenas fizeram um pacto de silêncio para esconder seus locais sagrados (wakas) e as oferendas rituais em seus arredores" (traduzido do espanhol a partir das informações disponíveis no museu".
Por fim, nunca é demais dizer que, apesar de eu ter consultado algumas fontes, o texto é basicamente fruto das minhas impressões, que podem até estar equivocadas. Eu tenho uma vivência local, sou uma estrangeira que tem uma visão superficial, romantizada e até preconceituosa do outro. Mas mesmo assim, acredito que a experiência em si foi um aprendizado. Eu recebi novas informações e estou, aos poucos, cruzando-as com aquelas que eu já tinha e com as que estou adquirindo, movida pela curiosidade.
Pode-se dizer, que no meu caso em particular, a visita ao museu não acabou. Ele está tendo sua continuidade neste texto e nas leituras que eu estou separando sobre a história da Bolívia. Aliás, a visita a um museu realmente termina quando vamos embora? Eu acredito que não. Se e o museu consegue capturar nossa atenção, ele vai instigar nossa curiosidade. Eu saio do museu, mas o museu continua em mim, seria mais ou menos essa sensação.
Fontes consultadas:
A
pintura indigenista de Guzmán de Rojas. Disponível em https://karipuna.blogspot.com/2009/05/pintura-indigenista-de-guzman-de-rojas.html
ANDRADE, Everaldo de Oliveira. História, arte e política: o muralismo do boliviano Miguel Alandia Pantoja. História, São Paulo, v. 25, n. 2 p. 147-161, 2006, p. 148. Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/a/nFwHXDFPn8D59yPPdj5w47Q/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 29 jan. 2026.
Geração
de '98. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Generation_of_%2798.
Acesso em 28 jan. 2026.
Homenaje a Cecilio Guzman de Rojas (1899-195o). Disponível em: https://www.bolivianet.com/arte/guzmanderojas/index.html. Acesso em 28 jan. 2026.
Indigenous Peoples in Bolivia. Disponível em: https://iwgia.org/en/bolivia.html#:~:text=Os%20grupos%20qu%C3%A9chuas%2C%20aimar%C3%A1s%20e,comp%C3%B5em%2020%20povos%20ind%C3%ADgenas%20reconhecidos. Acesso em 29 jan. 2026.
Júlio Romero de Torres. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Julio_Romero_de_Torres. Acesso em 28 jan. 2026.
NEVES, Daniel. Guerra do Chaco. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/guerras/guerra-chaco.htm. Acesso em 29 jan. 2026.
[1] Avelino G. Nogales (Potosí, 1870 -
Cochabamba, 1948) foi um proeminente pintor boliviano, reconhecido como
mestre do retrato e iniciador do modernismo na pintura boliviana entre os
séculos XIX e XX.
[2] Pintor espanhol que criou arte profundamente espanhola e foi influenciado pelo modernismo e pela Geração de 98 (foi um grupo de romancistas , poetas , ensaístas e filósofos ativos na Espanha na época da Guerra Hispano-Americana, em 1898). Em suas obras combinava cultura popular, folclore e arte andaluza.
[3] ANDRADE, Everaldo de Oliveira. História,
arte e política: o muralismo do boliviano Miguel Alandia Pantoja. História,
São Paulo, v. 25, n. 2 p. 147-161, 2006, p. 148. Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/a/nFwHXDFPn8D59yPPdj5w47Q/?format=pdf&lang=pt.
Acesso em 28 jan. 2026.
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