Um dos passeio que eu desejava fazer quando estivesse em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, era ir a Samaipata para visitar "El Fuerte de Samaipata", sítio arqueológico pré-incaico. Samaipata (Descanso nas alturas) é uma cidade que fica a cerca de 120 km de viagem, saindo de Santa Cruz de la Sierra. É chamado de a Machu Picchu boliviana, dada a sua importância arqueológica.
Sobre o sítio arqueológico
A cidade de Samaipara possui cerca de 4400 habitantes e se localiza a uma altitude de 1.650 metros, próxima da Cordilheira dos Andes. Seu nome deve-se ao antigo centro cerimonial Noto vem Fuerte, "El Fuerte de Samaipata", que foi declarado em 1998 como patrimônio da humanidade pela UNESCO e é um local de interesse para pessoas como eu que gostam muito de história. Aliás, eu renovei lá (e em outros passeios que fiz depois) meu amor pela história da América. Quem é historiador e professor acaba tendo muitas "paixões" ao longo da carreira. História da América, antes da chegada dos europeu (estou tentando evitar a expressão história pré-colombiana), era uma das minhas paixões até os 30 anos.
El Fuerte de Samaipata é um monumento arqueológico que atinge uma altura de 1.949 metros e está situado no topo de uma colina de rocha arenosa, onde culturas antigas esculpiram figuras, como serpentes e pumas, em uma grande cujas dimensões são 220m x 65m. Além disso há ainda canais, poços, assentos triangulares e retangulares, nichos cavados na rocha (onde possivelmente eram colocadas múmias), terraços para plantio de alimentos, como mandioca, batata e milho.
O espaço teria ocupado pelos Chané, uma cultura pré-incaica por volta de 300 - 400 d.C., sendo depois conquistado incas. A a partir de 1450 d.C., o Império Inca se expandiu para o leste, das terras altas dos Andes para as colinas subtropicais. Depois, vieram os espanhóis. Chané e incas sofreram ataques de guerreiros Ava Guaraní (Chiriguan), que também se estabeleceram na região. Os Ava Guaraní conquistaram as planícies e vales de Santa Cruz de la Sierra, e ocuparam a área de Samaipata. Os Ava Guaraní dominaram a região até o período colonial espanhol.
Já vou adiantando que conhecer o El Fuerte de Samaipata foi mágico. Deixei todo mundo para trás e disparei morro acima. Esqueci até que tenho joelhos lesionados (fim uma preparação antes na academia e com minha maravilhosa fisioterapeuta). Parei em cada área de descanso, tirei fotos fantásticas e devorei as informações sobre o monumento. Claro, El Fuerte de Samaipata é tecnicamente menor do que Machu Picchu, mas não necessariamente menos importante, tanto por ser uma área de ocupação de vários povos, desde o século IV, como, também, pela magnitude da rocha esculpida, creio que a maior ou uma das maiores do mundo.
Minhas impressões da viagem
Para chegar até Samaipata foi preciso comprar uma passagem em uma das empresas (há varias) que faz o translado por van (taxi), que comporta sete pessoas. No nosso caso, que éramos 4 pessoas e optamos pelo expresso: alugamos toda a van pelo valor de 310 bs (aproximadamente 180 reais), para a ida e para a volta. A empresa ainda oferece o serviço de levar ao Fuerte (e esperar) e de passear em outros locais, como vinhedos (falei sobre um dos vinhedos aqui). Mas é bom avisar para evitar que alguém fique decepcionado: não espere vans (taxi) super limpas e com ar-condicionado. Pode até ser que você consiga, mas 90% de chance de pegar uma van surrada, mas que dá conta do recado.
Alugamos um chalé e pernoitamos na cidade, até para poder conhecer melhor. Optamos por visitar o Fuerte no primeiro dia e, no segundo dia, já com a nossa bagagem no taxi (van), fomos a um vinhedo. O responsável pelo chalé nos deu todo o suporte e indicou lugares para visitar e comer. Era simples, mas bom o suficiente para passarmos apenas uma noite e ficava perto do centro. Aliás, para o café da manhã, fomos para o mercado municipal, que é muito organizado do que o de Santa Cruz de La Sierra, até por ser menor (mas não apenas por isso).
No primeiro piso, frutas, legumes, e mercarias básicas para casa. No segundo piso, uma área de alimentação, com lanchonetes que servem sucos, lanches, café da manhã e refeições completas. Na entrada também podemos encontrar Cholitas (mulheres indígenas aimarás e quéchuas da Bolívia, reconhecidas por suas vestimentas tradicionais, incluindo saias polleras e chapéus-coco, simbolizando resistência cultural e orgulho) vendendo refeições quentes e frutas como pêssegos e morangos. Cheguei a comprar um quilo de morangos, por menos de 10 reais, grandes e doces.
Eu, particularmente, adorei. A cidade é muito bonitinha, lembrando cidades do interior de Minas (mas com características bolivianas). Um passeio muito bom e barato e que abre para outras opções também, pois o ecoturismo é muito forte na região, com caminhadas na montanha e cachoeiras lindíssimas. Achei que seria muito difícil de chegar a Samaipata, mas não foi. Também foi muito fácil alugar o chalé, a um preço bem acessível. O passeio teve um excelente custo-benefício mas, também, alguns contratempos.
A estrada, por exemplo, estava bem prejudicada pela chuva que havia ocorrido na semana anterior, com muitos trechos perigosos e risco de deslizamento de pedra. Mas tivemos sorte, pois o tempo estava bom e não pegamos chuva em nenhum momento (embora a previsão do tempo alertasse para a possibilidade de pancadas de chuva). Foi literalmente uma aventura, mas voltamos vivos.
Passei um perrengue homérico: esqueci minha pasta de documentos, com o meu passaporte, no chalé. Dei falta já em Santa Cruz de La Sierra. Entrei em pânico, liguei desesperada para o responsável, pois tinha voo no dia seguinte. Ele imediatamente verificou, encontrou e enviou pelo taxi (a van). Recebi no mesmo dia e paguei... 5bs (3 reais). se alguém falar mal dos bolivianos na minha frente, apanha! Nunca vi tanta eficiência para resolver um problema. E não aceitaram gorjeta.
Ficamos lá até dias 8 e 9 de janeiro, pois íamos para Cochabamba no dia 10 de janeiro. Uma coisa que conversamos entre nós, e eu concordo, é que vale a pena passar mais dias em Samaipata do que em Santa Cruz de La Sierra (que dá pra ver tudo que interessa em dois dias). Há muitas atividades, além de ter um clima mais ameno.
E falando em clima, cuidado com duas coisas: a mudança de temperatura e o uso do protetor solar. Como era verão, pegamos sensação térmica de 40º em Santa Cruz de la Sierra e, de repente, a temperatura caiu para 25º (até menos), em Samaipata. Como resultado, tive uma faringite, a sorte foi que eu levei minha sacola de remédios, mas foram pelo menos 5 dias de recuperação. O sol também fica mais forte com a altitude, então sempre use filtro solar mesmo estando fresco e ventando.
OBS: Todas as fotos são minhas e foram produzidas durante o passeio no dia 8 de janeiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário