sexta-feira, 8 de março de 2013

Lado a lado: história e feminismo

Quem costuma fazer esse tipo de postagem é a amiga Valéria Fernandes (imagino que ela vá comentar, se já não comentou sobre a novela), mas eu não tive como resistir. Não sou noveleira e não assisti a novela tanto quanto eu gostaria, pois trabalho a noite. Mas procurei me informar sempre que possível, nos dias que eu não pude assistir.

Lado a Lado foi um presente pra todas as mulheres. Nada mais justo que terminasse no dia Internacional da Mulher. Tanto pelos personagens, quanto pela forma como abordou alguns temas e chamou atenção para passagens da história como a Reforma Urbana do Rio de Janeiro e a Revolta da Chibata a novela mostrou que é possível divertir e ensinar. Quando isso aconteceu antes? Não faço ideia. Eu pude ouvir meus alunos comentarem sobre esses fatos na sala de aula! Quando eu poderia imaginar isso? Chegou a ser um complemento para a aprendizagem deles.

Pois é algumas vezes a televisão ajuda, embora me entristeça o fato de se valorizar muito mais a baixaria das novelas das nove horas do que a qualidade e delicadeza de uma novela como Lado a Lado, que vai deixar saudade e que espero que seja reprisada várias e várias vezes. 

O que não dizer de Izabel e sua busca por emancipação e pelo reconhecimento de sua importância como mulher e profissional? Ela não lembra nossa Chiquinha Gonzaga, que tanto lutou para ter sua arte e talento reconhecidos?

Podemos apontar mais uma dúzia de mulheres fortes e batalhadoras que povoaram o universo da ficção de Lado a Lado e que foram inspiradas em personagens reais. E elas estiveram lá, do início ao fim. Um exemplo de como a novela homenageou essas mulheres reais na ficção foi o caso da personagem Fátima, que ingressou agora, quase no final da trama. Uma médica pesquisadora, certamente uma homenagem a Rita Lobato Velho Lopes, a primeira mulher brasileira a se formar em medicina, no ano de 1887, outra pioneira

A inspiração de Laura é a escritora potiguar Nísia Floresta (1810-1885), considerada a precursora dos ideais feministas no Brasil. Em 15 livros, Nísia defendeu uma educação igualitária entre homens e mulheres, além de ter fundado no Rio um colégio revolucionário para meninas.  A Tia Jurema é inspirada na baiana Tia Ciata (1854-1924), cozinheira e mãe de santo que chegou ao Rio aos 22 anos e montou seu tabuleiro na Rua Sete de Setembro, no Centro. Além de grande quituteira, ela promovia em sua casa festas dançantes, frequentadas por compositores como Donga, João da Baiana e Sinhô.


Eu poderia falar aqui, também, do resgate da cultura afro-brasileira, do racismo e muitos outros assuntos polêmicos, mas fica para outra oportunidade. Hoje é dia da Mulher e, apesar de tanta coisa ruim que tem acontecido com as mulheres, no Brasil e no Mundo, pelo menos hoje eu quero escrever só para nós e sobre nós. 

Enfim, a um belo trabalho de pesquisa, um elenco maravilhoso, uma novela de época para marcar época. Uma pena que o horário das 18h não seja "nobre" e o público um tanto limitado (a gente sabe que muitas pessoas chegam em casa do trabalho depois das 19h e acaba não assistindo novela, isso acaba fazendo o Ibope cair em relação às outras novelas). Lado a Lado já está deixando saudades. Que venho outras novelas, tão boas e tão ricas em detalhes e cultura.

Leia mais sobre a novela nos links abaixo:

3 comentários:

Claudia Conte disse...

Muito bom Natania! Uma outra questão que vale a pena destacar foi o resgate da linguagem da época, do ritmo da fala, do não atropelar a fala do outro, as formas de tratamento, de como as pessoas se dirigiam uma as outras. Não foi como um simples estereótipo, ou uma encenação caricaturada, percebe-se o trabalho de pesquisa. Nos levava a pensar de forma diferente o desenrolar das situações. Interessante!
Mas sem dúvida, perceber esse processo histórico da mulher abrindo seus caminhos, foi um grande destaque da novela!

Dousseau disse...

Concordo com tudo, Natânia. Em gênero, número e grau. Muito a calhar esse seu post. Obrigada!Abraço!

Natania Nogueira disse...

Adorei essa novela. Ela teve tudo de bom, do roteiro aos atores. Um deferencial entre as demais.