sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O CARNAVAL DE LEOPOLDINA (1926)

Adoro pesquisar sobre Carnaval. Já fiz um artigo sobre representações do Carnaval por meio dos quadrinhos que foi publicado na revista História, Imagem e Narrativa (clique aqui), tendo como foco os quadrinhos de Ângelo Agostini e fiz uma nota sobre o Carnaval em Leopoldina no livrinho que ajudei a fazer sobre a história de Leopoldina. Adoro estudar as festas populares. Acho que se aprende muito sobre os hábitos sociais e sobre cultura, de uma forma geral.

Sobre o Carnaval em Leopoldina, encontrei recentemente algumas notas em jornais de época. Em 1926, os preparativos para a festa eram noticiados de forma animada na Gazeta de Leopoldina:

"Ao que ouvimos , a mocidade leopoldinense não deixará passar em branca nuvem os três dias consagrados à folia.

Serão organizados lindos bailes a fantasia para as três noites de folguedos.
o bloco dos Cotubas, que tanto realce deu ao carnaval do ano findo está prometendo a sua festa e promete outro grande sucesso para este ano" ( Gazeta de Leopoldina, 10/01/1926, nº 204, ano XXXI, p. 01).

A tradição do Zé Pereira estava presente na cidade. "Vários foliões da cidade promoveram animados Zé Pereira nas noites de sábado e domingo últimos, anunciando os próximos dias de reinado do Mono" (Gazeta de Leopoldina, 10/01/1926, nº 205, ano XXXI, p. 01).

O Zé Pereira é uma tradição carnavalesca de origem lusitana que se tornou uma das brincadeiras carnavalescas mais comuns no Rio de Janeiro já no século XIX. O termo era usado, na segunda metade do século XIX, para qualquer tipo de bagunça carnavalesca acompanhada de zabumbas e tambores, semelhantes ao que chamaríamos hoje de bloco de sujo.

A brincadeira se consolidou em 1869, com a encenação de uma de uma burleta carnavalesca intitulada O Zé Pereira carnavalesco. O sucesso da apresentação — uma espécie de adaptação livre da peça Les pompiers de Nanterre (Os bombeiros de Nanterre) — deveu-se, principalmente, à versão para o português da música-tema francesa que se transformaria num verdadeiro hino carnavalesco, sendo tocado até hoje:
E viva o Zé Pereira.
Pois a ninguém faz mal
E viva a bebedeira
Nos dias de Carnaval (1)

A partir daí o conceito da brincadeira do Zé Pereira iria adquirir feições tipicamente brasileiras (e cariocas) associando-se à alegria característica das ruas da folia no Rio de Janeiro.

"O zé-pereira cresceu de fama no fim do século XIX, quando o ator Vasques elogiou a barulhada encenando a comédia carnavalesca O Zé-Pereira, na qual propagava os versos que o zabumba cantava anualmente: E viva o Zé-Pereira/Pois que a ninguém faz mal./Viva a pagodeira/dos dias de Carnaval! A peça não passava de uma paródia de Les Pompiers de Nanterre, encenada em 1896. No início do século XX, por volta da segunda década, a percussão do zé-pereira cedeu a vez a outros instrumentos como o pandeiro, o tamborim, o reco-reco, a cuíca, o triângulo e as "frigideiras". (2)

O Carnaval em Leopoldina, ao que parece, recebeu influencia do Carnaval carioca, o que é compreensível, dada a proximidade da cidade com a então capital do Brasil. Sobre os dias de folia, a Gazeta de Leopoldina relata:

"Ante-ontem, à tarde e a noite, a cidade tomou o aspecto dos grandes dias de pleno Carnaval. saíram à rua, acompanhados de bem arranjado conjunto musical, nada menos que dois blocos carnavalescos, espadamando risos e alegria por todos os cantos.

Seguiam-lhes por toda a "urbs" grande massa popular.

O primeiro grupo que tão alegremente pôs à mostra, na cidade o entusiasmo que empolga o elemento folião da terra, foi o cordão - Quem tem orgulho não brinca, composto de meninas trajadas à marinheiro. Acompanhava o bem organizado cordão um "jazz-band" das "arábias", ao som do qual as meninas entoavam canções alusivas ao Carnaval. Pandeiros, chocalhos, guizos, manejados com todo o requebro e trejeitos, formavam a ideia dos caso sério que vai ser este ano a festa de Momo nesta velha Leopoldia que nunca relaxou.

Muitas palmas alcançaram as folias do Quem tem orgulho não brinca, por toda a cidade." (
Gazeta de Leopoldina, 26/01/1926, nº 216, ano XXXI, p. 03)

Desfilaram no Carnaval Leopoldinense daquele ano os seguintes Blocos:
1 - Cotubas
2 - Prazer das Morenas
3 - Quem tem orgulho não brinca
4 - Cartolinhas
5 - Tesourinhas
6 - Maravilhas

O jornal faz uma descrição detalhada da atuação de muitos destes blocos e fala ainda do Corso de automóveis.
O Corso, é um desfile de caminhões e carros abertos, com ou sem decoração conduzindo famílias e grupos de foliões pelo centro da cidade. (3)

"Como nos anos anteriores, vai ser brilhante o corso de automóveis. Nele tomarão parte as mais distintas famílias lepoldinenses.

O Corso de automóveis constitui, sempre, a parte mais chic do Carnaval na cidade. a quantidade de serpentinas e confete consumida durante a passeata é extraordinária" (Gazeta de Leopoldina, 26/01/1926, nº 216, ano XXXI, p. 03)

O Corso, no início do século XX, era um privilégio dos poucos proprietários de carros e um espetáculo para os "populares", que viam desfilar as famílias mais tradicionais. Para moças de "família" era a única oportunidade de aproveitar o Carnaval de rua, pois os pais não permitiam que elas de misturassem com os foliões. Fora isso, só havia a opção dos bailes a fantasia, que aconteciam no Cine-Brasil

Ainda sobre o Corso, havia concurso de automóveis. Como havia poucos em Leopoldina as famílias alugavam automóveis em Tebas e Argirita.

"Em vista de serem poucos automóveis de aluguel existentes na cidade, deverão vir de várias localidades do município, entre as quais Argirita e Tebas, vários outros que serão postos à disposição do público para alugar durante os três dias de Carnaval." (Gazeta de Leopoldina, 06/02/1926, n. 226, ano XXXI, p. 03)

Vou finalizar esta postagem com uma marchinha de Carnaval da época, Zizinha, um sucesso do Carnaval de Leopoldina de 1926:

ZIZINHA
(Marcha da Folia - Música de J. F de Freitas)

Por ser deveras conhecida
Palavra, em ando aborrecida.
Em qualquer lugar
Sou muito perseguida!
O meu tormento não tem fim!
Nunca pensei sofrer assim.
Velhos e mocinhos.
Pedem-me beijinhos.
Dizendo , enfim para mim:

(Estubilho)

Zizinha! Zizinha!
Ó! Vem
Comigo vem,
Minha santinha,
também quero tirar
Uma Casquinha.

II

D'outro dia num bondinho
Um coronel já bem velhinho
Deu-me um beliscão
Pegou0me na mão
Tais coisas fez, enfim,
Que quando olhei admirada
Até parece caçoada
Ainda suspirou
Os olhos revirou
Dizendo assim:

(Estubilho)

Zizinha! Zizinha!
Ó! Vem
Comigo vem,
Minha santinha,
também quero tirar
Uma Casquinha.

(Gazeta de Leopoldina, 05/02/1926, nº 225, ano XXXI)

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(1) Zé Pereira. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Pereira, acesso em 12/02/2010.
(2)
Carnaval: história e atualidade. Disponível em http://www.miniweb.com.br/cidadania/Dicas/carnaval.html, acesso em 12/02/2010.
(3)CARDOSO, Monique. História do Carnaval. Disponível em http://www.areliquia.com.br/Artigos%20Anteriores/57HistCarn.htm, acesso em 12/02/2010

ATENÇÃO: O texto acima pode ser livremente reproduzido, desde que seja citada a fonte e o autor.

3 comentários:

Prof. Adinalzir disse...

É isso aí! Louvemos o Carnaval como uma importante festa cultural. Parabéns pelo ótimo texto!

Abraços, :-)

Natania Nogueira disse...

Estou reunindo material para um texto mais amplo. De repente o Carnaval me inspira. Enquanto isso, vão indo estes pequenos fragmentos. :-)

Carol Bianque disse...

Olá Natânia!! Tudo bom?
Não sei se lembra de mim.. estudei com a Bianca Jacob..na época, sua vizinha..
Bom, primeiro queria elogiar o seu blog e sua iniciativa como pesquisadora na cidade!!
Sou formada em Artes/UFJF e atualmente estou fazendo uma pós em 'Figurino e Carnaval' na UVA/RJ...acabei encontrando seu blog por conta de uma pesquisa sobre o carnaval de Leopoldina!
Gostaria de saber mais sobre a história..vc me indicaria algum lugar (na prefeitura, por ex) onde eu possa encontrar mais detalhes?

Mais uma vez parabéns pelo trabalho! Bjim