domingo, 3 de julho de 2016

ORESTES ACQUARONE FILHO E O JORNALISMO ESPORTIVO EM QUADRINHOS

Cartum de Orestes Acquarone Filho. 
O jornal. Rio de Janeiro,  30 de junho de 1928 p 01 n. 2941. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
O Jornalismo em Quadrinhos (JQ) é considerado um gênero hibrido, surgido no final do século XX, sendo apontado como seu criador o jornalista e quadrinista maltês Joe Sacco. No entanto, anos antes, em 1988 a quadrinista Joyce Brabner lançou um livro–reportagem em quadrinhos chamado Brought to Light[1]. É provável que outros quadrinistas/jornalistas tenham feito o mesmo, mas, como o termo Jornalismo em Quadrinhos não havia sido ainda cunhado sua obra não foi assim classificada. 

No Brasil, por exemplo, Hilde Weber já fazia, ainda nos anos de 1940, uma forma de jornalismo político em através de suas charges. Bem antes disso Angelo Agostini utilizada dos quadrinhos como um recurso para ilustrar situações ocorridas no cotidiano. Elydio dos Santos e Deise Cavignato citam, por exemplo, o caso de um acidente ferroviário em São Paulo, ocorrido em 1885, onde Agostini ilustra a queda do trem, mas, também, o socorro aos feridos[2]. Na obra de Agostini ainda podemos encontrar quadrinhos que denunciam problemas como os incêndios no Rio de Janeiro e a falta de abastecimento de gêneros alimentícios na cidade. 

Estas podem ser consideradas formas de JQ, que antecedem a obra de Joe Sacco. O quadrinista maltês pode não ter sido o primeiro a utilizar o recurso do JB mas criou o gênero, ou pelo menos deu nome a ele. O que não tira claro, o mérito do autor.

Mas o JQ têm facetas que talvez sejam desconhecidas pelo público geral e mesmo por alguns pesquisadores da área. Uma delas é o Jornalismo Esportivo em Quadrinhos. Não sei se o termo existe (não encontrei referência a ele), mas acredito que, se existe, pode ser creditado ao cartunista Orestes Acquarone Filho.

Ilustração de Orestes Acquarone Filho. 
O jornal. Rio e Janeiro,  25 de abril de 1928 p 09 n. 2882. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Filho do escultor e desenhista uruguaio Orestes Acquarone, Acquarone Filho foi figura constante na imprensa brasileira a partir dos anos de 1920. Junto com o pai, mudou-se para o Brasil em 1922. Há muito pouco sobre o artista apesar dele ser listado entre pintores e cartunistas que figuraram entre a intelectualidade carioca até final da década de 1950. Não há nada sobre ele na Enciclopédia dos Quadrinhos, de Hiron Cardoso Goidanich e André Kleinert ou mesmo um verbete na História da Caricatura, de Herman Lima. Acquarone Filho é um esquecido pela História dos Quadrinhos no Brasil.

Mas este ilustre desconhecido pode ter sua obra encontrada em periódicos que estão disponíveis na Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Visitando estes jornais eu encontrei os quadrinhos que acima chamei de Jornalismo Esportivo em Quadrinhos. Em uma série de reportagens veiculas pelo periódico “O Jornal”, entre maio e julho de 1928. Orestes Acquarone comenta jogos de futebol ocorridos no Rio de Janeiro por meio de imagens sequenciadas que narram os seus melhores momentos usando o recurso dos quadrinhos.

Acquarone, ao que parece, era um amante do futebol e talvez possa ser a ele creditado o pioneirismo nesta modalidade de quadrinhos.

Outros também também transformaram o esporte, especialmente o futebol, no tema de suas ilustrações. Na década de 1950, o quadrinista e chargista alagoano Manoel Messias de Mello (de 1904 - 1994), destacou-se com suas charges esportivas publicadas em A Gazeta. Suas charges eram bem humoradas e faziam narrativas divertidas sobre jogos de futebol. O Quadrinista também criou mascotes para alguns dos principais times de futebol da época, como a Macaca da Ponte Preta, da Baleia do Santos e outros mais.[3]

Henfil - Imagem disponível em: http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/22422-70-anos-de-henfil, acesso em 03 jul. 2016
Outro cartunista que se dedicou seu traço ao futebol de forma cômica foi Henfil (1944-88). O livro "Urubu", lançado em junho de 2007, resgatou suas charges sobre futebol. O livro traz uma crônica do futebol carioca do final dos anos 70 e início dos anos 80. Henfil usa a imprensa ilustrada como forma de denunciar e criticar o futebol. Suas charges não são apenas divertidas, mas, como toda charge, representa uma crítica rasgada a situações que envolvem desde arbitrariedade a violência. 

Este tipo de material mostra como era fluida a linha que entre jornalismo e quadrinhos. Mas a narrativa em forma de quadrinhos da forma como Orestes Acquarone Filho o fazia poder ser considerada precursora ou mesmo introdutora de um novo tipo de jornalismo especializado. Deixo a outros especialistas da área concordarem ou contestarem desta afirmação, mas creio que, pelo fato de Acquarone inovar na arte sequencial merece, pelo menos, um verbete em seu nome.




[1] SILVA, Vinícius Pedreira Barbosa da. As Histórias em Quadrinhos como Gênero Jornalístico Híbrido: o Jornalismo em Quadrinhos. Anais do Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXV  Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Fortaleza, CE)– 2012, p.02.
[2]SANTOS, Roberto Elysio, CAVIGNATO, Daise.  A renovação da linguagem jornalística em quadrinhos. Revista Estudos de Comunicação. Curitiba, vol. 14, n. 34, p. 212.
[3] Messias de Mello. Disponível em: http://zip.net/bmtnJ9, acesso em 03 de jul. 2016.

2 comentários:

Hunter disse...

Duas coisas, Natania.

Não é "o" Joyce Brabner, ela é uma mulher! Viúva do Harvey Pekar.

E o desenhista francês Cabu, um dos mortos no atentado do Charlie Hebdo, já fazia jornalismo em quadrinhos antes do Sacco. Por exemplo, esta é uma reportagem em quadrinhos que ele fez em 1979:
http://stetiennecapitaledestotsdits.e-monsite.com/medias/images/cabu-sainte-1979-2.jpg

Cabu, que era formado em jornalismo, se via mais como um jornalista que desenhava do que como um chargista. Infelizmente não sei se existe uma compilação dessas obras dele.

Natania Nogueira disse...

Já tireo o "o", obrigada!! :-)