Este site foi criado para que eu pudesse postar meus trabalhos sobre a História de Leopoldina, sobre História do Ensino e Educação. Com o tempo ele acabou se tornando muito mais do que isso. Hoje eu o uso para fazer reflexões sobre meu trabalho na escola, sobre minhas pesquisas com quadrinhos e sobre minhas opiniões sobre livros e filmes.
domingo, 23 de outubro de 2022
HELENA FONSECA NA PAPIERS NICKELÉS
domingo, 9 de outubro de 2022
CAPÍTULO SOBRE QUADRINHOS AUTIOBIOGRÁFICOS NO LIVRO " QUADRINHOS & CONEXÕES INTERMÍDIAS"
Convido a todos e todas conferir não apenas meu capítulo, mas a todos os capítulos dos dois livros. Há textos excelentes, para todos os gostos. Recomendo a leitura e o download dos livros, que são gratuitos, dentro do espírito da ASPAS de contribuir para a democratização e o acesso ao conhecimento. Para ter acesso aos dois volumes, assim como a outras publicações da ASPAS, basta clicar aqui! Segue um breve resumo do meu capítulo.
Os quadrinhos autobiográficos como forma de expressão para as mulheres
No texto iremos analisar o componente autobiográfico na produção de quadrinhos por mulheres, a partir da análise de obras de autoras como Anneli Furmark, Nicole Claveloux e Catia Ana Baldoíno. São quadrinhos que misturam elementos ficcionais com as experiências das autoras que, por meio de seus personagens, trazem suas auto-representações e utilizam os quadrinhos como recurso como um espaço para autoconhecimento e autoanálise. Partimos da ideia de que, ao utilizar suas experiências, essas mulheres quadrinistas transformaram seus quadrinhos em “lugares de fala”, nos quais podemos encontrar não apenas representações sociais, ideias políticas ou posicionamentos ideológicos, mas, também, experiências de vida a serem apropriadas e compartilhadas com seus leitores e leitoras. Podemos, também, por meio deles, adentrar ao ambiente privado, tão restrito e pouco documentado enquanto objeto de análise. Neste sentido, trataremos essa produção midiática como um produto da cultura material e uma fonte para se estudar a História das Mulheres, uma vez que esse componente autobiográfico, muitas vezes implícito em uma obra, nos ajuda a compor um quadro geral acerca de relações familiares e profissionais que envolvem mulheres comuns cujas memórias possivelmente não serão registradas nos anais da história. Como base teórica utilizamos a obra de Michelle Perrot e Roger Chartier.
domingo, 2 de outubro de 2022
A MULHER REI E A HISTÓRIA DAS MULHERES NA ÁFRICA
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| Divulgação do filme - "A Mulher Rei". |
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| Amazonas de Daomé |
O
filme é ambientado na África, no Reino de Daomé, atual Benin, um dos reinos
mais poderosos daquele continente entre os séculos XVI e XIX. Daomé permaneceu um
reino autônomo até 1904, quando o último rei foi destronado e os franceses o anexaram
ao seu império colonial, depois de muitos anos de guerra. A história gira em
torno das "Agodjié", também chamadas de Ahosi ou Mino,
uma tropa de elite formada por mulheres guerreiras a serviço do rei. O grupo é comandado por Nanisca, personagem
de Viola Davis, que além de defender o reino de tribos inimigas e de
colonizadores franceses ainda entoa um poderoso discurso contra a escravidão de
africanos e sua venda para traficantes europeus. As "Agodjié",
inclusive, inspiram as “Dora
Milaje”, mulheres da guarda real de Wakanda no filme “Pantera Negra”.
Essas
mulheres guerreiras realmente existiram e foram temidas tanto por africanos
quanto por europeus, estes últimos as chamavam de Amazonas, uma referência ao
mito grego. Segundo registros, o primeiro regimento de "Agodjié" foi formado durante o reinado de Tassi Hangbe, a primeira e única mulher que reinou em Daomé,
no século XVIII e, também, a primeira "Agodjié". Há também relatos
que afirmam que elas eram, originalmente, mulheres caçadoras. Essas guerreiras
bem treinadas atuavam na segurança da família real, como espiãs e em batalhas.
Elas eram moças recrutadas
entre o povo de Daomé ou oferecidas, quando meninas, pelas suas famílias ao
rei. Elas podiam ser também mulheres capturadas de outras tribos e
transformadas em cativas. A essas últimas era feita a oferta de servir ao rei como
mulheres livres. Isso aparece em uma passagem do filme. Quando uma mulher de
uma tribo inimiga é questionada sobre a razão que a leva a aceitar a oferta ela
responde algo como “Aqui vou ser o caçador e não a presa”. E não deviam ser
poucas que aceitavam pois dos escravos traficados do reino, a minoria era de
mulheres.
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Grupo de durante uma visita a Paris, 1891 - Fonte: https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/
Tornar-se uma "Agodjié"
dava às mulheres um novo papel dentro de uma sociedade dominada por homens.
Elas abriam mão do casamento e dos filhos e recebendo em troca o reconhecimento
e um status social que as colocava entre as pessoas mais respeitadas e admiradas
de Daomé. Os homens comuns não podiam encará-las, inclusive as temiam, e tinham
que abrir caminho quando elas passavam. Apesar de todos os riscos e do
treinamento intenso muitas mulheres escolhiam se tornar "Agodjié",
tanto que elas representavam cerca de um terço das topas de Daomé. Além disso,
as "Agodjié" tinha influência política e participação de decisões
importantes. Em muitos reinos africanos mulheres chegaram a assumir posições de
liderança ou mesmo certo status social, mas em Daomé as mulheres encontraram-se
em uma posição de empoderamento única, o que torna ainda mais interessante sua
história, contada no filme.
O Brasil tem uma ligação
com o reino de Daomé que começou com Portugal, durante as navegações. Os portugueses
estabeleceram relações econômicas e diplomáticas na região, tendo lá construído
uma feitoria no reino de Daomé, posteriormente transformada na Fortaleza
de São João Batista de Ajudá. De
lá vieram considerável parte dos escravos trazidos para a América. Daomé
enriqueceu com esse comércio, trocando prisioneiros de guerra por mercadorias
europeus. No entanto, como tempo, o próprio povo de Daomé acabou vendido como
escravo. Não atoa a região recebeu o nome de “Costa dos Escravos”. Daomé também
tinha relações diplomáticas com o Brasil, tendo sido o primeiro Estado a
reconhecer a nossa independência, em 1922, antes mesmo dos Estados Unidos, o
que ocorreu apenas em 26 de
maio de 1824.

Fortaleza de São João Batista de Ajudá - 1886 - Fonte: wikipedia.
Eu me emocionei no filme porque senti que pela
primeira vez vou ter um material realmente rico e empoderador para poder
utilizar na escola. Trabalho com muitos alunos afrodescendentes, “A Mulher Rei”
traz não apenas uma boa contextualização da história de um reino africano como,
também, de empoderamento feminino. Essas mulheres guerreiras, na sua
ferocidade, entoam um discurso libertário. Elas agarram a oportunidade e fogem
do papel de submissão representado pelo casamento, geralmente arranjado, no
qual não seria valorizada e estaria à mercê da violência. Assistam à “A Mulher
Rei”, independente do seu gênero e da sua cor, tenho certeza que vai ser uma
ótima experiência.
Fontes
consultadas:
Agudás - de africanos no Brasil a ‘brasileiros’ na África. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/hcsm/a/vtXQvFkGbHFSHQhs5BQv3rs/?lang=pt>. Acesso em 02 de out. 2022.
Amazonas de Daomé: as mulheres mais temidas do mundo. Disponível em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-amazonas-daome-mulheres-temidas-mundo.phtml>. Acesso em 02 de out. 2022.
Amazonas: O exército feminino do Reino do Daomé. Disponpível em: https://www.dw.com/pt-002/amazonas-o-ex%C3%A9rcito-feminino-do-reino-do-daom%C3%A9/a-56823669.
Acesso em 02 de out. 2022.
JIF : Je vous Présente les Agodjié, Braves Amazones du Danhomè. Disponível em: <https://fafadi323701274.wordpress.com/2020/02/29/jif-je-vous-presente-les-agodjie-braves-amazones-du-danhome/>. Acesso em 02 de out. 2022.
Os guerreiros deste reino de África Ocidental eram formidáveis – e eram mulheres. Disponível em: <https://www.natgeo.pt/historia/2022/09/os-guerreiros-deste-reino-de-africa-ocidental-eram-formidaveis-e-eram-mulheres>. Acesso em 02 de out. 2022.
Reino do Daomé. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_do_Daom%C3%A9>. Acesso em 02 de out. 2022.
The Woman King (2022). Disponível em: <https://www.historyvshollywood.com/reelfaces/woman-king/>. Acesso em 02 de out. 2022.
quinta-feira, 22 de setembro de 2022
DOIS LIVROS LANÇADOS EM SETEMBRO
Eu prometi a mim mesma que em 2022 eu assumira compromissos depois que defendesse minha tese. Infelizmente, não sou uma pessoa confiável. Acho que nunca escrevi tanto e nem trabalhei tanto como este ano. Eu participei até agora de vários eventos sobre quadrinhos, e ainda há mais chegando por até dezembro. Além disso, publiquei vários textos em revistas e capítulo de livro. Além disso, estou finalizando a escritura de dois livros de história e na organização de alguns livros sobre quadrinhos.
Trata-se de uma obra diferenciada em vários sentidos. Primeiro, porque traz muitos textos de referência, que tratam de questões metodológicas, como o capítulo assinado por Lucas de Almeida Melo e João Paulo Ovídio, que faz um levantamento trabalhos de iniciação científica usando quadrinhos, realizados na UFRJ, entre os anos de 2006 e 2017.
Além disso, para pesquisadores que trabalham com fanzines há dois excelentes capítulos. Um deles, por Sara Gaspar, "Fanzines 'comer pra quê?' - relato e uma experiência de aproximação com temas relacionados à Alimentação", é resultado de um projeto de iniciação científica, e traz um relato de experiências rico e instigante, do trabalho com fanzines na educação alimentar. O capítulo outro, "Fanzines cartoneiros: reflexões sobre o cenário ambiental contemporâneo global e regional", escrito por Danielle Barros, que já é conhecida por seus trabalho com fanzines, também traz experiências da pesquisadora com a produção de fazines e das oficinas que ela desenvolveu junto com seus alunos e a comunidade, com temas relacionados ao meio ambiente.
Há ainda o texto que eu escrevi em conjunto com Dani Marino. Aliás, minha parceria com ela já rendeu três artigos, sendo que um ainda permanece inédito, aguardando publicação. O título do capítulo é "Mulheres e quadrinhos no Brasil: a explosão dos quadrinhos femininos no século XXI". Nesse capítulos tentamos fazer um síntese sobre a produção de quadrinhos por mulheres no Brasil e sobre alguns obstáculos enfrentados por quadrinistas que ingressam nesse mercado, que ainda permanece muito restrito. Foi um prazer poder escrever esse texto pois ele basicamente inaugurou uma nova fase minha, na qual eu me volto um pouco mais para a produção de quadrinhos nacional, uma vez que tanto no mestrado quando o doutorado eu me concentrei na produção estrangeira.
Temos ainda outros capítulos, igualmente interessantes. Você pode conferir todo o livro, clicando aqui.
Ao conceber esta publicação pensamos em produzir um material exclusivo para professores com uma linguagem acessível. Procuramos trazer uma abordagem mais prática, envolvendo temas que dizem respeito à mais diversas disciplinas. A ASPAS busca sempre reforçar a característica interdisciplinar da pesquisa acadêmica e, mais ainda, compartilhar experiências. E esse livro, em particular, tem essas características.
É até difícil escolher sobre quais capítulos escrever, então vamos pegar apenas alguns como exemplos. O primeiro é o Para surdo ouvir, para cego ver: a acessibilidade em histórias em quadrinhos é possível?", de Valéria Aparecida Bari e Ana Laura Campos Barbosa. Nesse capítulos os quadrinhos são apresentados como uma ferramenta importante para a inclusão de pessoas que necessidades especiais. Um trabalho excelente que merece ser conferido. Temos também o capítulo dedicado ao ensino religioso "Sugestões de quadrinhos a serem utilizados em aulas de ensino religioso", de Marcelo Buzzoni, que traz dicas para os professores de ensino religioso. Um material inédito e valioso, uma vez que essa disciplina, em especial, carece desse tipo de referência.
Temas a participação de nossos associados estrangeiros, no capítulo "El cómic en la escuela y el desafío de formar lectores y escritores", de autoria dos pesquisadores argentinos Sebastian Gago e Valeria Daveloza. Neste capítulo os autores trazer a experiência argentina dos quadrinhos nas salas de aula como ferramentas importantes para a formação de leitores. Uma experiência estrangeira mas que pode servir de referência para as escolas brasileiras.
Temos, também, no ensino da matemática, o texto "Quadrinhos e matemática: uma fundamentação para produções de histórias em quadrinhos", de Vanuza Camargo Durães e Aparecida Santana de Souza Chiari. Neste capítulos vamos ver como o texto pode ser importante no ensino da matemática e como o uso da criatividade e de ferramentas virtuais pode ajudar o professor de matemática a vencer alguns desafios na aprendizagem dessa disciplina.
E há, como eu disse, muito mais. O livro pode receber, em breve, uma versão impressa mas enquanto isso não acontece, ele pode ser acessado gratuitamente aqui.
sábado, 17 de setembro de 2022
OS DEZ ANOS DA ASSOCIAÇÃO DE PESQUISADORES EM ARTE SEQUENCIAL
Por conta dela, o município acabou investindo muito na formação de professores e tivemos vários encontros envolvendo pesquisadores que trabalham com quadrinhos, nas mais diversas disciplinas, com objetivo de trazer novas possibilidades para o uso dos quadrinhos em sala de aula. Por conta disso, a cada ano, desdes 2007, a cidade recebeu muitos nomes importantes neste campo como, por exemplo, o professor Waldomiro Vergueiro e a professora Sonia Luyten, ambos pioneiros na pesquisa dos quadrinhos na USP. E, em meio, a isso nasceu a ideia de se criar uma associação que reunisse pesquisadores, organizasse encontros entre eles e fomentasse a produção de conhecimentos a partir do uso dos quadrinhos, tanto do ponto de vista acadêmico quanto didático.
Com mais de 60 associados, a ASPAS foi além das expectativas e se fez presente em quase todo o território nacional por meio de seus associados. Mais do que isso, ela possibilitou a integração e produção de saberes numa escala antes nunca vista. Hoje podemos oferecer a quem deseja ingressar na pesquisa dos quadrinhos obras de referência dos mais vaiados temas. Esse talvez tenha sido o nosso maior mérito.
A ASPAS, particularmente, mudou minha vida. Eu não apenas tive a possibilidade de conhecer pessoas que me ajudaram muito com o trabalho na escola e com a pesquisa como, também, consegui alçar voos maiores na minha carreira. De outro lado, forjaram-se amizades que se fortalecem a cada ano. Dito isso, gostaria de convidar a todos e todas a conhecer a ASPAS e as obras que ela disponibiliza no seu blog.
Clique aqui para saber mais sobre a ASPAS e, aqui, para ter acesso a livros produzidos pelos seus associados, disponibilizados gratuitamente.
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
PROJETO GUERREIRAS DA INDEPENDÊNCIA
Para a semana da comemoração dos 200 anos da Independência, preparamos na Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado uma pequena exposição de banners com o tema "Guerreiras da Independência", que vai ser começar no dia 06 de setembro e deve durar até o final do mês.
Na exposição trazemos a história de mulheres que foram importantes tanto para a declaração da nossa Independência quanto para que ela pudesse se consolidar. Mulheres que foram para a frente de batalha para lutar contra tropas portuguesas, mulheres que se colocaram contra a opressão. Nestes 200 anos queremos trazer aqui sua memória, para que elas possam inspirar novas gerações.
O objetivo do projeto é trabalhar justamente o papel das pessoas comuns nas história, sem tirar o mérito, claro, daqueles que já são conhecidos. Em especial, escolhemos as mulheres porque elas normalmente são esquecidas ou citadas superficialmente. O projeto pretende atender a todos os anos do Ensino Fundamental e do EJA e ser ponto de partida para outros pequenos projetos e para debates.
Confira nossa pequena exposição.
Agradecimentos
Agradecemos à direção da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado por apoiar o projeto e aos senhores Amilton Kabuna e Luiz de Mello por patrocinarem os banners.
OBS: Os banners podem ser reproduzidos livremente.
Créditos
As imagens foram capturadas na Internet.
Imperatriz Maria Leopoldina - Flávio Viana (@flaviovianart). Imagem capturada aqui
Maria Felipa de Oliveira - arte de @ltdathayde. Imagem capturada aqui!
Maria Quitéria de Jesus - ilustração de Guilherme Karsten. Imagem capturada aqui!
Joana Angélica - Imagem capturada aqui!
sexta-feira, 22 de julho de 2022
COMENTANDO A HQ "NÃO ERA VOCE QUE EU ESPERAVA"
São
quadrinhos que tem uma sensibilidade muito grande e muitas vezes falam de
coisas que nós costumamos guardar para nós mesmos. São HQs, também, que possuem
um certo compromisso com o que estão narrando. Algumas vezes eles nos ensinam
sobre o que não sabemos ou o que achamos saber. Eles acabam assumindo uma um
função informativa.
Eles podem ser, também, comparados ao gênero literário
"memória". Um quadrinista ao fazer um quadrinhos autobiográfico se
torna um memorialista, mesmo que não seja essa a sua intenção. Esse exercício
da escrita de si é incrivelmente cativante porque temos uma sede enorme de
estar com o outro, mesmo que seja apenas apropriando sua narrativa.
Nos encontramos, muitas vezes, nessas narrativas. Nossas dúvidas,
nossos preconceitos, nossas próprias experiências podem estar ali. Conheci
muitos quadrinistas que, desde o início da carreira, basearam seus quadrinhos
na sua própria experiência, embora usassem de uma dose de ficção. E aqui eu
gostaria de destacar quadrinistas mulheres, que com quadrinhos autobiográficos
encontraram uma forma de serem ouvidas pelo mundo. Seus personagens ficcionais,
na verdade, são canais de comunicação por meio dos quais elas se abrem para o
mundo.
No entanto, colocar-se como personagem, abrir seus pensamentos,
narrar sua própria experiência na primeira pessoa não é fácil. Embora possa-se
usar do recurso da ficção para dar certo alívio cômico ou mesmo para
expressar emoções mais profundas, essa escrita de si é
extremamente desafiadora.
Dito tudo isso, vamos ao que esse texto se presta, que é comentar a HQ "Não era você que eu esperava", do francês Fabien Toulmé. O Autor é formado em engenharia e depois de trabalhar muitos anos no ramo, inclusive no Brasil (onde fez intercâmbio, abriu uma firma e até se casou e constituiu família), resolveu se dedicar aos quadrinhos. O ponto chave dessa mudança foi o nascimento da sua filha caçula, Júlia. É claro, isso é uma dedução, baseada no fato de que "Não era você que eu esperava" foi seu primeiro quadrinho que, publicado em 2014, e narra os primeiros nos de vida da filha, que nasceu com síndrome de down, também conhecida como trissomia 21 .
O quadrinho fala das dificuldades de
Toulmé, enquanto pai, aceitar a filha como sendo portadora de uma deficiência.
Uma verdadeira autoterapia na qual o autor expõe e analisa seus
sentimentos. Não há floreios. Toulmé assume seu
lado preconceituoso, expõe sua dor e a de sua família. Não
se apresenta como um pai perfeito mas como uma pessoa que aprendeu a aceitar
as diferenças. Ele narra seu processo de humanização, se posso assim chamar,
que ocorre à medida que ele interage com a criança que, desde o início, ele
achava que nunca iria aceitar.
Há
muitas histórias sobre amor materno. Eu sinto falta de histórias sobre amor
paterno. Principalmente quando conseguimos perceber em "Não era você que
eu esperava", como o mito do amor incondicional dos pais é realmente uma
construção social. Toulmé e sua esposa, Patrícia, tiveram que aprender a
amar a criança. Ela não era amada só por existir. Isso porque a
relação consanguínea em si não garante que o amor entre pais e
filhos floresça. Até para amar é necessário um esforço.
Esse
é um ponto que eu gostei muito. Ver esse amor sendo construído. Ele não é
natural, mas resultado de interação, de abertura para o outro, de
romper preconceitos e padrões. Toulmé discriminava crianças
com síndrome de down. Ao se tornar pai de uma criança portadora de
trissomia 21 ele foi levado a rever seus
preconceitos e aceitar as diferenças. Isso porque esse tipo de medo nasce
justamente de não se encontrar no outro, ou seja, naquele que é diferente de
nós.
Dito isso, só me resta recomendar o quadrinho. Boa
leitura, traço agravável e extremante sensível e impactante.
terça-feira, 19 de julho de 2022
ARTIGO SOBRE A HQ PELE DE HOMEM
Vou compartilhar aqui o resumo do artigo e, logo depois o link para quem quiser ler na íntegra.
"Pele de Homem"(2020) é uma história em quadrinhos, doravante HQ, franco-belga, que conquistou o público europeu e foi traduzida em 2021 para o português. A narrativa é ambientada na Itália do período renascentista e gira em torno de Bianca, uma jovem que se prepara para o casamento, mas que deseja conhecer o futuro marido. Seu desejo se realiza quando ela descobre um artefato místico que é passado de geração em geração para as mulheres da sua família, uma pele de homem. Trata-se de uma HQ que fala, com muita sensibilidade, sobre a condição feminina numa sociedade patriarcalista, que discute questões relativas aos papéis de gênero, a sexualidade e a homoafetividade, ambientado naquele contexto italiano. O roteirista Hubert Boulard e o ilustrador Frédéric Leutelier constroem uma história que mistura elementos históricos e ficção que dialogam com o presente. Nessa narrativa escrita e visual, o leitor(a) pode se encontrar representado(a) em vários momentos.
Para ler o artigo completo, clique aqui!
sábado, 2 de julho de 2022
DESAFIOS DAS ESCOLAS PÚBLICAS PÓS-QUARENTENA
Estamos diante de uma horda de alunos despreparados para a vida escolar. E esse despreparo não se deve apenas às questão de aprendizagem, de apropriação de conteúdos. O desafio maior tem sido o da convivência. Não apenas a convivência com os professores, mas entre eles mesmos. Falo aqui da minha experiência neste primeiro semestre, com alunos do fundamental II, em escola pública.
Alunos que não tiveram oportunidade de estudar e frequentar a escola por dois anos. As aulas remotas, realizados por meio de aplicativos, usando o celular, desgastaram os professores e não tiveram muito efeito sobre uma clientela que, muitas vezes, nem celular possuía. A saúde mental tanto de alunos quando de professores também sofreu com a pandemia de Covid-19. O resultado disso, eu tenho testemunhado na escola, às vezes durante minhas aulas, às vezes em relatos de colegas.
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| Imagem capturada em: https://www.facebook.com/cnj.oficial/photos/a.191159914290110/1681947658544654/?type=3 |
A imaturidade é outro ponto. Nesses dois anos de afastamento da escola, os alunos perderam ou não desenvolveram o traquejo básico para conviver com outras pessoas, sejam elas os colegas ou os professores. Temos alunos do sétimo ano que agem como crianças do quinto ano. Crises de choro e de ansiedade se tornaram rotina.
Tanto professores quanto alunos estão sendo vítimas de violência moral. À falta de limites some-se a falta da educação familiar. Alunos rebeldes e desrespeitosos, muito mais do que antes. Claro, isso é uma generalização. Temos alunos que sabem lidar com o ambiente escolar e com os outros de forma cordial, mas acabam sendo prejudicados pelo contexto geral. São eles, inclusive, os que mais sobre com o bullying.
Ouvi de um colega que uma mãe reclamou que a escola não está educando seu filho, pois ele está desenvolvendo "maus hábitos". Fico imaginando que algumas, não todas claro, famílias pensam que a escola deverá ser responsável pela formação moral de suas crianças. Mas isso não é papel dos pais? Não é a família que cria a base da identidade da criança, lhe ensina valores e transmite sua experiência de vida?
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| Imagem capturada em: https://twitter.com/kaol_/status/1154072744495108096 |
É muito complicada a própria relação entre os alunos. Muitas agressões verbais ou mesmo físicas por conta de coisas irrelevantes. Fiquei assombrada com a reação de alunos mais velhos quando solicitei que mantivessem o distanciamento. Eles começaram se se agredir verbalmente, com xingamentos, e ameaças físicas. E como gritam uns com os outros!
É visível a instabilidade psicológica dos adolescentes, que estão passando por uma fase da vida caracterizada por muitas mudanças físicas. Essa instabilidade se torna visível na forma como tratam o outro. E o apoio da família parece ter diminuído. Talvez para não ter que assumir a responsabilidade de ensinar, no sentido de educar para vida, muitos pais têm apoiado as más ações dos filhos e sobrecarregando o trabalho dos especialistas. Estamos tendo que repensar o papel da escola e do professor, em particular.
Neste retorno às aula presenciais eu tenho observado muitos dos meus colegas empenhados em trabalhar. Temos buscado alternativas para suprir a deficiência de aprendizagem. No entanto, ao mesmo tempo somos desestimulados pelo ambiente difícil da sala de aula. Com isso o desgaste físico e emocional diários tem refletido em adoecimento, o que faz com que professores de afastem da sala de aula temporariamente, interrompendo um ciclo de trabalho que precisará ser retomado no futuro.
Enquanto ambiente social, a escola tem sido palco de relações tóxicas, resultado de dois anos de isolamento que parecem ter feito com que os alunos esquecessem de como é ser aluno. Hoje o desafio não tem sido o ensino-aprendizagem, mas incutir normas básicas de convivência social e respeito ao outro.
OBS: Este texto é uma autoanálise, uma forma que encontrei de refletir sobre os problemas que tenho e que outros colegas têm tido na pratica docente diária. Sempre acreditei no poder da palavra escrita. Não apenas pensar sobre algo, mas escrever sobre algo pode ampliar a compreensão que nós temos da realidade e de nos mesmos.
domingo, 26 de junho de 2022
COMENTANDO O LIVRO "MULHERES QUADRINISTAS - NO CEARÁ TEM DISSO, SIM!"
Primeiro porque apresenta a obra de mulheres quadrinistas, apresentando as autoras juntamente com sua obra. Conhecer a autora ou autor, permite o leitor se apropriar de uma forma diferente da obra. Barros faz um trabalho biográfico e, ao mesmo tempo uma História dos Quadrinhos, além do um registro memorialístico.
Em segundo, a obra não deixa de ser um registro da história dos quadrinhos local. O que é fantástico. Minha primeira formação como pesquisadora foi em História Local e eu tenho o maior respeito por quem se dedica a essa linha de pesquisa. Eu mesma tento, quando posso, voltar às minha origens, produzindo artigos e livros sobre o tema. Algo que deveria ser feito em todos os Estados.
Outra coisa que eu gostei muito foi o fato da autora ter feito uma História das Mulheres na Arte. Barros um movimento que vai do macro ao micro. Ela contextualiza as mulheres no campo das artes de uma forma geral, ela parte para as mulheres nos quadrinhos o Brasil e, nos capítulos que seguem, coloca o foca nas mulheres produtoras de quadrinhos no Ceará.
Por fim, resta elogiar o projeto gráfico. O livro é muito bem diagramado. O tamanho e o papel são muito bons, com ilustrações coloridas e em preto e branco. O valor também é acessível. Um item que não pode faltar na biblioteca de quem pesquisa quadrinhos no Brasil.
sexta-feira, 24 de junho de 2022
CONHECENDO O BAIRRO DE BOM RETIRO, EM SÃO PAULO
Fiz minha primeira viagem longa desde o
início da pandemia, em 2020, e foi para o Estado de São Paulo. Passei uns dias
em Campinas (SP) na casa de uma amiga. Fui curtir um pouco de frio e tomar um
bom vinho a noite, acompanhado de uma conversa agradável. Em Campinas eu tive
três momentos marcantes. O primeiro foi conhecer a gibiteca da Biblioteca
Pública Municipal Prof. Ernesto Manuel Zink. Fui por indicação de um amigo e
gostei muito de poder conhecer uma gibiteca que fica dentro de uma biblioteca.
É outro tipo de trabalho, ambiente e organização. Fui muito bem recebida, por
sinal, e voltei de lá com muitas ideias para futuras parcerias.
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| Gibiteca da Biblioteca Pública Municipal Prof. Ernesto Manuel Zink |
O segundo momento foi reencontrar, depois de uma
década, o querido Bira Dantas, cartunista que fez o logotipo da nossa Gibiteca,
aqui em Leopoldina (MG). Marcamos de nos encontrar na Nico Paneteria, uma
padaria/lanchonete com um cardápio incrível. Boa conversa e doces deliciosos.
Foi ótimo. Não sei vocês, mas uma das coisas que eu mais senti falta durante essa
pandemia foi de fazer esse tipo de programa. Algo que parece tão trivial, mas
que ganhou importância justamente porque não podíamos ter mais esses pequenos
prazeres.
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| Mini-bolo de chocolate com morango do Nico Paneteria. Divino! |
O terceiro momento foi assistir a uma manifestação
do sindicato dos servidores municipais, que estavam aguardando o resultado das
negociações sobre o seu aumento salarial. Minha amiga é servidora aposentada e queria participar. Fui junto pois queria ver como era. Tinha até cartaz pedindo greve. Foi
emocionante, no início, mas a emoção acabou quando o líder do sindicato anunciou o fechamento de
um acordo desfavorável aos servidores. Acreditam nisso? E ele ainda jogou a
seguinte frase: "Não vai ter greve por que amanhã é feriado". Em???
Sério, eu comecei a rir histericamente. Foi tão ridículo. Mas os servidores
estavam furiosos, e com razão.
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| Manifestação dos servidores municipais em frente da Prefeitura de Campinas (SP). |
Mas vamos ao prato principal. São Paulo, capital. Fui para São Paulo na sexta-feira dia 17 de junho para assistir a um show de k-pop. Eu combinei com mais duas amigas e resolvemos ter essa experiência. O grupo que se apresentou foi o 2k(Tu:Zi), um grupo formado por 5 rapazes. Olha, foi um excelente show, com mais de duas horas de duração. Foi minha primeira experiência do tipo. Como o show foi em um teatro, na Mooca, foi bem intimista. Eles pararam e conversaram com o público, em inglês, receberam homenagens de fãs e até bilhetes escritos de improviso. As músicas são um rock-pop agradável para os ouvidos. Foi bem além da minha expectativa inicial.
No dia seguinte eu marquei de encontrar com alguns
amigos na feira coreana, no bairro de Bom Retiro. Foi bem legal. Experimentei comidas de
rua coreanas, daquelas que a gente vê nos dramas. Tudo uma delícia.
Comi tteokbokki, uma massa de arroz (que parece um inhoque) com molho picante e,
também comi Odeng um bolinho de peixe com a massa feita com
amido, farinha, vinho de arroz e outras especiarias. Na feira estava tendo uma
série de apresentações em comemoração ao 9º aniversário do BTS. Aliás, no
metrô, linha amarela, havia várias propagandas sobre o aniversário desse famoso
grupo de k-pop. Isso me surpreendeu e me deu uma noção maior de como a hallyu
está mesmo tomando conta do ocidente. Vejam meu caso, eu quis experimentar tudo que eu sempre vejo na televisão.
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| Comendo Odeng! |
Depois de assistir apresentações e comer os petiscos de rua coreanos, fomos a um famoso supermercado coreano, o Otugui, que tem todos os produtos populares na coreia. De macarrão instantâneo (vários tipos) a bebidas, pães e frutas. Eu queria experimentar de tudo um pouco, mas me contive. Comprei algumas coisas, claro. O que eu mais gostei foi do doce de arroz com recheio de feijão. Gente, é muito bom! Não é muito doce e derrete na boca. Quero aprender a fazer.
Quase no fim do nosso passeio fomos a um restaurante
coreano super badalado, o Choyee Café e Restaurante. Pedimos um frango
frito para comer tomando cerveja, claro. Quando recebemos o cardápio, achamos o
preço bem salgado, mas resolvemos ficar, afinal, era um momento de
confraternização. Mas, eis a surpresa. O frango que daria para duas pessoas,
foi suficiente para quatro, isso porque todos os pratos vinham com acompanhamentos,
salada, kimchi, pajeon , japchae e barata doce empada e frita. Tudo delicioso
reposto por três vezes. Tudo incluído no preço do prato escolhido. No
final ficou super barato, pela quantidade de comida que foi servida.
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| Melhor frango frito que já comi em toda a minha vida! |
Mas senti falta de uma coisa. Fui pesando que entraria na feira artesanato típico da Coreia do Sul, mas não havia nada. A feira tem apenas barracas de comida. Estava ótimo, lógico, mas isso meio que me decepcionou pois eu queria comprar coisas como xícaras, por exemplo.
Passeio apesar disso foi um ótimo momento, compartilhado com queridos amigos. Por fim, quando nós estávamos nos despedindo nos deparamos com duas belíssimas pinturas na lateral de dois edifícios. A primeira, uma versão coreana de Alice no país das Maravilhas, a outra uma imagem rural da Coreia antiga. É com essas duas imagens que eu encerro esse texto. Espero que meu relato sirva para quem também está curioso sobre a cultura coreana e quer experimentar comidinhas deliciosas.
domingo, 22 de maio de 2022
ARTIGO FALANDO SOBRE WEBTOONS E K-DRAMAS PUBLICADO EM REVISTA DA UFS
Faz um tempo que eu escrevi um artigo sobre cultura pop coreana - especificamente dramas e quadrinhos. Ele foi publicado recentemente pela Revista Cajueiro, pela UFS. É um texto bem didático e pelo qual eu tenho muito carinho e fiquei muito feliz em vê-lo disponível, inclusive com uma versão em inglês. Segue o resumo do texto. Quem gostar do resumo, pode ter acesso ao artigo, clicando aqui!
De Webtoons a K-dramas as adaptações de manhwas e as tendências lançadas pela Korean Wave
Resumo: Dentro da Korean Wave, os manhwas são um dos produtos culturais que estão sendo levados para outros países, algumas vezes confundidos com os mangás japoneses. São narrativas sequenciais gráficas, com linguagem híbrida de texto e imagem, com diferenças verificáveis nas metáforas visuais e enredos. A Korean Wave é um fenômeno Cultural do séc. XXI, que se encaixa dentro de um quadro geral da globalização, no qual artefatos culturais assumiram um papel importante tanto para a economia quanto para a sociedade de dado país ou região. Esse artigo apresenta aspectos da Korean Wave ou Hallyu (onda coreana), que pode ser resumido na expansão de múltiplos aspectos da cultura sul-coreana para as mais diversas regiões do mundo. Apresentam-se como fonte de leitura e entretenimento, sobretudo infanto-juvenil, devido ao seu acesso facilitado, por meio dos smartphones, assim como os temas atualizados e de interesse para a juventude, em nível global. Conclui que o fenômeno da leitura sofre profundas alterações, e requer estudos no campo cultural, particularmente aqueles que optam pela interdisciplinaridade, necessários para absorver as mudanças que vêm sendo operadas tanto nas relações humanas quanto na produção de conhecimento.
A REVISTA CAJUEIRO é editada pelo GRUPO
PLENA: Grupo de Pesquisa em Leitura, Escrita e Narrativa, em formato
eletrônico. É publicada pelo Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas da
Universidade Federal de Sergipe. Se trata de um periódico científico semestral,
que tem como objetivo principal promover a difusão, democratização e
fortalecimento das pesquisas em Ciência da Informação, com ênfase na
contemplação dos objetos e objetivos referentes à formação de leitores e da
cultura da leitura, em todos os seus aspectos e ambientes sociais, assim como observar
as repercussões positivas dos hábitos e gostos leitores na sociedade. Visa
também ampliar o diálogo com a comunidade científica internacional e contribuir
para o desenvolvimento da sociedade, nos caminhos da leitura.
domingo, 15 de maio de 2022
TRABALHAR II GUERRA MUNDIAL E ESCRAVIDÃO SEXUAL DE MULHERES USANDO SÉRIE DE TV
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| Estátuas memoriais, espalhadas por várias partes da Coreia do Sul, criadas para chamar atenção do governo e protestar contra o Japão. |
Foram criadas cerca de 400 “estações de conforto”, espalhadas pela China, Filipinas, Taiwan, Cingapura, Indonésia, Birmânia, Tailândia e Vietnã, sempre próximas às bases militares. Estima-se que cerca de 80 a 200 mil mulheres foram forçadas a prestar serviços sexuais a soldados japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que apenas 30% delas sobreviveram. O maior número de mulheres era de origem coreana, cerca de 80% delas.
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NHD Boulder Valley “Truth Be Told” por Eliana White |
Esse horrendo crime de guerra permaneceu por décadas esquecido/omitido, uma vez que as vitimas, intimidadas pela sociedade, e por suas próprias famílias, permaneceram caladas. Só recentemente o tema emergiu graças ao depoimento de uma das vítimas, já idosa, assombrada pela dor das memórias de guerra e em busca de justiça. Qual justiça? O reconhecimento do crime e um pedido oficial de desculpas do Japão, que até hoje não aconteceu.
Eu conheci o tema por meio de uma HQ produzida pela sul-coereana Keum Suk Gendry-Kim, em 2017, e traduzida para diversos idiomas, como inglês e francês, e publicada no Brasil, em português, em 2020. O quadrinho , de nome “Grama”, baseia-se no depoimento de uma sobrevivente e em pesquisas realizadas pela autora (clique aqui se quiser saber mais). Para quem não sabe, a península da Coreia foi invadida e colonizada por japoneses no início do século XX e seu povo sujeito às mais diversas agruras.
O tema se tornou um dos meus favoritos, em termos de historiografia, e me fez interessar pela história de países do leste asiático, que pouco ou quase nada estudamos no Brasil, dada a nossa tradição eurocêntrica. Por isso foi uma grata surpresa poder assistir um episódio, o de número 13, de Tomorrow (Amanhã), série do Netflix, abordado esse tema.
Normalmente, eu me contento e comentar os aspectos gerais de uma série/drama, mas neste caso, chamo aqui a atenção para um capítulo específico. Isso porque no episódio 13, retirando a parte fantasiosa da série, temos uma reconstituição histórica da exploração dessas mulheres durante a II Guerra. A reconstituição baseia-se no relato de uma personagem fictícia, uma sobrevivente, idosa, que nos últimos momentos de sua vida ainda espera por reparação. A sobrevivente Jeong-mun, conta sua história e a de outras mulheres, e faz uma apelo à memória: não esqueçam.
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| Cena de Tomorrow, episódio 13, mostrando as meninas sendo levadas para as estações de conforto por soldados japoneses. |
Esse episódio será exibido no Brasil no dia 21 de maio, no Netflix. Recomento para uso de professores de história e mesmo de outros conteúdos. Mesmo sendo um episódio de uma série que envolve um contexto maior, é possível usar essa parte do programa para fins didáticos sem problemas. Claro, recomendo ao professor/professora, fazer uma breve pesquisa sobre o assunto para poder melhor aproveitar esse material e enriquecer a aula.































