domingo, 11 de março de 2018

CONHECENDO O INTERIOR DA SUÉCIA: UMA SEMANA EM ÖREBRO

Casa típica sueca,onde passei uma semana maravilhosa!
Eu parti no final do dia 21 de janeiro para a cidade de Örebro, que fica cerca de duas horas de viagem de Estocolmo. Örebro possui aproximadamente 150 mil habitantes e é capital do Condado de Örebro. A cidade ficou conhecida por ser o centro nacional de produção de calçados na primeira metade do século XX. É uma cidade relativamente pequena  para os padrões brasileiros, mas grande para os padrões suecos. Se não me engano é a sexta ou quinta maior cidade da Suécia e tem até sua própria universidade a Örebro University.

Örebro não é uma cidade turística, vou adiantando. Então, que diabos eu fui fazer lá? Bom, eu tenho amigos que moram lá e que me convidaram para passar alguns dias perto da neve. Eu não me hospedei na cidade, fiquei em um pequeno distrito rural, chamado Mullhyttan. Depois de tantos dias correndo de um país para outro e ficando em hotéis, a ideia de estar numa casa em um ambiente familiar era tentadora. 

Caminhando com os amigos Ricardo e Roman, em Mullhytan.
Resumindo, eu fui passar a segunda parte das minhas férias numa comunidade rural com cerca de 700 habitantes. E foi a melhor parte! 

Fiquei hospedada em uma linda casinha típica sueca, rodeada de neve, com uma paisagem maravilhosa. Aliás, como eu cheguei à noite, a primeira coisa que fiz quando pulei da cama pela manhã foi correr para a janela, para poder ver toda aquela neve, que cobria o campo e a floresta. Sim, eu fiquei ao lado de uma floresta. 

Na segunda-feira eu tirei o dia para descansar pela manhã e para caminhar na parte da tarde com meus amigos pela região, inclusive pela floresta. Eu amei cada momento. As casas são lindas. Normalmente vermelhas, verdes ou amarelas. Elas combinam com a paisagem, coberta de neve. Passei por riachos semi-congelados encantadores. Difícil dizer o que era mais bonito. Eu poderia ficar a semana inteira só caminhando pela região fazendo isso e não ia me cansar.


Riacho parcialmente congelado
Como as casas ficam um pouco afastadas umas das outras, não se vê movimentação de pessoas. É tudo muito calmo e silencioso. Talvez por isso seja comum os veados pastarem no prado congelado, tão próximos das casas, despreocupadamente. Mas eu cheguei a conhecer um dos vizinhos mais próximos, um senhor idoso que sempre passeava com seu cachorro pela estrada. 

Apesar de estar na zona rural, acabei passando muito tempo na cidade. Para cada dia da semana eu tinha um compromisso ou uma atividade previamente programada. Como eu tive muitas atividades naquela semana, fica muito difícil colocar tudo em um texto só. Então, vou destacar algumas. As outras eu irei detalhar em postagens em separado.

Venda oferece ovos 24 h e não tem funcionários.
Uma das coisas que me marcou foi sair para comprar ovos. O tem de especial em comprar ovos? Não é bem o ato de comprar, mas a forma como se compra. É self service com auto-pagamento! A pessoa pega os ovos e deixa o dinheiro em um cano. A pequena vendinha de ovos ficar aberta dia e noite, sem funcionários. Achei aquilo fantástico, super organizado, super civilizado e empreendedor. Imagina se a gente pudesse fazer algo assim no Brasil? Quem sabe um dia!?

Na cidade de Örebro eu tirei um dia para passear. Saí para almoçar com amigos e depois fomos caminhar pela cidade. A cidade é encantadora. Tudo muito limpo e organizado. Um conjunto arquitetônico particular, onde os prédios modernos estão misturados com prédios mais antigos. Igrejas charmosas, as mais antigas de estilo gótico.

Peles de raposa e outros 
animais sendo vendidas na 
feira.
Achei muito interessante andar pelas feiras que ficam nas ruas e vendem de produtos típicos a doces e eletrônicos. Lembrando que os países da Escandinávia fizeram parte da Liga Hanseática, uma organização político-econômica que surgiu no final do século XII, por época do renascimento do comércio na Europa. Não acho que seja exagero dizer que as feiras são praticamente uma tradição naquela região. O que me chamou atenção foi a quantidade de barracas que vendem doces e balas e objetos feitos com peles de animais, quando não a própria pele, principalmente de raposa. 

Pois é, tadinhos dos bichinhos. Fiquei com dó e não comprei nada. Ia me dar dor na consciência comprar um chapéu de pele de raposa, embora eles fossem lindos, devo confessar. Com relação aos doces, parece que é uma tradição local, comer doces. E os suecos comem muito. Eu ganhei uma sacola com quase um quilo de balas e bombons.

Castelo de Örebro, do século XIV
A atração principal da cidade é o Castelo de Örebro (Örebro Slott), uma fortaleza medieval do século XIV, que fica localizada no centro da cidade, em uma ilhota no rio rio Svartån. Eu tinha visto fotos do castelo e imaginei que ele ficava fora da cidade, mas não, é ali no centro mesmo, cercado pelas águas do rio. 

Terminei o dia encontrando com meu amigo Ricardo na biblioteca de Örebro. De lá seguimos para Mullhyttan. Mais para o fim da semana a casa ficou em função dos preparativos para a Noite do Pastel, um evento que foi promovido pela Associação Sueco-Brasileira de Örebro, que reúne a comunidade brasileira e descendentes de brasileiros da cidade. Eles fazem um trabalho maravilhoso mantendo um pouco das tradições e costumes brasileiros lá fora. Isso é muito importante, principalmente para os mais jovens.


Pastel de massa caseira
 feito na Suécia!
Meus amigos ficaram encarregados da produção de pastéis e eu ajudei no que pude. Foi ótimo, porque eu fiz novas amizades, como Karin e seu filho Stepan. No final das contas, acabei aumentando minha rede de relações na Suécia, que antes era basicamente composta por suecos, mas que agora já tem um bom número de brasileiros.

E fechando minha viagem, no sábado pela manhã fomos fazer um passeio de carro pela região. A neve já estava começando a derreter, então a paisagem era outra, igualmente bonita. Fomos à floresta, numa área para acampamentos, admirar a vista do alto de uma torre de observação de pássaros. 

Depois meus amigos me levaram para uma grande loppis, na cidade de Karlskoga, que fica no Condado de Örebro, cidade onde nasceu e viveu Alfred Nobel, que era dono de uma fábrica de canhões, vejam só! Por conta da fabricação de armas, desde o século XIX, a pequena cidade com certa de 30 mil habitantes  tornou-se um centro produtor e de testes de armamentos. 


A neve derreteu em dois dias e a floresta já foi ficando verdinha. Essa área é uma área para acampamentos e essa casinha no fundo é usada por pessoas que vem nos fins de semana. O uso é gratuito.
Meu amigo explicou que, arrependido de uma vida dedicada à destruição, Nobel determinou em testamento que fosse criado o Prêmio Nobel, criando um fundo especial para isso.

Mas deixando a história um pouco de lado, deixa eu explicar o que é uma loppis. Trata-se de uma espécia de loja de usados, que pode ser em um galpão ou mesmo ao ar livre, como um mercado de pulgas. Lá vende-se tudo que já teve um dono. De eletrônicos a antiguidades. Os suecos adoram comprar nas loppis coisas para a casa.


Conjunto de porcelana que eu ganhei, da loppis. Os suecos adoram acender velas durante as refeições. Eu adorei a ideia e estou fazendo isso aqui, também. Quando recebo amigos acendo velinhas e enfeito a mesa com meus candelabros de porcelana 

Eu encontrei lindos conjuntos de cristais e porcelana, praticamente novos. Ganhei duas peças de presente: candelabros de porcelana fofos dados pelo meu amigo Roman, como presente de despedida. E tudo realmente muito barato. Cálices de cristal custando o equivalente a R$5,00. Eu não comprei pois tive medo de que se quebrassem na viagem. Burrice! Poderia ter levado na bagagem de mão. 

No domingo, eu fui para Estocolmo e de lá peguei um avião rumo a Lisboa e comecei a me despedir das minhas férias. Como presente, tive uma noite de neve. Quando amanheceu, a paisagem estava exatamente como eu encontrei. Foram dias maravilhosos que eu espero poder repetir. Agradecimentos especiais  Ricardo, Roman e pequeno Villen pela recepção caloroso no gelado inverno sueco. Também, a Sérgio, Thomas, Karin e Stefan, pela paciência que tiveram comigo.

Partindo para Estocolmo, de onde peguei um voo para Lisboa. Despedida com muita neve!



TRABALHANDO A IGUALDADE DE GÊNERO NA SALA DE AULA


Cartaz feito pelas turmas dos primeiros períodos no EJA, da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado, Leopoldina (MG), dia 10 de março de 2018, sábado letivo dedicado a discutir sobre questões relacionados ao dia Internacional da Mulher.

Atualmente, falar sobre gênero na escola tornou-se um assunto polêmico. Muitas pessoas possuem uma ideia distorcida do que isso significa, tanto pela falta de informação, quando pela circulação de informações incorretas sobre o assunto. Tanto que, atualmente, pesquisadores de estudos de gênero têm sido vítimas de críticas ácidas, e mesmo ofensas físicas e verbais, baseadas em repostas emocionais e preconceituosas.

Quando dizemos que vamos trabalhar a igualdade de gêneros na sala de aula significa, de forma bem resumida, que estamos falando sobre a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. Uma educação voltada para a igualdade de gênero tem por objetivo a construção de uma sociedade livre de preconceitos e discriminações. Basicamente, uma educação que busca lançar as bases para uma sociedade onde se respeite o outro e as diferença.

Em alguns países têm sido realizado um esforço muito grande para se implementar esse tipo de educação, que busca tornar homens e mulheres parceiros na construção de uma sociedade mais justa e menos violenta, baseada no respeito mútuo. Países como a Suécia que, inclusive, declara ter o primeiro governo feminista do mundo. 

Então, não há machismo lá? Não necessariamente. Não se apaga milhares de anos de patriarcado em algumas décadas, mas não significa que não seja possível mudar essa realidade à longo prazo. Na  Suécia as mulheres ainda lutam por coisas como paridade salarial, por exemplo. Mas, desde que a igualdade de gêneros passou a ser uma prioridade na educação, diminuiu-se enormemente a violência e a discriminação contra a mulher, embora ela ainda exista e ainda represente uma mácula numa sociedade que têm buscado outros caminhos. 

Para quem questionar “a Suécia é uma país desenvolvido onde não há índices elevados de analfabetismo ou de pobreza e isso, por si só, é suficiente para se construir uma sociedade mais justa”, segue um dado assustador: na Suíça (não confundam com a Suécia), 22,3% das mulheres já sofreram com violência sexual. Não basta apenas ter acesso à educação e um padrão de vida melhor, é preciso um projeto nacional voltado para a educação de gênero. 

Alunos e professores do EJA, diversos períodos, da E. M. Judith Lintz Guedes Machado, Leopoldina (MG), que participaram de debates sobre a igualdade de gênero.

Pois bem, no dia Internacional da Mulher, eu preparei uma aula para trabalhar justamente este tema, com alunos do ensino regular e do EJA. Falamos sobre a importância de se trabalhar a questão da igualdade entre homens e mulheres e sobre a violência que acomete milhões de mulheres em todo o mundo. No caso do EJA, o debate teve dois momentos . Um envolvendo, inicialmente os alunos do Ensino Fundamental II, no dia 08 de maio, e outro com alunos do ensino fundamental I, no sábado, 10 de maio.

E foi nesse segundo momento que uma aluna, do EJA, levantou a questão: deveríamos falar sobre isso todos os dias e não apenas uma vez ao ano. Ainda completou que temos que falar para mais pessoas, não apenas na escola e não apenas nas aulas de história.

Eu poderia trocar facilmente de lugar com ela, pois naquele momento eu me senti a aluna e não a professora. Foi um momento legítimo de aprendizado escolar e para a vida. E é isso que a escola deveria representar, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Um espaço para refletir, questionar, criticar a sociedade. 

Um lugar para se dar voz a todos. Essa é a escola que vai ajudar a construir uma nação mais justa e que pode criar as bases para uma educação voltada para a igualdade de gêneros, afinal, devemos ser todos parceiros na construção de um mundo melhor. 

Quando se cala a voz de alunos e professores, quando se decide que a escola deve ser uma mero espaço de reprodução de conhecimento,  onde não há diálogo (afinal, o que importa é saber ler, escrever e fazer contas), ela se torna apenas um edifício sem alma. A escola não precisa de paredes e de livros, ela precisa de pessoas dispostas a trocar experiências e a dialogar. Livros são instrumentos para um fim, mas é a forma como são usados e quem os usa que faz a diferença.

No momento atual, pensar um projeto nacional de educação de gêneros talvez não seja viável. Não há interesse político e há muito desconhecimento sobre o tema. Mas podemos tentar reverter o quadro a médio prazo, fazendo justamente o que a aluna do EJA sugeriu: falar para mais pessoas. 

Daí o papel do professor na nossa sociedade: o de levar cada ano, a mais pessoas, o sonho de uma sociedade mais justa. De resistir às tentativas veladas (ou descaradas mesmo) de se calar a voz das escolas, de combater o ódio com o conhecimento. 


quinta-feira, 8 de março de 2018

O DIA INTERNACIONAL DA MULHER E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO

As aventuras de Tintine de Jonathan Muñoz e Chantal Montellier 
(ilustração da foto, ActuaLitté, CC BY SA 2.0)
Nas comemorações pelo dia internacional da Mulher, de 2018,  a organização PEN INTERNATIONAL está publicando um manifesto em favor da liberdade de expressão, da palavra à escrita, através da lendo mulheres. "Sem a plena e livre expressão do conhecimento e da criatividade das mulheres, a humanidade vive em deficiência e aflição".

O primeiro dos princípios fundadores da Carta PEN afirma que "a literatura não conhece fronteiras".  Para muitas mulheres no mundo  a primeira e a última, e talvez a fronteira mais poderosa, era o limiar da casa onde moravam: a casa de suas pais ou marido.

Segundo o documento:
"Para as mulheres terem liberdade de expressão, ler e escrever, elas precisam do direito de caminhar fisicamente, de caminhar socialmente e intelectualmente. São poucos sistemas sociais consideram sem hostilidade uma mulher que anda sozinha ".

O manifesto ainda estabelece os 6 princípios necessários à liberdade de expressão das mulheres: 
1. falta de violência
2. segurança
3. educação
4. igualdade
5. acessibilidade
6. paridade. 

Estes princípios são considerados necessários para a livre expressão das mulheres, em todo o mundo.

O Manifesto das Mulheres foi supervisionado pela autora Jennifer Clement, presidente do PEN INTERNACIONAL, e Margie Orford, do PEN BOARD. Vários autores contribuíram para a redação do Manifesto, incluindo Kamila Shamsie, Gillian Slovo, Gaby Wood, Ellah Allfrey, Nina George, Lisa Appignanesi e Caroline Criado Perez.

Por ocasião da publicação do Manifesto e do Dia Internacional dos Direitos da Mulher, a PEN convida os leitores a compartilharem livros que as tenham tocado, escritos por mulheres, nas mídias sociais usando o shashtags  #ReadWomen ou #ReadWomen.

* Texto adaptado do artigo "Auteurs et autrices s'engagent pour la liberté d'expression des femmes", de Antoine Oury, originalmente em francês, que pode ser lido na íntegra, clicando aqui!

domingo, 4 de março de 2018

PASSANDO O FIM DE SEMANA EM ESTOCOLMO

Vista dos fundos do Nordiska Museet, com céu azul e muita neve. Minha foto preferida!
Em 2017, eu passei um fim de semana sozinha em Estocolmo. Na época, eu não fui especificamente para passear, embora até tenha feito contato com algumas pessoas na esperança de ter companhia para conhecer alguns lugares. Não consegui ajuda de brasileiros, infelizmente, mas os suecos me fizeram companhia. Eu tinha interesses profissionais, também. Marquei para me encontrar com várias pessoas, entre editores, pesquisadores e quadrinistas pois eu desejava conhecer mais sobre os quadrinhos suecos. 

O meu interesse pelos quadrinhos suecos surgiu após um amigo, que mora lá há vários anos, me trazer algumas revistas. Eu pedi a ele, por curiosidade, e ele gentilmente me presenteou com três revistas. Eu até queria pagar, mas ele não aceitou. Não vou reclamar, né! Comecei a ler e pesquisar sobre personagens e autores, dentro das minhas limitações e agradecendo muito ao google tradutor. Quem segue o blog sabe que eu postei vários textos ao longo de 2017 sobre quadrinhos suecos. Cheguei mesmo a escrever um texto para um dos encontros da ASPAS, que vai sair ainda este ano, na forma de livro. Aguardem!
Matei minha vontade de ver neve!

Essa primeira viagem durou apenas um fim de semana e bem enxuto e sobrou pouco tempo para passear. Quando se viaja de avião perde-se quase um dia, só em aeroportos.  A gente precisa chegar umas duas horas antes do horário do embarque. Sério, tem que ser mesmo, porque até passar pelos guardas, ter sua bagagem de mão verificada, atravessar o duty free, que cada ano parece que fica maior, quase não sobra tempo nem para ir ao banheiro antes de embarcar. 

Daí, se você tem bagagem de porão ainda tem que esperar a bagagem sair e rezar para que ela esteja inteira. Para o meu azar, quebraram novamente minha mala. Pela segunda vez, em Estocolmo, fiquei sem minhas "rodinhas". E lá fui eu, arrastando mala pela calçada. Mas desta vez fui esperta e consegui uma nova! Quando sua mala é danificada você pode registrar queixa no aeroporto e recebe uma nova em casa. No meu caso, recebi uma em Portugal, antes de voltar para o Brasil.

Dependendo da hora que você consegue chegar  no hotel, praticamente não dá pra fazer muita coisa além de jantar de dar um rápido passeio, se estiver localizada próximo a algum local turístico. Por isso, minha curta viagem de quatro dias em 2017 rendeu apenas uma tarde de lazer, praticamente. Mas, fiz contatos e reforcei amizades. Isso foi o mais importante.

Cisnes nadando na água congelante do canal, em Estocolmo. Lindos! 
Para este ano, eu retornei à Estocolmo, pelo mesmo período, mas com o compromisso de aproveitar o tempo apenas para passear. E eu tinha uma programação bem amarradinha. Museus, monumentos e até ópera! E não estava sozinha. 

Meu amigo Ricardo, que é brasileiro e mora na cidade de Örebro, foi encontrar comigo em Estocolmo e passamos o sábado e o domingo todo passeando pela cidade.  Não vimos tudo, claro, mas fomos aos pontos turísticos mais badalados. Ele mora na Suécia há cinco anos mas tem pouco tempo para fazer turismo por conta de trabalho e estudo. Assim, nós dois aproveitamos para conhecer um pouco mais da capital sueca. 

Pátio do Palácio Real de Estocolmo onde acontece a cerimônia da troca da guarda, sábado ao meio dia.
Pra começar, eu matei minha vontade de ver a neve! Pois é, ano passado eu reclamei muito, porque fui para a Suécia com a esperança de poder sapatear na neve. Achei foi muito barro. Este ano tive neve quase todos os dias. E resisti bravamente à vontade de me atirar e rolar na neve como uma criança (e me arrependo disso).

Ficamos hospedados em um hotel no centro da cidade. Simples, mas confortável, e com um ótimo café da manhã. Não esqueço dos biscoitos caseiros amanteigados, deliciosos. Pães variados, geleias, queijos, etc. O que eu não gostei foi do banheiro compartilhado. Mas como seriam apenas 2 dias, praticamente, deu para levar. 

A guarda do Palácio Real marchando para o pátio, onde aconteceu a troca de guarda.
Cheguei na sexta a noite e Ricardo no sábado pela manhã. Assim que ele guardou sua bagagem, nós tomamos café e começamos nosso passeio. A primeira parada foi o Stockholms Medeltidsmuseum (Museu Medieval de Estocolmo), que eu já conhecia mas quis visitar novamente. Na segunda visita aproveitei para olhar melhor algumas peças em exibição. 

Lá pelo meio dia estávamos passando pelo Palácio Real quando fomos brindados com a troca da guarda. Um espetáculo disputadíssimo, com cerimonial e tudo mais. O pátio do palácio estava lotado. Não chegamos a ver tudo, mas pegamos parte da marcha. Muito bonito. A guarda real veste um uniforme que lembra o uniforme de marinheiro. 


Entrada do edifício da Ópera
Real Sueca.
Em seguida fomos ao Royal Armory Museum, que fica embaixo do Palácio Real. Lá estão expostos carruagens, roupas de época, armaduras e espadas. Há também belíssimas pinturas e outros objetos de uso da nobreza. Tudo isso num ambiente de meia luz que combina com o local mas que, infelizmente não é bom pra fotografia. As que eu tirei ficaram um pouco embaçadas, desvantagem de não poder usar o flash. 

Encerrado o passeio da manhã, fomos almoçar. Ricardo me levou a um restaurante dinamarquês chamado Jensens Böfhus. É uma franquia. Eu achei um charme. Tomamos uma cerveja e comemos uma das especialidades do restaurante: carne grelhada com batatas rústicas, acompanhadas de um molho delicioso.

Mas não podíamos demorar muito porque a atração principal do dia iria começar às 14h30min. Nós tínhamos entrada para a ópera. E não era uma ópera qualquer: a estreia da peça Tosca, de Puccini, na Ópera Real Sueca. Presente do Ricardo! Um presentão, por sinal.

Estátua de Odin, no Nordiska Mussert.
Eu adorei! A Ópera Real Sueca é linda, coisa de outro mundo. O edifício é majestoso, com bares e restaurante para atender ao público antes e durante o espetáculo, nos intervalos, claro. E o atendimento que recebemos foi o melhor possível. Atrasamos um pouquinho e fomos orientados por uma das funcionárias que só faltou nos pegar pela mão e nos conduzir aos nossos lugares, de tão gentil. A peça têm três atos, então a cada intervalo nós saíamos para tomar um vinho ou uma água. Havia pessoas de todos os tipos, das mais elegantes às mais simples. A orquestra era fantástica. Era proibido tirar fotos durante a apresentação, e as pessoas respeitavam.

No domingo, nosso programa foi ir aos grandes museus. E caminhando! Pois é, não tinha como engordar nas férias, eu queimava energia o dia todo. Mas não era sacrifício algum. Passamos por lugares incríveis que não teríamos apreciado se fossemos de ônibus ou de metrô, como pequenas e charmosas praças, cobertas pela neve que havia caído a noite.

Nós visitamos três museus, cada um com um estilo diferente. O primeiro foi o museu Nordiska Museet (Museu Nórdico), um museu dedicado a história do povo sueco e à sua cultura desde finais da Idade Média (1520) até à época contemporânea. O prédio em si é magnifico. Logo na entrada o visitante se depara com uma estátua gigante de Odin. 


Musset Vasa, onde fica o navio de guerra Vasa, que naufragou há mais de 300 anos, saindo do porto de Estocolmo.

Eu amei, especialmente porque é um espaço reservado à valorização da identidade nacional. Um museu monumental onde a atração são utensílio domésticos, roupas, as tradições, o folclore, enfim, tudo aquilo que caracteriza a cultura popular. Um museu onde o moderno e o tradicional se misturam. 


Naquele fim de semana de janeiro, por exemplo, havia uma exposição de luminárias e outra sobre a história da moda na Suécia. O museu é dedicado às pessoas comuns, que viveram e vivem na Suécia. Mostra como eram as festas, os almoços, as formas de lazer e de religiosidade do povo sueco. Achei fantástica a valorização do patrimônio cultural, coisa rara e bonita de se ver.

E bem ao lado do Nordiska Museet, está o  Vasa Museet, criado para abrigar o Vasa, o único navio de guerra do século XVII existente no mundo, que naufragou na sua primeira viagem. Aliás, ele nem foi muito longe: naufragou enquanto navegava em direção à entrada do porto, em 10 de Agosto de 1628. Passados 333 anos o Vasa foi retirado do fundo do mar e passou a ser uma das atrações mais visitadas na Suécia. O museu ainda possui nove exposições relacionadas com o navio, e um restaurante.  

É surreal! Não dá nem pra tirar uma foto inteira do navio, de tão grande que ele é. E ele afundou porque a estrutura não suportou o peso do navio. Ele tinha mais canhões e mais ornamentos do que os navios de guerra comuns. Ou seja, ficou muito pesado (120 toneladas), não conseguiu manter o equilíbrio e virou.

O museu conta a história do navio, da navegação no século XVII e reserva um espaço especial para falar da tripulação. Há, inclusive, uma exposição sobre as mulheres que trabalhavam no navio, assim como a reconstituição do rosto de tripulantes que morreram no naufrágio, feita a partir de seus restos mortais.
Pedacinho da exposição de peças feitas de ouro do Historiska Musset.
Por fim, encerramos o dia de passeio indo ao Historiska Museet (Museu Histórico) de Estocolmo. É um museu voltado para à exposição de artefatos arqueológicos focados na história cultural da Suécia, abrangendo da Pré-história à Idade Média, com destaque para a Era Viking Idade Média do país.

Eu gosto de arqueologia por isso o que eu mais gostei foi da exposição de objetos de metal, principalmente da exposição de peça feitas de ouro. Rústicas e ao mesmo tempo delicadas. Também havia um grande exposição focada na religião e na religiosidade nórdica, no catolicismo medieval. 
Eu e meu amigo Ricardo, ao fundo o Nordiska Musset. Saudades!
Algumas pessoas me disseram, suecos inclusive, que na Suécia as pessoas não são muito religiosas. No entanto, o que eu mais vi foram exposições que mostram artefatos religiosos. Achei curioso como tradições religiosas se tornaram presentes na vida dos suecos sem necessariamente representarem uma questão de fé.

Cumpridos todos os compromissos e feitos todos os passeios programados, partimos de trem para Örebro, onde passei uma semana na casa do Ricardo. Acharam que eu ia ficar só três dias na Suécia? E perder toda aquela neve? JAMAIS!




sexta-feira, 2 de março de 2018

PASSANDO O DIA EM BRUGES

Chegando a Bruges, num dia frio e nublado, mas nem por isso menos encantador. 
No meu segundo dia na Bélgica eu fui conhecer Bruges. Gostei tanto da cidade que decidi fazer uma postagem apenas sobre ela. Visitar Bruges foi uma experiência diferente da que eu tive em Bruxelas.  Bruges foi um daqueles passeios de um dia. Passamos o sábado na cidade, andamos pelas ruas, navegamos pelos canais, enfim, aproveitamos cada momento. De Bruxelas para Bruges é uma viagem rápida, que não chega a uma hora. 

Fomos de TGV, com todo o conforto, e ainda pegamos uma promoção. Para incentivar o turismo nos fins de semana, a passagem cai para a metade do preço. Se não me engano, pagamos €15,00 na passagem de ida e volta. Ou seja, um passeio bom, bonito e barato.


Com um conjunto arquitetônico harmonioso, andar pelas ruas estreitas de Bruges é uma viagem no tempo e brinca com a imaginação dos visitantes.
Para quem não conhece, Bruges é uma charmosa cidade belga, capital da província de Flandres Ocidental. Quando você entra na cidade fica com a sensação de que está voltando no tempo e indo parar em algum lugar entre a Baixa Idade Média e a Idade Moderna. E é justamente assim que a cidade deseja que seus visitantes se sintam.

Bruges foi totalmente repaginada por volta de 1870 para passar ainda mais essa impressão aos turistas. No final da Idade Média e Início da Idade Moderna, Bruges foi capital do comércio da Europa, mas no início do século XIX a cidade havia empobrecido. Em busca de uma solução para recuperar a economia local, o Conselho de Bruges decidiu contratar o arquiteto Louis Delacenserie (1838-1909) para dar um toque medieval nas construções da cidade.   

Passear pelos canais de Bruges é obrigatório. O turista tem uma outra perspectiva da cidade a partir dos canais.
Bruges é chamada de "Veneza do Norte", por causa de seus inúmeros canais. E, é claro, apesar do frio, nós fizemos um passeio de barco pelos canais. Aliás, um passeio delicioso e muito agradável. Sinceramente, nem deu para sentir frio, e olhe que aquele foi um dos dias mais gelados que pegamos na Bélgica. O passeio não é caro e dura cerca de uns 20 minutos. 

No barco o guia conta um pouco da história da cidade e de como ela foi restaurada justamente para se tornar mais atrativa para os turistas. Passamos por baixo das pontes que atravessam os canais e tivemos uma outra visão da cidade, por sinal a mais bonita. Vimos os jardins das casas, patos e cisnes nadando despreocupadamente.

Almoço delicioso: peixe, croquetes e salada.
Não posso esquecer de falar sobre a culinária local: uma delícia! Para começar, nós provamos o melhor  waffle  da Bélgica, que segundo o guia que nós consultamos é o do Ice Bar Oyya, que fica em uma rua comercial no centro da cidade. E é realmente delicioso. Feito ali, na hora. 

Eu pedi o mais simples, para sentir o sabor da massa, mas as opções são variadas: waffle com sorvete, com calda de chocolate,  com chantilly e morangos, etc. Tem para todos os gostos. A Bélgica é a terra do waffle, portanto, uma vez lá oportunidades para experimentar a iguaria não faltam. Waffle, batata frita, chocolate e cerveja: a Bélgica não é um país indicado para quem pretende fazer dieta.

E não posso deixar de lado o almoço, claro! Comemos em um restaurante charmoso, com uma linda lareira e um cardápio variado. Eu pedi o menu do dia. Nele estava incluso uma entrada, um o prato principal e o café. Enquanto a comida não chegava eu me distraí com uma taça de vinho branco, que veio acompanhada de uma porção de amendoins. 


Restaurantes da Grote Markt ao anoitecer - o conjunto arquitetônico do centro histórico da cidade  de Bruges foi declarado como patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO, desde o ano 2000.
Apesar do atendimento estar, aparentemente, nas mãos de apenas dois garçons e uma garçonete, tudo foi servido com muita rapidez. A entrada foi uma deliciosa sopa de tomates. A melhor que eu já provei até hoje. O prato principal foi peixe, salada e uns croquetes deliciosos, acompanhados de um molho de maionese muito saboroso. Pães e manteiga foram cortesia da casa.  Tudo super combinando com o ambiente. Uma das melhores refeições que eu comi durante meus 33 dias de viagem.


Eu me senti no carnaval
de Veneza.
Terminamos o dia no Grote Markt, o coração da cidade. Lá acontecem vários eventos como apresentação de orquestras e feiras. Desde 958, ela é o centro da vida em Bruges, com muitos restaurantes, cafés e lojas. No dia que fomos lá haviam alguns atores, vestidos com roupas medievais, no estilo do carnaval de Veneza. Foi super interessante.   

No Grote Markt localiza-se o Campanário de Bruges, o Belfort, uma torre de 83 metros de altura com uma torre que permite ao turista uma visão privilegiada da cidade. Meus amigos até tentaram, mas como chegamos na Grote Markt já perto do anoitecer, não foi possível, pelo menos não desta vez. Lá também está  a Corte da Província, onde está acontecendo uma exposição sobre a Idade Média em Bruges. Eu não subi na torre. 

Para encerrar minhas postagens sobre a Bélgica, eu não posso deixar de falar da boa impressão que o país me deixou. As pessoas, de uma forma geral, são receptivas e educadas. Há também uma grande diversidade  de rostos e de nacionalidades onde quer que se vá. 

De fato, uma das coisas que eu mais reparei desta vez é como a Europa está se tornando um mosaico étnico. Lembrei-me até de uma frase que uma colega disse certa vez "O Sul está invadindo o Norte". E é verdade! Descendentes de povos colonizados pelos europeus estão se tonando cada vez mais presentes no continente. Talvez não seja exagero afirmar que o colonizador está sendo colonizado.

quinta-feira, 1 de março de 2018

CONCURSO LITERÁRIO DA ACADEMIA LEOPOLDINENSE DE LETRAS - 2018


A Academia Leopoldinense de Letras e Artes está promovendo seu V Concurso Literário. As começam em julho e o regulamento do concurso pode ser acessado clicando aqui!