segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A civilização Chachapoya e o culto aos mortos

Nas férias a gente faz (graças a Deus) o que não consegue durante o ano. Ontem eu vi um programa da National Geographic que adorei. Foi a Série Enigmas da História, com duas partes. A segunda que me interessou mais. Falou (e mostrou) uma série de múmias, de mais de 600 anos, que foram encontradas nas remotas regiões montanhosas do Peru. 

Eles pertenciam a uma civilização chamada de Chachapoya, conhecida como povo do céu, que era desconhecida até a descoberta de uma antiga cidade no topo da montanha. As investigações arqueológicas poderiam revelar que este povo antigo acreditava que as múmias eram mortos-vivos. Os chachapoyas eram temidos pelos Incas e por outros povos e tratavam seus mortos de uma forma peculiar. Eu particularmente adoro história pré-colombiana. Não é uma área de pesquisa, está mais para um hobby, ler textos e assistir programas sobre o assunto.


História pré-colombiana é riquíssima, é a nossa história antiga. Temos pirâmides, múmias, cidades perdidas, lendas de tesouros maravilhosos. Se você para para pensar, é todo um mundo de mistérios que intriga pesquisadores e encanta as pessoas. Adoro!

Sempre rola um pouco de especulação, é claro, mas isso é mais do que natural, principalmente quando se estuda o passado. Muitas vezes é apenas especulações que temos para começar a pesquisar e montar hipóteses e teorias. Mas quanto mais misterioso, maior a curiosidade e mais desafiadora é a tarefa de tentar dar uma resposta a perguntas que estão aí nos desafiando há dezenas ou mesmo centenas de anos

Mas então, um conhecimento novo é um conhecimento que pode trazer novas experiências. Eu assisti ao programa e corri hoje para buscar informações sobre os chachapoya. Esse povo é, inclusive citado no primeiro filme de Indiana Jones, Caçadores da Arca Perdida. Lá no começo (lembra da cena da caverna) ele está atrás de uma relíquia Chachapoya.

Mapa usando por Indiana Jones no filme para encontra o templo chachapoya
Fonte: http://www.pinterest.com/pin/171840542005497626/


Lembram desta cena? 
Indiana Jones "roubando" um ídolo Chachapoya.
Fonte: http://www.indyintheclassroom.com/projects/archaeology/raiders.asp

Lógico, o que se fala desse povo no filme não pode ser levado muito a sério, assim como o mapa acima não representa exatamente a região habitada pelos Chachapoyas, também chamados de povo das nuvens e do céu, habitando, portanto, as regiões elevadas dos Andes. Vale lembrar, que em uma das cenas, o protagonista é perseguindo por remanescentes dos Chachapoyas, coisa meio difícil de acontecer, já que a civilização praticamente desapareceu.


Mapa mostra a região do nordeste andino peruano, habitada pelos chachapoyas.
Fonte: 
http://atwabrasil.com/wp-content/uploads/2010/12/1.jpg


Bom, o que eu aprendi sobre os Chachapoyas nessa manhã é que os Chachapoyas reinavam sobre grande parte da Amazônia Alta, na bacia do rio Marañon. Eles tinham uma cultura muito avançada, originada mais de 2.000 anos antes de serem derrotados pelos Incas.  Eram conhecidos como os “guerreiros das nuvens”, pois, além de serem grandes combatentes viviam num ambiente onde as neblinas são frequentes, floresta da nevoas, como é característico da Amazônia Andina alta (1).

O nome Chachapoya foi dado pelos incas e até o momento é como a civilização é conhecida. A forma como eles se autodenominavam é desconhecida. Esse nome também batiza uma cidade uma cidade peruana (2).  Os Chachapoyas foram descritos pelo cronista espanhol Pedro Cieza de León:

Eles são os mais brancos e os mais lindos de todos os povos que eu já vi. Suas mulheres são tão bonitas que, por causa da sua beleza, tornam-se esposas dos incas e são levadas para o Templo do Sol. (3)


Já se encontraram muitos sítios arqueológicos Chachapoyas. Os mais conhecidos são a fortaleza (cidadela) de Kuélap, em Amazonas e a cidade do Gran Pajaten, dentro do Parque Nacional Abiseo, em San Martín. 

A cidade que mais visitada e de melhor acesso é Kuélap, situada sobre um morro isolado a 3.000 metros de altitude dominando o vale do rio Utcubamba. Kuélap foi construída provavelmente no século VIII para defender a região contra o império Wari, que se expandiu antes que o Inca. 

Assim como Macchu Picchu, a cidadela foi descoberta apenas recentemente, estando escondida em uma das áreas mais distantes da Amazônia. Ela se encontra na borda de um abismo que a tribo pode ter utilizado como um mirante para espionar inimigos


Vista panorâmica da cidade perdida de Kuélap

A cidade está bem conservada. Estende-se sobre cerca de 600 metros de comprimento e dispõe de três plataformas superpostas que suportam uns 400 recintos. Suas muralhas externas chegam a 20 m de altura e tem apenas três entradas muito estreitas para facilitar a defesa. Uma delas tem paredões que se elevam a 10 metros de cada lado (4). Uma verdadeira fortaleza.



Ruínas de Kuélap
Fonte: http://www.oeco.org.br/marc-dourojeanni/27071-chachapoyas-a-heranca-dos-guerreiros-das-nuvens

As casas são todas redondas, dotadas de silos, pedras para moenda de grãos e fogões. Muitas ostentam decorações feitas com o mesmo tipo de pedra com que foram construídas. Uma caraterística especial da cultura dos Chachapoyas são as máscaras funerárias e o costume de instalar os restos funerários em cavidades nas paredes quase verticais de montanhas.

Essas casinhas coloridas, construídas nas encostas das montanhas, eram mausoléus onde os mortos era sepultados.
Fonte: http://filosofiaimortal.blogspot.com.br/2012/02/os-chachapoyas-guerreiros-das-nuvens.html

Esse, justamente, foi o tema do documentário que eu assisti, um estudo sobre a morte e os rituais fúnebres dos Chachapoyas. Pelo que tudo indica  esse povo acreditava na imortalidade. Para eles se vivia na morte, por isso mantinham os corpos perto de si (muitos emparedados em casas), faziam sarcófagos requintados e mumificavam os corpos. 

Embora muitas culturas antigas tenham na morte um tabu, a forma como os mortos são tratados diz muito de como a sociedade se organiza e os valores que defende.

Um pressuposto teórico fundamental desse artigo assume que, para o ser humano, o ato de morrer, além de um fenômeno biológico natural, contém intrinsecamente uma dimensão simbólica, relacionada tanto à psicologia como às ciências sociais. Enquanto tal, a morte apresenta-se como um fenômeno impregnado de valores e significados dependentes do contexto sociocultural e histórico em que se manifesta (5 ).

Foram descobertos, até 2010, setenta e nove sepulturas humanas na fortaleza de Kuélap, entre 300 e 350 indivíduos enterrados, o que leva confirmar a importância da hierarquia religiosa de Chachapoyas antiga. Segundo o pesquisador Alfredo Narvaez, gerente de projeto restauração e conservação do local, a cidade era muito mais do que uma fortaleza, era um lugar sagrado, um centro religioso de grande importância (6).


Uma das coisas que eu achei mais interessante: essas estátuas são, na verdade, sarcófagos (tem um corpo aí dentro). Como se os mortos estivessem vigiando, protegendo os vivos.
Fonte: http://nadanoslibradeescorpio.blogspot.com.br/2012/10/cultura-chachapoyas-los-hombres-de-la.html

O escritor e arqueólogo Federico Kauffmann, em uma expedição realizada no ano de 1984, em uma gruta, sarcófagos verticais, construídos pelos Chachapoyas (7). Toda essa preocupação com os mortos, com a vida após a morte, fez com que eu me lembrasse dos antigos egípcios. Acho que não tem como não fazer uma comparação. Assim como o antigo povo africano, eles davam uma atenção especial aos mortos. 

Não que a representação da morte feira pelos Chachapoyas seja bonita (pelo menos para o olhar contemporâneo). Suas múmias são bem conservadas mas assustadoras. Eu acho múmias artefatos culturais bonitos, a seu modo. Elas, geralmente, têm uma expressão serena. Se esteticamente não são belas, passam uma ideia de eternidade que não é espiritual mas sim, material.

Mas as múmias Chachapoyas são bem bizarras, assustadoras até. No documentário foram mostradas dezenas delas, em posições estranhas, que sugerem sofrimento, em contraste com a ideia que prevalece em muitas religiões da morte como alívio para o sofrimento. Isso contrasta com a forma como a morte e o morto são significativos para essa sociedade.

Múmia Chachapoya: assustadora, não é? Parece que a morte veio em  agonia.
Fonte: http://claudiotatu.blogspot.com.br/2012/12/os-guerreiros-das-nuvens.html

Para os Chachapoyas, os mortos eram tratados com os mesmos privilégios que mereciam os vivos, às vezes, até mais, dizem os pesquisadores. Eram abrigados em casas de até dois andares. Tudo para proteger os corpos e as múmias da chuva e principalmente dos inimigos (8) . Nos muros de fortalezas e nas paredes das casas os pesquisadores encontraram ossos de pessoas. O mistério é justamente saber quem eram essas pessoas. Muitas perguntas e pouquíssimas respostas. Um desafio para gerações e mais gerações de pesquisadores. 

Os Incas foram um povo conquistador que em 100 anos dominou quase toda a região da cordilheira dos Andes. Os chachapoyas eram um povo antigo e muito temido e era esse medo que mantinha muitos dos seus inimigos afastados. Quando os Incas, em sua expansão, perderam o medo, os Chachapoyas foram massacrados e tiveram que servir ao Império Inca. No século XVI, os Chachapoyas uniram-se aos espanhóis para lutar contra a dominação Inca. No final, acabaram morrendo por conta das doenças trazidas pelos espanhóis (o que também, causou a morte de uma grande parcela do povo Inca).

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(1) DOUROJEANNI, Marci. Chachapoyas, a herança dos guerreiros das nuvens (2013). Disponível em, http://www.oeco.org.br/marc-dourojeanni/27071-chachapoyas-a-heranca-dos-guerreiros-das-nuvens, acesso em 23/12/2013. 

(2) Os Chachapoyas - Guerreiros das nuvens. Disponível em, http://forum.jogos.uol.com.br/_t_1983439acesso em 23/12/2013.

(3) Os Guerreiros das Nuvens. Dispónível em: http://claudiotatu.blogspot.com.br/2012/12/os-guerreiros-das-nuvens.html,  acesso em 23/12/2013. 

(4) DOUROJEANNI, Marci. Chachapoyas, a herança dos guerreiros das nuvens (2013). Disponível em, http://www.oeco.org.br/marc-dourojeanni/27071-chachapoyas-a-heranca-dos-guerreiros-das-nuvens, acesso em 23/12/2013. 

(5) COMBINATO, Denise Stefanoni, QUEIROZ, Marcos de Souza. Morte: uma visão psicossocial. Estudos de Psicologia 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/epsic/v11n2/a10v11n2.pdfacesso em 23/12/2013.

(6) Especialistas trabajan en mantenimiento de fortaleza de Kuélap. Disponível em: http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/2010/04/especialistas-trabajan-en-mantenimiento.html, acesso em em 23/12/2013.

 (7) Cultura Chachapoya: los hombres de la niela. Disponível em: http://nadanoslibradeescorpio.blogspot.com.br/2012/10/cultura-chachapoyas-los-hombres-de-la.html,  acesso em 23/12/2013. 

(8) Cidade dos mortos é herança do povo chachapoya. Disponível em: http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MUL1169076-16020,00-CIDADE+DOS+MORTOS+E+HERANCA+DO+POVO+CHACHAPOYA.htmlacesso em 23/12/2013.





domingo, 15 de dezembro de 2013

RAZÃO HISTÓRICA. TEORIA DA HISTÓRIA: OS FUNDAMENTOS DA CIÊNCIA HISTÓRICA

Foi o primeiro trabalho que eu fiz para o professor Falcon, este ano. Gostei muito do livro. Na verdade, a leitura dos livros que ele indicou durante o semestre, somados às aulas, me ajudou muito na parte de teoria da história. Espero que os meus resumos possam ajudar outras pessoas, também.




LA HISTÓRIA SOCIAL Y LOS HISTORIADORES RESUMO DA OBRA DE JULIÁN CASANOVA

O Pasquim e o papel do humor na resistência contra a Ditadura Militar

Para a disciplina Resistência Política e Cultural na Ditadura Militar Brasileira, ministrada pela Professora Dra. Angélica Müller, eu fiz um artigo sobre o Pasquim. Foi divertido poder mergulhar no mundo do humor de resistência, representado por esse periódico e vários outros, durante os anos de chumbo.É um texto simples e que eu encarei como um exercício que me rendeu um conhecimento extra. Eu me inscrevi na matéria sobre ditadura militar justamente pela necessidade pessoal de saber mais sobre o tema, que foi pouco explorado na faculdade (quando eu fiz, há duas décadas atrás). 

sábado, 14 de dezembro de 2013

SOBRE AS MULHERES REVOLUCIONÁRIAS EUROPEIAS

Natania A. da Silva Nogueira*

Et nous aussi, nous sommes citoyennes
(Sta. Jodin, 1790)

As mulheres estiveram presentes em muitos dos movimentos que ajudaram a moldar a sociedade ocidental, mas nem sempre sua presença e sua participação ativa receberam o devido reconhecimento. Tanto na historiografia quanto nos registros documentais, elas foram em muitos momentos ocultadas. Legalmente quase não existiam, uma vez que a elas eram negados os mesmos direitos que os homens.
Econômica, a história ignora a mulher improdutiva. Social, ela privilegia as classes e negligencia os sexos. Cultural ou “mental”, ela fala do Homem em geral, que não tem mais sexos do que a Humanidade. Célebres – devotas ou escandalosas – as mulheres alimenta as crônicas da “pequena” história, boas apenas para a revistas História (PERROT, 2005: 197).
Durante muito tempo as vozes das mulheres foram silenciadas pela história e essa mesma história, na atualidade, procura por essas vozes perdidas, resgatando a memória de mulheres que foram, também, sujeitos históricos ativos. A França e a Inglaterra nos oferecem bons exemplos de participação feminina em movimentos reivindicatórios de pequena ou grande amplitude. Nesses dois países mulheres de grupos sociais distintos tiveram papel significativo na vida social e política.
Na França do século XVI, por época da Reforma Protestante, quase todas as mulheres tomavam parte da vida econômica da cidade. Elas trabalham e muito. Das esposas dos artesãos às mulheres mais pobres, uma grande parte delas ajudava no sustento de seus lares. Elas estavam nas ruas, vendo, ouvindo, absorvendo informações. Elas tinham consciência das mudanças que ocorriam ao seu redor e não passavam por elas sem sentir seu efeito. Mas o fato de serem membros produtivos da sociedade ou mesmo viúvas ricas não lhes conferia participação alguma na vida política.
A vida pública das mulheres urbanas não se estendia, entretanto, às assembléias cívicas ou aos conselhos. Mulheres que chefiavam unidades domésticas aparecem em listas de impostos e até nos registros militares, e esperava-se delas que contribuíssem com dinheiro ou com homens conforme a demanda do governo municipal.  Mas essa era a extensão da participação política da citoyenne. (DAVIS, 1990: 68).
Se oficialmente, sua participação não era permitida, ela acontecia de outras formas. As mulheres de famílias de posses eram, em geral, aquelas que tinham acesso a algum tipo de instrução. Elas eram encorajadas a ler e escrever pelas suas famílias como uma forma de promover uma maior distinção. A mulher educada era apreciada pela sociedade e animava os encontros sociais. Serão elas, também, que irão se destacar na organização de salões literários importantes, tanto em Paris quanto em Lion (DAVIS, 1990: 68), citando alguns centros importantes da França naquele período. 
Já as esposas e filhas de artesãos não tinham acesso ao ensino e poucas entre elas sabiam ler e escrever. Essas eram qualidades dispensáveis no dia a dia, marcado pelo trabalho duro e exaustivo. Distantes do mundo letrado, elas aprendem com o que ouvem nas ruas, e se colocam a par dos acontecimentos da cidade. Elas também serão vítimas dos massacres e perseguições desencadeadas pela reforma. São elas, tanto mulheres de elite quanto do povo que irão ajudar a conversão de muitos católicos ao protestantismo.
Aqueles que desejavam enfraquecer o movimento reformista, afirmavam que as mulheres convertidas eram de vontade fraca e intelecto débil (DAVIS, 1990: 63). Mas mesmo todo o discurso limitador acerca do papel da mulher na esfera pública e privada não é suficiente para esconder o fato de que, já no século XVI, e possivelmente bem antes, muitas mulheres se atreviam a participar mais ativamente dos movimentos socais, independente ao grupo a que pertencia.
Nancy Roelker vê as nobres huguenotes como esposas e viúvas já bastante independentes, que encontram na causa da Reforma um modo de ampliar sua atividade (convertendo seus parentes, protegendo os pastores, oferecendo dinheiro e conselhos para os líderes masculinos e assim por diante), conservando, ao mesmo tempo, sua identidade feminina (DAVIS, 1990: 64).
Entre as mulheres católicas havia aquelas que sabiam ler e participavam de confrarias. Muitas eram estimuladas pela literatura devocional a promover especulações teologias, o que muitas vezes costuma ser desqualificado pelos pregadores. As mulheres católicas queriam fugir ao silencio imposto pelos padres. Havia já naquela época as que desejavam o mesmo direto dos homens de pregar para a comunidade. Muitas delas encontraram no protestantismo uma forma de se libertar do controle dos padres, de terem acesso aos textos religiosos, sem as limitações antes impostas. Essas mulheres são revolucionarias de seu tempo, muitas delas vítimas das violências deflagradas aos hunguenotes durante o tempo que durou a reforma religiosa na França.
Se por um lado temos as mulheres que lutam por maior liberdade religiosa, por outro o catolicismo encontra em Catarina de Médicis um defensora implacável. Ela dá início a uma série de acontecimentos que resultam no assassinato de líderes protestantes, no episódio que ficou conhecido com "A Noite de São Bartolomeu", em 1572.
Já na Inglaterra, nos séculos XVIII e do século XIX, em plena revolução industrial, as mulheres aparecem nos motins de fome, em muitos momentos liderando a turba raivosa, reivindicando preços mais justos para a farinha, protestando contra as autoridades, comerciantes e moleiros. Entre os anos de 1790 e 1810 foram identificados 240 motins de fome, desses 35 foram predominantemente femininos e em 42 deles homens e mulheres caminharam lado a lado. Em 82 casos, os manifestantes foram classificados como de gênero desconhecido (THOMPSON, 1998: 237).
A presença e até mesmo liderança das mulheres nos motins de fome, pelo menos inicialmente, demonstram sua importância na economia familiar, e na economia local de uma forma geral. Os eventos nos apresentam uma mulher que não aparece nos livros e nos relatos oficiais: autoconfiante e portadora de autoridade, uma mulher que é seguida pelos homens e não o contrário.
Segundo Thompson (1998: 248), as mulheres eram frequentemente formadoras de opinião na comunidade onde viviam, com suas famílias, e eram elas que davam início a ações como os protestos. Essas mulheres possuíam um papel ativo nos movimentos, embora isso não signifique que as diferenças de gênero tenham sido esquecidas. No entanto, a sobrevivência da família muitas vezes dependia da ação das mulheres. Elas gerenciam o lar e, em alguns casos, são as provedoras. São elas que buscam estratégias e soluções para contornar a penúria e a fome. Não é de admirar que tenham sido elas as primeiras a liderarem manifestações como motins de fome, seguidas pelos homens e por seus filhos.
Na França pré-revolucionária do século XVIII nem mesmo as ideias da ilustração foram capazes de oferecer às mulheres direitos iguais aos dos homens. Principalmente entre aquelas que pertenciam a grupos socialmente ou economicamente privilegiados a vida pública era negada e poucos eram os momentos em que lhe era permitido interagir com os homens. Sua formação era voltada para o casamento, sua educação era mínima não havendo, nesse sentido grandes mudanças entre o século XVI e o século XVIII.
Desde os primeiros anos de vida, as meninas recebiam ensinamento que visavam a assumir o papel ao qual sua natureza reservara. A educação das mulheres tinha como objetivo o casamento ou a vida religiosa. A educação religiosa tinha o objetivo de preparar para a função religiosa ou preparar as meninas para o casamento, cujo destino seria cuidar do marido, responsabilizar-se pela administração da casa e educação dos filhos. (SCHMIDT, 2012: 08)
O espaço público pertencia ao homem, enquanto que a mulher deveria ser relegada ao espaço privado. Segundo Bourdieu (2010: 41), dentro da lógica da dominação masculina, cabia ao homem, no espaço público, realizar todos os atos espetaculares, que exigissem riscos e bravura, ações onde pudesse fazer valer suas habilidades e força física superiores. À mulhere, relegada ao espaço privado, atribuía-se os trabalhos domésticos, privados, invisíveis e vergonhosos, sujos monótonos e mais humildes.
Mas na França do século XVIII, as mulheres fizeram muito mais do que isso. Antes da eclosão da Revolução de 1789 elas se fazem presentes no movimento ilustrado como tema dos debates políticos ou mesmo sendo suas incentivadoras. Nesse período desenvolveram-se na França duas correntes de pensamento acerca do papel da mulher na sociedade. Uma, que teve menos penetração, baseava-se nas ideias de Paullain de La Barse, que defendia a igualdade entre homens e mulheres. Segundo La Barse e seus seguidores, as mulheres deveriam ter os mesmo direitos que os homens e compartilharem da mesma educação (GODINEAU, 1997: 313).
De outro lado, havia Jean Jacques Rousseau, para quem a mulher não é apenas diferente do homem, mas inferior a ele. Ela seria marcada por suas funções sexuais, uma eterna doente e incapaz de possuir um pensamento racional. Sua função é tão somente ser mãe e esposa, dedicando-se às atividades domésticas. Para Rousseau e seus seguidores, as mulheres situavam-se fora da história uma vez que sua razão e sua natureza não são capazes de evoluir (GODINEAU, 1997: 314-135)
No caso da revolução Francesa, foram poucas as referências feitas a mulheres que estiveram presentes ou atuantes durante a revolução. As mais citadas em biografias são Maria Antonieta, a rainha odiada pelos franceses, injustiçada de muitas formas pela historiografia tradicional, e Charlotte Corday, que ficou famosa por assassinar o revolucionário Marat.
Atualmente sabemos que Revolução Francesa foi marcada por uma intensa participação das mulheres, que representavam os diversos grupos que acreditavam estar lutando por mudanças na sociedade. Elas acompanhavam os trabalhos na Assembleia e manifestavam-se, apoiando ou pressionando os deputados. Apesar de não terem direitos de representação, eram elas que levavam informações e reivindicações aos membros da Convenção.  
Entre os anos de 1789 e 1791 formaram-se as primeiras organizações mistas ou femininas. Esses clubes eram compostos por mulheres que assumiam sua direção e administração. Inicialmente formados por mulheres de origem burguesa, mas, à medida que a revolução ganhava as ruas, eles começaram a se abrir para mulheres de todos os grupos. Neles, as mulheres desenvolviam atividades assistenciais e começavam a se interessas pela política (MORIN, 2009: 95-96). Nesses clubes elas expressavam seu patriotismo por meio da caridade, reunindo-se em celebrações de cunho cívico e religioso, enfim, com atividades que eram consideradas socialmente adequadas para as mulheres.
 Entre 1791 e 1793, foram criados clubes políticos femininos em cerca de cinquenta cidades. (SCHMIDT, 2012: 16). Nesses clubes as atividades eram direcionadas à ação política efetiva e neles as mulheres faziam debates sobre os direitos da mulher e sobre os rumos da Revolução. O patriotismo feminino evolui e, a certo ponto, chega a ameaçar os homens, dada a intensidade das campanhas e o ativismo feminino. Nesse momento, algumas mulheres vão se destacar.
Uma dessas mulheres foi Claire Lacombe, uma artista de província, que recebera uma coroa cívica por ter participado da Tomada das Tulherias. Em maio de 1793, ela foi uma das fundadoras da Sociedade das Republicanas-Revolucionárias, de orientação jacobina, o mais famoso clube de mulheres durante a Revolução (BESSIÈRES, 1991: 08). Elas participavam de manifestações populares que geralmente terminavam em embates com girondinos, com quem poderiam ser implacáveis. 
As Repúblicanas-revolucionárias chegaram a ser aceitas nas reuniões dos conselhos das secções parisienses, mas não sem causar indignação dos homens, que negaram a elas os direitos políticos que tanto desejavam. Podiam participar, até se pronunciar, mas não tinham o direito de votar, de decidir. Não que isso as tivesse impedido de influenciar o resultado de muitas votações. No entanto, entre os anos de 1793 e 1795 sua participação foi sendo limitada até que os clubes políticos femininos foram proibidos.
Outra personagem importante foi Olympe de Gouges, a primeira mulher a reivindicar para as mulheres direitos políticos. O seu verdadeiro nome era Marie Gouze,  oriunda de uma família burgueses de Montauban. Olympe colocou fim a um casamento infeliz e mudou-se para Paris onde acabou se destacando graças à sua inteligência e beleza. Acabou militando pela causa revolucionária, tornando-se uma grande oradora. Teve influência na Assembleia Nacional, que em geral não escutava as mulheres. Liderou campanhas contra a fome da população e para ajudar instituições que recebiam os pobres, como os hospícios, organizando caixas de socorro públicas (BESSIÈRES, 1991: 13-14)
Em 1791, escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher, à qual dedicou à rainha Maria Antonieta. Nela, exigia para todas às mulheres a igualdade de direitos e deveres diante da lei. Além disso, reivindicou ainda o direito ao sufrágio universal. Foi presa em 20 de Julho de 1793, julgada em novembro pelo tribunal revolucionário e executada na guilhotina. Era  acusada de ter "tentado sabotar a República com os seus escritos", sendo aí sido citado o texto de sua autoria Les trois umes ou le Salut de la Patrie. (BESSIÈRES, 1991:16).
As mulheres não estavam apenas nas reuniões políticas. Tal como ocorria na Inglaterra, elas também chegaram a liderar revoltas populares. Em muitas ocasiões estiveram  à frente do povo que ia para as ruas reivindicar direitos, chamar a atenção do governo para as dificuldades enfrentadas pela população das cidades, que carecia de gêneros alimentícios básicos. Elas também reivindicavam melhores salários e protestavam contra a exploração dos patrões.
Na primavera de 1789, a manufatura Réveillon fora atacada por um grupo de manifestantes liderados por uma mulher grávida, Marie-Jeanne, que instigou um grupo à invasão, justificada pela oposição do proprietário aos salários durante uma assembleia eleitoral do terceiro estado. As mulheres responsáveis pela alimentação dos filhos sentiam mais os efeitos da escassez de alimentos (SCHMIDT, 2012: 14)
As mulheres também pegaram nas armas, enfrentaram tropas leais ao rei e defenderam a revolução. Chegaram a exigir frente à Assembleia o direito ao porte de armas. Os deputados alegavam que as mulheres eram delicadas demais para manejar armas de fogo, mas isso não impediu que elas, de fato, o fizessem, participando de marchas armadas e até mesmo de enfrentamentos.
No dia 05 de outubro, motivadas pela falta de pão e insultadas com o pisoteamento da cocarda (insígnia militar) tricolor, símbolo da revolução, um grupo de mais de 7000 mulheres guiadas por Maillard, oficial da Guarda Nacional e herói da Bastilha, escolhido por elas para liderá-las, seguiram em direção a Versalhes com a missão de trazer de volta o rei à Paris, acreditando que ele iria resolver os problemas econômicos do pão. (SCHMIDT, 2012: 14)
O discurso acerca da fragilidade do corpo feminino pode até justificar a  recusa dos homens em liberar o porte de armas, mas não impede que muitas mulheres tomem a iniciativa. Mulheres se alistaram como voluntárias no exército ou simplesmente se disfarçavam de homens para poderem lutar, como soldados-cidadão. As mulheres soldados desejavam a oportunidade de lutar pela Pátria e pela revolução, defendendo-a de seus inimigos. O número exato de mulheres que se ingressaram no exército assim como daquelas que participaram das milícias urbanas é impreciso. Eram, possivelmente, mais numerosas do que se imagina. Mas a participação das mulheres em guerras não era necessariamente uma novidade.
Segundo Morin (2009), mulheres pertencentes à nobreza já haviam substituído os homens nos campos de batalha. Esposas de aristocratas se envolviam diretamente nos conflitos, quando isso se fazia necessário. A já citada Catarina de Médicis, por exemplo,  conduziu o exército francês no cerco de Havre (MORIN, 2009: 110).
Não podemos esquecer as donzelas guerreiras, que povoam até hoje a literatura: jovens, fictícias ou personagens reais, que enfrentaram preconceitos para lutarem ao lado dos homens. Na Espanha podemos citar a Monja Alferes, cujo nome era Catalina de Erauso, que fugiu do convento ainda adolescente, disfarçou-se homem, tornou-se soldado e viveu muitas aventuras na América, antes de ser descoberta (GALVÃO, 1998: 13). Na própria França temos a lendária Joana D’ Arc, que liderou com sucesso os exércitos do rei contra os ingleses.
As mulheres soldados francesas vinham um grupo social considerado modesto, sendo filhas de camponeses, operários e artesãos, não lutavam por suas terras, títulos ou privilégios ou desejavam fugir da repressão que lhes era imposta pelos seus pais e pela sociedade. Eram mulheres politizadas, apesar de possuírem pouca ou nenhuma instrução. Elas desejavam exercer seu dever cívico de proteger a nação. Muitas delas não militavam pela defesa dos direitos da mulher ou mesmo pelo sufrágio. Sua ação era cívica. A revolução instaurava um novo sentido de cidadania ao qual muitas se sentiam impelidas a compartilhar, seja por meio das armas ou dos clubes femininos.


Referências

BESSIÈRES, Yves, NIEDZWIECKI, Patrícia. As mulheres na Revolução Francesa: bibliografia. Bruxelas: Comissão das Comunidades Europeias, 1991.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. (ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

DAVIS, Natalie Zemon. Culturas do povo: sociedade e cultura no início da França moderna: oito ensaios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

GALVÃO, Walnice Nogueira. A donzela-Guerreira. São Paulo: Ed. SENAC, 1998.

GODINEAU, Dominique. A Mulher. In: VOVELLE, Michel (dir.) O homem do iluminismo. Lisboa: Presença, 1997.

MORIN, Tânia Machado. Práticas e representações das mulheres na Revolução Francesa. Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de Pós- Graduação em História Social do departamento de História da Universidade de São Paulo, 2009.

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru: EDUSC, 2005.
SCHMIDT, Joessane de Freitas. As Mulheres na Revolução Francesa. Revista Thema, n. 09, 2012.

THOMPSON. Costumes em comum: Estudos Sobre a Cultura Popular Tradicional – São Paulo: Companhia das Letras, 1998.





* Aluna do curso de Mestrado em História do Brasil da Universidade Salgado de Oliveira (Niterói, RJ); especializada em História do Brasil, com concentração em História Regional, pela Universidade Federal de Juiz de Fora(UFJF), Juiz de Fora (MG);  licenciada em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Artes de Cataguases (FAFIC), Cataguases (MG); professora da Educação Básica no município de Leopoldina (MG); Membro da Academia Leopoldinense de Letras e Artes de Leopoldina; Diretora Cultural da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial, com sede em Leopoldina (MG).

EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - RESUMO DO LIVRO DE FRANÇOIS HARTOG

Este ano, por conta do mestrado, não tenho tido muito tempo para me dedicar aos meus blogs. Por outro lado, tenho produzido muito material e nem todo ele será publicado ou usado na minha dissertação. Acho isso um pecado, afinal, se tive o trabalho de fazer, por que guardar em uma pasta escondida no meu computador?

Por conta disso irei disponibilizar aqui alguns textos (despretensiosos) o primeiro vai ser o resumo comentado do livro de François Hartog, historiador genial que eu não conhecia. O resumo foi feito para a disciplina do professor Francisco Falcon, no segundo semestre de 2013.


Texto para ser lido e usado, mas não para ser plagiado. Assim, não esqueçam de citar a fonte se for utilizá-lo.




segunda-feira, 25 de novembro de 2013

PALESTRA DO PESQUISADOR PETER BLASENHEIM SOBRE PESQUISA NA ZONA DA MATA - COMPLETA

Palestra completa do Historiador Peter Blasenheim, do dia 16 de Outubro de 2010, na FIC, em Cataguases, sobre História Local (no caso, história de Leopoldina e da Zona da Mata). Eu havia colocado apenas alguns fragmentos, mas agora consegui unir tudo em um vídeo. Não está lá uma filmagem maravilhosa, mas fala sobre a questão da pesquisa na Zona da Mata, desafios do pesquisador e aspectos da nossa história local que são muito interessantes.

Peter L. Blasenheim ensina história da América Latina e Africano no Colorado College (CC), desde 1973. Ele foi educado na Faculdade da Cidade, da Universidade da Cidade de Nova York, da Universidade de Lisboa, em Portugal e na Universidade de Stanford, onde escreveu sua tese de doutorado sobre o século XIX e início do século XX analisando a História de Minas Gerais.

Ele foi professor visitante de História em duas universidades brasileiras. Em 2001, ele estabeleceu um programa de intercâmbio de estudantes entre CC e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), no Brasil, um programa que agora inclui a maioria dos colégios da Faculdades Associadas do Centro-Oeste e da Universidade de Brasília, bem como CC e UFJF.

Ele presidiu o Departamento de História da CC e é atualmente co-presidente do Departamento de Espanhol. Professor Blasenheim publicou vários artigos sobre a história do Brasil e foi co-editado um livro sobre Richard Morse, um proeminente historiador da história intelectual latino-americano.



Clicando aqui você pode ler um artigo publicado pelo pesquisador sobre as Ferrovias na Zona da Mata.

sábado, 19 de outubro de 2013

“Malditos Cartunistas”, no MAC (Niterói/RJ)

É um evento promovido pela ASPAS em parceria com o CineolhO.

Será no dia 26 de outubro às 16:30 - Entrada Franca. 


RELEASE DIVULGAÇÃO 


O CineolhO de outubro apresenta o documentário “Malditos Cartunistas”, de Daniel Paiva e Daniel Juca (Daniéis Entretenimento, Tarja Preta). No Brasil, cartuns, charges e quadrinhos discutem a realidade social e realizam uma genuína crônica de nosso duro cotidiano, não se restringindo à temática infantil. Neste sentido, “Malditos Cartunistas” é um precioso registro de grandes nomes das artes gráficas brasileiras e nos permite traçar um panorama da multifacetada produção do país em cartuns e histórias em quadrinhos. As dificuldades do mercado, as possibilidades críticas, o processo criativo e as diferenças entre gerações de desenhistas são alguns dos temas tratados no documentário. 

Após a sessão, contaremos com a presença dos cartunistas Nani e Danilo – pai e filho, para um bate-papo com o público. O DVD "Malditos Cartunistas" será comercializado no local.

IV SEMINÁRIO INTERDISCIPLINAR DO CURSO DE PEDAGOGIA - UEMG/LEOPOLDINA


PROGRAMAÇÃO

Mostra permanente: A ciência na História
Aletéia Carvalhaes e Acadêmicos do 4º Período

Exposição permanente de fotos sobre cotidiano escolar
Marcella Domingues


QUARTA – 23/10

18:20 – 20:00
Fotografia no Cotidiano Escolar
Albertina Mattos
Janaina Sara Lawall
Luiza Helena Morais Barbosa
Marcela Domingues
Glenda Moraes Ladeira

20:10 – 22:00
Quadrinhos: o uso da  Arte Sequencial na Educação
Natânia Nogueira


QUINTA – 24/10

18:20 – 20:00
Mesa redonda: Imagens, mídias e educação
Andrea Toledo Trabalhos colaborativos em Rede #umpéaquioutroaí
Saulo Guerson – Mídias de jogos eletrônicos e Educação
Elizabete Procópio Imagem, Mídias e Educação: Do acesso ao uso na sala de aula
Leonardo Dutra – Educação audiovisual: o caminho para uma via de mão dupla

20:10 – 22:00
Palestra: Fontes de Informação: suporte para dar sentido à aprendizagem
Claudia Maria Moura de Castro Amaral

Palestra: Mito, mídia e ideolologia
Ricardo da Silva Vieira


SEXTA – 25/10

18:20 – 20:00
Apresentação: O PIBID nas Escolas Municipais de Leopoldina: apontamentos e perspectivas
Equipe PIBID UEMG – Unidade de Leopoldina

20:10 – 22:00
Palestra: “Educação inclusiva: deficiência cognitiva e usos de tecnologias”
Suzana Mcauchar



Todas as Atividades serão realizadas na UEMG Leopoldina

Informações: (32) 3441-9003 (32) 3441-9045

NAS TRILHAS DE HONESTINO


O Testemunho da Verdade apresentou no dia 10 de outubro de 2013, em parceria com a Comissão da Verdade e Memória da UFRJ, uma sessão sobre o caso Honestino Guimarães, no salão nobre do IFCS /UFRJ, no centro do Rio de Janeiro.  O evento marcou os 40 anos do desaparecimento de Honestino contou com a presença de líderes políticos, estudantis, alunos e professores da instituição e foi aberto ao público em geral. 
Sobre Honestino Guimarães: dados Biográficos
Honestino Monteiro Guimarães nasceu em 28 de março de 1947 em Itaberaí, Goiás. Em 1964 ingressou na Ação Popular (AP), organização política clandestina. Em 1965, foi admitido na Universidade de Brasília, aonde veio a destacar-se como como líder estudantil. Suas ações o levaram a ser preso, por cinco vezes: a primeira vez em fevereiro de 1966; depois em fevereiro; pela terceira vez em 1967; pela quarta vez em agosto de 1967, tendo sido eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade e Brasília (Feub), ainda no cárcere. Sua quinta prisão aconteceu em 29 agosto de 1968.
Em dezembro, se 1968, com a edição do AI-5, Honestino passou a viver na clandestinidade. Morou em São Paulo e em 1971 mudou-se para o Rio de Janeiro. Foi eleito vice-presidente da UNE em 1969, na gestão de Jean-Marc von der Weid e em 1971 foi eleito presidente. Acreditava que a transformação social brasileira só poderia ocorrer pela ação dos trabalhadores organizados. Honestino não participou de ações armadas. A última prisão, no dia 10 de outubro de 1973, pode ter ocorrido por delação.[1]
O evento no IFCS/UFRJ
A sessão “Onde está Honestino Guimarães” contou com a presença da atual presidente da UNE, Vic Barros; o diretor do IFCS, Marco Aurélio Santana; da filha de Honestino, Juliana, Guimarães, de Wadih Damous, presidente da Comissão Estadual da Verdade (CEV) e de dois ex-companheiros e amigos de Honestino, Agostinho Guerreiro, militante, junto com Honestino, na organização Ação Popular (AP), e o vereador Eliomar Coelho, seu colega na UNB.  
Sobre as informações referentes à sua prisão e desaparecimento há apenas especulações. Ele teria sido preso pela Marinha ou levado para a Casa da Morte, em Petrópolis. Seu caso é considerado único, entre os desaparecidos, pelo fato de não ter havido testemunhas de sua prisão ou pistas sobre o seu paradeiro. Em busca de informações que levem à verdade sobre esses acontecimentos e ao túmulo do pai, Juliana Guimarães, lançou a campanha Trilhas do Honestino.
Vídeo exibido durante o evento - assista!
Algumas considerações
Toda a memória de amigos e familiares de Honestino, exposta por meio de um documentário exibido no início da sessão e dos relatos que o seguiram, mostram um líder carismático e que tinha uma grande sensibilidade e apego aos amigos e à família. De fato, se explora muito mais o lado afetivo e as relações de amizade de Honestino do que sua ação política, hora ou outra pincelada.
Constrói-se a imagem do amigo, do companheiro, do pai amoroso do bom filho. Do Honestino Guimarães, líder estudantil, membro ativo da AP, pouco se fala. A busca por Honestino se pauta no desejo de reescrever da história e de fazer justiça para a família. Na sessão, senti falta do Honestino líder político, do que ele pensava e defendia. Parece que houve uma dissociação entre um e outro. Como se se pudesse separar o líder do homem de família, como se os dois não fossem a mesma pessoa.
Por outro lado, foi enriquecedor ter um testemunho tão vívido de uma situação que foi muito mais comum do que se deveria: do sofrimento de uma família que deseja encontrar não apenas a verdade sobre o que aconteceu com um de seus membros, mas, também, colocar fim a uma história que espera por uma conclusão há quarenta anos.
Significativa, também, a articulação que se faz entre a ditadura e o contexto atual que vive o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro, no que diz respeito à repressão. Quase todos os palestrantes tocaram nesse assunto e lamentaram a incrível semelhança entre a forma como se reprime as manifestações populares em 2013 e as que ocorreram durante os anos de ditadura.




[1] Honestino Guimarães. Biografia. Disponível em: http://honestinoguimaraes.com.br/biografia, acesso em 13/10/2013.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

EXPOSIÇÃO CONTA A HISTÓRIA DE LEOPOLDINA


Esta semana eu tive o prazer de poder visitar a exposição "Do feijão Cru ao Girassol Maravilhoso - fragmentos da memória Leopoldinense", que conta a partir de fotos e documentos uma parte da história de Leopoldina, apresentando à população alguns personagens da nossa história que para muitos são desconhecidos.

Visualmente, ela é deslumbrante. A curadoria conseguir colocar em um espaço limitado uma série de informações que formam uma espécie de linha do tempo, que abarca aproximadamente 150 anos de história. Nela, personagens como Augusto dos Anjos e Serginho do Rock dividem o mesmo espaço e contam suas histórias.

Há também documentos como jornais e livros que, segundo fui informada, estarão sendo constantemente trocados para que, a cada semana, o visitante possa encontrar algo novo. Eu, sinceramente, não me recordo de ter visto uma iniciativa parecida, aqui em Leopoldina.

Uma boa pedida para toda a família e, claro para as escolas. A exposição estará disponível para visitação até o final do mês de novembro. Vejam algumas fotos:






Onde está a criatividade?


Onde está a criatividade?

Esta é uma pergunta que tem sido cada vez mais difícil de responder. Como professora, eu tenho me sentido muitas vezes perdida.

Enquanto que a maioria esmagadora do sistema educacional brasileiro exige que os resultados das avaliações sejam os melhores, em termos numéricos, por outro lado a qualidade da aprendizagem tem deixado muito a desejar.

Há vinte anos atrás, quando comecei a lecionar eu imaginava que, no futuro, meus alunos seriam mais criativos, mais conscientes e mais comprometidos. Não que eu já não tivesse um bom conceito sobre eles. Muito pelo contrário. Em diversos momentos eles me surpreenderam com resultados excepcionais. Da década de 1990 guardo as melhores recordações, nesse sentido. Aqueles foram alunos que me marcaram, não pelas notas que tinham, mas porque eu via naqueles meninos e meninas um potencial enorme.

Hoje eu encontro com alguns deles e tenho uma sensação muito boa, porque eu sinto que eles estão felizes, que tem perspectivas para o futuro, eles têm sonhos, planos. 

Qual é a diferença daqueles alunos para os que possuem atualmente (com algumas exceções, claro)?

Eles foram e eram mais criativos.

Vou esclarecer o que eu penso sobre criatividade, antes de tudo. Para mim a criatividade é aquela capacidade de usar o raciocínio lógico de forma a encontrar soluções para problemas.

É a capacidade de superar desafios mesmo quando os recursos materiais e/ou humanos que se dispõe são limitados. A criatividade é aquela ferramenta fundamental para que uma pessoa possa suprir determinada falha ou mesmo a falta de determinado conhecimento.

É isso que tem, a meu ver, faltado aos meus alunos. Eles estão se habituando tanto a copiar e reproduzir que estão perdendo a oportunidade de desenvolver a criatividade. Fazer conexões, usar a lógica criar ao invés de copiar, têm sido operações cada vez mais difíceis.

Um exemplo simples: toda véspera de prova eles me pedem um resumo. Eles querem que eu condense em uma folha tudo aquilo que estudamos durante um ou dois meses. Toda véspera de prova eu repito o mesmo discurso: o resumo é a síntese do que VOCÊ estudou, portanto EU, PROFESSORA, não posso fazer isso por você.

Se eu fizesse, o que aconteceria?

Eles iram decorar, tirar notas boas e esquecer.
Eu prefiro uma nota regular, resultado do esforço e de um conhecimento realmente apreendido, do que uma nota máxima resultado da mera reprodução de um conteúdo decorado e que será, certamente, esquecido.

Percebem? Copiar, decorar e reproduzir.

Assim, claro, as notas serão boas. O aluno, de forma geral, não parece entender que ele deve produzir, deve usar seu raciocínio e chegar ao conhecimento. O professor orienta, mas ele não pode executar essa operação para o aluno. Isso é aprendizado.

Ah, mas os alunos não gostam de ler, logo não sabe interpretar, logo não consegue entender o que está escrito numa atividade.

Ah, mas o aluno tem um vocabulário ruim, não faz conexões simples. 

Nada disso é uma inverdade, mas eu percebi que estamos esquecendo-se da questão mais importante: isso é falta de criatividade. Tanto os professores precisam ser criativos e estimular a criatividade, quanto os alunos têm que ser levados a desenvolver sua criatividade, em todos os conteúdos, em todos os anos da educação básica e, inclusive, no curso superior.

(...) as habilidades criativas são de crucial importância no processo de preparação dos alunos para lidar com o mundo complexo e cheio de desafios. Contudo, percebe-se que a criatividade no contexto educacional, em geral, tem tomado como base para reflexão o senso comum e, assim, seu verdadeiro significado e implicações pedagógicas deixam de ser evidenciados. Essa situação pode levar à banalização da criatividade, que dessa forma será tratada com simplismo e permeada por mitos e crenças que lhe conferirão uma visão restrita.[1] 

O aluno criativo ele se expressa melhor, tem mais segurança para desenvolver atividades e é mais habilidoso para resolver problemas. Ele fala, escreve e age melhor.

Tenho uma amiga, Renata Arantes, que é professora de Artes no CEFET. No curso, ela procura usar a arte de forma a desenvolver essa criatividade. Ela trabalha a expressão corporal e verbal; ela desinibe os alunos que estão entrando no primeiro ano do ensino técnico por meio da criação, do teatro e até promovendo debates na sala de aula, permitindo que o aluno fale de si mesmo e ouça o que os outros estão falando. A aula de artes prepara o aluno para ser uma pessoa e um profissional mais criativo.

Outra amiga, professora de língua portuguesa, trabalha com produção de quadrinhos com alunos do nono ano. Ela consegue que eles se expressem através do desenho e da narrativa. Esses alunos também se tornam leitores mais competentes e mais interessados. Eles podem não ter o melhor domínio da gramática, mas possuem uma grande capacidade de expressão.

Essas duas educadoras, e eu poderia citar outras, dão a prioridade à criação, à criatividade. Uma vez que essa habilidade está desenvolvida e cristalizada, o aluno pode ter muito mais êxito como estudante, como profissional, como pessoa.

É importante ter em mente o fato de que as pessoas não nascem criativas. A criatividade é desenvolvida através de estímulos, desde a infância.

a expressão criativa não depende apenas das características individuais. O ambiente e o contexto sócio-histórico-cultural têm um papel fundamental na estimulação ou inibição do potencial criador de qualquer pessoa, pois somos seres sociais, influenciamos a cultura e o momento histórico e somos influenciados por eles.[2]

A escola é o espaço privilegiado onde essa criatividade pode ser estimulada. É preciso lembrar que, diariamente, crianças e jovens podem passar até seis horas em uma escola (ou mais). Pesquisas sobre criatividade apontam o professor como elemento indispensável para incentivar a criatividade.

Infelizmente, o próprio sistema de trabalho didático-pedagógico adotado pelas instituições de ensino acaba por contribuir para que o aluno não possa encontrar espaço para desenvolver sua criatividade.

Os fatores favoráveis ao desenvolvimento do potencial criativo são reconhecidos como necessários por parte dos professores, mas o cotidiano escolar é cheio de limitações e dificuldades que emperram o processo de construção de um ambiente favorável à criatividade.[3]

Estamos perdendo nossa capacidade criativa e perdendo a oportunidade de desenvolvê-la. Eu tenho visto a escola brasileira, no seu geral, ficando cada vez mais conservadora no sentido em que valoriza cada vez mais o resultado quantitativo em detrimento do qualitativo. Os números estão matando a criatividade e se confundindo com a qualidade.

Atualmente eles têm dominado nossa sociedade. Lembro-me, por exemplo, que os programas infantis dos canais abertos de televisão faziam sorteios de brinquedos para crianças que enviam cartinhas ou que participavam de uma brincadeira. Outro dia, vendo um programa infantil, fiquei desolada: as crianças participam agora para ganhar dinheiro. “O que você quer ganhar”, pergunta o apresentado. “Mil reais, responde a criança”.

Não é de se admirar que os jovens tenham escolhido suas profissões muito mais pelo valor do salário que irão ganhar do que pela sua aptidão. Os números estão matando a qualidade e impedindo o desenvolvimento da criatividade: o valor as notas, os prêmios em dinheiro, o valor do salário.





[1] ALENCAR, Maria Lima Soriano de OLIVEIRA, Eny da Luz Lacerda Eunice. Criatividade e escola: limites e possibilidades segundo gestores e orientadores educacionais. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, SP. Volume 14, Número 2, Julho/Dezembro de 2010, p. 246.
[2] CASTRO, Julia Soares Rosa de, FLEITH, Denise de Souza. Criatividade escolar: Relação entre tempo de experiência docente e tipo de escola. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE), Volume 12 Número 1 Janeiro/Junho 2008, p. 102.
[3] MARIANI, Maria de Fátima Magalhães, ALENCAR, Eunice Maria Lima Soriano de. Criatividade no trabalho docente segundo professores de história: limites e possibilidades. Psicologia Escolar e Educacional, 2005 Volume 9 Número 1, p. 27.