terça-feira, 23 de outubro de 2007

Criança, infância e família em Juiz de Fora (1850-1920)

O texto que segue é parte de um artigo no qual ainda estou trabalhando. Mas gostaria da opinião dos leitores do blog sobre ele e sobre a temática, de forma geral. No texto em questão trabalho especialmente com dois memorialistas: Nava e Áurea Nardelli. Tenho um apresso especial pelos dois e gosto da forma simples com que narram suas lembranças. Acho as memórias fontes interessantíssimas e muito ricas pois elas extrapolam a simples descrição da realidade entrando no plano da mentalidade (embora alguns historiadores não gostem muito do uso deste termo eu o acho adequado para exprimir os sentimentos de um sujeito histórico e sua interpretação da realidade na qual vive).



Ao estudar a família, as crianças aparecem geralmente como um pano de fundo dentro de um quadro mais complexo. Os estudos de gênero possuem o mérito de tirar da sobra o papel da mulher dentro da celular familiar, mas só recentemente a criança e a infância começaram a receber um pouco de atenção por parte da historiografia. A infância é, por definição, a representação que os adultos fazem do período inicial da vida. A história da infância seria, por conseguinte, a história das relações socais, culturais estabelecidas pelas crianças, além de suas relações com os adultos. Por outro lado, a história da criança seria a história das crianças entre si e com os adultos, sua relação com a cultura e a sociedade onde vivem.

Para Phillipe Àries,[1] a criança e sua ascensão dentro do núcleo familiar a responsável pela formação do sentido de família, a partir do momento em que tem início o sentido de infância. Esta transformação ocorre em parte graças à integração cada vez maior da criança à escola e o gradual abandono daquela educação apenas ligada ao trabalho e às boas maneiras, realizada muitas vezes em casas de família, longe o controle dos pais. A família para ele só passa a existir como a conhecemos no momento em que os pais tiram a criança do mundo dos adultos.

Em torno de sua obra gira o debate sobre o desenvolvimento a concepção moderna da infância. Em estudos recentes foi demonstrado que a consciência da existência de diferentes períodos da vida humana poder ser identificada desde a antiguidade, nas mais diversas e diferentes culturas. Contrariamente a Áries, há quem defenda a existência de uma percepção nítida da especificidade da infância, já na Idade Média. A criança era construída, inicialmente pelo amor ou pela rejeição dos pais. Alguns autores criticam Áries por generalizar o caso francês e não levar em conta as especificidades e o contexto de cada região.[2]

Em nosso trabalho queremos trabalhar a questão a inserção social da criança, a partir da família, seja ela de elite ou pertencente a camadas menos privilegiadas. Como fontes, para um estudo inicial temos a obra de dois memorialistas, Áurea Nardelli e Pedro Nava. Áurea Nardelli, professora, natural de Mar de Espanha relata, em seu livro de memórias[3], episódios que envolveram sua vida e a de sua família desde a infância. Suas brincadeiras infantis ao lado dos irmãos e seus momentos de peraltices e até de engajamento político, durante a adolescência mostram que os mais jovens estavam conquistando um espaço cada vez maior e mais importante dentro da organização familiar. Através de suas impressões e de sua leitura particular da realidade na qual viveu podemos compor um quadro histórico da juventude mineira – em particular juizforana - das primeiras décadas do século XX.

Nava utiliza alegorias de sua infância para narrar casos de maridos que matam brutalmente suas esposas, de madrastas que maltratam enteadas, moças que envenenam namorados que as desprezam, além de relatar suas próprias experiências, na escola e na família. Fala-nos sobre seu amor e respeito pelo pai e de sua avó Maria Luiza Jaguaribe, mulher fria e distante, que nunca deu afeto ao neto. Nava fala de si e daqueles que o rodeavam, pois acredita na força da memória como fortalecedora das tradições familiares, que ele defende, embora não feche os olhos para o outro lado da sociedade: aquele onde todas as regras são quebradas.

Áurea Nardelli nasceu no início do século XX e, aos 14 anos mudou-se para Juiz de Fora. Suas memórias, no entanto, contam com detalhes sobre a vida dos pais e dos avós, assim como elementos referentes à tradição e cultura do século XIX, passados a ela por sua mãe e avó. Seu pai era italiano e começou a trabalhar aos 13 anos, pois seu avô paterno gastava todo seu dinheiro que recebia com prostitutas ou amantes. Desde bem jovem Vicente Nardelli foi obrigada a encarar de frente as responsabilidade de um adulto, talvez por isso tenha se preocupado em dar aos filhos uma infância melhor e menos sofrida – pensamento que está presente entre os pais ainda nos nossos dias.

Os filhos eram, já naquele início de século XX, o receptáculo dos sonhos e das ambições dos pais. A escola era um caminho para a ascensão social, geralmente negado aos pobres, mas não necessariamente fechado a eles. Segundo Pierre Bourdieu, colocar um filho na escola e lhe proporcionar um diploma – excepcionalmente de doutor ou bacharel -, é como fazer um investimento para o futuro, que trará grandes lucros, econômicos ou sociais para a família. O capital cultural é, talvez, o maior investimento que um pai possa fazer em seu filho.[4]

O pai, muito preocupado com a educação dos filhos, tentou dar-lhes a melhor instrução, dentro de suas possibilidades – foram muitos filhos, quatorze ao todo, e muitas dificuldades financeiras. A família humilde, foi aos poucos melhorando sua condição social e econômica e os filhos estudaram e tornaram-se profissionais de sucesso. Áurea permaneceu solteira – escapou da interferência dos pais no casamento, pois eles praticamente diziam com quem se podia ou não casar.

Quando criança, Áurea foi criada dentro de uma rigidez religiosa que em alguns momentos contrastava com os hábitos europeus que seu pai havia herdado – como o de dar beijos. Desde pequena ajudava sua mãe nos afazeres domésticos e cuidava dos irmãos menores. Tinha o hábito de orar em diversas ocasiões – ao dormir, ao se levantar, para tirar mal olhado, ao lavar o rosto e para espantar animais. Na escola recebeu uma educação voltada pra o lar, como era de costume. Mas em suas memórias descreve momentos em que a jovem religiosa e tímida assumia postura crítica e rebelde. Seu pai envolvia-se apaixonadamente na política e, na escola, ela e suas colegas normalistas discutiam entre si as mudanças que ocorriam na República. Eram meninas-moças, e eram informadas. Ao contrário do pensamos, as mulheres, mesmo as jovens, não estavam alienadas ao que acontecia ao seu redor. Áurea se considerava uma jacobina.

Os maus tratos às crianças eram freqüentes, tanto entre os mais pobres, quanto entre as camadas médias. Eles se faziam através de castigos físicos, violência sexual, abandono, negligência e até mesmo do infanticídio. Casos envolvendo crianças não erram raros nem passavam desapercebidos. Percebe-se uma tendência a tentar preservar a criança das amarguras do mundo adulto e a buscar algum tipo de punição para crimes cometidos contra crianças.

Ao nosso escritório ontem, os diretores da escola mantida pelo Culto Católico mariano Procópio, à rua das Escolas,naquele bairro, vieram queixar-se de grande malta de moleques atrevidos, que por ocasião da saída das alunas, ali se reúnem dirigindo-lhes gracejos e frases que a decência anda calar. Aí fica a reclamação. Esperamos providências por parte da policia”.[5]

Por outro lado, também era freqüente a marginalização de meninos e meninas que viviam nas ruas, sendo taxados arbitrariamente de arruaceiros e perseguidos pela polícia e pelos jornais, que existiam sua retirada do centro da cidade, local freqüentado por boas famílias, que deveriam ser poupadas da visão da vadiagem. Crianças fugiam de casa para escapar dos maus tratos dos pais. Quando não eram encaminhadas a orfanatos, eram perseguidas sob acusação de vadiagem, vandalismo e outros pequenos delitos, sempre a elas atribuídos. Os vizinhos muitas vezes eram os canais através dos quais se chagava a pais a mães “desalmados”, que fugiam do ideal de civilidade ao desferir castigos rígidos e até desumanos aos seus filhos.

Na parte baixa da rua do Comércio existe uma preta, de nome Clementina, que tem uma criança de 5 meses, que a maltrata com tanta barbaridade que os vizinhos chamam a atenção da policia para saber a causa dessa malvadeza, que pratica diariamente e se compadecer dessa infeliz criança, porque não pode haver coração que a faça assim sofrer.”[6]

Na verdade, uma mãe que não zela e cuida de sua prole, por si só, demanda mais atenção das autoridades e da comunidade do que a violência contra a criança. Esta mulher vai contra o ideal de boa-mãe-dona-de-casa que caracteriza uma mulher civilizada, idealizada pela sociedade burguesa. A mulher é alvo de inúmeras críticas. Se não se casa, é uma solteirona e alvo de comentários jocosos e maldosos; se é abandonada ou divorciada, precisa provar que é boa mãe, boa dona de casa e mulher trabalhadora, caso contrário pode ser acusada até mesmo de meretrício.

Da mesma forma, as crianças despertam reações ambíguas. Tanto podem ser inocentes e frágeis criaturas pelas quais cabe a sociedade zelar em caso de abandono ou desamparo, como podem ser taxadas como “pestes”, pequenos marginais, criaturas capazes de atos hediondos. Os jornais noticiam regularmente a presença de moleques no centro comercial ou nos parques, causando desordem, roubando ou simplesmente incomodando os adultos com sua presença. Crianças que muitas ficam nas ruas porque os pais estão trabalhando e elas não possuem mais nada o que fazer senão aventurar-se no mundo dos adultos para aprender a sobreviver desde cedo.

Os órfãos eram citados nos jornais como criaturas abandonadas à própria sorte e explorados pelos adultos. Aliás, o trabalho dos órfãos era utilizado pelas famílias – inclusive as abastardas – e muitas vezes assumiam o papel de “crias”. Criados desde pequenos pelos seus “patrões” e recebendo em troca de seu trabalho comida e roupas – geralmente usadas. Em alguns momentos sua exploração aflorava, que em alguns casos era seguida de violência física e/ou sexual, na forma de pequenos textos nos jornais.

Tendo chegado ao conhecimento do sr. dr. Juiz substituto dessa comarca que em casa do sr. Francisco Pereira Bretas, residente á rua do Sampaio, havia uma menor órfã de nome Albertina que era constantemente seviciada, de modo bárbaro, por pessoas da casa, aquele magistrado mandou apreende-la e fê-la conduzir á sua presença, tendo-lhe tomado auto de perguntas. Em seguida mandou proceder a corpo de delito, verificando que a menor apresentava contusões. A menor foi depositada em casa do sr. Antônio da Cunha Figueiredo até deliberação última do sr. dr. Juiz de órfãos[7]

Pedro Nava relata em suas memórias a existência de “crias” na casa de sua poderosa avó, Maria Luiza Jaguaribe. Eram, em geral, negras ou mulatas, que além de fazerem os serviços domésticos, ainda serviam como “olhos” e “ouvidos” de sua patroa. Eram constantemente maltratadas e obrigadas a trabalhar cantando para que a patroa pudesse melhor ficalizá-las[8]. Nava ainda ressalta um outro aspecto deste tipo de menina/emprega: elas eram utilizadas também nos complexos sexuais dos meninos.[9]

A criança, em muitos casos, entra no mundo dos adultos muito antes do fim cronológico da infância. Muitas vezes meninos e meninas são obrigados a trabalhar para ajudar no sustento da família, cuidar da casa e dos irmãos menores e mesmo abandonando os jogos e brincadeiras infantis. Para Margareth Rago,[10] a criança, é instrumento de intervenção do estado e dos médicos dentro da família e em torno dela criou-se um mito de infância que não correspondia à realidade, pois essa infância lhe era negada pelo árduo trabalho que desempenhava nas fábricas. Juntamente com a mulher, a criança compunha a maior parte da mão-de-obra.

As relações entre a infância e modernidade se estabelecem no esforço de produção de uma tradição, o ser criança civilizada, compreendendo o tempo da infância como produção sociocultural. A escola se torna a formadora da moralidade, um meio de afastar a criança da sociedade e da degeneração mora. Num segundo momento, as crianças passaram a freqüentar a escola para aprender a entrar no mundo dos adultos.

Disciplinar a infância era necessário, assim como evitar que ela se desvirtuasse e se tornasse uma ameaça a ordem. A escola, neste contexto, torna-se espaço disciplinador. Desde o século XVIII ela dividia-se em duas: burguesa (liceu) e popular (primária), cujas funções são bem definidas.[11] Para as crianças pobres, para quem a sociedade burguesa não ansiava uma educação esmerada, foram criadas as escolas agrotécnicas, que tinham por finalidade punir e educar através do trabalho. O esforço na produção da criança civilizada e sua moralização se faria, nestes casos por meio do trabalho e aprendizagem de um ofício.[12]

O governo do Estado de Minas Gerais criou diversas escolas rurais em Minas, em 8 de janeiro de 1912, através do Decreto 3.399. As escolas rurais, que neste período foram uma verdadeira febre em Minas Gerais, tinham um ensino voltado para o aprendizado agrícola, onde órfãos e meninos pobres do campo poderiam se profissionalizar e se tornarem elementos úteis para o desenvolvimento e modernização do Brasil. Pode-se afirmar que os hábitos de escolaridade irão se diferenciar não segundo condições, mas funções.

Com a nova sociedade capitalista, o trabalho passa a ser uma questão de progresso, status e ascensão social, para os grupos médios e as elites, enquanto que para os menos favorecidos torna-se motivo de discriminação. O desempregado é considerado um desocupado, um preguiçoso e a preguiça não combina com o progresso. Segundo Rosa Maria Barbosa de Araújo, “a ideologia no novo regime afirmava que os costumes civilizados venceriam a preguiça dos desocupados”. [13]

Para o Republicano a ociosidade era uma ameaça à ordem e a vadiagem uma ameaça à moral e os bons costumes, sendo que a união dos dois poderia levar à criminalidade. Não apenas adultos, mas também as crianças acabavam sendo vítimas da perseguição dos moralistas e da ciência médica, que tentavam explicar a violência dos pequenos, que representava um ameaça ao mundo adulto. Nos periódicos encontramos uma série de crimes cometidos por crianças ou adolescentes, onde as vítimas são colegas, amigos, rivais e as circunstâncias variam de caso para caso, e que acabam por justificar a necessidade de civilidade.

Na estrada que vai de S. João Neponuceno ao Descoberto deu-se num desses últimos dias, um assassinato que tem tanto de bárbaro quanto de horroroso, não só pelas circunstancias que rodeiam o crime, quanto pelas condições do criminoso, que é menos de 8 anos. Ao instinto perverso do crime, á precocidade com que se apresenta no caminho do mal, junta esse novel delinqüente a ferocidade da índole e da dissimulação dos criminosos alibres. Narremos singelamente o fato tal qual se passou:

Sábado ou domingo ultimo, foram alguns carreiros com seus carregamentos de café, do Descoberto a São João e levavam como condieiros alguns menores, entre os quais dois de cor preta, de 8 anos de idade, e outro maior de 12 a 13 anos. Nessa ultima localidade desavieram-se dois desses menores, o de maior idade e um dos outros, e aí, parece, chegaram às vias de fato.

De regresso á primeira daquelas localidades, entendeu o menino maior vingar-se da pobre criança com a qual brigara naturalmente por esta estar de condição humilde, sem que os carreiros pudessem ou quisessem impedi-lo. Efetivamente, nenhum deles sabe, pelo menos assim o declararam, como se deu o delito; mas o que é certo é que o menor foi morto com um tiro pelas costas cujo projétil se empregou na região accipital da vitima saindo-lhe por um dos olhos e produzindo-lhe a morte 24 horas depois. Consta-se que a vitima pedia ao seu algoz que não disparasse a arma, que a tudo isso foi surdo o instinto feroz do assassino que, mal se lhe deparara a ocasião, a prostrara por terra com um tiro certeiro. É esta a versão corrente ali.

Entretanto, com surpresa de todos, apresentou-se á autoridade policial do Descoberto, não o menino criminoso, porém o outro, o menor, denunciando-se autor do crime e declarando que o praticara para... experimentar a arma. Por falta de médicos não se faz autópsia do cadáver, contentando-se a autoridade policial com um corpo de delito à moda da roça. Que o inquirido para a descoberta do legítimo delinqüente não se faça também para inglês ver
."
[14]

Um crime de adultos, praticado por crianças e, interessante notar, que por motivo fútil. O jornal dá a entender que o agressor se aproveita da condição humilde da outra criança. Crianças agindo como adultos e inseridas no mundo dos adultos resultam em ações e fatos que desmentem a inocência infantil, tão defendida pela sociedade burguesa. Neste sentido, cabe citar um trecho do livro de Mirian Moreira Leite, elaborado a partir de documentação produzida por vianjantes estrangeiros, no Brasil do século XIX, que se refere às crianças brasileiras do final do século XIX. O trecho foi tirado dos apontamentos de um viajante, o inglês Robert Edward Edgcumbe, escritos em 1886, onde que este viajante compara as crianças brasileiras com as inglesas. Ele se assusta com a inserção precoce das crianças no mundo dos adultos.

A menor usa brincos e braceletes e meninos de oito anos exibem cigarros... A linguagem dos meninos é espantosa, embora eu deva admitir que provavelmente, em grande parte, não têm consciência do que estão dizendo. Desconhecem os jogos. O único tipo de brinquedo em que tomam parte é o de ‘pular sela’, e isso só de vez em quando.”[15]

Os relatos de viajantes, que estivem ano Brasil no século XIX, revelam aspectos importantes da vida familiar brasileira, mas eles enfatizam as famílias de condição econômica e social superior. Entre as famílias mais humildes, alguns dados podem se mostrar desencontrados. Havia um zelo maior entre as famílias abastardas sobre seus filhos e suas mulheres, que raramente deixavam a segurança do lar para se aventurarem nas ruas, povoadas de trabalhadores e de crianças descalças.

Havia um grande movimento de controle social no Brasil, já nessa época, em que o Brasil está finalmente se transformando em um país capitalista, após a abolição da escravidão e com o uso do trabalho livre. Os espaços passam a ser mais vigiados, assim como a conduta das pessoas. Os pobres são os mais atingidos, sendo que a violência se concentra – nas suas diversas formas – nas mulheres e nas crianças. Mulheres pobres recebem facilmente o estigma de meretriz, de mulher da vida, quando desfila desacompanhada pelas ruas e freqüenta os botecos da periferia. Sobre a mulher e a criança recai uma forte carga de pressão social, um desejo de disciplinar os sentimentos e as ações.

No século XIX consolidou-se a idéia de que a mulher adulta deveria ter uma educação voltado para o lar, para a maternidade e ser, desta forma responsável pela formação de uma criança civilidade e de uma família harmoniosa. A mulher moderna é aquela que tem amor pelo trabalho doméstico, assim, as mulheres burguesas torna-se senhoras do lar e passam a representar o padrão da boa mulher, da boa mãe: a dona-de-casa. À separação entre o público e o privado contribuiu para uma demarcação entre os comportamentos entre homens e mulheres, adultos e crianças. O espaço privado passa a ser entendido não como espaço de privacidade, mas como lugar de privação, onde deveriam ficar as mulheres e as crianças, resguardadas a imoralidade do espaço público.

Em contra-partida temos mulheres que fogem do ideal burguês e que cometem atos considerados violentos, em situações mais extremas, como o infanticídio. O infanticídio é motivado, em alguns casos, pelo desespero de jovens mães solteiras, que não conseguem enfrentar o olhar punitivo da família e da sociedade, abandonas pelo namorado ou noivo, levadas a tomar atitudes extremas e desesperadas, sob forte pressão social. Mulheres operárias, que precisam do salário para sobreviver ou mesmo moças de família, que não podem “desonrar” o nome e a tradição familiares.

Ontem, ao meio-dia, o Sr,. João dos Anjos, empregado dos Drs. Christovam de Andrade, Gama & Comp., morador da vagem, próxima à linha de Piau, saindo á procura de uma carneira que havia desapparecido há dois dias, encontrou no brejal uma caçamba velha e debaixo desta um embrulho de saccos também velho e por cima deles um tijolo. Causando-lhe especie o tal achado, o sr. Anjos tratou de verifica-lo . Desfazendo o embrulho, deparou-se estão com uma menina recém-nascida, que aquele sr. levou á suas casa, ligando a esposa desde o umbigo da infeliz criança. Isso feito, d. Jacintha, que assim se chama aquela senhora, correu a vizinhança a ver quem podia pertencer a recém-nascida, pois suspeitava fosso filha de Ricardina dos Santos, que havia dado luz horas antes.

Ricardina confessou ser sua filha a referida criança, acrescentando ser o pae da mesma, Francisco da Silva, morador em Benfica, e hora residente em Vargem Grande. Disse mais a desnaturada mulher que, com vergonha de sua mãe havia ocultado daquela forma a sua filhinha e que pretendia comunicar aquela o ocorrido.A desnaturada mãe pediu a João dos Anjos que não comunicasse o fato a polícia. A notícia, porém, chegou ao conhecimento do sr. delegado de policia que, comparecendo ao local interrogou a Ricardina e as testemunhas João dos Anjos e sua mulher, Leopoldo dos Anjos, Joaquim Pereira de Jesus e Virgilia de Tal, verificando aquella autoridade se tratar de um crime.

Foi nomeado escrivão ad-hoe o sr. Herculano Gonçalves da Silva, sendo convidados para peritos os Drs. Leocardio Chaves e Octaviano Costa. Interrogada habilmente pelo sr. delegado de policia, resolveu Ricardina dizer a verdade, confessando ser o pai da recém-nascida seu cunhado Martins Dias as Silva, casado com sua irmã Carlota, a quem até hoje entretivera relações.

Ricardina disse mais que, há cerca de 15 dias, ela e seu cunhado combinaram fazer desaparecer a criança pelo processo acima descrito, a fim de que o fato não chegasse ao conhecimento de sua irmã Carlota. Em seguida foi interrogado Martins Dias da Silva que caiu em fortes contradições.
Em vista dos depoimentos das testemunhas (...), o sr. delegado fez recolher Martins á cadeia.

_ O dr. Octaviano Costa procedeu a exame a recém-nascida, não encontrando nesta contusões ou ferimentos.
_ A inditosa criancinha ficou em poder de Inez dos Santos. Mãe de Ricardina, que regressou ontem a esta cidade, da viagem que fizera.
_ O estado de saúde da recém-nascida é satisfatório
.”
[16]


A mulher é vista como um ser inferior e perigoso Rachel Soihet, ao estudar a condição feninia e a violência entre as mulheres pobres do Rio de janeiro, depara-se com a intolerância ao sexo feminino, endossada pela ciência médica da época. A mulher normal é classificada como uma semicriminalóide inofensiva. Ela não tem amigos, portanto não comete delitos. As demais dividiam-se em:

a) criminosa nata, mulheres inteligentes e sensuais, consideradas as mais perigosas pois possuíam tendência natural ao mal;

b) as criminosas por ocasião, eram as mulheres perversas que possuíam vícios, mas também tinham algumas virtudes, como o pudor e a maternidade. - estranhamente, as mulheres que cometem o aborto são enquadradas dentro desta categoria;

c) as criminosas por paixão, premeditadoras e perversas, feralmente cometem crimes na juventude – as infanticidas estão neste grupo -, seus delitos são movidos pelo amor sexual (paixão).[17]

Crianças e mulheres, todos inseridos dentro do núcleo familiar, compartilha as aguras de uma sociedade dominada pelos homens adultos. Pobres ou ricos, eles desejam ter controle sobre aqueles que consideram – ou deseja que sejam – inferiores a ele. O controle social começava nas casas de família, se estendia para as áreas de lazer e para as ruas das cidades, onde crianças pobres desacompanhadas de adultos eram consideradas perigosas e mulheres simples do povo, criaturas sem moral. A civilidade pertencia à elite e ela não pretendia compartilhar com os menos favorecidos as vantagens da modernidade. Para ela, civilizar o povo era, acima de tudo, disciplina-lo, mostrando-lhe o seu lugar e o seu papel na sociedade.

Vitimas ora da caridade, ora da violência, mulheres e crianças foram aos poucos ocupando seu espaço dentro do mosaico social da república. A ampliação do ensino público, embora não tenha atendido a todos, foi uma conquista para as crianças, o reconhecimento do seu valor no trabalho – que ela conquista mais a cada ano -, ao voto e à representação política veio trazer à mulher possibilidades maiores de crescimento enquanto gênero e pessoa são elementos da história que vão sendo construídos a cada dia.


[1] Observa este autor ao realizar seu estudo, que muitas vezes opiniões de homens tidos como ilustres e sábios em dado estão em desacordo com outros dados e documentos do mesmo período, sendo elas por si só insuficientes para se compor um panorama geral, pois esses homens geralmente tendem a ver a sociedade da forma como gostariam que ela fosse (Ver: ÀRIES, Philippe. História social da criança e da família. /trad. Dora Flaksman/ 2. ed. Rio de Janeiro; Guanabara Koovam, 1981).
[2] KUHLMANN JR, Moysés, FERNANDES, Rogério. Sobre a História da Infância. In. FARIA FILHO, Luciano Mendes. A infância e sua educação – materiais, praticas e representações.- Belo Horizontes: Autêntica, 2004. p. 16-7.
[3] NARDELLI, Áurea. Uma família sem brasões - memórias.v.1, 2o. ed. Juiz de Fora: ESDEUA Empresa Gráfica Ltda. 1984.
[4] Os investimentos aplicados na carreira escolar dos filhos viriam integrar-se no sistema das estratégias de reprodução, estratégias mais ou menos compatíveis e mais ou menos rentáveis conforme o tipo de capital a transmitir, e pelas quais a geração esforça-se por transmitir à seguinte os privilégios que detém. (BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas - São Paulo; Perspectiva, S.A: 1992). O capital cultural não oferece garantias de ascensão social, mas representa uma possibilidade de melhor de vida ou de melhor gerir o patrimônio material ou imaterial da família.

[5] Moleques atrevidos. Jornal do Commercio. Juiz de Fora, 18 de janeiro, ano XIII, n. 3521, p. 02
[6] Mãe Cruel. Jornal do Commercio. Juiz de Fora, 20 de janeiro de 1900. n. 1053, p.01.
[7] Menor seviciada. Jornal do Commercio. Juiz de Fora, 16 de agosto de 1900, n. 1122, p. 01
[8] NAVA, Pedro. Balão Cativo: memórias/2 – 3ª ed. – Rio de Janeiro, José Olympio, 1977, p. 04 - 09
[9] NAVA, Pedro. Baú de Ossos. – 6ª ed – Rio de Janirio: Nova Fronteira, 1983, p 294
[10] De tendência Marxista, essa autora focaliza em particular o universo operário (urbano) e o conflito de classes, que vai do público ao privado. RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar: Brasil 1889-1930. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. Ver também, RAGO, Margareth. A sexualidade feminina entre o desejo e a norma moral sexual e cultura literária feminina no Brasil, 1900-1932. Revista Brasileira de História. São Paulo: v. 14, n.28, pp. 28-44, 1994.
[11] ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. /trad. Dora Flaksman/ 2. ed. Rio de Janeiro; Guanabara Koovam, 1981, 220
[12] VEIGA, Cynthia greive. A infância e a modernidade: ações, saberes e sujeitos. In. In. FARIA FILHO, Luciano Mendes. A infância e sua educação – materiais, praticas e representações.- Belo Horizontes: Autêntica, 2004, p. 69-70.
[13] ARAÚJO, Rosa Maria Barbosa de. A vocação do prazer: a cidade e a família no Rio de janeiro republicano. Rio de janeiro, Rocco. 1993, p. 48
[14] Jornal do Commercio. Juiz de Fora, 24 de agosto de 1900. n. 1123, p.01
[15] LEITE, Mirian Moreira. A condição feminina no Rio de Janeiro, século XIX. Antologia de textos de viajantes estrangeiros. – São Paulo: HUCITE; Ed. da USP, 1984, p. 56
[16] Tentativa de infanticídio. Jornal do Commercio. Juiz de Fora, 24 de janeiro de 1901 n. 1672, p. 01
[17] SOIHET, Rachel. Condição feminina e formas de violência: mulheres pobres e ordem urbana, 1890-1920 – Rio de Janeiros: Forense Universitária, 1989, p. 98-105

sábado, 29 de setembro de 2007

De arranjos matrimoniais a raptos: relações amorosas e, Juiz de Fora no final do século XIX

O texto abaixo é parte de uma comunicação apresentada no III Simpósio Nacional de História Cultural, em setembro de 2006. Apresenta dados sobre a pesquisa que fiz sobre família e relações amorosas, tendo como fontes biografias, memórias e periódicos.


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Tanto Pedro Nava quanto Áurea Nardelli destacam o uso do arranjo matrimonial entre as famílias mineiras, nos séculos XIX e XX. As mulheres, principalmente, eram utilizadas como “moeda” de troca, em acordos familiares. Segundo Pedro Nava, o casamento poderia ser realizado entre pessoas com comportamentos e gênios completamente opostos. Geralmente eram uniões seladas ora pelo julgo de um ou outro cônjuge. Mas havia casos em que os filhos desafiavam a vontade dos pais, como o caso de Regina, filha de Luiz da Cunha, bisavô de Nava, que planejou fugir com o primo Chico Horta, para casar-se, em 1858[1].


Em seu livro Mônica Ribeiro de Oliveira promoveu um estudo do comportamento e social da elite agrária em Juiz de Fora, Zona da Mata, num total de 85 matrimônios (entre os anos de 1840-1870) e destacou dois tipos de arranjos matrimonias: o consangüíneo e o que ela classifica como “aliança/afins/espiritual", onde se destacam as relações de reciprocidade[2].

Esta autora pôde avaliar a importância do casamento para estes grupos, que se preocupavam em preservar e ampliar seu patrimônio, garantindo sua posição social e ampliando seu poder político. Sobre os casamentos consangüíneos, a autora afirma que:

Esses casamentos, além de reforçarem o patrimônio da família e afastarem o “fantasma” da falência, permitiam a solidificação das relações, que não passavam somente por um contrato comercial entre devedor e seus credores, como um negócios de família, cuja fortuna e sangue não se dispersavam. Como os esposos, graças ao pátrio poder, possuíam a autoridade de chefes de família, administravam as heranças de suas esposas, possibilitando cada vez mais, o fortalecimento do patrimônio familiar”.[3]

Já nos casos de arranjos baseados entre alianças realizadas entre família importantes, temos as relações de reciprocidade sendo a maior motivação para o casamento. Segundo Oliveira, por esta prática, obtinha-se a consolidação e preservação do status social de grupos pertencentes à elite. Era uma forma de reprodução social, na qual bens materiais e simbólicos circulavam entre famílias importantes e garantiam a perpetuação de seu patrimônio político e social.

No caso das famílias mais simples, os arranjos matrimoniais eram menos ambiciosos, mas também podiam ser baseados em relações de reciprocidade. Os pais buscavam para suas filhas casamentos nos quais elas trariam para a família um bem, material ou imaterial, que representasse um investimento futuro no crescimento social e/ou econômico do grupo familiar. Daí podemos supor que o rompimento de arranjos ou quaisquer outros fatores que comprometia o futuro casamento de um moça representava forte golpe na organização familiar. Mas entre os pobres havia uma certa flexibilidade que permitia às moças buscar o sonho dourado da felicidade ao lado de seu amado[4].

O período em estudo representa um longo processo de transição de valores, que teve início nas primeiras décadas do século XIX. Essa transição apresenta especificidades e possui um alcance diferente para cada região do Brasil. Dentro de um mesmo Estado, as mudanças irão operar de forma diferente. O comportamento que Oliveira nos relata em sua obra é característico do início do século XIX, quando a homogamia regia as escolhas de parceiro e não se levantava a possibilidade do amor. Já no século XX, a escolha de um parceiro passa a ser, pelo menos na teoria, um tema livre e que tem como base o amor. A valorização do amor baseia-se na legitimidade que ele dá ao matrimônio e na estabilidade e permanência que ele adquire como construtor do espaço doméstico[5].

Os pais desejam traçar o caminho de seus filhos, principalmente de suas filhas, que, segundo as teorias da época, eram incapazes de gerir sua vida sem o auxílio de um homem. Por outro lado, há uma tendência cada vez maior em se romper com arranjos matrimoniais e desafiar a autoridade paterna, em defesa do ideal romântico do casamento por amor. Dentro deste raciocínio, vamos analisar os casos de rapto, nos quais moças rompem com a autoridade paterna e resolvem escolher seu próprio marido. Pelo discurso veiculado pelos jornais da época, podemos sentir o impacto desta prática “amorosa” entre os chefes de família – homens e mulheres.

O amor era a motivação para jovens adolescentes enfrentarem a tutela dos pais e tentar constituir uma nova família. No século XX, ele passa a ser considerado um elemento importante nas uniões matrimoniais. Embora ainda existisse uma forte presença do direito costumeiro, das tradições e a vontade dos chefes de família ainda representasse um obstáculo, cada vez mais jovens tentavam se libertar e fazer suas próprias escolhas. Em Juiz de Fora, foram notórios os casos de rapto noticiados pelos Jornal do Commercio entre os anos de 1900 a 1910.

Em geral, envolviam moças que, enamoradas por rapazes da vizinhança enfrentavam a vontade dos pais e fugiam. A maioria ia parar na delegacia, onde o delegado acalmava os pais e providenciava o casamento, para reparar o dano causado à moral da ofendida e à família. Peguemos como exemplo deste tipo de estratégia amorosa um texto relatando um caso de rapto, datado de 1904, publicado nas páginas do Jornal do Comércio, de Juiz de Fora.

Candido Aures Gomes é homem pacato e honesto que reside no lugar denominado Joazal, fazenda de Bello Monte. Corria-lhe favorável maré de felicidade: em casa havia pão e tranqüilidade de espírito. Momentos de amargura, se havia, desapareciam como que por encanto ao meigo olhar da idolatrada filha Vicentina Lima de Jesus - uma mocinha de 15 anos, despretensiosa e obediente -, alegria de seu lar, enfim.

Em meio de toda essa felicidade, começou a aparecer um ponto negro, ameaçador - cupido despedira a sua alfava envenenada - Vicencia amava... Mas esse amor alastrava, abria em seu inocente coração profundos sulcos - como um grande, trasbordante rio, corroendo o leito argiloso; os sentimentos de liberdade e gozo faziam-lhe pensar em outra existência mais suave, luminosa, em companhia de seu adorado...

E então, em seu celebro fulgurou uma idéia - fugir. Para leva-la a efeito não trepidou: Izabel Lima de Jesus, sua amiga intima, contava 14 primaveras e também já possuía o seu Romeu. Entre ambas foi combinado o plano de fuga, sendo o mesmo premeditado de tal foram e sob tão inviolável sigilo, que absolutamente nada desconfiaram seus progenitores.

Aproveitaram a noite de 23 para 24, louquinhas levaram a efeito a fuga, em companhia de venturosos amantes. Um rondante da linha de ferro os via passar, á uma hora da madrugada em busca de bonançoso recanto...

O pai e avô das raptadas profundamente amargurados oficiaram então ao sr. delegado o ocorrido e dando como causadores dessa desgraça os indivíduos Antônio José dos Santos (pernambucano) e José Leite, mineiro. Afim de serem presos os fugitivos já foram acertadas providências, não sendo de estranhar que hoje mesmo sejam capturados.
[6]

O texto começa ressaltando as qualidades do pai, chefe de família, honesto e trabalhador (não deixa faltar comida em casa) e dedicado à filha. Esta é representada como uma menina inocente, exemplar, que nunca – pelo que dá a entender o texto – teria dado motivos a seu pai para repreendê-la. Um modelo perfeito de noiva, que seria uma boa mãe e futura esposa. O surgimento de um namorado não aprovado pelo pai e o rapto, muito mais que a honra da família, impossibilitou a realização de um arranjo matrimonial que lhes trouxesse vantagens. As duas moças se tornaram uma “moeda” sem valor no mercado matrimonial e, caso não casassem com seus “raptores”, corriam o risco de viverem eternamente na dependência dos pais. O grande vilão do episódio teria sido o amor, que fez a filha enfrentar a autoridade do pai.

É interessante notar que, ao lado da amiga, Vicência planejara a fuga. As jovens não são elementos passivos do processo. Elas estão presentes deste o início. Mas, por serem moças de bem, não podem ser classificadas abertamente como elementos ativos no processo, pois isso macularia ainda mais a honra familiar. Os dois rapazes, que teriam que responder ao processo por rapto – que poderia ser arquivado ou interrompido caso a família das moças decidisse optar pelo casamento – levariam toda a culpa sozinhos, enquanto que para as moças restaria o olhar reprovador da sociedade, que as trataria como “material usado”. O texto, quase Shakesperiano, revela uma face oculta das famílias: o embate entre pais e filhos.

Em outro caso, tivemos a oportunidade de encontrar dois momentos de uma relação amorosa entre uma adolescente e um homem mais velho. Leopoldina Maria da Conceição denunciou à polícia um homem casado, Tancredo dos Santos, que estaria cortejando sua filha. Algum tempo depois, em outra nota, a mesma mulher retorna à delegacia, agora para denunciar o desaparecimento de sua filha, sob suspeita de rapto.

Tancredo do Santos, casado, é um malandro de força. Há dias, encontrando-se com Carmelita do Carmo, ela se enamorou. Daí em diante, não teve mais sossego. Ontem, Leopoldina Maria da Conceição, mãe de Carmelita, achou uma carta em que Tancredo convidava a sua filha para um passeio. Não concordando com isso, Leopoldina foi à polícia pedindo que esta chame às contas o Dom Juan.”[7]

Leopoldina Maria da Conceição, moradora à rua Moraes e Castro, queixou-se ontem à polícia de que sua filha Carmelita do Carmo de 16 anos, desapareceu desde anteontem a noite. Parece tratar-se de um rapto.”[8]

O rapto deve ser seguido de casamento, caso contrário a honra da mulher fica comprometida. Ele tornou-se uma prática comum no Brasil já no século XIX, quando os jornais já noticiavam casos de jovens casais que fugiam para se casar.[9] Uma moça vítima passiva ou não de rapto, caso não se casasse, passava a ocupar um outro status social. Mesmo que ela se tornasse uma mulher trabalhadora e pagasse suas dívidas, não seria mais qualificada como uma mulher séria, e, portanto, dificilmente conseguiria um bom casamento. Casar as filhas era a maior ambição dos pais e, como já vimos, poderia ser considerado um negócio lucrativo para a família.

Em alguns casos, o casamento era realizado na delegacia, onde ficava o autor do rapto. O rapaz ficava na delegacia, enquanto a moça era “depositada” na casa de algum parente ou amigo da família. A ação era planejada por ambos, que utilizavam dos diversos códigos disponíveis na época para se comunicarem – bilhetinhos, sinais, recados transmitidos por amigos. Se os encontros eram dificultados pela vigilância da sociedade, sempre havia outras formas de se estabelecer contatos, planejar fugas, etc.

Nem todos os casos de casais enamorados terminaram em rapto seguido de casamento. Algumas moças não recebiam permissão dos pais para casar, nem mesmo após terem fugido, e, em outros casos, quando a moça aceitava a decisão do pai e terminava uma relação amorosa, o resultado poderis ser trágico, terminando até mesmo em morte.[10]

Nardelli nos relata o caso dos próprios pais, cujo casamento foi realizado quase que contra a vontade da família da mãe. O namoro do dois era vigiado: eles nunca ficavam sozinhos. Ela tinha 15 anos e ele, 26 quando ficaram noivos. O pai de Angelina não aceitava o namoro, mas não pôde impedir o casamento: casaram-se: ela com 16 e ele com 27. Apesar da rigidez do avô, a mãe de Nardelli consegui casar-se com o homem que havia escolhido[11]. Talvez a ameaça de rapto ou mesmo sua suspeita permitisse aos casais conseguir autorização para o casamento, sem ter que chegar a extremos. O casamento por opção não era inexistente. Muito pelo contrário, ele podia ocorrer em diversas circunstâncias, mas podia ser dificultado entre as famílias abastardas, nas quais a prática de alianças e casamento consangüíneo colocavam os interesses econômicos do grupo acima das escolhas individuais.

A análise dos casos de rapto também reflete a função civilizadora e vigilante dos jornais locais, que expõem a vida privada, especialmente das pessoas que pertencem a grupos menos privilegiados. Misturam riso e dor, em artigos jornalísticos tendenciosos. Os raptos são um exemplo disso. Quando resultado de uma relação amorosa proibida, assumem um tom melodramático; quando revelam um comportamento imoral e criminoso, é descrito com revolta; em outros casos, com banalidade, chacota ou mesmo descaso, onde a violência contra a mulher – em geral de menor idade – interessa menos do que o ato em si, como podemos verificar através da leitura do relato feito em 1906, em que um homem rapta três menores:

Foi preso em Cataguases, deste estado, um indivíduo que raptou de uma só vez três menores... Três! A lavoura precisa de braços, pensou com certeza este mariola. Mas ... a polícia após embargos à ligeireza... Não estamos na Turquia, e não é licito ir assim com tanta sede ao pote.[12]

Em alguns casos, os fujões podiam ser vítimas de sua própria armadilha. Em mais de uma ocasião foi possível encontrar relatos de casais abordados por terceiros, agredidos e de moças que sofreram violência sexual ao fugirem de casa com seus namorados. Uma vez identificados os “fujões”, homens e mulheres mal intencionados se aproveitavam para fazer realmente um rapto. As meninas ficavam, desta forma, expostas a um risco maior, o castigo dos pais[13].

Referindo-se à civilidade dos homens e mulheres da sua época, Nava comenta que, por trás da capa de civilidade, havia algo de “chulo” entre os homens e mulheres de bem, que estavam dispostas a se meterem em brigas com vizinhos ou parentes, se fosse necessário. A civilidade terminava quando os interesses da família ou mesmo os interesses individuais estavam em jogo[14].

[1] NAVA, Pedro. Baú de Ossos. – 6ª ed – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p 121.
[2] OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Negócios de família:mercado, terra e poder na formação da cafeicultura mineira. 1780-1870. Bauru – SP: Edusc; Juiz de Fora, MG; FUNALFA, 2005.
[3] OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Op. Cit., p. 168-9.
[4] Sobre as relações amorosas e arranjos matrimonias no século XIX, Mary Del Priore escreve; “Carinho e amor são aspectos relevantes nos casamentos de pobres e libertos. Talvez por isso estas uniões não se desfizessem com facilidade. Os padrões de moralidade eram mais flexíveis e havia pouco a dividir ou a oferecer em um vida simples.” In: DEL PRIORE, Mary. História do Amor no Brasil. – São Paulo: Contexto, 2005, p. 159.
[5] TRIGO, Maria Helena Bueno. Amor e casamento no século XX. In. D´INCAO, Maria Helena (org.) Amor e família no Brasil – SP: Contexto, 1989, p. 88-90.
[6] Jornal do Commercio, Juiz de Fora, 02 de março de 1904, ano IX, n. 2325 p. 01
[7] Jornal do Commercio, Juiz de Fora, 07 de abril de 1910, ano XV, n. 4192, p. 01
[8] Jornal do Commercio. Juiz de Fora, 02 de fevereiro de 1911, ano XVI, p. 01.
[9] Segundo Mary Del Priori, Gilberto Freire afirma que os jornais do século XIX estavam cheios de notícias sobre o assunto e que o representava o desejo da mulher de sexo e de querer bem. DEL PRIORE, Op. Cit., p. 147
[10] Américo Mathias Alves Moreira, português, 24 anos, residia no Brasil, cerca de 2 anos cortejou a prima, Mathilde, 23 anos. No entanto, a família dela não aceitou o casamento, oferecendo a mão da filha para um jovem turco, João, de apenas 17 anos, comerciante. Américo jurou vingar-se. José de Paula ainda provocava o rival. Certo dia, foram os noivos e a mãe da noiva para Juiz de Fora fazer comparas para o enxoval e encontraram com Américo, que deu algumas bofetadas em João que sacou o revólver e o matou ali mesmo. Crime Passional em um trem da Central - Um assassino de 17 annos. Jornal do Commercio, 18 de julho de 1909, ano XIV, n. 3960, p.02
[11] NARDELLI, Áurea. Uma família sem brasões - memórias.v.1, 2o. ed. Juiz de Fora: ESDEUA Empresa Gráfica Ltda. 1984, p 30-2
[12] Jornal do Commercio, Juiz de Fora, 08 de maio de 1906, ano XI, n 2944, p. 02
[13] O Jornal do Comércio, relata o caso de dois casais que fugiram e foram abordados por um homem, que levou uma menor a força. (Jornal do Commercio. Juiz de Fora, 02 de julho de 1909, ano XIV, n 3946, p.01).
[14] NAVA, Pedro. Balão Cativo: memórias/2 – 3ª ed. – Rio de Janeiro, José Olympio, 1977, p. 69.

NOGUEIRA, Natania A. da Silva. A família mineira: impressões e narrativas (Juiz de Fora, 1850-1920). In: Anais do III Simpósio Nacional de História Cultural: mundos da Imagem – do texto ao visual. Florianópolis, UDSC, 2006. Anais eletrônicos.

sábado, 8 de setembro de 2007

Educação, História e Cultura no Brasil Colonial

Esta semana eu tive a oportunidade de participar do VII Encontro do Grupo de Pesquisa – DEHSCUBRA - Educação, História e Cultura no Brasil (1549-1759), nos dias 3 e 4 de setembro, realizado na UNIFAI – Centro Universitário Assunção, São Paulo. O objetivos do grupo, formado por pesquisadores de vários centros universitários dos Estados do RJ, MG, SP e PR, é de analisar a problemática que envolve a educação, a historia e a cultura no período colonial e fomentar os estudos do primeiro período colonial, marcado no Brasil pela presença jesuítica.

Os encontros do grupo acontecem anualmente e são dividios em duas partes: na primeira, pesquisadores da área são convidados a partilhar com o grupo suas experiências e resultados de pesquisa; na segunda, o grupo se reúne para traçar metas e debater resultados sobre pesquisas realizadas por seus membros efeitivos, procurando sempre melhores caminhos para o desenvolvimento de suas atividades.

Neste ano, dois pesquisadores foram convidados. No dia 3 de setembro de 2007, a Prof(a). Ms. Teresa Cristina dos Santos deu a palestra inaugural com o tema A atuação dos jesuítas na Amazônia. Um trabalho maravilhoso, realizado com uma fonte documental muito rica: crônicas jesuítuicas que contém relatos sobre o funcionamento de reduções na região dos Maynas (Quito), envolvendo um enorme complexo missionário sob controle da Companhia de Jesus. O trabalho resultou em sua dissertação de mestrado, em 2001, mas não se encerrou com ela. A pesquisadora pertence a um grupo que produz continuamente material sobre o tema.

Para o dia 4 de setembro, a palestra inicial foi proferida pelo Prof. Dr. Paulo José Carvalho da Silva (PUC-SP), que trabalha com História da Psicologia no Brasil Colonial. O tema da palestra foi Os jesuítas e a alma indígena, na qual o pesquisador analisa as patologias da alma e dor como formadoras da identidade dos jesuítas. Também uma apresentação muito interessante, oferecendo novas possibilidades de análise da ação deste grupo missionário no Brasil, durante o período colonial.

Os trabalhos foram encerrados com o lançamento oficial, entre os participantes, do livro Educação, História e Cultura no Brasil Colonial, contendo textos de vários pesquisadores do grupo. Uma obra muito rica em informações sobre um período ainda pouco estudado, resultado do trabalho desenvolvido durante os últimos sete anos pelo grupo de pesquisa. Eu adquiri o livro e estou apreciando muito sua leitura. Caso alguém se interesse pela obra, pode entrar em contato com o Prf. Dr. Célio Juvenal, pelo e-mail célio_costa@terra.com.br

O grupo, em breve, terá seu portal na internet, onde suas atividades e sua produção estarão disponíveis ao público interessado (professores, pesquisadores ou mesmo amantes da nossa história).

Embora eu não seja pesquisadora da área – nem sei se posso me considerar uma pesquisadora – gosto muito de participar dos encontros do grupo, nos quais sou muito bem acolhida, pois acho que o tema merece atenção. Durante a graduação e mesmo na minha pós-graduação a História do Brasil Colonial praticamente foi ignorada pelo programa, sendo ministrado um conteúdo quase simbólico, mais concentrado no século XVIII, na região das Minas Gerais.

Ocorre, infelizmente, uma preferência acadêmica pelos séculos XIX e XX. Embora eu tenha desenvolvidos meus trabalhos dentro deste período, motivada pela orientação regionalista do meu curso de especialização, acho esta realidade lamentável, pois a história de uma nação não se constrói privilegiando algumas partes e desprezando outras. Como professora de História eu devo estar preparada para guiar meus alunos na construção do conhecimento histórico sem discriminar períodos, rotulando-os como mais ou menos importantes. Fazendo esta divisão eu estaria reforçando uma idéia preconceituosa da história enquanto conteúdo e ciência.

domingo, 19 de agosto de 2007

Violência familiar na República (1894- 1926)

Este Texto foi originalmente apresentado como comunicação livre no XIX Encontro Nacional da ANPUH, Belo Horizonte, 1997. Foi meu primeiro trabalho sobre família. Em 1996, durante o encontro Regional da ANPUH, em Mariana eu assisti entusiasmada a uma apresentação da saudosa professora Eni Mesquida Sâmara sobre família e fiquei apaixonada pelo tema. Ele passou a ser um dos meus objetos de pesquisa e acabou me rendendo ótimas experiências nesta área e até uma publicação no exterior. Rever estes textos, dos mais antigos aos mais novos, é um exercício de auto-crítica, onde eu posso analisar o grau de amadurecimento que eu conquistei nesta última década. Não sei se este texto chegou a ser publicado nos anais, porque eu não os recebi. Coisas da ANPUH. Eu fiz algumas pequenas modificações, mas o conteúdo em si permaneceu o mesmo. Se alguém quiser comentar, eu agradeço muito.

Introdução

Do século XII ao século XVIII o sentido de família foi sendo construído. O casal na Idade Média não era exatamente aquele imaginado pelo amor cortês[1] e os membros de uma família eram agrupados a partir da necessidade de proteção, pela solidariedade entre membros de uma mesma linhagem. O sentimento de família como o conhecemos nasceu de fato entre os séculos XV e XVIII. A família passou a incorporar os ideais de uma sociedade e nela são depositados sonhos de uma ordem em ascensão. A família é o ideal a que todos deveriam aspirar. Tinha valor quase sagrado e era responsável pela harmonia social.

A história do cotidiano tem revelado a cada dia um novo detalhe sobre as relações familiares. Essas novas descobertas nos levam a indagar a respeito do sentido da família no Brasil. Com certeza, não mais é aquele que lhe deu Nestor Duarte ou Gilberto Freyre. Como gosta de ressaltar Foucault, ela pertence a um complexo sistema, onde as relações de poder são quase infinitas e se encontram em todas as instâncias. De fato, o que se sabe sobre a família hoje foge àquilo que foi por muito tempo divulgado e defendido a seu respeito.
Questionamos, até que ponto esse centro de virtudes, ao qual oradores, políticos, ergueram um símbolo de perfeição pode ter sua idoneidade reafirmada? Não foi a família, também, palco de conflitos de intrigas, onde pai, mãe e filhos se tornavam réus e vítimas de uma sociedade repressora?

Consideramos as duas últimas década do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, período fértil para se analisar a família no Brasil. Nesse recorte colocamo-nos diante de uma sociedade que pressente essa onda de transformações e encontra-se em constante conflito, colocando-se cada vez mais frente à frente o lícito e o ilícito.

A família e a violência
Relatos encontrados em periódicos, processos criminais e de separação, que tivemos a oportunidade de estudar nos últimos meses, revelam um ambiente familiar diferente daquele que nossos avós descreviam e que consta do universo fictício de muitos livros e romances publicados até meados do século XX. A violência residia dentro das famílias, afetando principalmente a mulher e os filhos, não escolhendo classes social ou nível de instrução. Essa violência, reporta-se a gestos, palavras e ações violentas que nos mostram um quadro obscuro de uma instituição social considerada básica. Casos como o ocorrido em Leopoldina, município da Zona da Mata, próximo de Juiz de Fora, onde Maria Amancia da Cunha foi assassinada pelo marido brutalmente, tendo sido estrangulada e seu corpo em seguida incendiado[2] ou mesmo o caso da inocente Sebastiana, de apenas 8 meses de idade, violada pelo vizinho na ausência da mãe,[3] são exemplos de desvios sociais resultantes talvez de uma formação familiar deficiente, melhor explicados pela psicologia ou pela psiquiatria.

Dentro do que nos interessa _ desavenças conjugais mais simples e comuns que não chegam ao extremo de um homicídio , selecionamos cinco processos de divórcio e desquite[4], dentro de 22 que foram estudados, para tentar traçar um perfil dos conflitos familiares em Juiz de Fora, no período que vai de 1894-1926.

O primeiro, é a respeito de um pedido de divórcio litigioso, cujo processo teve início no ano de 1895. A requerente foi Maria José Barbosa e o réu o Major Ludovino Martins Barbosa[5] (fazendeiro, dono de grandes extensões de terra e de muitos imóveis). A apelante alegava maus tratos e adultério do marido. Com relação aos maus tratos, acusava o marido de lhe fazer ofensas físicas e morais, sendo que a última, que teria ocasionado sua fuga de casa, foi feita na base do chicote. Acusava também o marido de possuir duas amantes. Tudo foi confirmado pelas testemunhas arroladas. A apelante ganhou o processo e a posse dos filhos menores, assim como a pensão alimentícia. Recebeu como sua parte na separação dos bens a quantia de 14:612$000. Em 30 de dezembro de 1900 foi concluído o processo e efetuado o divórcio.

O segundo, também envolveu uma família rica. Mariana Cândida de Almeida pediu divórcio de Benjamim José do Nascimento Pereira,[6] no ano de 1894. O marido recusou-se a cooperar com o processo, negando-se a fazer o inventário de seus bens. Conforme regia a lei, seus bens poderiam ser confiscados. A autuação começou em 1894. Os conjures casaram-se em 24 de dezembro de 1885. A requerente reclamava dos maus tratos que sofria nas mãos do marido. Ele chegava ao ponto de machucá-la. Além disso, havia também o agravante dele ser adúltero e forçá-la a manter relações sexuais contra sua vontade. Freqüentava, aos domingos, os pagodes e casas de jogos, de onde retornava só na segunda-feira. As testemunhas arroladas pelo advogado da suplicante confirmam as acusações de maus tratos, que ela teria recebido por parte do marido, e também, confirmam seus maus hábitos. A carta precatória saiu em 1896 e o processo foi encerrado.

O terceiro processo envolve não apenas maus tratos entre os conjures, mas também se estende para os filhos. A requerente é Maria Brigida Balbina Palmeirão e o réu é Manuel dos Santos Palmeirão.[7] O processo teve início em 1923. O casamento ocorreu em 06 de fevereiro de 1904, ele comerciante com 26 anos de idade, ela com 17 anos de idade. A requerente pediu separação do marido tendo como razões, dentre outras coisas o fato do marido viver maritalmente com outra mulher em Juiz de Fora e de ser vítima de injúrias e a espancamento quando ele aparecia em casa. Consta dos autos que o oficial de justiça teve dificuldades em autuar o réu, que estava se escondendo da justiça. O casal possuía 4 filhos: Maria Augusta (18 anos); Cacilda (17 anos); Augusto Cesar (15 anos, estudante da Academia de Comércio); e Adélia (15 anos, estudante na escola Stella Matutina). Avaliava os bens imóveis do marido em cerca de l00 contos de réis.

Nota-se nesse processo um grande número de testemunhas arroladas, a maioria tendo depoimentos extensos a cerca da vida do casal. Destacamos a 9a. testemunha da requerente: Aldhemar Ferreira Leite, 18 anos, analfabeto. Confirmou que o réu tinha uma amante e que ela era teúda e manteúda e que sabia disso porque a dita senhora era sua irmã. Contou que ela vivia honestamente com seu marido até que, a cerca de um ano atrás teria sido seduzida pelo réu, abandonando seu lar legítimo e forçando seu marido, por desgosto de saber da traição, a mudar-se para Petrópolis. Acrescentou que, a 3 meses aproximadamente, havia convencido a irmã a voltar atrás e se reconciliar com o marido, Oscar Ferreira Mattos, indo morar com ele em Petrópolis. No dia do embarque para a dita cidade. O réu teria aparecido na estação ferroviária e, com posse de um revolver, ameaçado de morte a amante, caso ela resolvesse abandoná-lo e ao irmão, caso insistisse em reconciliar o casal. Ele e a irmã foram socorridos por um grupo de senhores presentes naquele momento na estação. Para se defender, o depoente sacou um canivete. O episódio foi terminar na delegacia, onde o réu ameaçou o depoente com um processo criminal e convenceu a amante, dessa forma, a retornar com ele para sua companhia.

As testemunhas arroladas pela defesa procuraram confirmar as boas qualidades do réu e diziam ser a requerente geniosa. Negavam o fato do réu ter uma amante. Algumas delas até confirmaram depoimento do réu de que a esposa era alcoólatra, chegada a feitiçaria e freqüentadora de casas espíritas. A. Ayres, 24 anos, casado, comerciante, oriundo de Recife, alfabetizado, contou que ouviu dizer em seu estabelecimento comercial, onde a requerente freqüentava quase que diariamente, que ela fazia feitiços contra o marido.


Em seu depoimento final, a requerente chega a declarar que o réu não tinha idoneidade para ficar com a guarda dos filhos, pois que ele foi autor do defloramento das duas menores. Uma foi internada no Asilo João Emílio (segundo a requerente, como forma do pai se vingar pela filha não ter cedido aos caprichos dele), que a outra filha era casada com um indivíduo arranjado pelo réu. A requerente teve ganho de causa.

O quarto processo foi o que Maria Luiza de Fátima moveu contra seu marido Antônio Delgado Pinto,[8] em 1921. Motivo: agressão do marido, que interferiu quando a esposa repreendia as filhas, dando-lhe um soco nas costas e partindo, em seguida, para cima dela com um faca em punho, ficando ela ferida. Deu parte na polícia. Segundo a queixosa, não seria esta a primeira vez que isso acontecia. Após o exame de corpo delito, os quesitos legais foram preenchidos e constatada a agressão. Uma testemunha arrolada deu o seguinte depoimento: Pedro Ferreira de Carvalho, 45 anos, solteiro, lavrador, disse que o casal é irreconciliável, não podendo mais viverem juntos. A causa do desentendimento seria o fato da requerente freqüentar culto metodista. A cerca de um ano ela se queixava do fato de receber ofensas físicas por parte do marido. A requerente ganhou a ação.

O último processo que temos a analisar não trata realmente de um caso apenas de violência física, mas de uma ação que uma menina moveu de nulidade de seu casamento, indo de encontro com a vontade de seus pais. Zulmira Berberick pediu em 1898 a nulidade de seu casamento com Henrique de La Pena Gusmão[9] (26 anos - professor). Segundo a requerente, ela foi forçada a uma casamento que não queria, e que hoje vive infeliz ao lado de um homem com o qual não tem bom relacionamento, por incompatibilidade absoluta de gênios. Ela diz ter abandonado o lar conjugal após ser agredida pelo marido. O casamento teria ocorrido em 15 de julho de 1897. Casamento feito sob contrato e em comum acordo entre o noivo e os pais da noiva. No entanto, ela nasceu em 27 de dezembro de 1883, não tendo, portanto a idade exigida por lei para que se casasse com o rapaz, que seria de 14 anos. Os pais, querendo o casamento dela, pediram uma certidão de nascimento onde ela aparecia 1 ano mais velha (fato favorecido por não haver mais Livro de Batismo na Matriz), ficando ela com idade para entrar com o pedido de casamento. Seus pais enganaram o padre, que agiu de boa fé. Tendo ela se casado quando era de menor, foi amparada pela lei, que concede a anulação do casamento de memores até seis meses após completar 14 anos.

Da analise desses cinco casos pudemos chegar a algumas conclusões. A primeira é em relação à condição social e financeira: a maioria dos casais possuíam uma boa ou até excelente situação financeira, sendo figuras conhecidas na sociedade local. Em outros caso, verificamos que nos processos que envolviam pessoas de camadas baixas a separação ocorria em acordo mútuo, sendo o número de litígios, nesse caso, menor. A segunda diz respeito à atitude das mulheres agredidas com relação a seus maridos. Peguemos como exemplo o último caso: a princípio pareceria improcedente que uma adolescente de 14 anos, na virada do século XIX, orientada por um adulto dê início a uma processo de anulação denunciando seus próprios pais por terem fraudado a documentação para o casamento. A mulher que se separa no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX é uma mulher que embora não seja emancipada não está em acordo com o tratamento que recebe do marido. Ela exige respeito e rompe com uma relação conjugal que em muitos casos estudados já possuí mais de 10 anos. Ela prefere o estigma de ser divorciada ou separado do que permanecer ao lado de um homem que maltrata a ela e a seus filhos

Em terceiro, pudemos constatar que muitos maridos colocavam a culpa do fracasso de seu casamento na esposa. Ela apanha por que é geniosa, gastadeira, porque não é boa dona de casa ou porque o marido desaprova sua religião. O homem não assumia seus erros, pois o chefe da casa nunca podia estar errado. Não que que a maioria das esposas fossem santas: também elas se mostravam em muitos casos intolerantes e agressivas. Os filhos sofriam com a agressividade dos pais, que pregavam uma moral que não tinham e chegavam a abusar deles. Se o homem está insatisfeito a culpa é da mulher que não soube satisfazê-lo.

Haja visto a carga de responsabilidades que o novo modelo de família e de homem colocou sob suas costas. Ele havia sido criado em um sistema diferente e teve de seu pai um exemplo diferente. A urbanização era um processo novo e a maioria das pessoas haviam vivido na zona rural e pertencido a uma família que, se não era patriarcal, possuía ainda resíduos daquele modelo. Colocaríamos, portanto, o homem da virada do século como um homem em transição. Sua esposa já não é tão dócil quanto sua mãe o era: ela cobra seus deveres como homem e como marido. Sua própria inserção na sociedade estava mudando. Ela não aceita tão pacatamente o adultério do marido e nisso é apoiado pela ideologia sanitarista que os médicos brasileiros colocavam em prática no início do século, a exemplo do que vinha sendo feito na França.[10]

Conclusão
Em um estudo recente, Roger Langley e Richard C. Levy[11]analisaram nos EUA vários casos de espancamento de mulheres e levantaram vários motivos para a permanência desse problema dentro do núcleo conjugal. Muitos deles podem ser aplicados à mulher que viveu o clima de repressão masculina durante todo o século XX pois apesar das mudanças de mentalidade, muitos preconceitos encontram-se enraizados dentro da sociedade, no que tange as relações entre parceiros. A mulher que é espancada hoje, não difere muito da mulher maltratada da virada do século XIX para o XX, pois a culpa pelo fracasso da relação sempre há de recair sobre ela. O imaginário criado durante os últimos séculos leva a mulher a culpar-se por sua própria insatisfação, reforçando o mito da superioridade masculina.

A violência é uma das formas de imposição de poder mais comum e própria da natureza do homem. Ela é usada geralmente contra o mais fraco, ou seja, contra mulheres, crianças e velhos. Para muitos a violência é um fenômeno que se localiza nas ruas, fora do ambiente familiar. Na verdade, é nele onde ela começa a ser cultivada. Pessoas violentas provêm de famílias violentas, onde a criança é oprimia pelos pais e onde o marido bate ou ofende com gestos ou palavras a esposa.

As pressões diárias o stress da vida urbana e de se viver em um país periférico como o Brasil já são por si só fatores que contribuem para o desequilíbrio de muitos lares. No entanto, no início do século os indivíduos entraram em choque com algo ainda mais desarticulador: o decadência da família patriarcal e a ascensão do modelo burguês da família nuclear. A revisão dos papéis do homem e da mulher, embora tivesse sido um processo inevitável, rompeu com uma antiga relação de poder que teve que ser estabelecida em outros níveis. O controle que o homem tinha sobre sua esposa e suas filhas já não mais o mesmo. O século XX cria o marginal, o homem pobre que trabalha na manufaturas, e estende a promiscuidade para a mulher que trabalha fora, comparada e classificada juntamente com as prostitutas.[12] O Estado passa a intervir na família através da medicina e da psiquiatria. Os sanitaristas encabeçaram esse movimento.

Seguindo este raciocínio talvez devêssemos analisar a violência familiar naquele período como um processo de reorganização dos papéis sociais, da redefinição das fronteiras familiares onde a participação de todos os membros é revista e reorganizada de acordo com os interesses da sociedade burguesa e republicana em formação.

É um momento de transformação das estruturas e relações de poder a nível individual e coletivo. A família não poderia ser colocada fora do processo. Sua intocabilidade é um mito que se opõe a todo um processo de revisão de valores que se inicia na célula familiar. É um paradoxo: a família que era símbolo de permanência (tradicional) dá espaço para a família dinâmica (moderna), simples em sua composição, sucessora de um modelo incompatível com a nova face do país, mas presa a costumes e hábitos que se chocam com as novas visões do mundo.

Notas[1] Amor cortês foi a primeira manifestação de amor delicado. Era dirigido à mulher casada, considerada inconquistável. Ele era um jugo educativo pois ensinava a servir, e servir era o dever de todo bom vassalo. “Assim como sustentava a moral do casamento, as regras do amor delicado vinham reforçar as regras da moral vassálica. Elas sustentariam, assim, na França, na segunda metade do século XII, o renascimento do Estado.” (DUBY, Georges. Idade Média, Idade dos homens: do amor e outros ensaios. /trad. Jonatas Batista Neto/São Paulo, Cia das Letras, 1989. p. 65)
[2] “Confessa-o o criminoso, que diz haver tido na noite de 17 do corrente forte discussão com a victima, acabando por garganteal-a covardemente, só deixando a indefesa e infeliz, depois d’ella haver exhalado o último suspiro nas mãos férreas do seu algoz” (Gazeta de Leopoldina. Barbaro crime. Leopoldina, 21 de ago. 1913, n. 105, anno XIX, p. 01.
[3] Arquivo Histórico da UFJF. Processo criminal - 1897, sem numeração.
[4] O divórcio, cuja significação difere da que possuí hoje, foi instituído no Brasil pelo Decreto 181 de 24 de janeiro de 1891 e reconhecido pela constituição em 1891, secularizando o casamento. Designava tão somente a separação de corpos e bens, concedida nos casos de: 1) adultério; 2) sevícia ou injúria grava; 3) abandono voluntário do domicílio conjugal por mais de 2 anos contínuos; 4) mútuo consentimento dos conjures, casados a mais de 2 anos. Não era permitido um segundo casamento. O desquite foi introduzido pelo Código Civil de 1916 e veio a substituir o divórcio, sem alterá-lo de forma significativa. (DICIONÁRIO de Ciências Sociais. Rio de Janeiro. Fundação Getúlio Vargas/MEC, 1988. pp. 366-7)
[5] Arquivo Histórico UFJF. Doc.: 326A01, 66C50, 369A15, 19A17 e 33A12. Assunto: Ação de divórcio
[6] Idem. Doc.: 13B13. Assunto: Ação de divórcio.
[7] Idem. Doc.: 82B38. Assunto: Ação de desquite
[8] Idem. Doc.: 71D60. Assunto: Ação de desquite.
[9] Idem. Doc.: 88A04 01. Assunto: Anulação de casamento.
[10] ARAÚJO, Rosa Maria Barbosa de. Op. cit. 1993.
[11] LANGLEY, Roger, LEVY, Richard C. Mulheres espancadas: fenômeno invisível. / trad. Cláudio Gomes Carina./ 2. ed. São Paulo; Ed. Hucitec: 1980
[12] Ver: RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar: Brasil 1889-1930. Op. cit. 1985.

sábado, 11 de agosto de 2007

A História no 1o ciclo:Instrumentalizando professores nos primeiros anos do Ensino Fundamental


O texto abaixo foi apressentado como comunicação na ANPUH de Belo Horizonte, em 2002. Foi uma das minhas primeiras tentativas de criar um projeto de integração na escola, através da parceria com professores dos primeiros anos do fundamental, ainda em regime de ciclo. Eu fiz nele algumas revisões mas não mudei muito o corpo do trabalho e espero que os colegas, amigos e leitores possam me ajudar apontado as virtudes e falhas do trabalho (ao lado, foto de alunos da escola e da professora Elizan, durante uma comemoração realizada em agosto de 2005_dia dos Pais).


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O profissional que trabalha com a história, seja ele professor, seja ele pesquisador, tem um compromisso com a construção da identidade da nação. Na prática, percebemos uma grande disparidade entre o que se produz e o que é ensinado nas nossas escolas. Apesar da introdução de um conteúdo mais atualizado, que incentive o debate e que apresente aos estudantes História como uma disciplina dinâmica e prazerosa, é preocupante a dificuldade cada vez maior dos jovens em assimilar conceitos básicos e de associar estes conceitos a fatos decorridos em tempo e espaço diferentes.

Caímos, então, em uma questão que se refere à aprendizagem desse aluno, que não desenvolveu satisfatoriamente habilidades para poder lidar com o conjunto de informações que recebe durante sua vida escolar. Partindo desta hipótese, e tendo como ponto de apoio a teoria da aprendizagem de Ausubel e de Vygotsky, resolvemos buscar a raiz desse problema na história ensinada nos primeiros anos de escolarização, no nosso caso no 1o Ciclo, onde a criança recebe e trabalha os primeiros conceitos. Buscando a melhor forma de desenvolver esses primeiros conceitos, estamos elaborando, em conjunto com professores do 1o Ciclo da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado, em Leopoldina (MG), um projeto que tem por objetivo identificar e diagnosticar dificuldades na aprendizagem dos alunos.

Esse trabalho, ainda em fase inicial de desenvolvimento, terá como ponto de partida o município, como vetor fundamental para a introdução dos primeiros conceitos históricos para os jovens estudantes. Através da história regional busca-se introduzir busca-se introduzir conceitos históricos básicos e amenizar, algumas das dificuldades apresentadas pelos alunos que são promovidos para o segundo ciclo do Ensino Fundamental e mesmo para o Ensino Médio. Ao mesmo tempo, estamos abrindo o diálogo entre professores de níveis diferentes que atuam no mesmo espaço escolar, ampliando desta forma a ação educadora dentro da própria escola.

Acredito na necessidade de se elaborar um conhecimento voltado para o ensino local, que pudesse ser adaptado ao currículo escolar, levando-se em conta dois fatores: a) as deficiências na formação do profissional, tendo em vista o fato de que o currículo do magistério prioriza a teoria em detrimento da prática; b) a ausência de uma metodologia (ou metodologias) específica para o ensino de História nas series iniciais do 1o ciclo, assim como a falta de conhecimentos específicos em relação à história local e mesmo, nacional. Além disto há também a questão do afastamento das escolas de Ensino Fundamental e Médio das universidades, não ocorrendo uma troca de conhecimentos teóricos e práticos dentro de uma proporção relativamente satisfatória.

Sabemos, no entanto, o quanto difícil é criar uma estrutura desenvolver na escola pública, projetos que envolvam professores de níveis diferentes, mas sabemos também que é necessário chamar para o diálogo todos os profissionais de ensino, sejam eles graduados ou não. Assim, em um segundo momento, buscamos estabelecer parceria com as professoras das séries iniciais do 1o ciclo essa troca mais direta de experiências.

Com a ajuda de professores e especialistas procuramos por idéias práticas e simples de se ensinar história adequando metodologias e buscando através do uso da história local injetar os conceitos de tempo, espaço e de organização social e entre as crianças. Através de um trabalho interdisciplinar. Os resultados iniciais deste esforço serão aqui expostos e avaliados, buscando-se entre os próprios professores aqueles instrumentos que tanto necessitam para efetuar sua tarefa como educadores.

Como trata-se de um trabalho voltado para o ensino de crianças ainda nos primeiros anos de escolaridade, optamos por estabelecer nossa base teórica em Vygotsky e Ausubel. Ambos estudaram o processo de formação de conceitos e de desenvolvimento da aprendizagem e, em alguns pontos sua teoria é muito parecida. Vygotsky, cuja teoria foi fortemente influenciada pelo marxismo, segue a linha sócio-interativa, onde o desenvolvimento do indivíduo é resultado de todo um processo sócio-histórico onde ele se relaciona com a coletividade interagindo com ela, e desta forma construindo seu conhecimento através de sua interação mediada por relações intra e interpessoais.[1]

Ausubel é cognitivista e interacionista. Para ele, a aprendizagem de certos conteúdos depende do desenvolvimento de estruturas mentais específicas. A aprendizagem pode ser mecânica, quando o conteúdo apreendido não é arquivado e organizado na memória e, portanto, é logo esquecido; ela pode ser significativa, quando esse conteúdo é assimilado e passa a fazer parte da estrutura cognitiva. O conhecimento significativo distingui-se do mecânico pelo fato de que ele possui um “significado” para o receptor, que o associa a conceitos pré-estabelecidos.[2]

Vygotsky vê o individuo como ser histórico e social. O meio em que vive influencia o processo de aprendizagem e determina os signos que irão se fazer presentes na vida deste indivíduo. Com que tipo de realidade estamos trabalhando, dentro deste projeto?
A Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado, onde este trabalho foi realizado, atende a uma numerosa clientela, envolvendo crianças residentes na zona urbana, assim como crianças da zona rural. Possui desde o pré-escolar até o Ensino Fundamental (ciclo avançado). Essas crianças em sua maioria pertencem a famílias carentes, onde não há muitas vezes condições mínimas de sobrevivência e para quem a escola é um recurso para tal, um lugar onde a criança encontra comida, roupas e mesmo carinho. A carência é maior entre as crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo.

Não poucas são ou foram vítimas de abusos por parte da família e possuem uma grande dificuldade de se relacionar com o grupo. As professoras são, na maioria dos casos, obrigadas a trabalhar o lado afetivo e psicológico em primeiro lugar, antes de dar início ao processo de alfabetização. Para atender às necessidades dessa clientela, há na escola uma supervisora, que assume também o trabalho de orientadora e uma enfermeira, que executa na verdade o trabalho de assistente social, procurando a família, encaminhando as crianças a médicos e aconselhando os pais, muitas vezes ultrapassando o que se exige de sua função.

Uma professora, ao debatermos sobre a possibilidade de executar esse projeto, chamou atenção para esse fator, indicando o livro didático de história e geografia[3], adotado pela escola e apontando para seus alunos, que no momento estavam concentrados executando uma atividade. “ Esta é a minha realidade, não é a realidade de quem escreveu esse livro!”. [4] A professora acrescentou, também o fato de que as crianças encontram-se em diferentes níveis de aprendizagem, e que para ela ainda não fui possível dar início ao estudo do conteúdo programático de história e geografia que está da seguinte forma delineado:

Unidade 1 – Você
Unidade 2 – As Famílias
Unidade 3 – Onde Moramos
Unidade 4 – A escola
Unidade 5 - As ruas
Unidade 6 – Os meios de transporte
Unidade 7 – Os meios de comunicação

A primeira dificuldade está no fato de que as crianças ainda não estão alfabetizadas. Elas têm dificuldades com leitura e o livro exige delas um conhecimento que elas não dominam. Entra também aqui o aspecto social, pois a história nessa etapa trata da integração da criança ao meio e à sociedade onde vive. Esse meio, no entanto é extremamente excludente. As mesmas dificuldades apresentadas por essa professora se reproduzem nas outras etapas do ciclo.

Para tentar superar uma parte delas, resolveu-se desenvolver um trabalho de ensino voltado à História Local. A valorização de aspectos relacionados à realidade do aluno e, por sua vez, à uma educação voltada à valorização da memória local e do patrimônio histórico é um recurso do qual desejamos apropriar para tentar alcançar a aprendizagem significativa, tão valorizada por Ausubel, e que se ancora em conceitos relevantes (conceitos que o aluno assimila e que se relacionam a coisas importantes para ele no seu cotidiano).

Na fase em que nos encontramos, estamos debatendo e analisando as melhores alternativas para trabalhar o tema “história local” na sala de aula, em cad etapa do ciclo. As reuniões com as professoras estão correndo mensalmente, devido ao pouco tempo que elas desce e das obrigações que possuem fora da escola – todas são casadas. No segundo semestre de 2002 (agosto) iremos dar início a uma ação mais direta, unindo teoria e prática. O papel do professor de historia, aqui, é o de orientador. Ele fornece ao professor das primeiras séries as informações que ele necessita para elaborar suas aulas. Ao mesmo tempo, ocorre um rico intercâmbio entre ambos, uma vez que professores que trabalham com crianças menores são capazes de desenvolver trabalhos de uma riqueza sem par. São criativos e possuem uma desenvoltura espetacular, que rompe com o academicismo que em muitos casos impede o professor de alcançar o aluno.

A assimilação de conceitos e elaboração de idéias, vinculadas à realidade do estudante, motivam e facilitam o processo de aprendizagem. A escola, ao promover a interação entre história, realidade social e patrimônio cultural colabora para que a comunidade possa a descobrir o significado da memória. O professor e a escola pública, excepcionalmente do Ensino Fundamental são o canais através dos quais esse diálogo e essa descoberta devem se processar.

[1] Para Vygotsky, as relações entre o homem e o mundo são mediadas por signos (elementos que reapresentam ou expressam outros objetos, eventos e situações) e instrumentos (elementos externos ao indivíduo, voltados para fora dele, cuja função é provocar mudanças mos objetos, controlar os processos da natureza). O signo é uma marca externa que auxilia o homem em tarefas que exigem memória ou atenção. A memória mediada por signos é mais poderosa que a memória não mediada – o sistema de signos é uma espécie de código para decifração do mundo. Vygotsky foi influenciado pelas idéias marxistas, especialmente pelo materialismo histórico. OLIVEIRA, Marta Kohl, Vygostsky e o processo de formação de conceitos. In_ Piaget, Vygotsky e Wallon – Teorias Psicogenéticas em discussão. Summus Editorial, 1992
[2] Para que esta aprendizagem ocorra é necessário que os conceitos relevantes e inclusivos estejam adequadamente claros e disponíveis na estrutura cognitiva do indivíduo, funcionando como pontos de ancoragem chamados de subsunçores, para as novas idéias e conceitos, que interagem com conceitos relevantes e inclusivos, sendo eles assimilados. Aquilo que a criança já sabe deve ajuda-la a assimilar novos conceitos, portanto, deve-se explorar a experiência pessoal de cada uma delas, ponto em torno do qual deve orbitar o processo de ensino-aprendizagem. BALDISSERA, José Alberto. O livro didático de história: uma visão crítica. 4a Edição. Ver. _ Porto Alegre. Evangraf, 1994.
[3] o citado livro é: LUCCI, Ellan Atabi. Viver e aprender:história /geografia. 1a série _ 2a ed. – são Paulo: saraiva, 2000.
[4] a professora Sheyla Fontes (31) é formada em pedagogia e trabalha com alfabetização de crianças no turno vespertino da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado.